Editorial
Editorial
António Teodoro, José V. Brás & Maria Neves Gonçalves
1. Desde o seu surgimento em 2003, esta revista tem-se guiado pelo propósito de
fomentar e fortalecer o diálogo na comunidade científica internacional entre
pessoas de diversas culturas, idiomas, tradições e experiências educativas, com
a finalidade de repensar a educação de uma perspectiva crítica e
transformadora. Este número não somente cumpre este propósito, mas faz dele
também um requisito. Para compreender melhor a sua proposta, é preciso fazer
referência a alguns precedentes que a explicam.
Em primeiro lugar, o espaço de encontro propiciado por este número surge, em
grande parte, do intenso trabalho de intercâmbio e produção científica da Rede
Iberoamericana de Investigação em Políticas Educativas (RIAIPE), iniciada a
partir de um projeto do Programa Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento
(CYTED) da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), desenvolvido no
período 2007-2010. Como parte desta rede, em 2009, algumas equipas tiveram
projetos de cooperação bilateral aprovados por suas respectivas agências
nacionais de financiamento científico, entre as quais Brasil-Espanha e Brasil-
Portugal, para investigar as reformas da educação superior, destacando os
impactos da globalização no acesso, equidade e inclusãosocial.1 Em seguida, a
RIAIPE, buscando ampliação e reforço, concorreu a uma convocatória da Comissão
Europeia de 2010, destinada a projetos Alfa, tendo aprovado o projeto
"Programa marco interuniversitário para uma política de equidade e coesão
social da educação superior", para o triénio 2011-2013. Este projeto, que
conta com a colaboração do Centro de Altos Estudos da OEI e com a participação
de 30 instituições de educação superior (IES) de 14 países da América Latina e
de 6 países europeus,2 pretende promover acções institucionais que visem um
desenvolvimento social equitativo e um reforço da cooperação universitária
entre a América Latina (AL) e União Europeia (UE).
O interesse pela educação superior concretizado nessas iniciativas não é
casual. Desde fins do século passado, no marco da globalização, a universidade
está sendo objeto de profundas transformações. Uma das tarefas dos
investigadores que participam, direta e indiretamente, dos projetos referidos
ou outros similares é a compreensão das mudanças produzidas no âmbito da
educação superior, bem como das intervenções que visam orientá-las por
princípios democráticos e democratizantes e critérios emancipatórios. A
compreensão dessas mudanças passa por uma profunda e necessária reflexão sobre
a missão da universidade e de suas relações com a sociedade. Tal reflexão,
porém, não se leva a cabo somente dentro da própria instituição, mas também,
simultaneamente, nas instâncias políticas e sociais que colocam expectativas
sobre o papel da educação. Nesse sentido, recordemos, por exemplo, que a XX
Cúpula Ibero-americana, realizada na Argentina em 5 de dezembro de 2010, teve
como tema "Educação para a inclusão social", elegendo a educação
como eixo central. As contribuições contidas neste número podem ser
apresentadas segundo duas dimensões: o objeto da reflexão (o que) e a lógica da
investigação (o como). Quanto à primeira dimensão, poder-se-á constatar a
unidade na diversidade. O fio condutor é a consideração do espaço de educação
superior da perspectiva da inclusão social. Em torno desse fio condutor se
articulam várias questões: a gestão do conhecimento e os efeitos da
globalização sobre o conhecimento; a pertinência social da universidade; a
reconfiguração das identidades dos sujeitos em seus processos de transição e
acesso; a constituição de espaços de convergência da educação superior em
regiões como a Europa e a América Latina; e a análise propriamente das
políticas de educação superior no marco das agendas internacionais hegemónicas.
Nos artigos adotam-se enfoques que podem integrar as experiências com as
tendências, o diagnóstico com o prognóstico, a descrição com a compreensão, e a
explicação com a implicação ou a necessidade de intervenção.
Quanto à segunda dimensão, o princípio do diálogo foi um convite e uma
recomendação expressa desde a concepção deste número da revista. Para traduzir
esta intenção inicial em ação concreta, considerou-se o interesse de elaborar
artigos em co-autoria, propondo-se a participação compartilhada: se o nosso
trabalho se baseia cada vez mais nas redes de conhecimento e colaboração,
buscou-se elaborar artigos também em rede, misturando autoras e autores de
diferentes países e idiomas. É assim que se explica o encontro de autores e
autoras brasileiros, portugueses, argentinos e espanhóis, assim como a
participação deliberada e equilibrada de investigadores num terreno académico e
disciplinar.
Aqui se reunem, portanto, vozes e expressões diversas de investigadores e
investigadoras da educação que compartilham seus pontos de vista, inquietações
intelectuais e compromissos sociais em prol de uma cultura comum, com olhares
atentos à universidade do século XXI, cujo movimento é observado com
preocupação, desejando que se converta em um espaço de oportunidades a favor da
justiça e da vinculação social.
