Adaptação do questionário de suporte parental (qsp-6)- versão reduzida para
adolescentes
O suporte social é geralmente definido como a existência ou a disponibilidade
de pessoas em quem podemos confiar, pessoas que nos deixam saber que se
preocupam, que nos valorizam e que nos amam (Sarason, Levine, Basham &
Sarason, 1983). É a perceção que os indivíduos têm dos comportamentos de apoio
dos outros para com eles e desta forma, que lhes promovem bem-estar físico e
psicológico (Demaray & Malecki, 2002).
A investigação sobre o suporte social sugere que as pessoas apresentam um
conjunto geral de atributos e expectativas sobre as suas relações sociais.
Sugerem ainda, que as perceções gerais de suporte social de que o sujeito
dispõe poderão ter a sua origem nas relações estabelecidas na infância,
nomeadamente nas que são vinculadas com os pais (Pierce, Sarason & Sarason,
1991). O apoio e o suporte percebido traduz-se assim num sentimento de bem-
estar pois enfatiza a perceção de carinho e estima dos outros, sobretudo da
família e amigos, fonte importante de suporte social, nomeadamente durante o
período da adolescência (Seeds, Harkness & Quilty, 2010).
Os estudos realizados têm sugerido que o suporte sociofamiliar surge como um
fator importante para amenizar os problemas que afetam os adolescentes,
nomeadamente as consequências dos comportamentos de bullying (Brank, Hoetger
& Hazen, 2012), ou seja no desenvolvimento de comportamentos agressivos e/
ou vitimizantes.
De acordo com o que vem referenciado na literatura, na adolescência ocorre uma
substituição dos agentes de socialização, diminuindo a perceção que os jovens
têm do suporte social que recebem dos seus pais (Furman & Buhrmester,
1992), aumentando a perceção de apoio emocional nas relações de amizade (Way
& Greene, 2006). Sendo um período de grande conflito com as figuras paterna
e materna, os jovens tendem a demonstrar uma baixa perceção de suporte parental
neste período, sentindo um maior suporte por parte dos pares, estabelecendo-se
uma correlação negativa entre estes dois tipos de suporte social até final da
adolescência (Rabaglietti & Ciairano, 2008).
Assim, partindo da premissa que o suporte social dos pais poderá influenciar o
desenvolvimento de comportamentos agressivos/vitimizantes, dependendo da
perceção que os jovens têm do suporte que estes agentes educativos lhes prestam
durante a fase da adolescência, adaptámos o Questionário de Suporte Parental
(QSP-6) - Versão reduzida para adolescentes (tradução livre da forma em
inglês Social Support Questionnaire- Short form (SSQ6)de Clouse (2007), versão
adaptada do original Social Support Questionnaire-Short Form(SSQ6)de Sarason,
et al. (1983)).
A versão original de Sarason, et al. (1983) é constituída por 6 itens, cada um
deles com duas partes, originando dois resultados parciais. Na primeira parte
do item o sujeito poderá mencionar até um número máximo de 9 pessoas percebidas
como estando disponíveis para o apoiarem e ajudarem numa determinada situação,
havendo ainda a opção de resposta "ninguém". Na segunda parte pede-
se ao sujeito que avalie de uma forma global o suporte percebido nessa mesma
situação, recorrendo a uma escala do tipo Likert de 6 pontos (de muito
insatisfeito (1) a muito satisfeito (6)). O conjunto dos 6 itens permite obter
dois índices: o índice de perceção de suporte disponível (SSQ6N; índice
numérico) e o índice de perceção da satisfação com o suporte social disponível
(SSQ6S; índice de satisfação). Estes índices calculam-se obtendo o valor médio
para cada subescala (Pinheiro & Ferreira, 2002; Sarason, et al., 1983).
