Desafios da inclusão em Portugal: a importância das atividades de tempo livre
na promoção das aprendizagens
Introdução
Discutir os desafios da inclusão de pessoas com deficiência no contexto escolar
nos remete ao debate do paradigma da inclusão no contexto da globalização e a
relação com a educação, lócusem que se situam as mudanças educacionais e
curriculares do ensino fundamental em Portugal e as atividades de tempo livre
(ATL's) como parte das atividades de enriquecimento curricular
(AEC's).
Parte-se da complexidade que tem sido o debate acerca da inclusão, em que pese
a legislação e os acordos nacionais e internacionais a temática encontra-se
permeada de controvérsias, pois há os que defendem a inclusão do aluno com
deficiência na escola regular e a exigência de novos posicionamentos, ou seja,
todos na escola para todos e lá se criem as condições para que as aprendizagens
ocorram; e os que defendem a existência paralela de um sistema de educação
especial, uma vez que a escola regular não possui estrutura física e/ou
pedagógica e nem pessoal capacitado para atender a estes sujeitos. Tendo este
debate como referência, pretende-se ultrapassar a polarização e despertar para
a urgência de discutir/analisar práticas educativas que contribuam para a
inclusão da pessoa com déficitde aprendizagem no sistema escolar, que suplante
a fase inicial da socialização e desenvolva processos de cognição, de modo a
inclusão tornar-se realidade.
Na busca deste objetivo o foco da análise é o processo de inclusão de uma
criança brasileira de 6 anos com síndrome de Down (SD), que tem sua matrícula
efetivada numa escola de Lisboa/Portugal e que passa a frequentar as
AEC's no Centro Social e Paroquial da respectiva freguesia (CSPC) que
possui um Centro de Actividade de Tempo Livre (CATL). Neste processo, busca-se
apreender a dinâmica da inclusão e a contribuição das AEC's no
desenvolvimento das aprendizagens. Como estas atividades que agregam processos
de construção e ludicidade a partir da ideia de tempo livre se relacionam com o
currículo escolar e podem ajudar no desenvolvimento das aprendizagens da pessoa
com deficiência?
A investigação desenvolve-se sob a orientação do tipo de pesquisa qualitativa,
sob a abordagem do estudo de caso, pois a especificidade é o processo de
inclusão de uma criança com SD. Ao passo da opção metodológica foram utilizados
os seguintes procedimentos para a coleta de dados:
• Aplicação de questionário com perguntas abertas a 8 (oito) educadores, que
envolvem os professores das áreas de ensino e educadores de apoio que atuam no
CSPC, com as ATL's do 1º ciclo em parceria com a respectiva escola,
especificamente com os alunos do 1º ano;
• Realização de entrevista semi-estruturada com a Coordenadora Pedagógica e
Assistente Social a fim de conhecer a dinâmica do CSPC;
• Análise do Plano Anual de Actividades - 2010/211, que expressa o
planejamento teórico e metodológico da instituição. A fala dos educadores
expressas em respostas no questionário, que foram numerados aleatoriamente a
fim de não permitir a identificação do educador, são o principal objeto de
análise, em que se busca apreender os aspectos da inclusão e do desenvolvimento
da aprendizagem do sujeito e relacionar as AEC's no campo das mudanças
curriculares aos processos de inclusão em Portugal no contexto da globalização.
Assim, a problemática situa-se na realidade educacional portuguesa, que para
sua compreensão parte-se da contextualização histórica do processo de inclusão
e as dificuldades em torno de um paradigma incorporado no fazer escolar. As
ações curriculares são analisadas a partir das AEC's nas práticas das
ATL's e no desenvolvimento das aprendizagens, no acontecer da inclusão
apreendido a partir da fala dos educadores. Os discursos são organizados e
analisados a partir dos objetivos das questões e didaticamente apresentadas sob
a forma de quadro sintético, a partir de palavras e/ou frases chaves que possam
denotar a compreensão do processo e o que cada educador expressa.
Neste sentido, os autores se propõem a refletir sobre a inclusão escolar como
um processo que precisa ser analisado a partir de um olhar da ação proactiva,
capaz de avançar como um paradigma da educação, que precisa ser discutido,
negado e afirmado a partir das suas dimensões teóricas e práticas.
Globalização e Currículo. O prolongamento do tempo escolar a partir das
AEC's
A superação do desafio de efetivar a inclusão de pessoas com deficiência em
escolas regulares requer mudanças de paradigmas sociais e educacionais que
possam intervir, diretamente, na concepção de educação, currículo e prática
educativa. No contexto da globalização tais mudanças tomam novos contornos,o
que faz necessário perceber a natureza da globalização que se fala e sua
relação com as mudanças curriculares na construção de uma agenda global em que
a inclusão apresenta-se como uma diretriz.
A abordagem defendida por Roger Dale (2004, p.444) da existência de uma agenda
globalmente estruturada para a educação (AGEE) parte do pressuposto de que a
globalização envolve três conjuntos de atividades relacionadas entre si,
econômica, política e cultural. E busca identificar uma mudança de paradigma
que "afectou directamente, mas de uma forma mais significativa,
indirectamente, através do impacto da globalização sobre o estado, os sistemas
políticos educativos". No conjunto destas mudanças provocadas pelos
processos de globalização, a educação tem sido o fator chave da busca da
normalidade e competitividade entre nações e estados; mecanismo de padronização
de comportamentos e práticas. Contudo, não se constitui "currículo
mundial" como enseja a abordagem da cultura educacional mundial comum
(CEMC) que indica "um conjunto universal de normas, ideias e valores que
independente de qualquer delas informam e modelam a própria natureza dos
estados, assim como das suas políticas" (Dale, 2004, p.436). O autor
admite que alguns aspectos dos sistema educativo se fundem em guiões comuns,
contudo não se justifica a existência de um "currículo mundial",
pois para além de ser assumido precisa ser demonstrado. "Tal implicaria
não só no aprofundamento da investigação empírica, mas também no
desenvolvimento de uma teoria sobre como (através de que instituições), e com
que efeitos, o currículo foi criado, difundido e implementado" (Dale,
2004, p. 455).
Então é possível pensar as influências da globalização nos sistemas educativos
e na prática do currículo escolar a partir da agenda global que prioriza o
apoio aos processos de acumulação, sua contínua expansão e legitimação. Neste
sentido, são perceptíveis as prescrições educacionais a partir dos acordos
mundiais e as proposições das agências internacionais de financiamento (Estrela
e Teodoro, 2008), sem atentar para as diversidades culturais e "as
implicações sociais que envolvem o ato educativo e que constituem saberes
distinto" (Dorziat, 2008, p.59).
Estrela e Teodoro (2008), a partir de Dale (1999; 2004), sustentam a ideia da
influência da globalização nas políticas educacionais e acrescentam, como parte
de uma agenda globalmente estruturadapara a educação, a operação de forças
econômicas supra e transnacionalmente para romper ou ultrapassar as fronteiras
nacionais, traduzindo, simultaneamente, as relações entre os países. Contudo,
admitem que estas forças supranacionais não pretendem a priorisubstituir o
Estado, antes poderão afetar as políticas e as práticas educativas nacionais de
diferentes formas e intensidades nos mais diversos Estados, uma vez que esses
efeitos são sempre mediados pelo local.
