Desenvolvimento da empatia em crianças: a influência dos estilos parentais
ABSTRACT
Empathy is an important element for interpersonal development and for increase
in relationship quality, showing itself as a protection factor to emotional and
behavior problems. The present article is a literature critical review where it
is explored inside and outside factors that affect on empathy development
during childhood, focusing at parental styles and parent-child relationship. It
was explored the main tasks and procedures used to measure the components of
this construct. Parental behavior, emotional expression and attitudes directed
to child are important variables that affect this process. Literature reviewed
points that the parenting practices that most influence empathy development are
the ones which promote emotional expression and perspective taking; and points
to authoritative parental style as a reference for parenting. From this review,
it is proposed the development of interventions that increase a healthy empathy
development.
Key- words - Empathy; Parent-Child Relationship; Children Development
A empatia é um elemento importante para o desenvolvimento de habilidades
interpessoais e melhora na qualidade das relações, pois motiva cuidados e
comportamentos em prol de outro sujeito (Denham, 1998). Ela está positivamente
relacionada com: comportamento pró-social (Crick, 1996; Eisenberg, Carlo,
Murphy & Van Court, 1995; Schaffer, Clarck & Jeglic, 2009), aceitação
pelos pares (Warden & Mackinnon, 2003), saúde mental (Beyers & Loeber,
2003; Blair, 1997), resolução pacífica de conflitos (McPherson Frantz &
Janoff-Bulman, 2000) e diminuição no comportamento agressivo (Miller &
Eisenberg, 1988).
Crianças que apresentam altos níveis de empatia para emoções negativas tendem a
ter menos problemas de comportamentos externalizantes e maior competência
social (Zhou et al., 2002). Baixos níveis de empatia, por sua vez, representam
diminuição dos comportamentos pró-sociais e aumento de comportamentos
agressivos. Desta forma, a partir da empatia, o sujeito é capaz de prever a dor
que pode causar com seus comportamentos agressivos e, com isso, avaliar sua
reação de agredir ou não (Hastings, Zahn-Waxler, Robinson, Usher & Bridges,
2000). Entre as patologias relacionadas com prejuízos na empatia estão
Transtorno de Conduta, Transtorno de Personalidade Antissocial e Autismo
(American Psychiatric Association, 1994; McDonald & Messinger, 2011).
O desenvolvimento de empatia e consideração pelo outro se mostra como um fator
de proteção contra problemas de comportamento. Dentre as influências
encontradas para o desenvolvimento de empatia estão os estilos e práticas
parentais. As práticas associadas ao desenvolvimento positivo de empatia: o
comportamento dos pais, suas expressões emocionais, cognições e atitudes
direcionadas ao filho, como presença de apoio, instruções claras, limites e
expressão de raiva e afeto (Denham et al., 2000; Hastings et al., 2000).
Diferentes fatores influenciam o desenvolvimento da empatia, destacando-se (a)
fatores internos (fatores genéticos, aspectos do desenvolvimento neural e
variáveis de temperamento), e (b) fatores externos ou de socialização, como
imitação, estilos parentais e relacionamento pais e filho (McDonald &
Messinger, 2011), conforme ilustrado na Figura_1.
Neste artigo iremos explorar os fatores internos e externos que influenciam o
desenvolvimento da empatia, enfocando principalmente os estilos parentais e o
relacionamento entre pais e filho. Através de uma revisão narrativa da
literatura, onde são descritos e discutidos o desenvolvimento de tal assunto
baseado na literatura publicada em livros, revistas científicas e na análise
crítica dos autores (Rother, 2007).
Empatia
Não há um consenso teórico sobre a definição operacional de empatia.
Utilizaremos neste artigo a definição elaborada pela American Psychological
Association (2010), visto que abrange os principais pontos comumente
enfatizados em estudos sobre este tema. Assim, empatia é:
Compreender uma pessoa a partir do quadro de referência dela e não do próprio,
experimentando de modo vicário os sentimentos, percepções e pensamentos dela. A
empatia não envolve em si mesma a motivação para ajudar, embora possa
transformar em consideração pelo outro ou sofrimento pessoal, o que pode
resultar em ação (pp. 335).
