A educação para a saúde nos jovens com diabetes Tipo 1
A educação terapêutica nas doenças crónicas é uma das prioridades da
Organização Mundial de Saúdepara o século XXI, pois está provado que esta
ferramenta terapêutica é fundamental na melhoria da adesão ao tratamento (World
Health Organization- WHO, 2003). A educação para a autogestão da diabetes é
efectiva na promoção dos resultados a nível da saúde e dos aspectos
psicossociais das pessoas com diabetes, como revelam os resultados de múltiplas
meta-análises de estudos educacionais (International Diabetes Federation
- IDF, 2009).
A alimentação equilibrada, o exercício físico regular, a insulinoterapia, a
autovigilância e o autocontrolo são os aspectos importantes no tratamento da
diabetes (Correia, Raposo, & Boavida 2012; WHO 2003). Neste sentido, a
equipa de saúde multidisciplinar que acompanha aspessoas com diabetes deverá
providenciar educação adequada nestas áreas, todas igualmente importantes na
adesão ao tratamento e no favorecimento de uma boa compensação. Para isso, os
técnicos de saúde, necessitam não só de saberes e competências biomédicas, mas
também de competências pedagógicas e relacionais que permitam a sua melhor
adaptação, como educadores, ao acompanhamento das pessoas com diabetes (Lacroix
& Assal, 2003).
A educação terapêutica tem como objetivo ajudar a uma melhor adaptação,
desenvolver as capacidades e competências de autogestão e adesão à doença das
pessoas com diabetes, de modo a serem capazes de melhorar a sua compensação,
prevenindo as complicações da diabetes, e contribuindo para a melhoria da sua
qualidade de vida (Luyckx & Seiffge-Krenke, 2009; WHO 2003).
Para os profissionais de saúde que trabalham nesta área é fundamental conhecer
melhor a pessoa com diabetes: os problemas, as necessidades, as dificuldades,
as representações em relação aos vários aspectos do tratamento da diabetes, e
construir uma relação terapêutica, indispensável à prestação de melhores
cuidados na consulta individual e na educação em grupo, de acordo com as
necessidades (Wouda & Wiel, 2013).
Atendendo a que é uma doença crónica, o que implica um acompanhamento com
consultas frequentes para educação e apoio, o sistema de cuidados de saúde é um
sistema de apoio que pode influenciar o coping e o bem-estar das pessoas com
diabetes. A literatura existente sugere que o apoio dos técnicos de saúde pode
ser um importante fator para influenciar a forma como a pessoa se adapta e gere
a sua doença (Dovey-Pearce, Hurrel, May, Walker & Doherty, 2005; Karlsen,
Idsoe, Hanestad, Murberg & Bru, 2004). Para além disso, outro fator
relevante é o suporte social, por ser uma das variáveis que estão associadas à
satisfação com a vida, tendo um contributo essencial para uma gestão de sucesso
da diabetes (Anderson & Wolpert, 2004; Karlsen, et al. 2004).
Na juventude, depois da família, o segundo contexto social é o grupo de pares.
As reações dos amigos em relação à diabetes afetam a forma como o jovem se vê a
si próprio, gere a sua doença e se relaciona com os pares e desenvolve amizades
(Hanna, 2012; La Greca & Thompson, 1998; Patterson & Garwick, 1998). É
referido também na literatura que as atividades de grupo com outros jovens e
familiares são benéficas pelas trocas de vivências e experiências,
proporcionando mais capacidades para gerir e viver melhor com a diabetes (Jos,
1994; Lacroix & Assal, 2003; Peyrot, 2008).
A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) desenvolve desde 1926
um importante trabalho de educação terapêutica com pessoas com diabetes e
familiares. Este é um processo por etapas, que compreende um conjunto de
atividades organizadas de sensibilização, informação, formação, apoio
psicológico e social, tendo em conta a fase de desenvolvimento cognitivo,
social, emocional, educacional e familiar em que a pessoa se encontra e que se
destina a ajudar as pessoas com diabetes e as famílias a compreender a doença e
os tratamentos, a colaborar nos cuidados e a responsabilizar-se pelo seu estado
de saúde. Todos estes fatores favorecem a autonomia da pessoa com diabetes
(Anderson & Wolpert, 2004; Dovey-Pearceet al., 2005; Ivernois &
Gagnayre, 1995).
