Atividade física e estilos educativos parentais
Desde 1920 que a psicologia do desenvolvimento se mostra interessada em estudar
a influência parental no desenvolvimento das competências sociais e
instrumentais das crianças e dos adolescentes (Darling, 1999). Os pais exercem
muita influência na aquisição de hábitos e comportamentos, por serem os
principais agentes de enculturação e socialização e modelos de referência para
os seus filhos (Ramos, 2009). É no período da infância que esta influência se
torna mais intensa e mais notória, mas os comportamentos parentais também
afectam o desenvolvimento e a adaptação dos seus filhos durante o período da
adolescência (Ducharne, Cruz, Marinho, & Grande, 2006). Este período é
comummente designado de transição da infância para a idade adulta, durante o
qual ocorrem mudanças biológicas (crescimento físico e maturação sexual), que
contribuem para alterações sociais e psicológicas e para a aquisição de várias
competências que permitem aos indivíduos tornarem-se membros activos da
sociedade (Gleitman, Fridlund, & Reisberg, 2003). A adolescência inicia-se
a partir da puberdade, que ocorre mais ou menos por volta dos 10 anos, mas todo
o desenvolvimento biológico, psicológico e social vai depender do contexto
sociocultural onde o adolescente se insere (Traverso-Yépez & Pinheiro,
2002). Para além das mudanças a nível biológico (a puberdade), a adolescência
caracteriza-se, ainda, pelas modificações a nível cognitivo e interpessoal. Os
adolescentes desenvolvem o pensamento abstracto e o raciocínio proposicional,
pensam mais em termos de dinâmica e interacções, tentam perceber e colocar-se
no ponto de vista do outro (Larson & Sheeber, 2009), criam hierarquias
complexas de regras para guiarem as suas acções e desenvolvem a memória de
trabalho (Kesek, Zelato, & Lewis, 2009). Por outro lado, os adolescentes
passam menos tempo com a família e mais com os grupos de amigos, pois sentem
necessidade de encontrar outras formas de identificação, do mesmo modo que
necessitam de estabelecer relacionamentos íntimos (Allen & Sheeber, 2009).
Este período da vida nem sempre é conturbado, mas coloca alguns desafios
sérios, que, por um lado, geram alguma vulnerabilidade comportamental e
emocional (Allen & Sheeber, 2009) e, por outro, são necessários ao
desenvolvimento da independência, da responsabilidade, da auto-
consciencialização, apreensão e empatia (Larson & Sheeber, 2009).
Embora a interacção pais-filhos tenda a diminuir durante a fase da
adolescência, as práticas educativas parentais constituem um factor relevante
no desenvolvimento dos adolescentes, sendo que estas práticas influenciam o
crescimento da autonomia e o desempenho académico (Peixoto & Rodrigues,
2005). Contudo, a relação pais-filhos nem sempre se tem estabelecido da mesma
forma ao longo dos tempos. Gomide (2009) realça algumas modificações fazendo
alusão às alterações que a sociedade tem sofrido nas últimas décadas, que
influenciaram o modo como os pais educam e se relacionam com os seus filhos.
Uma dessas alterações prende-se com a crescente industrialização e com a
consequente entrada da mulher no mercado de trabalho, o que levou a que a
função "cuidadora", que até então era desempenhada pela mãe,
passasse a ser dividida com o pai. Por outro lado, a estrutura familiar em si
tem-se alterado, sendo que as famílias extensas são cada vez mais raras e as
novas formas de família surgem em maior número, como por exemplo, famílias
monoparentais, homossexuais, com filhos de uniões anteriores, entre outros. Até
à década de 80, as tarefas educativas eram baseadas na divisão de papéis
segundo o género, o que na actualidade tende a ser mais escasso, embora a
figura feminina assuma, ainda, a responsabilidade doméstica e o homem a
autoridade moral. De acordo com Salvador (2007), as famílias tradicionais e
controladoras estão a dar lugar às famílias modernas que valorizam não só os
filhos, mas também a comunicação.
É neste contexto, o da interacção entre pais-filhos, de atitudes e de
comportamentos parentais que se destacam os estilos educativos parentais. Em
primeiro lugar, importa diferenciar o que são práticas parentais e o que são
estilos parentais. As primeiras correspondem a comportamentos específicos por
parte dos pais que têm como objectivo incentivar, nos filhos, comportamentos
socialmente adequados e suprimir os inadequados (Salvador, 2007; Weber,
Brabdenburg, & Viezzer, 2003). As práticas parentais podem ser coercivas,
que se caracterizam pelo uso de estímulos aversivos no controlo do
comportamento (por exemplo, punição verbal ou física), ou não coercivas, que
representam o reforço positivo e a instituição de regras com determinadas
consequências (Salvador, 2007).
As práticas parentais devem proporcionar o desenvolvimento de competências,
evitando o aparecimento de comportamentos problema (Salvador, 2007). Inerente a
este conceito estão os estilos parentais, que correspondem a manifestações dos
pais para os filhos e que caracterizam a natureza da relação entre eles, ou
seja, os estilos parentais estão relacionados com o padrão comportamental (por
exemplo, atitude, tom de voz, práticas, tipo de linguagem) que os pais
expressam dentro do clima emocional da interacção com os filhos (Darling &
Steinberg, 1993; Salvador, 2007). Para Darling and Steinberg (1993) os estilos
parentais são uma "constelação de atitudes face à criança, que, em
conjunto, criam um clima emocional onde os comportamentos parentais são
expressos" (p.488). A cada pai/ mãe corresponde um estilo parental, isto
é, existem diferenças nos estilos parentais e tais diferenças devem-se,
essencialmente, à cultura, à personalidade, ao tamanho da família, aos
antecedentes parentais, ao estatuto socioeconómico, às habilitações literárias
e à religião (Maccoby, 1992), bem como às características individuais dos
filhos (Huver, Otten, Vries, & Engels, 2009; Montandon, 2005).