Hoffman (1984) fez uma distinção entre as diferentes formas que o indivíduo
pode compreender o outro a partir da perspectiva deste. A empatia compreende um
componente emocional e um cognitivo. O emocional seria a capacidade de
experimentar vicariamente o sentimento do outro, que está relacionada com a
discriminação perceptual. O indivíduo observa os sinais emocionais do outro,
como expressão facial, postura corporal e tom de voz, e de forma condicionada
sente a mesma emoção. Considera-se também que a percepção dos sinais emocionais
no outro pode lembrar o sujeito de experiências passadas, quando ele já viveu
esta emoção e esta lembrança o faz sentir-se como quem ele observa.
O componente cognitivo é o entendimento intelectual dos estados internos e
pensamentos do outro, ou seja, a capacidade de compreender a situação a partir
da perspectiva do outro. Para tanto, é necessário que o indivíduo desenvolva a
consciência de que existe um outro e que este possui pensamentos e sentimentos
diferentes dos seus. Hoffman (1984) divide este processo de desenvolvimento
durante a infância em quatro etapas: (1) fusão entre o self e o outro - não
existe diferenciação, ocorre durante o primeiro ano de vida; (2) consciência de
que existe uma diferenciação física entre ambos os sujeitos, sem a noção de que
este segundo possa ter estados internos - por volta de um ano; (3) noção de que
o outro também tem estados internos próprios diferentes dos seus - o que seria
um princípio da capacidade de se colocar no lugar do outro, ocorre aos dois
anos de idade; e (4) consciência de que os outros possuem identidades pessoais
e histórias de vida que vão além da experiência imediata, o que possibilita uma
avaliação mais completa sobre como este outro pode estar se sentindo e se
desenvolve durante a segunda infância.
Sentir empatia envolve compreender os sentimentos de outro sujeito, seja pela
capacidade de colocar-se no lugar deste ou pela experiência vicária das
emoções, porém isto não define como o indivíduo irá reagir a este sentimento.
Classificam-se ao menos duas diferentes e possíveis reações empáticas. A
primeira é a tendência de agir pró-socialmente, quando o indivíduo utiliza esta
capacidade de compreensão para ajudar o outro sujeito a aliviar este
desconforto. A segunda é o sofrimento pessoal no qual, ao presenciar o
desconforto do outro, o sujeito tende a se empenhar em estratégias para aliviar
o próprio sofrimento (Denham, 1998). Esta primeira reação, também chamada de
consideração pelo outro, é o pressuposto teórico mais utilizado para explicar
as respostas de empatia ao considerar que esta é um processo interno e o
comportamento pró-social de ajuda é uma possível consequência externa com
mensuração facilitada. Sendo assim, o comportamento pró-social e as reações
externas de empatia aparecem com frequência como uma alternativa de medida de
empatia.
As medidas utilizadas para avaliar empatia variam entre escalas de
autoavaliação (Strayer & Roberts, 2004; Valiente et al., 2004), escalas de
avaliação respondidas por pais, professores e amigos (Cornell & Frick,
2007; Davidov & Grusec, 2006; Farrant, Devine, Maybery & Fletcher,
2012; Hastings et al., 2000; Strayer & Roberts, 2004); e exposição a
estímulos eliciadores de empatia como vídeos, slides, histórias e simulação de
sofrimento (Davidov & Grusec, 2006; Farrant et al., 2012; Hastings, Rubin
& DeRose, 2005; Hastings et al., 2000; Moreno, Klute & Robinson, 2008;
Strayer & Roberts, 2004; Valiente et al., 2004; van der Mark, van
IJzendoorn & Bakermans-Kranenburg, 2002; Zhou, et al., 2002). De modo
geral, os autores calculam um escore total para a empatia através de medidas de
empatia cognitiva; expressão facial quando frente a um estímulo emocional;
descrição de emoções sentidas durante um estímulo para empatia; e de respostas
empáticas como: o comportamento pró-social, o sofrimento pessoal e a
indiferença. Os estudos não necessariamente avaliam todos esses componentes,
gerando um escore a partir de um ou mais destes. Observa-se que as medidas de
empatia são obtidas de diversas maneiras e consideram diferentes aspectos
dessa. A grande diversidade de procedimentos e instrumentos para avaliar este
constructo reflete a falta de um consenso teórico para a definição operacional
de empatia.
