Adaptação transcultural Brasil-Portugal da escala brief cope para estudantes do
ensino superior
ABSTRACT
The aim of this study was to adapt the BriefCOPE Inventory for Portuguese-
speaking university students. We evaluate the Portuguese BriefCOPE
psychometrics qualities and estimated the BriefCOPE factorial invariance in
Brazil and Portugal. The data collected from a sample of 1573 students of both
nationalities did confirm the 14-factor structure of the BriefCOPE and showed
both factorial, convergent and discriminant related validities. However, the
factor model did not show invariance across countries indicating that the use
of the Portuguese version of the BriefCOPE cannot be bailed for comparisons of
scores of inter-countries' student coping.
Key- words - coping; college students; evaluation; psychometrics.
O estresse invade cada vez mais o nosso cotidiano, quer como resultado de uma
multiplicidade de fatores presentes nas sociedades modernas, quer como um
importante determinante de muitas doenças associadas aos estilos de vida da
população. Uma das situações atuais de maior gravidade são as doenças
cardiovasculares que segundo a OMS (2011) constituem a principal causa de
mortalidade e morbilidade em todo o mundo, continuando a ocupar um lugar de
destaque em Portugal (George, 2012) e no Brasil conjuntamente com as doenças
respiratórias (Schmidt et al., 2011). Trata-se de situações que têm na sua
origem um conjunto de fatores de risco que podem ser modificáveis,
particularmente nos jovens (Heinisch , Zukowski, & Heinisch, 2007). Entre
estes riscos assinalam-se o sedentarismo, a obesidade, o consumo de tabaco,
álcool e outras drogas, com início frequente na adolescência, e o estresse não
apenas potencializa os fatores anteriormente citados como também desencadeia
alterações fisiológicas e emocionais, constituindo-se cada vez mais como um
importante fator de risco para a saúde e bem-estar da população, ao longo das
diferentes fases do ciclo de vida (Heinisch et al., 2007; Kim & Seidlitz,
2002; Knoll, Rieckmann, & Schwarzer, 2005; Silva, Malbergier, Stempliuk,
& Andrade, 2006; Taylor & Stanton, 2007).
Carver e Coonor-Smith (2010) definem coping1 como esforços despendidos para
evitar ou diminuir ameaças, danos e perdas, ou para reduzir o estresse
associado. Esses esforços podem ser resultantes de respostas voluntárias, ou
automáticas e involuntárias. Os autores afirmam que a identificação da natureza
das respostas não é fácil dado que as mesmas podem se iniciar de forma
estratégica e intencional, mas com a repetição podem tornar-se automáticas.
O coping evoluiu ao longo do desenvolvimento humano e tem um papel importante
no ajustamento psicológico, biológico e bem-estar (David, Montgomery, &
Bovbjerg, 2006; Perczek, Carver, Price, & Pozo-Kaderman, 2000; Taylor &
Stanton, 2007). Ele é importante na proteção da saúde e na prevenção e
tratamento das doenças (Ebert, Tucker, & Roth, 2002; Lyon, 2012; Perczek et
al., 2000). A nível psicológico, o coping tem sido apontado como um mediador do
efeito da personalidade sobre as consequências do estresse (Knoll et al.,
2005).Nas doenças crônicas mais usuais como, por exemplo, a diabetes, o
copingbem sucedido, quase sempre melhora a gestão da doença e a qualidade de
vida destes doentes crônicos(Fisher et al., 2009), o mesmo ocorrendo com grupos
afetados pelo câncer (Gottlieb & Wachala, 2007), ou em pessoas com
esclerose múltipla (McCabe, McKern, & McDonald, 2004). Dessa maneira,
entende-se que a avaliação do coping pode ser uma estratégia interessante para
o entendimento de questões de saúde pública tanto no que se refere à promoção e
proteção da saúde quanto na prevenção e tratamento de doenças (Ebert et al.,
2002; Lyon, 2012).