A maioria das pesquisas no âmbito dos estilos parentais tem por base o trabalho
de Diane Baumrind (1966) e o seu conceito de estilos parentais, que inclui todo
um conjunto de aspectos emocionais e comportamentais (Darling, 1999; Darling
& Steinberg, 1993; Weber, Prado, Viezzer, & Branberburg, 2004). Num
estudo longitudinal, a autora identificou três principais estilos educativos
parentais: o estilo autorizado ou autoritativo, o estilo autoritário e o estilo
permissivo (Baumrind, 1966; Cruz, et al., 2011; Darling, 1999; Ducharne et al.,
2006; Weber, et al. 2003; 2004). Mais tarde, identificou-se outro estilo
parental, o estilo negligente (Darling, 1999; Darling & Steinberg, 1993).
Este conceito de estilos parentais está associado às variações das tentativas
parentais de controlar e socializar as crianças e cada um destes estilos
reflecte padrões de valores, práticas e comportamentos que ocorrem naturalmente
(Darling, 1999). A caracterização dos estilos parentais tem por base duas
dimensões importantes: a responsividade e a exigência, sendo que responsividade
diz respeito à sensibilidade dos pais face aos interesses e necessidades dos
filhos, e a exigência está associada ao grau de controlo exercido pelos pais
para que as regras se façam cumprir (Ducharne et al., 2006; Huver et al.,
2009). De um modo mais particular, pode dizer-se que a responsividade (também
denominada de afecto-comunicação ou apoio parental) refere-se ao reconhecimento
que os pais têm da individualidade da criança (Darling & Steinberg, 1993),
ou seja, ao modo como os pais promovem essa individualidade e auto-afirmação,
apoiando e tendo em conta os pedidos da criança (Baumrind, 2005). A
responsividade está associada a comportamentos específicos como carinho,
envolvimento, aceitação (Huver et al., 2009; Weber et al., 2004), incentivos à
autonomia e comunicação fundamentada (Baumrind, 2005). Por outro lado, a
exigência refere-se à regulação do comportamento, à confrontação directa, à
exigência de maturidade (Baumrind, 2005) e à supervisão das actividades dos
filhos, desde o conhecimento das mesmas até à sua monitorização activa (Huver
et al., 2009; Weber et al., 2004). Actualmente, os pais temem errar na educação
dos seus filhos, sentem-se em dívida para com eles, principalmente porque
trabalham durante muito tempo, e neste sentido, tendem a compensá-los com a
permissividade excessiva (Gomide, 2009). Assim, a exigência parental e a ideia
de que as crianças "não têm querer" foram dando lugar à
permissividade e à crença de que estabelecer limites pode originar traumas
psicológicos. As crianças necessitam de regras de fácil execução e compreensão,
com consequências curtas e consistentes, sendo que os pais devem fornecer um
modelo moral adequado, estabelecendo e ensinando os limites comportamentais dos
filhos (Gomide, 2009). É importante que os estilos educativos parentais não se
enquadrem nos extremos, mas que se estabeleça um equilíbrio entre a
responsividade e a exigência, de modo a surtir mais efeitos positivos no
desenvolvimento da criança (Huver et al., 2009) e a gerar uma interacção
positiva, promovendo comportamentos pró-sociais e saudáveis nos filhos
(Salvador, 2007). Para adoptarem um estilo educativo parental que evidencie o
equilíbrio entre estas duas dimensões, os pais devem envolver- se na educação
dos seus filhos, facultando atenção, incentivo e auxílio, estimulando o diálogo
e a diversão, respondendo às necessidades dos filhos e supervisionando as
actividades e comportamentos dos mesmos, com obediência e limites (Weber et
al., 2004). Os estilos parentais, para além de influenciarem o desenvolvimento
dos filhos, vão também afectar os estilos parentais que estes irão adoptar
futuramente (Weber et al., 2004).
Todo o conjunto de comportamentos e atitudes expressos dentro do clima
emocional da interacção pais-filhos, e que caracterizam os diferentes estilos
educativos parentais, exercem influência nos diferentes aspectos do
desenvolvimento da criança, por exemplo, o desempenho escolar ou académico.
Neste âmbito, Peixoto e Rodrigues (2005) e Salvador (2007) verificaram a
existência de uma relação positiva entre o apoio social e emocional dado pelos
pais e o desempenho e motivação escolar. O envolvimento dos pais na vida
académica dos filhos tem mostrado efeitos positivos, principalmente se os pais
interagirem com os filhos na realização de trabalhos escolares, na
monitorização das actividades diárias e nos seus comportamentos, através do
encorajamento e do reforço verbal directo (Soares, Souza, & Marinho, 2004).
Assim, o papel dos pais mostra-se fulcral na modelagem de atitudes e
comportamentos dos filhos face ao estudo, nomeadamente na reflexão de conteúdos
e no aumento da motivação (Monteiro, Vasconcelos, & Almeida, 2005). De
acordo com Salvador (2007), a família situa-se em dois extremos opostos, que
são a família pró-saber e a família anti-saber. A primeira valoriza e respeita
as actividades académicas dos filhos, estimulando a aquisição de conhecimentos,
enquanto a segunda exerce um controlo aversivo, não dando prioridade à procura
de conhecimento, mas apenas ao cumprimento das tarefas e obtenção das notas.
