Fatores terapêuticos em grupo de apoio a mulheres com câncer de mama
ABSTRACT
The aim in this study was to verify and describe the occurrence of therapeutic
factors in a support group for women with breast cancer. In total, 109 patients
and 30 companions attended the group meetings considered on this occasion. The
corpus comprised the audio recordings of 12 group meetings, defined according
to the saturation criterion. The analysis of the corpus involved the use of a
three-phase strategy and was independently developed by the researchers, based
on a classification system of therapeutic factors. The clear predominance of
counseling and the instillation of hope was observed, which together totaled
80% of the occurrences of therapeutic factors. In addition, therapeutic factors
were verified during all meetings, which can be considered an indicator of the
group's problem-solving ability. Nevertheless, comparative studies are needed
to clarify whether the framework used in the group under analysis is the most
indicated for women with breast cancer.
Key- words - supportive groups; group processes; therapeutic factors; breast
neoplasms
O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais frequente no mundo como um
todo, bem como o predominante na população feminina, totalizando 22% dos novos
casos a cada ano. As mais recentes projeções do Ministério da Saúde do Brasil
indicam que aproximadamente 52.600 mulheres seriam diagnosticadas com a doença
somente em 2012 no território nacional. Quando identificado precocemente e
tratado de maneira adequada, seu prognóstico tende a ser favorável. Porém, no
país em questão as taxas de mortalidade por câncer de mama continuam elevadas
em comparação com aquelas registradas em países desenvolvidos, sobretudo porque
a doença comumente é diagnosticada em estádios avançados (Brasil, 2012).
É notória a relevância da assistência psicológica a mulheres acometidas por
câncer de mama na perspectiva da prestação de um cuidado humanizado em saúde.
Ocorre que, como apontam diversos estudos, a doença incide sobre um órgão pleno
de significados, posto que remete à feminilidade, à sensualidade, à sexualidade
e à maternidade (Menezes, Schulz, & Peres, 2012; Ramos & Lustosa, 2009;
Takahashi & Kai, 2005). Como consequência, tanto o diagnóstico quanto o
tratamento muitas vezes desencadeiam repercussões emocionais negativas,
ensejando a eclosão de sintomas de ansiedade e depressão, bem como afetando a
auto-imagem e a qualidade de vida das mulheres que vivenciam a experiência de
adoecimento (Cesnik & Santos, 2012; Maluf, Mori, & Barros, 2005;
Salonen, Kellokumpu-Lehtinen, Tarkka, Koivisto, & Kaunonen, 2011).
As práticas grupais, em seus variados formatos, vêm sendo recorrentemente
utilizadas na assistência psicológica a mulheres acometidas por câncer de mama
(Helgeson, Cohen, Schulz, & Yasko, 2001; Spira & Reed, 2002). Em linhas
gerais, isso se deve ao fato de que um grupo, quando constituído por pessoas
que apresentam problemas ou conflitos semelhantes e coordenado adequadamente
por um profissional capacitado, tende a se converter em um espaço de
conversação e reflexão potencialmente benéfico (Campos, 2010; Veríssimo &
Valle, 2005; Yalom & Leszcz, 2006). Em se tratando especificamente de
mulheres acometidas por câncer de mama, os grupos podem auxiliar na diminuição
do estigma associado à doença, na promoção de suporte mútuo e no resgate da
auto-estima das mesmas, por exemplo (Die-Trill, 2007; Pinheiro, Silva, Mamede,
& Fernandes, 2008; Rezende & Botega, 1998; Santos, Prado, Panobianco,
& Almeida, 2011).
A propósito, vale destacar que, muitas vezes, populações constituídas por
pacientes acometidos por doenças orgânicas graves demandam intervenções
voltadas ao manejo das repercussões emocionais da enfermidade, e não apresentam
motivação para abordagens terapêuticas mais amplas, com foco na resolução de
conflitos anteriores (Campos, 2010; Zimerman, 2000). Logo, dentre os variados
formatos que as práticas grupais podem assumir, os grupos de apoio se mostram
particularmente proveitosos na assistência psicológica a mulheres acometidas
por câncer de mama, posto que usualmente congregam pessoas que foram convidadas
a frequentá-lo para conversar sobre um tema específico e/ou questões a ele
relacionadas mais diretamente (Leite & Peres, 2013; Schopler &
Galinski, 1993; Yalom & Leszcz, 2006).