É neste sentido, que é possível um conjunto universal de padrões que
influenciam na natureza dos Estados e de suas políticas. Todavia, não esgotam
ou determinam a agenda acerca das políticas educacionais, pois hão de
considerar as dinâmicas da sociedade civil e os movimentos organizados que
exercem pressões sobre a política do Estado; expressam interesses e
articulações que ganham força no contexto das relações sociais e políticas;
corroboram com o enfraquecimento do poder do Estado e reconduzem proposições e
definições políticas.
Nesta dialeticidade se inserem os desafios da educação inclusiva, pois o
preenchimento da lacuna entre o que diz a lei e o exercício da prática é
significante para a garantia da permanência qualificada de todos na escola. O
alcance da premissa de uma educação inclusiva implica em adotar a educação sob
a perspectiva humanitária, que considere as habilidades e não as deficiências,
que incorpore os conceitos de interdisciplinaridade, a troca de saberes na
constituição de experiências positivas para todos e todas; a sensibilização de
modo a facilitar a aprendizagem e a inserção dos alunos nos contextos sociais,
conforme explicita Sanches e Teodoro (2007, p.114) "A educação inclusiva
pressupõe escolas abertas a todos, onde todos aprendam juntos, quaisquer que
sejam as suas dificuldades, porque o acto educativo se centra na diferenciação
curricular inclusiva,construída em função dos contextos de pertença dos
alunos". Neste sentido, importa pensar como se estrutura o currículo do
1º ciclo básico das escolas de Lisboa? Em que aspectos as atividades
curriculares de tempo livre contemplam a inclusão de pessoas com deficiência?
A estrutura curricular
1
do ensino em Portugal ampara-se na Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) -nº
46/1986 de 14 de Outubro, em que consta a especificação do ensino básico que
compreende três ciclos sequenciais, sendo o 1.º ciclo de quatro anos e,
conforme o Art. 8º, nº1, alínea "a" deve ser "globalizante,
da responsabilidade de um professor único, que pode ser coadjuvado em áreas
especializadas". Todavia é o Despacho nº 19 575/2006 de 25 de setembro
que determina os tempos mínimos do Programa do 1º ciclo, são eles:
1- Os tempos mínimos para a leccionação do programa do 1.o ciclo são
: Língua Portuguesa - oito horas lectivas de trabalho semanal, incluindo uma
hora diária para a leitura; Matemática - sete horas lectivas de trabalho
semanal; Estudo do Meio - cinco horas lectivas de trabalho semanal, metade das
quais em ensino experimental das Ciências; Área das expressões e restantes
áreas curriculares -cinco horas lectivas de trabalho semanal.
E a mesma Lei, no Artigo 48º, define o que seja ocupação dos tempos e desporto
em seus objetivos, estrutura as disciplinas a serem desenvolvidas e atribui a
escola sua organização:
1 - As actividades curriculares dos diferentes níveis de ensino devem ser
complementadas por acções orientadas para a formação integral e a realização
pessoal dos educandos no sentido da utilização criativa e formativa dos seus
tempos livres. 2 - Estas actividades de complemento curricular visam,
nomeadamente, o enriquecimento cultural e cívico, a educação física e
desportiva, a educação artística e a inserção dos educandos na comunidade. 3 -
As actividades de complemento curricular podem ter âmbito nacional, regional ou
local e, nos dois últimos casos, ser da iniciativa de cada escola ou grupo de
escolas. 4 -As actividades de ocupação dos tempos livres devem valorizar a
participação e o envolvimento das crianças e dos jovens na sua organização,
desenvolvimento e avaliação....
Estas atividades, contudo se ampliam amparadas no Despacho n.º 12.591/ 2006,
revogado pelo Despacho 14.460/2008 que mantêm a determinação no ponto 5 do
alargamento do horário da escola que "manter-se-ão obrigatoriamente
abertos pelo menos até às 17 horas 30 minutos e no mínimo oito horas
diárias". É a chamada "escola a tempo inteiro", este
alargamento de horário do funcionamento da escola conduziu à necessidade de um
reforço na organização, que passou a requerer ligações e parcerias com
autarquias, associações de pais e diversas instituições existentes na
comunidade para o desenvolvimento das AEC's, conforme é explicitado nos
ponto 9 e 10 dos respectivos despachos:
9 - Consideram -se actividades de enriquecimento curricular no 1.º ciclo do
ensino básico as que incidam nos domínios desportivo, artístico, científico,
tecnológico e das tecnologias da informação e comunicação, de ligação da escola
com o meio, de solidariedade e voluntariado e da dimensão europeia da educação,
nomeadamente: a) Actividades de apoio ao estudo; b) Ensino do Inglês; c) Ensino
de outras línguas estrangeiras; d) Actividade física e desportiva; e) Ensino da
música; f) Outras expressões artísticas; g) Outras actividades que incidam nos
domínios identificados. 10 - Os planos de actividades dos agrupamentos de
escolas incluem obrigatoriamente para todo o 1.º ciclo como actividades de
enriquecimento curricular as seguintes: a) Apoio ao estudo; b) Ensino do
Inglês.
Segundo os argumentos do Despacho n.º 14.460/2008 o Ministério da Educação
partilha com outras instâncias da sociedade civil a consolidação do reforço às
competências escolares através da organização de respostas diversificadas, em
função das realidades locais, que permitem que as escolas proporcionem
AEC's aos alunos. E considera uma urgência adaptar os tempos de
permanência das crianças nos estabelecimentos de ensino às necessidades das
famílias e ao mesmo tempo, oportunizar o acesso a tempos pedagogicamente ricos
e complementares das aprendizagens associadas. Neste sentido, a escola passa a
desempenhar algumas funções da família, como cuidar/educar o dia todo, uma vez
que lhe é facultado um programa educativo "escola a tempo inteiro"
que integra o currículo letivo
2
e constitui atividades definidas e direcionadas que aumentam a carga de
trabalho escolar formal, basicamente equiparada ao trabalho dos adultos.
A rigidez curricular, e o aumento do tempo escolar voltado à formação técnica
são observados pela Coordenadora Pedagógica e a Assistente Social do CSPC, pois
ambas assinalam que cada vez mais as atividades de enriquecimento curricular
são pensadas para serem aulas, em que se perdem a ludicidade, as opções
(música, plástica, etc.) são organizadas por turmas, muitas vezes sem ter em
conta os interesses das crianças, fato que pode ser verificado no Plano Anual
de Atividades (2010/2011, p.42) - 2.91 - Enquadramento das rotinas:
Horário CATL 2010/2011 que define horários, turmas e atividades. Como as
crianças ficam em horário oposto ao da escola, têm obrigatoriamente de
participar das atividades que são organizadas em função das idades e anos de
escolaridade. Neste sentido, é preciso ter consciência do que significa ser
criança e as metodologias necessárias a dinâmica do "tempo livre"
para que possam ocorrer processos de democratização, autonomia e criação, de
modo a não se perceber diferenças substanciais entre as aulas escolares e as
AEC's.
Neste sentido, as ATL's devem ser adequadas às diversidades dos alunos e
concretizar-se em projetos articulados com o currículo a fim de contribuir para
promoção das aprendizagens. No entanto, deve-se reconhecer que por vezes
existem discrepâncias entre as orientações do Ministério da Educação e a
prática efetiva das atividades escolares, o que torna fundamental compreender
as mudanças curriculares ocorridas no âmbito da escola portuguesa no contexto
de governação das políticas educativas propostas pela União Européia. Segundo
Elsa e Teodoro (2009, p.09), estas "podem ser entendidas como uma fixação
autoritária de valores, dado que constituem uma retórica operacional e
intencional com intenção prescritiva..."