2. Considerando a temática da educação superior de uma perspectiva inclusiva,
este número da revista oferece um conjunto de onze textos, nos quais se
combinam a análise teórica e as abordagens empíricas, a descrição dos contextos
com a proposição de alternativas de mudança e melhoria.
O primeiro artigo que abre a revista, elaborado por Carlos Alberto Torres, José
Eustáquio Romão e António Teodoro, analisa a influência e a importância das
redes institucionais para a construção das ciências sociais contemporâneas e da
educação na América Latina. Para ilustrar a análise, os autores selecionam três
experiências relevantes de trabalho colaborativo, desenvolvidas a partir da
segunda metade do século XX. Finalizam a sua contribuição detendo-se na
exposição da rede ibero-americana RIAIPE, já mencionada, da qual participam,
assim como outros autores e autoras que integram este número da revista.
A seguir, Betania Leite Ramalho e José Beltrán abordam, através do conceito de
pertinência, as relações entre universidade e sociedade num contexto de
mudanças aceleradas e de pressões crescentes. Argumentam tanto sobre a
necessidade de redefinir pertinência, salientando o desenvolvimento e a
emancipação social, como de repensar o papel da universidade frente às
exigências de instâncias externas, no sentido de manter seu caráter de bem
público a serviço da cidadania plena.
Alejandro Tiana, por sua vez, reflete sobrea contribuição da mobilidade
académica para a construção de um espaço ibero-americano de educação superior,
destacando o interesse de reforçar as relações entre países da região,
impulsionando iniciativas de internacionalização. Um exemplo destas iniciativas
seria o estímulo ao Espaço Ibero-americano do Conhecimento, promovido pelas
Cúpulas de Chefes de Estado e de Governo da Ibero-américa, em cujo marco a
mobilidade académica já está - e deve seguir - desempenhando um
papel decisivo.
Alda Maria Duarte e Antônio Cabral também enfocam a questão colocada no artigo
anterior. Para estes autores, as políticas de mobilidade estudantil constituem
estratégias de internacionalização na América Latina, sendo a
internacionalização fator principal de inserção num mundo em crescente
globalização. Em sua análise, de escala global, porém com foco na América
Latina e Brasil, apontam uma mobilidade assimétrica na região, comparativamente
a outras regiões, caracterizada por baixa receptividade de estudantes e elevado
envio a outros lugares do mundo. Esta tendência é, ademais, reflexo de uma nova
divisão mundial do trabalho, em que algumas regiões ocupam posições centrais e
outras periféricas.
Alejandra Montané e Maria Eulina Pessoa Carvalho desenvolvem um diálogo
cruzado, no marco dos estudos de género, em que estão presentes os temas da
justiça, equidade e políticas de igualdade na educação superior, centrados nos
casos do Brasil e da Espanha. As autoras, procedentes de contextos sociais
distintos, encontram pontos de encontro em interesses académicos e sociais
comuns, apresentados no texto: a presença de mulheres e homens no contexto
universitário, a produção de novas áreas de conhecimento vinculadas ao
desenvolvimento dos estudos de género na educação superior, e as diferentes
visões derivadas das políticas e dos estudos de género.
Adriana Diniz e Maria Eugenia Cardenal mostram, com argumentos teóricos e
amostras empíricas oriundas de investigações próprias, as contribuições
valiosas do enfoque biográfico para as ciências sociais e da educação. Detêm-se
nos processos de transição dos sujeitos no âmbito da educação superior e
defendem, do ponto de vista metodológico, a realização de estudos longitudinais
e biográficos.
Alícia Villar, Maria M. Vieira, Francesc J. Hernàndez e Ana Nunes de Almeida
apresentam, em termos comparativos, os resultados de duas investigações que
exploram o fenómeno do abandono dos estudos, com base em análise de casos da
Universidade de Lisboa (Portugal) e da Universidade de Valência (Espanha). Além
de estudarem os motivos de abandono, o texto questiona o conceito de abandono
de estudos no âmbito universitário, em seu uso mais comum, e propõe, a partir
da noção derelocalização, uma conceptualização diferente e mais ajustada a um
perfil estudantil que está mudando e adquirindo novos significados.
José V. Brás, Edineide Jezine, Sofia Fonseca e Maria Neves Gonçalves exploram o
processo de constituição da universidade portuguesa com base numa abordagem
histórica e empírica. Os autores defendem a tese de que as universidades
portuguesas cumpriram, em suas origens, um papel importante na formação de
elites, papel este que não pode persistir quando mudam as condições históricas
e as exigências sociais. Atualmente, a universidade, considerada como bem
público, deve passar por uma crescente democratização em termos de acesso à
educação superior e, portanto, de distribuição de poder.
Edna de G. Brennand e Eládio de G. Brennand completam, em uma reflexão própria,
as linhas abertas no artigo anterior no tocante ao acesso ao saber,
apresentando algumas questões relacionadas à aquisição de conhecimento no
contexto da expansão da educação superior e da criação da Universidade Aberta,
no caso do Brasil. Os autores abordam o fenómeno da mediação tecnológica
- materializada, neste caso, na modalidade educação à distância - e
o modo como esta mediação contribui para alterar e reestruturar as formas de
acesso à cultura universitária.
