Ansiedade, depressão e stresse: um estudo com jovens adultos e adultos
portugueses
Em 2011 Portugal foi considerado um dos países europeus com maior prevalência
de perturbações mentais, destacando-se as perturbações de ansiedade e as
perturbações de humor (Wang et al., 2011). Mais recentemente, os dados
publicados pela Direção Geral de Saúde em 2013 (DGS, 2013) indicaram resultados
idênticos, demonstrando que Portugal é um dos países europeus com maior
prevalência de perturbações mentais, sobretudo perturbações de ansiedade
(16.5%) e perturbações depressivas (7.9%).
Segundo Barlow (2002, cit. por Craske, Rauch & Ursano, 2009), a ansiedade é
um estado de humor orientado para o futuro associado à preparação para a
possibilidade de ocorrência de um acontecimento negativo, no qual o medo é a
resposta de alarme ao perigo eminente ou presente, real ou percebido. A
ansiedade pode também ser entendida como uma resposta adaptativa do organismo,
caraterizada por um conjunto de alterações fisiológicas, comportamentais e
cognitivas, que se traduzem num estado de ativação e alerta face a um sinal de
perigo ou ameaça à integridade física ou psicológica (Ruiz, Cuadrado &
Rodriguez, 2001). No entanto, a ansiedade pode tornar-se patológica quando
deixa de ser adaptativa, isto é, quando o perigo a que pretende responder não é
real ou quando o nível de ativação e duração são desproporcionais face à
situação objetiva (Castillo, Recondo, Asbahr & Manfro, 2000; Rosen &
Schulkin, 1998; Ruiz et al., 2001).
Relativamente à depressão, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, esta
pode ser entendida como uma perturbação caraterizada pela tristeza, perda de
interesse e prazer, sentimentos de culpa e baixa autoestima, perturbações do
sono e/ou de apetite, cansaço excessivo e baixa concentração. Para Del Porto
(1999), esta pode ser entendida enquanto estado afetivo, sintoma e síndrome.
Enquanto estado afetivo, a depressão representa a tristeza normal da vida
psíquica que, quando em níveis muito elevados, constitui-se como um sinal de
alerta para o desenvolvimento de estados depressivos. Enquanto sintoma, a
depressão pode surgir como uma manifestação secundária de outras perturbações
físicas e/ou mentais. Por fim, enquanto síndrome, a depressão inclui alterações
de humor, tais como, tristeza, irritabilidade, ausência de capacidade para
sentir prazer, e apatia. Os estados depressivos são ainda caraterizados por
sentimentos de vazio, redução do interesse pelo ambiente externo, e alterações
psicomotoras e vegetativas, tais como sensação de fadiga e perda de energia, e
lentificação dos movimentos.
De acordo com Selye (1952, cit. por Lovibond & Lovibond, 1995), os
acontecimentos de vida stressantes podem precipitar episódios de ansiedade e de
depressão, bem como levar a respostas caraterísticas de stresse. O stresse pode
ser entendido como um processo complexo gerado por uma resposta não específica
do indivíduo a um stressor interno ou externo. A resposta de stresse produz
alterações cognitivas, comportamentais e fisiológicas, e depende da
discrepância entre a forma como o indivíduo perceciona o stressor e como
perceciona a sua capacidade para lidar com o mesmo (Lipp, 2006; Margis, Picon,
Cosner & Silveira, 2003; Ribeiro, 2005; Selye, 1951).
Selye (1951) descreveu a resposta orgânica aos stressores como Síndrome de
Adaptação Geral, a qual possui três fases. A primeira - alerta - é considerada
a fase na qual o indivíduo ganha energia devido à produção de adrenalina,
assegurando a sobrevivência. A segunda - resistência - é a fase em que o
indivíduo tenta lidar automaticamente com os stressores de forma a manter a
homeostasia. E, a terceira fase - exaustão - ocorre quando os fatores de
stresse persistem em frequência e intensidade, ocorrendo uma quebra da
resistência. É nesta última fase que surgem frequentemente perturbações físicas
e psicológicas, tais como enfarte, depressão, e ansiedade (Lipp, 2003; Selye,
1951).