Um dos procedimentos mais empregados na literatura é a simulação de sofrimento.
Neste, durante um momento de brincadeira, livre ou instruída, a mãe da criança
simula machucar-se e algum tempo depois o pesquisador, considerado como um
estranho pela criança, também faz uma simulação. Geralmente a situação simulada
é sentir dor no joelho e beliscar o dedo em uma prancheta ou em uma porta. Nos
estudos analisados, apesar de o procedimento ser o mesmo, a forma de análise
varia, podendo ser pontuação de: expressões faciais (Hastings et al., 2000;
2005; van der Mark et al., 2002), expressões verbais (Hastings et al., 2000;
van der Mark et al., 2002), realização de perguntas da criança com o intuito de
saber o ocorrido e sobre a dor (Moreno et al., 2008), comportamento de aliviar
a dor e ajuda (Davidov & Grusec, 2006; Hastings et al., 2000; 2005; Moreno
et al., 2008; van der Mark et al., 2002), e resposta de indiferença (Moreno et
al., 2008).
Estudos longitudinais sobre o desenvolvimento da empatia observam mudanças
significativas na capacidade empática nos primeiros anos de vida da criança
(Knafo, Zahn-Waxler, Hulle, Robinson & Rhee, 2008; Zahn-Waxler, Robinson
& Emde,1992b). Nos primeiros dias de vida, um bebê é capaz de manifestar
sofrimento ao ouvir o choro de outro bebê, mostrando existir um reflexo
evolutivo para a empatia. Aos dois anos de idade, as crianças já demonstram
respostas empáticas iniciais de consideração pelo outro, apresentando
desenvolvimento tanto da capacidade cognitiva de interpretar os estados físicos
e psicológicos de outro quanto da capacidade emocional de vivenciar a emoção de
outro (Zahn-Waxler, Radke-Yarrow, Wagner & Chapman, 1992a). Esta mudança na
empatia reflete o desenvolvimento rápido que ocorre nessa fase, influenciado
por fatores genéticos, ambientais e psicológicos (Knafo et al., 2008).
A seguir, descrevem-se os aspectos de influência para a empatia, apontados por
McDonald e Messinger (2011) na Figura_1, os fatores internos (neurológicos,
genéticos e de temperamento) e fatores de socialização (imitação, estilos
parentais e relacionamento entre pais e filho).
Fatores internos de desenvolvimento: neurológicos, genéticos e de temperamento.
Os componentes emocionais e cognitivos da empatia, ainda que complementares
para a compreensão e identificação da emoção sentida por outra pessoa, se
desenvolvem de maneira distinta (Hoffman, 1984). A empatia emocional depende da
ativação dos sistemas límbico e paralímbico, já a empatia cognitiva aciona
áreas do lobo temporal e córtex pré-frontal. Considerando que o sistema límbico
se desenvolve rapidamente por ser mais primitivo e as estruturas de lobo
temporal e córtex pré-frontal são umas das últimas a atingirem a maturação,
esta distinção neurológica aponta para a diferença entre os caminhos neurais de
desenvolvimento destes componentes (Singer, 2006).
Corroborando este desenvolvimento neurobiológico diferenciado, Zahn-Waxler e
colaboradores (1992b), a partir de um estudo que compara gêmeos monozigóticos e
dizigóticos entre 14 e 20 meses, encontraram que, enquanto o componente
emocional apresenta maior influência genética, o componente cognitivo não
apresenta o mesmo padrão de influência genética com o passar do
desenvolvimento. Em estudo similar, Knafo e colaboradores (2008) mostram que
esta contribuição genética aumenta com o passar do tempo para ambos
componentes, sendo maior em bebês de 24 e 36 meses, do que em bebês entre 14 e
20 meses.