Os grupos de apoio, além de proporcionarem oportunidades de socialização
relevantes para a atenuação de sentimentos de isolamento, são capazes de
auxiliar mulheres acometidas por câncer de mama no ajustamento à nova realidade
implementada pelo diagnóstico. Ademais, possibilitam o refinamento de
informações sobre a doença e o tratamento (Cameron, Booth, Schlatter,
Ziginskas & Harman, 2007, Helgeson, Cohen, Schulz, & Yasko, 2001).
Porém, como alertam Yalom e Leszcz (2006), a resolutividade de qualquer prática
grupal depende da ocorrência de fatores terapêuticos, isto é, de determinados
mecanismos dinâmicos ' desencadeados quer seja a partir de intervenções do
coordenador ou de relatos dos participantes ' que provocam efeitos positivos e
auxiliam a mediar processos de mudança.
Como um indivíduo que participa de um grupo pode se beneficiar dessa
experiência de muitas maneiras, existem diversos tipos de fatores terapêuticos
descritos na literatura científica especializada, bem como são vários os
sistemas classificatórios que os delimitam e diferenciam (Bechelli &
Santos, 2001). Para Oliveira, Medeiros, Brasil, Oliveira e Munari (2008), tais
sistemas classificatórios representam ferramentas essenciais para a avaliação
da efetividade das diferentes práticas grupais. Justamente por esse motivo
alguns deles vêm sendo empregados em pesquisas brasileiras realizadas com o
intuito de mapear a ocorrência de fatores terapêuticos em grupos voltados a
distintas populações (Contel & Villas-Boas, 1999; Guanaes & Japur,
2001; Oliveira, Munari, Bachion, Santos, & Santos, 2009; Santos, Oliveira,
Munari, Peixoto, & Barbosa, 2012; Scorsolini-Comin, Amato, & Santos,
2006; Scorsolini-Comin & Santos, 2008; Souza, Santos, Moura, Campos-
Brustelo, & Saviolli, 2010).
Vale destacar que as informações precedentes evidenciam a relevância de tal
temática. Não obstante, em uma recente revisão sistemática, Leite e Peres
(2013) não encontraram sequer uma pesquisa veiculada entre 2001 e 2011 nas
bases de dados PsycINFO, Medline e LILACS que tenha sido dedicada à mesma e
desenvolvida junto a mulheres acometidas por câncer de mama, o que evidencia
uma lacuna ainda existente na literatura científica especializada. Diante do
exposto, o presente estudo teve como objetivo verificar e descrever a
ocorrência de fatores terapêuticos em um grupo de apoio voltado a mulheres
acometidas por câncer de mama.
MÉTODO
Participantes
O presente estudo contou com 139 participantes, sendo 109 pacientes acometidas
por câncer de mama e 30 acompanhantes, os quais frequentaram um grupo de apoio
oferecido em um hospital universitário brasileiro. As pacientes se encontravam
vinculadas a um ambulatório especializado, sendo que parte delas aguardava a
definição dos tratamentos a serem empreendidos, outras já estavam em tratamento
e algumas realizavam reabilitação e seguimento para a prevenção de complicações
tardias. De modo geral, as mesmas eram de baixa renda, casadas ou amasiadas,
com baixo nível de escolaridade, na faixa etária dos 50 aos 70 anos e oriundas
tanto da cidade na qual se situava o hospital universitário quanto de cidades
vizinhas. Já os(as) acompanhantes eram, predominantemente, maridos ou irmãs das
pacientes, com nível de escolaridade equivalente.
Material
O corpus do presente estudo foi constituído pela transcrição literal das
gravações em áudio de 12 encontros do grupo de apoio em questão, as quais foram
realizadas com a devida autorização tanto das mulheres acometidas por câncer de
mama quanto de seus(suas) acompanhantes, em respeito aos procedimentos éticos
preconizados para pesquisas envolvendo seres humanos. Cumpre assinalar que o
grupo de apoio vinha sendo realizado rotineiramente e gravado para fins de
supervisão antes do desenvolvimento do presente estudo. Dessa forma,
prescindiu-se de uma situação especial para a coleta de dados, buscando-se
favorecer a constituição de um corpus representativo da realidade empírica
pesquisada, o que, a propósito, alinha o presente estudo ao enfoque
naturalístico.