Desta forma, pode-se afirmar que, em níveis moderados, o stresse capacita o
indivíduo para lidar com situações de mudança e adversas; proporciona uma
melhor perceção dessas situações e das suas consequências; permite um
processamento mais rápido da informação e capacidade de resolução de problemas;
e, aumenta a motivação, energia e produtividade. Em contrapartida, o stresse,
quando em níveis elevados, tem consequências sérias no bem-estar dos indivíduos
resultando, com frequência, em cansaço mental, dificuldade de concentração,
perda de memória imediata, crises de ansiedade e de humor, e doenças físicas
devido à diminuição do funcionamento imunitário (Lipp, 2006; Lipp &
Malagris, 2001; Margiset al., 2003).
Fenomenologicamente e concetualmente, a ansiedade e a depressão são claramente
distintas (Lovibond & Lovibond, 1995; Watson & Clark, 1995). Contudo,
essa distinção é substancialmente difícil em termos clínicos e empíricos devido
a diversos aspetos, tais como: (a) forte associação entre a ansiedade e os
sintomas da depressão (Pais-Ribeiro, Honrado & Leal, 2004); (b) elevada
comorbilidade (e.g., Brown et al., 2001, cit. por Holander-Gijsmanet al., 2012;
Clark & Watson, 1991); e, (c) sobreposição de sintomas-chave da ansiedade e
da depressão, causando problemas ao nível dos instrumentos e tornando as suas
medidas altamente correlacionadas e moderadamente discriminativas (Clark &
Watson, 1991; Lovibond & Lovibond, 1995; Pais-Ribeiro etal, 2004; Watson
& Clark, 1995). Na psicopatologia, a depressão e a ansiedade são
constituintes de um vasto leque de perturbações mentais (Pais-Ribeiro et al.,
2004).
Na tentativa de ultrapassar estes problemas, Clark e Watson (1991)
desenvolveram o Modelo Tripartido, no qual propõem a existência de três
dimensões: afeto negativo, afeto positivo e excitação somática. O afeto
negativo refere-se aos sintomas inespecíficos comuns à ansiedade e à depressão,
que podem ajudar a compreender a comorbilidade, a sobreposição de sintomas, e a
forte associação entre as medidas dos dois constructos (e.g., insónia,
inquietação, irritabilidade e falta de concentração). O baixo afeto positivo
abrange os sintomas de anedonia específicos da depressão, tais como a falta de
entusiasmo, excitação e energia. Por fim, a excitação somática é a dimensão
relativamente específica da ansiedade, que inclui sintomas como tensão e
hiperexcitação (Holander-Gijsman, Beurs, Weem Rood & Zitman, 2010;
Holander-Gijsmanet al., 2012; Watson & Clark, 1995).
Com o intuito de operacionalizar o Modelo Tripartido, surgiram várias medidas,
entre as quais a Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-42; Lovibond &
Lovibond, 1995). Os autores procuraram construir uma escala que abrangesse o
máximo de sintomas de ansiedade e depressão, com a absoluta discriminação entre
ambas e com elevados padrões psicométricos. Os itens da escala foram
construídos com base na experiência clínica e foram posteriormente testados,
dando origem a três fatores: depressão, ansiedade e stresse. A depressão
carateriza-se essencialmente pela perda de autoestima e iniciativa, e está
associada à perceção de baixa probabilidade de alcançar objetivos
significativos para o indivíduo. A ansiedade enfatiza a ligação entre estados
persistentes de ansiedade e as respostas intensas de medo. O stresse inclui
itens menos discriminativos da ansiedade e depressão, referindo-se a estados
persistentes de excitação e tensão, baixa tolerância à frustração, dificuldade
em relaxar, irritabilidade e agitação.