Os achados relatados acima apontam para a influência genética e biológica no
desenvolvimento da empatia durante os primeiros anos de vida. Entretanto,
estudos com metodologias semelhantes percebem que o comportamento pró-social de
ajuda sofre maior influência ambiental do que genética. Sugerindo, então, uma
importância significativa da qualidade da relação pais e filho para o
desenvolvimento desta resposta empática (Knafo & Plomin, 2006; Knafo et
al., 2008).
Avaliar a influência do temperamento no desenvolvimento da empatia também é uma
forma de avaliar a influência genética, considerando que o temperamento é uma
série de características biológicas que servem de base para a personalidade,
presentes desde o nascimento. Young, Fox e Zahn-Waxler (1999) constataram que o
nível de empatia presente aos dois anos pode ser previsto pelo padrão do nível
de alerta a estímulos novos aos quatro meses de idade. Os indivíduos que
apresentaram baixo nível de alerta quando bebês também tiveram baixos níveis de
alerta quando um estranho demonstrou sofrimento e apresentaram níveis mais
baixos de empatia global com dois anos de idade. Estes achados corroboram com
estudos que mostram a relação entre baixos níveis de alerta e empatia em
sujeitos com comportamento antissocial (Miller & Eisenberg, 1988).
Cornell e Frick (2007) observaram que crianças comportamentalmente inibidas,
entre três e cinco anos, inesperadamente, eram avaliadas por suas mães como
mais empáticas que as outras crianças. Porém, em outros estudos, crianças
inibidas se apresentaram menos empáticas e menos pró-sociais com estranhos
(Hastings et al., 2005; van der Mark et al., 2002; Young et al., 1999). Este
contraste nos achados mostra que as atitudes empáticas se manifestam
diferentemente quando a pessoa em sofrimento é a mãe ou um estranho. Os estudos
sugerem que a resposta empática de consideração pelo outro direcionada à mãe é
diretamente influenciada pela relação mãe-filho (Hastings et al., 2005), não
sendo tão influenciada pelos fatores genéticos e de temperamento (Knafo et al.,
2008; Young et al., 1999; Zahn-Waxler et al., 1992b).
Fatores externos de desenvolvimento: imitação, estilos parentais e
relacionamento entre pais e filho.
A primeira resposta empática observada em bebês é o sofrimento pessoal. Dentre
estas primeiras manifestações de empatia está o choro reativo, ou seja, quando
um bebê chora ao ouvir o choro de outro. A capacidade de perceber o choro de
outro bebê e identificá-lo como tal gera a resposta de chorar também, o que é
considerado como um precursor rudimentar da empatia (Hoffman, 1984; McDonald
& Messinger, 2011; Zahn-Waxler et al., 1992a).
A resposta ao ambiente externo, mesmo que por reflexo, ajuda o indivíduo a
construir o conceito de que os outros existem e respondem ao meio de maneira
própria. A imitação de expressões faciais é um importante mecanismo inato para
compreender a emoção de outro. A imitação automática de expressões faciais e
postura cria no sujeito sinais corporais que o ajudam na compreensão dos
sentimentos que ele observa (Hoffman, 1984; McDonald & Messinger, 2011).
Outro fator externo que influencia o desenvolvimento emocional das crianças
desde o nascimento é a constituição de apego e vínculo afetivo na relação pais
e filho (Caminha, Soares & Kreitchmann, 2011). Especificamente para o
desenvolvimento da empatia, aponta-se o comportamento dos pais, suas expressões
emocionais e atitudes direcionadas ao filho como importantes as variáveis desta
relação e processo de desenvolvimento (Denham et al., 2000; Hastings et al.,
2000).
A Influência dos Estilos Parentais no Desenvolvimento da Empatia
Os estilos parentais são padrões gerais de características da relação entre
pais e filho, incluindo comportamentos diretivos, tais como práticas
educativas, e comportamentos espontâneos, tais como tom de voz, gesticulação e
expressão emocional. Estes comportamentos irão gerar um padrão emocional de
relacionamento (Darling & Steinberg, 1993). Na literatura revisada, são
utilizados instrumentos que avaliam as características parentais que descrevem
esses estilos e também outras variáveis como sua empatia e incentivo à tomada
de perspectiva do outro.
