Liderança singular na escola plural: as culturas da escola perante o processo
de avaliação externa
Introdução
Nas últimas duas décadas, o modelo de gestão escolar constituiu uma das trave-
mestras das reformas educativas, a par do desenvolvimento de modelos de
avaliação (das escolas, dos professores, dos alunos), ambas as preocupações,
aliás, profundamente articuladas com o paradigma de gestão neoliberal que tem
marcado, nos últimos anos, a agenda educativa. Surge com evidência nos
discursos políticos e nos meios de comunicação social a ideia de que os
problemas educacionais, resultantes da tão propalada crise da escola, se podem
resolver ou minimizar por via da implementação de um modelo eficaz de gestão
escolar. Ensaiaram-se figurinos vários em substituição dos Conselhos Diretivos,
órgão colegial instituído desde 1975, cujas mudanças de designação (Diretor
Executivo, em 1991; Conselho Executivo em 1998; Diretor em 2008), foram
acompanhadas por alterações na sua composição, competências e modos de
funcionamento. Em todos estes regimes de governo, com a exceção do último
instituído pelo Decreto-Lei nº 75/2008, de 22 de abril, a colegialidade da
gestão baseada em equipas democraticamente eleitas constituiu um princípio
estruturante do modelo de "gestão democrática" que vigorou por mais
de três décadas. De feição marcadamente unipessoal, o atual modelo centrado na
figura do Diretor veio instituir novas dinâmicas de gestão, impulsionadas
igualmente por novas lógicas de regulação da educação em curso na sociedade
portuguesa.
A compreensão dos processos de governação da escola e dos seus efeitos no
quotidiano das organizações requer uma abordagem contextualizada da ação dos
líderes no quadro mais vasto de pressões e constrangimentos que regulam a vida
das instituições educativas. Elegemos neste texto, a exploração de um dos
dispositivos mais influentes no condicionamento da atuação dos líderes
escolares, apesar da sua subtileza e invisibilidade mediática (Abrantes, 2010)
- a Avaliação Externa das Escolas. A implementação progressiva do modelo de
avaliação externa a todas as escolas e agrupamentos escolares do país, tem
gerado fenómenos relevantes de apropriação do processo por parte dos atores
escolares. Alguns destes efeitos podem ser deduzidos da análise dos Relatórios
de Avaliação Externa, na medida em que aí se consubstanciam modelos implícitos
de escola que funcionam, sobretudo para os líderes escolares, como um paradigma
normativo regulador da ação. A disseminação de padrões ideal-típicos de
liderança, de organização pedagógica, de organização e gestão escolar, tem
contribuído para mascarar as diferenciações culturais coexistentes nas escolas,
tornando-as o mais semelhantes possível à cultura escolar que se pretende
instituir à escala nacional.
Começamos por esclarecer os não-objetivos deste texto: não se pretende efetuar
uma avaliação da avaliação externa, nem tão pouco questionar a validade dos
fundamentos do modelo avaliativo em curso; o foco da abordagem dirige-se
fundamentalmente para a análise dos efeitos que este modelo exerce, de forma
quase sempre dissimulada, sobre o condicionamento das práticas escolares. Deste
ponto de vista, interessa apreender, num primeiro momento, os traços que têm
vindo a institucionalizar um perfil-ideal de liderança escolar para, de
seguida, interrogar o papel da liderança unipessoal como veículo de expressão
de uma cultura escolarque se pretende reproduzir e sedimentar nos mais diversos
universos simbólico-ideológicos das escolas. Por outras palavras, de que modo o
rosto(Diretor) poderá exercer um efeito homogeneizador, marcando quadros de
interação e lógicas de organização, sobre o quodiano das escolas?1
1. A cultura da escola a três tempos
A problemática da cultura organizacional em contexto escolar constitui na
atualidade um eixo de investigação fundamental. O desenvolvimento e expansão de
âmbito internacional de que foi objeto nas últimas quatro décadas permitiu, por
um lado, abrir a problemática a uma grande variedade de perspetivas e enfoques
disciplinares e metodológicos e, por outro lado, consolidar uma base de
conhecimento sobre os processos de construção da cultura e seus impactos ao
nível do funcionamento das organizações. Da análise que efetuamos à literatura
internacional, foi possível identificar dois pólos de pesquisa distintos
presentes nas abordagens culturais das organizações (escolares e não
escolares): um primeiro de inspiração mais gerencialista, focado nas dimensões
integradoras e unificadoras da cultura e seu impacto na produção de resultados
aos mais diversos níveis (desde o nível micro ao macro-organizacional); um
segundo pólo, de âmbito mais reflexivo e crítico, orientado para a compreensão
dos processos de construção do simbólico e para a identificação dos fatores
intervenientes no desenvolvimento da cultura das organizações. Se nas décadas
de oitenta e noventa do século XX era bem visível a distância que separava e
dicotomizava estes dois pólos de pesquisa, quer do ponto de vista do enfoque
epistemológico e teórico, quer ao nível das estratégias metodológicas, hoje,
aquelas fronteiras parecem ter-se esbatido. Paralelamente a este processo,
assistimos a uma certa banalização de conceitos estruturantes do campo das
organizações, apropriados (a)criticamente por agentes situados nos mais
diversos espaços profissionais. As designações cultura escolar e cultura
organizacionalescolarpassam a ser indistintamente utilizadas, como se se
tratassem de conceitos equivalentes e radicados em agendas teóricas
conciliáveis.