A APDP foi reconhecida em 2009 pela Federação Internacional de Diabetes como o
1º Centro de Educação em Diabetes do Mundo e em 2011 como um Centro de
Referência Europeu para a Diabetes Pediátrica. Na sequência da longa
experiência em equipa multidisciplinar, consubstanciada no trabalho
interdisciplinar desenvolvido com crianças, adolescentes e jovens adultos com
diabetes tipo 1, em consultas de vigilância periódica, consultas em grupo,
sessões de educação em grupo, cursos, encontros e campos de férias (Serrabulho
et al., 2008), com trabalhos já realizados e publicados com adolescentes com
diabetes tipo 1 (Serrabulho & Matos, 2006; Serrabulho, Matos, & Raposo,
2011; 2012 a; 2012 b), efetuou-se uma investigação quantitativa e qualitativa
com jovens adultos com diabetes tipo 1, sobre "A Saúde e os Estilos de
Vida com Jovens Adultos com Diabetes Tipo 1" (Serrabulho, Matos, Nabais,
& Raposo, 2013). Os objetivos destes estudos estão relacionados com o
conhecimento dos comportamentos e estilos de vida, qualidade de vida e suporte
social dos jovens com diabetes tipo 1.
Neste artigo vamos abordar alguns resultados dos estudos com os adolescentes e
com os jovens adultos com diabetes tipo 1, relacionados com a educação para a
saúde dos jovens.
MÉTODO
Participantes
No estudo realizado com os adolescentes "A Saúde e os Estilos de Vida dos
Adolescentes com Diabetes Tipo 1" participaram: 91 adolescentes com
idades entre os 11 e os 16 anos, dos quais 63 rapazes e 28 raparigas (estudo
quantitativo) e 41 adolescentes com idades entre os 10 e os 17 anos, 29 rapazes
e 12 raparigas (estudo qualitativo). No estudo "A Saúde e os Estilos de
Vida dos Jovens Adultos com Diabetes Tipo 1" participaram 278 jovens
adultos com idades entre os 18 aos 35 anos, dos quais 139 rapazes e 139
raparigas (estudo quantitativo).
Material
Os instrumentos de colheita de dados dos estudos quantitativos foram
questionários. O questionário dos jovens adultos foi baseado no questionário
utilizado no estudo "A Saúde e os Estilos de Vida dos Adolescentes com
Diabetes Tipo 1" (Serrabulho & Matos, 2006; Serrabulho, Matos, &
Raposo, 2012), adaptado para este grupo etário. Os questionários englobam
questões relacionadas com comportamentos de saúde, estilos de vida, satisfação
com a vida, suporte social e diabetes. As questões da área da diabetes abrangem
o tempo de evolução, tratamento, adesão ao tratamento, compensação,
complicações agudas e tardias, representações e adaptação psicológica.
Na maior parte das questões dos questionários foram utilizadas escalas de
Likert. Outras questões são fechadas, com respostas de sim / não, e algumas, em
caso de resposta positiva, completadas com perguntas: "o quê?",
"quantos?", "quais?".
Foi feita análise de consistência interna da escala dos 10 itens das
representações sobre a diabetes utilizando o teste Alfa de Cronbach, que
revelou o valor de 0,74 no estudo dos adolescentes e de 0,76 no estudo dos
jovens adultos, o que permitiu verificar que a escala possui boa consistência
interna (Almeida & Freire, 2003). Para facilitar a análise dos dados optou-
se por juntar os itens "discordo" e "discordo
totalmente" no item discordo e "concordo" e "concordo
totalmente" no item "concordo". Nas questões referentes às
competências sociais optou-se por juntar os itens "nunca" e
"raramente" e "muitas vezes" e "sempre",
para facilitar a análise dos dados.
Os questionários utilizados nos dois estudos foram apreciados por painéis de
especialistas da APDP (médicos, enfermeiros, dietistas, nutricionistas,
psicólogos e professora de educação física) com experiência no trabalho com
crianças, adolescentes e jovens adultos com diabetes tipo 1 e por jovens com
diabetes tipo 1.
A metodologia utilizada no estudo qualitativo foram entrevistas de grupo,
realizadas em grupos focais.