Como procedimento para a mensuração das variáveis de estilos parentais e suas
práticas aparecem os instrumentos de: auto-avaliação parental (Cornell &
Frick, 2007; Davidov & Grusec, 2006; Farrant et al., 2012; Hastings et al.,
2000; 2005; Moreno et al., 2008; Strayer & Roberts, 2004; Tong et al.,
2012; Valiente et al., 2004), classificação da interação pais e filho (Tong et
al., 2012; Valiente et al., 2004; van der Mark et al., 2002; Zhou et al.,
2002;) e reações maternas frente a um estímulo emocional (Davidov & Grusec,
2006; Zhou et al., 2002). Porém os instrumentos pouco se repetem, o que pode
ser um reflexo da diversidade de variáveis estudadas e derivadas dos estilos
parentais, como, por exemplo, disciplina, expressão emocional, carinho e
crenças sobre parentalidade que podem ser avaliadas separadamente ou como parte
da definição de estilos parentais.
Baseada nas funções de controle, Baumrind desenvolveu uma das teorias pioneiras
sobre os estilos parentais, definindo-os em três estilos: (1) o permissivo, (2)
o autoritário e (3) o com autoridade (Baumrid, 1966; Valentini & Alchieri,
2009). O estilo parental permissivo, caracterizado por práticas de disciplina
inconsistente (Baumrind, 1966), é considerado como prejudicial para o
desenvolvimento de empatia quando o filho tem temperamento extrovertido. No
entanto, a disciplina inconsistente não apresenta influência quando o
temperamento infantil é de inibição (Cornell & Frick, 2007). Estes achados
apontam para a influência do temperamento mediando a relação entre estilos
parentais e o desenvolvimento da empatia.
O estilo parental autoritário se caracteriza por valorização da obediência.
Estes pais moldam, controlam e avaliam os filhos de maneira rígida e, com
grande frequência, utilizam estratégias punitivas como forma de impor limites
(Baumrind, 1966). Em um estudo longitudinal com crianças acompanhadas dos
quatro aos dez anos, Hastings e colaboradores (2000) observaram que os filhos
de mães autoritárias tendem a demonstrar menos consideração pelos outros. Da
mesma forma, a prática de punição corporal mostra-se como prejudicial para o
desenvolvimento da empatia independente do temperamento do filho (Cornell &
Frick, 2007).
Os pais com autoridade dão limites aos seus filhos, justificando o porquê de o
estarem fazendo e seus filhos têm o direito de expressar sua opinião quando não
concordam. Eles também dão suporte para a livre expressão das emoções e
orientam os filhos ao utilizarem estratégias efetivas de resolução de
problemas. Desta forma, eles mantém a autoridade sem retirar a liberdade de
expressão de seus filhos e estimulam a independência deles (Baumrind, 1966;
Gottman & DeClair, 1997). No mesmo estudo longitudinal apresentado
anteriormente, Hastings e colaboradores (2000) observaram que as mães com
estilo parental com autoridade e que junto demonstram menos afeto negativo têm
filhos com mais empatia, responsabilidade interpessoal e comportamento pró-
social (Hastings et al., 2000).
A partir destes achados, entende-se que o estilo parental autoritário, que não
valoriza a comunicação e, sim, a obediência e a punição, prejudica o
desenvolvimento da empatia e de respostas de ajuda. Já o estilo permissivo, com
inconsistência na aplicação de limites, seria mais prejudicial para as crianças
desinibidas. O desenvolvimento da empatia é, portanto, estimulado por práticas
parentais presentes no estilo de pais com autoridade, que visam à comunicação e
ao incentivo de resolução de problemas, expressão e regulação emocional.
Davidov e Grusec (2006), ao avaliarem as estratégias parentais de resposta ao
sofrimento dos filhos com crianças de seis a oito anos, observaram que as
estratégias positivas, como reação focada na emoção, reação focada no problema
e estímulo para a criança expressar seus sentimentos, foram preditoras de
empatia e comportamento pró-social. As mesmas respostas maternas foram
relacionadas com a capacidade de regulação de emoções negativas das crianças,
sugerindo que a responsividade materna ao sofrimento do filho, no mínimo
influenciaria a empatia através da promoção de estratégias mais efetivas de
regulação da emoção negativa. No entanto, estes resultados não foram
significativos para os pais.