O aumento do tempo escolar ao estruturar-se sob a perspectiva de mais uma
programação curricular com horários e disciplinas acaba por descaracterizar a
construção da democratização da escola e o projeto de escola para todos, pois
firma a dimensão da racionalidade técnica sob a orientação pragmática e
mercadológica da escola. Tais orientações segundo Teodoro e Anibal (2008, p.87)
inserem-se no que denominam de hibridismo da política educativa em Portugal, a
partir de definidas ações.
O novo ciclo de governação política iniciado em 2005, com a vitória do partido
Socialista (e o seu líder José Sócrates) parece caracterizar-se pela emergência
de políticas de racionalização que assentam em duas vertentes: i)
'moralizar' o sistema da escola pública como factor de justiça
social e promoção da igualdade de oportunidades, e ii) promover o controlo
social, defendendo uma avaliação externa das escolas e dos professores por
agentes da sociedade civil.
O discurso que fundamenta a intencionalidade das políticas é analisado por
Teodoro e Anibal a partir da entrevista da então Ministra da Educação, Maria de
Lurdes Rodrigues, acerca do significado de "igualdade de
oportunidades" em relação ao objetivo do prolongamento de horário nas
escolas "...é o de garantir que, no espaço da escola todos os alunos
tenham acesso gratuito a um conjunto de recursos" e "as escolas
devem garantir a universalidade do acesso" (Teodoro e Aníbal, 2008,
p.87).
O prolongamento do tempo escolar, o currículo pautado em disciplinas e
competências e a busca da eficiência do sistema educativo na garantia da
universalidade do acesso fazem parte do que Pacheco e Pereira (2007) denominam
de europeização do currículo, que se processa em todos os níveis de ensino e
tem por base a centralidade do conhecimento, a adaptação de políticas sociais
mais eficientes e o controle dos sistemas de educação e formação.
Na região geográfica da União Européia, a globalização educacional traduzse em
registros de formação centrados na aquisição de competências, ligadas às
Ciências, à Matemática, ao Inglês e às Tecnologias de Informação e Comunicação,
com vista à edificação da Europa do conhecimento (Pacheco e Pereira, 2007,
p.376).
As políticas de conhecimento uniformes são as bases para as escolas seguirem um
plano curricular estruturado em disciplinas, cujos conteúdos, essencialmente
daquelas que são mais estruturantes, tendem para a similaridade a nível local e
global. Este sentido curricular é potencializado pela existência de estudos de
avaliação internacionais, caso do Programa Internacional de Avaliação de
Estudantes (Pisa), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE), que contribuem para a instauração de padrões educacionais comuns na
agenda global, em que o centro do debate educacional é o conhecimento
utilitarista e a lógica das competências a partir de uma estrutura homogênea de
saberes. Assim, as políticas educacionais situadas no contexto da globalização
reconduzem o currículo a partir da valorização profissional em que os conteúdos
envolvem-se no mundo tecnicista. "O mundo artificial (matérias,
instrumentos, recursos, lugares e ritmos) é apresentado como um reino maquinal,
substituindo os reinos naturais (mineral, vegetal, animal); visa-se à
apropriação das técnicas de informação e de comunicação; à promoção de uma
pedagogia de acção" (Pacheco e Pereira, 2009, p.382).
É nestes termos que o currículo adquire centralidade, forma e sentido uma vez
que se materializa em função do tempo, do espaço social e histórico e se
configura como "uma construção social e cultural ligada a propósitos
políticos e econômicos" (Pacheco, 2011, p.77). E corroboram as
organizações trans e supranacionais para a efetivação das mudanças de
paradigmas no currículo, que no contexto da globalização inserem a
homogeneização e legitimação das políticas educacionais na agenda global.
Diante desta perspectiva teórica e prática do currículo questiona-se como este
pode oportunizar o desenvolvimento de habilidades cognitivas das pessoas com
deficiência? Ou mesmo é possível construir uma educação inclusiva no cotidiano
do espaço escolar, com currículos disciplinares pautados em competências e
competitividades individuais?
A inclusão em Portugal: o que pensam os/as educadores.
Além destes questionamentos que a relação globalização e currículo nos propõem
é pertinente pensar nos desafios da inclusão a educadores, pais e a sociedade
de modo geral. Principalmente, no que se refere a efetivação dos preceitos
legais na prática educativa e a necessidade de ultrapassar simples processos de
socialização e/ou integração escolar, o que vem requer mudanças de paradigmas
sociais e educacionais que afetam as concepções históricas de perceber a pessoa
com deficiência para além de sua condição tipológica e/ou das necessidades
educativas especiais. Todavia, um novo modelo de sociedade, educação e sujeito
pautado na inclusão não se constrói apenas com Leis ou acordos nacionais e
internacionais, necessário se faz ir à radicalidade da problemática, às
práticas sociais, lócus da ação onde se constroem e realizam concepções e
práticas cotidianas de inclusão/exclusão. Então, como superar a exclusão de
sujeitos, como a marca da diferença que até o século passado eram consideradas
perigosas e segregadas em manicômios
3
O paradigma tradicional da coisificação do sujeito pautado no modelo médico,
individual que institucionaliza a segregação da pessoa deficiente, não responde
mais as necessidades da sociedade do capital que ao implantar processos de
industrialização e desenvolvimento econômico assegura a "igualdade de
todos". Princípio referendado na Declaração dos Direitos Humanos (1948,
Artigo I) "Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e
direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às
outras com espírito de fraternidade", mas nem sempre executado quando se
trata das diferenças, seja por credo, raça, deficiência e tantas outras marcas
que fogem ao padrão da normalidade. Contudo, é o princípio da igualdade de
direitos que conduz o questionamento de pais, educadores, profissionais e
deficientes, dentre outros a rever atitudes e práticas preconceituosas¸
principalmente em relação às pessoas com deficiência intelectual, e faz emergir
movimentos a favor da integração como alternativa a segregação
4
.
O princípio basilar da integração é a normalização que objetiva adaptar o
sujeito ao meio social e atinge todas as pessoas que trazem a marca da
incapacidade, dificuldade ou inadaptação, ou seja, os que se encontram em
estado de anomalia. Durkheim (1983) na obra As Regras do Método Sociológico
diferencia
a. o normal do patológico, cria padrões de normalidade e considera anomalia
um desvio de conduta que afeta toda a sociedade. O que quer dizer que
anomalia em algum setor da sociedade, seus efeitos são sentidos, de alguma
forma, em toda a sociedade. Para tanto Durkheim (1983, p.18) aponta três
elementos para esta distinção: i) Um fato social é normal para um tipo
social determinado; ii) a generalidade do fenômeno social deve está ligada
às condições da vida coletiva do tipo social; iii) A diversificação é
necessária quando um fato diz respeito a uma espécie social que ainda não
cumpriu uma evolução integral. Desta forma
b. o patológico ou excepcional é aquele que se desvia da normalidade, pois
não se reporta as regras gerais de vida em sociedade, precisando evoluir e
passar por processos de coerção. Essa teoria fundamentou práticas de
segregação ao
c. atendimento da normalidade, criando a educação especial, as escolas
especiais e a sala especial com o objetivo de conduzir os sujeitos
inadaptados ou com deficiência à socialização no todo social. Nesta
perspectiva, a escola teria a função de regulação para o alcance do todo
orgânico e harmonioso
5
.
