Os docentes e a biblioteca escolar: uma relação necessária
As bibliotecas escolares em Portugal
O presente artigo baseia-se numa investigação realizada no âmbito de um
Mestrado em Educação - Variante de Supervisão Pedagógica e aborda uma temática
relacionada com as Bibliotecas Escolares e a relação que os docentes
estabelecem com ela. A focalização nesta relação foi sugerida, por um lado,
pela ambiência actual da sociedade de informação, suportada pelas modernas
tecnologias, que permitem um crescimento ilimitado e intenso da informação,
aliada à diversidade de meios de difusão e à facilidade de acesso, o que
implica grandes mudanças na Escola e na Biblioteca. Por outro lado, o
aparecimento, em 2008, de um Modelo de Auto-avaliação de Bibliotecas Escolares,
que preconiza uma maior envolvência e utilização das Bibliotecas nas Escolas,
obriga necessariamente a uma intensificação de uma relação biunívoca entre os
professores e a Bibliotecas Escolares. Este modelo teve origem no Gabinete da
Rede de Bibliotecas Escolares, que coordena a Rede de Bibliotecas Escolares
portuguesas, programa que surgiu através do Despacho Conjunto n.º 184/ME/MC/96,
de 27 de Agosto. A avaliação das Bibliotecas Escolares é um campo novo de
actuação, em Portugal, visto que, até recentemente, as grandes preocupações
dessas bibliotecas prendiam-se com questões de integração na Rede de
Bibliotecas Escolares, funcionamento, dinamização e gestão. De acordo com Silva
e Filipe (2008, p.2),
Integrar a biblioteca nas práticas lectivas, articulando-a com o
currículo e colocando-a ao serviço do processo formativo e das
aprendizagens dos alunos é o grande passo em frente que se espera das
bibliotecas escolares neste momento em que estão já resolvidas
questões como o espaço e os recursos e se perspectiva a existência de
recursos humanos em número suficiente a partir do próximo ano.
Na educação, já desde o século passado, num quadro construtivista, tem-se
assistido a uma contestação da escola tradicional, transmissiva, estando a
ênfase agora centrada numa escola que implica activamente todos os
intervenientes do acto educativo, no sentido de se tornar um centro de
aprendizagem, uma comunidade de aprendizagem. Assim, é solicitado à escola que
desempenhe um papel privilegiado na construção de conhecimentos e na promoção
de competências, atitudes e valores susceptíveis de assegurar aos futuros
cidadãos um papel consciente e interventivo na sociedade. A informação aparece
agora"como o elemento fundamental que participa destes processos de
mudança" (Canário, Barroso, Oliveira & Pessoa, 1994, p.13).
Nesta sociedade da informação, a modificação dos paradigmas de ensino têm vindo
a contribuir para um maior reconhecimento do papel das Bibliotecas Escolares
enquanto centros de recursos e espaços inovadores de aprendizagem no interior
dos estabelecimentos de ensino. Assim, é fundamental que as Bibliotecas
Escolares se constituam como um grande centro disseminador da informação, de
produção em diferentes suportes, "de cultura e de formação" (Silva,
2000, p.97). Enfim, "um centro de iniciativas, inseridas na vida
pedagógica da escola e aberto à comunidade local" (Veiga, Barroso,
Calixto, Calçada & Gaspar, 1996, p.16).
Uma das medidas da política educativa nacional, que envolveu o Ministério da
Educação em parceria com o Ministério da Cultura, foi a criação do Programa
Rede de Bibliotecas Escolares, em 1996, tendo como objectivo principal a
instalação de bibliotecas escolares nas escolas de todos os níveis de ensino.
Na história das bibliotecas, verifica-se que os livros e outras fontes escritas
eram utilizados para auxiliar o professor na disseminação do conhecimento -
A integração geral da biblioteca escolar e das suas fontes no
curriculum é, contudo, muito mais recente e desenvolveu-se a partir
de dois factores principais, por exemplo, a mudança de metodologia da
educação baseada na pesquisa, como aprendizagem dos estudantes e um
aumento na disponibilidade das fontes de informação que podem ser
úteis no conjunto da educação" (Hannesdóttir, 1995, p.11).
