Diferentes perfis comportamentais em adolescentes e associação à prática de
atividade física
ABSTRACT
The purpose of this study was to identify behavioural patterns in adolescents
and analyse their associations with physical activity (PA). This study is based
on the fourth Health Behaviour in School-aged Children, which included 5050
Portuguese adolescents (2409 boys; Mage=14,0±1,7 years) studied on the 6th-,
8th-, and 10th grades. Students answered a survey about lifestyles, which
included questions about health and risk behaviours as well as self-
perceptions. Cluster analyses revealed four distinct profiles: the first one
was composed by adolescents who reported low frequency of both health and risk
behaviours (low health and low risk); the second cluster integrated
adolescents who reported high frequency of health behaviours and low frequency
of risky behaviours (high health and low risk); the remaining two clusters,
profiles 3 and 4, were composed by those who reported low frequency of health
behaviours and high frequency of risky behaviours (high health and high
risk). However, these diverge in the fact that adolescents in cluster 3
reported a positive perception of health while those in cluster 4 reported low
perception of health. Frequency of PA was significantly different between all
clusters, with clusters 3 and 4 reporting more PA than clusters 1 and 4. These
results call out for the need to identify and prevent behaviours that can be
associated to PA but may be harmful to adolescents' health as a way to optimise
the well-established health benefits of PA.
Key- words' Adolescence, physical activity, alcohol, health promotion,
wellbeing, injuries, violence.
Os benefícios da prática regular de atividade física (AF) na saúde dos
adolescentes estão bem documentados (Strong et al., 2005; USDHHS, 2008). A AF
melhora a densidade mineral óssea, a saúde cardiovascular, aptidão aeróbia,
força e resistência muscular e a saúde mental (Jones-Palm & Palm, 2004;
Strong et al., 2005). Deste modo, a prática regular de AF tem sido identificada
como uma componente central de um estilo de vida saudável, devendo ser
promovida desde as idades pediátricas (Neumark-Sztainer, Story, Hannan, Tharp,
& Rex, 2003).
No caso específico de Portugal, apesar dos benefícios da AF para saúde, e dos
vários alertas e documentos elaborados com o propósito de promover a saúde e a
AF (Baptista et al., 2011; Matos & Equipa Aventura Social, 2006; Matos et
al., 2011), os níveis de prática de AF verificados estão abaixo dos
recomendados pela Organização Mundial de Saúde (Baptista et al., 2012; Marques
& Carreiro da Costa, 2013; Matos et al., 2011), que aconselha que todas as
crianças, adolescentes e jovens pratiquem pelo menos 60 min/dia de AF com
intensidade moderada a vigorosa (WHO, 2010). Isso significa que grande parte
das crianças, adolescentes e jovens portuguesas não usufrui dos benefícios da
AF ao nível da saúde.
A AF como um comportamento que potencia a saúde tende a agrupar-se com outros
comportamentos de saúde (Mota & Sallis, 2002). Não obstante, existem
estudos que sugerem que a AF está igualmente associada a comportamentos de
risco (Bedendo, Opaleye, Andrade, & Noto, 2013), tais como comportamentos
violentos (Nelson & Gordon-Larsen, 2006; Papaioannou, Karastogiannidou,
& Theodorakis, 2004; Wichstrom & Wichstrom, 2009), incidência de lesões
(Bruhmann & Schneider, 2011) e uso de substâncias dopantes (Laure &
Binsinger, 2007). O facto da AF, especialmente nos desportos de equipa, ser uma
atividade social, impele a que os adolescentes tenham um contexto propício para
o consumo de álcool quando estão com os pares em particular nos momentos de
celebração de vitórias em alguns eventos desportivos (Cantril, 1965; French,
Popovici, & Maclean, 2009; Wichstrom & Wichstrom, 2009). MacKay e
Vincenten (2012) descreverem que durante a infância e adolescência (dos 5 aos
19 anos) a maior causa de morte são as lesões relacionadas com acidentes ou
comportamentos violentos, e que estes estão largamente associados com o uso
abusivo do álcool.
