O Movimento das Histórias de Vida e a Educação de Adultos de Matriz Crítica:
ideias e conceitos em contexto
Introdução
O modelo escolar de educação segue pressupostos educativos que não foram
concebidos para levar em consideração a experiência de quem aprende.
Classicamente, este modelo e respetivo currículo assenta numa lógica de rutura
com a experiênciaque homogeneiza os conteúdos da educação, desvinculando o
conhecimento escolar do contexto social e cultural de quem aprende (Pacheco,
2011). Não iremos incorrer sobre os diversos momentos e aspetos da crítica que
esta lógica de trabalho educacional suscitou ao longo do tempo. Não obstante, é
importante reter no âmbito concreto das atividades e práticas educativas
desenvolvidas nas várias modalidades, ou níveis, da ação educativa realizada
com adultos, o essencial acerca da forma como se tem conceptualizado sobre a
aprendizagem nos adultos e acerca do conceito de aprendizagem experiencial,
porque assim se constata que têm existido duas formas alternativas à lógica
escolar, de encarar a complexa relação entre o contexto, o que se ensina e o
que se aprende. Historicamente, como contrapontos à lógica da mera aplicação,
de carácter totalitário e impositivo, de um currículo de conteúdos escolares e
formativos, irá surgir no campo das práticas não formais de EFA, a
contraposição entre o diagnóstico de necessidadese o reconhecimento dos
adquiridos. Esta problemática coloca no centro do debate a questão da adequação
contextualizada dos processos e ofertas de EFA, conferindo importância à
experiência de quem aprende, numa lógica inovadora de articulação com os
contextos em que se desenrola a vida do sujeito aprendente. O sujeito ganha,
pois, uma centralidade que não era possível no âmbito do paradigma escolar,
reequacionando-se, no debate, o papel e estatuto que os saberes prévios, a uma
dada situação de aprendizagem, têm na produção de novos conhecimentos. Ou seja,
tomam-se retrospetivamente os percursos realizados de maneira a identificar as
principais capacidades e saberes adquiridos, evitando o erro de pretender
ensinar conteúdos que as pessoas já dominam.
Esta abordagem teórico-pedagógica parte do pressuposto que as aprendizagens
experienciais resultantes do percurso de vida são tão ou mais decisivas para a
concretização de novas aprendizagens como as aprendizagens formais derivadas do
percurso escolar e traduzidas por um certificado. No entanto, a forma como se
trabalha com este material experiencial é substantivamente distinta quando se
está na ótica da conceção e prática que se estrutura a partir do levantamento
ou diagnóstico das necessidades, ou quando se está na ótica da conceção e
prática que se alicerça em torno da valorização ou reconhecimento de
adquiridos. Nas práticas de EFA convocam-se, em ambas as situações, os saberes
adquiridos experiencialmente, mas sob pressupostos teórico-conceptuais quase
antagónicos, na medida em que, num caso se adota uma lógica que procura
visibilizar sobretudo os défices e as lacunas que os sujeitos possuem, enquanto
no outro caso o que se procura é evidenciar o que já está presente, isto é, o
que o sujeito possui como aquisições.
O Diagnóstico das Necessidades e o Reconhecimento dos Adquiridos
No campo da EFA se o diagnóstico das necessidades de formação surge associado
ao mundo económico por via da formação profissional contínua de jovens e
adultos assente nos pressupostos teórico-conceptuais da teoria da formação dos
recursos humanos (predominando conceitos como: qualidade, eficácia e engenharia
da formação); já o reconhecimento dos adquiridos experienciais aparece
associado a dois contextos históricos particulares do pós-guerra, em que
pressões de grupos de interesses específicos garantiriam o reconhecimento das
experiências vividas fora do percurso escolar como forma de assegurar o acesso
ao ensino superior, quer por parte de grupos de soldados norte-americanos, quer
de grupos feministas canadianos.
Deste modo, nasce dois tipos de oferta formativa para adultos que, na sua
origem, advogam visões distintas em termos da conceção dos sujeitos e dos
procedimentos pedagógicos a adotar para tomar em linha de conta a experiência
prévia de quem aprende. Predominando, num caso, a metodologia da análise de
necessidadese, no outro caso, a metodologia do balanço de competências. Ambos
sofreram, desde a origem, diversos processos de expansão e adaptação a
contextos variados. Neste texto, consideraremos apenas as dificuldades e
ambiguidades que têm sido apontadas à prática de organizar a oferta formativa
para jovens e adultos a partir das necessidades previamente identificadas,
mediante mecanismos de avaliação e quantificação, que pressupõem a produção de
efeitos observáveis pretensamente capazes de orientar a construção de programas
de formação contínua mais próximos das necessidades dos indivíduos.