A prática de demonstração e troca de carinho está relacionada com um maior
nível de empatia (Strayer & Roberts, 2004). Sua maior influência é sobre o
aumento da expressão emocional de diferentes sentimentos e o aumento da empatia
para emoções negativas nas crianças (Strayer & Roberts, 2004; Zhou et al.,
2002). A expressão da raiva é a única a diminuir quando os pais demonstram mais
carinho (Strayer & Roberts, 2004). Os resultados destas pesquisas sugerem
que a troca de carinho entre pais e filho facilita a expressão de sentimentos e
promove o desenvolvimento de empatia, visto que a expressão emocional das
crianças está fortemente relacionada com o seu nível de empatia (Strayer &
Roberts, 2004). Zhou e colaboradores (2002) observaram que, para o carinho
parental aumentar a competência social infantil, é preciso considerar também a
expressão emocional positiva materna e o nível de empatia do filho.
Valiente e colaboradores (2004) encontraram, em seu estudo com crianças entre
quatro e oito anos, que a expressão de emoções positivas pela mãe aumenta as
respostas de consideração pelo outro apenas quando são expressas de forma
moderada. Ou seja, quando a mãe expressa suas emoções positivas de maneira
exagerada ou não as expressa, ela não contribui para que seu filho apresente
comportamento pró-social. Os autores sugerem, a partir destes resultados, que
alta expressão emocional positiva pode gerar na criança uma reatividade
prejudicial para a resposta empática. Também, esta expressividade alta pode ser
encontrada em estilos parentais que prejudicam o desenvolvimento da empatia,
como baixo controle ou baixa comunicação. De modo similar, a expressão de
emoções negativas pela mãe aumenta as respostas de consideração pelo outro
quando expressas de forma moderada. Este achado dá suporte para a hipótese de
que a exposição a níveis moderados de expressão de emoções negativas promove
entendimento emocional pela criança (Valiente et al., 2004). Assim, considera-
se que estes achados apontam para a importância na qualidade da comunicação,
considerando que o que influencia positivamente o desenvolvimento de empatia e
respostas empáticas de ajuda é a forma de expressão emocional moderada e não a
sua valência, positiva ou negativa.
Poucos estudos avaliam a influência materna sobre a empatia durante o primeiro
ano de vida. Tong e colaboradores (2012), através de um estudo longitudinal,
observaram que as atitudes maternas quando o filho estava com nove meses tinham
um impacto significativo no nível de empatia apresentado aos 18 meses. Dentre
as atitudes maternas que mais beneficiam o desenvolvimento da empatia,
apontadas nesta pesquisa, estão: frequência de elogios, manutenção de rotina e
níveis moderados de estresse associado à criação do filho. Os autores salientam
a importância de elogiar o filho desde cedo. Os dados de sua pesquisa (Tong et
al., 2012) apresentaram a seguinte relação: mães que pouco elogiavam seus
filhos quando estes estavam com nove meses de idade, aumenta em quatro vezes o
risco de eles apresentarem baixo escore de empatia aos 18 meses.
Em síntese, os achados relatados apontam para práticas parentais que promovem o
desenvolvimento de empatia, como: relação de carinho, elogios, expressão
moderada de emoção e estratégias positivas para lidar com o sofrimento do filho
(focar-se na emoção ou no problema e estímulo para a criança expressar seus
sentimentos). Ao considerar estas práticas como um todo, elas sugerem um
ambiente acolhedor para verbalização de sentimentos e de suporte para resolução
de problemas que, por sua vez, desenvolvem o conhecimento sobre as emoções e a
capacidade de colocar-se no lugar de outro.
A empatia parental aparece na literatura como outro fator dentre a relação pais
e filho que apresenta influência sobre o desenvolvimento de empatia. Pais mais
empáticos utilizam práticas parentais menos autoritárias e controladoras, bem
como também estimulam a expressão emocional de seu filho (Strayer &
Roberts, 2004). A empatia cognitiva materna aumenta a frequência com que as
mães utilizam estratégias de incentivo à tomada de perspectiva do outro que,
por sua vez, aumenta o nível de empatia cognitiva demonstrada por seus filhos.