A contribuição de Emilia Trindade Prestes, Edineide Jezine e Afonso Scocuglia
focaliza a democratização da educação superior brasileira analisando o caso da
Universidade Federal de Paraíba. Os autores constatam uma recente "onda
de democratização", que obedece tanto à necessidade de adequar-se à
sociedade do conhecimento quanto à vontade de ampliar as oportunidades de
acesso à universidade a partir das próprias políticas governamentais,
exemplificada no Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades
Federais (Reuni), objeto de análise do artigo.
Na seção Diálogos, Maria Eulina Pessoa de Carvalho e Ana Paula Távora da Silva
apresentam uma entrevista realizada com a professora Rutilia Calderón, vice-
reitora da Universidade Nacional de Honduras, em que exploram tanto o fenómeno
da presença maioritária de mulheres na gestão daquela universidade, quanto a
própria biografia e trajetória feminina da entrevistada. O conteúdo da
entrevista, que combina a mirada introspectiva com a reflexão retrospectiva,
ilustra o entrecruzamento de aspectos pessoais e familiares com questões
relativas aos processos de formação, de liderança e de empoderamento, assim
como a orientação ao compromisso social.
Anabela Mimoso e Lurdes Valentim fazem a recensão do livro Reformas educativas,
educação superior e globalização em Brasil, Portugal e Espanha.Organizada por
Betania Leite Ramalho,José Beltrán, Maria Eulina Pessoa de Carvalho &
Adriana Diniz, trata-se de uma obra marcante sobre o ensino superior, suas
representações e conceptualizações no contexto da globalização, e sobre as for-
mas emergentes de incorporação de estudantes no sistema universitário desses
países.
Na secção Notíciassão divulgados eventos científicos organizados e promovidos
por investigadores do Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação
(CeiEF) bem como congressos e simpósios em que participaram.
No cumprimento de uma das rubricas da política editorial da Revista Lusófona de
Educação divulgam-se resumos de Teses de Doutoramento e de Dissertações de
Mestrado defendidas no Instituto de Educação da Universidade Lusófona.
Enfim, convidamos leitoras e leitores a participarem do diálogo aberto por este
conjunto de reflexões em torno da educação superior, na busca de respostas e de
novas questões que poderão contribuir para ampliar nossa compreensão desta
parcela da realidade, prosseguindo, assim, o diálogo académico, o trabalho em
rede e a tarefa de transformação social. Neste sentido, espera-se cumprir com o
objetivo desta revista, ao se gerarem inquietações intelectuais e sociais,
exigência para se seguir avançando no conhecimento e na melhoria da humanidade.
Lisboa e Valência, Junho de 2012
Notas
1 O projeto Brasil-Espanha, CAPES/DGU Edital DRI/CGCI nº 018/2009, intitulado
"Reformas educacionais e ensino superior: acesso e inclusão social no
Brasil e em Espanha", foi realizado pela Universidade Federal de Rio
Grande do Norte (UFRN), com a participação de Betania Leite Ramalho
(coordenadora), Isauro Beltrán Nuñez e Adriana Valéria Santos Diniz; e pela
Universidade de Valência (PHB 2009-008), com a participação de José Beltrán
Llavador (coordenador), Julio Hurtado Llopis e Albert Piñero Guilamany. O
projeto Brasil-Portugal, Edital CGCI nº 009/2009, CAPES/Brasil e FCT/Portugal,
intitulado "Globalização, reforma educacional e políticas de ensino
superior: equidade, democratização do acesso e inclusão social no Brasil e em
Portugal", foi realizado pela Universidade Federal de Paraíba (UFPB), com
a participação de Emília Maria da Trindade Prestes (coordenadora), Maria Eulina
Pessoa de Carvalho e Edineide Jezine; e pela Universidade Lusófona de
Humanidades e Tecnologia (ULHT), com a participação de António Teodoro
(coordenador), José Gregório Viegas Brás, Maria Neves Gonçalves, Maria de
Fátima Marques e Maria Madalena Mendes.
2 Como projeto de cooperação entre a União Europeia e a América Latina, o
Programa Marco Interuniversitário (PMI) implica uma grande rede integrada por
IES de países da América Latina (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colombia,
Cuba, Costa Rica, El Salvador, México, Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru e
Uruguai) e da UE (Portugal, Espanha, França, Holanda, Itália e Reino Unido). O
projeto é coordenado pelo CeiEF da Universidade Lusófona. A Organização de
Estudos Iberoamericanos (OEI) tem o estatuto de membro associado (cf. Programa
Marco Interuniversitário para a Equidade e a Coesão Social na Educação
Superior, www.riaipe-alfa.eu, financiado pela Comissão Europeia através do
Programa Alfa, Refª DCIALA/ 19.09.01/10/21526/245-580/ALFA III(2010)84).
Revista Lusófona de Educação
Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF)
Avenida do Campo Grande, nº 376
1749-024 Lisboa
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