Acerca da análise de necessidades, em que se alicerça a abordagem teórico-
pedagógica da formação profissional contínua, há a assinalar que os seus
pressupostos de base tendem a ignorar, quer o facto de existir uma
imprevisibilidade intrínseca aos resultados de qualquer ação formativa, quer a
impossibilidade de captar, através de inquéritos individuais que expressam os
pedidos de formação, a real inserção social dos atores nos contextos em que se
desenrolam as suas experiências e por conseguinte em que se evidenciam as suas
"lacunas" de formação. Trata-se, na maior parte dos casos, de uma
prática assente numa perspetiva instrumental e numa racionalidade técnica de
que resultam sobretudo ações de formação de carácter pontual e de capacitação
individual elaboradas na base de necessidades que são, na verdade, mais o
resultado de uma construção social do que de uma real necessidade de formação,
na medida em que o próprio conceito de necessidade de formação é atravessado
por diversas ambiguidades que o tornam problemático, apesar de se manter em boa
medida ainda dominante (Barbier, 1988).
A controvérsia instalada no âmbito do debate que opõe o diagnóstico de
necessidades ao reconhecimento de adquiridos tem como eixo principal a ideia
que, no âmbito da prática do reconhecimento dos adquiridos se favorecem, como
principais recursos de uma prática formativa, a personalidade e a experiência
dos próprios sujeitos adultos. Ora, estes ao identificar os adquiridos
experienciais deverão ser capazes, ajudados por uma metodologia específica, de
reelaborar os seus saberes integrando-os e transferindo-os para situações e
contextos diversos nos quais se desenrola o processo de autoconstrução da
pessoa. A discussão advém da dificuldade de procurar operacionalizar uma
articulação entre experiência e reflexão, partindo de alguns dos pressupostos
do construtivismo piagetiano e do ciclo de aprendizagem (conceptualizado por
David Kolb).
Os pressupostos pedagógicos orientadores da ação educativa, particularmente na
modalidade da educação não formal de adultos, têm traduzido as dificuldades
inerentes à transição de uma lógica de rutura com a experiência dos sujeitos
para uma lógica de continuidade com a sua experiência anterior. Há hoje toda
uma revalorização epistemológica da experiência patente no corpus teórico do
campo, que tem vindo a contribuir para a construção de uma maior autonomia
teórica da educação de adultos. Destacando-se, de forma especial neste
contexto, a corrente das histórias de vida, entendidas como instrumentos de
investigação, de formação e de intervenção.
Com efeito, no panorama internacional da EFA a importância do movimento das
histórias de vidapara o debate que a problemática que opõe o diagnóstico de
necessidades ao reconhecimento de adquiridos suscita é fundamental, pelo que
procuraremos explicitar alguns pontos essenciais nesta matéria.
O Uso da Abordagem Biográfica e Histórias de Vida
O movimento das histórias de vida, que emerge no âmbito das ciências sociais e
humanas (CSH), expressa uma transição paradigmática já visível a nível
societal, como se percebe da análise do conjunto de transformações de natureza
social que afetaram a economia, o trabalho e a formação. Porém, não é
percetível ainda a nível epistemológico, embora existam formulações teóricas
recentes que apontam, como horizonte, a superação da hegemonia detida pelos
modelos de estruturação do pensamento elaborados no âmbito do paradigma
científico moderno. É o caso das novas formulações epistemológicas em torno do
conceito de complexidade (Morin, 1990), que fazem retornar para o centro do
olhar científico-filosófico toda uma série de conceptualizações em torno da
ideia de totalidade que o paradigma dominante remeteu ostensivamente para as
margens da ciência.
É cada vez mais visível o retorno do debate filosófico que problematiza a forma
como a ciência tem vindo a produzir conhecimento, em particular uma ciência
positivista responsável por uma euforia cientificista que, com base na noção de
lei, espartilhou o real operando segundo uma lógica dicotómica que, na produção
científica de conhecimento, tem optado por separar e dividir categorias como as
de objeto e sujeito, as de ciência e senso comum. Ora, em sentido contrário, a
reflexão filosófica desde finais do século XX tem procurado, ao invés,
complementar o conhecimento das coisas com o conhecimento do conhecimento das
coisas, isto é, com o conhecimento de nós próprios enquanto humanidade,
verificando-se que cada vez mais, na produção de conhecimento científico, a
noção de lei tem vindo a ser substituída pelas noções de sistema, de estrutura,
de modelo e, por último, pela noção mais elaborada de processo. Trata-se de um
debate no qual, como afirma Sousa Santos, tem vindo a crescer a consciência que
"o rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que
quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objetivar os
fenómenos, os objetualiza e os degrada" (Sousa Santos, 1998: 30).
Este é o princípio epistemológico geral que fundamenta o movimento das
histórias de vida. Um movimento que se tem vindo a afirmar como uma tentativa
de superação da lógica dicotómica da racionalidade científica moderna, ou seja,
como uma nova gnose que ao invés de separar e dividir pretende contribuir para
criar caminhos de inteligibilidade global sobre o mundo. São caminhos inscritos
na lógica de conhecimento do paradigma emergente, que tende a produzir um
conhecimento de tipo não dualista. Deste modo, o movimento das histórias de
vida terá de ser compreendido, enquanto um movimento de ideias, nascido no
âmbito das CSH, mais particularmente, naquela vertente das CSH de vocação anti-
positivista, emanada duma tradição filosófica complexa, em que se foram
elaborando criticamente matrizes teóricas alternativas de carácter
compreensivo, fenomenológico, interacionista, hermenêutico e existencialista.
