Adaptação à lesão vertebro-medular
A lesão vertebro-medular (LVM) é uma condição com várias manifestações clínicas
incapacitantes e permanentes, causadas pela insuficiência parcial ou total do
funcionamento da medula espinal (Fechio, Pacheco, Kaihami & Alves, 2009),
decorrente de uma lesão que afeta as informações motoras e sensitivas que
ocorrem entre o cérebro e o corpo. Para além das consequências físicas e
neurológicas da LVM, estas lesões podem gerar também consequências psicológicas
e sociais que afetam a participação do lesionado na comunidade (Gill, 1999).
A nível cultural existe uma crença de que a LVM é um acontecimento devastador e
que o retorno à vida normal é improvável, havendo uma insistência na não
adaptação das pessoas à lesão, bem como um enfoque nos fatores de risco e
vulnerabilidades (Quale & Schanke, 2010). No entanto, estudos recentes
demonstram que os próprios indivíduos ficam surpreendidos com a sua capacidade
de se adaptarem às mudanças físicas e que é possível ter uma vida normal e
feliz (Dunn, Uswatte & Elliott, 2009 como citado em Quale & Schanke,
2010), salientando-se os aspetos positivos ou forças humanas para enfrentarem
os desafios da vida. Não obstante, não podemos generalizar, pois se há
indivíduos que conseguem uma boa adaptação e um crescimento pessoal, há outros
que desenvolvem altos níveis de stress pós-traumático, ansiedade e depressão.
Numa visão mais relativista, alguns autores defendem que este tipo de
acontecimentos traumáticos traz aos indivíduos tanto resultados negativos como
positivos (McMillen & Cook, 2003), num continuum para a adaptação à nova
condição ao longo de toda a vida (Ruiz & Díaz, 2003).
A adaptação psicológica é concebida atualmente como um processo individual,
sendo vários os fatores que facilitam ou dificultam este processo. Segundo
FazioRashiid e Hayward (2008), os eventos negativos da vida podem incitar
mudanças positivas, sendo a perceção acerca do evento, a personalidade do
indivíduo e a existência de recursos pessoais e sociais fortes preditores de
crescimento positivo. Quale e Schanke (2010) referem que a trajetória no
sentido de um ajustamento psicológico a uma grave lesão física caracteriza-se
pela resiliência (54%), recuperação (25%) e distress ou angústia (21%).
Com o desenvolvimento da Psicologia Positiva nos últimos anos, começa-se a
salientar os aspetos positivos de experienciarem novos desafios das suas vidas.
Até então, dava-se mais importância às reações negativas, considerando-se mesmo
os estados psicopatológicos como norma. Neste sentido, pretende-se que este
estudo contribua para a compreensão da visão e do comportamento dos indivíduos
que sofrem acontecimentos traumáticos, nomeadamente se daí advêm apenas
consequências negativas ou se há evidências de algum crescimento pessoal.
Pretende-se também averiguar a importância das variáveis em estudo na adaptação
à LVM. As variáveis escolhidas para integrarem o estudo são a felicidade,
sentido de vida, suporte social, depressão e qualidade de vida (QV).
A felicidade parece-nos importante ser abordada enquanto constructo que parece
estar mais dentro de nós do que ligado aos acontecimentos de vida. Assim
pretendemos avaliar se face a um acontecimento de vida adverso que acarreta
grandes limitações, as pessoas conseguem ser felizes. Silver (1982 como citado
em Fazio et al., 2008) encontrou que indivíduos com LVM mostraram baixos
valores de felicidade logo após a sua lesão, mas 58% dos participantes
consideraram a felicidade como a emoção mais forte que sentiam nas três semanas
seguintes. Salienta-se também a escassez de estudos relacionando a felicidade
com as LVM, apesar de se constatar os seus efeitos terapêuticos e que é um
fator preditivo da QV (Martins, 2008).
Saber também se pessoas com LMV, de forma geral, conseguem ter um propósito,
objetivos ou missão nas suas vidas (sentido de vida) dá-nos pistas acerca do
potencial e motivação para lidarem com as contingências que aparecem. Além
disso, o sentido de vida é ainda uma variável pouco versada na literatura
(Guerra, 2010). Segundo deRoon-Cassini et al. (2009) mais do que dar
significado ao porquê de a lesão ter ocorrido, é importante estar a viver com
um propósito, em harmonia com as suas próprias crenças e valores individuais.
Thompson et al. (2003) concluíram que ter um sentido de vida é essencial na
adaptação à LVM. Também afirmaram que o copinge o suporte social podem promover
a adaptação, no entanto existem fatores importantes que não são passíveis ou
são difíceis de modificar, tais como o tipo de lesão, personalidade ou locusde
controlo, pelo que o sentido de vida poderá ser o fator que influencia e medeia
a adaptação. É de notar que se desconhece estudos em que se mensure o sentido
de vida em pessoas com LVM, no entanto, o encontro de um novo sentido de vida
foi o tema central no discurso dos lesionados, sendo um aspeto fulcral para a
elaboração de objetivos na vida e para agirem no futuro (Amaral, 2009).