Por se revelarem conceitos centrais à análise e compreensão das dinâmicas
escolares, sinalizamos de seguida algumas das dimensões teóricas que
caracterizam e diferenciam a cultura escolar da cultura organizacional escolar.
Nesta sequência, propomos um novo patamar analítico que designamos de cultura
organizacional de escola, que contempla as dimensões mais profundas da vida
cultural de cada estabelecimento escolar. A delimitação analítica que propomos
inspira-se nas especificidades do campo educativo e das organizações escolares
e sustenta-se teoricamente numa abordagem sociológica das organizações
educativas2.
1.1. A cultura escolar
A natureza centralizadora da administração da educação, no caso português,
constitui uma dimensão histórico-cultural essencial à compreensão das dinâmicas
organizacionais das escolas. As orientações normativas difundidas pelos
organismos centrais e pericentrais configuram um quadro cultural orientador do
sistema escolar, traduzido em regras, valores, crenças e ideologias que se vão
institucionalizando ao longo das diferentes conjunturas históricas. A cultura
escolarrecobre justamente as dimensões culturais historicamente sedimentadas
nas organizações escolares, sob a forma de ritos, rituais e cerimónias
legimadoras da ação educativa, e por isso, relativamente comuns e
generalizáveis às diversas organizações escolares. Por exemplo, como bem
salienta Barroso (2005), uma das marcas mais distintivas da cultura escolar,
visível desde a génese da organização pedagógica da escola primária pública e,
mais tarde, dos liceus, é o princípio da homogeneidade assente na estrutura
nuclear da "classe" (grupo de alunos que recebiam simultâneamente o
mesmo ensino). Esta forma escolar que se manteve praticamente inalterada até à
atualidade, sedimentou no tempo padrões organizativos mais ou menos estáveis e
de sentido homegeneizador. Quanto mais acentuada for a tendência para a escola
concreta reproduzir a estrutura formal-legal e as dimensões simbólicas que ela
incorpora, maior será a sua aproximação à cultura escolar institucionalmente
difundida. Ao invocar as semelhanças culturais que perpassam nos mais diversos
contextos escolares, a noção de cultura escolarpode encerrar dois sentidos,
consoante o ângulo de análise se restrinja apenas ao sistema escolar ou o
extravaze, recaindo sobre todas as organizações sociais. O primeiro,
conceptualmente próximo das noções "cultura genérica" (Prosser,
1999, p. 8) e "cultura institucional" (Pérez Gómez, 1998, p. 127),
faz sobressair os aspetos culturais (normas, estruturas, rituais e tradições,
valores e ações) mais ou menos estabilizados (pela previsibilidade) que
atravessam holisticamente o sistema escolar. No segundo, a noção cultura
escolar, passa também a traduzir a especificidade cultural do sistema educativo
em contraponto com outras singularidades culturais constitutivas de outros
sistemas sociais, como por exemplo, o sistema de sáude, o sistema de justiça, o
sistema produtivo, entre outros.
1.2. A cultura organizacional escolar
Se bem que as organizações escolares reflitam, com maior ou menor intensidade,
os traços dominantes da cultura escolar, as dinâmicas quotidianas obedecem a
todo um trabalho de bricolagesócio-organizacional, que combina, numa disposição
original, elementos reproduzidos da ordem estrutural e elementos resultantes do
jogo social, da ação concreta vivida nos contextos de trabalho. A forma como
cada instituição interpreta, recontextualiza e operacionaliza localmente as
orientações centrais configura teoricamente a noção de cultura organizacional
escolar. Assim, enquanto a cultura escolar pressupõe uma relação de
continuidade entre as orientações normativas e culturais e os contextos de ação
concretos, a cultura organizacional escolar, remete-nos para a importância dos
contextos endógenos de ação no processo de construção da cultura
organizacional. Ambos os conceitos são constitutivos da realidade escolar,
estando intrinsecamente ligados: os contextos estruturais formalizados (cultura
escolar) são objeto de recriação quotidiana a partir da interação humana não
estruturada, desordenada, aleatória e fluida (cultura organizacional escolar).
