Criatividade e motivação dos artistas como preditores da sua saúde mental
ABSTRACT
Literature seems to suggest that professionals working in the arts field are
more creative, and work motivated, but also reveal greater mental health
vulnerability. Therefore, the main aim of this paper is to understand if
creativity and motivation in the art world, can help predict artitsts' mental
health, in terms of stress, anxiety, and depression. Existing instruments were
used to assess creativity (EPC), intrinsic motivation (IMQ), and the three
indicators of malaise: (a) stress; (b) anxiety; and (c) depression (DASS-21).
The sample comprised 100 professionals from the art world. There is a
significant correlation between creativity and professional motivation. It was
also found that the relationship between the three indicators of malaise and
creativity or intrinsic motivation is always negative. Nevertheless, the
analysis of the joint effects of creativity, motivation, and socio-demographic
variables, showed that only creativity contributes significantly to lower
levels of anxiety. Creativity seems to have a protective effect on artists'
mental health.
Key- words - Artists, creativity, intrinsic motivation, mental health.
Foi sobretudo a partir dos anos 50, em particular com a publicação do artigo
Creativity de Guilford (1950), no período em que este foi Presidente da
American Psychological Association(APA), que o conceito de criatividade começou
a ser objeto de investigação científica. Nos últimos anos, começou a ser
utilizado em diversos domínios e áreas científicas (Martinsen, 2003), ocorrendo
nos anos 90 um aumento exponencial do número de publicações sobre criatividade,
conforme pudemos observar num estudo anterior em que analisámos as publicações
registadas em diversas bases de dados, em particular na Web of Knowledge
(Imaginário, Duarte, & Jesus, 2011).
A criatividade é um conceito complexo, tendo sido já identificadas mais de uma
centena de definições para este construto (Meusburger, Funke, & Wunder,
2009). Não obstante a diversidade de modelos teóricos e de instrumentos de
avaliação, a criatividade pode ser considerada como o fenómeno em que uma
pessoa cria algo de novo (um produto ou uma solução) que tem algum tipo de
valor ou utilidade (Amabile, 1996; Jesus, Morais, et al., 2011). Têm sido
verificadas várias características idênticas entre os sujeitos criativos, como
sejam a originalidade e a curiosidade (Eysenck, 1995).
A conceptualização dos quatro Ps proposta por Rhodes (1961) é usualmente a
mais aceite pelos autores, pois sistematiza os vários aspectos sobre os quais a
criatividade pode ser abordada. Neste enquadramento, os 4 Ps da criatividade
são: (a) Process; (b)Product;(c) Person; e (d) Place, isto é, respectivamente,
o processo, o produto, a pessoa e o ambiente. A pessoa refere-se ao sujeito
criativo, o produto diz respeito ao resultado da produção criativa (i.e. uma
peça de arte, novas ideias ou soluções para problemas), o processo representa a
ligação entre a pessoa e o produto, podendo ser identificadas várias fases
(preparação, incubação, insight e verificação), enquanto o ambiente traduz as
condições necessárias para a criatividade (Kaufman & Sternberg, 2010). É
necessário sublinhar que é através da interação dinâmica entre estas
características que o ato de criar se torna possível (Santeiro, Santeiro, &
Andrade, 2004).
São muitos os fatores que podem influenciar o ato criativo, mas quando nos
remetemos à pessoa criativa é importante salientar os contributos da sua
motivação (Runco, 2007). A motivação e a criatividade são aspetos essenciais
para a inovação e para o empreendedorismo (Jesus & Lens, 2005).
Relativamente à relação entre criatividade e motivação, Runco (2007) defende
que os motivos intrínsecos desempenham um papel mais significativo no ato
criativo do que os extrínsecos. Numa meta-análise que realizámos sobre as
relações entre a motivação e a criatividade (Jesus, Rus, Lens, &
Imaginário, 2012), em que foram analisados 15 estudos que incluíam 27 amostras
independentes e 6435 participantes, verificámos que a produção criativa está
significativamente relacionada com a motivação intrínseca.