Após o estudo da escala, os autores concluíram que a depressão, a ansiedade e o
stresse podem ser diferenciados através da DASS-42, tendo esta demonstrado
qualidades psicométricas satisfatórias.
Em 2004, Pais-Ribeiro, Honrado e Leal procederam à adaptação portuguesa da
versão reduzida da Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21), designada
Escala de Ansiedade, Depressão e Stresse (EADS-21). Os resultados obtidos no
estudo demonstraram que a EADS-21 apresenta boas qualidades psicométricas e
semelhantes à versão original, constituindo-se, portanto, como uma medida útil
quer para a investigação quer para o uso clínico (Pais-Ribeiro et al., 2004).
Face à elevada prevalência de perturbações de ansiedade e depressivas na
população portuguesa, o principal objetivo do presente estudo é averiguar os
níveis de ansiedade, depressão e stresse na amostra em estudo, através da
Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21; Pais-Ribeiro et al., 2004).
Mais especificamente pretende-se avaliar as qualidades psicométricas da EADS-
21, averiguar os níveis de ansiedade, depressão e stresse existentes numa
amostra portuguesa, bem como se estes estão relacionados com as variáveis
sociodemográficas em estudo.
MÉTODO
Participantes
Participam 280 jovens adultos e adultos portugueses, 212 (75,7%) mulheres e 68
(24,3%) homens, com uma média de idades de 37,74 anos (DP= 11,46; Min= 18; Max=
95). Estes participantes são, maioritariamente, solteiros (n = 139, 49,6%),e
sem filhos (n= 175, 62,5%). Em termos académicos e profissionais são
licenciados (n= 132, 47,1%), em ciências sociais, comércio e direito (n= 127,
45,40%), saúde e proteção social (n = 27, 9,6%), artes e humanidades (n = 28,
10,0%), educação (n = 20, 7,14%) engenharia, indústrias transformadoras, e
construção (n = 30, 10,70%), ciências, matemática e informática (n = 23, 8,2%),
serviços (n = 15, 5,4%), e agricultura (n = 2, 0,71%), estando atualmente a
trabalhar a tempo inteiro (n = 176, 62,9%). De um modo geral, apresentam um
nível médio de satisfação global com a vida (M = 2,86; DP = 0,53; Min-Max = 2-
4).
Material
A Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21; Pais-Ribeiro, et al., 2004)
pretende avaliar os sintomas associados à ansiedade, depressão e stresse em
jovens adultos e adultos portugueses. É constituída por 21 itens, agrupados em
três subescalas, constituídas por 7 itens cada. A subescala Ansiedade é
constituída por (a) Excitação do Sistema Autónomo (itens 2, 4, 19), (b) Efeitos
Músculos Esqueléticos (item 7), (c) Ansiedade Situacional (item 9) e, (d)
Experiências Subjetivas de Ansiedade (itens 15, 20). A subescala Depressão é
constituída por (e) Disforia (item 13), (f) Desânimo (item 10), (g)
Desvalorização da Vida (item 21), (h) Auto depreciação (item 17), (i) Falta de
interesse ou de envolvimento (item 16), (j) Anedonia (item 3), e, (k) Inércia
(item 5). A subescala Stresse é constituída por (l) Dificuldade em Relaxar
(itens 1 e 12), (m) Excitação Nervosa (item 8), (n) Facilmente Agitado/Chateado
(item 18), (o) Irritação/Reação Exagerada (itens 6, 11) e, (p) Impaciência
(item 14). Todos os itens são avaliados através de uma escala de resposta de
tipo Likert, de 4 pontos, que reenviam para a severidade e frequência dos
sintomas experimentados nos últimos 7 dias - "na semana passada" (0
- "não se aplicou nada a mim", 1 - "aplicou-se a mim algumas
vezes", 2 - "aplicou-se a mim muitas vezes", e 3 -
"aplicou-se a mim a maior parte das vezes"). A cotação é dada pela
soma dos resultados dos 7 itens, obtendo-se uma nota para cada subescala com um
resultado mínimo de 0 e máximo de 21. Desta forma, notas mais elevadas
correspondem a estados afetivos mais negativos. Relativamente à consistência
interna, os resultados obtidos por Pais-Ribeiro et al. (2004) demonstram alfas
de Cronbach elevados para as três subescalas (ansiedade = 0,74; depressão =
0,85; stresse = 0,81).