Segundo Veiga et al. (1996), as bibliotecas escolares surgem como recursos
básicos do processo educativo, sendo-lhes atribuído um papel central em
domínios tão importantes como: (i) a aprendizagem da leitura; (ii) o domínio
dessa competência (literacia); (iii) a criação e o desenvolvimento do prazer de
ler e a aquisição de hábitos de leitura; (iv) a capacidade de seleccionar
informação e actuar criticamente perante a quantidade e diversidade de fundos e
suportes que hoje são postos à disposição das pessoas; (v) o desenvolvimento
de métodos de estudo, de investigação autónoma; (vi) o aprofundamento da
cultura cívica, científica, tecnológica e artística. Assim, de acordo com os
mesmos autores:
Estudos sobre literacia, nacionais e internacionais, têm vindo a
demonstrar que existe uma relação estreita entre a acessibilidade a
espaços e recursos de leitura e o nível de desempenho dos alunos…
sendo também esses países que registam níveis mais elevados de
desenvolvimento cultural e científico. No mundo em que a informação e
o conhecimento científico e tecnológico se produzem a um ritmo
acelerado e em que é indispensável formar pessoas capazes de
acompanhar a mudança, cabe à s escolas e à s suas bibliotecas a
função essencial de criar e desenvolver nos alunos competências de
informação, contribuindo assim para que os cidadãos se tornem mais
conscientes, informados e participantes, e para o desenvolvimento
cultural da sociedade no seu conjunto." (Veiga et al., 1996,
p.15).
A integração na Rede de Bibliotecas Escolares tem dado, sem dúvida, um grande
contributo e identidade à s bibliotecas escolares do ensino básico e
secundário, sobretudo através da consolidação de uma premissa central: o de que
a biblioteca escolar constitui um contributo essencial para o sucesso
educativo, sendo um recurso fundamental para o ensino e para a aprendizagem. De
facto, a vontade política expressa nos documentos com origem no Ministério da
Educação e no Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares de nada servem se não
houver intervenções a partir do interior das escolas. É aqui que reside a
principal preocupação em implicar todos os intervenientes, a necessidade de um
envolvimento efectivo da comunidade educativa: alunos, professores,
funcionários, pais, encarregados de educação... Torna-se também essencial que
se formem professores e funcionários na área de biblioteconomia, valorizando-se
os cargos do professor bibliotecário / coordenador e do funcionário da
biblioteca, pois não se pode esperar que a rede funcione sem profissionais
especializados (Vitorino, 2001).
O trabalho a desenvolver passa pela criação de condições físicas para a
existência e alargamento de Bibliotecas Escolares, pelo seu enriquecimento e
apetrechamento com material mais actual e adequado, pela existência de
programas normalizados de gestão da base de dados, pela integração natural da
BE nas práticas lectivas dos docentes, pela dinamização, pela formação, e pela
implementação de uma cultura de práticas de monitorização e avaliação.
Para objectivar a forma como se tem vindo a concretizar o trabalho das
Bibliotecas Escolares, conhecer o impacto que as actividades realizadas por
elas e com elas vão tendo no processo de ensino e aprendizagem, bem com o grau
de eficiência dos serviços prestados e da satisfação dos utilizadores, surgiu,
em 2008, o Modelo de Auto-avaliação das Bibliotecas Escolares. Devido à s
diferentes vertentes das dimensões deste modelo, este estudo focaliza-se
essencialmente no aspecto da relação e envolvimento dos Docentes com a
Biblioteca, nomeadamente no aspecto da articulação curricular. Canário (1998)
aponta a via do Projecto Educativo para operacionalizar esta articulação. No
entanto, o mesmo autor, também, refere que é na forma de se concretizar essa
articulação que reside uma das principais dificuldades identificadas nas
experiências portuguesas.
As Bibliotecas existem nas escolas, e são vários os estudos em Portugal que
apontam para uma considerável utilização por parte dos alunos (Alves, 2000,
Silva 2002, Conde, 2006)... Se as Bibliotecas já ganharam os alunos, o que
acontece com os professores? Qual a real e efectiva relação dos Docentes com a
Biblioteca? Conhecem o seu horário e os seus documentos orientadores (por
exemplo, o Plano de actividades/acção, o Regulamento Interno, o Modelo de auto-
avaliação...)? Recomendam a Biblioteca aos seus alunos? Utilizam - na quer
individualmente quer com os alunos? Como a utilizam? Consideram a sua
existência importante, podendo contribuir para a aprendizagem e para o sucesso
educativo dos alunos? Qual o grau de concordância com os indicadores apontados
pelo Modelo de Auto-avaliação de BE, no que diz respeito ao apoio ao
desenvolvimento curricular? Que modalidades e que tipo de trabalho gostariam de
realizar em articulação com a BE no desenvolvimento do currículo? Estas são
algumas das questões a que o presente estudo procura responder, no contexto de
uma Escola Secundária com 3.º ciclo duma localidade do Alentejo.