Embora se possa dizer que todas as pessoas podem ser criativas, é de esperar
que os sujeitos associados ao trabalho artistico apresentem algumas
caraterísticas próprias, em particular uma elevada criatividade (Runco &
Pritzker, 1999). De fato, as investigações (e.g. Nelson & Rawlings, 2010)
têm permitido verificar que os artistas são dos grupos profissionais mais
criativos e motivados (e.g. Csikszentmihalyi, 1996). No entanto, há também
investigações que apontam no sentido de que os artistas são dos profissionais
com maior risco de apresentar problemas de saúde mental e sintomas de mal-
estar, em particular stresse, ansiedade e depressão (Garcês, Pocinho, &
Jesus, 2013).
Em relação ao stresse, têm sido várias as investigações (e.g. Langendorfer,
Hodapp, Kreutz, & Bongard, 2006) que verificaram a existência de um elevado
risco de sintomas de stresse nos artistas. No que concerne à ansiedade, num
estudo desenvolvido por Feist (1998), em que se compararam amostras de artistas
e de não artistas, concluiu-se que os participantes ligados às artes eram mais
abertos à experiência, estando muito orientados para a fantasia e imaginação,
mas todavia também se revelavam mais ansiosos. Por seu turno, outras
investigações (e.g. Kaufman & Sexton, 2006) salientam o risco mais elevado
de perturbações depressivas e de suicídio nos artistas do que noutros grupos
profissionais (e.g. Stack, 1996). Face a estes resultados, parece ser
particularmente interessante a análise das relações entre a criatividade e
estes indicadores de mal-estar (i.e. stresse, ansiedade e depressão) em
artistas.
No entanto, numa pesquisa realizada em Março de 2011, em que cruzámos as
palavras-chave Stress/Anxiety/Depression (ou conceitos próximos: Pressure e
Threat),Creativity (ou conceitos próximos: Creative e Inovation) e Artist,sendo
utilizadas várias bases de dados ' Academic Search Premier(EBSCO),PsychInfo
(EBSCO), Medline(EBSCO)eWeb of Science®(WoS)(Web of Knowledge)' permitiu obter
apenas 36 referências, das quais apenas nove apresentavam resultados de estudos
feitos com ou sobre artistas (Jesus, Brás, & Rus, 2011). Para além de serem
em reduzido número, todos eles eram estudos biográficos, não havendo qualquer
estudo empírico em que tivesse sido utilizada uma amostra de artistas.
Não obstante não terem sido realizadas investigações empíricas em que os
participantes fossem artistas, sobre as relações entre criatividade e saúde
mental há dois tipos de posições por parte dos autores: (a) os que consideram
existir uma relação entre a criatividade e os problemas de saúde mental (e.g.
Holden, 1987); e (b) outros que salientam a importância da criatividade para
uma melhor saúde mental (e.g. Maslow, 1968; Vigotski, 1972), podendo ajudar o
sujeito a lidar com a depressão e com os fatores de stresse e ansiedade
(Barker, 2006). Diversos estudos (e.g. Amabile, Goldfarb, & Brackfield,
1990; Elsback & Hargadon, 2006) em que os participantes não eram artistas
identificaram uma relação negativa entre stresse e criatividade, enquanto
outros encontraram uma relação positiva (e.g. Coelho, Augusto, & Lages,
2011).
Há ainda estudos (e.g. Baer & Oldham, 2006) que verificaram uma relação
curvilinear entre as duas variáveis, stresse e criatividade. Neste caso, os
stressores podem aumentar o desempenho criativo, mas apenas até um nível
moderado de ativação, porque depois podem ter uma influência cognitiva e
comportamental negativa, provocando uma diminuição do desempenho.