Isto é:
[...] as regras formais, por mais maciças e impositivas que se
apresentem, só são culturalmente estruturantes e indutoras da
reprodução se a sua aplicação puder ser suspensa, modelada,
extravasada ou subvertida por um conjunto de práticas, de jogos
sociais que quotidianamente desafiam a ordem prescrita e
estabelecida. A apreensão das descontinuidades culturais entre estas
duas realidades paralelas, que ora geram estabilidades relativas ora
induzem novas instabilidades resultantes dos jogos sociais, permitem
perceber o complexo processo de construção da cultura organizacional
escolar. (Torres, 2011a, p. 145; itálico no original).
1.3. A cultura organizacional de escola
Do ponto de vista teórico-conceptual, a diferenciação que fomos estabelecendo
entre cultura escolar e cultura organizacional escolar revelou-se útil,
pertinente e operacional no plano da pesquisa empírica. As várias investigações
desenvolvidas numa escola secundária (Torres, 2004) permitiram dilucidar as
nuances entre aquelas duas realidades, mostrando as diferentes facetas da
cultura da instituição (mais escolar ou mais organizacional) consoante as
diferentes conjunturas sóciopolíticas e as circunstâncias locais da ação.
Todavia, o avanço da pesquisa empírica exigiu um aperfeiçoamento conceptual, a
consideração de uma terceira noção adjacente e sobreposta à de cultura
organizacional escolar, que desse conta dos fenómenos que se interpõem entre o
ator e o sistema - os valores, as práticas e crenças enraizadas nas
lógicas de ação coletivas e erigidas em modelo de ação, as manifestações
identitárias nascidas das esferas da informalidade. Esta terceira conceção que
designámos de cultura organizacional de escolacontempla "[...] as
especificidades culturais da escola que se desenvolvem e que se perpetuam no
tempo para além e através da cultura organizativa imposta ou recriada no
contexto escolar" (Torres, 2011a, p. 146).
Perante a atual conjuntura política, a noção de cultura organizacional de
escolaganha nova centralidade. O desenvolvimento de novas formas de regulação
da educação (Barroso, 2005, 2006; Teodoro & Aníbal, 2007; Teodoro, 2011),
expressas pela intensificação dos mecanismos de controlo sobre as escolas, pela
multiplicação das modalidades de prestação de contas e pela adoção de uma visão
gerencialista de autonomia limitada apenas às dimensões técnicas, desencadeou
nas periferias escolares, a construção de múltiplos dispositivos de adaptação
contextual. As pressões que se exercem sobre o sistema escolar, seja da parte
da administração central, seja da comunidade local, ao condicionarem as
dinâmicas de funcionamento dos estabelecimentos de ensino, abrem igualmente
possibilidades de "fuga", de clandestinidades várias, muitas vezes
fundadas no modus operandihistoricamente instituído em cada organização
escolar. São estes modos de ser e de fazercoletivamente construídos nas
escolas, que ultrapassam e estão para alémdas orientações normativas e
estruturais que nos permitem aceder à cultura organizacional de escola.
O novo modelo de governo das escolas públicas, assente em lideranças
unipessoais centradas na figura do Diretor de escola/agrupamento, tem vindo a
acentuar algumas tensões nas dinâmicas escolares. Ao erigir o Diretor como o
"rosto", o "primeiro responsável" pelo funcionamento da
instituição, pressionando-o à conformidade burocrático-política por via da
"prestação de contas", o paradigma de gestão imposto tende a
colidir com as lógicas pedagógicas, corporativas e profissionais
características do espaço escolar, fazendo emergir com mais força e
expressividade as singularidades de cada escola. De igual forma, a
implementação do programa de avaliação externa das escolas, sustentado num
determinado quadro de referência, arrasta consigo todo um processo de
uniformização da diversidade inerente às instituições escolares. O impacto
deste processo pode assumir várias formas, mais ou menos conflituosas, em
função das especificidades culturais das escolas. Todavia, vários estudos têm
demonstrado que as situações de adversidade e de choque cultural são
frequentemente impulsionadoras de movimentos de resistência e de solidificação
de ideários coletivos que tendem a funcionar como agência reguladora da ação. E
nestes casos, a categoria cultura organizacional de escola assume uma
pertinência ímpar na explicação tanto da eficácia como da falácia de algumas
tentativas de mudança normativa determinadas pelo poder político.
A consideração destes três patamares na abordagem cultural da escola (cultura
escolar, cultura organizacional escolar e cultura organizacional de escola)
aproxima-nos, do ponto de vista teórico-concetual, de um enfoque reflexivo e
crítico da cultura. Este posicionamento assenta nos seguintes pressupostos: i)
a cultura é um processo dinâmico resultante do jogo da interação social; ii) a
cultura desenvolve-se na longa duração, com particular incidência nos espaços-
tempos socialmente partilhados; iii) a cultura apresenta tanto regularidades
como descontinuidades; iv) a cultura resulta de uma multiplicidade de fatores
internos e e xternos à or ganização escolar.