Os desafios e oportunidades das Bibliotecas Escolares
Os dias de hoje são caracterizados pela "Sociedade de Informação". A
evolução do paradigma tecnológico e das implicações profundas no acesso, uso e
comunicação da Informação, obrigam e obrigarão as Bibliotecas Escolares a
passar por grandes mudanças e transformações. Todd (2001), referenciando um
estudo onde se perguntou a professores bibliotecários quais os desafios mais
importantes, no momento actual, verificou que apontaram, em primeiro lugar, o
impacto da tecnologia da informação na biblioteca e o papel do professor -
bibliotecário. Assim, preparar os estudantes para enfrentar os desafios do
século XXI passa, prioritariamente, pela necessidade de solidificar e integrar
a literacia da informação nas práticas curriculares das escolas onde a
biblioteca terá um papel relevante. De acordo com Todd (2006), os alunos
reconhecem que quando as bibliotecas têm responsáveis com formação,
nomeadamente em literacia da informação, que colaboram com os alunos e
professores no sentido de transformar a informação em conhecimento, estão a
contribuir para o seu sucesso educativo e para o desenvolvimento das literacias
imprescindíveis nesta sociedade.
Todd (2001), de forma sintética, objectivou as transformações por que passam as
bibliotecas escolares actualmente: "-Knowledge space, not information
place - Connections, not collections; - Actions, not positions; - Evidence, not
advocacy ".
O contexto de trabalho de uma biblioteca e, consequentemente, dos professores
bibliotecários mudou significativamente nas últimas décadas com a explosão da
produção de informação e desenvolvimento das tecnologias de informação e
comunicação. Desta mudança, decorreu também uma alteração da filosofia e
prática educacional, privilegiando os resultados da aprendizagem, de uma
aprendizagem baseada na pesquisa (resource-based learning), na prática baseada
em evidências (evidence based practice) e na responsabilização das escolas
(Lonsdale, 2003). Vários estudos, essencialmente elaborados noutros países,
mostraram uma relação positiva entre bibliotecas escolares e o desempenho dos
alunos. De acordo com Lonsdale (2003, p. 6), este impacto só se vai concretizar
se a biblioteca:
"-executar um programa consistente, financiado e apoiado por
pessoal suficiente e com forte liderança;
- existir uma forte rede informática, conectando os recursos da
Biblioteca com a sala de aula e com os laboratórios;
- apostar nas relações de colaboração com os professores,
- possuir uma colecção com qualidade;
-implementar um ambiente "rico" no âmbito da literacia de
leitura, da literacia da informação...;
- providenciar um sistema de tutória para alunos carenciados;
- possuir recursos humanos qualificados;
-cooperar com outros tipos de bibliotecas, especialmente bibliotecas
públicas entre outras."
Na continuação desta reflexão, o mesmo autor, refere que é necessário integrar
a literacia da informação no currículo como forma de contribuir para a mestria
dos alunos na procura de informação, melhorando a sua auto-estima, a sua
confiança, a independência e sentido de responsabilidade em relação à sua
própria aprendizagem.
A literacia da informação, de acordo com Calixto (2009), pode ser entendida
como a "capacidade para avaliar a informação em diversos media, reconhecer
quando a informação é necessária; localizar, sintetizar, e usar a informação
com eficácia; e realizar estas funções usando a tecnologia, redes de
comunicação e recursos electrónicos" (p.18). Neste contexto, alteraram-se
as formas de procurar fontes de conhecimento e as concepções tradicionais da
colecção. Por colecção, entende-se um conjunto de recursos documentais, de
vários tipos e em diferentes suportes (livro, não livro e documentação on-
line), de acesso local ou remoto, geridos pelos responsáveis, que no caso de
uma biblioteca escolar se dirige para o desenvolvimento da acção pedagógica, em
articulação com o currículo e a sala de aula, para a promoção da leitura e a
formação dos utilizadores.
Assim, a colecção de uma biblioteca estende-se para o exterior do seu espaço
físico, constituindo cada vez mais um conjunto de recursos dinâmicos em que o
responsável pela sua gestão deve actuar como intermediário no acesso, selecção,
e avaliação dos recursos. O contexto pedagógico suscita práticas colaborativas
entre os responsáveis pela gestão e desenvolvimento da colecção e os
professores das diferentes áreas disciplinares que sustentam o ensino e a
aprendizagem nos recursos.
Lonsdale (2003), numa revisão da literatura em contexto internacional, que
realizou sobre o impacto das bibliotecas escolares no desempenho dos alunos
acabou por constatar as deficientes condições a que estão sujeitas muitas
bibliotecas, nomeadamente: a redução do número de professores bibliotecários e
a atribuição de outras responsabilidades para além das suas. No entanto, também
recolheu um conjunto de evidências que apoiam a contribuição da biblioteca
escolar nos resultados dos alunos, quando existe um enorme nível de cooperação
entre aquela, os docentes e os alunos e quando o professor bibliotecário tem
formação, uma atitude forte de liderança e uma atitude pró-activa. Também
Hannesdóttir (1995) identifica três factores gerais essenciais para que os
bibliotecários escolares sejam capazes de desenvolver e pà´r a funcionar
programas efectivos de bibliotecas escolares: possuir formação em bibliotecas,
em gestão e ensino que, aqui, "significa o interface com os professores
nos seus papéis de educadores a fim de desenvolverem utilizadores efectivos de
informação" (p.13). Segundo o mesmo autor, citado por Calixto (2009, p.