A perceção do suporte social é essencial na reabilitação e adaptação à LVM
(O'Hare et al., 2011), no sentido que afeta todo o comportamento humano
(Guerra, 1995) e é um forte preditor da manutenção da saúde mental (Raichle,
Hanley, Jensen & Cardenas, 2007), QV (Dijkers, 1997) e crescimento positivo
(Linley & Joseph, 2004). No que concerne aos indivíduos com LVM, pensa-se
que o impacto do suporte social seja significativo, uma vez que os indivíduos
com muitos contactos sociais sentem maior controlo na sua lesão e reportam
níveis mais altos de bem-estar (Schulz & Decker, 1985). Num artigo de
revisão, Murta e Guimarães (2007) referiram o suporte social como um dos
preditores de adaptação bem-sucedida à LVM.). De acordo com Pennebaker, o
suporte social pode ainda ser útil para partilhar traumas, tanto com pessoas
próximas como com profissionais e grupos de apoio, ajudando na não inibição de
pensamentos, emoções e comportamentos que poderiam conduzir à exacerbação de
stress e outros problemas de saúde (Fazio et al., 2008).
Avaliar a depressão é importante pois ajuda-nos na reflexão das consequências
que um acontecimento deste cariz pode acarretar, como afetar o bem-estar das
pessoas. Tem sido demonstrado que a depressão não é inevitável nos indivíduos
que sofrem LVM (Scivoletto et al., 1997), no entanto há evidências de que as
reações emocionais mais comuns são caracterizadas pelo aumento dos níveis de
depressão (Saunders, Krause & Focht, 2012). As abordagens defensoras de
adaptação sequencial concebiam a depressão como reação óbvia e inevitável à LVM
(Dunn, 1975), havendo terapeutas que a encorajavam por considerarem uma
estratégia de adaptação bem-sucedida. Em contraste com estas asserções, a
depressão tem sido atualmente concebida como não adaptativa, uma vez que
diminui o funcionamento do indivíduo, a QV e talvez por isso, seja a
perturbação dos indivíduos com LVM que mais atenção recebe por parte dos
investigadores (Ruiz & Díaz, 2003). Woolrich, Kennedy e Tasiemski (2006)
encontraram que 21% dos participantes com LVM experimentaram qualquer tipo de
perturbação depressiva ao longo do tempo. Recentemente, Saunders et al. (2012),
verificaram uma taxa de 22,1% de depressão e uma taxa de 20,2% passados 5 anos
(sendo que desses, 55.7% tinham sintomatologia significativa), demonstrando que
a depressão se mantém consistente ao longo do tempo em pessoas com LVM (tal
como havia constatado Scivoletto et al., (1997). Já Woolrich et al. (2006)
mostraram que o tempo de lesão tinha uma fraca mas significante correlação,
reduzindo a depressão ao longo do tempo. De modo geral, tem sido mencionada por
inúmeros estudos uma taxa de depressão rondando os 20-40% na população com LVM
(Scivoletto et al., 1997). Salienta-se o estudo de Kennedy, Lude e Taylor
(2006) que utilizaram como medida de adaptação a HADS (Hospital Anxiety and
Depression Scale) numa amostra de 350 participantes de vários países, tendo
concluído que mais de dois terços da amostra apresentaram valores normais (sem
indicação de depressão).
Por último, a QV enquanto variável resultado que traduz a adaptação à LVM é
imprescindível como critério mais universal e objetivo. Para além disso, são
ainda poucas as investigações que relacionam este constructo com a LVM, sendo
necessário o desenvolvimento de mais estudos (Bruzoni, Silva, Gonçalves &
Veronezi, 2011). Os primeiros trabalhos de investigação de QV em doentes com
LVM pertencem a Crew (1980 como citado em Dijkers, 1997), tendo este constatado
que os participantes percecionavam uma satisfação inferior à da população
geral, principalmente nas áreas da saúde, sexualidade e relações sociais.
Outras investigações mais recentes demonstram a consensualidade da diminuição
da QV nesta população apear de apontar índices de bem-estar subjetivo
satisfatórios. Albrecht e Devlieger (1999) falam de um paradoxo (paradoxo da
inabilidade)que pode ser entendido de duas formas: primeiro, as pessoas com
lesões graves e persistentes (nomeadamente pessoas com LVM) relatam várias
limitações nas atividades quotidianas e na vida social, mas ao mesmo tempo têm
uma boa QV e segundo, o público em geral percebe estas pessoas com uma QV
insatisfatória, apesar de se constatar que mais de 50% delas reportam boa e até
excelente QV. Mesmo indivíduos com altos níveis de prejuízo, requerendo
assistência de ventilação relataram excelentes níveis de bem-estar. Os
resultados de um estudo de Whiteneck et al. (1992) com 834 pessoas com LVM
demonstraram também que 75% relataram uma QV boa ou excelente. Num estudo
português, Martins e Ribeiro (2010) encontraram relativa satisfação com a vida
em pessoas com LVM.