Em síntese, a cultura organizacional da escola desenvolve-se no tempo, podendo
ser aferida por via dos costumes, dos hábitos, das rotinas e rituais enraizados
pelos atores no seu contexto de trabalho. Porém, tal não significa que estes
padrões comportamentais sejam consensuais ou mesmo pacíficos. Pelo contrário,
admitimos, na perspetiva de vários autores (cf. Frostet al., 1991; Martin,
2002), a coexistência no mesmo estabelecimento de ensino de pelo menos três
tipos de manifestação cultural: a integradora, quando o grau de partilha e de
identificação com a missão da organização é elevado; a diferenciadora, quando o
grau de partilha se confina ao grupo de referência, sendo previsível a eclosão
de diversas subculturas no mesmo contexto escolar; a fragmentadora, quando se
constata o grau mínimo de partilha cultural, em muitos casos circunscrita à
mera esfera individual. Sinalizado de forma esquemática, este posicionamento
teórico permite-nos apreender a natureza multifatorial da cultura em contexto
escolar e as suas relações não lineares com o novo modelo de governação da
escola.
2. Design da pesquisa empírica
Apesar de beneficiar de reflexões produzidas no âmbito de outras pesquisas em
curso, o foco deste artigo incide sobre a análise efetuada aos Relatórios de
Avaliação Externa das Escolas produzidos ao longo do primeiro ciclo avaliativo
(2006 e 2011)3. Na sequência de um primeiro trabalho desenvolvido sobre esta
matéria (cf. Torres & Palhares, 2009), voltamos a concentrar a nossa
atenção sobre estes dispositivos, ampliando agora o universo de Relatórios às
restantes fases do primeiro ciclo avaliativo. No final de seis anos de intensa
atividade avaliativa, atinge-se mais de um milhar de unidades de gestão
avaliadas (n = 1131) e contabilizam-se igual número de Relatórios reportados a
escolas e a agrupamentos de escolas. Considerando as especificidades políticas,
organizacionais e educativas inerentes a cada um dos contextos escolares
avaliados, optamos por circunscrever a análise ao universo de escolas não
agrupadas, excluindo deste estudo os dados relativos aos agrupamentos de
escolas. Ainda assim, debruçamo-nos sobre 335 Relatórios de Avaliação de
estabelecimentos de ensino não agrupados, na sua maioria escolas secundárias
(com ou sem o 3º ciclo do ensino básico) e, num número residual, escolas
artísticas e escolas profissionais. A estratégia de circunscrever o campo
empírico apenas a escolas não agrupadas revelou-se ajustada à nossa proposta
teórica, focada fundamentalmente na compreensão dos padrões de liderança
desenvolvidos no interior de estabelecimentos de ensino geograficamente não
dispersos por várias unidades.
Em termos metodológicos, recorreu-se à análise documental, articulando a
abordagem quantitativa das variáveis objetivas com um enfoque qualitativo-
interpretativo do conteúdo dos Relatórios. Apesar de se efetuar uma leitura
global de todos os relatórios-objeto, selecionou-se para análise mais
aprofundada apenas os domínios da "organização e gestão escolar" e
da "liderança". Num primeiro momento, os dados de caracterização
das escolas, bem como os resultados de avaliação obtidos nos diferentes
domínios, foram inseridos informaticamente no programa SPSS, com o objetivo de
identificar algumas regularidades estatísticas e de aferir a pertinência de
algumas correlações significativas entre variáveis. Num momento posterior,
procedeu-se à análise de conteúdo categorial dos domínios referidos, procurando
extrair dos textos os sentidos dominantes de excelência e de insuficiência no
campo da liderança e da organização escolar.
3. Caracterização sócio-organizacional dos estabelecimentos não agrupados
Integraram o corpus empírico deste trabalho 335 Relatórios de Avaliação Externa
de Escolas reportados por diferentes regiões do país, com prevalência para as
regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte (cf. quadro_1), congregando as
respetivas Direções Regionais (DREN e DREL) mais de dois terços das escolas
avaliadas.
Em termos temporais e de conjuntura organizacional, o gráfico_1 mostra-nos que
o programa de avaliação incidiu sobre os dois últimos modelos de gestão
escolar: cerca de 50% das escolas foram avaliadas durante a vigência do regime
de autonomia, administração e gestão das escolas instituído pelo Decreto-Lei nº
115-A/98, de 4 de maio, e igual percentagem de escolas foi avaliada já no
período de implementação do modelo unipes soal de gestão.
A grande maioria das escolas não agrupadas apresenta a configuração de escola
secundária com 3.º ciclo ou de escola básica do 3.º ciclo com secundário
(59,4%), sendo que apenas 40,6% daquele universo corresponde à tipologia de
escola secundária. Quanto à identidade fundacional da instituição, constatamos
uma realidade escolar diversificada, com a presença de escolas recentes,
construídas no pós-25 de Abril e vocacionadas para o ensino básico e secundário
(44,8%), mas também escolas mais antigas, herdeiras do ensino liceal (20,0%) e
do ensino técnico, industrial e comercial (27,2%). As escolas profissionais e
de natureza artística representam apenas 4,8% e 2,1%, respetivamente, do
universo de escolas estudadas (cf. quadro_2).