Procedimento
A definição do número de encontros do grupo de apoio considerados na composição
do corpus teve por base o critério de saturação, o qual, conforme Fontanella,
Ricas e Turato (2008), envolve a identificação, a partir da avaliação dos
pesquisadores, de certa redundância nos resultados. Ou seja: analisou-se um
conjunto de transcrições cuja extensão foi determinada posteriormente pela
verificação de repetições em termos da frequência dos fatores terapêuticos
observados. Vale destacar que, ainda de acordo com os referidos autores, o
critério de saturação possibilita a obtenção de um corpus que contém e espelha
certas dimensões do contexto sob investigação, de forma que, interagindo com
outros elementos teórico-metodológicos, contribui para a determinação da
validade científica de uma pesquisa.
Faz-se necessário ainda esclarecer que o grupo de apoio em questão apresentava
periodicidade semanal, geralmente contava com cerca de 12 participantes, um
coordenador e um co-coordenador, e tinha duração média de uma hora. Tratava-se
de um grupo aberto e de ocorrência única, ou seja, a cada encontro sua
composição era diferente, já que dele eram convidadas a participar tanto as
pacientes com consulta médica agendada para o dia no ambulatório ao qual as
mesmas se encontravam vinculadas quanto seus(suas) acompanhantes. A isso,
portanto, se deve o fato de o número total de participantes ter sido
relativamente elevado tendo-se em vista o número total de encontros
considerados nesta oportunidade. E ressalte-se que a participação dos(as)
acompanhantes no grupo de apoio era exequível porque as pacientes recebiam
recomendações da equipe médica para não comparecerem sozinhas às consultas.
A análise do corpus do presente estudo envolveu o emprego de uma estratégia
trifásica. Na primeira fase, as transcrições dos encontros do grupo de apoio
foram submetidas a leituras exaustivas, realizadas de maneira independente
pelos pesquisadores com o intuito de evitar uma eventual contaminação dos
resultados, e se estendeu até que o critério de saturação fosse verificado por
cada um deles. Na segunda fase, os pesquisadores, também de maneira
independente, registraram em um quadro sinóptico para cada encontro tanto os
fatores terapêuticos identificados quanto os relatos correspondentes,
diferenciando a autoria atribuída aos mesmos. Na terceira fase, por fim, os
pesquisadores realizaram reuniões presenciais com o intuito de obter um
consenso sobre os fatores terapêuticos identificados. Para tanto, todas as
ocorrências registradas nos quadros sinópticos foram discutidas caso a caso.
Foram aceitas apenas as ocorrências a respeito das quais, após essa discussão,
foi obtido consenso.
O sistema classificatório proposto por Beccheli e Santos (2001) foi adotado
para a identificação dos fatores terapêuticos, bem como os aportes téoricos dos
referidos autores constituíram o principal referencial teórico do presente
estudo. Tal sistema reconhece a existência de 10 fatores terapêuticos, a saber:
(1) universalidade, (2) instilação da esperança; (3) altruísmo; (4) aceitação,
(5) auto-revelação; (6) catarse; (7) aconselhamento; (8) aprendizado por
intermédio do outro; (9) aprendizado interpessoal e (10) autocompreensão.
Cumpre assinalar também que a análise trifásica empregada nesta oportunidade
pode ser considerada um desenvolvimento, buscando maior objetividade, da
estratégia adotada em outros estudos brasileiros ' como aqueles de Oliveira et
al. (2009), Scorsolini-Comin et al. (2006) e Scorsolini-Comin e Santos (2008) '
consagrados à exploração dos fatores terapêuticos em grupos com outras
populações.
RESULTADOS
Os fatores terapêuticos a respeito dos quais houve consenso entre os
pesquisadores quando do desenvolvimento da terceira fase de análise podem ser
visualizados no Quadro_1. Notou-se um marcante predomínio do aconselhamento e
da instilação da esperança, os quais, somados, totalizaram 80% das ocorrências.