Esta aparente relação contraditória entre a AF e os comportamentos de saúde e
comportamentos de risco (consumo de álcool, violência e lesões) poderá estar
relacionado com diversos fatores. Entre os possíveis fatores podem estar as
inconsistências que se verificam na avaliação da AF (Evenson & Mota, 2011)
e o contexto em que a AF decorre (O'Keefe, Vogel, Lavie, & Cordain, 2011),
uma vez que a natureza competitiva de algumas AF torna os adolescentes mais
propensos para o consumo do álcool e a terem comportamentos violentos (e.g.
desportos de equipa, competições com prémios monetários que desafiam os
adolescentes a perseguirem a vitória para adquirirem os prémios) (Jones-Palm
& Palm, 2004). Outro motivo sistematicamente mencionado, está relacionado
com o apoio e o papel dos adultos, que muitas vezes incentivam os adolescentes
a atingirem os resultados, mesmo que seja através de meios menos lícitos
(Dominick, Saunders, & Kenison, 2012). A natureza destas associações deve
ser bem identificada, de maneira a que se possa ter um melhor entendimento dos
estilos de vida dos adolescentes, o que posteriormente facilitará a delineação
de estratégias de intervenção para a promoção efetiva de estilos de vida ativos
e saudáveis.
O objetivo do estudo foi analisar alguns padrões de comportamentos de saúde
(i.e. consumo de fruta, bem-estar psicológico e perceção de saúde) e
comportamentos lesivos da saúde (i.e. consumo de álcool, luta com os pares e
contração de lesões) e ver de que modo se agrupam numa larga população
adolescente e a sua relação com a prática da AF.
MÉTODO
Participantes
Participaram no estudo 5050 adolescentes portugueses, (2409 rapazes,
Midade=14,0±1,8 anos), aleatoriamente selecionados a nível nacional, incluídos
no estudo Health Behaviour in School-aged Children(HBSC) em 2010. Os
adolescentes frequentavam o sexto (n=1556, Midade=11,8±0,80 anos), oitavo
(n=1594, Midade=13,8 ± 0,8 anos) e décimo ano de escolaridade (n=1900,
Midade=15,9 ± 0,8 anos). O HBSC é um extenso estudo nacional, que conta com o
apoio da Organização Mundial de Saúde, através do seu gabinete na região da
Europa. Os procedimentos metodológicos mais aprofundados do estudo estão
descritos em publicações anteriores a nível nacional e internacional (Currie,
Hurrelmann, Settertobulte, Smith, & Todd, 2000; Matos & Equipa Aventura
Social, 2006). O estudo seguiu todas as normas de aprovação científica, ética e
administrativa e teve o consentimento informado de todos os diretores das
escolas, adolescentes participantes e respetivos encarregados de educação. A
resposta aos questionários foi anónima e voluntária.
Material
AF nos últimos 7 dias
Antes da avaliação da AF os adolescentes foram informados de uma definição lata
de AF (Caspersen, Powell, & Christenson, 1985), de modo a não confundirem
AF somente com atividades desportivas praticadas em clubes. Assim, foram
questionados quantas vezes praticastes AF nos últimos 7 dias?. As respostas
foram dadas numa escala de 8 pontos variando de nenhuma vez (=1) a todos os
dias (=8). Esta forma de avaliação da AF está validada e tem sido amplamente
usada em estudos com adolescentes (Sallis, Buono, Roby, Micale, & Nelson,
1993).
Índice de massa corporal
O peso a altura foram autorreportados e com esses dados procedeu-se ao cálculo
do índice de Quetelet (peso a dividir pela altura ao quadrado). Os adolescentes
foram posteriormente classificados em 3 categorias do índice de massa corporal
(IMC), de acordo com classificação de Cole, Bellizzi, Flegal e Dietz (2000), a
saber: peso normal, excesso de peso, obesidade.
Consumo de fruta
Para identificar o consumo de fruta por parte dos adolescentes, foi questionado
quantas vezes comes fruta. As respostas, numa escala de 7 pontos, variaram
entre nunca como fruta (=1) e como diariamente (=7).