Em cerca de 20% dos relatórios não foi possível identificar a origem da escola,
todavia, conseguimos reduzir esta lacuna para um valor residual de 1,2%,
recorrendo à consulta desta informação diretamente nos portais das respetivas
escolas. No que se refere à dimensão das escolas, a amostra recobre uma
variedade de situações, muito embora prevaleçam as escolas de média e grande
dimensão, em número de alunos, professores e funcionários.
4. As escolas que temos ... na perspetiva da avaliação externa
O retrato final da avaliação das escolas não agrupadas representado no gráfico
2 traduz um panorama escolar globalmente positivo em todos os domínios, sendo
de destacar a avaliação mais positiva dos domínios da "liderança" e
da "organização e gestão escolar". À semelhança do que se fez no
Relatório Nacional de 2006-2007, da autoria da Inspeção-Geral da Educação, se
conjugarmos as classificações de Muito Bom e de Bom para os cinco domínios,
também aqui a "liderança" (90,4%) e a "organização e gestão
escolar" (91,0%) aparecem destacados. Sendo certo que os dados não deixam
qualquer dúvida a este propósito, interrogamo-nos sobre o sentido desta
tendência, precisamente numa altura em que a agenda política vem focando a sua
intervenção nos órgãos de governação da escola e, muito em particular, nos
processos de liderança.
Efetivamente, os resultados aferidos parecem não justificar a necessidade de
introduzir mudanças na estrutura organizativa da escola, muito menos amputar os
órgãos do seu ethosde gestão democrática instituído há mais de três décadas no
sistema público de ensino. Mas este divórcio entre os resultados do programa
avaliativo e a tomada de decisão política, mais do que confirmar a inoperância
do conhecimento produzido no apoio à decisão, reflete a crença de que todos os
problemas sócio-educacionais do país se resolvem com o recurso a uma gestão
mais profissional e a uma liderança mais eficaz. Interessa, portanto,
compreender e discutir o modelo implícito de "boa liderança" e de
"boa organização e gestão escolar" presente nos Relatórios de
Avaliação.
Entretanto, antes de avançar na identificação das dimensões mais valorizadas
nos domínios da "liderança" e da "organização e gestão
escolar", importa situar estes referenciais no contexto sócio-
organizacional mais amplo das escolas avaliadas. Por outras palavras, em que
tipo de escolas se encontram as melhores lideranças e as melhores formas de
organização e gestão?
Circunscrevendo a análise ao patamar cimeiro da classificação utilizada neste
primeiro ciclo (Muito Bom), desde logo porque veicula uma conceção ideal-típica
de escola, supostamente com níveis de desempenho consistentes e referenciáveis,
efetuamos um conjunto de cruzamentos estatísticos, na procura de tendências e
relações inerentes a este nível de classificação, de que destacamos a seguinte
síntese no que respeita ao domínio "organização e gestão escolar"
(cf. gráfico_3): as escolas avaliadas com Muito Bom estão localizadas na sua
grande maioria na região Norte e na área metropolitana de Lisboa e Vale do
Tejo, são organizações mais antigas, de grande dimensão, com rácios mais
elevados (alunos/professores e alunos/funcionários) e que apresentam uma oferta
que incide sobre o ensino básico e secundário.
Do ponto de vista da "liderança" voltamos a encontrar os mesmos
fatores condicionadores da classificação Muito Bom, com a exceção da
antiguidade da escola, que agora aparece em sentido inverso: as escolas mais
recentes tendem, na ótica dos avaliadores, a desenvolver uma melhor liderança
(cf. gráfico_4). O sentido desta constatação não deixa de ser pertinente,
sobretudo se tivermos em consideração as tendências observadas em diversos
estudos internacionais e que apontam numa direção oposta: as escolas mais
antigas e de pequena dimensão são aquelas que melhores condições sócio-
organizacionais apresentam para desenvolver uma gestão e liderança escolar mais
sustentável (Hargreaves e Fink, 2007) e de tipo comunitário (Sergiovanni,
2004), associada à produção de bons resultados escolares.
Igualmente curioso, registamos ao longo do processo avaliativo a atribuição da
uma percentagem constante de Muito Bomno domínio "liderança", com a
exceção da 4ª fase, ocorrida no ano letivo 2008/2009, justamente o período de
implementação do (novo) modelo de organização escolar instituído pelo Decreto-
Lei nº 75/2008 e, correlativamente ou não, a fase com menos atribuições de
Muito Bom no domínio "liderança".
5. Traços das escolas excelentes e das escolas insuficientes
Antes ainda de explorarmos o perfil ideal de "liderança" e de
"organização e gestão escolar", convém deter-nos brevemente sobre
os traços das escolas excelentese, em contraposição, das escolas insuficientes.