Para avaliar o copingCarver et al. (1989) desenvolveram um inventário, que
denominaram de COPE, concebido a partir de uma posição crítica perante as
várias formas de medida existentes até ao momento. Os autores argumentam que as
escalas são normalmente desenvolvidas com base em procedimentos empíricos, onde
os itens são escolhidos pela sua diversidade e por representarem potenciais de
respostas de coping, e não por representarem categorias teóricas interessantes
de coping. Sendo que, posteriormente, a análise fatorial exploratória é
utilizada para identificar dimensões em que estes itens se agrupam e todo este
processo faz com que as escalas estejam, geralmente, associadas a princípios
teóricos criados de modo frágil a posteriori. A alternativa que estes autores
propõem e que utilizaram, é que a teoria ou a abordagem racional oriente o
conteúdo dos itens. Carver et al. (1989) partem da extensa literatura existente
sobre o coping associando duas linhas orientadoras: por um lado o modelo de
Folkman e Lazarus (1980) e, por outro, o modelo de auto-regulação
comportamental desenvolvido por Scheier e Carver (1988). O estudo do inventário
final passou por várias fases de aperfeiçoamento, com diferentes populações, de
que resultaram 14 dimensões com 60 itens. As 14 escalas exibem correlações
baixas e moderadas entre si, mas correlacionam-se de uma forma conceitualmente
lógica. Um grupo de escalas engloba as questões que podem ser consideradas
adaptativas e um segundo grupo as que podem ser consideradas de valor
questionável. Estes dois grupos de escalas tendem a exibir correlações
positivas com as do seu grupo e negativas com as do outro. Por exemplo, as
escalas coping ativo e planejar estão inversamente associadas com a negação e o
desinvestimento comportamental. Embora possam existir diferenças de magnitude
entre as correlações na versão original de Carver e na adaptação ao português
europeu de Pais Ribeiro & Rodrigues (2004) o padrão é idêntico na versão
Norte Americana e na Portuguesa.
Posteriormente, Carver (1997), desenvolveu uma versão reduzida do inventário,
que denominou de BriefCope, utilizando uma população da comunidade que tinha
sido fortemente afetada pelo furacão Handrew que se abateu sobre a Florida,
USA, em 1992. Como a versão de 60 itens era muito longa, os autores acharam
útil e apropriado desenvolver uma versão mais curta do inventário, o que
resultou numa versão com 28 itens distribuídos em 14 dimensões. Carver (1997)
refere dois critérios utilizados para a seleção dos dois itens de cada uma das
14 escalas: o primeiro critério, foi reter os itens que na versão original de
60 itens exibiam uma carga mais elevada no componente a que pertenciam; o
segundo critério foi baseado na experiência mantendo os itens que eram mais
claros e que permitiam uma comunicação mais fácil com populações não
universitárias.
O inventário de coping breve visa promover um exame amplo sobre o coping em
contextos e situações naturais. Para isso, explica Carver (1997), o inventário
não necessita ser utilizado em bloco. Investigadores que tenham interesses
especiais mais circunscritos, e que tenham limitação de tempo, podem utilizar
somente algumas escalas, aquelas que forem de maior interesse para essa
população ou estudo. O inventário não fornece uma pontuação total, mas sim 14
pontuações independentes que expressam a constelação ou reportório de coping,
razão porque cada escala pode ser utilizada independentemente ou em grupos
consoante o interesse do investigador.
Os estudantes universitários constituem um grupo vulnerável em questões de
saúde pública, uma vez que estão sujeitos a estressores de natureza variada
incluindo as relações sociais entre pares, a competição, as exigências dos
estudos acadêmicos, as limitações de natureza socioeconômica e, para alguns, o
afastamento de casa e da família (Bardagi & Hutz, 2011; Loureiro, McIntyre,
Mota-Cardoso, & Ferreira, 2008; Silva et al., 2006). Assim, a capacidade de
coping face aos estressores constitui-se como um eixo fundamental para o
ajustamento ou adaptação aos estressores da vida diária e para o bem-estar
físico e psicológico, nomeadamente neste grupo onde a avaliação de estressores
e coping tem sido pouco estudada (Bardagi & Hutz, 2011; Loureiro et al.,
2008). Realça-se então a necessidade da elaboração e/ou validação de
instrumentos que permitam avaliar a capacidade de enfrentamento nesta
população. Dadas as características de fácil utilização do instrumento
BriefCOPE e a necessidade de estudos sobre estresse e coping em estudantes
universitários nomeadamente no Brasil (Bardagi & Hutz, 2011) e frente ao
papel que a investigação do coping pode exercer em questões relacionadas à
saúde pública, realizou-se o presente estudo com o objetivo de adaptar e
estimar a validade do BriefCOPE para a população de estudantes de ensino
superior de língua portuguesa.