A aceitação, a catarse e a universalidade, por sua vez, apresentaram-se com
frequência intermediária. Além disso, o aprendizado por intermédio do outro, a
auto-revelação e o altruísmo foram identificados uma única vez: E é válido
destacar que a autocompreensão e o aprendizado interpessoal se afiguram como os
dois únicos fatores terapêuticos integrantes do sistema classificatório de
Beccheli e Santos (2001) cuja presença não foi constatada no corpus do presente
estudo.
Não obstante, ressalte-se que, em todos os encontros do grupo de apoio
considerados nesta oportunidade, ambos os pesquisadores verificaram a
ocorrência de fatores terapêuticos. Ademais, conforme os dados sumarizados no
Quadro_2, a autoria da maior parte dos relatos correspondentes de fatores
terapêuticos foi atribuída às mulheres acometidas por câncer de mama que
frequentaram o grupo de apoio. Ou seja: os relatos apresentados pelos(as)
acompanhantes e pelo coordenador ou co-coordenador do grupo, de modo geral,
apenas pontualmente foram considerados indicativos da ocorrência de fatores
terapêuticos. Contudo, como será discutido adiante, isso não significa que tais
relatos não tenham sido favoráveis para o funcionamento do grupo.
DISCUSSÃO
Como mencionado anteriormente, o aconselhamento se sobressaiu como o fator
terapêutico mais frequente (52,08%) nos encontros do grupo de apoio
considerados nesta oportunidade. De acordo com Beccheli e Santos (2001), tal
fator terapêutico ocorre quando o coordenador do grupo ou os participantes
oferecem sugestões ou orientações para o manejo das situações relatadas durante
o encontro. Ademais, vale destacar que foi observado que, no contexto do grupo
em questão, o aconselhamento envolveu, tipicamente, o estímulo à utilização da
fé no enfrentamento da doença e à adoção de certas práticas de auto-cuidado com
o intuito de minimizar os efeitos colaterais do tratamento, sobretudo da
quimioterapia, conforme ilustram os Relatos 1 e 2, respectivamente.
Relato 1: [O tratamento] tem altos e baixos [...] tem que ter muita fé, muita
esperança (Paciente A)
Relato 2: Tem que comer bem pra aguentar o tratamento, porque os remédios
[utilizados na quimioterapia] é forte (Paciente B)
Em certo sentido, o predomínio do aconselhamento já era esperado, posto que
também foi verificado na pesquisa de Scorsolini-Comin e Santos (2008).
Entretanto, como hipótese, tal achado pode, especificamente face aos dados
obtidos no presente estudo, ser associado à heterogeneidade das pacientes em
termos das etapas que se sucedem do diagnóstico à reabilitação em que as mesmas
se encontravam. Afinal, aparentemente a referida heterogeneidade incentivou as
pacientes mais experientes, que já haviam passado por certos procedimentos
médicos, a aconselharem as pacientes mais inexperientes, que estavam prestes a
fazê-lo. Como consequência, estas recebiam o apoio de que necessitavam, ao
passo que aquelas se sentiam fortalecidas por se revelarem capazes de auxiliar
alguém com base no conhecimento advindo da própria experiência, encerrando,
assim, uma dinâmica de benefícios mútuos.
Tal dinâmica, ressalte-se, se desencadeava a partir do ato de aconselhar, e não
de seu conteúdo propriamente dito, até mesmo porque, para Bechelli e Santos
(2001), as sugestões apresentadas em um grupo favorecem o estabelecimento de um
ambiente de colaboração e parceria, ainda que não venham a ser seguidas.
Ademais, faz-se necessário esclarecer que o predomínio do aconselhamento no
presente estudo já era esperado também porque um fator terapêutico equivalente
foi observado com frequência elevada nas pesquisas de Contel e Villas-Boas
(1999), Oliveira et al. (2008) e Oliveira et al. (2009), em que foi utilizado
um sistema classificatório distinto daquele empregado no presente estudo. O
fator terapêutico em questão é denominado compartilhamento de informações e se
refere tanto à apresentação de instruções por parte do coordenador quanto ao
intercâmbio de orientações entre os participantes do grupo (Yalom & Leszcz,
2006).