Nesse sentido, num estudo anterior, realizámos uma meta-análise em que
procurámos sumariar as investigações anteriormente realizadas sobre as relações
entre o stresse e a criatividade na produção artística (Jesus & Rus, 2011).
Nessa meta-análise foram incluídos os 24 estudos experimentais que tinham
avaliado, até ao momento, a influência dos stressores nos resultados obtidos na
produção artística, num total de 30 amostras independentes em que participaram
2315 sujeitos. Os resultados revelam que não há um efeito direto, positivo ou
negativo, dos stressores sobre a criatividade na produção artística. Também a
relação curvilinear entre estes dois conceitos não se revelou significativa,
sendo o efeito do stresse sobre a criatividade moderado por outras variáveis.
Assim sendo, é necessário esclarecer a influência da criatividade sobre
variáveis indicadoras de mal-estar, como seja o stresse, a ansiedade e a
depressão, no sentido de avaliar se a criatividade pode ter um efeito protetor
na saúde mental do sujeito. Em particular, é importante estudar a criatividade
nas organizações (Bruno-Faria, Veiga, & Macêdo, 2008).
Tendo em conta que, para além da criatividade, também a motivação intrínseca no
trabalho é fundamental para compreender o empreendedorismo dos colaboradores, o
presente estudo apresenta como principal objetivo avaliar a relação entre as
variáveis criatividade e motivação intrínseca, bem como compreender de que
forma estas podem contribuir para prevenir o mal-estar de profissionais ligados
a atividades artísticas.
MÉTODO
Participantes
A amostra é constituída por 100 artistas, sendo 50 de nacionalidade portuguesa
e 50 de nacionalidade romena. Os inquiridos apresentam idades compreendidas
entre 18 e 60 anos (M=33,84; DP=11,10), sendo a maior parte (n=55;55%) do
género feminino.
Os artistas apresentam, na sua maioria, formação ou frequência do ensino
superior (n=92;92%). Exercem a atividade profissional em média há 12 anos
(DP=9,46), estando a maior parte da atividade artística associada a artes
visuais e criação literária (n=79;79%), enquanto os restantes (n=21; 21%)
trabalham em artes performativas.
Material
Foi formulado um Questionário Sociodemográfico para a recolha de dados de
caracterização dos inquiridos, nomeadamente a nacionalidade, a idade, o género,
as habilitações, o tempo de serviço e o tipo de atividade desempenhada.
Para avaliar a motivação intrínseca foi utilizada a versão portuguesa do
Intrinsic Motivation Questionnaire(IMQ) (Lawler & Hall, 1970; validada por
Jesus, 1996), que apresenta quatro itens numa escala de tipo Likertde 7-pontos
(1=discordo totalmente; 7=concordo totalmente). No estudo inicial em que
utilizámos esta escala, todos os itens tinham uma correlação superior a 0,30,
tendo sido obtida uma consistência interna de 0,86 e uma média de 22,46 (Jesus,
1996).
Por sua vez, na avaliação da personalidade criativa, utilizou-se a Escala de
Personalidade Criativa (EPC) (Jesus, Morais, et al., 2011), constituída por 30
itens, avaliados numa escala de tipo Likert de 5-pontos (1=discordo totalmente;
5=concordo totalmente), onde através da análise das respostas obtidas é
possível obter uma medida única de personalidade criativa. Num estudo
exploratório inicial (Jesus, Morais, et al., 2011) foi obtida uma consistência
interna de 0,95 e uma média de 110,29.
Por último, para a mensuração do mal-estar, utilizou-se a versão portuguesa da
Escala de Ansiedade, Depressão e Stress ' DASS (Lovibond & Lovibond, 1995),
na sua versão reduzida, composta por 21 itens, avaliados numa escala de tipo
Likert de 4-pontos (0=não se aplicou a mim; 3=aplicou-se a mim na maioria das
vezes), que afere a frequência das situações descritas nos itens. Cada uma das
três dimensões deste instrumento (i.e. stresse, ansiedade e depressão) é
avaliada por sete itens. Na investigação de adaptação deste instrumento à
população portuguesa (Pais Ribeiro, Honrado, & Leal, 2004) foram obtidos
valores de consistência interna acima de 0,70 para todas as três dimensões,
tendo-se registado as seguintes médias: (a) 12,34 (stresse); (b) 5,74
(ansiedade); e (c) 6,00 (depressão).