MÉTODO
Participantes
Participaram do estudo 1 573 estudantes do ensino superior sendo 69,0% de
nacionalidade brasileira que frequentavam universidades do estado de São Paulo
e 31,0% de nacionalidade portuguesa e frequentavam o ensino superior em escolas
localizadas em Lisboa. Da amostra total 31,0% eram do sexo masculino. A média
de idade dos participantes foi 22,9 anos (DP=6,0). Relativamente à grande área
de estudos, 49,5% pertenciam às ciências da saúde, 13,0% às ciências exatas,
29,0% às ciências sociais e humanas, 8,5% às ciências biológicas. Dos
estudantes, 56,0% frequentavam escolas privadas e os demais restantes
frequentavam escolas públicas.
Material
Como instrumento de medida utilizou-se a versão BriefCOPE do Inventário de COPE
de Carver et al. (1989). A versão em estudo foi adaptada para o português
falado no Brasil e Portugal a partir da tradução e validação de Pais Ribeiro e
Rodrigues (2004). Para tanto, utilizou-se o acordo ortográfico aceite por ambos
os países em 2009.
O BriefCOPE, é um instrumento de autopreenchimento constituído por 28 itens
agrupados em 14 escalas (ver quadro_1). A versão original do BriefCOPE era
cotada numa escala de 0-Nunca faço isto a 3-Faço sempre isto. Para melhorar
as propriedades psicométricas do inventário e a validade estatística das
análises fatoriais confirmatórias, no presente estudo, optou-se por usar um
formato de respostas do tipo Likert com 5 pontos (0-Nunca fiz isto; 1-Já fiz
isto; 2-Faço isto algumas vezes; 3-Costumo fazer isto e 4-Faço sempre isto).
Procedimento
O processo de desenvolvimento dos itens seguiu as recomendações clássicas dos
anos 70 de Brislin, Lonner e Thordike (1973), que inclui três fases principais:
a) tradução e retro-tradução, independentes por juízes que dominem as línguas,
o conteúdo e a amostra do estudo; b) utilização de classificadores que examinem
as versões, original, a tradução, e a retroversão para analisar os erros, c) um
pré-teste da versão original e da versão traduzida com sujeitos bilingues que
não estejam familiarizados com o instrumento de modo a garantir a equivalência
entre as duas versões. Tomou-se também em consideração as recomendações feitas
por Hambleton e Patsula (1999).
Os dados para a avaliação das qualidades psicométricas foram recolhidos quer em
formato papel-e-lápis, quer num formulário onlinedisponível no Google Docs. A
solicitação para preenchimento dos questionários foi realizada junto à direção
das escolas de ensino superior cadastradas junto ao Ministério da Educação e
Cultura e também junto às redes sociais. Os estudantes que acederam participar
em ambos os países foram informados, por escrito, que a sua participação era
voluntária, anônima e não remunerada. Os objetivos da pesquisa foram claramente
explicitados e os participantes foram informados que o estudo era de natureza
estritamente acadêmica e não tinha qualquer objetivo de diagnóstico e/ou
intervenção. Os aspetos da pesquisa com seres humanos foram avaliados em
Portugal pela comissão científica da Unidade de Investigação em Psicologia e
Saúde (UIPES) e, no Brasil, pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos
da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP-Araraquara (processo 12/2011).
A avaliação das qualidades psicométricas do BriefCOPE foi realizada nas suas
facetas de sensibilidade psicométrica, validade relacionada com o construto e
confiabilidade. Todas as análises foram efetuadas no programa IBM SPSS
Statistics (v. 20, SPSS An IBM Company, Chicago, IL) e IBM SPSS AMOS (v. 20,
SPSS An IBM Company, Chicago, IL).
A sensibilidade psicométrica, isto é a capacidade que os itens apresentaram
para discriminar participantes estruturalmente diferentes, foi avaliada pelas
medidas de forma dos itens (assimetria e curtose). Considerou-se que os itens
que apresentavam distribuição de valores entre o mínimo e o máximo da escala,
com valores absolutos de assimetria e curtose inferiores a 3 e 7,
respectivamente (Kline, 2004; Maroco, 2010) apresentaram sensibilidade
psicométrica e distribuições não excessivamente afastadas da distribuição
normal que inviabilizassem as análises psicométricas subsequentes. É desejável
que os itens que constituem uma escala psicométrica apresentem distribuição não
muito afastada da normal na amostra sob estudo, pois é expectável que o
construto, do qual os itens são manifestações, apresente distribuição normal na
população (uma consequência direta da lei dos grandes números e do teorema do
limite central).