A ideologia da normalização apregoava a necessidade de inserir o indivíduo
deficiente na sociedade, de modo que este adquirisse os padrões, mais próximo
da vida cotidiana. O pressuposto sustenta a ideia do direito a cidadania e
amplia os processos de socialização e adaptação das pessoas com deficiência.
Contribui o movimento dos heróis mutilados, advindos da segunda guerra mundial
que fomentaram a luta pela garantia dos direitos, pois era inadmissível estes
viverem em condições sub-humanas depois de lutarem pelo seu país. Tais
propósitos alargaram a luta pelo reconhecimento dos direitos civis, de
igualdade, fraternidade, solidariedade e a conquista da integração para a
construção de outro paradigma, o da inclusão pautado nas diferenças.
Em Portugal, ainda, predominava o modelo médico-pedagógico, marcado com as
ações do Instituto Antonio Aurélio da Costa Ferreira
6
que iria assentar as bases da Educação Especial de iniciativa do Estado. As
primeiras classes especiais são criadas em 1946
7
para os deficientes mentais, criando o Ensino Especial oficial. "Os
deficientes sensoriais - visuais e auditivos - continuavam
entregues as Misericórdias..." (Lopes, 2005, p.28). A conscientização da
exclusão realizada pelas instituições sociais e a humanização da cultura no pós
II guerra mundial
8
sinalizam para mudanças neste campo, pois os países mais avançados da Europa
já substituíam o modelo médico pelo modelo social
9
, como uma reação às abordagens biomédicas. "Em 1963 existiam em Portugal
72 classes especiais. Em França, no mesmo ano, elas eram um número de
4020" (Lopes, 2005, p.28).
Situação que segue no Governo totalitarista de Antonio Oliveira Salazar
(1932- 1974) ao transferir a responsabilidade das custas da deficiência
ao indivíduo e sua família (Estatuto da Assistência Social - Lei n. 1998, de
15/05/1944) que apesar de admitir que a promoção das condições de vida dos
pobres era uma responsabilidade do Estado, a assistência pública devia apenas
complementar a iniciativa privada. As mudanças são forçadas pelas exigências de
escolarização obrigatória, industrialização e o plano de intervenção da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que "Ao
quebrar o isolamento de Portugal e ao obrigar à elaboração regular de
relatórios detalhados sobre a situação económica e educativa que mostravam, de
forma brutal, a distância a que o país se encontrava de outros seus
parceiros..." (Teodoro, 2003, p.64).
Esta consciência e vontade de liberdade são encetadas pelo processo de
democratização, que tem seu auge com a Revolução dos Cravos em 1974, momento
também propício para a organização do movimento de pais, profissionais e
deficientes na buscar de alternativas. Contribui, especialmente, a guerra
colonial (1961-1975) ao promover crescente politização e questionamentos acerca
das concepções tradicionais da deficiência. Segundo Fontes (2008, p. 14),
10
vários fatores contribuíram para esta alteração:
Em primeiro lugar, o regresso a Portugal de um elevado número de militares com
incapacidades adquiridas durante a guerra, no auge da sua vida activa. Em
segundo lugar, a falta de oportunidades e exclusão sentidas por estes militares
deficientes ao regressarem a um país habituado a olhar a questão da deficiência
sob a perspectiva da caridade e para as pessoas com deficiência como incapazes.
E, por fim, o enclausuramento de muitos destes militares em hospitais e em
contacto directo e constante uns com os outros, criando uma consciência
colectiva e política da sua situação.
É o processo de democratização do país e o conjunto das proposições da
Organização das Nações Unidas (ONU) com a Carta para os Anos 80
11
que corroboram para um olhar diferenciado acerca da deficiência em Portugal ao
definir os objetivos a serem atingidos com relação a participação de todos, a
igualdade de direitos para as pessoas deficientes em todo o mundo (Silva,
2009).
Nesta perspectiva a LBSE explícita no Art. 17° que a Educação Especial tem o
objetivo de recuperar e integrar os indivíduos com necessidades educativas
especiais. Destarte, na letra da Lei observa-se a perspectiva médica e
individual presente sob a concepção de recuperação e integração do sujeito que,
provavelmente, passa por anomalia. O Art. 18° fixa o modelo da educação
especial, preferencialmente, segundo modos diversificados de integração em
estabelecimentos regulares de ensino, levando em conta as necessidades de
atendimento específico, e apoios de educadores especializados. Este artigo
define que a educação especial pode ocorrer em instituições específicas, quando
comprovadamente o exijam o tipo e o grau de deficiência do educando.
Todavia, os anos de 1990 são reveladores do paradigma da inclusão em todo o
mundo, ganha força os vários movimentos em defesa da política de inclusão a
partir da Conferência Mundial sobre Educação Para Todos (Jontiem, 1990), em que
se firma o compromisso entre os 155 países participantes de assegurar as
necessidades básicas referentes à aprendizagem de pessoas com deficiência. Na
busca de uma educação para todos e todas a Conferência Mundial sobre
Necessidades Educativas Especiais (Salamanca, 1994) pautou a discussão sobre os
princípios, políticas e práticas no sentido de promover a aprendizagem e
atender às necessidades de cada criança individualmente. A Declaração reafirma
o direito de todas as pessoas à educação, já contido na Declaração Universal
dos Direitos Humanos e Renova o empenho da comunidade mundial sobre a igualdade
de oportunidades para as pessoas com deficiência, no qual o Estado seja parte
integrada do sistema educativo. Para o movimento de inclusão em todo o mundo,
esses documentos são pilares do paradigma da inclusão, pois propõem desafios ao
sistema educacional, educadores e a sociedade, no sentido de se reestruturarem
para uma melhor acolhida às pessoas, em suas diferenças e necessidades
educativas.
O compromisso político pedagógico firmado entre vários países, inclusive
Portugal, oportuniza o debate, e criar as condições para que todos tenham aces-
so à escola, ao sistema regular de ensino. É sob este prisma que o Despacho
105/97, de 1 de julho regula e estabelece os princípios de uma escola
democrática e de qualidade, normativa os apoios educativos que devem centrar-se
nas escolas sob a forma de intervenções diversificadas, necessárias ao sucesso
educativo de todas as crianças e jovens, como expressa o argumento do Despacho.
"Confere-se clara prioridade à colocação de pessoal docente e de outros
técnicos nas escolas, consubstanciando as condições para a integração e o
sucesso de todos os alunos". Esses docentes de apoio educativo tinham
como função "prestar apoio educativo à escola no seu conjunto, ao
professor, ao aluno e à família, na organização e gestão dos recursos e medidas
diferenciadas a introduzir no processo de ensino/aprendizagem" (Despacho
105/97, ponto 3, alínea a). Acerca da respectiva legislação Dorziat (2009: 278)
analisa que "este despacho aponta para um sistema único, englobando
simultaneamente a educação regular e a especial, numa preocupação conjunta,
pelo atendimento de todas as crianças na turma".
O Despacho supracitado foi reeditado pelo Despacho 10.856/2001, de 13 de maio
de 2005 que prevê o reajustamento relativo aos apoios educativos. Todavia, o
Decreto-lei 20/2006, de 31 de janeiro prevê "a estabilização do sistema
de colocação do corpo docente" e, conforme consta no Artigo 6º "o
preenchimento dos lugares de educação especial destinados a promover a
existência de condições para a inclusão sócio-educativa de crianças e jovens
com necessidades educativas especiais de carácter prolongado", forma
assim grupos de docência especializada. Para Sanches e Teodoro (2007, p.112) a
legislação apresenta uma oscilação mais para trás do que pra frente
"recuando a várias décadas em termos do discurso e das práticas
educativas que visavam a construção de escola de todos, para todos e com
todos".