Satisfação com a vida
Para avaliar a satisfação com a vida usou-se a Cantril Self-Anchoring Striving
Scale (Cantril, 1965). Foi apresentado aos adolescentes uma fotografia de uma
escada com degraus numerados de 0 (base) a 10 (topo). Posteriormente foi pedido
que indicassem o seu nível de satisfação com a vida, usando como referencial a
referida imagem, em que o 0 significava o pior estado e o 10 o melhor estado de
satisfação.
Perceção de saúde
A opinião dos adolescentes sobre o seu estado de saúde foi avaliada através de
questão: como defines o teu estado de saúde. As respostas foram dadas numa
escala de 4 pontos, variando entre má (=1) e muito boa (=4).
Consumo abusivo de álcool nos últimos 30 dias
O consumo abusivo de álcool foi avaliado através de uma questão única: quantas
vezes ficaste embriagado nos últimos 30 dias?. Para responderem usaram uma
escola de 7 pontos, em que o 1 significava que não tinham consumido nenhuma
bebida alcoólica e o 7 significava que tinham ficado embriagados todos os dias.
Estar envolvido em lutas nos últimos 12 meses
Para se avaliar o envolvimento em lutas, os adolescentes foram inquiridos sobre
a regularidade com que tiveram envolvidos em episódios de violência nos 12
meses anteriores. As respostas foram dadas numa escala de 5 pontos, variando
entre nunca ter estado envolvido em nenhum episódio de luta (=1) e ter estado
envolvido em 4 ou mais episódios de luta (=5).
Ter uma lesão nos últimos 12 meses a ponto de ser observado por um médico
A regularidade com que tiverem lesões que os obrigou a serem observados por um
médico foi avaliada através de uma questão: quantas vezes, nos últimos 12
meses, tiveste uma lesão que tiveste de ser tratado por um médico ou
enfermeiro? As respostas foram dadas numa escala de 5 pontos, variando entre
nunca ter tido nenhuma lesão (=1) e ter tido 4 ou mais lesões (=5).
Procedimento
Os questionários foram administrados em contexto escolar, durante as aulas, no
mês de janeiro de 2010. Todos os questionários foram preenchidos anonimamente.
A administração dos questionários foi de acordo com o protocolo de pesquisa do
HBSC (Currie et al., 2000). O estudo HBSC em Portugal recebeu aprovação do
Conselho de Ética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Análise dos dados
Para todas as variáveis foi calculada a estatística descritiva. As variáveis
foram recodificadas de modo que o valor mais elevado correspondesse ao aumento
da frequência do comportamento. Posteriormente todas as variáveis foram
estandardizadas. Para análise do efeito da AF nas variáveis em estudo, foi
usado um modelo de regressão linear múltipla, com o método Enter. As análises
foram feitas para a amostra total e separadamente por género e por ano de
escolaridade. Os pressupostos do modelo, nomeadamente o da distribuição normal
e homecedasticidade foram validados graficamente.
O agrupamento de adolescentes foi efetuado com os métodos de análise de
clusters hierárquico e não hierárquico. Primeiramente foi feita uma análise de
clusters hierárquica com o método da menor distância (Nearest neighbor), usando
a distância euclidiana quadrada como medida de dissemelhança entre os
adolescentes. Como critério para a decisão da retenção do número de clusters
usou-se o R-square. Partindo dessa análise foram identificados 4 clusters. Para
a validação e classificação de cada aluno nos clusters identificados foi
efetuada uma análise de clusters não hierárquica k-Means. Tendo obtido os
clusters recorremos ao teste do Qui-quadrado para determinar se o género e o
ano de escolaridade eram independentes dos clusters. Para determinar se a idade
e a prática de AF eram estatisticamente diferentes entre os clusters recorreu-
se à ANOVA, seguida do teste post hoc de Scheffe. Todas as análises
estatísticas foram feitas com o IBM SPSS 20.0. O nível de significância foi
definido para 0,05.
RESULTADOS
O quadro_1 apresenta as caraterísticas da amostra (distribuição dos
adolescentes por sexo, anos de escolaridade, idade média) e os valores médios e
de desvio padrão de todas as variáveis em estudo.