Na história recente do movimento das histórias de vida (para além de um passado
mais remoto, no período da Antiguidade Clássica) destacam-se dois momentos
charneira relacionados com o desenvolvimento e uso da abordagem biográfica e
histórias de vida quer como instrumentos de investigação quer como instrumentos
de intervenção na realidade social, no domínio das CSH, que ocorreram,
respetivamente, no início e no final do século vinte.
Assim, nas primeiras duas décadas do século XX, sobressai o seu uso sistemático
na investigação e na intervenção social no âmbito de três perspetivas
analíticas: a antropologia, a psicologia (correntes da psico-história e da
psico-biografia), e a sociologia, destacando-se aqui os trabalhos elaborados
pela escola de Chicago, marcada pela hermenêutica da filosofia alemã e, mais
tarde, pela sociologia militante que marcou a Polónia da II Guerra Mundial (Le
Grand, s/d; Finger, 1996; Dominicé, 1990).
Depois deste período inicial de desenvolvimento e expansão, no que diz respeito
ao uso da abordagem biográfica e histórias de vida na investigação e na
intervenção, no âmbito das CSH, que ficou conhecido nos Estados Unidos (EUA)
como a época das histórias de vida ou narrativas de vida (life histories ou
life stories), a sua popularidade sofreu uma inflexão, devida ao declínio da
escola de Chicago e à proeminência ganha pela escola de Columbia (e
metodologias de investigação quantitativas). Iniciando-se um período de
interregno na sua utilização e teorização que só se irá inverter meio século
mais tarde, tenuemente nos anos sessenta, uma época de procura de alternativas
metodológicas no contexto do movimento contra-cultural nos EUA e da nova
esquerda na Europa, e vincadamente desde os anos oitenta, altura em que se
desenvolveu uma linha inovadora de investigação em domínios diversos
(histórico, etnológico, psicológico, sociológico, literário) que valorizou
muitos dos aspetos ignorados no paradigma dominante que regeu a investigação em
CSH, e que é manifestamente a favor da recolha direta ou indireta de
'testemunhos vividos', tendo-se mantido dinâmica a sua utilização e
teorização desde então (Póirier, Clapier-Valladon & Raybaut, 1999; Finger,
1996).
Atendendo aos altos e baixos na história do desenvolvimento da abordagem
biográfica e histórias de vida, na investigação e na intervenção no âmbito das
CSH, podemos compreender melhor as palavras de Dominicé referindo que muitos
dos investigadores que optam por este modelo empírico-analítico "têm
consciência de estar a abrir novas vias metodológicas" (Dominicé, s/d:
75). De igual modo Pilon e Desmarais referem que
as histórias de vida ou narrativas de vida (…) tornam-se, depois de
1976, muito mais do que uma ferramenta de recolha de dados,
constituindo uma forma de abordagem inovadora de um vasto leque de
fenómenos etno-psico-sociais (…) dentro da área de investigação e,
mais recente ainda, da educação de adultos. (Pilon & Desmarais,
1996: 11).
Pelo tipo de trajetória histórica do uso da abordagem biográfica e histórias de
vida no âmbito das CSH, em que se passa de um período vigoroso para um período
de declínio e novamente para um período de reemergência e expansão, e
considerando o carácter alternativo com que esta abordagem se investiu, não
surpreende que ao longo dessa trajetória existam momentos de maior controvérsia
ao nível do debate teórico-conceptual suscitado pelo seu uso. Trata-se de uma
abordagem teórica, metodológica e epistemologicamente intrincada, e até mesmo
contestada por representantes disciplinares clássicos (como Pierre Bourdieu). A
controvérsia emana do facto de esta abordagem implicar uma relação nova do
próprio investigador com o objeto de investigação, uma relação re-
conceptualizada como relação biográfica entre sujeitos. Esta proposta veio
suscitar o reequacionar de pressupostos hegemonicamente instituídos no processo
científico de investigação, com destaque para o debate epistemológico sobre o
papel da subjetividade e das vivências na elaboração do conhecimento científico
(Dominicé, s/d; Pineau, 2001).
O interesse pela utilização deste tipo de abordagem prende-se também com uma
dupla exigência do tempo presente: primeiro, relacionada com a necessidade de
uma renovação metodológica; e, segundo, relacionada com a exigência de uma nova
antropologia. Uma renovação metodológica na medida em que, aos dois princípios
da epistemologia clássica da ciência moderna, o da objetividade, que exclui o
sujeito do processo de investigação, e o da intencionalidade nomotética, que
procura regularidades estatísticas e leis gerais, se contrapõe dois axiomas
fundamentais da abordagem biográfica e histórias de vida: a subjetividade e a
singularidade. Uma nova antropologia na medida em que, cada vez mais, a
necessidade ontológica de apreensão e compreensão do contexto multicultural de
vida atual, em que a vida quotidiana está impregnada de dificuldades
relacionais e contradições culturais, não é compatível com as grandes
explicações estruturais, ou meta-narrativas, da antropologia clássica.