Contudo, existem factores que dificultam a participação activa dos pais, tais
como, falta de tempo, mudanças no ensino, desconhecimento das matérias,
dificuldades de aprendizagem dos filhos, tipos de avaliação e comportamentos e
atitudes dos professores em relação aos pais e às crianças (Soares et al.,
2004). Apesar de ser importante a participação dos pais no percurso académico
dos filhos, estes devem desenvolver o seu próprio método de estudo de acordo
com as suas necessidades individuais (Monteiro et al., 2005). Os estilos
parentais influenciam os hábitos de estudo e, consequentemetne, o rendimento
académico. Deste modo, é evidente a influência dos pais na aquisição dos mais
variados hábitos, comportamentos e atitudes por parte dos seus filhos,
nomeadamente, os que estão relacionados com um estilo de vida saudável e activo
(Ramos, 2009). É cada vez mais evidente a acentuada redução da prática de
actividade física nas sociedades desenvolvidas, com padrões de sedentarismo
cada vez mais vincados (Lopes & Maia, 2004). Estudos longitudinais que
analisaram o tracking(estabilidade e manutenção de um determinado comportamento
ao longo da vida) concluíram que a prática de actividade física é um
comportamento pouco estável, sendo essa instabilidade mais evidente nos
períodos de transição da infância para a adolescência e da adolescência para a
idade adulta (Malina, 2001).
É necessário distinguir o conceito de actividade física de exercício físico,
pois estes conceitos são muitas vezes confundidos e usados sem distinção. O
exercício físico é um subgrupo da actividade física, que se caracteriza pelo
movimento do corpo planeado, estruturado e repetitivo, realizado para promover
ou manter uma ou mais componentes da condição física (Buckworth & Dishman,
2002; Veloso, 2005). De acordo com Buckworth and Dishman (2002), actividade
física pode ser definida como o movimento produzido pelos músculos
esqueléticos, do qual resulta dispêndio energético, e compreende lazer,
actividade desportiva, trabalho e tarefas domésticas. Deste modo, a actividade
física é de natureza complexa e difícil de mensurar, pois pode envolver
diferentes formas, contextos e períodos de tempo. As dimensões que a compõem
(tipo, frequência, intensidade e duração) é que permitem caracterizar o sujeito
como activo ou inactivo (Lopes & Maia, 2004; Veloso, 2005). Os factores que
influenciam o envolvimento dos adolescentes na actividade física diferem das
restantes faixas etárias, por exemplo, intenção de ser activo devido à
competência física percebida, nível de actividade dos pares, encorajamento por
parte de pessoas significativas e tempo gasto fora de casa (Ammouri, Kaur,
Neuberger, Gajewski, & Choi, 2007). O suporte social, principalmente o
apoio parental, influencia a prática de actividade física nos adolescentes e
contribui para a consolidação do hábito de ser ou não activo (Silva et al.,
2008). Assim, a adesão das crianças e adolescentes à prática de actividade
física depende do sistema de crenças e expectativas e do envolvimento dos pais,
sendo que um estilo parental associado a um forte apoio e promoção de autonomia
é muito importante para alcançar as recomendações da prática de actividade
física em crianças e jovens (Ramos, 2009). Estas recomendações têm sido
estipuladas por importantes instituições relacionadas com a saúde pública e com
a prática de actividade física. De acordo com a Organização Mundial da Saúde
(OMS, 2003), para que se obtenham ganhos para a saúde, a actividade física deve
ser praticado todos os dias, durante pelo menos 30 minutos, com uma intensidade
moderada. Segundo Haskell et al. (2007), o American College of Sports Medicinee
a American Heart Associationrecomendam a prática de exercício físico aeróbio de
intensidade moderada, durante o mínimo de 30 minutos, cinco dias por semana ou,
então, actividade de intensidade vigorosa durante 20 minutos, pelo menos 3 dias
por semana.
A noção de actividade física remete-nos para o conceito de vivência activa ou
active living, onde a actividade física se insere como um comportamento
representativo de um estilo de vida activo e que se traduz em determinadas
rotinas, como ir a pé para a escola, andar de bicicleta ou subir escadas
(Veloso, 2005). Neste sentido, a prática regular de actividade física tem um
papel decisivo na promoção da saúde, no aumento da qualidade de vida e do bem-
estar (Veloso, 2005). A actividade física regular tem efeitos positivos na
saúde, sendo os mais fundamentados na literatura a diminuição do risco de
doenças coronárias, aterosclerose, acidentes vasculares cerebrais, enfarte do
miocárdio (Alves, Montenegro, Oliveira, & Alves, 2005); auxílio no controlo
de peso e da obesidade (Malina, 2001a), no controlo da ansiedade e depressão; e
melhoria nos níveis da auto-estima, bem-estar e a socialização (Alves et al.,
2005; OMS, 2003). Durante o período da adolescência verificam-se elevados
níveis de stress, devido às constantes transformações de que os adolescentes
são alvos, e, neste sentido, a actividade física funciona como um mecanismo de
copingatravés do aumento dos sentimentos de mestria e de auto-eficácia e da
avaliação dos acontecimentos de vida como menos stressantes e negativos (Hays,
1999). A actividade física tem, assim, um efeito amortecedor no stress e nos
acontecimentos desfavoráveis, bem como, no consumo de substâncias e no impacto
das adversidades familiares (Hays, 1999). Outro efeito benéfico prende-se com
as questões da imagem corporal e da auto-estima, na medida em que, uma boa
forma física está associada à prática de actividade física que se traduz numa
melhor imagem corporal e, consequentemente, origina um aumento da auto-estima
(Miles, 2007). A importância do estudo da relação entre estilos educativos
parentais e actividade física prende-se com o facto de sabermos que a prática
de actividade física encontra-se associada ao desempenho académico e que o
envolvimento dos jovens nessas actividades está dependente do estilo educativo
adoptado pelos pais. Estudos demonstram que crianças que são fisicamente
activas tiveram um desempenho mais rápido em tarefas cognitivas e uma maior
mobilização cerebral (devido ao aumento da produção de neurotrofinas), o que
contribui para um maior rendimento escolar (Stevens, To, Stevenson, &
Lochbaum, 2008; Tomporowski, Davis, Miller, & Naglieri, 2008).