47), as competências do bibliotecário escolar passam pela "capacidade de
planear e desenhar em cooperação com o professor e estudantes, actividades e
trabalhos baseados na informação que apoiem o projecto educativo da escola,
incluindo as tecnologias de informação e as fontes disponíveis através de
canais electrónicos".
A biblioteca escolar tem passado por transformações assinaláveis resultantes da
evolução do paradigma tecnológico e das implicações profundas no acesso, uso e
comunicação da informação. Assim, pode-se então dizer que passaram de espaços
organizados com recursos destinados ao acesso da informação e ao lazer a
espaços de trabalho e de construção de conhecimento (Todd, 2001).
Deste modo, como reforço das políticas que se vêm implementando no sentido de
valorizar as Bibliotecas Escolares, refira-se a Portaria n.º 756/2009, de 14 de
Julho, que criou a figura do professor bibliotecário e o Despacho n.º 700/2009,
de 9 de Janeiro, que aprovou o modelo orgânico e operacional relativo à
execução do Plano Tecnológico da Educação (PTE) ao nível da escola. A grande
novidade é que o coordenador da biblioteca escolar passou a integrar a
composição dessa equipa PTE, o que sendo uma mais valia para a Biblioteca
Escolar, implica o alargamento do nível de competências do professor
bibliotecário, alterações ao nível das condições estruturais (recursos humanos
e materiais) e a mudança de práticas implicadas. Assim, cada vez mais, no
contexto da autonomia das escolas, estão criadas condições que responsabilizam
as próprias escolas pela efectiva e real apropriação e utilização plena da
Biblioteca Escolar. Os professores bibliotecários, cada vez mais, terão de
apostar na formação especializada e contínua, serem prospectivos, interventivos
e desenvolverem uma postura de investigação.
O Director da escola, enquanto "líder educativo", e elemento crucial
na construção de enquadramento e ambiente para o desenvolvimento do curriculum,
deve estar ciente da importância de um serviço eficaz de biblioteca escolar,
encorajar a sua utilização e assegurar uma Equipa para a Biblioteca, de acordo
com os documentos orientadores da RBE -
"O(a) director(a) deve trabalhar de perto com a biblioteca na
elaboração dos planos de desenvolvimento da escola, especialmente nas
áreas da literacia da informação e dos programas de promoção da
leitura. No momento da concretização das planificações, o director
deve garantir uma gestão flexível do tempo e dos recursos para
permitir aos docentes e aos alunos o acesso à biblioteca e aos seus
serviços (...) e ainda assegurar a cooperação entre a equipa docente
e a equipa da biblioteca" (IFLA/UNESCO, 2002, p.16).
Os coordenadores de departamento, como elementos responsáveis pela gestão dos
departamentos, devem cooperar com a Biblioteca Escolar, de forma a assegurar
que ela contenha os recursos de informação e serviços necessários e específicos
das suas áreas disciplinares e envolver a BE no desenvolvimento do currículo
através das suas planificações. Os professores devem cooperar com os
professores bibliotecários para que, em conjunto, optimizem o potencial dos
serviços da biblioteca, tais como:
"- desenvolver, instruir e avaliar a aprendizagem dos alunos ao
longo do curriculum
- desenvolver e avaliar as competências dos alunos em literacia da
informação e em conhecimento da informação
- desenvolver planificações de actividades lectivas
- preparar e conduzir programas de leitura e eventos culturais
- integrar tecnologias de informação no curriculum
- explicar aos pais a importância da biblioteca escolar"
(IFLA/UNESCO, 2002, p.12).
Para a existência de um Modelo de Auto-Avaliação para as Bibliotecas Escolares
Segundo Fuentes (1999), a avaliação é uma acção conjunta, "(...) la
evaluación es un proceso global y globalizado que se refiere a una actividad -
en este caso, biblioteca, centro de documentación o sistema bibliotecário o
documental - en su conjunto y a todas y cada una de las fases que componen
dicha actividad" (p.22). Continuando na linha apresentada por este autor,
pode-se então dizer que a avaliação tem que estar contemplada logo no primeiro
momento em que se começa a trabalhar num "esboço do projecto", pelo
que se pode falar de uma "avaliação anterior ou prévia" (com
incidência para a fundamentação teórica), de uma "avaliação simultânea com
a prática" (que analisa diariamente as acções realizadas e reorienta e
reorganiza o seu desenvolvimento) e de uma "avaliação posterior" (que
confronta os resultados obtidos com os planeados) no sentido de se ir
construindo continuamente.