Os resultados da relação entre a AF com os comportamentos de saúde e
comportamentos de risco estão presentes no quadro_2. Para a totalidade da
amostra todas as variáveis analisadas estavam positiva e significativamente
relacionadas com a AF. Para os rapazes, todas as variáveis estavam relacionadas
com a AF, destacando-se contrair lesões nos últimos 12 meses (ß=0,17, p<0,001)
e a perceção do estado de saúde (ß=0,16, p<0,001). No caso das raparigas, o
consumo abusivo de álcool não estava relacionado com a AF e as variáveis que
mais se destacaram foram o consumo de fruta (ß=0,16, p<0,001) e a participação
em lutas nos últimos 12 meses (ß=0,17, p<0,001). Os resultados da análise por
ano de escolaridade mostram que também quase todas as variáveis estavam
relacionadas com a AF, com a exceção do consumo abusivo de álcool para o 6º e o
10º ano de escolaridade e a satisfação com a vida somente para o 10º ano de
escolaridade. Para os adolescentes do 6º e 8º anos o envolvimento em lutas foi
a variável que apresentou a associação mais forte (ß=0,16, p<0,001; ß=0,18,
p<0,001, respetivamente). Para os adolescentes que frequentavam o 10º ano a
correlação mais forte da AF foi com a variável contração de lesões no últimos
12 meses (ß=0,22, p<0,001).
O quadro_3 apresenta os valores dos centros dos clusters e a estatística de F.
A AF relacionou-se com alguns dos comportamentos de saúde (consumo de frutas,
perceção de saúde e satisfação com a vida) e com alguns comportamentos
potencialmente lesivos da saúde (consumo excessivo de álcool, episódios de
violência, contração de lesões). Da análise dos perfis (clusters)
identificaram-se quatro perfis distintos: o perfil 1 correspondia a
adolescentes sem (comportamentos de) saúde e sem (comportamentos de) risco,
sendo adolescentes com valores baixos (negativos) para os comportamentos de
saúde e para os comportamentos de risco para a saúde; o perfil 2 eram os
adolescentes com saúde e com risco constituído por aqueles que relataram
valores altos (positivos) para os comportamentos de saúde e baixos (negativos)
para os de risco; o perfil 3 eram os adolescentes sem saúde, com risco e com
perceção positiva de saúde; e por fim o perfil 4 correspondia aos adolescentes
sem saúde, com risco e com perceção negativa de saúde. Assim, os adolescentes
dos perfis 3 e 4 divergiram apenas na perceção que tinham do estado de saúde.
A frequência da prática de AF foi significativamente diferente entre os vários
perfis, sendo superior nos dois perfis caraterizados por terem valores elevados
(positivos) nos comportamentos de risco.
As variáveis que, aparentemente, mais permitiram diferenciar os clusters foram
o consumo abusivo de álcool nos últimos 30 dias (F(3, 4646)=5317,96; p<0,001),
seguida da satisfação com a vida (F(3, 4646)=1033,84; p<0,001). Por outro lado,
a variável que menos contribuiu para a diferenciação dos clusters foi contrair
lesões nos últimos 12 meses (F(3, 4646)=98,48; p<0,001).
No quadro_4 estão representados os resultados da relação entre os clusterse o
género, escolaridade, idade e a prática de AF. Verificou-se que existia uma
relação de dependência entre o género e a pertença aos perfis (clusters) (X2
(3)=74,00; p<0,001). Nos perfis 3 e 4 (sem saúde e com risco) constatou-se
que existiam significativamente mais rapazes do que raparigas Por outro lado, o
número de raparigas no perfil 1 (sem saúde e sem risco) foi
significativamente superior ao número de rapazes. Relativamente à escolaridade,
também se verificaram diferenças significativas na distribuição dos
adolescentes pelos perfis (X2(6)=178,53; p<0,001). Registaram-se
significativamente menos adolescentes do 6º ano do que do 10º ano nos perfis 1,
3 e 4 (perfis sem saúde). Todavia, verificou-se o inverso para o perfil 2,
onde ficaram representados mais adolescentes do 6º ano do que do 10º ano de
escolaridade (com saúde e sem risco). Os dados sobre as diferenças da média
de idades mostram diferenças significativas entre os perfis (F(3, 4646)=84,59;
p<0,001). De acordo com o teste post hoc de Scheffe, os adolescentes
pertencentes aos perfis 1 e 2 tinham uma idade média (sem risco)
significativamente diferente entre si e os dois eram significativamente mais
novos do que os adolescentes pertencentes aos perfis 3 e 4 (com risco). A
frequência da prática de AF revelou-se significativamente diferente entre os
perfis (F(3, 4646)=45,77; p<0,001). Os adolescentes dos perfis 3 e 4 (com
risco) praticavam AF semanalmente mais vezes do que aos adolescentes
pertencentes aos perfis 1 e 2 (com saúde).