O segundo fator terapêutico mais frequente nos encontros do grupo de apoio em
questão foi a instilação da esperança (31,25%), cuja ocorrência pode ser
constatada quando o coordenador do grupo ou os participantes fomentam
expectativas de alívio em relação às dificuldades vivenciadas, despertam o
otimismo e subsidiam a confiança em relação ao futuro (Bechelli & Santos,
2001). Os Relatos 3 e 4 são emblemáticos nesse sentido. Além disso, a esperança
igualmente tende a ser estimulada quando um participante observa a melhora de
outro e, assim, passa a vislumbrar o progresso do próprio tratamento como uma
possibilidade mais concreta, o que, para Yalom e Leszcz (2006), tende a exercer
influência positiva em sua condição emocional.
Relato 3: Quando chega esse problema [o câncer de mama], a gente acha que não
aguenta, a gente acha que não tem força... Mas a gente é tão forte, sabe?!
(Paciente C)
Relato 4: Fez um ano que eu já fiz a cirurgia [para remoção do tumor]. Eu
falei: gente, passou tão rápido!'. Meu cabelo tava tão pouco, mas veio com
tanta força. Ele aumentou tanto. Tudo passa, assim, tão rápido (Paciente D).
Vale destacar que pesquisas anteriores, ainda que desenvolvidas junto a outras
populações (Santos et al., 2012; Scorsolini-Comin et al., 2006; Souza et al.,
2010), também apontam a instilação da esperança como um dos fatores
terapêuticos mais operantes em grupos de apoio. Contudo, particularmente no
grupo de apoio em questão, é possível propor que a ocorrência da instilação da
esperança foi favorecida pelo fato de as pacientes estarem lidando com uma
doença que, como mencionado anteriormente, tende a afetar a saúde em termos
físicos e mentais (Menezes et al., 2012). Além disso, o câncer de mama, como
qualquer doença potencialmente letal, muitas vezes desafia as ilusões que
comumente protegem as pessoas do contato com a própria finitude, sendo que, por
essa razão, a instilação da esperança, como salientam Yalom e Leszcz (2006),
desempenha um papel de grande relevância nos grupos de apoio que congregam
indivíduos acometidos por doenças orgânicas graves.
Já a aceitação se apresentou com frequência intermediária (5,55%) nos encontros
do grupo de apoio considerados nesta oportunidade. Tal achado causou certa
surpresa, uma vez que o referido fator terapêutico pode ser identificado quando
os participantes relatam uma sensação de integração e acolhimento como
resultado da participação no grupo (Bechelli & Santos, 2001), como ilustra
o Relato 4. Não obstante, Guanaes e Japur (2001), em uma pesquisa sobre um
grupo de apoio voltado a uma população distinta, também observaram que a
aceitação correspondeu a menos de 10% das ocorrências de fatores terapêuticos.
Além disso, é válido esclarecer que, muitas vezes após o encerramento dos
encontros do grupo em questão, algumas pacientes ou seus(suas) acompanhantes
comentavam espontaneamente entre si que avaliavam positivamente o grupo como um
todo, uma vez que se sentiram amparadas pelo mesmo. Ou seja, embora a aceitação
não tenha sido identificada como fator terapêutico com frequência elevada,
parece razoável propor que, de modo geral, os(as) participantes se sentiam
aceitos pelo grupo.
Relato 5: É muito bom esse momento aqui [o grupo de apoio] (Paciente E)
Também causa certa surpresa, ainda que em outro sentido, o fato de a catarse
igualmente ter sido identificada com frequência intermediária (4,86%). Afinal,
o referido fator terapêutico consiste, basicamente, da expressão de sentimentos
profundos por parte de um dos participantes do grupo, fenômeno este que tende a
ser acompanhado de uma mobilização emocional importante e a proporcionar uma
marcante sensação de alívio (Bechelli & Santos, 2001). Logo, seria esperado
que a catarse nem mesmo fosse identificada, posto que, como mencionado
anteriormente, se tratava de um grupo de ocorrência única, mais favorável,
portanto, ao estabelecimento de um vínculo tênue entre seus participantes e à
emergência de temas mais superficiais, em oposição ao que comumente se observa
em grupos psicoterapêuticos. Mas é plausível cogitar que a presença da catarse,
a exemplo do que foi proposto sobre a instilação da esperança, tenha sido
potencializada pelo fato de as pacientes estarem lidando com uma doença grave.
