Alterações do estado de humor em praticantes de ecofitness
A prática de atividade física é uma recomendação da organização mundial da
saúde (ACSM, 2011) devido aos seus benefícios para a saúde e qualidade de vida
das pessoas. Na literatura existe uma variedade de modalidades que podem
proporcionar estes benefícios, mas existe um problema em engajar as pessoas a
praticarem regularmente atividade física. As pessoas buscam uma atividade que
proporcione os benefícios citados acima, aliados a uma satisfação pessoal e de
prazer, e uma modalidade que demonstra possuir esses elementos são as
atividades físicas de aventura na natureza.
A atividade física realizada em meio natural é uma prática de interação homem-
natureza e alguns exemplos são o trekking,o rafting,o rapel, a corrida de
aventura, a corrida de orientação, a escalada e o arvorismo. A relação com a
natureza exigida por essas modalidades proporcionam aos praticantes uma
reflexão de valores e atitudes para com eles e os outros (Tahara, Carnicelli
Filho, & Schwartz, 2006),além disso o homem moderno sente falta de
atividades ligadas as suas origens, como as atividades ao ar livre e em contato
com a natureza (Burlamaqui, 2007).
Por outro lado, no mundo atual as pessoas não têm tempo e oportunidades para a
prática de atividade física na natureza. A concentração populacional nos
centros urbanos, a violência e a sensação de insegurança geram ansiedade e
depressão das pessoas nas grandes cidades. Assim, o turismo de aventura tem
sido a maneira para realizar esta conexão com a natureza e praticar atividade
física. Segundo Tahara et al (2006), os praticantes dessas modalidades sentem
uma satisfação pessoal e refletem os seus valores quando as realizam.
Talvez o contato com a natureza seja o objetivo inicial no turismo de aventura.
Esse fator é observado no desenvolvimento das atividades turísticas e de
aventura efetivadas em espaços rurais e naturais (Hanai & Netto, 2006).
Quando essa tem objetivo de atividade física seja por parâmetros fisiológicos
(força ou resistência) ou benefícios psicológicos (estado de humor: ansiedade,
depressão). Seria possível atribuir a essa prática de atividades físicas em
meio a natureza a nomenclatura de EcoFitness, que seria uma denominação que
relaciona a promoção de atividades físicas a valores ecológicos e de respeito
ao meio ambiente.
Segundo Hintze (2010), o prefixo eco está relacionado com a experiência na
natureza associada a outros valores ecológicos, como exemplo a educação, o
respeito ao meio ambiente e a conservação do local, o que poderia ser tratado
como educação ambiental não formal que é definida na Lei 9795/9 como "as
ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as
questões ambientais" (Brasil, 1999, art. 13).
OEcofitness traz importantes elementos que atraem o interesse popular e
acadêmico. Eles são capazes de instigar novas sensações e percepções,
diferentes das atividades do cotidiano, poisas vivências junto à natureza têm
características lúdicas, associadas aos sentimentos de aventura e novidade
proporcionando experiências e desafios para os praticantes (Lavoura, Schwartz,
& Machado, 2008). Por outro lado, a atividade física realizada em ginásios,
academias e clubes são tediosas e feitas por obrigação em busca de benefícios
fisiológicos e estéticos, determinados por outros ao invés do próprio
praticante.
Segundo Lavoura et al (2008), o estímulo da prática do Ecofitness proporciona
um resgate da sensibilidade e das emoções através da interação do sujeito com o
meio natural. Sendo assim, diferentes variações no estado de humor podem ser
percebidas nessa modalidade. O estado de humor pode ser definido como um
conjunto de sentimentos específicos, constituído por aspectos positivos e
negativos, sendo de característica provisória, sensível a experiência do
sujeito, podendo ser mensurada através do Perfil dos Estados de Humor.
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho é verificar as respostas do estado
de humor antes e após uma prática de Ecofitness em turistas adultos.
MÉTODO
Participantes
A amostra foi composta de 41 sujeitos de ambos os gêneros com idade média de
29,41 anos (mínimo 16,67 e máximo 49,25 anos), praticantes eventuais de
Ecofitness. Os critérios de inclusão foram: participaram da coleta aqueles que
preencheram o questionário aplicado antes e depois da atividade de Ecofitness.