Numa investigação meta-analítica encontrou-se vários fatores importantes com
efeitos negativos na QV como a ausência de um papel familiar, inexistência de
uma ocupação profissional ou educacional, dificuldades de mobilidade, fraca
integração social e suporte social deficitário (Dijkers, 1997). Também Albrecht
e Devlieger (1999) referem que pessoas que não tenham um sentido de vida forte,
valores claros e algum sentido de espiritualidade têm baixos índices de QV.
Isto sugere que apesar de a LVM ser irreversível e ter implicações na QV,
existem vários fatores pessoais e sociais que influenciam a vida destes
indivíduos.
Este estudo tem como objetivos caracterizar as variáveis psicológicas
(felicidade, sentido de vida, suporte social, depressão e QV) nos participantes
com LVM e relacionar dados sociodemográficos (idade, grau de escolaridade,
estado civil) e clínicos (tipo, extensão, etiologia e tempo da lesão) com as
variáveis em estudo. Também analisar relações entre as diferentes variáveis
psicológicas, evidenciando as que devem ser escolhidas para melhor predizerem a
adaptação, bem como estabelecer os melhores modelos preditores de qualidade
vida.
MÉTODO
Participantes
A amostra foi selecionada num contexto de saúde (serviço de Medicina Física e
Reabilitação de um hospital do grande Porto), segundo um processo não
probabilístico de amostragem por conveniência. Este estudo teve a participação
de 33 pessoas com LVM com mais de 9 meses. Foram incluídos na amostra pessoas
de ambos os géneros com idade superior a 18 anos. Estabeleceu-se também o
critério de não incluir pessoas com lesões cerebrais que pudessem comprometer a
compreensão e resposta dos itens dos instrumentos de avaliação.
A idade dos participantes está compreendida ente os 18 e os 67 anos, com uma
média de idade de 45,24 (DP= 12,77), sendo que 81,8% são do sexo masculino. O
grau de escolaridade dos participantes varia entre 2 e 17 anos, com uma média
de 8,21 (DP= 4,13) e 45,5% da amostra não está numa relação (estado civil de
solteiro, divorciado ou viúvo) e 54,5% estão casados/vivem em união de facto.
No que concerne às variáveis clínicas, a média do tempo de lesão dos
participantes é cerca de 121 meses (DP= 103,15), tendo o participante com menos
e mais tempo de lesão 9 e 448 meses, respetivamente. Dos 33 participantes, 24
indivíduos têm paraplegia (51,5% incompleta e 21,2% completa) e 9 tetraplegia
(24,2% incompleta e 3% completa), sendo que em 75,8% dos casos, a etiologia é
traumática e 24,2% é não traumática.
Material
A Escala sobre a Felicidade de Oliveira (2001) é uma escala unidimensional e
tem o objetivo de avaliar a felicidade enquanto dimensão da personalidade. A
consistência interna da escala é de 0,85 e é constituída por 18 itens com
respostas numa escala de 1 a 5 (totalmente em desacordo a totalmente de
acordo). A cotação baseia-se na soma dos itens (variando de 18 a 90), em que
quanto maior for o valor, maior é a felicidade.
Para avaliar o sentido de vida recorreu-se a uma subescala da Escala de Auto-
actualização (Guerra, 1992). A consistência interna da subescala sentido de
vida é bastante satisfatória (alfade Cronbach de 0,76), bem como da escala em
geral (0,84). Este instrumento é constituído por 33 itens, dos quais 8 referem-
se à subescala do SV. As respostas variam de 1 (concordo muito) a 5
(discordo muito) e a cotação é feita através da soma dos itens, apesar de
haver especial cuidado com os itens de cotação invertida. A pontuação total
varia entre 8 e 40 e quanto maior for o valor, maior o sentido de vida
(interesse/propósito pela vida).
A Escala de Avaliação do Suporte Social foi baseada na Instrumental-Expressive
Social-Support Scale elaborada por Lin, Dean e Ensel (1981 como citado em
Guerra, 1995) e adaptada para a população portuguesa por Guerra (1995). Esta
escala é um instrumento de autorresposta com o objetivo de avaliar o suporte
social que as pessoas têm tido nos últimos 6 meses. Tem uma consistência
interna bastante satisfatória (.83), bem como validade de item e fatorial. As
respostas são dadas numa escala de 1 (sempre ou quase sempre) a 5 (nunca).