Desenvolvendo essa linha de raciocínio, é possível afirmar que, talvez, o
impacto emocional do câncer de mama ' cujo caráter potencialmente
desestruturante já foi apontado por autoras como Cesnik e Santos (2012), Maluf
et al. (2005) e Ramos e Lustosa (2009), dentre outras ' tenha promovido uma
espécie de contágio afetivo entre as pacientes no grupo em questão. Ou seja: na
medida em que uma paciente, ou até um(a) acompanhante, se permitia exteriorizar
conteúdos afetivos mais profundos, relacionados à doença, no caso, incentivava
os(as) demais participantes a também fazê-lo, amenizando, assim, o estigma
associado à mesma. O Relato 6, interrompido diversas vezes pelo pranto da
paciente que o apresentou, pode ser considerado representativo nesse sentido.
Relato 6: Ah! Tô ansiosa pra acabar logo [o tratamento]... Eu não gosto nem de
falar... Perdi minha mãe com câncer... Foi muito difícil (Paciente F)
A universalidade, assim como a catarse, aparentemente contribuiu para o
estabelecimento de identificações entre os participantes do grupo de apoio em
questão, e igualmente ocorreu com frequência intermediária em seu contexto
(4,16%). Tal fator terapêutico, para Bechelli e Santos (2001), se caracteriza
pelo compartilhamento de vivências semelhantes entre os participantes de um
grupo, como se vê no Relato 7, fenômeno este que os possibilita reconhecer que
suas experiências de sofrimento não são únicas. Porém, como salientam Guanaes e
Japur (2001), a universalidade possibilita, da mesma forma, o intercâmbio de
experiências de enfrentamento. Assim, trata-se de um fator terapêutico cuja
ocorrência tende a ser comum, bem como desejável, em grupos de apoio (Oliveira
et al., 2008).
Relato 7: É igual eu [que também sentia dor no braço homolateral à cirurgia
para remoção do tumor], mas depois fui fazer natação, hidroginástica, e acabou
(Paciente G)
Entretanto, Souza et al. (2010) obtiveram resultados semelhantes àqueles aqui
reportados no que tange à ocorrência da universalidade. As autoras defendem que
tal fator terapêutico tende a ser menos frequente quando as diferenças entre os
participantes de um grupo são acentuadas a ponto de dificultar processos
identificatórios. Assumindo tal premissa, parece razoável cogitar que a
universalidade possivelmente seria mais comum no grupo de apoio em questão se
as pacientes fossem mais homogêneas em relação ao estágio do tratamento em que
se encontravam. Em contrapartida, como já mencionado, a heterogeneidade
aparentemente foi favorável à ocorrência do aconselhamento, fator terapêutico
predominante no presente estudo.
Faz-se necessário mencionar que o aprendizado por intermédio do outro, a auto-
revelação e o altruísmo foram identificados de forma discreta no grupo em
questão. Para Bechelli e Santos (2001), o primeiro ocorre quando um
participante do grupo sinaliza ter aprendido algo sobre a sua pessoa a partir
da observação dos demais, o segundo quando são reveladas informações pessoais
de maneira franca no contexto do grupo e o terceiro quando um participante
exterioriza o sentimento de estar sendo útil aos outros mediante a oferta de
apoio. Tendo-se em vista que, quando da discussão dos resultados referentes ao
aconselhamento e à catarse, respectivamente, já foi apontado o estabelecimento
de uma dinâmica de benefícios mútuos e de uma abertura à expressão de
sentimentos profundos nos encontros considerados nesta oportunidade, é possível
propor que os fenômenos que constituem a essência do altruísmo e da auto-
revelação, em maior ou menor grau, estiveram presentes no grupo em questão. A
propósito, é válido mencionar que, conforme Yalom e Leszcz (2006), alguns
fatores terapêuticos muitas vezes se mesclam uns aos outros, o que pode tornar
mais complexa sua identificação.
É preciso ainda ressaltar que já era esperado o fato de os relatos apresentados
pelas pacientes terem sido apontados como os principais indicativos da
ocorrência de fatores terapêuticos, em que pese o fato de nenhuma das pesquisas
localizadas a partir da revisão da literatura realizada para os fins do
presente estudo ter se ocupado diretamente da diferenciação da autoria de tais
fenômenos. Ocorre, em primeiro lugar, que os(as) acompanhantes das pacientes
participaram predominantemente de forma silente dos encontros do grupo de apoio
em questão. Contudo, tendo em vista que o corpus do presente estudo foi
constituído pela transcrição de gravações em áudio, não é possível determinar
com precisão se e como os(as) acompanhantes, assim procedendo, contribuíram
para a ocorrência de fatores terapêuticos.