Procedimento
Os instrumentos foram passados em grupo, sempre com a presença de um dos
investigadores, para poder esclarecer alguma dúvida colocada pelos
participantes.
Para a análise estatística dos resultados foi utilizada a versão 17 do
Statistical Package for Social Sciences(SPSS).
RESULTADOS
Foram obtidos coeficientes alfa de Cronbach acima de 0,70 em todos os
instrumentos (ver quadro_1), verificando-se que as medidas utilizadas
apresentam uma boa robustez psicométrica. Em termos da estatística descritiva
das variáveis avaliadas, esta encontra-se, igualmente, no quadro_1.
No que diz respeito à relação entre as variáveis psicológicas avaliadas, de
acordo com o esperado, foi obtida uma correlação significativa entre a
criatividade e a motivação intrínseca (r=0,45; p<0,01 ), bem como entre as três
variáveis indicadoras de mal-estar, pois as correlações entre estas foram
sempre superiores a 0,62 (p<0,01) (ver quadro_2).
Também de acordo com o esperado, as correlações são todas negativas entre os
três indicadores de mal-estar e a criatividade, por um lado, e a motivação
intrínseca, por outro, embora neste último caso só tenham sido obtidos
resultados significativos para a variável depressão (r= -0,29; p<0,01) (ver
quadro_2). Neste sentido, quanto maior a motivação intrínseca menor a depressão
e quanto maior a criatividade menor o stresse, depressão e ansiedade.
Com o objetivo de aprofundar as relações existentes entre as variáveis
avaliadas e levando também em conta o efeito das variáveis sociodemográficas,
considerou-se pertinente a realização de regressões hierárquicas múltiplas
através do método enter. Todas as equações de regressão incluem dois blocos de
variáveis, sendo o primeiro sempre composto pelas variáveis sociodemográficas,
consideram-se no segundo bloco as dimensões criatividade e motivação.
A primeira equação de regressão visava avaliar quais as variáveis preditoras da
dimensão stresse (ver quadro_3). Através da análise dos resultados foi possível
observar que, ao nível do bloco 1 (R2ajustado= 0,13), o stresse é explicado
pela variável tipo de atividade (ß=0,35; t=3,25; p=0,002), sendo esta a única
variável que também se revela preditora aquando da introdução do bloco 2 (R2
ajustado= 0,13) (ß=0,33; t=2,96; p=0,004). Em ambas as situações, verifica-se
que os sujeitos que trabalham em artes performativas apresentam um maior nível
de stresse (M=16,53; DP=4,71) do que aqueles que trabalham em artes visuais ou
de criação literária (M=13,17; DP=4,32). É ainda necessário sublinhar que
através da correlação entre as variáveis foi possível observar a existência de
uma correlação negativa significativa entre a criatividade e o stresse (r= -
0,22; p <0,05), mas nesta equação de regressão, embora o valor de beta seja
negativo (ß= -0,12), essa influência não se revelou significativa. Por fim,
podemos verificar que o modelo definido no bloco 1 apresenta um ajustamento
significativo (Fratio=2,59; p <0,05), bem como o modelo criado para o segundo
bloco (Fratio=2,30; p<0,05). Porém, a modificação implementada do bloco 1 para
o bloco 2, inserção das variáveis criatividade e motivação, não se revelou
significativa (Fchange=1,37; p>0,05).