Procedimento
Os estudos foram aprovados pela Comissão de Ética da instituição. Todos os
jovens que participaram nos estudos frequentavam as consultas de vigilância
periódica na instituição, e aceitaram responder aos questionários e participar
nos grupos focais, com preenchimento de consentimento informado, tendo sido
informados dos objetivos do estudo e do caráter confidencial da informação
individual recolhida.
Quanto à análise de dados, estes estudos consistiram numa Investigação
Quantitativa, com Análise Descritiva, Comparativa, Correlativa e Inferencial. O
tratamento estatístico dos dados foi efetuado com o programa
"Statistical Package for Social Science" - SPSS para Windows.
Neste estudo são apresentados alguns resultados da Análise Descritiva, sendo os
resultados apresentados como média ± desvio padrão e percentagens. A
investigação qualitativa foi realizada com análise de conteúdo. São também
apresentados alguns resultados do estudo qualitativo dos adolescentes e
excertos do livro "Ser jovem com diabetes", com depoimentos dos
jovens adultos com diabetes tipo 1 (Serrabulho, 2013).
Neste artigo são mostrados ainda resultados de um estudo de Avaliação das
atividades desenvolvidas nas consultas de grupo de jovens (Spínola, Correia,
Andrade & Cruz, 2002) e da avaliação dos campos de férias (Serrabulho,
2008). A recolha dos dados sobre a avaliação das atividades de educação em
grupo desenvolvidas nas consultas foi efetuada através de um questionário
elaborado para o efeito, preenchido pelos jovens após a consulta. Foram
selecionados 210 questionários,tendo em conta a representatividade das várias
atividades de educação desenvolvidas entre 1999 e 2002, que foram tratados e
analisados. O grupo etário destes jovens variava entre os 6 e os 23 anos. Foi
também realizado um estudo similar em 2009 com 48 participantes, com idades
entre 12 e 24 anos (Costa & Serrabulho, 2009).
RESULTADOS
Apresentam-se em seguida os resultados dos estudos realizados com os
adolescentes e com os jovens adultos (Serrabulho & Matos, 2006; Serrabulho,
Matos, & Raposo, 2012a; Serrabulho et al., 2013).
Satisfação com a vida
Numa escala de 1 a 10 (0 - pior vida possível a 10 - melhor vida possível), a
média de satisfação com a vida nos adolescentes é de 7,2±1,7 e nos jovens
adultosé de 6,6 ± 1,7. Apresentam-se no quadro_1 os vários aspetos
relativamente à satisfação com a vida, tendo como espaço temporal de avaliação
as últimas semanas assinaladas a partir da data de preenchimento do
questionário. Cerca de dois terços dos jovens referem boa satisfação com a
vida, notando-se as percentagens nos adolescentes ligeiramente superiores. Mais
de um terço dos jovens refere que gostariam de mudar coisas na vida
frequentemente e um quarto manifesta que desejaria ter com frequência um tipo
de vida diferente.
Competências sociais
Quanto às Competências sociais, apresentadas no quadro_2, a maior parte dos
jovens considera que quando estão com outras pessoas são capazes de defender os
seus direitos, dizer "não" quando não estão de acordo, dizer o que
sentem e manter a sua opinião nas discussões com os outros. Quanto ao aspeto:
"Livrar-me de situações que não me agradam", cerca de metade dos
adolescentes e jovens adultos considera conseguir ter esta atitude muitas
vezes.
Saúde e tratamento da diabetes
A maior parte dos indivíduos inquiridosconsidera a sua saúde razoável e boa,
como se apresenta no quadro_3.
No quadro_4 apresentam-se os dados relativos à adesão ao tratamento da
diabetes. A maior parte dos jovens adultos e adolescentes, respetivamente 83 e
87% faz 5 ou mais refeições por dia e a maioria ingere uma vez ou mais por dia
leite, fruta e vegetais. Quanto aos alimentos menos recomendados, a maior parte
dos jovens ingere menos que uma vez por semana, respetivamente nos jovens
adultos e adolescentes: doces (54 e 73%), batatas fritas (62 e 65%),
refrigerantes (63 e 61%), pizas e hambúrgueres (72 e 89%). 65% dos adolescentes
e 34% dos jovens adultos praticam 60 minutos de atividade física diária em 3 ou
mais dias por semana. Em relação ao número de vezes que administram insulina
por dia, 39% dos adolescentes e 78% dos jovens adultos que utilizam caneta
referem administrar 4 vezes ou mais. 59% dos adolescentes e 74% dos jovens
pesquisam a glicémia 3 ou mais vezes por dia.