A validade relacionada com o construto foi avaliada pela validade fatorial,
convergente e discriminante. De acordo com a conceitualização de Fornell e
Larcker (1981), a validade relacionada com o construto é defensável se este
apresentar em primeiro lugar validade fatorial, depois validade convergente e
validade discriminante com outros fatores presentes no inventário.
A validade fatorial foi avaliada por intermédio de uma Análise Fatorial
Confirmatória dos 14 fatores presentes no BriefCOPE. Os índices e respetivos
valores de referência utilizados para avaliar a qualidade do ajustamento do
modelo fatorial foram: a Razão da Estatística do Qui-quadrado pelos graus de
liberdade (c2/gl) inferior a 3,0, Goodness of Fit Index(GFI), Comparative Fit
Index (CFI) e Tucker-Lewis Index (TLI) superiores a 0,9 e Root Mean Square
Error of Aproximation (RMSEA) inferior a 0,05, com limite superior do intervalo
de confiança a 90% inferior a 0,10 (ver e.g. Maroco, 2010).
A validade convergente foi avaliada pela Variância Extraída Média (VEM) dos
itens por cada um dos respetivos fatores (Maroco, 2010). Considerou-se que VEM
superior ou igual a 0,50 é indicador de validade convergente de acordo com a
proposta de Fornell e Larcker (1981). Finalmente, a validade discriminante
entre fatores foi avaliada comparando a VEM por cada fator com o quadrado da
correlação de Pearson entre os fatores. Adotou-se a proposta de Fornell e
Larcker (1981) de que existe validade discriminante quando a VEM por cada fator
é superior ao quadrado da correlação entre fatores.
A invariância do modelo fatorial obtido na amostra brasileira e portuguesa foi
avaliada por intermédio de uma Análise Fatorial Multigrupos sequencial. Na
primeira fase, comparam-se os pesos fatoriais dos itens nos dois países
(invariância de medida fraca); depois as médias dos itens (invariância de
medida forte) e finalmente as covariâncias entre os fatores (invariância
estrita). Se o teste de diferença do qui-quadrado de ajustamento (DX2) entre os
modelos com os parâmetros fixos (iguais nos dois países) e o modelo com os
parâmetros livres (variantes entre os dois países) for estatisticamente
significativo (p<0,05) então os modelos não são invariantes.
A confiabilidade foi estimada por intermédio da confiabilidade Composta (CC) e
do Coeficiente alfa de Cronbach (a). Considerou-se confiabilidade adequada
quando a>0,7. É de referir que o BriefCOPE apenas apresenta 2 itens por fator,
pelo que o a é penalizado por este reduzido número de itens (Maroco &
Garcia-Marques, 2006).
RESULTADOS
Sensibilidade Psicométrica
As propriedades distribucionais dos 28 itens do BriefCOPE são apresentadas no
quadro_2. Todos os itens apresentaram valores que oscilaram entre o mínimo (0)
e o máximo (4) com valores médios e medianos próximos do centro do formato de
resposta (3). Apenas os itens 25 e 26 apresentaram sk e ku consideráveis (>2 e
>5 respetivamente), mas ainda assim, não limitantes para análises subsequentes.
Validade relacionada com o Construto
Validade Fatorial
A figura_1 apresenta o modelo de análise fatorial confirmatória dos 14 fatores
do BriefCOPE na amostra total (n=1 573). O modelo fatorial apresentou um bom
ajustamento à estrutura de variância-covariância dos 28 itens que constituem o
BriefCOPE (X2/gl=3,2; CFI=0,97; GFI=0,96; TLI=0,95; RMSEA=0,03; IC90%RMSEA =
]0,03, 0,04[ )
Validade Convergente e Validade Discriminante
O quadro_3 apresenta a Variância Extraída Média (VEM) e a Confiabilidade
composta (CC) dos 14 fatores do BriefCOPE. Nesta tabela é apresentado também o
quadrado da correlação de Pearson entre os fatores.
