Ideação suicida e sintomatologia depressiva em adolescentes
ABSTRACT
Recent data from the Portuguese General Directorate of Health (2013) point to
an increase in the number of suicides in recent years. Among adolescents,
suicide is the second leading cause of death. International studies have shown
that suicidal ideation is a key indicator for suicide risk. It appears in about
4-10% of adolescents in the general population, is more prevalent in females
and is often associated with depression. This study aims to evaluate the
presence of suicidal ideation in adolescents from the general population and to
analyze the relationship between suicidal ideation measured by Suicidal
Ideation Questionnaire (SIQ, Reynolds, 1988; Portuguese version by Ferreira
& Castela, 1999) and depressive symptomatology assessed by the Children's
Depression Inventory (CDI, Kovacs, 1985; Portuguese version by Marujo, 1994).
The sample is comprised by 233 adolescents from the general population, aged
between 14 and 18 years (M = 15.69, SD = 1.287), 86 males (36.9%) and 147
females (63.1%).26 (10.7%) adolescents present suicidal ideation (score above
the cutoff point proposed by Reynolds), of whom 76.9% are girls. The results
also indicate that suicidal ideation is significantly correlated with
depressive symptoms, explaining 39.5% of its variance. These results support
the existence of a relationship between suicidal ideation and depressive
symptomatology and call attention to the presence of suicidal ideation in
Portuguese adolescents of the general population. Thus, it is stressed the need
to develop intervention strategies, including preventive ones, to address the
problem of suicidal ideation and depression in Portugal.
Key-Words- suicidal ideation, depressive symptomatology, adolescents
Em todo o mundo, o suicídio é uma das principais causas de morte na
adolescência. Em Portugal, dados recentes da Direção-Geral de Saúde apontam
para um aumento do número de suicídios nos últimos anos e revelam também que
nos adolescentes o suicídio é a segunda causa de morte (Direção-Geral de Saúde,
2013).
O estudo da ideação suicida tem contribuído com dados importantes para a
compreensão do comportamento suicida na adolescência. Segundo uma perspetiva
que concebe o comportamento suicida como um espetro comportamental, a ideação
pode ser vista como um estado preliminar, percursor de outros comportamentos
suicidas mais severos (Pfeffer, 1985).
A ideação suicida refere-se a pensamentos acerca de auto-destruição, que
incluem a ideia de que a vida não vale a pena ser vivida, bem como planos
específicos para lhe por fim. É tida como um indicador fundamental para o risco
de suicídio (Reynolds, 1988), sendo uma componente básica na classificação de
comportamentos suicidas (Pfeffer, 1985). A presença de ideação suicida é
habitualmente um sinal de sofrimento emocional grave e aparece como um dos
principais preditores de tentativas de suicídio e suicídio consumado (Nock et
al., 2008). Estudos referem que um terço (34%) das pessoas com ideação suicida
ao longo da vida elabora um plano de suicídio; desses, 72% fazem uma tentativa
de suicídio; e 26% dos indivíduos que apresentam ideação suicida mas que não
elaboram plano concretizam uma tentativa de suicídio não planeada. A maioria
das tentativas de suicídio, planeadas ou não, ocorrem no primeiro ano após o
início da ideação suicida (Nock et al., 2008).
O risco de comportamento suicida, que inclui ideação suicida, bem como o
planeamento e a tentativa de suicídio, aumenta durante a adolescência e o
início da idade adulta. Segundo Ferreira e Castela (1999), a identificação da
gravidade da ideação suicida no adolescente pode contribuir para detetar pro-
ativamente jovens em risco de suicídio.
Vários estudos apontam para a presença de ideação suicida nos adolescentes da
população normal, variando as estimativas de prevalência em função dos estudos
e das populações, provavelmente devido a diferentes definições de ideação
suicida e a diferenças nas populações estudadas. Maris, Berman e Silverman
(2000), num estudo com crianças e adolescentes da população geral, nos Estados
Unidos, verificaram que 7 a 12% das crianças e adolescentes avaliados
apresentavam ideação suicida. Em estudos mais recentes, conduzidos em amostras
representativas da população adolescente dos Estados Unidos da América, as
estimativas de prevalência de ideação suicida variaram entre os 6 e os 13%
(Arria et al., 2009; Barrios, Everett, Simon, & Brener, 2000; Crow,
Eisenberg, Story, & Neumark-Sztainer, 2008). No Canadá, Dupéré, Leventhal e
Lacourse (2009) encontraram uma prevalência de 7,7% numa amostra representativa
da comunidade canadiana. Lopes (2012), numa amostra de adolescentes da
população geral de Cabo Verde, verificou que, nos últimos 8 dias que
antecederam a avaliação, 8% dos adolescentes apresentaram ideação suicida.