A abordagem biográfica e histórias de vida, entendida como instrumento de
investigação e de intervenção, baseia-se numa "hermenêutica da
interação" que produz conhecimento através do estabelecimento de uma
comunicação interpessoal complexa e recíproca entre o narrador e o narratário
que investiga (Ferrarotti, 1988). Ora, acentuando que esta abordagem ambiciona
facilitar a integração do sujeito na sua realidade envolvente, Josso afirma
o entusiasmo pela perspetiva biográfica aparece inseparável da
reabilitação progressiva do sujeito e do ator (…) essa reabilitação
pode ser interpretada como um retorno do pêndulo depois da hegemonia
do modelo de causalidade determinista das conceções funcionalistas,
marxistas e estruturalistas do indivíduo, que dominaram até ao fim
dos anos setenta. (Josso, 2002: 13-14).
Também Finger concebe a perspetiva biográfica como "uma abordagem de
pesquisa que liga a teoria e a prática, em seguida dá voz ao sujeito, e
reconhece um valor de conhecimento social à subjetividade, enfim, ela
representa uma alternativa democrática e participativa ao tipo de pesquisa
dominante" (Finger, 1996: 31).
É atendendo a este contexto de reconstrução do próprio olhar científico sobre o
mundo que Pineau afirma "as histórias de vida estão hoje em dia presentes
nas encruzilhadas da investigação, da formação e da intervenção" (Pineau,
2001: 342), e enfatiza o potencial do tempo presente porque se sabe que
"as encruzilhadas são espaços estratégicos 'de agir
comunicacional' que expõem a colisões mas também a vias possíveis"
(obra citada acima: 342). De igual forma Sousa Santos alude à
reconceptualização em curso das condições epistemológicas e metodológicas do
conhecimento científico social para destacar que "o sujeito, que a
ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa
investido da tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica"
(Sousa Santos, 1998: 43). Uma das direções críticas e inovadoras que já se
vislumbram neste contexto de mudança aponta para o facto do carácter
autobiográfico e auto-referenciável da ciência ser plenamente assumido no
paradigma emergente. O conhecimento constitui-se em redor de temas concretos,
que em dado momento são adotados por grupos sociais organizados, como projetos
de vida locais. Há deste modo, como sublinha Sousa Santos, a necessidade de
questionar o status quometodológico, da investigação e da intervenção, na
medida em que um conhecimento deste tipo é relativamente imetódico porque se
constitui
a partir de uma pluralidade metodológica. (…) Numa fase de revolução
científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é
possível mediante uma transgressão metodológica (…) a inovação
científica consiste em inventar contextos persuasivos que conduzam à
aplicação dos métodos fora do seu habitat natural. (Josso, 2002: 54).
A Corrente das Histórias de Vida em Educação de Adultos
A teorização crescente da abordagem biográfica e histórias de vida, no âmbito
das CSH, repercutiu-se no domínio da educação, particularmente no campo da EFA.
A raiz teórico-filosófica dacorrente das histórias de vida em educaçãoinscreve-
se, portanto, no âmbito deste movimento das histórias de vida das CSH,
situando-se num contexto alternativo, de produção metodológica e
epistemológica, ao modelo de inspiração positivista e tecnocrata vigente nas
ciências da educação. Assim, do registo de influências teóricas próprias do
pensamento social, de onde derivaram os fundamentos desta abordagem teórico-
pedagógica em EFA, há a assinalar o romantismo alemão, em particular a
fenomenologia (com realce para Husserl) e a hermenêutica (com destaque para
Dilthey e Gadamer) e os contributos, mais recentes, da 'filosofia dos
mundos de vida' (Lebensweltphilosophie, com realce para Schütz e
Habermas). Ora, este impacto é muito recente carecendo de maior reflexão
teórica, o que só agora começa a surgir no âmbito do corpus teórico existente
na EFA.
Com efeito, excetuando os métodos de conscientização inspirados na abordagem
político-pedagógica de Paulo Freire, a abordagem biográfica e histórias de vida
não tem sido muito utilizada nas ciências da educação e a reflexão teórico-
pedagógica sobre perspetivas biográficas no campo da EFA, usadas enquanto
instrumento de investigação, de intervenção e de formação, ficou a dever-se,
aos teóricos da corrente das histórias de vida em educação da escola de Gene-
bra, embora, nos EUA, se tivessem desenvolvido trabalhos que equacionavam as
questões da reflexão e da experiência nos processos de aprendizagem dos
adultos, destacando já o sujeito (com realce para Dewey e Schön).
Ora, como os teóricos da escola de Genebra têm acentuado, não chega adaptar as
teorizações vindas das CSH, em especial da sociologia, para um domínio como o
da EFA, sendo fundamental que se procure descobrir e reinventar o potencial das
perspetivas biográficas para as problemáticas de carácter educacional. Tem-se
vindo a conceptualizar, assim, as histórias de vida em educação como projeto de
conhecimento e como projeto de formação, um tipo de formulações teóricas que
conferem à escola de Genebra um estatuto fundador, na medida em que "a
dinâmica de articulação entre formação e investigação faz da nossa abordagem
biográfica uma versão inovadora do método das histórias de vida no campo das
ciências humanas" (Dominicé, 1990: 71).