Quanto aos dois aspetos do tratamento da diabetes mais difíceis de pôr em
prática, apresentados no quadro_5,amaior parte dosadolescentes e dos jovens
adultos referem ser o autocontrolo e a alimentação.
Compensação da diabetes
Quanto ao valor da última análise de HbA1c (A hemoglobina glicosilada
A1c- análise mais utilizada para avaliar a compensação da diabetes e
referente à média dos últimos 3 meses, com valores recomendados até 7%
(American Diabetes Association - ADA, 2012), a média é de 9,9%±1.6, nos
adolescentes e de 8,7%±1,6nos jovens adultos.
Representações relativamente à diabetes
Apresenta-se em seguida o quadro_6, referente às Representações dos jovens
adultos e adolescentes relativamente à diabetes.
A maioria dos jovens (64,2 a 99,6%) manifestou concordar com todas as
representações positivas sobre a diabetes, referentes à escala utilizada, por
exemplo "Com a diabetes bem controlada podemos melhorar a nossa
vida". A representação com que menos concordaram - 64 e 67% refere-
se a "A discussão em grupo é o melhor método para a compreensão da
diabetes" (60 a 66% dos jovens participaram em atividades de grupo com
outros jovens com diabetes). A concordância nas restantes representações
situou-se entre 80 e 99,6%.Nas representações "é muito importante o apoio
familiar e a educação de toda a família sobre a diabetes", "uma
alimentação saudável é fundamental para o controlo da diabetes",
"fazer desporto é saudável e controla a diabetes" e "com a
diabetes bem controlada podemos melhorar a nossa vida", observou-se
concordância de todos os jovens entre 97 e 99,6%.
Apoio da equipa de saúde
No que se relaciona com o à vontade que sentem para falar sobre a diabetes,
apresentado no quadro_7, a maior parte dos participantes nestes estudos refere
ser fácil e muito fácil falar com a equipa de saúde (variando entre 80 a 93%).
No estudo qualitativo realizado com os adolescentes (Serrabulho, Matos &
Raposo, 2011 e 2012), estes referem que gostam de ir às consultas porque são
bem atendidos e aprendem muito sobre a diabetes relativamente aos cuidados a
ter com a alimentação, a insulina, o exercício físico e o autocontrolo e que
essa informação tem sido muito importante para eles, para a família e para
transmitirem aos amigos.
"Acho que é bom, no início não estamos informados sobre a
doença e aqui aprendemos muita coisa e ensinamos os nossos
amigos" .
Os adolescentes manifestam que a instituição os tem ajudado bastante e dado
muito apoio para viverem melhor com a diabetes. Referem a importância de
conhecer outros jovens com o mesmo problema, o que os ajuda a não se sentirem
diferentes, as vantagens do relacionamento e do convívio com outros jovens e
com os técnicos de saúde, a relação de confiança que se estabelece e realçam as
atitudes dos técnicos em termos da atenção, da paciência, do atendimento e da
importância que dão ao facto de os jovens se sentirem bem com eles próprios.
"A Associação é sempre uma grande ajuda. Ajuda-nos a conhecer
outras pessoas iguais a nós, vemos que os outros também têm os mesmos
problemas e aprendemos a controlar" .
"Aqui têm sempre muita paciência para continuar, dão-nos muita
atenção, gostam que nós nos sintamos bem com nós próprios e isso tem-
me ajudado, gosto muito de estar aqui".
Participação em atividades de grupo
Quanto à participação em atividades de grupo com outros jovens com diabetes,
66% dos adolescentes e 60% dos jovens adultos tiveram essa experiência: em
consultas em grupo (adolescentes 65%, jovens adultos 66%), ou em campos de
férias (adolescentes 49%, jovens adultos 59%). Quanto às opiniões sobre as
atividades, 59% dos adolescentese 41% dos jovens adultos consideraram muito
úteis, 66% dos adolescentese 24% dos jovens adultos consideram que se aprende
mais, 57% dos adolescentese 24% dos jovens adultos referem divertimento e
convívio e 28% dos jovens adultos consideram uma ótima experiência.