Todavia, o Decreto-lei 03/2008, de 7 de janeiro, apresenta avanços à legislação
anterior e busca desenvolver processos metodológicos mais inclusivos que
envolvam a sociedade de modo geral. Correia (2008), ao analisar este respectivo
Decreto aponta aspectos negativos e positivos e constata que o mesmo não
contempla um conjunto de condições que determinam uma educação de qualidade,
justa e adequada às capacidades e necessidades dos alunos com deficiência e
questiona se o objetivo deste Decreto é realmente o de promover aprendizagens
efetivas e significativas nas escolas regulares para todos os alunos. Assim,
dentre os pontos negativos destaca: i) excluir a maioria dos alunos com
necessidades educativas especiais permanentes, a exemplo os que possuem as
dislexias, asdisgrafias,as discalculias, as dispraxias, e as dificuldades de
aprendizagem não-verbais.São excluídos também os alunos com deficiência mental,
pertubações emocionais e do comportamento graves, com problemas específicos de
linguagem e com desordem por déficit de atenção/hiperatividade,pois para
Correia, todas essas condições são permanentes; ii) obriga ao uso da
Classificação de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde -CIF
12
para determinar a elegibilidade e consequente elaboração do Programa Educativo
das crianças (artigo 6°, ponto 3); iii) e, não operacionaliza conceitos de
inclusão, educação especial e necessidades educativas especiais, deixando-os às
mais variadas interpretações, que não condizem com os direitos dos alunos com
necessidades educativas especiais e das suas famílias. Quanto aos aspectos
positivos o autor ressalta: i) a obrigatoriedade da elaboração de um programa
individual para os alunos com necessidades educativas especiais permanentes, já
consignado no Decreto-lei 319/1991; ii) a promoção da transição dos alunos com
necessidades educativas especiais permanentes para a vida pós-escolar; iii)
confidencialidade de todo o processo de atendimento a alunos com necessidades
educativasespeciais permanentes, e iv) a criação de departamentos de educação
especial nos agrupamentos.
Destarte, apesar de alguns avanços em termos legais acerca da educação
inclusiva em Portugal, corpo da legislação é possível reconhecer traços da
exclusão que usa termos excludentes e não define com clareza as denominações
atribuídas aos diferentes, criando assim julgamentos discriminatórios. Na LBSE
no Artigo 20º que trata do âmbito e objetivos da educação especial pode-se
observar, ainda, no discurso elementos que denotam o paradigma médico/
segragacionista e da integração:
1 - A educação especial visa a recuperação e a integração sócio-educativas dos
indivíduos com necessidades educativas específicas devidas a deficiências
físicas e mentais. 2 - A educação especial integra atividades dirigidas aos
educandos e ações dirigidas às famílias, aos educadores e às comunidades...
A ideia de "recuperação" e "integração", no conteúdo
deste artigo constante da legislação, nos faz inferir acerca da continuidade do
paradigma da integração, e aponta as dificuldades da inclusão ser incorporada
no fazer teórico e prático do ato educativo. Os resultados da pesquisa-ação
realizada por Ainscow e Miles (2009) em países tão diversos como Austrália,
Brasil, Inglaterra, Portugal, Roménia, Espanha e Zâmbia, na análise desta
problemática indicam no artigo Developing inclusive education systems: how can
we move policies forward? dois fatores que estão intimamente ligados e, parece
ser hierarquicamente superior a todos os outros que dificultam o
desenvolvimento da educação inclusiva, são eles: clareza da definição em
relação à ideia de inclusão, e as formas de provar de que são usados para medir
o desempenho educacional.
Ainscow e Miles (2009) legitimam a tese de que o paradigma da inclusão não foi,
ainda, incorporado no fazer escolar, pois demonstram as dificuldades acerca da
compreensão conceitual da inclusão por parte dos educadores. Fato, também
constatado nesta investigação, a partir da fala dos educadores da CSPC ao
responderem o questionário e assim expressarem o entendimento acerca da
inclusão. Nas respostas dos educadores é possível encontrar concepções
diferenciadas que perpassa paradigmas educacionais voltados a educação da
pessoa com deficiência, conforme quadro abaixo:
Quadro 01 - Respostas dos educadores do CSPC acerca do conceito inclusão,
organizadas segundo os modelos educativos
13
.
Quadro construído a partir de sínteses teóricas
O que se observa, a partir das falas dos educadores é a convivência de
diferentes concepções de educação no espaço escolar, o que faz do paradigma da
inclusão uma utopia para alguns e para outros (de modo específico pais e
deficientes) uma constante guerra a ser vencida a partir de pequenas batalhas.
A inclusão para firma-se como um paradigma aceito, nos dizeres de Thomas Kunh
(2006) precisa passar por uma "revolução científica" pois, por
enquanto encontra-se em processos de ascensão, o que faz deste debate um
lócusde controvérsias no campo científico e no fazer curricular.
É neste sentido que o documento Open File on Inclusive Education, UNESCO (2001)
preocupa-se em definir e orientar as práticas de inclusão dos sistemas
educativos, e sugere que os sistemas educativos sejam: i) acessíveis a todos os
alunos e os modelos de aprendizagens se acomodem a uma diversidade de estilo de
aprendizagem; ii) organize-se de forma flexível, respondendo à diversidade das
necessidades individuais dos alunos (linguísticas, étnicas, religiosas ou
outras) e não ser rigidamente prescrito a nível nacional ou central; iii) e, um
currículo inclusivo coloca maiores desafios e exigências aos professores que
devem ser apoiados nos seus esforços de planificação, organização e
implementação dos contextos de aprendizagem que melhor asseguram a participação
e sucesso dos alunos.
Tais princípios influenciam diretamente na prática curricular da escola, para
além da matrícula, encetados a partir da reestruturação do espaço físico e suas
dimensões pedagógicas que envolvem desde o acolhimento às variadas necessidades
educativas dos alunos, com profissionais de apoio técnico, professores de
educação especial, terapeuta da fala, fisioterapeuta, ou seja, uma equipe que
possa auxiliar conjuntamente o professor do ensino regular, para que os alunos
com dificuldades de aprendizagem possam caminhar da sua maneira, rumo aos
processos de escolarização. Portanto, importa refletir e reconstruir os
processos de inclusão em diversos estudos de caso, a fim de se elaborar
proposições de práticas inclusivas para a escola.
A inclusão em si. Superando as dificuldades no CSPC
As dificuldades para acontecer da inclusão no que pese a legislação, ainda são
muitas e algumas foram analisadas na pesquisa intitulada "A inclusão nas
escolas de 1° ciclo de ensino básico de Lisboa: algumas considerações",
realizada por Dorziat (2009) que demonstra que a inclusão dos diferentes em
ambiente escolar aparentemente (a priori) não constitui uma busca para que seja
mudada a prática políticopedagógica das escolas, no que se refere ao
acolhimento às diferenças, bem como ao respeito a multiculturalidade como
essência do ato pedagógico. E, acrescenta que os alunos diferentes são
acolhidos nas escolas em função da obrigação da lei, por morarem próximo a
escola ou a pedido da família. Ao explicitar os discursos em volta das práticas
pedagógicas, indica que estes, ainda, estão muito distantes de uma possível
transformação da realidade de exclusão. O que determina a aceitação dos
diferentes é a ética profissional e não um currículo multicultural. Dorziat
conclui que o currículo multicultural é indispensável para que possam ocorrer
mudanças significativas rumo à inclusão de fato, um olhar que perceba o
potencial criador das diferenças. Estes e tantos outros obstáculos foram
constatados, estiveram presente, inicialmente e dificultaram a inclusão escolar
do JP, um menino brasileiro com 6 anos de idade, com SD, aceite na escola da
Luz, não porque existia uma política de acolhimento, mas porque a lei obrigava.