Já a empatia emocional da mãe influencia a empatia cognitiva do filho através
da modelagem de comportamentos empáticos (Farrant et al., 2012). Estes dados
corroboram com os discutidos anteriormente, salientando a importância de
estratégias que visam à tomada de perspectiva e ao benefício da sensibilidade,
do carinho e das estratégias responsivas por parte dos pais.
O desenvolvimento cognitivo e de linguagem são fatores importantes para que o
indivíduo construa a noção da existência de outro, essencial para a empatia
cognitiva (Hoffman, 1984). Como suporte para esta teoria, encontra-se na
literatura que a idade está relacionada com a capacidade de tomada de
perspectiva (Strayer & Roberts, 2004) e que as práticas de estímulo ao
desenvolvimento cognitivo são preditoras de empatia (Tong et al., 2012). O
desenvolvimento cognitivo e de linguagem são variáveis da criança que têm
grande importância para a qualidade da interação mãe e filho, visto que para a
disponibilidade materna beneficiar a empatia apresentada por seu filho é
preciso considerar o desenvolvimento cognitivo e de linguagem deste (Moreno et
al., 2008).
A influência das variáveis da criança sobre as práticas parentais existe,
porém, com menos intensidade que a influência contrária. Crianças com problemas
de comportamento provocam em seus pais atitudes menos carinhosas e menor
responsividade materna, de modo que estas mães também expressam menos emoções
positivas (Zhou et al., 2002). Tal achado, juntamente com os resultados de
Moreno e colegas (2008), direciona o olhar para o processo interacional entre
emoções e comportamentos dos pais e da criança.
A qualidade da relação mãe e filho mostrou ser um fator importante para a
frequência e intensidade das respostas empáticas direcionadas a um estranho.
Crianças que respondem melhor as interações realizadas por sua mãe demonstram
mais empatia pela pessoa desconhecida (Moreno et al., 2008). O vínculo seguro
com a mãe e o bom nível de empatia anterior também beneficia o quanto a criança
irá responder empaticamente ao estranho (van der Mark et al., 2002). É
importante observar que, de modo geral entre os 16 e 22 meses, a empatia
direcionada ao estranho tende a diminuir e a direcionada à mãe tende a aumentar
(van der Mark et al., 2002).
Quando o temperamento infantil se caracteriza por medo e inibição, as práticas
maternas de proteção e sensibilidade se mostram prejudiciais para o
desenvolvimento de respostas empáticas de consideração pelo outro, direcionadas
a um estranho (van der Mark et al., 2002). No entanto, estas práticas parecem
ser positivas quando as respostas empáticas se direcionam a mãe (Hastings et
al., 2005). Desta forma, entende-se que proteção e sensibilidade fortalecem a
relação mãe e filho, porém mantém a inibição e o medo do desconhecido,
diminuindo as respostas empáticas da criança e seu relacionamento interpessoal,
podendo gerar dependência da relação com a mãe.
DISCUSSÃO
Neste artigo exploraram-se aspectos da empatia com o objetivo de revisar na
literatura a influência dos estilos e práticas parentais sobre o
desenvolvimento da empatia em crianças. Os estudos analisados mostram que esta
se desenvolve sob a influência de diferentes variáveis, tais como a genética, o
temperamento, o desenvolvimento cognitivo, os estilos parentais e o
relacionamento entre pais e filho. Desta forma, é importante considerar a
interação entre estas variáveis ao analisar a influência de cada uma para o
desenvolvimento da empatia.
Ao estudar a influência dos pais sobre a empatia do filho observa-se que a
relação que se cria não é unidirecional ou direta. Encontram-se fatores que
mediam esta relação como o desenvolvimento cognitivo e de linguagem da criança.