Realizaram a atividade aqueles que não apresentaram nenhuma limitação motora
para realização da trilha, de ambos os gêneros e idades.
Os critérios de exclusãof oram: todo sujeito que não preenchesse algumas das
informações dos questionários aplicados antes ou depois da atividade seria
desconsiderado da amostra; não tenha manifestado seu aceite mediante assinatura
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Todo estudo seguiu as
orientações para pesquisas em humanos previstas pelo Conselho Nacional de
Pesquisa.
Material
Em um primeiro momento e para uma análise histórica foi realizada uma busca de
publicações na área do estudo ao longo dos anos. O resultado desse tipo de
busca demonstra a pertinência do tema de estudo, indicando tendência e
atualidade do tema. A busca deu-se com as palavras chave Perfil PoMS.
Para a análise do estado de humor foi utilizado o Perfil PoMS de McNair, Lorr,
e Droppleman (1971), versão portuguesa proposta por Viana, Almeida, e Santos
(2001), com identificação da data de nascimento e gênero dos sujeitos. O
questionário é composto de seis variáveis divididas em 42 palavras que
descrevem sensações cotidianas compondo o Perfil PoMS. Elas estão divididas em
grupos que se relacionam com tensão/ansiedade, depressão, raiva/hostilidade,
vigor, fadiga e confusão mental. Vigor é a variável positiva do humor, tendo as
demais variáveis consideradas negativas. Valores elevados de vigor e reduzidos
de tensão, depressão, raiva, fadiga e confusão mental caracterizam o Perfil
Iceberg ou perfil de Saúde Mental positiva (Werneck, Bara Filho, & Ribeiro,
2006).
Procedimentos
A atividade de Ecofitness foi realizada em uma sessão no Parque Nacional Serra
de Itabaiana, Sergipe, tendo seu início às 8h 10 min. O percurso realizado
consistiu em uma caminhada de seis (6) horas com aproximadamente seis (6)Km por
terrenos com aclives e declives. A altitude do percurso variou de 170m a 640m e
a umidade relativa média mensal no Parque é de 84,6%. A seguir, o trajeto foi
finalizado com a fase de contemplação de aves de rapina em um Parque destinado
a preservação e estudo de animais localizado dentro do Parque, com tempo
estimado de 60min. O questionário foi aplicado em dois momentos: antes de
iniciar o percurso e ao final da última atividade.
Análise estatística
Para testar as hipóteses formuladas foi realizado o teste t-Student para
medidas repetidas. Uma vez coletados os dados e realizada o teste t-Student
para testar Hipóteses, os resultados foram agrupados individualmente entre as
seis variáveis medidas pelo instrumento.
RESULTADOS
Na figura_1 estão representados os totais de publicações encontradas em
pesquisa na base de dados disponibilizada pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior [Capes] em seu Portal de Pesquisas chamado
Periódicos e de acesso público. Observa-se que as publicações iniciam no ano de
2007 ainda de forma tímida mas efetivamente se encontram valores elevados de
publicações a partir do ano de 2009.
A amostra feminina, quando analisada individualmente, apresentou os mesmos
resultados que o grupo como um todo. Entretanto, a amostra masculina apresentou
diferenças altamente significativas (p < 0,01) somente para Tensão/Ansiedade e
diferenças significativas (p < 0,05) para Hostilidade/Raiva e Confusão.
No quadro_1 estão descritos os valores do pré e pós-teste, os valores de t
encontrados e os valores críticos de t para, assim como a significância. Por
meio do teste t-Student para observações pareadas, se encontraram diferenças
altamente significativas (p < 0,01) quando analisados todos os sujeitos para
Tensão/Ansiedade, Depressão, Hostilidade/Raiva e Confusão.
Uma vez apresentados os valores e percebido diferenças significativas de
algumas variáveis, na figura_2 é apresentado o quadro comparativo dos
resultados pré e pós-teste da amostra, considerando as seis variáveis de estudo
para a amostra total.
É possível perceber que as quatro variáveis que apresentaram diferenças
significativas diminuiram seus valores. A variável Vigor, embora não tenha
apresentado diferença significativa no pré e pós-teste, apresentou valores mais
elevados.