A área da avaliação é uma questão emergente e actual e vários autores, citados
por McNicol (2004), pronunciaram-se sobre a necessidade e a importância de
incorporar a auto-avaliação na escola. A auto-avaliação implica um processo de
aprendizagem organizacional, potenciando o desenvolvimento de competências de
gestão, recolha, análise e aplicação de informação. Neste contexto, a
biblioteca, como um serviço/organização da escola não se pode demitir deste
processo. A auto-avaliação tem de ser encarada como um processo regulador e
formativo, tendo em vista a detecção das áreas a melhorar, ou seja, avaliar
para melhorar.
De acordo com Lonsdale (2003) e Conde & Martins (2009), diversos estudos,
realizados nos Estados Unidos da América, no Canadá, Reino Unido ou na
Austrália, países com um percurso e uma tradição maior nesta área, evidenciaram
o impacto que bibliotecas bem apetrechadas com colecções adequadas e com
condições e recursos humanos qualificados podem ter no sucesso educativo e nas
aprendizagens dos alunos. A American Association of School Libraries conduz um
inquérito anual, a nível nacional -"School Libraries Count!", com o
objectivo de recolher informação acerca da situação das bibliotecas escolares e
das mudanças ocorridas (DGIDC/RBE, 2008).
Em Portugal, a avaliação e conhecimento da realidade das Bibliotecas Escolares,
após mais de dez anos do lançamento do programa Rede de Bibliotecas Escolares,
foi iniciada com o Modelo de Auto-avaliação das Bibliotecas Escolares (RBE,
2008). Desde que, em 1996, foi lançado o projecto de Rede de Bibliotecas
Escolares - RBE (Veiga, et al., 1996), e de acordo com o documento RBE Modelo
de Auto-Avaliação das Bibliotecas Escolares (2008), cerca de 1800 escolas
foram, até então, integradas e outras estão em vias de integração. Nesta fase,
segundo a RBE, o aparecimento do Modelo de Auto-Avaliação das Bibliotecas
Escolares enquadra-se na estratégia global de desenvolvimento das Bibliotecas
Escolares portuguesas, com o objectivo de facultar um instrumento pedagógico e
de melhoria contínua que permita, na escola, avaliar o trabalho da Biblioteca
Escolar e o impacto desse trabalho no seu funcionamento global e nas
aprendizagens dos alunos. Este modelo apoia-se em "estudos
internacionais", que identificaram os factores decisivos para o sucesso da
missão que tanto o Manifesto da Unesco/ IFLA como a declaração da IASL apontam
para a Biblioteca Escolar - entre esses factores destacam-se os níveis de
colaboração entre o/a professor/a coordenador/a da biblioteca escolar e os
restantes professores "(...) na identificação de recursos e no
desenvolvimento de actividades conjuntas orientadas para o sucesso do aluno; a
acessibilidade e a qualidade dos serviços prestados; a adequação da colecção e
dos recursos tecnológicos" (Conde, Martins & Bastos, 2011, p.9). Esses
estudos apontam para a necessidade de se estabelecer relações entre a qualidade
do trabalho da e com a Biblioteca Escolar e os resultados escolares dos alunos.
O estudo - resultados, conclusões e reflexões
Este estudo, baseado numa investigação, no âmbito de um Mestrado em Educação,
centra-se no problema de saber qual a relação que os professores de uma Escola
Secundária com 3.º Ciclo estabelecem com a Biblioteca Escolar, no âmbito do
desenvolvimento do seu trabalho curricular e levou-nos à opção pela selecção
do inquérito como instrumento a implementar.
O questionário utilizado nesta investigação continha cinco perguntas abertas e
trinta e oito perguntas fechadas. Estas últimas incluíam questões dicotómicas,
de escolha múltipla com diferentes tipos de instrução, de ordenação e de
gradação. A opção por se privilegiar as questões fechadas deveu-se ao facto da
experiência nos indicar que a formulação de questões abertas, em questionários
aplicados na Biblioteca Escolar, noutros contextos, ficavam na maioria em
branco, sem resposta.
A população alvo foi constituída pelo conjunto de professores de uma Escola
Secundária com 3.º Ciclo, no ano lectivo de 2008/09. A decisão da aplicação do
questionário a todos os professores prende-se com os objectivos intrínsecos
desta investigação, mas também tem a pretensão de envolver todos os docentes,
como forma de despertar a atenção para a importância da utilização da
Biblioteca Escolar, e simultaneamente aferir da concordância e receptividade
dos docentes sobre indicadores do Modelo da auto-avaliação das BE, no que diz
respeito à articulação curricular da BE com as estruturas pedagógicas e os
docentes.