Isoladamente, as práticas parentais não poderão desenvolver a capacidade
empática do filho se este não atingir o desenvolvimento cognitivo necessário
para compreender que as outras pessoas pensam e sentem diferente dele. Assim
como o temperamento do filho pode influenciar o comportamento dos pais. Também,
as diferentes práticas parentais podem influenciar de maneira distinta o
desenvolvimento da empatia, quando o temperamento do filho é inibido ou
extrovertido. Portanto, isso sugere que a relação entre pais e filho é
multifatorial, mostrando a importância de analisar todo o contexto quando
frente a um indivíduo com baixa capacidade empática.
No entanto, a literatura evidencia que existem práticas parentais importantes
para o desenvolvimento da empatia, independente das influências serem
multifatoriais. A literatura revisada aponta as práticas parentais de incentivo
à expressão emocional e à tomada de perspectiva do outro como práticas
importantes para o benefício no desenvolvimento da empatia do filho. Ao
relacionar os achados com os componentes da empatia descritos em seu conceito,
estes resultados não surpreendem. Para que o indivíduo seja capaz de
identificar a emoção de outro, característica do componente emocional, ele
precisa ser capaz de identificar a própria emoção; habilidade esta desenvolvida
a partir da expressão emocional. Já a capacidade de tomada de perspectiva do
outro é a habilidade principal do componente cognitivo da empatia.
As práticas parentais relacionadas com o incentivo à expressão emocional do
filho são: a demonstração de carinho, a responsividade materna, a empatia
parental e o estilo parental de pais com autoridade. A prática de incentivo à
tomada de perspectiva do outro também está relacionada com: a empatia parental,
a maneira como os pais lidam com o sofrimento do filho, a maneira como o
orientam na resolução de problemas e o estilo parental de pais com autoridade.
Estas práticas desenvolvem a capacidade de regulação emocional, de resolução de
problemas e a empatia cognitiva.
Como abordado ao longo deste artigo, a empatia tem um papel social importante
na prevenção de diversos problemas comportamentais e de desenvolvimento de
transtornos de personalidade. Frente aos achados, fica evidente a necessidade
de promoção de programas e estratégias que visem o desenvolvimento da empatia.
Programas de treinamento de pais que incentivem o desenvolvimento de
habilidades presentes no estilo parental de pais com autoridade e que promovam
a qualidade no relacionamento entre pais e filho aparecem como propostas de
intervenção social para o seu desenvolvimento. Além disso, programas que
trabalhem com as crianças a habilidade de expressão emocional e reconhecimento
das emoções, assim como desenvolvimento da capacidade de colocar-se no lugar de
outro são essenciais.
Os programas de prevenção da violência e de promoção da aprendizagem social e
emocional para crianças trabalham com o desenvolvimento de inteligência
emocional e habilidades sociais. Eles abrangem, de modo geral, aspectos como
consciência emocional, regulação emocional, autoestima, habilidades sociais e
resolução de problemas. Observa-se que o componente emocional da empatia é
desenvolvido com as atividades que visam à consciência e regulação emocional.
Já o componente cognitivo, nestes programas, é trabalhado em algumas atividades
que focam as habilidades sociais e resolução de problemas, sem que exista um
módulo específico para este aspecto da empatia. Dentre os programas encontrados
atualmente estão o PATHS (Promoting Alternative Thinking Strategies; Channing
Bete Company, 2013), Amigos do Zippy (Partnership for Children, 2013), PAV
(Programa para Afianzar Vínculos; Cappi, Christello, & Marino, 2011) e
Programa de inteligência emocional (Asociacíon Mundial de Educadores
Infantiles, 2008), desenvolvidos para aplicação em crianças de idade escolar.
Apenas alguns destes programas também orientam os pais, vista a importância da
influência parental para o desenvolvimento da empatia, a aplicação de programas
de treinamento de pais ainda é pequena. O protocolo proposto por Gottman e
DeClaire (1997) é uma referência importante para o treinamento de pais no
desenvolvimento de inteligência emocional e, consequentemente, de empatia.
A partir do que foi exposto, percebe-se que apesar de já existirem modelos
teóricos para a compreensão do desenvolvimento da empatia, a literatura aponta
para poucas práticas que visem à promoção deste. Esta revisão pretende auxiliar
o desenvolvimento de projetos que promovam estas práticas.