O questionário adaptado por Clouse (2007) difere da estrutura da versão
original, ou seja, apresenta 6 questões que avaliam em três categorias pré-
definidas (mãe/pai/ambos) com quem os sujeitos "podem contar" em
diferentes situações, fazendo imediatamente o registo da sua satisfação com o
suporte obtido. Assim sendo, o autor fez uma alteração na primeira parte de
cada item, permitindo ao sujeito discriminar as suas perceções apenas face ao
suporte materno/paterno/ambos, numa escala tipo Likert de 6 pontos (de 1
- pouco satisfeito com o suporte, a 6 - muito satisfeito com o
suporte). De acordo com o autor o questionário mostrou boa consistência interna
com alfas entre os 0,90 e os 0,93 e validade de constructo.
Uma vez que os estudos no campo da agressividade/vitimização enfatizam a
distinção entre a perceção do suporte paterno/materno, o presente estudo
propõe-se contribuir para a análise das propriedades psicométricas da
adaptação do QSP-6 (versão utilizada por Clouse (2007)) na população
adolescente portuguesa.
MÉTODO
Participantes
A amostra de validação compreendeu 728 adolescentes e jovens (372 do sexo
feminino e 356 do sexo masculino), de nacionalidade portuguesa, com idades
compreendidas entre os 12 e os 21 anos (M=15,31). Os limites cronológicos da
adolescência são definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) entre os 10
e os19 anos (adolescents) e pela Organização das Nações Unidas (ONU) entre os
15 e os 24 anos (youth), critério este usado sobretudo para fins estatísticos e
políticos. Usa-se também o termo jovens adultospara abranger a faixa etária de
20 a 24 anos de idade (young adults) (Eisenstein, E., 2005).Com a finalidade de
obter uma amostra de validação com um número significativo de participantes,
incluíram-se neste estudo as turmas de cursos profissionais de 10.º, 11.º e
12.º anos (alunos que cujo currículo passou por sucessivas reprovações antes do
ensino secundário ou até mesmo caracterizado por absentismo escolar, o que leva
a que a sua média de idades, face aos alunos do ensino regular, aumente) e
desta forma, tal como sugere Eisenstein, E. (2005) agrupamos ambos os critérios
e passamos a denominar adolescentes e jovens (adolescents and youth) no projeto
em que esta validação se insere.
No quadro_1 apresentam-se as características demográficas dos participantes.
Material
O presente questionário foi adaptado a partir do Social Support Questionnaire-
Short Form (SSQ6; de Clouse (2007), versão adaptada do original Social Support
Questionnaire de Sarason-Short Form (SSQ6; de Sarason, et al. (1983)).
O questionário é constituído por 6 questões que avaliam com quem os sujeitos
"podem contar" em diferentes situações, fazendo o registo da sua
satisfação com o suporte obtido. Cada questão é composta por 3 itens, onde são
apresentadas aos sujeitos três categorias pré-definidas, discriminando as suas
perceções de satisfação face ao suporte materno/paterno/ambos. Para cada item o
sujeito terá de avaliar a sua satisfação com o suporte materno/paterno/ambos
numa escala tipo Likert de 6 pontos (de 1 - pouco satisfeito com o
suporte, a 6 - muito satisfeito com o suporte).
O questionário pode ser aplicado em sessões coletivas, assegurando-se o seu
preenchimento individual e garantindo o total anonimato podendo também ser
aplicado individualmente, em contexto clínico. Apresenta um tempo médio de
aplicação entre 5 a 8 minutos. A pontuação é feita através do cálculo da média
das respostas para a o grau de satisfação, obtendo-se assim 2 índices: (i)
índice de satisfação com o suporte materno e (ii) índice de satisfação com o
suporte paterno.
Procedimento
Para a criação e validação deste questionário recorremos a uma metodologia
composta por três fases: (i) a fase de tradução e adaptação cultural do
questionário, (ii) aplicação do questionário e (iii) a fase da validação.
Com a fase de tradução do questionário pretendeu- se obter uma versão em
português, linguisticamente correta e equivalente à versão original. Seguindo
a metodologia tradução/retroversão, esta fase começou com a produção de duas
versões em português, geradas independentemente por dois tradutores com
domínio nos dois idiomas. As traduções foram analisadas e comparados os seus
conteúdos, produzindo-se uma única versão de consenso. Esta versão foi
sujeita a uma retroversão, tornando possível a comparação com a versão
original, dando lugar a uma nova versão em português.