Procedimento
Este estudo integra o projeto "Estilos de identidade, criatividade e
sintomas emocionais: Estudo exploratório com adultos portugueses" que
está a ser desenvolvido pela P.A. - Psicólogos Associados. Pretende-se criar um
contexto favorável ao aprofundamento dos conceitos identidade, criatividade e
sintomas emocionais, e da sua relação, tendo em vista a criação de bases para o
desenvolvimento de um futuro modelo teórico.
Os participantes foram convidados a responder a uma breve Ficha
Sociodemográfica seguida de três instrumentos de avaliação: (a) Inventário de
Estilos de Identidade (ISI5, Berzonsky, 2013; tradução de Pinto & Sousa,
2013), que estuda os estilos pessoais de processamento de informação, resolução
de problemas e tomada de decisão, no âmbito da (re)construção da identidade;
(b) Escala de Estilos de Pensar e Criar (Almeida & Nogueira, 2013), que
analisa modos preferenciais através dos quais diferentes pessoas expressam a
sua criatividade; e, (c) Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21;
Pais-Ribeiro, et al., 2004), que incide sobre a identificação de sintomas
emocionais vivenciados na última semana. Este projeto inclui ainda o envio de
uma fotografia de uma gaveta que procura traduzir de forma operacional como a
identidade e a criatividade se podem expressar no quotidiano.
Apenas os dados da EADS-21 foram utilizados para o desenvolvimento deste
estudo, uma vez que se pretende analisar as propriedades psicométricas da
versão portuguesa do instrumento, bem como diferenças entre grupos
sociodemográficos, antes de se proceder à sua relação com a identidade e a
expressão criativa.
Inicialmente realizou-se uma análise descritiva das respostas dos 280
participantes no estudo, bem como da consistência interna de cada uma das
dimensões da Escala de Ansiedade, Depressão e Stress-21. A análise de
fiabilidade dos itens de cada dimensão efetuou-se recorrendo ao alfa de
Cronbach como coeficiente de consistência interna.
A avaliação da Escala de Ansiedade, Depressão e Stress-21foi efetuada com uma
análise fatorial exploratória (AFE) com extração dos fatores pelo método das
componentes principais, seguida de uma rotação varimax onde se retiveram os
fatores com valor próprio superior a 1, e a percentagem de variância retida. A
medida de adequação da amostra de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e o teste de
esfericidade de Bartlett foram os métodos utilizados para avaliar a validade da
AFE. Relativamente à estrutura fatorial do EADS-21, é esperada a identificação
dos três fatores - Ansiedade, Depressão e Stresse - correspondentes ao Modelo
Tripartido desenvolvido por Clark e Watson (1991) que sustenta a escala. Todos
os fatores deverão apresentar níveis de consistência interna elevados,
analisados através do alfa de Cronbach, à semelhança do que se verificou no
estudo de adaptação portuguesa da versão Depression, Anxiety and Stress Scale
(DASS-21) em 2004.
Por outro lado, é também esperada a existência de diferenças estatisticamente
significativas nos níveis de ansiedade, depressão e stresse em função do sexo,
idade, área de formação académica, e satisfação global com a vida.
A estrutura da escala foi confirmada com recurso à Análise Fatorial
Confirmatória (AFC) com o método de estimação de máxima verosimilhança, onde os
respetivos itens da escala explicam cada uma das 3 dimensões Ansiedade,
Depressão e Stresse, representadas como variáveis latentes no modelo teórico. O
ajustamento do modelo foi avaliado com recurso às medidas ratio chi square
statistics/degrees of freedom ( /df), goodness of fit index (GFI), comparative
fit index(CFI) e root mean square error of approximation (RMSEA). Considerou-se
o modelo com ajustamento aceitável com valores de /df 3, RMSEA < 0,08, e GFI e
CFI 0,90 (Hu & Bentler, 1999).