Na segunda equação foi analisada a capacidade preditiva das variáveis avaliadas
em relação à dimensão depressão (ver quadro_4). Através da análise dos
resultados foi possível verificar, no bloco 1 (R2 ajustado=0,10), uma
capacidade preditiva significativa do país (ß=0,23; t=2,15; p=0,03) e do tipo
de atividade (ß=0,24; t=2,15; p=0,03), no sentido em que apresentam níveis de
depressão mais elevados os artistas portugueses (M=11,40; DP=4,57), em relação
aos romenos (M=10,82; DP=3,43), e aqueles que trabalham em artes performativas
(M=13,26; DP=4,47), relativamente aos que trabalham em artes visuais e de
criação literária (M=10,68; DP=3,79). No entanto, quando introduzidas as
dimensões do bloco 2 (R2 ajustado= 0,14) observou-se que nenhuma das variáveis
avaliadas apresenta poder explicativo significativo sobre a depressão. Todavia,
é de sublinhar que através da matriz de correlações se observou a existência de
uma correlação negativa significativa entre a variável criatividade e a
depressão (r= -0,44; p<0,01). Em última instância, pudémos observar que no caso
do bloco 1 o modelo apresentava um ajustamento significativo (Fratio=2,73;
p<0,05), sucedendo o mesmo no caso do bloco 2 (Fratio=3,04; p<0,05). Ademais,
verificou-se, ainda, que a modificação introduzida no bloco 2 obteve um
resultado significativo (Fchange=3,48; p<0,05).
A terceira equação de regressão visava aferir a predição das variáveis
avaliadas na dimensão ansiedade (ver quadro_5).
Através da análise dos resultados do primeiro bloco (R2 ajustado=0,09) foi
possível constatar uma predição significativa das habilitações literárias dos
inquiridos (ß=0,24; t=2,29; p=0,02) e do tipo de atividade (ß=0,26; t=2,30;
p=0,02), no sentido em que apresentam níveis de ansiedade mais elevados os
artistas com mais habilitações (M=10,39; DP=3,74) para os que frequentaram o
ensino superior, em relação aos que apenas frequentaram o ensino secundário
(M=8,13; DP=1,46). Todavia, quando introduzidas as variáveis do bloco 2 (R2
ajustado=0,14), verifica-se que o tipo de atividade deixa de ter uma capacidade
de explicação significativa, apenas se verificando que essa capacidade
preditiva é exercida pelas habilitações literárias (ß=0,24; t=2,41; p=0,01) e
pela criatividade (ß= -0,27; t=-2.31; p=0,02). Por último, podemos referir que
o bloco 1 apresenta um ajustamento significativo (Fratio=2,54; p<0,05),
registando-se essa mesma situação para o bloco 2 (Fratio=3,59; p<0,05). Além
disso, as modificações realizadas no segundo bloco, colocação das variáveis
criatividade e motivação, obtiveram significância estatística (Fchange= 5,82;
p<0,05).
DISCUSSÃO
Um primeiro aspeto a destacar diz respeito às médias obtidas pelos artistas nas
variáveis em estudo, comparativamente a estudos anteriores que serviram para a
análise psicométrica dos instrumentos utilizados, em que foram utilizados
outros grupos profissionais.
Assim, as médias obtidas pelos artistas são superiores nas medidas de
criatividade e de motivação intrínseca, indo ao encontro da revisão de
literatura que apontava nesse sentido, isto é, os artistas apresentam
geralmente uma criatividade mais elevada do que outros grupos profissionais,
bem como apresentam uma maior motivação intrínseca no seu trabalho, atingindo
estados de fluxo na sua realização, enquadrando-se assim na Teoria do Fluxo de
Csikszentmihalyi (1996).
Além disso, de acordo com a revisão da literatura referida na secção
introdutória, os artistas apresentam níveis de stresse, ansiedade e depressão
superiores aos níveis verificados no estudo da adaptação portuguesa da DASS-21,
em que foram obtidas médias inferiores nestas três dimensões.