Alguns estudos de revisão têm citado estimativas de prevalência mais elevadas.
Salienta-se a revisão de Nock et al. (2008), que relatou uma prevalência de
ideação suicida entre 20% e 24% entre os adolescentes norte-americanos com
idades entre 12 a 17 anos.
A literatura aponta ainda para diferenças de género associadas à prevalência da
ideação suicida. Na maioria dos estudos com amostras da comunidade, os sujeitos
do sexo feminino apresentam mais ideação suicida do que os sujeitos do sexo
masculino (p.e., Groeleger, Tomori, & Kocmur, 2003; Lewinsohn, Rohde, &
Seeley, 1994). Estando a ideação suicida muito associada à psicopatologia, é de
realçar que os estudos clínicos e epidemiológicos acerca da psicopatologia na
infância e adolescência têm consistentemente demonstrado que o género tem um
importante papel nos níveis de saúde mental na adolescência (Zahn-Waxler,
Shirtcliff, & Marceau, 2008). A investigação tem documentado, quer em
amostras clínicas, quer em amostras da comunidade, diferenças associadas ao
género nas taxas de psicopatologia (p.e., Handwerk, Clopton, Huefner, Smith,
& Hoff, 2006), nas trajetórias desenvolvimentais das perturbações da
infância (p.e., Bongers, Koot, Ende, & Verhulst, 2003), nos fatores de
risco (p.e., Chamberlain, & Reid, 1994) e na resposta ao tratamento
(Chamberlain, & Reid, 1994).
A pesquisa sugere ainda que, durante a infância, os meninos tendem a exibir uma
maior prevalência de perturbações psiquiátricas do que as meninas (p.e.,
Hartung, & Widiger 1998), sendo que esta tendência se inverte na
adolescência. Nesta fase do ciclo de vida, as raparigas revelam maior taxa de
perturbações internalizantes (Angold, & Rutter, 1992; Bongers et al.,
2003). As adolescentes do sexo feminino revelam duas a três vezes mais
probabilidade de desenvolverem uma perturbação do humor e da ansiedade do que
os rapazes, padrão este que se mantem na idade adulta (Keenan, & Shaw,
1997).
As perturbações do humor, particularmente a Depressão Major e a Perturbação
Distímica, são as perturbações mais identificadas em quem tenta o suicídio. A
depressão é considerada um dos maiores problemas de saúde mundial (World Health
Organization, 2008), e está fortemente correlacionada com o comportamento
suicidário (Marttunen, Aro, Henriksson, & Lonnqvist, 1991; Rao, Weissman,
Martin, & Hammond, 1993; Shaffer, Garland, Gould, Fisher, & Trautman,
1988). Apesar de a suicidalidade não se limitar a adolescentes com perturbações
depressivas, a maioria dos adolescentes deprimidos manifesta ideação suicida de
modo significativo (Bahls, & Bahls, 2002).
Em Portugal os estudos sobre o tema com adolescentes são escassos. Estando
confirmadas as associações entre sintomatologia depressiva, ideação suicida e
género em estudos internacionais, é necessário estudar estas associações na
população portuguesa. Estão desenvolvidos alguns estudos neste âmbito, que
confirmam a maior prevalência de ideação suicida e sintomatologia depressiva no
sexo feminino (p.e., Monteiro, 2012; Oliveira, Amâncio, & Sampaio, 2001). O
presente estudo pretende ser um contributo para o estudo do suicídio e para a
análise das relações entre sintomatologia depressiva e ideação suicida numa
amostra de adolescentes da comunidade. Atendendo à revisão da literatura
efetuada, esperamos encontrar: mais ideação suicida e níveis mais elevados de
sintomatologia depressiva nas raparigas (hipótese 1), uma prevalência de
ideação suicida em toda a amostra superior a 7% (hipótese 2), associações
significativas entre a ideação suicida e a sintomatologia depressiva (hipótese
3), que a ideação suicida se revele preditora da sintomatologia depressiva,
mesmo controlando a variável género (hipótese 4).