A análise comparativa entre os grupos das variáveis sociodemográficas sexo,
idade, área de formação, e satisfação global com a vida com relação à Escala de
Ansiedade, Depressão e Stressfoi realizada com o teste de Mann-Whitney e o
teste de Kruskall-Wallis.
A análise descritiva, análise de fiabilidade dos índices, AFE e os testes
referidos foram efetuadas com o software SPSS, versão 22 para Windows (Nie,
Hull & Bent, 1968), e a AFC com o programa AMOS, versão 22 para Windows
(Arbuckle & Wothke, 1999).
RESULTADOS
Resultados descritivos do EADS
No que concerne a subescala Ansiedade, constata-se que os participantes
obtiveram uma média total de 2,73, sendo que os resultados mínimo e máximo se
situaram entre 0 e 14 pontos, face a uma amplitude teórica de 0-21 pontos.
Assim, esta amostra de participantes possui níveis de ansiedade que são muito
inferiores ao ponto médio da escala. Esta situação é confirmada quando se
analisa a distribuição das frequências e percentagens de resposta pelos quatro
pontos da escala Likert, existindo uma forte predominância das respostas em
torno dos pontos mais baixos da escala, em particular do ponto 0 "não se
aplicou nada a mim". Relativamente à análise da consistência interna da
subescala, o valor obtido é adequado (α = 0,83), sendo que a eliminação de
qualquer um dos 7 itens que a constitui provoca uma descida deste valor.
Relativamente à Depressão, verifica-se que os participantes obtiveram uma média
total de 3,97, com uma amplitude de resultados entre 0 e 20 pontos, apontando
para níveis de depressão que são muito inferiores ao ponto médio da escala. A
leitura da distribuição das frequências e percentagens de resposta pelos quatro
pontos da escala Likert, salienta uma forte predominância das respostas em
torno dos pontos mais baixos da escala, com uma predominância do valor 1
"aplicou-se a mim algumas vezes" nos itens 5 e 13. Relativamente à
análise da consistência interna da subescala, o valor obtido é adequado (α =
0,87), sendo que a eliminação de qualquer um dos itens leva a uma descida deste
valor.
Finalmente, no que se refere ao Stresse,verifica-se que os participantes
obtiveram uma média de 6,61, com uma amplitude de resultados entre 0 e 20
pontos, apontando para níveis de stresse muito inferiores ao ponto médio da
escala. A interpretação da distribuição das frequências e percentagens de
resposta pelos quatro pontos da escala Likert salienta uma forte predominância
das respostas de valor 1 "aplicou-se a mim algumas vezes".
Relativamente à análise da consistência interna da subescala, o valor obtido é
adequado (α = 0,86), sendo que a eliminação dos itens 14 e 16 favorece,
respetivamente, uma manutenção ou ligeira subida (α = 0,86) deste valor. É de
salientar que, com base nestes resultados (cf. quadro_1), o sintoma stresse
parece ser o mais vivenciado por esta amostra de participantes, ainda que se
afaste de forma significativa de valores considerados preocupantes do ponto de
vista da saúde mental.
Análise fatorial exploratória
Os resultados da AFE realizada indicam uma estrutura fatorial com 3 fatores,
KMO de 0,94, teste de esfericidade de Bartlett = 2851,99 (210); p < 0,001 e
variância total explicada de 56,07%, o que indica uma muito boa adequabilidade
da AFE. Todos os itens da EADS-21 têm comunalidade superior a 0,30 não
existindo nenhum item com peso fatorial igual ou inferior a 0,40. Para
confirmar esta estrutura fatorial, realizou-se uma AFC onde se verificou um bom
ajustamento entre o modelo teórico e os dados ( /df = 1,853, GFI = 0,90, CFI =
0,94, RMSEA = 0,06). Todos os itens da escala tinham pesos estatisticamente
significativos no modelo proposto. No quadro_2 apresentam-se os pesos fatoriais
de cada item em cada dimensão (Ansiedade, Depressão e Stresse) a que pertencem,
as comunalidades e os pesos fatorias da AFC.