Ao longo deste estudo, nomeadamente na parte da fundamentação teórica,
constata-se uma crescente consciencialização da importância das Bibliotecas
Escolares, que está relacionada com a forma, também crescente, como tem vindo a
ser tratada institucionalmente. Apesar deste ter sido um processo lento, o
lançamento do programa da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), em 1996, foi,
sem dúvida, o factor decisivo desta mudança, já que pretendia, e pretende
ainda, integrar e criar condições para a existência e manutenção sustentada das
Bibliotecas Escolares.
Em 2008, o aparecimento do Modelo de Auto-avaliação para as Bibliotecas
Escolares, e a forma como tem vindo a decorrer a sua implementação - testagem,
numa primeira fase em algumas escolas, reformulação de acordo com as
experiências no terreno, a divulgação do modelo à s direcções das escolas,
através das Direcções Regionais, e a preocupação em formar os principais
intervenientes (os responsáveis pela Biblioteca na escola) sobre o mesmo - é
sem dúvida indicativo de que as Bibliotecas nas escolas estão a conquistar o
seu lugar e a ganhar uma visibilidade necessária ao desenvolvimento do seu
trabalho. Entenda-se que, quando se fala de Biblioteca Escolar, neste trabalho,
o conceito implícito diz respeito à disponibilização dos seus recursos físicos
e humanos e ao desenvolvimento de um plano que articule e apoie os
intervenientes, de acordo com o que está preconizado no modelo referido (A-
Apoio ao Desenvolvimento Curricular, B- Leitura e Literacia, C- Projectos,
Parcerias e Actividades Livres e de Abertura à Comunidade e D- Gestão da
Biblioteca Escolar). Para culminar todo este processo, refira-se a legislação
de Julho de 2009, que regulamenta a figura do professor bibliotecário e que
parece vir criar condições e permitir um trabalho mais consistente da
Biblioteca na escola. De referir, porém, as alterações legislativas
introduzidas posteriormente pelas Portaria n.º 558/2010, de 22 de Julho, e
Portaria n.º 76/2011, de 15 de Fevereiro, que podem conduzir a limitações no
exercício da função de professor-bibliotecário.
Este estudo nunca teve a pretensão de uma generalização dos resultados, por se
centrar no levantamento e estudo de uma situação particular duma Escola
Secundária com 3.º ciclo. No entanto, pode constituir-se como um reservatório
de pistas desencadeadoras de um processo de reflexão sobre o impacto que as
bibliotecas exercem nas escolas, através dos docentes, nas aprendizagens e no
sucesso dos alunos, como apontam as mais recentes tendências e estudos no
âmbito das bibliotecas já mencionados anteriormente.
Como a Biblioteca Escolar onde se desenvolveu este estudo integrou a RBE em
2000, partiu-se do pressuposto de que a mesma tem as condições mínimas
necessárias para poder ser utilizada pelos professores no desenvolvimento do
seu trabalho e, a partir daí, perceber a teia de relações que afinal se
estabelecem. Assim, no âmbito da problemática deste estudo pretendeu-se,
essencialmente, perceber qual a relação dos Docentes com a Biblioteca Escolar,
nomeadamente na sua integração com o desenvolvimento do currículo e a aceitação
dos Docentes relativamente aos indicadores do Modelo de Auto-avaliação, no que
diz respeito à articulação curricular da BE com as estruturas pedagógicas e os
docentes.
Para responder aos objectivos do estudo, foi construído um questionário que
articulava esses objectivos com as seguintes dimensões: I- Referências
pessoais, II- Sobre Bibliotecas, III- Sobre a Biblioteca Escolar e IV- O Modelo
de auto-avaliação das Bibliotecas Escolares.
Na dimensão I- Referências pessoais, a característica que parece mais
influenciar a utilização da Biblioteca Escolar pelos docentes e,
consequentemente, pelos alunos em situação de aula, é o grupo de recrutamento,
já que determina as disciplinas leccionadas. Assim, são os docentes dos grupos
de recrutamento 300 (Português), 400 (História), 410 (Filosofia) e 290
(Educação Moral e Religiosa Católica) que mais utilizam a Biblioteca Escolar, o
que vai ao encontro do que tradicionalmente está identificado na literatura
(Canário & Oliveira, 1992 e Mardis & Hoffman, 2007). Os professores dos
grupos de recrutamento de Economia e Contabilidade, Informática e Educação
Física são os que utilizam menos a BE, logo seguido dos de Matemática, Ciências
Físico - Químicas e Artes Visuais.