Todos os fatores apresentaram VEM superior a 0,5 e CC superior a 0,7 o que
aponta para adequada validade convergente dos 14 fatores sob estudo.
Relativamente à validade discriminante, apenas os fatores Planejar (PL) e
Coping ativo (CA) não apresentam VEM superiores ao quadrado da correlação de
Pearson entre os dois fatores.
Confiabilidade
A confiabilidade avaliada quer pela confiabilidade composta (CC) quer pelo
Coeficiente alfa de Cronbach (a) revela que todos os 14 fatores apresentam
consistência interna boa (>0,7) a excelente (>0,85). Estes resultados são
particularmente reveladores da boa confiabilidade dos fatores uma vez que cada
fator é composto por apenas 2 itens e o a é particularmente subestimado para um
número reduzido de itens por fator.
Invariância Portugal-Brasil
A estrutura fatorial com 14 dimensões apresentou um bom ajustamento aos dois
países apontando para invariância configuracional do BriefCOPE. Contudo, o
teste da diferença de qui-quadrados entre o modelo com pesos fixos e o modelo
com pesos livres nos dois países é significativo indicando que o modelo de
medida é variante entre os dois países (DX2(14)=91,5; p<0,001). O quadro_4
apresenta os pesos fatoriais padronizados para os dois países e a significância
(p) das diferenças entre os pesos fatoriais não padronizados.
Note-se que apesar das diferenças serem estatisticamente significativas, em
termos práticos estas diferenças são inconsequentes. Todos os itens apresentam
pesos fatoriais consideravelmente superiores a 0,5 em ambos os países. Os
valores dos pesos fatoriais e o bom ajustamento da estrutura com 14 fatores
atestam a validade fatorial do BriefCOPE para Portugal e Brasil. Contudo, o
modelo fatorial não pode ser considerado invariante nos dois países. Este fato,
não cauciona a comparação direta dos escores dos 14 fatores entre os países.
DISCUSSÃO
O Coping, ou capacidade de enfrentamento, abrange um conjunto de competências
cognitivas e comportamentais que permitem que o indivíduo lide com estressores
de natureza diversa e com as exigências que esses impõem sobre o seu bem-estar
físico, psicológico, funcionamento social e qualidade de vida. Os estudantes
universitários são uma população sujeita a estressores de natureza variada,
incluindo as relações sociais entre pares, as exigências dos estudos
acadêmicos, as limitações de natureza socioeconômica e, para alguns, o
afastamento de casa e da família (Bardagi & Hutz, 2011; Heinisch et al.,
2007). A investigação sobre estresse e a sua influência sobre a saúde e o bem-
estar tem florescido nas ultimas décadas, tendo-se demonstrado, empiricamente
que estas variáveis de saúde publica podem ser previstas por variáveis
psicossociais tais como os traços de personalidade e os mecanismos de coping
(Perczek et al., 2000). Assim, a capacidade de enfrentamento dos estressores
constitui-se como um eixo fundamental para o ajustamento ou adaptação aos
estressores da vida diária e para o bem-estar físico e psicológico.
Tanto quanto sabemos, o estudo que apresentamos é o primeiro que procura
realizar a adaptação transcultural do BriefCOPE em língua portuguesa usando o
acordo ortográfico em vigor desde 2009 no Brasil e em Portugal. Este estudo
expande também a avaliação das qualidades psicométricas do BriefCOPE para
estudantes universitários de diferentes áreas de estudo, incluindo as ciências
da saúde, engenharias, ciências biológicas e ciências sociais e humanas de
sistemas de ensino público e privado. Segundo Bardagi & Hutz (2011) os
estudos sobre estresse e coping, em universitários no Brasil, para além de
recentes e escassos, têm-se focado em estudantes da área da saúde.
Salientamos que os estudos originais do BriefCOPE de Carver e al. (1989), numa
amostra de estudantes universitários americanos, revelaram que o inventário
produz dados validos e confiáveis. Pais Ribeiro e Rodrigues (2004) realizaram a
adaptação do inventário para o português europeu, numa amostra de 364
estudantes portugueses da área de ciências sociais e humanas e observaram
qualidades psicométricas semelhantes às observadas por Carver et al. (1989).