Em contexto de transição paradigmática, a prática das histórias de vida em EFA
tem vindo a ser entendida, por esta escola, como uma mediação adequada às
complexas características atuais das sociedades ocidentais. Isto na medida em
que, como sublinha Josso
a segmentação do 'saber-viver' operada pela sociedade
industrial para a comodidade de uma divisão social do trabalho e dos
poderes que lhe estão ligados (…) e o paradigma cartesiano do
conhecimento pela fragmentação [provocam] no 'sendo' que
somos um sentimento de divisão e de perda de uma compreensão da nossa
existencialidade. (Josso, 2002: 119).
Este é um dos fatores que justifica a criação da prática das histórias de vida
em EFA, nos termos em que vem sendo usada pela escola de Genebra, ou seja, no
sentido de fomentar uma "consciência reunificada de nós mesmos,
individual e coletivamente" (obra citada acima: 119), assumindo-se
enquanto uma prática crítica que opera um "deslocamento para uma posição
meta-disciplinar na qual a busca de um 'saber-viver' ou a procura
de uma sabedoria tenta uma reintegração operante dos conhecimentos no seio da
nossa existencialidade" (Josso, 2002: 119).
Deste modo, a emergência de um novo paradigma traz consigo uma nova
racionalidade que no domínio da educação nos força a reaprender a pensar a
realidade educacional. A este respeito Nóvoa afirma que "a interrogação
epistemológica que atravessa hoje em dia alguns círculos da formação de adultos
tem origem numa crítica a uma 'visão desenvolvimentista' da
educação e na procura de uma conceção da formação que permita ao indivíduo
'pensar-se na ação'" (Nóvoa, s/d: 70). Trata-se de ensaiar um
entendimento novo da EFA, que prescinda dos tradicionais conceitos de progresso
e de desenvolvimento, repensando as questões e as problemáticas da educação a
partir do potencial contido nas perspetivas biográficas. Assim, a educação e
formação ao longo da vida, deverá considerar na sua prática educativa presente,
para além da ideia de desenvolvimento futuro também a ideia de retrospeção,
ideias interrelacionadas na praxiseducacional com base numa metodologia de
balanço de vida. Considerando o essencial destes pressupostos, Nóvoa sublinha
o conceito de reflexividade crítica deve assumir um papel de primeiro
plano no domínio da formação de adultos (…) o adulto está implicado
numa ação presente, o que o obriga a ter em conta um outro vetor
dominante da formação de adultos, a consciência contextualizada.
(Josso, 2002: 72).
No âmbito desta conjuntura, a problemática da construção das identidades dos
sujeitos, da valorização das suas subjetividades, do papel dos atores na
construção das representações sociais, tem vindo a ganhar um maior relevo no
campo da EFA, quer ao nível das práticas educativas quer das formulações
teóricas. Isto traduz o que se passou no âmbito das próprias CSH, por exemplo,
em torno do 'retorno do ator', ou da maior articulação entre as
esferas micro e macroestruturais da sociedade.
A pesquisa identitária e a consideração contextualizada do sujeito estão agora
no coração da praxis da investigação social e da reflexão educacional que
envolve adultos (West e outros, 2007). Esta preocupação encontra-se espelhada
na literatura que tem surgido no sector, em torno dos designados processos
experienciais (Monteagudo, 2008). Processos experienciais que, nas dinâmicas
interativas de educação e formação e nos processos de intervenção, superam os
pressupostos do inquérito clássico, como refere Dionne
trata-se de uma abordagem empírica que valoriza de antemão o ator, na
sua relação consigo mesmo e com o ambiente social, obrigando o
investigador-interventor a realizar práticas mais consequentes de
desenvolvimento, e também mais socializantes quanto aos resultados
alcançados. (Dionne, 1996: 181).
O impacto para a EFA deste tipo de abordagem relaciona-se com o reconhecimento
da centralidade da pessoa adulta nos processos de educação e de formação,
motivado, por um lado, pelas propostas de construção de um estatuto
epistemológico do sujeito, que englobem a subjetividade nos processos de
construção de conhecimento, e por outro lado, pela revalorização epistemológica
da experiência e a sua consideração consequente nos processos de aprendizagem.
Com efeito, as diversas aproximações à perspetiva teórico-pedagógica da
abordagem biográfica e histórias de vida, elaboradas no âmbito do corpusteórico
da EFA, traduzidas nas diversas terminologias utilizadas no campo (Le Grand,
s/; Pineau, 2001; Pilon & Desmarais, 1996) mostram que estamos, no
presente, perante um domínio aberto de possibilidades que começam a ser
exploradas à luz das preocupações do paradigma emergente, sobretudo na tradição
de pensamento francófono.