Na dimensão II - Sobre Bibliotecas, os docentes, de uma forma geral, possuem um
conceito de Biblioteca na linha do que se pretende para ela, isto é, uma
concepção virada para a disponibilização de informação, mas também um local de
produção, formação e dinamização cultural. Constata-se, também, a partir das
suas respostas, que estes docentes, durante o seu percurso escolar, foram
grandes frequentadores de bibliotecas e que essa característica, apesar de
sofrer um decréscimo, permanece actualmente. Pode-se mesmo dizer que os
docentes frequentadores de Bibliotecas, durante o seu percurso escolar, terão
mais tendência em utilizar a BE nas suas práticas e a envolver os seus alunos.
Na dimensão III- Sobre a Biblioteca Escolar, parece existir concordância quanto
ao modo de apresentar os documentos que dizem respeito à Biblioteca Escolar;
se são divulgados em reuniões ou grupos de trabalho, pela professora
bibliotecária, existe um reconhecimento mais expressivo dos mesmos, do que
simplesmente se forem divulgados e disponibilizados na página Web ou na
Biblioteca Escolar. Associando este dado a um maior conhecimento dos documentos
pelos membros da equipa, que são convidados a participar na sua própria
elaboração, leva a concluir da necessidade de, futuramente, se envolver cada
vez mais outros docentes também na elaboração destes documentos, fazendo
convites para integrar a equipa de trabalho, solicitando opiniões e sugestões e
utilizando as suas propostas.
Especificamente sobre a construção do Plano de Actividades da BE, que integra o
Plano Anual de Actividades da Escola, que se constitui como um dos mais
importantes documentos que operacionalizam o Projecto Educativo, cada vez mais
é necessário articular as suas actividades com a Direcção, os Departamentos, os
Conselhos de Turma e os responsáveis de Projectos e Clubes,... no sentido de se
concretizar e deixar transparecer um verdadeiro trabalho colaborativo. Para
toda esta articulação ser coerente, é necessário que o Projecto Educativo
contemple, reconheça e valorize, de forma explícita, as potencialidades da
utilização da Biblioteca Escolar e a sua contribuição para o sucesso educativo
dos alunos.
Na procura da relação necessária a estabelecer entre os Docentes e a Biblioteca
Escolar, tornou-se importante caracterizar a relação existente no que diz
respeito ao aspecto da sua utilização. Confrontando os diferentes dados
recolhidos, considera-se que os docentes parecem possuir uma ideia generalizada
de que utilizam e frequentam a biblioteca escolar mais intensamente do que na
realidade acontece. Esta constatação vai ao encontro do que Alves (2000) aponta
no seu estudo, isto é, os docentes apesar de reconhecerem as potencialidades da
Biblioteca Escolar não a utilizam de acordo com a importância que lhe atribuem.
Os docentes, quando questionados sobre o que vão fazer e como utilizam a
Biblioteca Escolar, elegem a requisição e a consulta de documentos. Quando se
deslocam com as turmas, apontam principalmente as opções que implicam a
utilização das TIC e a participação com a turma em actividades de dinamização
do Plano Anual da BE, que se encontra integrado no Plano Anual da Escola.
Pretendendo-se aferir a que tipo de estratégias concretas as bibliotecas
poderiam recorrer para promover uma ligação mais efectiva à sala de aula e à
mudança das práticas, questionaram-se os docentes muito abertamente. Assim,
sobre as sugestões / exemplos de formas e modalidades de trabalho que a BE
poderia realizar em articulação com o trabalho dos docentes, quem responde,
reporta-se essencialmente ao que já é habitual fazer: proceder a aquisições,
apoio à pesquisa, disponibilização de materiais, dinamização da BE através da
realização de sessões de leitura e de dramatizações, clube de leitura,
concursos vários, workshops, palestras, debates, contacto com personalidades...
Confrontando-se a forma como se vem utilizando a Biblioteca Escolar com o
desconhecimento da maioria dos docentes sobre os documentos específicos e
orientadores das mesmas, como os referidos "Lançar a rede" e Modelo
de Autoavaliação das Bibliotecas Escolares, conclui-se que os professores não
utilizam plenamente a Biblioteca Escolar nos actuais pressupostos dos vários
documentos orientadores nacionais e internacionais, e no contexto de uma
sociedade de informação e do conhecimento. Esta constatação remete para a
necessidade de se repensar a formação nesta área, a qual, seja qual for a sua
modalidade, deve ser dirigida não só aos professores bibliotecários mas também
a todos os docentes, independentemente do seu grupo de recrutamento. Tal oferta
formativa deve ter preocupações em incluir módulos que privilegiem estratégias
que permitam depois aos docentes fazer a apropriação da BE numa integração
natural com as suas práticas e privilegiar as potencialidades da Web.