Estudos em outras populações europeias, incluindo Espanha, Itália, Grécia, e
Alemanha (Knoll et al., 2005; Muller & Spitz, 2003; Perczek et al., 2000) e
asiáticas (Kapsou, Panayiotou, Kokkinos, & Demetriou, 2010; Kim &
Seidlitz, 2002; Muller & Spitz, 2003) têm demonstrado a validade genérica
do BriefCOPE ainda que a sua estrutura fatorial original seja questionada em
alguns desses estudos (ver e.g. Muller & Spitz, 2003).
Os resultados recolhidos na nossa amostra, de elevada dimensão, demonstram que
os 28 itens do BriefCOPE apresentam propriedades distribucionais aproximadas à
distribuição normal, como seria expectável na população. A análise fatorial
confirmatória dos 14 fatores apresentou um bom ajustamento à estrutura da
variância-covariância observada entre os 28 itens, apresentando todos os itens
pesos fatoriais elevados na amostra conjunta dos dois países. A estimação da
VEM e da confiabilidade composta dos 14 fatores permitiu concluir que os
fatores são capazes de explicar a maior parte da variância dos itens,
apresentando por isso validade convergente. A comparação das VEM por cada fator
com o quadrado da correlação de Pearson revelou que todos os fatores, com a
exceção do Coping Ativo e do Planejar, apresentaram validade discriminante
na amostra sob estudo. É de referir que a forte correlação positiva observada
entre o coping ativo e o Planejar é justificável pela semelhança conceitual e
operacional dos itens. O coping ativo manifesta-se nas ações destinadas a
limitar o elemento estressor, enquanto o Planejar se manifesta no
planejamento destas ações. É de referir que esta associação também foi
observada no estudo original de Carver (1997) e na adaptação para português
europeu de Pais Ribeiro e Rodrigues (2004). Finalmente, a estimação da
consistência interna dos 14 fatores, por intermédio da confiabilidade composta
e do alfa de Cronbach, obteve valores que permitem considerar que os 14 fatores
são medidas confiáveis de Coping.
Estudos com amostras espanholas (Perczek et al., 2000), francesas (Muller &
Spitz, 2003), alemãs (Knoll et al., 2005), gregas (Kapsou et al., 2010) e
Coreanas (Kim & Seidlitz, 2002), a que se junta o presente estudo para a
população de estudantes universitários portugueses e brasileiros, atestam a
validade fatorial do BriefCope e sua utilização em múltiplos países (ver e.g.
Muller & Spitz, 2003).
Contudo, tanto quanto é do nosso conhecimento não existem dados sobre a
invariância configuracional, invariância de medida e invariância estrita entre
os diferentes países. No estudo com a população grega, Kapsou et al. (2010)
propuseram uma estrutura octofactorial, que, por sua vez, se podiam reduzir a
apenas 4 fatores mais genéricos de Coping. Porém, no estudo Francês, (Muller
& Spitz, 2003) foi possível confirmar, com a análise factorial
confirmatória, os 14 fatores propostos por Carver. É de referir que o autor do
BriefCOPE aconselha contra a concentração das 14 escalas em subconjuntos mais
genéricos e ou numa única pontuação global (Carver, 2013). A análise de
invariância fatorial entre Portugal e Brasil permitiu apenas concluir pela
invariância configuracional do modelo. Contudo, vários pesos fatoriais
diferiram significativamente entre os dois países pelo que não ficou confirmada
a invariância do modelo de medida. Em suma, o BriefCOPE na versão apresentada
neste estudo permite avaliar o Coping de forma válida e confiável nos dois
países, ainda que comparações diretas interpaíses não sejam caucionáveis. Estes
resultados podem indicar a importância de fatores de ordem cultural social e
económico, subjacentes às estratégias individuais no enfrentamento dos
estressores de natureza variada, nomeadamente na população jovem universitária
dos dois países, o que justifica a realização de estudos complementares. No
entanto, em estudos futuros devem atender-se à semelhança nas características
sociodemográficas da amostra e à proporcionalidade dos estudantes nas
diferentes áreas de estudo nos dois países. Condições não satisfeitas e que
constituem algumas das limitações deste estudo e à luz das quais devem ser
lidos os resultados. Verifica-se que o BriefCOPE quando aplicado a estudantes
universitários brasileiros e portugueses foi considerado um instrumento
confiável e válido. Observou-se invariância configuracional do modelo fatorial,
porém, a invariância dos pesos fatoriais dos itens entre os dois países não foi
confirmada.