E, esta escola e esta sala foram indicadas por ter vaga e ser a mais próxima de
sua morada, o que nos faz pensar sobre a aceitabilidade dos diferentes por
parte da escola e dos professores, e a questionar. Como efetivar os processos
de inclusão escolar de pessoas com a marca da diferença, com outras
necessidades de aprendizagem em contextos que a concepção teórica e prática da
inclusão, ainda, não foram incorporadas, seja na proposta curricular e/ou nas
práticas cotidianas? Nesta escola, apesar de já trabalhar com crianças com
deficiência, mais (+) um!!!! representava maiores dificuldades, principalmente
no contexto de um grupo que apresentava múltiplas diferenças, dois com
necessidades educativas especiais e 18 "normais", considerando que
todos são especiais....
A obrigatoriedade da aceitação de crianças com deficiência em escolas normais a
partir da Lei é ponto decisivo para o processo de inclusão. Todavia, pode se
constituir em uma situação de dupla face, ou seja, a medida que inclui,
exclui... Exclusão que se processa na falta de: apoio escolar em sala de aula;
conhecimentos técnicos, teóricos e metodológicos à promoção da aprendizagem
face as dificuldades de cognição; esclarecimentos aos pais e aos demais alunos
sobre as características deste novo sujeito; proposta de aprendizagem
diferenciada; ambiente de acolhimento propício a aceitação e de credibilidade à
capacidade de aprender do próprio sujeito, dentre tantas outras situações que
podem ser superadas a partir de atitudes proactivas.
O medo do diferente na escola assustou a todos, pais, crianças, professores,
gestão e principalmente o próprio sujeito da inclusão que chegará de outro
contexto cultural, social e escolar em que as atividades se iniciavam com a
roda de conversa e o currículo se desenvolvia a partir de projetos pedagógicos
14
. Então, naquele lugar estranho não queria ficar, uma escola sem muitas
atratividades, uma sala de aula em formato clássico, o que lhe interessava e
lhe chamava atenção era um brinquedo no parque. Sua atitude foi expressa a
partir do que ele podia dizer, ou melhor fazer para se defender, gritar,
espernear e bater .... para impor sua vontade, ou pelo menos nos fazer
pensar...., o que ele precisa para se sentir bem neste espaço escolar?
Nestes termos a mãe foi autorizada pelo agrupamento a ficar na sala de aula
para proceder a adaptação da criança à escola, que se procedia em tempos
menores. Em paralelo buscava-se outras alternativas a partir das orientações de
remeter o aluno a educação infantil; procurar outra escola mais próximo a
morada; procurar uma escola especial e pedir apoio pedagógico o que resultou em
3 processos
15
na Direção Regional de Educação Lisboa e Vale do Tejo - DRELVT, ficando
conhecido como o caso da criança brasileira com SD
16
. A resposta atribuída é pautada no Decreto-Lei nº 3/2008, de 7 de janeiro, que
regula a Educação Especial, quanto ao número de alunos, a elaboração do um
Plano Educativo Individual (PEI) que atenda as necessidades educativas do aluno
e os apoios educativos. De forma que a DRELVT determina com base na lei que a
escola proceda a inclusão da criança no 1º ano, e que o Departamento de
Educação Especial encaminhe os apoios especializados. A partir desta decisão a
matrícula se efetiva na escola, os apoios chegaram e a criança aos poucos com
sua forma meiga passou a conquistar seu espaço, colegas de sala de aula e
pessoal da escola. Todavia, se a escola tivesse a dinâmica da inclusão
organicamente incorporada na sua rotina curricular
17
o processo de aceitação de uma criança com deficiência poderia ser menos
doloroso para todos.
Após a inclusão nas atividades escolares dá-se o ingresso no Centro de
Actividade de Tempo Livre -CATL do CSPC, que "é uma Instituição
Particular de Serviço Social de cariz religioso e foi fundada na década de
oitenta", cujo objetivo fundamental "é colaborar com a Família e a
sociedade civil na promoção da pessoa humana, sem qualquer exclusão e numa
atitude de profundo respeito pela sua personalidade, num clima de paz,
liberdade e responsabilidade, tendo por referência a pessoa de Jesus
Cristo" (CSPC - Plano anual de actividade - 2010/2011), e até
o presente ano (2010) não tinha recebido nenhuma solicitação de matrícula para
crianças com deficiência e seu quadro de educadores tinha pouco contato com
crianças com deficiência. O que é constatado na resposta ao questionário, pois
dos 8 educadores 6 (seis) nunca tiveram experiência profissional com a crianças
com deficiência, 1 (um) teve contato durante o estágio e outro teve experiência
educativa com uma criança com dificuldades motoras. Entretanto, este grupo fez
a diferença no processo de inclusão, facilitado por atividades que
correspondiam a uma dinâmica escolar que envolvia a ludicidade.
O caso da criança brasileira com SD
18
lá já tinha chegado e estes buscaram criar um ambiente favorável a partir de
algumas atitudes práticas, dentre as quais: i) conhecer a história social,
familiar e educacional da criança a partir de sua família; ii) conhecer seus
gostos, atitudes e procedimentos no ambiente familiar e escolar; iii) deslocar
uma educadora para acompanhar a criança em suas necessidades imediatas de
socialização; iv) preparar o processo de aceitação junto aos educadores e
funcionários; v) introduzir a criança na rotina das atividades a partir de
ajuda, dando-lhe confiança e limites, dentre outras ações. Em entrevista com a
Coordenadora Pedagógica e a Assistente Social estas afirmaram "que
receber JP era um desafio, pois nunca tiveram uma criança especial, e quando
tiveram que estar junto era diferente de somente falar, e assim tiveram que ir
aprendendo a lidar com ele, mas partindo do princípio que ele deveria ser
tratado como qualquer outra criança".
Neste sentido, observa-se que a atitude da aceitação do diferente é primordial
para os processos de inclusão, que não podemos esperar estar preparados, ter
formação para lidar com o diferente, pois a inclusão se faz com ações. É,
também o que pode ser percebido na fala de uma educadora. "Creio que é um
caso inédito no Centro. Contudo, é notório o esforço de todos, educadores e
alunos, para que o JP, neste caso particular, se sinta e esteja plenamente
integrado nas atividades escolares" (Questionário 07). Neste sentido,
partilhamos da ideia de que é essencial partir das condições que temos, para
produzir as condições necessárias, pois é na prática cotidiana que aprendemos a
fazer, para construirmos uma prática mais cidadã (Sanches & Teodoro, 2007).
Os ATL's como atividades curriculares que possuem a dinâmica da
ludicidade foram primordiais no processo de superação da exclusão e promoção da
aceitabilidade e socialização. Mas a inclusão que se deseja não é que se faz
apenas pela integração e sim a que desenvolve processos de aprendizagens. Para
tanto o planejamento de ações que intervenham no desenvolvimento cognitivo dos
alunos é fundamental para o desenvolvimento das aprendizagens. Neste senti-do,
é importante analisar como se processam as ações pedagógicas dos educadores do
CSPC para a intervenção na realidade do educando?