A cotação obtém-se com a soma dos valores das respostas (variando de 20 a 100
pontos) e quanto mais alta for a pontuação mais adequado é o SS.
A Escala de Ansiedade e Depressão Hospitalar (HADS) é uma adaptação de Ribeiro
et al. (2007) com base na versão original desenvolvida por Zigmond e Snaith
(1983 como citado em Ribeiro et al., 2007). Este instrumento tem o objetivo
identificar e reconhecer os componentes emocionais associados à doença física,
apesar de não ser utilizada para efeitos de diagnóstico. É um instrumento
válido e a consistência interna é boa (.81). Utilizou-se apenas uma das
subescalas da HADS referente à depressão, sendo esta composta por 7 itens com
variação de respostas de 0 a 3 que corresponde à melhor ou pior forma de
como se têm sentido nos últimos dias, respetivamente. A cotação é feita somando
os itens, podendo o total variar entre 0 e 21. Considera-se que não é indicador
de depressão se o valor total for igual ou inferior a 7. De 8 a 10 já há alguma
depressão, de 11 a 14 há uma presença moderada e de 15 a 21, considera-se que
há um estado depressivo grave. Na adaptação portuguesa, o resultado igual ou
superior a 11 é o ponto de corte para a presença de um estado depressivo
(Ribeiro et al., 2007).
O Questionário de Saúde Reduzido SF-36(SF-36) é uma adaptação portuguesa de
Ribeiro (2005) da versão original de Ware, Snow, Kosinsky e Gandek (1993). Este
instrumento tem o objetivo de avaliar a perceção de saúde tal como é definida
pela Organização Mundial de Saúde em jovens e adultos (Ribeiro, 2005). Este
questionário é composto por 36 itens, 35 dos quais formam duas componentes:
componente física (CF) com quatro dimensões (dor corporal, saúde geral,
funcionamento físico e desempenho físico) e componente mental (CM) com outras
quatro dimensões (funcionamento social, vitalidade, desempenho emocional e
saúde mental). O item restante (transição de saúde) concerne à perceção do
sujeito sobre o seu estado de saúde desde há um ano). A versão portuguesa do
SF-36 possui elevada consistência interna e boa validade. A cotação efetua-se
somando as notas brutas de cada dimensão e convertendo-as numa escala de 0 a
100, sendo os valores mais elevados os que correspondem a melhor perceção da
QV.
Para além destes instrumentos, inquere-se também sobre dados sociodemográficos
e clínicos e ainda pede-se aos indivíduos que refiram três aspetos negativos e
positivos que advieram com a LVM, no sentido de destacarem aspetos diferentes
dos abrangidos pelos questionários e que possam ser importantes para
compreender a adaptação.
Procedimento
Em setembro de 2011 foi solicitada autorização à Comissão de Ética do Hospital
da Prelada para a realização do estudo expondo a sua pertinência, descrevendo
objetivos e anexando a declaração do consentimento informado, bem como os
instrumentos a aplicar. O projeto foi aprovado pela respetiva Comissão no
início de janeiro. A recolha de dados foi efetuada entre janeiro e abril de
2012 pela responsável do estudo. Explicou-se previamente a cada participante o
tema e objetivos do estudo, pedindo-se para que assinassem uma declaração de
consentimento de participação na investigação (em alternativa recorreu-se a
impressão digital ou assinatura de um testemunho). Nesta declaração estava
detalhado o tempo estimado para preencher o questionário (15 a 20 minutos),
garantia de anonimato e confidencialidade dos dados, bem como o carácter
voluntário da sua participação. A nível do tratamento de dados recorreu-se ao
programa informático SPSS 19 (Statistical Package for the Social Sciences,
versão 19).
RESULTADOS
De acordo com o quadro_1, podemos observar as médias e respetivos desvios
padrões para as variáveis psicológicas analisadas bem como os seus valores
mínimos e máximos. Constatamos que Felicidade, SV e SS apresentam valores
médios relativamente elevados. No que concerne ao grau de depressão desta
amostra, este situa-se nos 5,16 (DP= 4,09) numa escala de 0 a 21 pontos. De
acordo com o ponto de corte definido por Ribeiro et al. (2007), 15,6% dos
participantes encontram-se num estado depressivo, sendo que 12,5% é considerada
depressão moderada e 3,1% (apenas 1 participante) evidencia depressão grave.
Assim, verifica-se que 81,3% dos participantes não têm indicadores de depressão
e 3,1% têm depressão ainda que ligeira. No que respeita à QV, numa escala de 0
a 100, a média do CF foi de 50,99 (DP= 19,27) e do CM 70,39 (DP=21,42).