Assim, com o presente estudo pretende-se determinar a relação entre sexo, grupo
etário e prática de actividade física com os tipos de estilos educativos
parentais. Para tal, foram definidos os seguintes objectivos específicos:
comparar rapazes e raparigas ao nível dos estilos educativos parentais
percebidos; comparar os diferentes grupos etários ao nível dos estilos
parentais percebidos; comparar a prática e não prática de actividade física ao
nível dos estilos educativos parentais percebidos; e, comparar o efeito
combinado das variáveis sexo e prática de actividade física nos estilos
educativos parentais.
MÉTODO
Este estudo é de cariz quantitativo, uma vez que foram utilizados questionários
como instrumentos de recolha de dados e foi realizado um tratamento estatístico
desses mesmos dados. É também um estudo quasi-experimental, pois não houve
manipulação da variável independente, e é do tipo transversal, porque os dados
foram recolhidos num único espaço de tempo (Almeida & Freire, 2003). Uma
vez que foram realizadas comparações entre os diferentes grupos, este estudo
tem também um cariz comparativo. As variáveis independentes são o sexo, a idade
e a prática de actividade física. As variáveis dependentes são os estilos
educativos parentais.
Participantes
A amostra deste estudo pode ser caracterizada como de conveniência, porque foi
recolhida através da técnica de amostragem não probabilística, não sendo,
assim, representativa da população portuguesa. Inicialmente, foram recolhidos
309 questionários, mas 37 destes foram eliminados, porque o seu preenchimento
estava incompleto ou incorrecto. A amostra final ficou constituída por 272
estudantes do 8o e 9o ano do 3o ciclo (n = 136) e estudantes do ensino
secundário (n = 136) de uma escola da zona interior norte de Portugal. Destes
272 estudantes, 37,1 % são do sexo masculino (n = 101) e 62,9% do sexo feminino
(n = 171), com idades compreendidas entre os 13 e os 21 anos de idade (M=
15,66, DP= 1,71). Relativamente à prática de actividade física, da totalidade
da amostra, 61 % praticam actividade física fora do contexto escolar (n = 166),
sendo a actividade mais referida o futebol (22,8 %), seguido pela prática de
várias actividades (10,7 %), da natação (7 %) e da dança (4,4 %). Destes 166
estudantes que praticam actividade física fora do contexto escolar 81 % pratica
duas vezes e três ou mais vezes por semana, e cerca de 89 % praticam durante 30
a 60 minutos e mais do que uma hora. Quanto à caracterização do agregado
familiar, convém salientar que a maior parte dos adolescentes que compõem a
amostra vivem com os pais (80,9 %) e os restantes vive com famílias
monoparentais ou com outra constituição (19,1 %). A maioria tem um ou dois
irmãos (58,5 % e 19,5 %, respectivamente), apenas 9,2 % têm três ou mais irmãos
e cerca de 12,8 % são filhos únicos.
Material
Questionário de Estilos Educativos Parentais (QEEP)
Este questionário, que permite avaliar as percepções que os adolescentes têm
dos estilos educativos dos seus pais, foi traduzido e adaptado das Parenting
Scales, de Lamborn, Mounts, Steinberg and Dornbusch (1991), por Ducharne et al.
(2006) e posteriormente validado por Cruz et al. (2011). Em relação à escala
original, foram introduzidos dois itens novos, um item foi reformulado e um
outro foi eliminado, e o modo de cotação foi ligeiramente alterado, optando-se
pela uniformização das escalas de resposta. O QEEP é então constituído por 19
itens, cujas respostas são cotadas numa escala de quatro pontos e a sua
denominação vai variando ao longo dos itens. Nos primeiros cinco itens as
opções de resposta variam de discordo totalmente, não concordo, concordo a
concordo em absoluto. Já nos itens 6 e 7, as opções variam de nunca, às vezes,
frequentemente a sempre. Nos itens 8 e 9, as respostas alternam entre quase
todos os dias, algumas vezes por semana, algumas vezes por mês e quase nunca.
Por último, os restantes itens variam entre nada, pouco, bastante e muito. Este
questionário é composto por duas subescalas, a exigência/supervisão e a
responsividade, que permitem identificar os quatro estilos educativos parentais
propostos por Baumrind (1966). A exigência/supervisão é composta por 10 itens,
cujo conteúdo remete para a monitorização, controlo e supervisão dos pais. Já a
subescala da responsividade, composta por 9 itens, baseia-se no apoio
emocional, comunicação e promoção da autonomia. Nos cinco primeiros itens, o
pai e a mãe são avaliados separadamente e nos restantes itens são avaliados em
simultâneo. Tendo em conta esta divisão relativamente às figuras parentais, na
prática estes 5 itens transformam-se em 10 itens, uma vez que cinco itens são
dirigidos ao pai e outros cinco à mãe. Deste modo, a subescala responsividade
fica composta por 14 itens, ficando, assim, a escala total com 24 itens. Na sua
versão original, as duas sub-escalas apresentaram uma boa consistência interna,
com um αde 0, 78 para a sub-escala responsividade e 0,85 para a sub-escala
supervisão. Neste estudo, a escala apresentou uma boa consistência interna (α=
0,817), assim como as sub-escalas, 0,733 para a responsividade e 0,847 para a
exigência. Tendo em consideração a divisão dos cinco primeiros itens, criaram-
se duas sub-escalas: a responsividade do pai, que agrupa os cinco primeiros
itens do questionário dirigidos ao pai e os restantes itens relativos à
dimensão responsividade; e a responsividade da mãe, que engloba os itens da
responsividade direccionados à figura materna e os restantes. Contudo, estas
duas sub-escalas apresentaram uma consistência interna aceitável, com valores
de 0,564 e 0,536, respectivamente.
Procedimento
Os questionários deste estudo foram aplicados aos alunos do 8.º e 9.º ano do
3.º ciclo do ensino regular, bem como, aos alunos que frequentavam os três anos
do ensino secundário. Por questões de regulamento interno da escola, os
questionários deste estudo foram aplicados por professores, previamente
informados acerca das normas de aplicação. Os professores pediram aos alunos
que respondessem com sinceridade a todas as questões que lhes foram
apresentadas.