De acordo com as respostas acerca da questão que investiga o planejamento de
ensino do Centro e dos educadores para aceitação e inclusão da criança com
atraso cognitivo nas atividades escolares, estes são unanimes em admitir que
não existe um plano individual curricular para o caso específico, a fala do
educador do Questionário 06 é esclarecedora do fato.
Não existe um planeamento concreto do Centro em relação a este caso. O trabalho
que está a ser desenvolvido é centrado, sobretudo, na intuição, sensibilidade e
conhecimento educativo que cada educador e professor tem a título individual.
Contrariamente ao que deveria ter sido a preocupação inicial e principal dos
responsáveis, em momento nenhum existiu uma decisão ou intenção dada no sentido
de se construir um plano educativo individual para a criança com SD a
freqüentar o Centro, de modo a que pudesse servir de linha orientadora para
todos os agentes intervenientes no processo.
Apesar da ação inicial da equipe em conhecer o sujeito a ser incluído, dando a
conhecer a toda equipa de sua história e necessidades. "O planejamento é
feito dando a conhecer a toda a equipa educativa que iremos receber uma criança
com Síndrome de Down; dando também a conhecer a sua personalidade e as suas
capacidades" (Questionário 01). O prosseguimento desta ação para a
transposição do currículo planificado à intervenção deixa de ser um ato
pedagógico intencional e desenvolve-se a partir do plano da intuição e da
vontade de acertar. "No plano curricular da Instituição não está
contemplado algo em especial para crianças com NEE, contudo, a Instituição
aceita prontamente a vinda da criança e tentamos seguir as mesmas atividades,
adaptando-as às limitações da criança com objetivos diferenciados"
(Questionário N. 03).
Do exposto confirma-se a necessidade da incorporação do paradigma da inclusão
no fazer pedagógico de todos que compõem o ato educativo, que precisa ser
incorporado como conteúdo de formação em sua dimensão teórica e prática. Porém,
não qualquer formação, mas a que garanta o domínio da dimensão metodológica
para além da dimensão técnica, em que o educador discuta a luz da experiência
as questões da inclusão dos diferentes. Partindo dessa premissa, Silva (2000)
assinala que é importante ouvir os professores, vivenciar a sua experiência, as
suas dificuldades, preocupações e expectativas em relação à formação contínua,
ter conhecimento de como se processa a integração/inclusão dos diferentes, já
que cada contexto escolar tem suas especificidades e dilemas diferentes.
Portanto, é a partir dessas reflexões através da prática e do cotidiano escolar
que o educador pode criar ferramentas que possam auxiliá-los na aprendizagem
dos diferentes. Para o alcance deste objetivo o primeiro passo é superar a
própria percepção acerca da deficiência e do sujeito deficiente. Pois,
o ingresso do diferente no conjunto da chamada normalidade, causa diferentes
comportamentos que podem ser decisivos, a prioripara o sucesso da inclusão.
Então, quais foram as primeiras percepções acerca deste aluno ingressante no
CATL.
Mesmo, com a iniciativa da coordenação em conhecer a história do JP e bus-car
preparar um ambiente propício a sua chegada, a entrada do diferente no ninho,
já organizado em sua rotina, sempre causa situações de insegurança a todos e
todas, que se perdurar tender a gerar processos de exclusão, o que torna
indispensável o trabalho sistemático de organização do ambiente para a inclusão
em suas várias dimensões, sociais com os pais e alunos, professores, gestores e
funcionários, na superação do conceito preconcebido, antes que se torne
preconceito. As falas denotam que na convivência as percepções iniciais foram
dirimidas e construídas novas significações, à medida que o próprio educador
promove a participação nas atividades, socialização com o ambiente e integração
com os colegas.
Quadro 02 - Síntese das respostas dos educadores do CSPC acerca da
percepção do sujeito incluído.
A pesquisa intitulada "A produção do conhecimento científico na
Universidade acerca da Educação Inclusiva"
19
aponta que análises acerca das políticas de inclusão e sua prática escolar
centram-se em apontar as dificuldades deste processo, ganhando destaque a falta
de formação dos professores para o trabalho com a pessoa com deficiência, de
modo geral assinalam os aspectos negativos da inclusão, o que não contribui
para o acontecer da inclusão ou afirmação do paradigma. Neste sentido, se
requer inovação por parte dos professores em sua atividade educativa, de modo a
modificar conceitos e comportamentos, "as grandes inovações estão, muitas
vezes, na concretização do óbvio, do simples, do que é possível fazer, mas que
precisa ser desvelado, para que possa ser compreendido por todos e aceito sem
outras resistências" Mantoan (1997: 44).
E, foi na tentativa de acertar que os educadores do CATL buscaram enfrentar as
dificuldades da inclusão no fazer do ato educativo e construíram alternativas
para a promoção das aprendizagens, quais sejam:
Quadro 03 - Descrição dos educadores do CSPC sobre as estratégias
metodológicas utilizadas para a inclusão.
Estas dentre outras ações foram fundamentais para que a criança começasse a
perceber as relações postas naquele novo e diferente ambiente escolar. A busca
da empatia; a relação com sua realidade; a orientação e o apoio nas atividades;
a firmeza nas regras e nos limites; a compreensão e ajuda das demais crianças,
dentre outras ações contribuíram no avanço do processo de adaptação,
socialização, desenvolvimento e, principalmente de aceitação da nova escola.
Nestas ações, mesmo que intuitivamente, observa-se que havia uma preocupação
com o que a criança já possui de conhecimento; respeito a suas limitações;
reconhecimento as suas diferenças e o ressaltar das potencialidades. Concepções
e ações que compõem o paradigma da inclusão e, que precisa ser incorporado no
ato educativo para a construção da escola de todos para todos em contraposição
a escola segregacionista e excludente, o que nos conduz a pensar!!. Será que as
necessidades educativas são realmente especiais?
Essa é a reflexão que Saorín (2009, p.159) faz e considera
"contraproducente isolar uma determinada característica especial do corpo
discente uma vez que, ao fazê-lo, estaremos a legitimar a existência de um
grupo considerado normal (do ponto de vista da escola e da cultura hegemônica)
e outro especial". Neste sentido, a escola da inclusão é a que reconhece
as diferenças em cada criança, que respeita a diversidade e, que é aberta,
flexível e crítica (Giroux, 1990). Mas, que, preponderantemente, cumpre seu
papel na promoção das aprendizagens. A garantia de que os diferentes sujeitos
desenvolvam aprendizagens constitui
o desafio da educação que pretende romper com a integração, eliminar as
desigualdades e pauta-se na diversidade. Para tanto, o ato pedagógico não se
constitui uma ação desinteressada, ao contrário há necessidade de se
individualizar a instrução, de personalizar o processo de ensino-aprendizagem,
que corresponde a uma oferta educativa aberta, flexível e capaz de se adaptar
às características individuais dos alunos, dando respostas às suas necessidades
e interesses, e contra a tendência homogeneizadora dos últimos anos, que trata
de nos impor perfumes unissex e prendas de talha única (Saorín, 2009, p.166).