MÉTODO
Participantes
A amostra do estudo foi constituída por 233 alunos de escolas da região Centro
de Portugal, que responderam aos questionários, em sala de aula, no âmbito de
um estudo mais alargado sobre o tratamento da depressão na adolescência1. O
quadro_1 apresenta a distribuição dos participantes por idade e género.
Dos 233 adolescentes avaliados, 147 (63,1%) são raparigas e 86 (36,9%)
raparigas. A média das idades é de 15,69 anos (DP = 1,287).
Material
Inventário de Depressão para Crianças(CDI- Children´s Depression Inventory;
Kovacs, 1985, 1992, versão portuguesa por Marujo,1994).O CDI consiste num
inventário de auto-resposta composto por 27 itens avaliados numa escala de
Likert de 3 pontos, que mede a presença e severidade de sintomas depressivos
específicos em crianças e adolescentes com idades compreendidas entre os 6 e os
18 anos (Kovacs, 1992). A pontuação total desta escala varia entre 0 e 54
pontos, sendo que valores mais elevados indicam maior severidade da
sintomatologia depressiva. No estudo original, o alfa de Cronbach da escala
variou entre 0,70 e 0,89 para o total (Kovacs, 1985). A versão portuguesa do
CDI foi validada por Marujo (1994), tendo as suas características psicométricas
sido também estudadas posteriormente por Dias e Gonçalves (1999). Ambos os
estudos encontraram valores elevados de alfa (entre 0,80 e 0,84). No presente
estudo, o alfa de Cronbach obtido foi de 0,82. Na literatura, não existe
consenso quanto ao ponto de corte do CDI. Optou-se por utilizar o valor que é
sugerido na maioria dos estudos internacionais para adolescentes da população
normal, isto é, o ponto de corte de 19 (Kovacs, 1985). Passos e Machado (2002)
consideraram também este ponto de corte de 19 como um bom preditor da depressão
em adolescentes portugueses entre os 14 e os 17 anos.
Escala de Ideação Suicida (SIQ - Suicidal Ideation Questionnaire;Reynolds,
1988; versão portuguesa por Ferreira & Castela, 1999).O SIQ é um
instrumento de auto-resposta desenvolvido por Reynolds, que permite avaliar a
gravidade dos pensamentos suicidas em adolescentes e adultos. O instrumento é
constituído por 30 itens, variando as respostas de 1 ' o pensamento nunca
ocorreu até 7 ' o pensamento ocorreu sempre, podendo o resultado variar
entre 0 e 180. Ferreira e Castela (1999)encontraram um alfa de Cronbach elevado
(0,96), ligeiramente superior ao coeficiente referido pelo autor original. No
presente estudo, o alfa de Cronbach obtido foi ainda superior (0,97). O
instrumento ainda não apresenta pontos de corte para a população portugesa,
pelo que optamos por seguir o critério mais rigoroso proposto pelo autor.
Segundo Reynolds (1988), uma pontuação =41 pode ser indicativa de significativa
psicopatologia e de potencial risco de suicídio.
Procedimento
Após garantidas as autorizações de entidades nacionais de proteção de dados e
reguladoras da aplicação de inquéritos em escolas (Comissão Nacional de
Proteção de Dados e Direção-Geral da Educação, através do sistema de
Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar) obteve-se a autorização das
direções de quatro escolas do distrito de Leiria. Os instrumentos foram
aplicados em sala de aula. Previamente foi obtido o consentimento informado dos
adolescentes e encarregados de educação (no caso de adolescentes menores de
idade) para participar no estudo. Os dados foram tratados com a versão 20 do
Software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences; IBM Corp, Armonk,
NY, USA).
Para avaliar a fidelidade dos questionários, foram calculados os alfas de
Cronbach (a). Para explorar as características da amostra foram utilizadas
estatísticas descritivas. As diferenças em relação ao género foram testadas
usando testes t para amostras independentes. Para analisar as diferenças em
relação à idade foram efetuadas análises da variância. Os coeficientes de
correlação de Pearson foram calculados a fim de explorar a relação entre as
variáveis em estudo. Os valores de correlação abaixo de 0,10 foram considerados
de baixa magnitude, entre 0,10 e 0,30 de magnitude moderada e correlações
iguais ou superiores a 0,50 foram consideradas de alta magnitude (como sugere
Cohen, 1988). A fim de investigar a relação de predição entre a ideação suicida
e a sintomatologia depressiva, recorremos a uma análise de regressão múltipla
hierárquica, para analisar a relação de predição entre a ideação suicida
(medida pelo SIQ) e a sintomatologia depressiva (medida pelo CDI) quando
controlado estatisticamente o efeito do género.