Quando os dados são analisados por gênero, observa-se que o gênero feminino
apresentou os mesmos resultados que a amostra de em sua totalidade. Na figura_3
estão apresentados os valores por variável com diminuição das pontuações para
as variáveis negativas e, embora não haja diferença significativa, a variável
Vigor apresentou valores mais elevados no pós-teste.
Na figura_4 estão apresentados os valores pré e pós-teste para o gênero
masculino. Observa-se que as variáveis que apresentaram diferenças
significativas são negativas e no pós-teste os valores foram inferiores ao pré-
teste.
A variável Depressão não apresentou diferença significativa, mas os valores
foram inferiores no pós-teste, assim como a variável Vigor que no pós-teste
apresentou valores mais elevados.
DISCUSSÃO
O Perfil PoMS tem sido um instrumento largamente utilizado na literatura,
principalmente nos últimos seis anos. Ele tem sido um instrumento valioso para
medir estados psicológicos, principalmente associados ao exercício físico, de
acordo com a busca bibliográfica inicial.
Estudo de Werneck et al (2006) utilizou como instrumento de medida o PoMS, e os
resultados relacionam o exercício físico a melhoria do estado de humor. Essa
melhora é potencializada de acordo com diferentes tipos de intensidade e
adequação das características do sujeito para torna-la prazerosa, sempre
relacionando com um ambiente agradável.
Dentre as variáveis medidas no PoMS, o primeiro valor é a Tensão ou Ansiedade.
O cuidado que se deve ter é que a ansiedade em algumas situações pode ser
confundida, quanto ao seu termo, na característica geral do indivíduo em reagir
a situações com sentimentos de estresse e nervosismo relacionando assim ao seu
perfil de ansiedade (Balaguer, 1994), o que é diferente de referir-se à própria
reação emocional, o que está associado ao estado de ansiedade.
Embora na amostra estudada não tenha sido considerada a faixa etária, em um
estudo sobre efeitos da atividade e exercício físico em mulheres no período na
menopausa (Neves & Neves, 2013), verificou que a atividade física pode
promover uma diminuição na ansiedade e dos sintomas depressivos, promovendo
assim benefícios à saúde e do bem estar psicológico, o que poderia explicar os
resultados obtidos.
Também é importante considerar o ambiente onde foi realizado o estudo que
pareceu estimulante assim como a associação de resultados em variáveis
distintas. Estudo de Nunes, Rios, Magalhães, e Costa (2013) indicam que
sintomas de ansiedade e de depressão obtiveram uma associação significativa,
demonstrando a importância em avaliar a presença e interferência de fatores
emocionais para obtenção dos resultados no presente estudo.
Outras explicações poderiam ser a variação térmica dos sujeitos e o caráter
contínuo do exercício realizado. Muller et al. (2011) relacionam em estudo que
tanto o humor quanto a função cognitiva são alteradas de acordo com a exposição
do frio agudo, tendo uma diminuição significativa após o exercício, que tem
melhor eficácia de forma continua comparada ao exercício intervalado.
O suporte social presente no estudo, configurado no ambiente acolhedor gerado
pela tarefa se assemelha ao que Airosa e Silva (2013) consideram a vinculação
entre a mãe e o bebê. Seu estudo analisou relações entre suporte social,
sintomatologia depressiva, ansiedade e estresse e observaram que há maior
vinculação materna na gestação do que na fase do pós-parto.
A diminuição da depressão nos sujeitos oferece interpretações distintas, mas
importantes. Por exemplo, o maior nível de depressão em idosos
institucionalizados ocorre em idosos que não ingressam por legitima vontade e
nos idosos que têm mais de 75 anos, tendo a sua maior satisfação com o suporte
social, podendo atenuar a depressão em idosos (Pimentel, Afonso, & Pereira,
2012). Se uma única experiência pode reduzir níveis de depressão, então seria
possível otimizar o apoio a idosos institucionalizados, reduzindo, assim, a
necessidade de medicação e apoio pessoal.
Essa posição é corroborada por Laureano, Martins, Sousa, Machado-Rodrigues, e
Valente-Santos (2014) que verificaram em seus estudos que idosos com melhor
capacidade física funcional e uma melhor aptidão cardiorrespiratória apresentam
menores custos com consumo de medicamentos e estados de humor mais positivos.