Para o feito, selecionamos do universo de escolas avaliadas, aquelas que
obtiveram a classificação máxima (Muito Boma todas os domínios) e a
classificação mínima (Insuficiente a pelo menos dois dos cinco domínios),
resultando deste exercício a identificação das cinco melhores e das cinco
piores escolas do país.
Ao focarmos a atenção nas características das escolas melhor classificadas (cf.
quadro_3), detetamos um cenário algo ambíguo do ponto de vista da matriz
identitária dos estabelecimentos: três escolas integram o 3º ciclo e o ensino
secundário e duas escolas apenas este último grau de escolaridade; a origem
organizacional das escolas é diversa (liceal, comercial e industrial,
preparatória e secundária), assim como o é a antiguidade dos estabelecimentos.
Já do ponto de vista da localização geográfica, as melhores escolas situam-se
todas em meio urbano e acima do Vale do Tejo. Vale a pena, entretanto, destacar
algumas dimensões mais identitárias destas escolas: oferta educativa reduzida,
estabelecimentos de grande dimensão em termos da população escolar e racios
professor-aluno e aluno-funcionário elevados, com registos acima de 7 e de 18,
respetivamente. Ou seja, volta a surgir como evidente a dimensão do
estabelecimento, associada a uma oferta pouco diversificada. Acresce ainda, do
ponto de vista sociocultural, o facto de estas escolas apresentarem um público
escolar relativamente homogéneo do ponto de vista económico e cultural, já que
as famílias dos alunos apresentam, na maioria dos casos, uma situação
profissional estável e um elevado grau de escolaridade, não obstante os dados
relativos ao apoio social parecerem contradizer este diagnóstico.
O perfil-tipo de escola excelente aqui esboçado não deixa de traduzir uma dupla
contradição. A primeira, relacionada com a missão da escola pública, denuncia a
opção destas instituições por uma vocação mais elitista, restrita a uma oferta
pouco diversificada, contrariando deste modo, as prioridades atuais da agenda
política. Mas esta redefinição local das prioridades não deixa de traduzir o
grau de autonomia relativa de que toda a escola dispõe, o que nestes casos em
concreto, se revelou fundamental para ajustar aos interesses e às expectativas
de um público escolar mais homogéneo do ponto de vista sócio-cultural. A
segunda contradição volta a incidir sobre a relação paradoxal entre dimensão da
escola e resultados de excelência, o que colide com as conclusões de algumas
investigações sobre esta temática.
O retrato das cinco escolas pior classificadas representado no quadro_4 revela
que os domínios considerados mais insuficentessão os da "liderança"
e da "organização e gestão escolar", justamente aqueles que
apresentam melhores resultados na globalidade das escolas avaliadas. Do ponto
de vista da identidade sócio-organizacional, estamos perante cinco casos muito
similares: em todas as escolas se ministra o ensino básico e o ensino
secundário, sendo a maioria dos estabelecimentos recentes (menos de 35 anos),
projetados nas décadas de 70 e 80 para o ensino secundário. Distribuídas pelo
território nacional (Norte, Centro, Alentejo e Lisboa e Vale do Tejo) e
inseridas em meios predominantemente rurais, estas instituições apresentam uma
significativa diversificação da sua oferta educativa, privilegiando um leque
variado de cursos de jovens e de adultos, incluindo a dinamização de Centros de
Novas Oportunidades. Não obstante agregar esta variedade formativa, a maioria
das escolas é de pequena dimensão e apresenta racios aluno-professor e aluno-
funcionário relativamente baixos, em comparação com as escolas melhor
classificadas. Também em contraste com as escolas de nível excelente, as
condições económicas e culturais das famílias dos alunos são relativamente
baixas e instáveis: índices significativos de desemprego, trabalhos precários e
mal remunerados e baixo nível de escolaridade. Perante este cenário, não deixa
de ser estranha a percentagem de alunos que aufere apoio social, situada
ligeiramente abaixo dos valores atribuídos aos alunos das escolas melhor
classificadas.
De feições claramente distintas, as caras das escolas excelentes e
insuficientesespelham alguns traços antinómicos que denunciam a controvérsia
que envolve a definição local da missão estratégica da escola. Se por um lado,
a administração central pressiona a instituição escolar no sentido da promoção
simultânea da excelência (escola de qualidade) e da inclusão social (escola
para todos), por outro, tal objetivo torna-se na prática de difícil
conciliação, fragilizando, em muitos casos, a avaliação global da escola
(Torres, 2011b). Com efeito, as escolas melhor classificadas do país, que se
encontram no top five, parecem ser aquelas que optaram pela garantia de um
ensino excelente, secundarizando a sua vocação democratizadora. Resta saber,
então, se a definição da missão da escola reflete mais as condições económico-
culturais do seu público ou se constitui uma opção estrategicamente pensada
para potenciar o rendimento académico de determinados grupos de alunos.