Considerações Finais
A prática das histórias de vida em EFA assenta numa proposta de investigação,
individual ou grupal, que pretende construir significados à partir dos factos
temporais relativos à trajetória pessoal de vida dos sujeitos. Neste tipo de
contexto de uso, as histórias de vida são entendidas como um processo em devir,
inacabado, na maior parte do tempo dialógico, inscrito no âmbito das relações
interpessoais, que implicam sempre distintos tipos de relações de poder,
traduzidas na trajetória de vida pela filiação, pela ideologia, pela religião,
e pela apropriação simbólica de toda uma linguagem social. Estas ao serem
investigadas e explicitadas criticamente dão origem, nos termos da lógica desta
abordagem, a um processo educativo e formativo que, trabalhando numa constante
passagem entre o registo oral e o registo escrito e entre o passado, o presente
e o futuro, adquire as características de uma prática autopoietica, inscrita na
análise ativa da produção de identidade dos próprios sujeitos, como, aliás, a
etimologia do termo autopoiesis, do grego autos(eu) epoiein(produzir), sugere
(Pineau & Le Grand, 1993; Le Grand, s/d).
Um traço estruturante comum, nos pressupostos teórico-pedagógicos inerentes a
cada uma das terminologias existentes no âmbito da abordagem biográfica e
histórias de vida em educação, é considerar-se como central a reflexão crítica
nos processos de EFA. Sobre isto, Pilon e Desmarais afirmam "a prática
das histórias de vida em contexto de formação, como processo de construção
identitário e como caminho de emancipação não se atinge de maneira espontânea e
natural" (Pilon & Desmarais, 1996: 12). Daí que se considere que as
práticas das histórias de vida conduzidas reflexivamente "proporcionam
uma ocasião de revalorização epistemológica da noção de experiência, e de uma
aprendizagem fundada na experiência" (obra citada acima: 13).
Esta lógica caracteriza a atual utilização das histórias de vida em EFA segundo
duas tendências: uma (em expansão) relacionada com a orientação e formação
profissional para explicitar os saber-fazer adquiridos pelo trabalho: são as
designadas histórias de vida profissionais; e outra relacionada com a formação
e desenvolvimento pessoal para retirar benefício de todos os saber-viver
implícitos nas esferas privadas da vida quotidiana: são as denominadas
histórias de vida existenciais (Pineau, 2001).
Nas histórias de vida existenciais, de menor visibilidade mas de maior impacto
no sujeito, tem sido considerado que os processos educativos, conduzidos de
acordo com esta racionalidade, estão implicados na construção de uma nova
biografia, agora elaborada de maneira mais consciente e maior sentido de
agência e interferência, que abre espaço para a reconstrução da própria
história e condição de vida. Segundo West (2004), o sucesso deste tipo de
processo pressupõe o respeito de três elementos psicopedagógicos: o primeiro é
a possibilidade de criar condições de intercâmbio de pontos de vista, com
outros indivíduos, de aspetos particulares do percurso de vida; o segundo está
relacionado com a ideia de que a EFA (e alguns contextos da terapia de grupo)
possibilitam entender a aprendizagem enquanto espaço propiciador de uma
transição ao nível da autoconsciência, que facilita, aos adultos envolvidos
neste tipo de processo, arriscar a exposição a terceiros de elementos
relacionados com o seu sentido pessoal de identidade e trocar criticamente
ideias a partir deles; e um terceiro que envolve a criação e desenvolvimento,
nos sujeitos, de um repertório narrativo da sua própria experiência cada vez
mais extensivo e auto-consciente. West destaca, como traço marcante da
atualidade da EFA, que
os métodos biográficos têm, progressivamente, se deslocado para um
lugar de destaque na aprendizagem de adultos (…) a investigação
biográfica pode-nos permitir esclarecer o sentido das ações, e
compreender o seu significado, através das histórias sobre os que
estão no centro do processo. (West, 2004: 4-7).
Esta crescente centralidade a que alude West (2004) no campo da EFA, foi
influenciada pelos trabalhos pioneiros realizados no âmbito da tradição de
pensamento francófona, com destaque para as formulações teórico-pedagógicas
desenvolvidas pela obra de Pineau e pela obra de Dominicé, as primeiras dando
forma à designada autobiografia e as segundas estruturando a denominada
biografia educativa. A este respeito Nóvoa refere
com o título sugestivo de Vidas das Histórias de Vida publicou
Pineau, em 1980, um livro que marca o início da utilização
sistemática do método (auto) biográfico no âmbito da formação de
adultos [desde então] a reflexão em torno da utilização das histórias
de vida tem-se enriquecido consideravelmente, dando origem a uma
série de estimulantes experiências em vários países da Europa e da
América do Norte. (Nóvoa, s/d: 73).