Análises de diferenças
Os resultados da análise de diferenças entre o sexo feminino e masculino com
relação à EADS realizada com o teste de Mann-Whitney, para os itens da escala e
as dimensões Ansiedade, Depressão e Stresse, indicam não haver diferenças
estatisticamente significativas entre os sexos em nenhuma das questões da
escala nem nas três dimensões em análise.
Relativamente à classe etária, os resultados do teste de Kruskall-Wallis
indicaram que, em algumas questões da escala, a um nível de significância de
0,05, existe evidência suficiente para se rejeitar a hipótese de igual
distribuição nos diversos escalões etários. Na dimensão Ansiedadeno item 4
"Senti dificuldades em respirar" ( (3) = 8,12; p < 0,05) o escalão
etário ">45 anos" tem menor média de resposta (M = 0,16). Nos itens
da Depressão, também foram os mais velhos que no item 13 "Senti-me
desanimado(a) e melancólico(a)" ( (3) = 10,89; p < 0,05) indicaram uma
média de resposta mais baixa (M = 0,73) relativamente aos restantes escalões
etários. No item 17 "Senti que não tinha muito valor como pessoa" o
escalão etário mais novo dos 18 aos 29 anos (M = 0,37) e os mais velhos
"> 45 anos" (M = 0,32) têm uma média de resposta inferior aos
outros escalões etários. Para o Stresse, as diferenças entre escalões ocorrem
nos itens 11 "Dei por mim a ficar agitado(a)" e 14 "Estive
intolerante em relação a qualquer coisa que me impedisse de terminar aquilo que
estava a fazer". No item 11 o escalão etário "> 45 anos", tem
média de respostas mais baixa (M = 0,63) relativamente aos outros escalões e no
item 14 os escalão dos mais novos tem a média mais baixa (M = 0,59) e o escalão
etário dos 30 aos 34 anos a maior média (M = 1,05). Nas dimensões Ansiedade,
Depressão e Stresse não existem diferenças estatisticamente significativas nas
diferentes classes etárias.
A análise de diferenças nas áreas de formação consideradas no estudo com
relação à EADS-21 e aos diferentes itens da escala mostraram que apenas no item
7 "Senti tremores (por ex. nas mãos)" da dimensão Ansiedade, se
rejeita a hipótese de igual distribuição nas respostas em todas as áreas de
formação, a um nível de significância de 5% ( (8) = 16,68; p < 0,05). A área de
formação "Engenharia, indústrias transformadoras e construção" tem
média (M = 0,31) inferior de resposta às restantes áreas, e a
"Agricultura" tem média superior (M = 1,5).Para as três dimensões
as diferenças existentes não são estatisticamente significativas.
É na satisfação global com a vida nas dimensões Depressão ( (1) = 25,24; p <
0,001) e Stresse ( (1) = 25247,11; p < 0,05), bem como na maioria dos seu
itens, que a não igualdade entre os diversos graus de satisfação se verifica
mais. Na Depressão são os respondentes que se manifestaram insatisfeitos que
têm a maior média de respostas (M = 6,68). Em todos os itens da dimensão
Depressão, a hipótese de igualdade entre os diferentes graus de satisfação
global com a vida é rejeitada, sendo os insatisfeitos o grupo com a maior média
de resposta, seguindo os resultados da dimensão correspondente a estes itens.