No estudo qualitativo realizado com os adolescentes,os jovens referem que
gostam muito de estar nas sessões em grupo, essencialmente pela troca de
experiências com jovens da mesma idade que têm os mesmos problemas e
dificuldades, pelo convívio, pela aprendizagem dos aspetos relacionados com a
gestão da diabetes, pelo apoio e pela ajuda que recebem dos técnicos e do
grupo.
"Estou bastante satisfeito com as consultas de grupo, pois
tenho-me relacionado com pessoas com a mesma idade, o mesmo problema
e as mesmas dificuldades e isso ajuda muito a controlar e a viver com
as situações que ocorrem no dia-a-dia.Convivemos e aprendemos
mais".
No estudo realizado para avaliação das atividades de educação desenvolvidas nas
consultas em grupo de crianças e jovens na APDP (Costa & Serrabulho, 2009;
Spínola et al., 2002), os jovens consideraram as atividades maioritariamente em
muito bom, como está apresentado no quadro_8.
Nas questões abertas os jovens referiram que as consultas de grupo eram:
"muito boas, muito úteis, interessantes, importantes, esclarecedoras,
educativas, positivas, motivadoras, reconfortantes, animadas e
divertidas".
e que as consultas possibilitam:
"Troca de experiências como fonte de aprendizagem, Conviver com
os outros, Aprender coisas novas para melhorar a nossa vida e os
cuidados com a diabetes, Aprender mais sobre a diabetes de forma
engraçada e prática, Ajuda e informação, Estar juntos e fazer
amizades, Abertura para outros temas e discussão de temas
importantes, Falar sobre preconceitos e problemas, Trabalho de equipa
excelente, Ambiente de confiança, Mais ajuda que em consultas
normais, Impulso para uma nova etapa".
No Livro Ser Jovem com diabetes (Serrabulho, 2013), em que os jovens escreveram
os seus depoimentos sobre o que significa viver com diabetes, recolhemos as
seguintes opiniões sobre as consultas de grupo:
"Na APDP, tiveram um contributo muito importante as consultas
de grupo, onde se partilhavam experiências e onde víamos que tínhamos
um problema real, que tínhamos de saber viver com ele e que não
eramos os únicos".
"Sempre participei em consultas de grupo, que adorava. Sempre
foi um prazer conhecer e estar com outros jovens com diabetes,
partilhar experiências, ouvir e ser ouvida pelos únicos que me
compreendem totalmente, pelos que sentem o mesmo que eu, pelos que
não preciso dizer tudo para que eles interiorizem o que eu
sinto".
A APDP organiza campos de férias para adolescentes com diabetes tipo 1 desde
1998, tendo sido já realizados 16 campos de férias e 4 fins-de-semana. Em cada
campo participam 20 adolescentes e 4 jovens adultos como monitores, para além
da equipa multidisciplinar (Serrabulho, 2008; Serrabulho et al. 2008).
Os objetivos dos campos de férias são: partilhar experiências e desenvolver
espírito de interajuda, aprender a ser mais autónomo e responsável pela sua
doença, promover convívio e amizade entre os participantes, desdramatizar a
rotina do tratamento e autocontrolo, proporcionar a prática de atividades
desportivas diversificadas, proporcionar uma alimentação equilibrada, de modo a
adquirirem hábitos alimentares saudáveis, melhorar a compensação da diabetes,
promovendo hábitos e comportamentos saudáveis. Os benefícios do campo de férias
são igualmente importantes em termos do relacionamento entre os jovens e a
equipa de saúde pois o envolvimento nas várias atividades desenvolvidas no
campo vai favorecer e influenciar positivamente o ambiente nas consultas de
diabetes.
Relativamente à avaliação dos campos de férias, feita pelos participantes e
equipa multidisciplinar foi possível registar as seguintes opiniões:
"experiência enriquecedora, com vivências e partilha de conhecimentos
sobre a diabetes, espírito de equipa e de interajuda, muita amizade e
camaradagem, atividades desportivas muito interessantes, dias muito úteis, de
divertimento e bem- estar".
No estudo qualitativo realizado com os adolescentes, consideram que os campos
de férias são uma experiência importante, pois conhecem outros jovens com o
mesmo problema, aprendem a controlar melhor a diabetes, conseguem fazer as
mesmas atividades desportivas que os jovens que não têm diabetes, divertem-se e
sentem-se ajudados e apoiados.