Antes da sua aplicação, o questionário foi sujeito a discussão e aprovação pelo
Conselho Pedagógico da escola onde foi aplicado. Foi enviado, através do/
a diretor/a de turma um consentimento informado para todos os encarregados de
educação, que tiveram uma semana para autorizar ou não a aplicação do mesmo ao
seu/a educando/a. O questionário garantiu o anonimato dos participantes e foi
aplicado coletivamente em contexto de sala de aula. Esteve sempre presente um
aplicador para se esclarecerem dúvidas sobre o seu preenchimento.
O estudo da adaptação da escala ao contexto português desenvolveu-se mediante
os seguintes objetivos:
1. Análise de Validade, que consiste:
1. Estudo da estrutura fatorial da escala;
2. Análise dos componentes principais que permite verificar de modo empírico, a
forma pela qual os itens se distribuem pelas subescalas.
b) Análise da Fiabilidade da escala (consistência interna das dimensões
resultantes, através do Alpha de Cronbach);
c) Avaliação Crítica sobre as características da escala (Maroco, 2007).
Os dados foram tratados com recurso ao programa estatístico SPSS 21.0.
RESULTADOS
Características Psicométricas
Validade Fatorial
A validade fatorial do QSP-6, incluindo os 18 itens acima mencionados, foi
avaliada inicialmente com uma Análise Fatorial Confirmatória da estrutura
original proposta por Clouse (2007). Foi testado o modelo de 3 fatores (Suporte
Social por parte da mãe; Suporte Social por parte do Pai; Suporte Social por
parte de ambos). Foram obtidos os seguintes índices de ajustamento: χ²/
df=42.220; CFI= .697; TLI= .648; PCFI= .601; RMSEA= .238; P[rmsea]< .001;
MECVI= 7.827. As intercorrelações entre os fatores elevadas foram sugestivas de
um fator de ordem superior. Essa estrutura foi testada revelando os seguintes
índices de ajustamento: χ²/df=42.220; CFI= .697; TLI= .648; PCFI= .601; RMSEA=
.238; P[rmsea]< .001; MECVI= 7.776. Uma vez que a estrutura fatorial original
revelou um ajustamento medíocre à nossa amostra procurou-se uma estrutura
fatorial adequada à amostra de adolescentes e jovens por intermédio de uma
Análise Fatorial Exploratória com extração de fatores pelo método das
componentes principais, seguida de uma rotação varimax.
Assim, baseada no referencial teórico implícito à medida na sua versão
original, realizamos uma análise exploratória dos dados com o intuito de
identificar, e analisar a estrutura do conjunto de 18 itens numa estrutura
integradora da informação presente nos vários itens. A estrutura relacional dos
18 itens foi avaliada por uma Análise Fatorial Exploratória (AFE) sobre a
matriz de correlações, com extração dos fatores pelo método das componentes
principais, seguido de rotação varimax. De acordo com a regra do eigenvalue
superior a 1, pela análise do scree plot e percentagem de variância explicada
(Bryman & Cramer, 2003), foram retidos 2 fatores, tendo sido ainda testadas
as soluções fatoriais de 2, 3, 4 e 5 fatores.
Para avaliar a validade da AFE foi utilizado o critério de Kayser-Meyer-Olkin
(KMO) com os critérios de classificação definidos em Maroco (2007). Com um
KMO=0,90 considerado excelente, procedeu-se à AFE.
A estrutura relacional dos 18 itens em estudo é melhor justificada por 2
fatores latentes que permitiram explicar 74% da variância com 17 itens. Foi
eliminado o item QSP_3c por apresentar um peso fatorial igual em ambos os
fatores.
No quadro_1, resumem-se os pesos fatoriais de cada item para cada um dos 6
fatores, os seus eigenvalues, a comunalidade de cada item e a % de variância
explicada para cada fator.