Para a criação da base de dados e posterior análise estatística foi utilizada a
versão 16 do softwareSPSS (Statistical Package for Social Sciences). Numa
primeira fase, foi feita a análise descritiva que permitiu a descrição das
variáveis em estudo e da amostra, no que diz respeito à média, desvio-padrão e
frequências. De seguida, para a análise comparativa das diferentes variáveis
dependentes, foram realizadas análises multivariadas da variância (MANOVA). A
MANOVApermite não só trabalhar com mais do que uma variável dependente, como
combina as diferentes variáveis dependentes e as assume como uma única variável
(Dancey & Reidy, 2006). Efectuou-se ainda uma MANOVAcom o intuito de
verificar o efeito combinado das variáveis independentes sexo e prática de
actividade física nas variáveis dependentes. Convém salientar que, para
proceder à análise multivariada da variância é necessário que sejam cumpridas
algumas condições: normalidade multivariada (cada variável dependente deve ter
uma distribuição normal, com um mínimo de 12 participantes cada) e
homogeneidade de variâncias (visível através do teste Mde Box, e sempre que
este apresenta um valor de p> 0,005). Contudo, uma vez que o teste Mde Boxé
considerado conservador e mais adequado a amostras pequenas, deve ter-se em
conta os valores do teste de Levene, que devem apresentar um valor de p> 0,05,
na maioria das variáveis (Dancey & Reidy, 2006).
RESULTADOS
Inicialmente serão apresentados os resultados relativos à análise descritiva
das variáveis analisadas, e os restantes resultados serão apresentados tendo em
consideração a ordem dos objectivos propostos neste estudo. As variáveis
independentes deste estudo são: sexo, grupos de idade e prática de actividade
física fora do contexto escolar. Ao nível dos estilos educativos parentais, as
variáveis dependentes são a responsividade do pai, responsividade da mãe,
responsividade total e exigência/ supervisão.
Para ser possível descrever cada variável dependente, foram calculados os
valores da média e desvio padrão. Por outro lado, para se verificar a
distribuição dos dados, determinaram-se os valores de Skewness(assimetria) e
Kurtosis(achatamento). No quadro_1 estão apresentados os valores para cada
variável dependente deste estudo.
Uma vez identificadas as diferentes variáveis, a primeira análise incide na
distribuição dos dados. Considerando os valores de Skewnesse
Kurtosisapresentados, e tendo por referência Munro (2001), os dados apresentam
uma distribuição normal, uma vez que os valores respeitam o intervalo [-1,96;
1,96] proposto pelos autores. Olhando aos valores da média e desvio padrão, no
que diz respeito aos estilos educativos parentais percebidos, a responsividade
por parte da mãe apresenta uma média superior (3,14 ± 0,39), assim como a
responsividade total (3,10 ± 4,0), enquanto a dimensão exigência/supervisão
apresenta o valor mais baixo (2,87 ± 0,57). (Ver quadro_2)
Uma vez expostos os resultados da análise descritiva, de seguida segue-se a
apresentação dos resultados obtidos através da análise comparativa. No que
respeita às diferenças entre o sexo masculino e o sexo feminino quanto aos
estilos educativos parentais, foi possível prosseguir com a MANOVA, uma vez que
o valor do teste Mde Boxnão foi significativo (p= 0,411) e os valores do Fde
Leveneforam superiores a 0,05. Através da MANOVAconstatou-se que a variável
sexo não produz um efeito geral no conjunto das variáveis dependentes (F(4,267)
= 0,942, p= 0,440, λ Wilks= 0,986, ηp2= 0,014) e quando analisámos
separadamente as variáveis dependentes também não se verificou efeito da
variável sexo em cada uma delas. No quadro_3 estão apresentados os valores
médios que diferenciam os dois grupos, bem como o valor de Fe o respectivo
valor de significância.
A análise comparativa por grupos etários, o teste Mde Boxapresentou um valor
não significativo (p= 0,125) e no teste de Levene, com excepção da variável
responsividade da mãe (p= 0,004), todas as restantes variáveis apresentaram
valores de p> 0,05, o que permitiu continuar com a respectiva análise
multivariada. Neste sentido, verificou-se que a variável grupo de idade não
produz um efeito geral no conjunto das variáveis dependentes (F(4,532) = 1,833,
p= 0,069, λ Wilks= 0,947, ηp2= 0,027). Contudo, quando cada variável dependente
é analisada separadamente, verificam-se diferenças entre os grupos de idade a
nível das variáveis responsividade da mãe (F(2) = 6,063, p= 0,003) e
responsividade total (F(2) = 4,794, p= 0,009), sendo que o grupo 13 a 14 anos
apresenta valores médios superiores. O quadro_4 apresenta os valores relativos
à média e ao desvio padrão de cada grupo de idade, assim como, os valores de Fe
o respectivo valor de significância.
Para identificarmos entre quais grupos etários estas diferenças se verificaram
foi realizado um teste Post Hoc. Através deste teste constatou-se que existem
diferenças estatisticamente significativas entre os grupos 13 a 14 anos e 18 e
mais (F(2) = 6,063, p= 0,031) e entre 13 a 14 anos e 15 a 17 anos (F(2) =
6,063, p= 0,013) no que diz respeito à variável responsividade da mãe. Quanto à
responsividade total, verificaram-se diferenças estatisticamente significativas
entre os grupos 13 a 14 anos e 18 e mais (F(2) = 4,794, p= 0,016).