Relação de dados sociodemográficos e clínicos com as variáveis em estudo
Evidencia-se diferenças significativas no estado civil em relação ao CF da QV,
sendo os solteiros/divorciados/viúvos mais adaptados fisicamente (M= 58,32; DP=
18.25) do que os casados/vivem em união de facto (M= 44,89; DP= 18,38; t(31) =
2,09, p = 0,04). Isto pode ter alguma influência da diferença significativa de
idades entre as pessoas que estão numa relação (M= 51,9; DP= 9,83) e as pessoas
que não estão numa relação (M= 38,47; DP= 12,86; t(31) = -3,15, p = 0,004).
Evidencia-se também diferenças significativas entre o nível da LVM e o grau de
depressão, sendo superior nos tetraplégicos (M= 7,67; DP= 7,67)em comparação
com os paraplégicos (M= 4,17; DP= 73,49; t(30) = -2,32; p = 0,02). O sentido de
vida nos paraplégicos (M= 31,17; DP= 5,46) é também maior do que nos
tetraplégicos (M =26,44; DP= 4,45; t(31) = 2,32; p = 0,02), bem como o CM da QV
que é superior nos indivíduos com paraplegia (M= 75,18; DP= 20,44) do que nos
com tetraplegia (M= 58,14; DP= 19,85; t(30) =2,14; p = 0,041).
O CF da QV é significativamente superior nos indivíduos com LVM traumática (M=
55,87; DP= 19,24), em comparação com LVM não traumáticas(M= 35,75; DP= 8,83; t
(31) = 2,84; p = 0,008). Também o CM é superior nas lesões traumáticas (M=
74,84; DP= 20,08) do que nas não traumáticas (M= 57,04; DP= 20,86;t(30) =
2,15;p = 0,04).
Relações entre as variáveis em estudo
Encontraram-se várias correlações entre as variáveis em estudo, podendo ser
observadas no quadro_2.
A felicidade apresenta uma correlação positiva forte com o sentido de vida e
uma correlação positiva moderada com o CF e CM da QV. Também se encontra uma
correlação negativa forte com a depressão. Ou seja, quanto maior a felicidade,
menor o grau de depressão e maior o sentido de vida e a adaptação.
O sentido de vida apresenta uma correlação positiva moderada com o CF da QV e
com o SS, bem como negativa forte com a depressão.
No que concerne ao SS, encontra-se uma correlação positiva moderada com o CF e
CM da QV e também uma correlação negativa moderada com a depressão. Isto
significa que quanto maior o SS, maior é a adaptação e menor o grau de
depressão.
A depressão evidencia uma correlação negativa moderada com o CM da QV, sendo
que quanto maior o grau de depressão, menor é a adaptação mental.
Variáveis preditivas da Qualidade de Vida
As associações encontradas acima sugerem que algumas variáveis psicológicas
podem constituir determinantes significativos da QV nos indivíduos com LVM.
Para ambos os componentes da QV, testou-se a felicidade e o SS, verificando-se
que o modelo era válido e o melhor preditor.
Assim, de acordo com o quadro_3, a felicidade e suporte social explicam 21% da
variância do CF e 28% do CM. Para o CF, apenas a felicidade apresenta uma
contribuição única significativa. Já para o CM, é o suporte social que tem uma
maior contribuição única, embora a felicidade também tenha um contributo
significativo.
DISCUSSÃO
Desconhece-se estudos sobre a felicidade em pessoas com LVM em Portugal, no
entanto, comparando o valor aqui obtido com outros estudos em que utilizam o
mesmo instrumento de avaliação, verifica-se que estes participantes são mais
felizes que uma amostra de idosos (M= 67,1; t(32) = 2,80; p= 0,009), mas não
diferem de modo estatisticamente significativo de estudantes universitários
(Pinto & Oliveira, 2006) e estudantes do ensino secundário (Oliveira,
2003). Isto demonstra que apesar de esta amostra ter passado por uma situação
adversa como a LVM, é possível serem tão ou mais felizes como as outras
pessoas.
No que concerne à subescala do sentido de vida, o valor encontrado nesta
amostra não difere significativamente de várias populações clínicas, apesar de
ser ligeiramente inferior a uma amostra com cancro de colo rectal (Silva 2010)
e de cancro da mama (Fonseca, 2011) e superior a uma população vítima de
acidente vascular cerebral (Moreira, 2011). No que concerne a outras
populações, verifica-se que o sentido de vida nesta amostra é
significativamente inferior em comparação com enfermeiros psiquiátricos (M=
32,63; t(32) = -2,84; p = 0,008) (Forte, 2009), mas superior a uma amostra de
toxicodependentes (M= 27,73; t(32) = 2,23; p = 0,03) (Manita, Negreiros, Agra
& Guerra, 1997). Apesar de não existirem muitos dados, nomeadamente os
obtidos pela população em geral no estudo de validação da escala, esta amostra
apresenta valores semelhantes aos encontrados noutras amostras clínicas.