A escola da inclusão ao perceber as diferenças, entende que cada um aprende de
forma diferente, possui a sensibilidade de perceber o que o outro desenvolveu
ultrapassa os instrumentos padronizados, pois ao se considerar ritmo
diferenciado deve-se, também, considerar tipos de aprendizagem diferenciada.
Neste caso procede questionar como se processa as aprendizagens do sujeito da
inclusão? No questionário ao se pedir para descrever situações de dificuldades
e superação que observou no processo de inclusão do sujeito em foco os
educadores destacam os processos de adaptação da criança junto ao ambiente e
aos colegas; o desenvolvimento da linguagem; a autonomia quanto à alimentação e
o uso do banheiro (casa de banho); melhor socialização no recreio e atendimento
as regras e rotinas.
E, ao se investigar o desenvolvimento das aprendizagens a partir de categorias
definidas como: linguagem; socialização; autonomia; coordenação; criação;
cognição, percebe-se a partir das respostas dos educadores que houve avanços
quanto ao desenvolvimento, precisamente no aspecto da socialização como
expressam, "mostrou grande evolução. É uma criança meiga para os colegas
e adultos" (Quest. 03); "no início era uma criança tímida, não
interagia como os adultos e com os colegas, actualmente interage muito bem com
todos" (Quest. 01). E acerca da linguagem, os educadores se posicionam
assim: "Já articula algumas frases" (Quest. 02); "continua a
apresentar algumas dificuldades, no entanto, começa a tentar comunicar
verbalmente, por exemplo, chamando-me sempre que necessita" (Quest. 05).
"De início pouca e deficiente comunicação e capacidade de se fazer
entender oralmente. Aos poucos vai construindo frases perceptíveis e já
comunica com algum sucesso. " (Quest. 06).
No quadro a seguir, sinteticamente, é possível perceber a partir de categorias
de aprendizagem definidas a percepção dos educadores acerca do desenvolvimento
da criança, centrado mais nos aspectos da socialização e da linguagem do que da
autonomia e cognição.
Com relação as questões acerca da autonomia, esta torna-se uma controvérsia,
pois ao mesmo tempo que demonstra autonomia na vontade e no desejo, precisa ser
conduzido pelo apoio do educador. Convém indagar de que autonomia se fala?
Seria o caso de atentar para a reflexão do educador do Questionário 06:
"é necessário arriscar um pouco mais e deixá-lo fazer as coisas,
experimentar por si mesmo". Acreditamos, que esta seja a conquista de
educadores e educandos, a quebra do paradigma da educação bancária/ excludente
em que o professor ensina e o aluno aprende, para a educação libertadora/
inclusiva em que as aprendizagens são mediadas pela relação social, pois
educador e educandos se educam mediatizados pela realidade social (Freire,
1996).
Com relação a categoria coordenação esta pode ser expressa em movimentos
físicos ou manuais de uso de instrumentos, contudo 3 (três) educadores não
responderam, os demais consideraram que houve evolução, e boa e outros indicam
o desenvolvimento com limitações e/ou aceitáveis a sua condição. Esta percepção
avaliativa torna-se mais contraditória quando se analisa as categorias de
criação e cognição, aumenta o número de não respostas dos educadores, e/ ou
afirmações de que não demonstrou desenvolvimento ou mesmo, referem-se as suas
dificuldades relacionadas com a síndrome. Contudo, alguns educadores percebem
que a criança possui níveis de compreensão do que lhe é solicitado e capacidade
de aprendizagem. Então, questiona-se: como uma criança que possui aspectos
positivos de desenvolvimento da linguagem, socialização e coordenação não
consegue desenvolver habilidades cognitivas? Ou seja, é possível neste período
escolar não haver desenvolvimento do cognitivo? Ou não foram observados? Ou
então, não foram planejados para serem desenvolvidos, por isso não podem ser
avaliados? Considerando que este sujeito já possui afinidades com o ambiente
escolar, os aspectos da linguagem e socialização foram reconduzidos e
reaprendidos em função das normas sociais, culturais e da rotina escolar deste
novo contexto, aprofundados e desenvolvidos. E, os aspectos da cognição, quais
os avanços?
Quadro 04. - Síntese da caracterização o desenvolvimento da aprendizagem do
Educando, segundo categorias e respostas ao questionário
O aprendizado das crianças, segundo o pensamento de Vygotsky (1987) se inicia
muito antes de frequentarem a escola. Este aprendizado impulsiona o
desenvolvimento, estabelecendo uma relação desde o nascimento da criança. A
aprendizagem torna possível o processo de desenvolvimento, sendo a escola
considerada essencial nessa construção. Portanto, a escola funciona como uma
instituição estimuladora para novas conquistas do sujeito, devendo direcionar o
ensino não para etapas intelectuais já alcançadas, e sim para etapas de
desenvolvimentos, ainda não incorporados pelos alunos. Nessa perspectiva, o
professor exerce uma função importante na condução de interferir na "zona
de desenvolvimento proximal"dos alunos, propondo, assim, avanços que não
se dariam de forma espontânea. Aqui reside a importância do educador nos
processos de aprendizagem dos alunos, ter ação planejada de mediação e
intervenção...
Do exposto se pode inferir que o paradigma da inclusão na educação se en-contra
na fase do conflito entre ser ou não aceite, isto é, ser ou não incorporado no
fazer educativo. Para tanto, precisa ser experienciado, desenvolvido sob a
dimensão proactivade boas práticas e superação o paradigma da integração, em
que a escola resume-se a promover a socialização do indivíduo que se encontra
fora dos padrões de normalidade.
Provisoriamente concluindo, pois a HISTÓRIA continua em outros mares....
As políticas curriculares no contexto da globalização ao fixarem o modelo
pragmático, profissional e de formação técnica voltam-se ao atendimento da
competitividade mercadológica, a medida que comprometem o ideal de escola
democrática, bem como a confirmação do paradigma da inclusão e o direito às
diferenças.
A inclusão em Portugal, como em outros países do mundo continua a ser um
desafio aos educadores, pais e a sociedade de modo geral, pois precisa efetivar
se no fazer pedagógico, o que requer investimentos na formação de educadores a
fim de diminuir a lacuna entre a Lei e a ação. Neste sentido, apontamos a
necessidade de mudanças significativas, que compreendam a reflexão acerca da
legislação posta; investimentos na formação dos educadores e construção de
ações proactivasa favor da inclusão dos diferentes sob a perspectiva de um
modelo social, que abra espaço para o respeito às diversidades como um fator
que une as diferentes comunidades de pessoas.
As AEC's e ATL's como parte do currículo caracterizam-se com uma
das for-mas de garantia da dimensão humana da educação, por isso a ludicidade e
o respeito ao tempo de cada um em suas diferenças são elementos que devem ser
contemplados no currículo da ação. Além disso, as ATL's ao serem
consideradas como atividades de enriquecimento curricular precisam buscar
alternativas de interdisciplinaridade entre o tempo livre e o tempo escolar
para a promoção das aprendizagens, sem contudo, tornar-se disciplinadora. Em
síntese a inclusão do JP neste ambiente escolar, mesmo que não tenha se
concretizado sob as expectativas que a inclusão gera, foi um movimento que
oportunizou novas ações e novos olhares sobre a inclusão, pois uma educadora
redimensionou seu projeto de mestrado para a temática, outras realizam formação
na área, o CSPC vai rever a proposta educativa da instituição. E, na certeza
que o rio não é mais o mesmo, pois nós não somos mais o mesmos, JP deixa marcas
e gera inquietações ante aos desafios da inclusão.