Continuando a análise comparativa entre não praticantes e praticantes de
actividade física fora do contexto escolar no que diz respeito às variáveis
associadas aos estilos educativos parentais, o teste Mde Boxapresenta um valor
significativo de p =0,004. Uma vez que este valor é significativo, poderia
dizer-se que foi violada uma das condições necessárias para a realização da
MANOVA, nomeadamente a homogeneidade das variâncias. Contudo, como foi dito
anteriormente, o teste de Mde Boxé um teste conservador, e, tendo por base os
valores do teste de Levene, verificou-se que para todas as variáveis associadas
aos estilos educativos parentais o valor de pnão é significativo (p> 0,05).
Para além disso, cada grupo tem mais de 12 elementos, o que nos permite
prosseguir com a análise mulivariada (Dancey & Reidy, 2006).
Avançando com as comparações, verificámos que a variável prática de actividade
física não produz um efeito geral no conjunto das variáveis dependentes (F
(4,267) = 0,70, p= 0, 58, λ Wilks= 0,99, ηp2= 0,01) e quando analisámos
separadamente as variáveis dependentes também não se verificou efeito da
variável prática de actividade física em cada uma delas. O quadro_5 apresenta
os valores da média e desvio padrão que caracterizam estes dois grupos e também
os valores de Fe o respectivo valor de significância (p).
Para verificar o efeito combinado das variáveis independentes sexo e prática de
actividade física nas variáveis dependentes associadas aos estilos educativos
parentais foi realizada uma MANOVAque apresentou um valor não significativo do
teste Mde Box(p= 0,09) e valores do teste de Levenesuperiores a 0,05. Assim,
verificou-se que, quando combinadas, as variáveis sexo e prática de actividade
física produzem um efeito geral a nível das variáveis dependentes (F(4, 265) =
2,60, p= 0,03, λ Wilks= 0,96, ηp2= 0,03). Quando analisámos separadamente as
variáveis dependentes apenas se verificou efeito da combinação das variáveis
sexo e prática de actividade física a nível da variável dependente exigência/
supervisão parental (F( 1) = 8,33, p= 0,004). No quadro_5 estão apresentados os
valores da média e desvio padrão relativos aos praticantes e não praticantes do
sexo masculino e feminino quanto às variáveis dependentes associadas aos
estilos educativos parentais, bem como, o valor de Fe o respectivo valor de
significância.
Tendo em conta uma perspectiva geral dos resultados até agora apresentados,
podemos verificar que não se verificaram diferenças entre os sexos quanto aos
estilos educativos parentais percebidos. Quando nos debruçamos nos três grupos
de idade, verificámos que o grupo dos 13 a 14 anos se destaca dos outros dois
grupos quanto à responsividade da mãe, e do grupo 18 anos e mais quanto à
responsividade total, apresentando valores médios mais elevados. Analisando a
prática de actividade física, constatou-se que não existem diferenças entre
praticantes e não praticantes, quer a nível dos estilos parentais percebidos,
quer a nível das atitudes e comportamentos habituais de estudo. Por último,
quando a análise recai no efeito combinado do sexo e prática de actividade
física, verificou-se um efeito apenas na dimensão exigência/ supervisão dos
estilos educativos parentais, mas tal não se verificou a nível das atitudes e
comportamentos habituais de estudo.
DISCUSSÃO
O propósito inicial deste estudo foi determinar a relação entre sexo, grupo
etário e prática de actividade física ao nível dos estilos educativos
parentais. Neste sentido, foram estabelecidos diferentes grupos, no que diz
respeito às variáveis independentes, posteriormente analisados de acordo com as
diferentes dimensões em estudo. Tendo em conta as diversas análises realizadas,
a discussão dos resultados obtidos respeita a ordem anteriormente estabelecida
na apresentação dos mesmos. Numa primeira abordagem, procurou-se descrever as
variáveis em estudo, nomeadamente os estilos educativos parentais percebidos
dos estudantes adolescentes.
Sabemos que os pais desempenham um papel fulcral em todo o processo de
desenvolvimento das crianças. Eles tornam-se não só agentes de socialização,
como também modelos de referência (Ducharne et al., 2006), e, independentemente
do estilo educativo parental adoptado, é notória a influência que os pais
exercem na aquisição de hábitos e comportamentos dos seus filhos (Ramos, 2009),
particularmente, nos comportamentos habituais de estudo. Está claro que a
participação dos pais na educação dos filhos contribui, não só, para um
ajustamento emocional, mas também para um bom rendimento académico
principalmente se as atitudes parentais forem centradas no processo de
aprendizagem (Peixoto & Rodrigues, 2005).
Os resultados da aplicação dos questionários permitiram extrair dados relativos
a cada uma das dimensões que estão na base dos estilos educativos parentais e
das atitudes e comportamentos de estudo dos indivíduos que compõem a amostra.