De facto, a rede francófona das histórias de vida, em França e no Canadá, em
colaboração com as pesquisas da escola de Genebra, inauguraram uma corrente de
utilização das histórias de vida em EFA, cujos desenvolvimentos têm contribuído
para alargar o corpus teórico da EFA em duas vertentes: uma preocupada com a
construção de uma teoria da formação a partir do sujeito aprendente, e outra
debruçada na conceptualização das histórias de vida enquanto metodologia de
investigação e de formação (um traço distintivo da escola de Genebra). Como
afirma Dominicé "a biografia é um instrumento de investigação e, ao mesmo
tempo, um instrumento pedagógico (…) esta dupla função da abordagem biográfica
caracteriza a sua utilização em ciências da educação" (Dominicé, s/d:
78). Assiste-se, assim, à tentativa de construção de uma teoria da educação e
formação a partir do sujeito aprendente. Como afirma Nóvoa "as histórias
de vida e o método (auto)biográfico integram-se no esforço de repensar as
questões da formação, acentuando a ideia que 'ninguém forma
ninguém' e que 'a formação é inevitavelmente um trabalho de
reflexão sobre os percursos de vida" (Nóvoa, s/d: 73). Neste ponto,
merece-nos destaque Pineau que, ao longo da sua obra, explorou teoricamente
esta nova dimensão da abordagem biográfica inscrevendo-a nalguns dos
pressupostos da perspetiva da educação permanente. No pensamento de Pineau as
histórias de vida são conceptualizadas como um método de investigação-ação que
procura estimular a autoformação, isto na medida em que o exercício pessoal de
explicitação crítica de uma dada trajetória de vida, ou seja, a apropriação
retrospetiva do percurso de vida do indivíduo-sujeito, obriga-o a um trabalho
de grande implicação, contribuindo para uma tomada de consciência crítica,
individual e coletiva, e para uma participação efetiva no seu próprio processo
de formação (Pineau, 2001).
A utilização das histórias de vida em EFA, proposta por Pineau, permite
articular no mesmo processo educativo as atividades de formação, de
investigação e de intervenção, como defende Dominicé (1990) no seu processo de
formação-investigação, ou Barbier (1988) no seu processo de investigação-
formação existencial, reconhecendo-se em ambos os processos o aprendente adulto
como um produtor de saber, mais do que um consumidor de saber. Portanto, como
contributo para a conceptualização e disseminação das histórias de vida
enquanto metodologia de investigação e de formação estão os pressupostos da
escola de Genebra, que segundo Josso, têm girado em torno de dois eixos
principais que se influenciam mutuamente: um relacionado com o "projeto
teórico de uma compreensão biográfica da formação, e a fortiori da
autoformação, através das perspetivas de investigação-formação" (Josso,
2002: 15); e outro mais debruçado sobre o "uso de abordagens biográficas
postas ao serviço de projetos (projeto de expressão, projeto profissional,
projeto de reinserção, projeto de formação, projeto de transformação de
práticas, projeto de vida)" (obra citada acima: 15).
No âmbito das histórias de vida, enquanto projeto de conhecimento, sobressaem
os esforços de teorização realizados para o apuramento de metodologias de
investigação-formação que, conforme sublinha Josso
tinham e continuam a ter necessidade de reivindicar, de criar um
espaço, de justificar a sua fundamentação [com o intuito de] conceder
legitimidade à mobilização da subjetividade como modo de produção do
saber e à intersubjetividade como suporte do trabalho interpretativo
e de construção de sentido para os autores das narrativas das
histórias de vida. (Josso, 2002: 16).
exprimindo, esta preocupação metodológica, o desafio epistemológico de refletir
acerca do valor de uso dos conhecimentos produzidos e das normas de legitimação
de um determinado saber científico.
Já no âmbito da abordagem biográfica ou experiencial colocada ao serviço de
lógicas de projeto aplicado, sobressai o carácter mais circunscrito, em muitos
casos também mais instrumentalizado, dado à narrativa biográfica, uma vez que
"as histórias de vida postas ao serviço de um projeto são necessariamente
adaptadas à perspetiva definida pelo projeto no qual elas se inserem"
(Josso, 2002: 20). Destacam-se aqui dois contextos de uso principais: um
relacionado com a formação profissional, e outro com o reconhecimento de
saberes adquiridos.
Estes dois eixos estruturantes da conceptualização das histórias de vida,
enquanto metodologia de investigação e de formação, têm-se traduzido numa
reflexão, de cariz inovador no panorama do corpus teórico da EFA, debruçada
sobre os papéis do autor, ator e leitor na prática de construção e de
compreensão das histórias de vida, bem como sobre o poder transformador das
mesmas. Neste contexto de teorização aceita-se que a narrativa de vida não tem
em si qualquer poder transformador, uma vez que esse poder reside apenas, como
sublinha Josso, na "metodologia de trabalho sobre a narrativa de vida
[que pode representar a] oportunidade de uma transformação segundo a natureza
das tomadas de consciência que aí são feitas e o grau de abertura à experiência
das pessoas envolvidas no processo" (Josso, 2002: 116).
A prática de investigação-formação assente nas histórias de vida, ou seja, todo
o trabalho de reflexão crítica sobre o percurso de vida e sobre a forma como
cada um constrói a sua própria narrativa biográfica, deverá possibilitar um
trabalho propiciador de uma progressiva tomada de consciência dos diversos
referenciais teóricos que funcionam como a priorinos processos de conhecimento.