O valor do suporte social encontrado neste estudo é significativamente superior
à encontrada numa população seropositiva (M= 62,5; t(32) = 7,43;p< 0,001) e
numa população saudável (M= 69,4; t(32) = 4,54;p< 0,001) (p< 0,001) (Guerra,
1995). Em geral, os participantes demonstram ter apoio social, superior à média
obtida no estudo de validação da escala (Guerra, 1995).
Atendendo ao grau de depressão e a outros estudos em que foi utilizado a HADS,o
grau de depressão encontrado neste estudo é significativamente superior
comparando com amostras saudáveis (M= 3,22; t(31) = 2,68; p< 0,01) (Ribeiro et
al., 2007) E, em comparação com outras populações clínicas, a existência de
estado depressivo situa-se nos 12,6% numa população com cancro da mama
(Fonseca, 2011), 20% em indivíduos vítimas de AVC (Moreira, 2011), 7,1% em
epiléticos, 6,2% em obesos, 6,6% em indivíduos com doença coronária (Ribeiro et
al., 2007), entre outros, comparativamente com os 15,6% desta amostra. Assim,
verifica-se que a taxa de indivíduos com estado depressivo é superior às taxas
que têm sido encontradas na maioria dos estudos com outras amostras
portuguesas. Não obstante, o grau de depressão encontrado não difere muito dos
valores de Woolrich et al. (2006) em pessoas com LVM, apesar da percentagem de
indivíduos com estado depressivo ser inferior (15,6% vs 21%). Em geral, a taxa
de indivíduos com LVM que apresentam depressão tem variado entre os 20 a 40%
(Scivoletto et al., 1997), valores superiores aos encontrados. Contudo, deve
salientar-se que esta amostra não é representativa para generalização de
resultados e que os últimos valores descritos não se referem a amostras
portuguesas. Para além disso, existe uma grande variedade de critérios
diagnósticos que podem ser utilizados nos diferentes estudos (Ruiz & Díaz,
2003).
Incidindo nos resultados da QV, evidencia-se que as dimensões com uma melhor
adaptação são o Funcionamento Social, Saúde Mental e Desempenho Emocional e as
que evidenciam pior adaptação são o Funcionamento e Desempenho Físico e Dor
Corporal, constatando-se que o CM é significativamente superior ao CF. Estes
resultados são expectáveis, dada a própria natureza da LVM que referindo-se a
uma condição física e não psicológica, leva em princípio a maiores
comprometimentos físicos. Comparando com os resultados obtidos na validação
desta escala, verifica-se que o valor do CF não difere significativamente de
uma população doente mas como seria de esperar é significativamente inferior a
uma população saudável (M= 73,08; t(32) = -6,59; p< 0,001) (Ribeiro, 2005). Já
o CM é significativamente superior a uma população doente (M= 57,15; t(31) =
3,50; p = 0,001) e, apesar de não significativo, é também superior a uma
população saudável (Ribeiro, 2005). Isto significa que os indivíduos com LVM
têm uma boa perceção da QV, podendo ser igual ou superior à maioria das
pessoas. Isto vai contra as primeiras investigações sobre a QV em que pessoas
com LVM percecionavam uma satisfação inferior de QV em comparação com a
população geral (Crew, 1980 como citado em Dijkers, 1997). Não obstante,
investigações posteriores demonstraram já que a maioria dos indivíduos relata
uma QV boa ou excelente (Albrecht & Devlieger, 1999; Whiteneck et al.,
1992). Numa amostra portuguesa de indivíduos com LVM, Martins e Ribeiro (2010)
encontraram igualmente relativa satisfação com a vida em pessoas com LVM.
Apesar dos instrumentos utilizados nalgumas destas investigações serem
diferentes do utilizado neste estudo, conclui-se que é possível estarem bem
adaptados a nível mental, vivendo com uma lesão deste tipo. No que concerne ao
CF, este está no limiar de um nível de adaptação positiva (50,99/100), mas a
avaliação com o SF-36 pode enviesar os resultados em relação a outros
instrumentos, uma vez que avalia itens como o andar, subir escadas, entre
outros em que a cotação será mínima face à condição de saúde. Reconhece-se
assim que são necessários estudos mais detalhados para determinação da QV na
LVM, devendo ser construídos e validados instrumentos específicos para este
fim (Bruzoni et al., 2011).
No que concerne à relação dos dados obtidos com os dados sociodemográficos e
clínicos dos participantes, verifica-se que o facto de haver diferenças na CF
da QV entre os que tem ou não companheiro, a favor dos últimos parece coincidir
também com a população mais jovem o que indicia que os mais jovens e sem
relação apresentam melhor componente física da qualidade de vida. Uma outra
hipótese explicativa adicional pode dever-se ao facto das pessoas que não têm
um companheiro (normalmente figura de maior auxílio) que as apoiem de modo mais
constante nas suas dificuldades, tenham tido maiores exigências e também por
isso maior necessidade de se adaptarem de forma mais autónoma. Ou seja, poderão
estar agora menos dependentes de outros na realização de certas tarefas (e.g.,
tomar banho ou vestir-se sozinho), pelo que as limitações em realizá-las
sozinhas são menores.