No que diz respeito aos estilos parentais, constatou-se que a dimensão
responsividade da mãe foi a que apresentou uma média mais elevada em relação às
restantes dimensões. O mesmo se constatou no estudo de Costa, Teixeira, e Gomes
(2000), quando analisou as percepções de exigência e responsividade parental,
numa amostra de 378 adolescentes do ensino médio brasileiro. A responsividade
materna desempenha um papel importante na promoção do desenvolvimento da
criança, pois é com a mãe que a criança estabelece o seu primeiro vínculo
afectivo (Ribas & Moura, 2004) e é a continuação desse vínculo de afecto
estabelecido durante a infância que ditará a qualidade das relações afectivas
dos adolescentes (Fuentes, Motrico, & Bersabé, 2003). Contudo, embora a mãe
seja a primeira figura parental a estabelecer um vínculo afectivo e físico,
para promover o desenvolvimento dos filhos é necessário um maior envolvimento
de ambas as figuras parentais (Ferreira & Abreu-Lima, 2010). Quando olhamos
apenas para as dimensões centrais, Costa et al. (2000) constataram ainda que a
dimensão responsividade total é a que apresenta um valor mais alto, quando
comparado com a exigência. Estes dados vão de encontro aos do nosso estudo,
onde se verificou que a dimensão responsividade total apresenta valores médios
mais elevados do que a exigência/ supervisão. Contudo, os resultados obtidos
por Ducharne et al. (2006) não vão neste sentido, uma vez que, num estudo
realizado com 641 estudantes adolescentes, a dimensão exigência/ supervisão
apresentou uma média superior. Ao contrário do que estes autores verificaram,
neste estudo notou-se uma tendência para a prevalência de um estilo parental
mais responsivo. Esta tendência para a responsividade parental pode sugerir uma
predominância do estilo parental permissivo, ainda que a divisão dos diferentes
estilos parentais não tenha sido feita. Este estilo parental tem vindo a
substituir o autoritarismo parental de outras épocas (Gomide, 2009) e, nesse
sentido, prevalece a responsividade excessiva em detrimento da exigência e do
controlo do comportamento (Weber et al., 2003). Esse excesso de responsividade,
aliado a baixos índices de exigência parental, está, por um lado, associado a
boas competências sociais, mas, por outro, associa-se ao baixo rendimento
académico (Weber et al., 2004). Já os pais cujo estilo educativo estabelece um
equilíbrio entre a responsividade e a exigência tendem a educar crianças mais
competentes, mas é necessário ressalvar que não existe uma
"maneira" única e mais correcta para educar os filhos, sendo que os
diferentes estilos parentais expressam diferentes resultados em determinadas
culturas (Papaia, Olds, & Feldman, 2001). Os estilos educativos parentais
têm implicações distintas à luz da cultura, uma vez que estão associados a
questões culturais específicas que nem sempre são tidas em consideração. Por
exemplo, para a maioria das culturas ocidentais, nomeadamente a europeia e a
americana, o estilo parental que estabelece um equilíbrio entre a
responsividade e a exigência é o que surte efeitos mais positivos na
socialização, educação e desenvolvimentos da criança (Chao, 1994, Musitu &
Garcia, 2005). Mas tal já não acontece na cultura espanhola, onde os estudos
comprovam que um estilo parental mais responsivo e menos exigente é o que mais
se adequa ao desenvolvimento da criança (Musitu & Garcia, 2005). Para estas
culturas, o estilo parental mais controlador ou exigente está associado à
desconfiança e à hostilidade (Chao, 1994). Contudo, nas culturas orientais
asiáticas o cenário parental é completamente diferente, pois os filhos tendem a
percepcionar os pais como mais exigentes do que responsivos, mas essa exigência
e controlo são vistos como parte integrante da preocupação parental e estão
associados a bons índices de funcionamento social e académico dos filhos (Chao,
1994). Para além das diversidades culturais, quando falamos em estilos
parentais deparamo-nos com uma ambiguidade de causa e efeito, uma vez que um
determinado estilo educativo parental pode ser a causa do comportamento da
criança, assim como uma consequência do mesmo (Gleitman et al., 2003). Neste
sentido, o modelo tradicional de socialização familiar outrora defendido, perde
a sua força, pois o seu carácter de unidireccionalidade (os pais influenciam os
filhos) foi substituído pela bidireccionalidade das relações entre pais e
filhos (Bersabé, Fuentes, & Matrico, 2001). Posto isto, podemos verificar
que os estilos educativos parentais não podem ser vistos como universais e
inflexíveis, uma vez que são influenciados não só pela cultura, mas também
pelas características individuais quer dos pais quer dos filhos.
Numa segunda fase deste estudo, comparamos os sexos quanto aos estilos
educativos parentais. Ducharne et al. (2006) verificaram que existem diferenças
entre os sexos a nível dos estilos parentais, na medida em que o sexo feminino
percepciona os pais como mais responsivos e controladores do que o sexo
masculino. Já outros autores apuraram que as raparigas percebem níveis de
responsividade da mãe e de exigência mais elevados do que os rapazes (Costa et
al., 2000; Teixeira, Bardagi, & Gomes, 2004). Contrariamente a estes
factos, Wolfradt, Hempel, e Miles (2003) realizaram um estudo com 272
adolescentes e não encontraram diferenças entre os dois grupos, o que reforça
os resultados do nosso estudo que evidenciaram que a responsividade e a
exigência parental são percebidas de igual modo pelos rapazes e raparigas. Esta
ausência de diferenças entre os sexos na percepção dos estilos parentais pode
sugerir uma tendência para a atenuação dos estereótipos sexuais, ou seja, a
ideia de que o sexo masculino é mais autónomo e requer menos supervisão, perde
assim a sua força. Tudo isto traduz uma tendência para a igualdade no modo como
se educam rapazes e raparigas.
Depois de analisadas as diferenças entre os sexos nas várias dimensões,
debrucemo-nos agora sobre a comparação entre os diferentes grupos etários a
nível dos estilos parentais. O grupo de adolescentes com 13 e 14 anos tende a
percepcionar os pais como mais responsivos e menos exigentes. Estes resultados
traduzem uma tendência para os adolescentes mais velhos percepcionarem os pais
como menos responsivos, o que também se constatou no estudo de Ducharne et al.
(2006). Esta tendência pode estar associada ao aumento gradual da importância
que o grupo de pares vai assumindo ao longo da adolescência. À medida que este
período se desenrola, o adolescente passa mais tempo com o seu grupo de amigos
do que com a família, o que acaba por alterar o carácter das interacções
familiares (Papaia et al., 2001). Os adolescentes mais novos mantêm uma relação
ainda muito próxima com os pais, enquanto os adolescentes mais velhos, como têm
mais autonomia, sofrem menos influência parental e vêem nos seus amigos o
principal foco de identificação e relacionamento. Por outro lado, de acordo com
Teixeira et al. (2004), à medida que os adolescentes vão ficando mais velhos,
os pais também têm alguma dificuldade em lidar com eles, com as suas
problemáticas e ideologias emergentes, o que gera um menor envolvimento
parental e, consequentemente, uma menor responsividade percebida.