DISCUSSÃO
O objetivo do estudo foi analisar os padrões de comportamentos de saúde e
comportamentos de risco dos adolescentes, e verificar a sua relação com a AF.
A relação positiva entre a AF, consumo de frutas, perceção positiva do estado
de saúde e satisfação com a vida está em linha com outros estudos (Neumark-
Sztainer et al., 2003). Este resultado é particularmente interessante, porque
corrobora a noção de que os comportamentos que potenciam a saúde tendem a
agrupar-se (Mota & Sallis, 2002). Por outro lado, a AF também se relaciona
com os comportamentos prejudiciais para a saúde. Os resultados do presente
estudo acrescem à literatura já existente que a AF está relacionada a
comportamentos violentos como lutar (Papaioannou et al., 2004; Wichstrom &
Wichstrom, 2009), consumo excessivo de álcool (Buscemi, Martens, Murphy,
Yurasek, & Smith, 2011) e contrair lesões (Bruhmann & Schneider, 2011).
Estes dados diferem dos apresentados no estudo realizado por Nelson e Gordon-
Larsen (2006) que verificaram que os praticantes de AF reportaram menos
comportamentos de risco tais como elevado consumo de álcool, marijuana,
cigarros e uso do cinto de segurança. Esta aparente contradição na literatura
poderá estar relacionada com o contexto de participação dos adolescentes na AF,
a cultura predominante no subgrupo social em causa, o tipo de AF praticada e a
orientação que os pais e treinadores atribuem à vitória. Mais estudos são
necessários para se perceber quais são as características da AF que poderão
estar relacionadas com os comportamentos de risco, para que as intervenções
sejam corretamente desenhadas de modo a que à AF sejam aglomerados somente os
comportamentos saudáveis.
Os resultados da análise de clusterssugerem diferentes perfis dos adolescentes
relativamente aos comportamentos de saúde e aos comportamentos de risco. O
perfil 2 representa os adolescentes com mais indicadores positivos de saúde e
sem comportamentos de risco (com saúde e sem risco). Por outro lado, os
perfis 3 e 4 descrevem adolescentes com valores negativos para os
comportamentos saudáveis e valores positivos para as variáveis negativamente
relacionadas com a saúde (sem saúde e com risco), diferenciando-se apenas
pelo facto de no perfil 3 os adolescentes terem uma perceção positiva do estado
de saúde. Aparentemente estes resultados demonstraram coerência, porque os
comportamentos de risco tendem a agrupar-se, tal como acontece com os
comportamentos de saúde, definindo estilos de vida onde a saúde é mais ou menos
valorizada, procurada e mantida (Mota & Sallis, 2002). Porém, neste estudo
verificou-se que os adolescentes que apresentavam mais comportamentos de risco
eram fisicamente mais ativos, o que parece demonstrar que ser fisicamente ativo
não tem um efeito total e linearmente protetor face a alguns comportamentos de
risco, podendo mesmo ter um efeito contrário. Estes resultados corroboram os
resultados de uma análise anterior levada a cabo pelos mesmos autores (Matos,
Calmeiro, Marques, & Loureiro, 2013), contudo não foram observados, por
exemplo em jovens espanhóis e mexicanos (Ruiz-Risueno Abad, 2010; Ruiz-Risueno
Abad, Ruiz-Juan, & Zamarripa Rivera, 2012), entre os quais o consumo
excesso de álcool não estava relacionado com a AF, o que remete não só para
questões metodológicas relacionadas com a medida da AF, como para questões
culturais e contextuais. Relativamente ao envolvimento em lutas, a sua relação
com a AF, nomeadamente no que diz respeito a práticas desportivas, poderá estar
relacionado com a competitividade que muitas vezes as AF assumem, incrementando
sentimentos de rivalidade entre os adversários. Esta assunção e os presentes
resultados são consistentes com vários estudos (Demissie, Lowry, Eaton, Hertz,