"Gostei de estar no campo de férias porque conheci gente nova,
divertimo-nos e aprendemos a controlar melhor a diabetes".
"O campo de férias é uma grande ajuda pois conseguimos fazer as
mesmas atividades desportivas que os outros fazem. As atividades são
divertidas e conseguimos divertir-nos tanto como uma pessoa que não
seja diabética".
"Gosto muito dos campos de férias porque estamos com pessoas
com o mesmo problema que nós. Apoiaram-me e isso ajudou-me porque vi
que não era só eu que tinha diabetes".
"Os campos de férias são espetaculares, foi onde me ajudaram a
dar a insulina a mim próprio, a primeira vez, fiquei
felicíssimo".
No Livro Ser Jovem com diabetes, em que os jovens escreveram os seus
depoimentos sobre o que significa viver com diabetes, recolhemos as seguintes
opiniões sobre os campos de férias:
"Naquela semana do campo de férias fiz amigos que mantenho até
hoje, amigos que vou guardar para sempre, e isso é o melhor que a
diabetes me deu, as pessoas que conheci e que continuo a conhecer
diariamente".
"Todos os momentos de ensino, de partilha, de brincadeira,
contribuíram para que eu começasse a olhar para a "minha
doença" de uma forma bastante mais descontraída e
desinibida".
DISCUSSÃO
A apresentação dos dados deste artigo referente a "A Educação para a
Saúde nos Jovens com diabetes tipo 1" permite-nos conhecer um pouco do
percurso realizado pela equipa multidisciplinar da Associação Protectora dos
Diabéticos de Portugal no acompanhamento aos jovens com diabetes tipo 1 e as
perspetivas dos jovens.
De uma forma geral, os jovens demonstram ter boas competências sociais,
considerando que quando estão com outras pessoas são capazes de defender os
seus direitos, dizer "não" quando não estão de acordo, dizer o que
sentem e manter a sua opinião nas discussões com os outros.Relativamente à
satisfação com a vida, em média, os jovens fazem apreciações positivas.
Metade dos jovens considera a sua saúde razoável e quase metade considera-
a boa, o que também é referido na literatura, pois a perceção de ter uma boa
saúde não é incompatível com o facto de ter uma doença crónica e os jovens com
diabetes preferem ver-se como saudáveis e não como doentes (Anderson &
Wolpert, 2004).
No que se refere à adesão ao tratamento da diabetes, e apesar do possível
enviesamento das respostas no sentido de gostarem de dar as respostas
"mais adequadas" no preenchimento dos questionários, a maior parte
dos jovens tem boa adesão relativamente à alimentação, em termos do
fracionamento e alimentos ingeridos, em relação à realização de esquema
intensivo de insulinoterapia (com análogos de insulina de ação lenta e rápida e
sistema de infusão contínua de insulina - "bomba de
insulina") e à frequência da autovigilância de glicemia. No que se refere
à prática de atividade física recomendada, de 60 minutos de atividade física
diária 3 ou mais dias por semana, é realizada por 2 terços dos adolescentes e
apenas por um terço dos jovens adultos. Estes resultados estão em linha com o
publicadono Estudo DAWN - Diabetes Attittudes, Wishes and Needs (Peyrot, 2008).
O aspeto do tratamento da diabetes que os jovens consideram mais difícil de pôr
em prática é o autocontrolo, o que se revela na média de HbA1c superior ao
recomendado. Estes resultados confirmam a dificuldade de ter uma boa
compensação neste grupo etário, pelas várias razões já abordadas e são também
referidos em muitos estudos na literatura (Brierley, Eiser, Johnson, Young,
& Heller, 2012; Garvey, Markowitz & Laffel, 2012; Garvey, Wolpert, et
al. 2012; Hanna 2012). A maioria dos jovens manifestou concordar com todas as
representações positivas sobre a diabetes, por exemplo "ter diabetes não
impede de sermos felizes", que confirma a importância de encarar as
experiências da vida com otimismo e de trabalhar os pensamentos e as emoções
positivas.
Relativamente à comunicação com a equipa de saúde multidisciplinar, a maior
parte dos jovens refere que se sente à vontade para falar sobre a diabetes, o
que revela uma boa comunicação e apoio. Como é referido em outros estudos, uma
boa comunicação e relação entre o jovem e a equipa de saúde poderá favorecer a
adesão ao tratamento, a compensação e a melhoria dos aspetos psicossociais
(Anderson & Wolpert, 2004; Garvey, et al. 2012; Hanna, 2012).