Em segundo lugar, o coordenador e o co-coordenador do grupo comumente
privilegiavam um estilo de coordenação denominado interativo, o qual, conforme
Spira e Reed (2002), concilia o fornecimento de informações com a discussão
entre pares, ou seja, a troca de experiências entre os participantes do grupo.
Logo, é possível propor que as intervenções da coordenação, embora não tenham
sido identificadas per se como correspondentes de fatores terapêuticos, podem
ter potencializado a ocorrência de relatos que o foram. Mas tal explicação
aparentemente se aplica, sobretudo, ao aconselhamento, à instilação da
esperança e à universalidade devido às características próprias desses fatores
terapêuticos.
Em suma: os resultados obtidos apontam que as pacientes se beneficiaram de
diferentes maneiras de sua participação no grupo de apoio em questão, uma vez
que foi identificada a ocorrência de diversos fatores terapêuticos em todos os
encontros considerados nesta oportunidade. Tal fato reforça que, como afirmam
Yalom e Leszcz (2006), os fatores terapêuticos resultam de uma complexa
interação humana, mas se afiguram como os elementos básicos dos processos
grupais. Da mesma forma, evidencia que as práticas grupais, conforme asseveram
Bechelli e Santos (2001), têm o mérito de contemplar o indivíduo em um contexto
social e interacional, o que, a propósito, no grupo em questão, pode ter sido
potencializado pela participação dos(as) acompanhantes das pacientes.
Diante do exposto, é possível sustentar que o presente estudo contemplou o
objetivo proposto, na medida em que viabilizou o mapeamento dos fatores
terapêuticos em um grupo de apoio voltado a mulheres acometidas por câncer de
mama e, assim, fornece elementos iniciais para o preenchimento de uma lacuna
ainda existente na literatura científica especializada. Ademais, os resultados
reportados revelam que, no contexto do grupo em questão, ocorreram variados
mecanismos dinâmicos que provocaram efeitos benéficos, o que pode ser entendido
com um indicador de sua resolutividade. Contudo, pesquisas com enfoque
comparativo são necessárias para que se possa esclarecer se o enquadre
empregado ' grupo aberto com periodicidade semanal, uma hora de duração e
participação dos(as) acompanhantes das pacientes ' é o mais indicado para
mulheres acometidas por câncer de mama.
Aos pesquisadores interessados no assunto, recomenda-se que a avaliação dos
fatores terapêuticos em grupos seja realizada não apenas a partir da
transcrição de gravações em áudio, posto que a identificação de alguns deles
talvez encerre maiores dificuldades quando se trabalha com esse tipo de
material. Gravações em vídeo, assim, se afiguram como uma possibilidade
promissora ' e também viável considerando-se que diversos aparelhos eletrônicos
capazes de realizá-las, como smartphones e tablets, atualmente são mais
acessíveis ' para a composição do corpus em pesquisas futuras. Além disso,
sugere-se que a avaliação de pesquisadores seja complementada pela perspectiva
dos participantes, de forma a viabilizar uma compreensão mais detalhada sobre
como os mesmos percebem as próprias experiências no grupo e seus possíveis
desdobramentos.
Por fim, ressalte-se que a avaliação sistemática dos fatores terapêuticos se
destaca como um tema promissor de pesquisa em práticas grupais, sobretudo no
Brasil, uma vez que, a despeito de sua relevância, o mesmo tem sido
relativamente pouco explorado na literatura nacional. Em contrapartida, nos
dias de hoje os grupos têm ocupado um lugar privilegiado no âmbito das ações em
saúde no país, principalmente por apresentarem uma relação custo-benefício
vantajosa. Tal situação pode ser considerada temerária, uma vez que a
investigação dos fatores terapêuticos é essencial para que se possa
circunscrever os alcances e limites de qualquer prática grupal. Portanto,
recomenda-se a realização de novos estudos sobre o assunto, junto as variadas
populações e em diferentes tipos de serviços de saúde, para que possa ser
superado o descompasso que atualmente existe entre a assistência e a pesquisa.