& Lee, 2013; Papaioannou et al., 2004), corroborando a associação entre a
AF e a violência física. Neste ponto em particular, e considerando os presentes
resultados, parece que o desporto infanto-juvenil não tem sido bem-sucedido na
promoção da AF e ao mesmo tempo na prevenção dos comportamentos de risco. A
ênfase na superioridade e na vitória são fatores potenciadores de
comportamentos agressivos (Demissie et al., 2013; Duda, 2001), sobretudo em
jovens com dificuldades na resolução de conflitos interpessoais através da
negociação não-violenta (Matos & Tomé, 2012a, 2012b). De outro modo, o
desporto infanto-juvenil e a AF quando são organizadas com objetivos claramente
definidos para a superação da prestação individual promovem valores pessoais,
sem detrimento da moralidade, e desencorajam a adoção de comportamentos de
risco (Duda, 2001).
Sobre a contração de lesões, a interpretação desses dados deve ser feita de
forma cuidadosa, uma vez que as lesões podem resultar da violência entre pares,
mas também podem ocorrer da própria prática da AF. Logo, parece ser
compreensível que os adolescentes com os perfis 3 e 4, que se caraterizam por
valores positivos na contração de lesões, pratiquem mais AF.
A relação de dependência entre géneros e os perfis mostra que os rapazes são
mais propensos a comportamentos de risco, neste caso o consumo excessivo de
álcool e estar envolvido em lutas. Este resultado tem sido repetidamente
ilustrado em relatórios nacionais e internacionais (Currie et al., 2008; Currie
et al., 2000; Matos & Equipa Aventura Social, 2006; Matos et al., 2011). O
consumo de álcool entre os adolescentes parece estar ainda associado à norma
subjetiva sobre a masculinidade (Iwamoto & Smiler, 2013), o que ajuda a
explicar as diferenças observadas entre géneros. De realçar que as adolescentes
também têm comportamentos de risco quanto ao consumo de álcool, mas nestas este
comportamento está associado aos recursos económicos (background
socioeconómico), apenas ocorrendo nas jovens de estatuto socioeconómico mais
elevado, enquanto no caso dos rapazes não existem diferenças relativamente ao
estatuto socioeconómico (Wiesner, Weichold, & Silbereisen, 2007). Sobre o
envolvimento em lutas a literatura indica que os rapazes envolvem-se mais em
episódios de violência do que as raparigas (Matos et al., 2011). Este parece
ser um padrão transcultural verificado em vários países (Swahn, Gressard,
Palmier, Yao, & Haberlen, 2013). Será interessante analisar os mecanismos
que desencadeiam a associação entre estes fatores (consumo de álcool e
violência), e a sua associação ao género masculino, para que as ações de
sensibilização entre os adolescentes sejam eficazes na redução dos
comportamentos nefastos para a saúde e na promoção da equidade de género na
saúde.
A relação entre a escolaridade e os perfis está de certa forma relacionada com
a idade. Os adolescentes mais velhos estavam mais representados nos perfis 3 e
4 (sem saúde e com risco). De certa forma é compreensível que estes clusters
sejam caraterizados pelo consumo de bebidas alcoólicas e mais episódios de
luta. Os mais velhos têm mais facilmente acesso às bebidas alcoólicas e tendem
a privilegiar as relações com os pares (Currie et al., 2012; Matos et al.,
2011), o que muitas vezes poderá resultar em desacordo e conflito, sem que por
vezes competências de autorregulação e gestão de conflitos estejam
desenvolvidas (Matos & Tomé, 2012a, 2012b). No entanto, verifica-se que a
distribuição dos adolescentes do 8º ano de escolaridade pelos perfis não foi
significativamente diferentes dos restantes anos de escolaridade, o que
significa que as diferenças se situam entre os anos de escolaridade extremos da
amostra (6º e 10º anos).