Foi ainda possível observar a existência de uma correlação positiva
significativa entre a criatividade e a motivação intrínseca, correspondendo aos
resultados verificados na maioria dos estudos que avaliámos anteriormente
através de procedimentos de meta-análise (Jesus, et al., 2012). Desta forma, é
importante estimular a perceção de autonomia e de competência dos sujeitos nas
tarefas que realizam, para que estes se revelem mais criativos e
empreendedores.
Por seu turno, a correlação entre os três indicadores de mal-estar e a
criatividade, por um lado, e a motivação intrínseca, por outro, é sempre
negativa, parecendo revelar que a criatividade e a motivação intrínseca podem
funcionar como variáveis protetoras da saúde mental do sujeito, contribuindo
para a prevenção de situações de mal-estar. Este aspeto é fundamental, tendo em
conta os elevados níveis de mal-estar que muitos colaboradores apresentam na
atualidade, em diversas atividades profissionais (Jesus, 2010; Melo, Cassini,
& Lopes, 2011), desde professores e profissionais de saúde, como médicos e
enfermeiros, até artistas, conforme vimos nesta investigação.
Há que possibilitar uma maior criatividade aos colaboradores nas atividades
profissionais, no sentido de prevenir situações de mal-estar e de promover o
bem-estar no trabalho. Isto embora, os efeitos da criatividade e da motivação
intrínseca tenham sido suprimidos quando estas variáveis foram colocadas
juntamente com as variáveis sociodemográficas na explicação do stresse, da
ansiedade e da depressão. Especificamente, na regressão que teve como objetivo
observar a capacidade preditiva de variáveis sociodemográficas, num primeiro
instante, e de variáveis sociodemográficas, a motivação e a criatividade, num
segundo momento, relativamente ao stresse, pudemos verificar que as
modificações efetuadas no modelo não registaram qualquer significância
estatística.
No caso do stresse também se verificou que apenas o tipo de atividade
artística, em ambos os blocos, é um preditor significativo, no sentido em que
aqueles que trabalham em artes performativas apresentam um nível de stresse
mais elevado do que os que trabalham em artes visuais ou de criação literária,
o que vai ao encontro dos pressupostos de Ludwig (1992). No que diz respeito à
depressão, nenhuma das variáveis, quando consideradas em conjunto (as
sociodemográficas, a criatividade e a motivação) revela ter um efeito
significativo na explicação da depressão. Por seu turno, a ansiedade é apenas
explicada significativamente, no bloco 1 e 2, pelas habilitações académicas e
pela criatividade dos artistas, no sentido em que aqueles que apresentam menor
ansiedade, são aqueles que têm um nível mais baixo de habilitações e que
revelam maior criatividade.
No seu conjunto, estes resultados revelam que algumas variáveis
sociodemográficas interferem na explicação de variáveis indicadoras de mal-
estar, fazendo com que a motivação intrínseca deixe de apresentar uma
capacidade de predição significativa e com que a criatividade apenas apresente
uma predição significativa na explicação da ansiedade. Assim, podemos concluir
que, nesta investigação, a criatividade e a motivação intrínseca se relacionam
de forma significativa e que podem contribuir para a prevenção do mal-estar dos
colaboradores, embora este efeito seja reduzido, sobretudo quando se consideram
algumas variáveis sociodemográficas.
Conforme salientado por Carlsson (2002), as relações entre a criatividade e
variáveis indicadoras de mal-estar, como seja a ansiedade, têm sido sempre
estudadas com recurso a populações clínicas. Deste modo, é importante que as
relações entre estas variáveis sejam investigadas noutras populações, em
particular em contextos de trabalho, permitindo avaliar a importância da
criatividade na prevenção do mal-estar dos colaboradores.
Embora esta investigação tenha tido um contributo importante por ter sido
realizada com uma amostra de artistas, futuras investigações deverão incluir
outros grupos profissionais, bem como deverão possuir amostras mais robustas.