6. Perfil-ideal de líder escolar
A liderança nas escolas representa na atualidade uma das prioridades da agenda
da política educativa, tendo gerado uma onda de preocupações nos vários espaços
sócio-educativos: nos serviços desconcentrados do Ministério da Educação, nas
escolas e agrupamentos, nos sindicatos e associações profissionais, nas
famílias, nos diversos agentes da comunidade local, nos meios de comunicação
social e, por arrastamento, na comunidade académica das ciências sociais e da
educação. Assistiu-se, neste último contexto, ao ressurgimento do interesse
pelo tema, bem evidente no número de dissertações de mestrado e teses de
doutoramento já defendidas e em curso. Todavia, apesar da multiplicação dos
estudos ter animado o debate em torno das velhas tipologias da liderança, quase
sempre travestidas de novas designações, persiste no panorama sócio-educacional
uma conceção dominante de liderança, agarrada a uma visão mecanicista de
escola, herdeira dos modelos racionalistas da organização. Para além de nato, o
líder deverá, em termos de ideal-tipo, ser treinado (e.g. pós-graduado em
administração educacional) e ajustável aos múltiplos contextos em que está
inserido. Mas enquanto rosto da autoridade e ator-cimeiro da vida da escola, o
líder assumirá também funções de gestão e manipulação da cultura, no sentido de
garantir a mobilização coletiva convergente com a missão e visão instituída
centralmente para a escola.
Os quadros que a seguir apresentamos sintetizam as dimensões-chave mais
significativas de "boa liderança" (quadro_5) e de "boa
organização e gestão escolar" (quadro_6) identificadas nos Relatórios que
obtiveram a classificação de Muito Bom, bem como, a um nível mais minucioso de
análise, os vários indicadores que sustentaram este nível de classificação.
A primeira dedução genérica retirada desta análise aponta para a subordinação
do perfil de liderança às lógicas da prestação de contas e de responsabilização
(accountability) (cf. Afonso, 2009), bem como da racionalização dos recursos.
Pressionada à regulação dos resultados, a escola precisa, na ótica do quem
avalia, de um "líder forte", de um "rosto" que se
responsabilize pela implementação eficiente de um projeto educativo que se
pretende partilhado. Mas o significado de partilha é perspetivado mais como uma
técnica de gestão de afetos do que de um processo resultante da participação
democrática dos atores nas suas esferas significativas de ação. O que
efetivamente é valorizado pelas Equipas de Avaliação é o perfil de desempenho
da escola ao nível dos resultados, dependendo estes da eficiência com que os
atores operacionalizem, nas periferias escolares, uma tecno-estrutura imposta
por instâncias supraorganizacionais. Neste contexto, as organizações escolares,
situadas abaixo e forados centros de decisão, são conceptualizadas como
"escolas-reflexo" (Lima, 2008: 85) das orientações emanadas do
aparelho central, cuja missão primordial é maximizar a produção de resultados.
A focalização na figura do Presidente do Conselho Executivo e, a partir da 4ª
fase de avaliação, do Diretor, como referência para avaliar a liderança da
escola subentende claramente uma imagem de liderança individual, contrariando a
tradição das práticas de colegialidade culturalmente instituidas nas
organizações escolares. Valoriza-se primordialmente o domínio de ferramentas de
gestão que permitam a concretização das metas nas esferas do mercado
(angariação de verbas, projetos e parcerias; inovação tecnológica; oferta
educativa; indicadores de procura), do estado (eficiência dos processos e
eficácia dos resultados, com monotorização e avaliação; qualidade e excelência)
e da escola (cultura organizacional da escola) (cf. quadro_5). Transparece um
perfil de liderança de tipo gestionário, reverencial e recetivo, orientado mais
por uma lógica de prestação de contas (ao estado e ao mercado) do que por
princípios de desenvolvimento da cidadania democrática. Nesta lógica, as
dimensões culturais da escola assumem-se como técnicas de gestão facilitadoras
da concretização dos resultados, reforçando-se a crença culturalista de que o
empenhamento, o comprometimento, as tradições culturais promovem a eficácia e a
excelência escolar.
A imagem dominante de escola bem organizada e bem gerida presente no quadro_6
remete-nos novamente para as dimensões mensuráveis da educação, inspiradas nos
valores típicos da "cultura do novo capitalismo", sugestivamente
enunciados por Sennett (2006): a eficácia, a eficiência, a racionalização, a
flexibilidade, a rotatividade. Todavia, a hegemonia destes valores, expressos
nos relatórios numa linguagem economicista ("indicadores de
medida", "otimização de resultados", "gestão rigorosa
dos recursos humanos"), confronta-se com a apologia de outros princípios
de natureza distinta: equidade, justiça e participação. Mas se analisarmos os
significados atribuídos a estes princípios em função do contexto em que são
mobilizados, depressa confirmamos a sua aproximação à ideologia de tipo
gestionário. A participação dos atores na vida escolar é valorizada enquanto
instrumento indutor de consensos, de comunhão e convergência de objetivos e
interesses, enfim, de garantia de um clima e de uma cultura propícios à
concretização eficaz dos objetivos educacionais. Se, por vezes, em alguns
relatórios, parece desenhar-se uma conciliação entre os valores mais
instrumentais da gestão empresarial e os princípios mais substantivos de
natureza político-educativa, na maioria dos documentos analisados sobressai uma
imagem de escola de feição tecnoburocrática, que subordina os valores da
participação democrática aos imperativos do controlo e da medição de
resultados.