O presente estudo tem alguns aspetos que devem ser mencionados. Primeiro, a
dimensão e representatividade da amostra deve ser valorizada, uma vez que os
resultados da estatística inferencial podem ser extrapolados para o contexto
nacional onde o estudo foi realizado e do qual é representativo, com uma margem
de erro reduzida. Por outro lado, como limitações podemos referir que a
transversalidade dos dados que não permitem estabelecer uma relação de
causalidade entre as variáveis analisadas. Embora as questões usadas na recolha
dos dados fossem previamente validadas, os questionários estão sujeitos a
limitações, pelo que se recomenda o uso de instrumentos de avaliação direta
para constructos como a AF, por exemplo, pese embora o carater intrusivo destes
no dia-a-dia das crianças e adolescentes, o que pode também levar a um aumento
artificial da AF no período de avaliação.
Do estudo sobressaem 3 conclusões principais. 1) Comportamentos de saúde e os
comportamentos de risco foram associados entre si formando perfis, e nestes
perfis a prática de AF diferenciou-se significativamente; 2) os adolescentes
fisicamente mais ativos pertenciam ao grupo dos que mais vezes manifestaram
consumir álcool de forma abusiva e terem participado em lutas; 3) os perfis dos
adolescentes relativamente aos comportamentos de saúde e comportamentos de
risco são dependentes do género (penalizando os rapazes) e do ano de
escolaridade, estando relacionados com a idade (penalizando os mais velhos).
Os resultados do presente estudo têm implicações diretas na área da saúde
pública. Torna-se imperativo que a AF seja promovida de forma que seja
explícito o seu papel na promoção da saúde, sendo relegado para um segundo
plano, na área da promoção da saúde, objetivos apenas relacionados com o
rendimento desportivo.
Os resultados deste estudo sugerem que os promotores da AF (professores,
educadores, pais, profissionais de saúde) não podem assumir que a prática de AF
que por si só promove a saúde e que está apenas associada a comportamentos
positivos de saúde. Também se deve reconhecer que a AF implica um aumento nas
interações entre pares num período da vida em que os adolescentes podem estar
mais suscetíveis as influencias dos pares, e que as competências sociais e de
autorregulação poderão estar subdesenvolvidas. Assim a AF pode ser um meio para
desenvolver tais competências para diminuir os comportamentos de risco. Esta
diminuição não é automática e apela para uma monitorização e uma intervenção
promocional.
Parecendo claro que os comportamentos ativos são uma importante estratégia para
desenvolver e trabalhar comportamentos saudáveis, cabe a todos os agentes
envolvidos a sua monitorização e incentivo para que esses resultados sejam
alcançados com um mínimo de efeitos colaterais negativos associados. No campo
da AF é relativamente fácil que surjam objetivos e metas que confundam os
jovens e os levam a adotar comportamentos lesivos da saúde de forma continuada
e persistente (e.g. o sobre treino; o treino sem condições de segurança, o
abuso de álcool; a violência interpessoal associada a uma combatividade mal
canalizada durante a competição).
Os adolescentes apresentam perfis distintos quanto aos seus comportamentos de
saúde e aos comportamentos de risco: se por um lado temos jovens que se
caraterizam pela prática de comportamentos benéficos para a saúde (e.g. neste
caso o consumo de fruta), por outro existem adolescentes que se caraterizam por
comportamentos prejudiciais para a saúde (e.g. neste caso o consumo excessivo
de álcool). Todavia, ao contrário do expectável, os adolescentes que
apresentaram os comportamentos mais saudáveis apareceram como os menos ativos
fisicamente. Como o perfil dos adolescentes varia de acordo com aspetos
sociodemográficos, tais como o género, ano de escolaridade e a idade, as
estratégias de intervenção junto dos adolescentes devem ser desenhadas
considerando os diferentes grupo alvo que se pretendem atingir e os potenciais
efeitos prejudiciais das próprias estratégias promotoras de saúde (e.g.. no
caso da promoção da AF per si).