Na dimensão Stresse, nos itens 1 "Tive dificuldades em me acalmar"
( (1) = 4,02; p < 0,05), 8 "Senti que estava a utilizar muita energia
nervosa" ( (1) = 4,10; p < 0,05), 12 "Senti dificuldade em me
relaxar" ( (1) = 10,86; p < 0,001) e 18 "Senti que por vezes estava
sensível" ( (1) = 15,58; p < 0,001) existem diferenças estatisticamente
significativas entre os diferentes grupos, sendo o grupo dos insatisfeitos o
que tem a maior média de respostas.
DISCUSSÃO
Este estudo visou avaliar as qualidades psicométricas da EADS-21, averiguar os
níveis de ansiedade, depressão e stresse existentes numa amostra portuguesa, e
se estes estão relacionados com as variáveis sociodemográficas em estudo. No
que respeita os resultados descritivos em termos dos níveis de ansiedade,
stresse e depressão desta amostra de jovens adultos e adultos portugueses,
verifica-se que estes são reduzidos, em particular no que respeita a ansiedade
e a depressão. Neste sentido, estes participantes não parecem apresentar
respostas desadaptativas face ao meio. Isto é, não apresentam reduzida
autoestima, tristeza, perda de interesse ou de prazer, sentimentos de culpa,
perturbações de sono ou do apetite, ou excessiva ativação face a situações de
perigo real ou percebido (Lipp & Malagris, 2001; Margiset al., 2003). O
sintoma stresse parece ser o mais vivenciado por esta amostra de participantes.
Neste sentido, alguns dos participantes que integram esta amostra parecem
evidenciar sintomas como cansaço mental, dificuldade de concentração, perda de
memória de trabalho, bem como algumas doenças físicas decorrentes de um estado
de ativação constante. No entanto, é de salientar que os resultados obtidos
afastam-se, de forma significativa, de valores considerados preocupantes do
ponto de vista da saúde mental.
No que respeita o estudo psicométrico da EADS-21, realizado a partir das
análises fatoriais exploratória e confirmatória, verifica-se que ambas apontam
no sentido de um bom ajustamento do modelo aos dados teóricos, tendo sido
identificados 3 fatores, cujos itens que os constituem correspondem ao esperado
em termos teóricos. Além disso, os fatores apresentam níveis adequados de
consistência interna. Os resultados obtidos neste estudo fatorial são muito
próximos dos obtidos em estudos prévios. A título de exemplo salienta-se o
estudo de Apóstolo, Mendes e Azeredo (2006), desenvolvido com um total de 101
jovens, adultos e idosos de uma consulta externa de psiquiatria (63,37%
mulheres), com uma idade média de 17-80 anos (M = 45,41; DP = 12,57), com
diferentes níveis de escolaridade (52,48% com 4 anos de escolaridade, e 11.88%
mais de 12 anos de escolaridade). Nesse estudo foram identificados 3 fatores de
explicam 58,55% da variância total dos itens, com níveis de consistência
interna na ordem dos 0,90 para a depressão, 0,86 para a ansiedade, 0,88 para o
stresse. Também o estudo de Pais-Ribeiro, et al. (2004), desenvolvido com 200
participantes (162 mulheres) estudantes do 1º ciclo de estudos em Psicologia,
com uma média de idades de 19.79 anos (DP = 1,11; 18-23 anos), permitiu a
identificação de 3 fatores que explicam 50,35% da variância, com níveis de
consistência interna de 0,85 para a depressão, 0,74 para a ansiedade e 0,81
para o stresse. É de salientar, no entanto, que nesse estudo o 3º fator
consistia em itens correspondentes ao sintoma ansiedade, mas juntamente com uma
mescla de itens pertencentes aos outros dois sintomas emocionais, e que os
níveis de fiabilidade alcançados eram inferiores aos aqui identificados.
A respeito do estudo das diferenças no sintomas emocionais a partir das
variáveis sociodemográficas dos participantes, é importante esclarecer que,
neste estudo, não se identificaram diferenças na depressão, stresse e ansiedade
em função do sexo, idade, ou formação académica. No entanto, parecem existir
diferenças nestes sintomas em função da perceção de satisfação global com a
vida. Estes resultados apresentam alguma incongruência face aos obtidos em
estudos prévios.