Conclusão
Confrontada com desafios cada vez mais complexos decorrentes da transformação
económico-social, política e cultural em curso, a escola pública tem vindo a
repercutir nos processos e atos educativos diversas e contraditórias tensões,
interesses, objetivos, quase sempre impostos pela ordem exterior. As diferentes
ordensque hoje atravessam e se cruzam no espaço escolar tornaram-na menos
linear do ponto de vista socioinstitucional, simultaneamente mais densa e
estereoscópicana sua configuração organizacional e mais contraditória na
realização da democratização. Paradoxalmente, perante a sofisticação sócio-
organizacional da escola responde-se politicamente com medidas de alcance
nivelador e universalizante, seja ao nível da estrutura de governação, seja no
plano da definição da missão da escola, ou ainda, no domínio da organização
pedagógica. Regista-se uma discrepância cada vez mais acentuada entre o
conhecimento científico produzido sobre a realidade escolar que ao longo dos
anos tem vindo a antecipar, problematizar e reunir visões diversas sobre as
dinâmicas plurais de funcionamento das escolas portuguesas e, por outro lado, o
sentido e a natureza das orientações políticas para a educação, designadamente
nos domínios da gestão e administração escolar.
Quando apresentamos pela primeira vez os resultados preliminares desta pesquisa
num evento científico ocorrido em janeiro de 2009 (cf. Torres & Palhares,
2009), várias foram as reações e perplexidades manifestadas pelo público
presente, que contava inclusive com um grupo de avaliadores externos.
Basicamente questionavam-se dois aspetos, na altura por nós enunciados como
"pontos de entrada" na problemática, mais tarde, formulados como
hipóteses teóricas metodicamente transpostas para o núcleo central das nossas
reflexões. A primeira "entrada" reportava às dimensões-chave do
perfil ideal de liderança, ainda não totalmente claro para a maior parte dos
atores educativos, se bem que alguns dos gestores escolares conseguissem já
corroborar algumas das facetas deste retrato-robot. A segunda
"entrada" referia-se à possibilidade deste modelo se transformar
num paradigma de referência, funcionando como uma matriz nortedora e reguladora
da ação dos líderes escolares. Esta tese de cariz eminentemente sociológica, a
exigir um olhar atento sobre a reflexividade da ação social e escolar,
defrontou-se, na altura, com uma recetividade algo resistente e desconfiada
advinda sobretudo de atores situados nos mais diversos patamares da
administração do sistema educativo.
Com o avançar desta e de outras pesquisas, entretanto multiplicadas à escala
nacional, não só os traços do líder ideal acima referidos foram adquirindo
consistência e espessura teórica e empírica, instituindo-se em sistemas de
verdade, como os seus efeitos começaram a tornar-se visíveis na dinâmica
quotidiana das escolas (cf., por exemplo, pesquisa desenvolvida por Veloso,
Abrantes & Craveiro, 2011). Basta constatarmos, durante os primeiros quatro
anos de avaliação (2006-2009), a centralidade conferida à atuação do Presidente
do Conselho Executivo no processo de liderança, antecipando já (e legitimando)
a implementação, em 2008, de lideranças unipessoais assumidas pelo Diretor de
escola. Não estranha, por isso, que perante a recente mudança dos órgãos de
governação das escolas e das relações de poder que naturalmente enformam os
processos de liderança, os referentes de avaliação nestes domínios específicos
se tenham mantido inalterados. Afinal de contas, o paradigma de one best
leadership já estava encontrado.
Numa altura em que tanto se fala, se escreve e se opina sobre a liderança,
importa perguntar até que ponto ela efetivamente existe para além da mera
reprodução das lógicas centrais? Mais, como gere o líder a pressão bipolar a
que é diariamente submetido, de um lado, a sua total dependência do centro a
quem deve prestar contas, de outro, a sua vinculação à identidade profissional
e organizacional da escola que representa? O paradigma de escola que emerge das
instâncias políticas de regulação poderá induzir o desenvolvimento de
lideranças cada vez mais desapossadas de sentido estratégico e político e,
neste senti-do, mais reprodutivas da cultura escolar centralmente difundida. E
ao contrário do que é proclamado, o que se avalia não é a escola, tão pouco a
sua cultura e identidade organizacional, mas antes a sua capacidade de exibir e
copiar o modelo escolar que se pretende difundir à escala nacional. Por isso,
na perspetiva da atual agenda política, faz todo o sentido eleger um líder
unipessoal que funcione como veículo de expressão da cultura escolar.