No que respeita o grau de depressão, este é superior nos tetraplégicos em
comparação com os paraplégicos, o que não se constata noutros estudos (Buunk,
Zurriaga & González, 2006; Scivoletto et al., 1997; Woolrich et al., 2006).
No entanto, estando mais comprometidos a nível físico, os tetraplégicos são
menos ativos e independentes, pelo que podem estar mais propensos a estados
depressivos. Não obstante, existe um grande número de participantes com
paraplegia incompleta nesta amostra e que mantêm, em princípio, um nível de
atividade superior aos indivíduos com paraplegias completas e tetraplegias. Se
a amostra fosse constituída por mais pessoas com paraplegia completa,
possivelmente esta diferença seria atenuada.
Do mesmo modo é expectável que o quadro motor de paraplegia proporcione maior
interesse e objetivos nas vidas dos participantes, bem como um menor sentido de
que a vida é vivida em vão, quando comparado com quadros de tetraplegia em que
há menor capacidade para a concretização de alguns objetivos e desenvolvimento
de potencialidades (sentido de vida). Também, no mesmo sentido é também
expetável maior QV mental nos paraplégicos. O nível da lesão demonstrou ser
assim um fator que está associado à adaptação, ao contrário do que demonstra
Dijkers (1997). Por último, as diferenças obtidas no CF e CM da QV em relação à
origem da LVM podem ser atribuídas à aceitação, conformismo e serenidade mais
presente nas lesões traumáticas como defendem Ruiz e Díaz (2003).
Verifica-se a existência de várias correlações entre as varáveis em estudo.
Importa salientar que o SV é a única variável que não está associada ao CM da
QV, apesar de apresentar uma correlação positiva com o CF da QV. No entanto, o
SV está associado a outras variáveis consideradas indicadores de adaptação
psicológica, como a felicidade e a depressão. Não obstante, Albrecht e
Devlieger (1999) referem que pessoas que não tenham um sentido de vida forte
têm baixos índices de QV e Thompson et al. (2003) salientam que o sentido de
vida é um forte preditor da adaptação à LVM, o que não se evidencia neste
estudo.
No que concerne às restantes variáveis, o nosso estudo converge com a
literatura estando o suporte social correlacionada com a depressão (Buunk et
al., 2006), saúde mental (Raichle et al., 2007) e QV em várias populações
(Guerra, 2010).
Por fim, concluiu-se que o suporte social e a felicidade são as variáveis que
melhor predizem a adaptação, tanto física como mental, explicando 21 e 28% do
CF e CM da QV, respetivamente. Dijkers (1997) apontou o suporte social como o
fator com maior influência na QV e Murta e Guimarães (2007) salientam esta
variável como um dos preditores de adaptação bem-sucedida à LVM. Segundo Gill
(1999), o suporte social seja por parte de familiares, amigos e profissionais
facilita o processo de adaptação. Em relação à felicidade, Martins (2008)
assinala esta variável como um fator preditivo da QV num estudo de pessoas com
cadeiras de rodas. Neste sentido, os nossos resultados vão no mesmo sentido de
estudos anteriores, mostrando o impacto do suporte social e da felicidade na
adaptação das pessoas à LVM.
Este estudo pretendeu essencialmente caracterizar psicologicamente as pessoas
com LVM, salientando a influência das variáveis psicológicas na adaptação à
LVM. Em geral, os participantes apresentam valores satisfatórios de felicidade
e suporte social e o sentido de vida converge com os valores que têm sido
encontrados noutras populações clínicas. A depressão, tal como vários estudos
têm sugerido, não é uma reação inevitável, sendo que mais de 80% da amostra não
apresenta depressão. O CM da QV revela-se bom, não diferindo muito de uma
população saudável. Já o CF está comprometido, apresentando valores reduzidos
de adaptação, o que tem muito que ver com a patologia em questão, condicionando
a mobilidade e saúde dos participantes. No que concerne às diferenças das
variáveis estudadas consoante os dados sociodemográficos e clínicos, são poucas
as diferenças que se destacam. O suporte social e a felicidade são as variáveis
que melhor predizem a adaptação, tanto física como mental, mas todas as
variáveis em estudo estão associadas à QV (com exceção do SV que apenas está
correlacionado com o CF).
De forma global, este estudo é mais um contributo para rasgar com os modelos
estanques de psicopatologia após uma situação de crise e considerar o ser
humano como um todo, capaz de crescer e viver de forma adaptativa após LVM.