Por exemplo, no que respeita o sexo, no estudo de Apóstolo, Tanner e Arfken
(2012), desenvolvido com 1297 (66,7% mulheres) participantes pacientes externos
de centros de saúde em Portugal, com uma idade média de 48,57 anos (DP = 19,98)
foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre homens e
mulheres nas dimensões depressão (t = 2,69, p = 0,007), ansiedade (t = 2,63, p
= 0,009), e stresse (t = 3,40, p = 0,001), sempre com sempre com resultados
superiores para as mulheres. Os estudos de Apóstolo, Figueiredo, Mendes e
Rodrigues (2011), Apóstolo, et al., (2011), e Rebelo-Pinto, Amaral, Silva,
Silva, Leal e Paiva (2012) identificaram também resultados superiores para as
mulheres em todas as subescalas da EADS-21. No entanto, o estudo de Melo, Leal
e Faria (2006), com 121 homens e 80 mulheres identificou resultados superiores
para as mulheres apenas na subescala referente aos níveis de ansiedade, e o
estudo de Veigas e Gonçalves (2009) desenvolvido com 207 participantes (105
mulheres), com idades compreendidas entre os 20 e os 55 anos (M = 34,11)
apontou para a inexistência de diferenças nos sintomas emocionais em função do
sexo.
Também no que respeita a idade, os resultados aqui obtidos não têm reflexo nos
estudos prévios, sendo que no estudo de Veigas e Gonçalves (2009), se verificou
a existência de diferenças entre grupos etários, na dimensão ansiedade, com
resultados mais desfavoráveis para os participantes até aos 20 anos de idade.
Também no estudo de Rebelo-Pinto, Amaral, Silva, Silva, Leal e Paiva (2012), no
qual participaram 1613 jovens entre os 12 e os 18 anos de idade (M = 14,23; DP
= 1,75) foram registadas diferenças entre os alunos do 3º ciclo e os alunos do
ensino secundário, com resultados mais favoráveis aos alunos mais novos (t =
4,09, p < 0,0001).
No que respeita a área de formação académica, e a satisfação global com a vida,
são mais escassos os estudos que abordam as diferenças na ansiedade, no stresse
e na depressão. As habilitações académicas são um fator mais analisado do que a
área de formação académica, sendo que neste âmbito os estudos têm apontado para
resultados incongruentes acerca da (in)existência de diferenças entre pessoas
com níveis de escolaridade distintos (cf. Rebelo-Pinto et al., 2012; Veigas
& Gonçalves, 2009). Quanto à satisfação global com a vida, os resultados
obtidos neste estudo indicam que as pessoas insatisfeitas com a sua vida, no
que respeita as atuais condições económicas, de saúde, de vida académica/
profissional, familiar, social/ de lazer, e/ ou de participação na comunidade,
são as que apresentam níveis mais elevados de depressão e stresse. A literatura
tem apontado que estes sintomas estão geralmente associados a uma incapacidade
geral da pessoa para a vida (Vaz Serra, 1994), associada à ideia de reduzido
controlo sobre a mesma. Assim, estas pessoas tendem a caracterizar-se por baixa
autoestima, baixo locus de controlo interno, baixa tolerância à frustração, e
perceção de baixa probabilidade de alcançar objetivos significativos (Lovibond
& Lovibond, 1995).
Em conclusão, a realização deste estudo permitiu confirmar as propriedades
psicométricas da presente versão da EADS-21, de acordo com o modelo tripartido
(Ansiedade, Stresse, Depressão) desenvolvido por Clark e Watson (1991). Assim,
existem evidências empíricas em como esta escala se constitui como um
instrumento rápido e seguro na deteção de estados emocionais negativos nos
cuidados de saúde primários. Reforça-se a necessidade de aprofundamento desta
linha de investigação com populações diversificadas em função de outras
características sociodemográficas.