Todo o sentido desta prática de mediação reside no facto, segundo os teóricos
da escola de Genebra, de ser possível utilizar o trabalho biográfico como
instrumento de identificação dos preconceitos, das convicções, das
representações, dos sistemas interpretativos nos seus contextos de
constituição, sendo nestes contextos, e portanto nas situações de vida, que são
tecidas as dimensões individuais e coletivas, psicossomáticas, sociais e
culturais das nossas atividades, das nossas interações e das nossas
representações, sendo deste modo que a procura deliberada de uma distanciação
em relação ao pensamento, às categorias que usamos para interpretar as
realidades em que nos envolvemos se torna, de acordo com Josso, um
"prolongamento natural do trabalho de compreensão do que é a formação (…)
que põe em evidência a epistemologia do sujeito aprendente" (Josso, 2002:
105).
O essencial desta abordagem teórico-pedagógica fundada sobre uma perspetiva
fenomenológica e hermenêutica passa, segundo Nóvoa, "pela definição das
histórias de vida como metodologia de investigação-formação, isto é, como
metodologia onde a pessoa é, simultaneamente, objeto e sujeito da
formação" (Nóvoa, 2002: 10). Costa e Silva afirma também, que os
dispositivos de educação e formação que se orientam por uma racionalidade
crítica têm inerente à sua construção
a enunciação e explicitação dos sujeitos em formação, os quais se
descobrem através da narrativa biográfica, e se projetam através da
identificação e construção de projetos [deste modo] a formação
adquire uma dimensão não só retrospetiva mas, fundamentalmente,
projetual na qual estão presentes tanto as representações como as
identidades dos autores. (Costa e Silva, 2003: 98).
Transportando consigo os pressupostos do paradigma emergente no que concerne a
valorização do papel da subjetividade na história, da ideia de totalidade e de
inter-relação complexa do real, esta corrente, tal como sublinha Pineau, é
percecionada como uma "abordagem de teorização recente e polémica, porque
coloca questões de fundo, epistemológico, metodológico e deontológico"
(Pineau, 2001: 346). A maioria das questões de fundo e das críticas que vão
sendo apontadas, seguem três linhas principais: a dos que consideram que esta
abordagem é anticientífica, na medida em que "está demasiado próxima da
ideologia do ser vivo, valorizando o sentido corrente dos atores" (obra
citada acima: 347), motivo pelo qual lhe é atribuída uma "epistemologia
ingénua que não teria sofrido a catarse dos mestres consagrados da
dúvida" (obra citada acima: 347); uma segunda linha que a considera
antipedagógica, uma vez que se revela "demasiado subjetiva para permitir
a distância necessária a um trabalho objetivo" (obra citada acima: 347);
havendo ainda quem considere, numa dimensão bioética, que "o seu carácter
vital iria torná-la demasiado arriscada, demasiado perigosa para ser
utilizada" (obra citada acima: 347). Ora, podemos considerar com Pineau
que "estas questões indicam problemas fundamentais cuja amplitude
significa pelo menos que não se trata da chegada de um simples instrumento
pedagógico suplementar" (obra citada acima: 347).
Portanto, o uso das histórias de vida em EFA operou uma deslocação
paradigmática no modo de conceber a educação, pois transforma o adulto num
coprodutor da sua educação, e muda a forma de conceber o trabalho educativo que
passa a incidir muito menos na aquisição de conteúdos para, ao invés, incidir
muito mais na compreensão do meio ambiente físico e social. Trata-se de uma
abordagem teórico-pedagógica que, partindo dos contributos do movimento das
histórias de vida nas CSH, conceptualiza questões centrais à problemática-chave
da EFA que discute a contraposição entre o diagnóstico de necessidades e o
reconhecimento de adquiridos, e instaura um debate nascido da tentativa de
superação da lógica clássica do trabalho educativo, assente numa dupla rutura,
por um lado, com a experiência dos sujeitos, por outro lado, com os contextos
em que se desenrola a sua vida.
Em suma, o corpus teórico da EFA tem vindo a ser redimensionado no âmbito dos
contributos da corrente das histórias de vida. Esta corrente convida, como
vimos, a operar uma vinculação consequente entre o conhecimento e o contexto
social e cultural de quem aprende, sendo que quem aprende é percecionado
enquanto sujeito coprodutor de conhecimento e não enquanto recetor de
conteúdos, pontos em que há a assinalar convergências importantes com alguns
dos pressupostos quer do paradigma da educação permanente quer do pensamento
freiriano.
A prática de investigação-formação assente nas histórias de vida remete para um
quadro de ação que procura evitar que se pretenda ensinar o que as pessoas já
conhecem. Nos termos deste novo modo de conceber a educação, que valoriza a
aprendizagem experiencial nos adultos, desenvolveu-se dois modelos de práticas
educativas principais, com pressupostos teórico-conceptuais antagónicos: um que
se concentra nos défices dos sujeitos aprendentes, e opera através da
metodologia da análise de necessidades; e outro que se concentra nos adquiridos
dos sujeitos aprendentes, e opera através da metodologia do balanço de
competências. O mais notório, em ambos os casos, é que o conceito de
experiência se transforma na chave mestra de uma nova postura metodológica, com
novos pressupostos epistemológicos centrais a toda uma nova filosofia político-
pedagógica que caracteriza o panorama contemporâneo de reflexão e investigação
no campo da EFA.