Resultados semelhantes foram obtidos em estudo relacionando o estresse e o
humor de voluntários de um desastre. Os resultados mostraram que no decorrer do
trabalho assistencial, houve uma diminuição no estresse percebido, angustia
geral e raiva, bem como um aumento de emoções positivas (Cristea et al, 2014),
o que traria uma explicação social mais que física para os resultados.
Em relação à variável Hostilidade ou Raiva, definida por Samulski (1992) como
algo que surge quando uma meta que se acredita atingir não é obtida. Esse
parece ter sido um fator de valores invertidos, pois as tarefas realizadas
foram de alcance a todos, contribuindo para sensação de eficiência e
confirmando Laneiro et al (2011) que encontraram relação negativa da tensão e
fadiga estão associadas com a satisfação da tarefa.
Parece que a literatura está farta de explicações psicossociais para explicar
alterações de estado de humor. De acordo com Fisher, Machado, Silveira, e
Verzani (2009),as relações dos indivíduos com o mundo e sua qualidade de vida
estão associadas a diferentes aspectos, dentre eles aspectos psicossociais e
emocionais. As emoções e sentimentos, quando controlados e estimulados
devidamente, contribuem muito para o bem estar do ser humano.
Os mesmos resultados foram encontrados em pesquisa com objetivo de relacionar a
influência das relações das dinâmicas sociais (família, amigos e escola) sobre
o estado de humor, realizada com um time de voleibol feminino. Os resultados
indicam uma clara interferência entre os dois aspectos (Rebustine &
Machado, 2012).
Um terceiro aspecto presente nesse estudo deve ser levado em consideração.
Quando se trata de atividade em meio natural, as emoções são um dos elementos
mais recorrentes nos praticantes, relacionando diretamente as reações do
indivíduo. É através das emoções que o indivíduo entra em contato com o mundo e
consigo mesmo, contribuindo assim a busca pela interioridade e para fugir da
rotina (Carnicelli Filho, 2007).
Um fator interessante que ficou evidente é que a literatura cita outros estudos
que buscam alterar as variáveis do estado de humor medidas pelo PoMS e a
extensão temporal dos mesmos. Yoshihara, Hiramoto, Oka, Kobu, e Sudo (2014)
verificaram que em 12 semanas de prática de yoga, com mulheres, houve a melhora
significativa no estado de humor, tais como, ansiedade, depressão, raiva,
confusão, fadiga, mantendo o vigor.
Também pesquisou alterações nos marcadores fisiológicos; cortisol, bilirrubina,
8-hidroxideoxiguanosina,havendo apenas diferenças significativas no aumento das
concentrações de 8 hidroxideoxiguanosina no final das 12 semanas de prática, o
que significa um aumento no processo de lesão no DNA, contrariando a hipótese
dos investigadores. Zheng et al (2014) assumem posição semelhante quando
acreditam que são necessárias 12 semanas praticando Tai Chi Chuan, 5 vezes por
semana, 60 minutos por seção, para obter benefícios na melhora do humor de
jovens universitários de 18 a 25 anos.
Parece evidente que o perfil desportivo dos praticantes incluídos em um
programa de saúde que buscam na atividade física um objetivo de se manter
saudável, se altera significativamente nos valores positivos de humor, bem como
nos baixos valores do estado de depressão, ansiedade e stress (Cid & Alves,
2007).
Da mesma forma, Strickland e Smith (2014) identificaram na literatura os
efeitos benéficos da atividade física resistida sobre a ansiedade. No entanto,
citaram a necessidade de estudos que relacionem a atividade física, ansiedade,
eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e os efeitos do hormônio cortisol, oferecendo
uma quarta linha de investigação para compreensão desse estudo.
Ficou evidente que os resultados obtidos são significativos. Entre as
explicações possíveis está o fato de os sujeitos terem realizado atividade
física. Também é considerada a hipótese dos benefícios psicossociais da
atividade e de ter sido realizada em meio à natureza, fora do ambiente
cotidiano dos sujeitos.
Outra explicação seria os efeitos bioquímicos e as alterações hormonais, mas de
qualquer forma, com qualquer explicação, ficou claro que em uma sessão de
atividade se conseguiu resultados expressivos de alteração de estado de humor
em variáveis importantes como ansiedade, depressão, hostilidade e confusão. As
alterações no vigor, embora não tenham sido significativas, foram positivas,
que somadas às anteriores, produzem bons indicativos para futuros estudos.