Assim, este estudo insere-se assim no âmbito da Psicologia Positiva, área ainda
em crescente desenvolvimento e de grande interesse na atualidade.
Não menosprezando os resultados encontrados, considera-se que a grande
limitação prende-se com o tamanho da amostra e o método de amostragem e, por
isso a não representatividade da mesma. Também é importante enfatizar as
características da amostra, uma vez que os participantes têm na sua maioria
paraplegia incompleta (nível e extensão mais favorável fisicamente dos
indivíduos que sofrem LVM), pelo que se poderá ter obtido valores mais
satisfatórios das variáveis estudadas do que se se tivesse controlado a
homogeneidade no nível e extensão da LVM. Outra limitação tem que ver com a
desejabilidade social e a dificuldade de comparação dos resultados obtidos uma
vez que não se utilizam os mesmos instrumentos nos estudos, aliado à escassez
de dados nacionais relativamente a amostras de LVM. Para além disso, não
existem instrumentos validados para a população de indivíduos com LVM,
nomeadamente para a avaliação da QV, ao contrário do que acontece com outras
populações clínicas, como o cancro, esclerose múltipla e obesidade. Apesar das
crescentes evidências empíricas que têm surgido acerca dos efeitos psicológicos
das LVM há ainda um longo caminho a ser percorrido, principalmente tendo em
conta o panorama nacional.
Face ao mencionado acima, urge salientar algumas recomendações para os próximos
estudos. Seria assim fulcral a inclusão de amostras maiores, de forma a se
poder retirar conclusões mais fidedignas acerca das variáveis aqui estudadas.
Não obstante, numa problemática tão pouco versada pela literatura portuguesa,
existe um vasto leque de aspetos a abordar. Um tópico que se poderia abranger é
a ocupação profissional ou atividades que as pessoas realizam no dia-a-dia, uma
vez que um nível de atividade significativo ou o facto de terem objetivos/um
propósito no seu dia-a-dia pode dar-nos indicações sobre a adaptação. Para além
disso, as lesões atingem normalmente indivíduos jovens numa fase ativa da vida
e as dificuldades a nível profissional (nomeadamente, a falta de emprego) foi
evidenciada como um dos aspetos piores que advieram com a LVM, pelo que poderá
afetar psicologicamente esta população. Seria também interessante explorar
algumas características da personalidade que podem estar ligadas a melhor ou
pior adaptação, como por exemplo a resiliência. Na perspetiva da Psicologia
Positiva, será necessário explorar as forças e virtudes humanas da pessoa que
podem levar à felicidade e QV. Para além destas indicações, seria útil
desenvolver, traduzir, validar e aplicar instrumentos para a população com LVM.
Poderia ainda desenvolver-se estudos com cuidadores ou familiares de pessoas
com LVM. Em suma, o estudo efetuado limita-se à abordagem de algumas variáveis
psicológicas, havendo muitas outras que poderão explicar também a adaptação.
Assim, espera-se que este trabalho desperte, de alguma forma, o interesse e
motivação para futuras investigações com esta população.
De forma a concluir esta reflexão, considera-se importante salientar algumas
pistas para a prática psicológica junto desta população, consoante os
resultados e perceções que se foram desenvolvendo ao longo da investigação,
aliado ao que é evidenciado pela literatura. Neste sentido, deviam ser tomados
em consideração programas de intervenção psicoeducativos para a felicidade e
grupos de apoio, uma vez que a felicidade e suporte social são preditivos de
boa QV. No que concerne ao sentido de vida, e tendo-se constatado uma
correlação negativa forte com a depressão e positiva com a felicidade,
salienta-se a necessidade de desenvolver objetivos e motivação na vida dos
indivíduos com LVM. É necessário encontrarem um meio adequado para que
individualmente consigam encontrar um sentido de vida e para isso, é preciso
explorar-se as preferências e atividades de cada um, procurando algo que vá ao
encontro das suas necessidades, habilidades e aspirações (Manita et al., 1997).
Para além disso, desenvolver novas atividades, pode ser importante pois quanto
mais a pessoa se tornar um membro ativo na comunidade, melhor será a sua
adaptação à LVM (Gill, 1999). Entrar num trabalho, fazer voluntariado e dar
palestras inspiradoras são alguns exemplos que poderão melhorar o
autoconceito e a perceberem que têm lugar e valor na sociedade (Gill, 1999).
Por último, a educação e aconselhamento podem ajudar a pessoa com LVM, assim
como a família e amigos a trabalharem conjuntamente no processo de adaptação
(Gill, 1999). Em suma, é fulcral promover a reelaboração de um projeto de vida
e as variáveis psicológicas positivas, bem como maximizar os ganhos dos
pacientes através dos aspetos positivos que mencionam para que possam crescer
com a LVM.