Entretanto, cabe ao professor bibliotecário ser o agente impulsionador desta
mudança, divulgando e organizando actividades que possam servir como exemplo na
escola, ou chamando a ele próprio a responsabilidade de organizar sessões de
(in)formação de utilizadores para professores que passe, para além da
divulgação da colecção/organização da BE, por impulsionar a discussão e
reflexão conjuntas de formas/modalidades de utilização da Biblioteca Escolar, e
por implementar e ensaiar estratégias que envolvam os professores. No entanto,
mesmo existindo professores bibliotecários que possuam as competências e
requisitos exigidos, terão sempre que ter na escola o apoio da Direcção e,
principalmente, dos docentes, pois são estes últimos que determinam a
utilização da Biblioteca Escolar durante os períodos de aula, já que
actualmente os horários dos alunos são elaborados de modo a evitar períodos sem
aulas, e também porque, quando falta algum professor, devido à s aulas de
substituição, os alunos estão ocupados.
Uma elevada receptividade a integrar a Equipa BE demonstrada pelos docentes,
neste estudo, poderá ser indicativo duma tomada de consciência das
potencialidades da Biblioteca Escolar. Porém, seria necessário aprofundar este
aspecto em estudos posteriores.
Em relação à s publicações da Biblioteca Escolar (jornal, boletim, blogue,
página Web), concluiu-se que o facto de ser ou não gratuito não influencia a
sua consulta. Todavia, o suporte em que a informação é disponibilizada, já
poderá ser condicionador, com vantagens para o suporte em papel.
Na dimensão IV, sobre o Modelo de Auto-avaliação das Bibliotecas Escolares,
existe um quadro favorável à sua aplicação nesta Escola. Especificamente sobre
cada indicador/afirmação apresentada, prevalece uma opinião de concordância que
o teste de Friedman permitiu hierarquizar, elegendo a divulgação dos materiais
produzidos pela BE através dos seus meios de difusão, e logo a seguir a
necessidade da Biblioteca Escolar se inteirar dos diferentes currículos e
programas de estudo de todos os departamentos / grupos e aceitar a sua
integração nas planificações.
Paralelamente ao objectivo de se averiguar da concordância da aplicação do
Modelo de Auto-avaliação das Bibliotecas Escolares para os indicadores
propostos, pretendia-se simultaneamente preparar terreno para a sua
implementação na escola, o qual se considera concretizado, já que ao aplicar o
questionário sobre o qual se baseou este estudo a todos os professores da
escola, também se chamou a atenção para a necessidade de uma articulação mais
efectiva ou, pelo menos, para uma temática a reflectir e a considerar
futuramente.
Recomendações
As recomendações deste estudo vão no sentido de que, neste processo de Auto-
avaliação das Bibliotecas Escolares, deve ficar claro as reais condições que as
Bibliotecas Escolares efectivamente possuem para o desenvolvimento do seu
trabalho. Refira-se como exemplos: o apoio da Direcção Executiva, evidenciado
na atribuição de um orçamento, na existência de um Projecto Educativo que
valorize a sua Biblioteca, na criação de condições para a participação dos
professores bibliotecários nas diferentes estruturas, equipas e projectos, na
constituição de uma equipa consistente e mais permanente e, a partir de agora,
também na transparência do processo de designação e candidatura do professor
bibliotecário.
Este trabalho debruçou-se sobre as bibliotecas escolares, em particular sobre
uma Biblioteca Escolar de uma Escola Secundária com 3º Ciclo, e na relação que
os docentes estabelecem com ela. Esta é uma relação necessária, essencialmente,
como forma de se utilizar um serviço que existe na escola e que é necessário
rentabilizar, de modo a apoiar-se o desenvolvimento curricular, como uma
possibilidade de se diversificar práticas num contexto cada vez mais
direccionado para uma auto construção do conhecimento, a partir da informação
disponível nos mais diversificados suportes, como para a necessidade de se
criar na escola um pólo dinamizador de uma cultura de leitura e da compreensão
leitora, já que esta é essencial para a consolidação das aprendizagens nestes
níveis de escolaridade e a base do sucesso educativo, como estratégia para a
promoção do trabalho colaborativo na escola, como resposta para os níveis de
exigência preconizados nos modelos de avaliação, em particular do Modelo de
auto-avaliação de Bibliotecas Escolares para os seus domínios, como resposta
à s necessidades dos alunos, principalmente dos mais carenciados, como
propostas de ocupação dos tempos livres e de lazer...
Este estudo nunca estará verdadeiramente concluído, pois cada escola é um caso
e mesmo dentro de cada escola, todos os anos, os contextos são diferentes pelas
mudanças que os diferentes intervenientes e o tempo imprimem.