Quanto à participação em atividades de grupo com outros jovens com diabetes,
cerca de dois terços dos jovens já tiveram essa experiência em consultas em
grupo e campos de férias, referindo ter sido muito úteis, uma ótima
experiência, com divertimento, convívio e aprendizagem.As diferentes atividades
com utilização de metodologias ativas que estimulam a participação são
valorizadas e reconhecidas pelos jovens como um meio importante para a
aprendizagem do seu relacionamento com a diabetes. As atividades são orientadas
para a promoção do desenvolvimento pessoal, não só a nível das competências
relacionadas com a diabetes, mas também do bem-estar em geral, como é referido
pelos jovens. Vários estudos referem os benefícios das atividades de grupo pois
permitem partilhar vivências e experiências, desenvolver a autoconfiança, a
auto-estima,a aceitação da diabetes e as competências de autogestão da
diabetes, proporcionando estratégias inovadoras para ajudar os jovens a
compreender melhor a diabetes e a ser mais autónomos no tratamento ao mesmo
tempo que se divertem (Garvey, et al., 2012; Peyrot, 2008; Serrabulho, 2008;
Serrabulho et al., 2008). Com base na revisão da literatura podemos verificar
que as opiniões referidas pelos jovens relativamente às consultas de grupo e
campos de férias, se baseiam na Teoria da Aprendizagem Social, pois enfatizam
as influências dos outros jovens no auto-cuidado da diabetes e nas barreiras
aos comportamentos de adesão, de modo a melhorar a auto-eficácia, ultrapassando
as dificuldades (Glanz, 1999; Howells, 2002; Kaplan, Sallis, Jr., &
Patterson, 1993).
Reanalisando todos os resultados, podemos verificar que, nas várias áreas
estudadas, há até cerca de um terço dos jovens que apresentam resultados pouco
positivos, nomeadamente: na satisfação com a vida, nas competências sociais e
na adesão ao tratamento da diabetes.Estes estudos revelam a importância que as
atividades de grupo e a equipa multidisciplinar da APDP têm tido na vida destes
jovens, pelo que será muito importante continuar este caminho da Educação para
a Saúde, para aumentar a comunicação e confiança entre a equipa e com os
jovens, tendo em conta as suas necessidades, desejos e expetativas e
compreendendo, aceitando e estimulando a ser mais autónomos e responsáveis para
fazerem as suas próprias escolhas e serem dados estímulos e reforços positivos.
Este relacionamento positivo com a equipa de saúde e a participação em
atividades de grupo com outros jovens com diabetes, facilitadoras de melhor
aceitação e melhor adaptação à diabetes, são uma mais valia desta instituição
nos cuidados aos jovens com diabetes e suas famílias, favorecedor da adesão ao
tratamento e de qualidade de vida. É importante que a equipa de saúde favoreça
cada vez mais o processo de negociação e responsabilidade partilhada tendo em
conta os interesses e necessidades dos jovens, favorecendo a autonomia na
gestão da diabetes, com envolvimento da família e, se possível, dos pares. Se a
equipa de saúde, a família e os pares encorajarem as crenças nos benefícios do
tratamento e ajudarem a vencer as barreiras ao tratamento, os jovens poderão
sentir-se mais motivados para melhorar.
Esta fase da vida, quando os jovens começam a fazer planos para o futuro, é
geralmente acompanhada por um reconhecimento crescente da importância de obter
melhor compensação da diabetes e de melhorar os cuidados com a diabetes. Este
período pode ser uma janela de oportunidade para a recetividade às intervenções
educacionais dos profissionais de saúde, pelo que a equipa tem um papel crucial
na motivação dos jovens para assumirem as suas responsabilidades na autogestão
da diabetes (Anderson & Wolpert, 2004; Dovey-Pearce et al., 2005).
Esperamos que este estudo possa contribuir para ajudar as equipas que
acompanham os jovens com diabetes tipo 1 a conhecer e compreender melhor os
jovense a promover mais parcerias com os pares, de forma a corresponder aos
seus interesses e necessidades e a melhorar a qualidade de vida dos jovens com
diabetes tipo 1.