Na estrutura fatorial de 2 fatores obtida, o fator 1 integra 11 itens, 6
referentes à perceção do suporte paterno e 5 referentes a ambos os
progenitores. O fator 2 compreende 6 itens que representam a perceção do
suporte materno. Todas as comunalidades são elevadas mostrando que os 2 fatores
retidos são apropriados para descrever a estrutura correlacional latente entre
os itens (ver quadro_1).
Por considerarmos que a estrutura final da escala se tornava redundante pois os
itens para opção de reposta "ambos os progenitores" pesaram todos
no fator 1 (Perceção do Suporte Paterno), estes foram eliminados. Os 12
restantes foram novamente submetidos a uma análise fatorial exploratória com
rotação varimax. Com um KMO=0,88 considerado bom, procedeu-se à AFE.
A nova escala, com 12 itens apresenta 2 fatores, com valor próprio superior a
1, que explicam na totalidade 74,35% da variância, explicando o primeiro fator
60,81% da variância, o outro 13,54% (quadro_2).
A escala final é assim composta por 12 itens, com estrutura fatorial de 2
fatores, o fator 1 integra 6 itens da subescala agora denominada por perceção
da satisfação com o suporte paterno (PS_P). O fator 2 passa a ser constituído
por 6 itens a representar a subescala perceção da satisfação com o suporte
materno (PS_M).
Fiabilidade
A análise da consistência interna foi realizada através da avaliação do Alfa de
Cronbach, cujo valor deverá ser superior a 0,60 (Maroco, 2007). Os valores
encontrados para as subescalas (Suporte Materno: α = 0,93 e Suporte Paterno: α
= 0,93) preconizam que estamos perante um instrumento que faz uma boa avaliação
da perceção do suporte materno/paterno.
DISCUSSÃO
Os resultados mostram que o questionário que aqui é apresentado possui boas
propriedades psicométricas, com um fator para a satisfação com a perceção do
suporte materno e paterno. Em relação à estrutura original avalia apenas a
perceção do suporte materno/paterno, não se tendo conseguido manter a estrutura
para avaliar a perceção do suporte de ambos. Assim, consideramos estar perante
uma versão modificada do QSS6 de Clouse (2007), razão pela qual se alterou o
nome do questionário para QSP-6.
O facto de não se ter mantido a estrutura de 3 fatores poderá estar relacionado
com o entendimento dos participantes do conceito de "ambos os
progenitores". Aquando da aplicação, muitos dos adolescentes e jovens
desta amostra referiram que não sabiam responder a "ambos" porque
já tinham respondido isoladamente a cada um dos progenitores, salientando que
esta questão não lhes fazia muito sentido. Por outro lado, a versão de Clouse
(2007) foi aplicada a uma vasta amostra de população adulta. Salientamos que a
adolescência abrange um longo período de tempo, complexo e dinâmico. Há que
considerar as importantes alterações ao nível da maturação cerebral, que
não podem nem devem ser menosprezadas em função das diferentes
possibilidades de funcionamento que vão permitindo e, tal como afirma Pais e
Oliveira (2010) os adolescentes encontram-se "esmagados" entre as
crianças e os jovens-adultos.
Apesar de termos optado pela versão de Clouse (2007) em lugar da versão
original de Sarason, et al. (1983), que avalia a disponibilidade de entidades
de suporte versus perceção da satisfação com o suporte social, seria
interessante aplicar a estrutura original da medida e comparar as duas
estruturas na população portuguesa e percebermos assim qual das medidas
apresenta uma melhor adequação à nossa realidade.
Em suma, o Questionário de Suporte Parental (QSP-6) versão reduzida para
adolescentes e jovens, poderá ser usado como uma medida específica de avaliação
das perceções dos adolescentes e jovens face ao suporte materno/paterno, quer
na prática clínica quer em áreas da investigação da Psicologia.
Constitui uma medida potencialmente importante na área da Psicologia da Saúde
atendendo, por um lado, aos valores estatísticos encontrados reveladores de
bons índices de fiabilidade e validade, e por outro lado, dada a escassez de
medidas adequadas para a faixa etária estudada.