Feita a comparação entre sexos e grupos etários, a análise que se segue recai
sobre a prática de actividade física. A prática regular de actividade física
contribui para um estilo de vida saudável e activo, que leva a um aumento da
qualidade de vida e de bem-estar (Veloso, 2005). A maior parte dos adolescentes
que compõem esta amostra inserem-se num estilo de vida activo, pois, para além
das aulas de educação física, os adolescentes praticam actividade física fora
do contexto escolar. As principais actividades mencionadas foram o futebol, a
natação e a dança. Estes resultados estão em conformidade com os de Duarte
(2006), que constatou que a maioria dos elementos da amostra praticava
actividade física extracurricular e tinha o mesmo tipo de actividades como
referência. A adesão à prática de actividade física por parte das crianças e
jovens depende, em grande parte, das figuras parentais, para além de outros
factores. É sabido que as relações entre pais e filhos contribuem muito para a
consolidação do hábito de ser ou não ser activo (Silva et al., 2008) e que o
envolvimento das crianças na prática de actividade física depende do sistema de
crenças e expectativas dos pais (Ramos, 2009). Como constatou Arredondo et al.
(2006), filhos de pais que monitorizam e reforçam comportamentos saudáveis são
fisicamente mais activos quando comparados com filhos de pais que não enveredam
por essas práticas. Contudo, neste estudo, a prática de actividade física não
parece reflectir diferenças em função dos estilos parentais percebidos. Na
literatura existente, não foi possível encontrar estudos que contemplem estas
duas variáveis, o que não nos permite estabelecer comparações com outros
resultados. Apenas podemos sugerir, com base nos dados obtidos, que os
praticantes de actividade física não se diferenciam dos não praticantes na
percepção dos estilos parentais. Contudo, é importante ressalvar o
comportamento das médias, que nos sugere uma tendência para os praticantes de
actividade física percepcionarem ambos os pais como mais responsivos e menos
exigentes, quando comparados com os não praticantes.
Por último, centramo-nos na análise da combinação das variáveis sexo e prática
de actividade física e do seu efeito nos estilos parentais percebidos e nos
comportamentos habituais de estudo. Neste sentido, também não foram encontrados
estudos que contemplassem este conjunto de variáveis, o que não nos permite ter
um termo de comparação para os nossos resultados. O que podemos constatar foi
que os praticantes e não praticantes de actividade física, quer do sexo
masculino, quer do sexo feminino, apenas se distinguem entre si ao nível da
variável exigência/ supervisão, relativa aos estilos educativos parentais
percebidos. Assim, os rapazes que praticam actividade física fora do contexto
escolar percepcionam os pais como mais exigentes em relação aos não
praticantes. Contudo, quando analisamos o sexo feminino, verificamos que as
raparigas que não praticam actividade física fora do contexto escolar são as
que percepcionam os pais como mais exigentes e controladores. Esta contradição
relativa às percepções dos rapazes e raparigas praticantes e não praticantes de
actividade física sugere que, no caso dos rapazes, os pais supervisionam mais
as actividades realizadas fora do contexto escolar, o que pode estar associado
a um maior interesse e controlo por parte dos pais, nas actividades extra
escolares. Por outro lado, a maior supervisão parental das raparigas não
praticantes de actividade física sugere que, existe uma necessidade em
monitorizar o tempo que não é preenchido com uma actividade específica.
Apresentada a discussão, e tendo por base os principais resultados obtidos, de
seguida apresentamos as principais conclusões destes estudo. Olhando para a
descrição das variáveis dependentes, podemos concluir que os adolescentes desta
amostra percepcionaram os pais como mais responsivos do que exigentes, o que
nos permite retirar duas conclusões: por um lado, os pais tendem a educar os
filhos num ambiente de maior envolvimento e aceitação, dando maior ênfase aos
interesses dos filhos, em detrimento da regulação dos seus comportamentos e da
supervisão das suas actividades; por outro lado, verifica-se uma tendência para
os pais adoptarem um estilo educativo parental mais próximo do estilo
permissivo, uma vez que este estilo tem mais de responsividade do que de
exigência.
Relativamente às diferenças entre sexos na percepção dos estilos educativos
parentais, podemos concluir que os pais educam os rapazes e raparigas do mesmo
modo, tendo em conta que não se verificaram diferenças entre sexos a nível das
diferentes dimensões associadas aos estilos educativos parentais.
Quando olhamos à idade face aos estilos educativos parentais percebidos,
verificámos que o grupo etário dos 13 a 14 anos de idade percepciona os pais
como mais responsivos e menos exigentes. Este facto permite-nos concluir que os
adolescentes mais novos mantêm com os pais, e vice-versa, uma relação de maior
envolvimento afectivo e emocional, o que traduz um menor nível de autonomia, em
comparação com os adolescentes mais velhos. Por outro lado, os adolescentes
mais velhos demonstram um maior distanciamento afectivo dos pais, como possível
consequência de uma maior autonomia que foram adquirindo.
No que diz respeito à prática de actividade física, outra conclusão que podemos
retirar, prende-se com a igualdade na educação de que os adolescentes
praticantes e não praticantes de actividade física são alvo, uma vez que ambos
os grupos percepcionam do mesmo modo os estilos educativos parentais.
Contudo, quando as variáveis sexo e prática de actividade física foram
combinadas, verificaram-se diferenças a nível da dimensão exigência/
supervisão, no que toca aos estilos educativos parentais. A existência destas
diferenças permitem-nos concluir que: os rapazes que praticam actividade física
fora do contexto escolar estão submetidos a práticas educativas mais
direccionadas para a regulação do comportamento e controlo das actividades,
quando comparados com os rapazes não praticantes; no caso das raparigas, são as
que não praticam actividade física fora do contexto escolar que também são alvo
deste tipo de práticas parentais.