RESULTADOS
Testaram-se as diferenças entre géneros relativamente às variáveis em
estudo,através teste t-Student. No quadro_2 são apresentadas as médias e
desvios-padrão e as diferenças entre o género masculino e o género feminino.
Pela análise do quadro, verificamos que foram encontradas diferenças
significativas entre os grupos em ambas as variáveis. As raparigas apresentam
resultados significativamente mais elevados na sintomatologia depressiva medida
pelo CDI e na ideação suicida medida pelo SIQ.
Não foram detetadas diferenças estatisticamente significativas relativamente à
idade na sintomatologia depressiva [F(4,228)= 2,29; p = 0,60] e na ideação
suicida [F(4,228)= 0,89; p = 0,47]. A presença de ideação suicida na amostra
foi analisada com base no ponto de corte sugerido por Reynolds (1988) para
amostras baseadas na comunidade (= 41). Constata-se que 26 dos 233
adolescentes, ou seja, 10,7% dos adolescentes da amostra apresentaram ideação
suicida. Destes, 20 (76,9%) são raparigas (o que corresponde a 13,61% do total
de raparigas da amostra) e apenas 6 (23,1%) rapazes (o que corresponde a 6,98%
do total de rapazes da amostra). A distribuição dos adolescentes com ideação
suicida, por idade, pode ser observada no quadro_3.
Quanto à presença de sintomatologia depressiva medida pelo CDI, verificamos que
35 (15,02%) dos 233 adolescentes pontuaram acima do ponto de corte de 19.
Destes, 26 (74,3%) são raparigas (o que corresponde a 17,69% do total de
raparigas da amostra) e 9 (25,7%) são rapazes (o que corresponde a 10,47% do
total de rapazes da amostra). O quadro_4 apresenta a distribuição dos
adolescentes com sintomatologia depressiva, por idade.
Comparando a frequência e distribuição dos adolescentes com sintomatologia
depressiva e com ideação suicida significativa, verificamos que a distribuição
por idade e por género obedecem a um padrão muito semelhante. Por exemplo, os
adolescentes de 16 e 17 anos apresentaram as pontuações mais elevadas em ambas
as variáveis; as raparigas apresentaram proporcionalmente mais ideação suicida
e mais sintomatologia depressiva que os rapazes.
3.2. Estudo da relação entre ideação suicida e sintomatologia depressiva
Para estudar a associação entre a sintomatologia depressiva (medida pelo CDI) e
a ideação suicida (medida pelo SIQ) utilizou-se o coeficiente de correlação
Produto-Momento de Pearson. Verificou-se uma correlação positiva e forte
estatisticamente significativa (r(233)= 0,63; p < 0,01). Isto sugere, como
esperado, que níveis mais elevados de ideação suicida se associam a mais
sintomatologia depressiva.
A fim de investigar a ideação suicida enquanto preditora da sintomatologia
depressiva, recorremos a uma análise de regressão linear múltipla, com seleção
das variáveis pelo método hierárquico ou sequencial. A variável género foi
controlada, uma vez que se verificaram diferenças estatisticamente
significativas quanto ao género nas variáveis em estudo. O quadro_5 apresenta o
sumário do modelo de regressão utilizado.
Após a introdução da variável género, o modelo explica 5% da variância da
sintomatologia depressiva. Depois de a ideação suicida ter sido inserida, o
modelo passou a explicar 42% da variância. A introdução da ideação suicida
acrescentou 37% à percentagem de variância explicada, contribuição esta que se
revelou estatisticamente significativa [F(2,230)= 81,73, p <0,001].
No quadro_6, apresentamos os dados que indicam em que medida cada variável
independente incluída no modelo contribui para a predição da variável
dependente, quando a variância explicada pela outra variável é controlada.
Analisando os coeficientes de regressão, verificou-se que ambas as variáveis
contribuem significativamente para a predição da sintomatologia depressiva. No
entanto, a ideação suicida revela uma contribuição bem mais elevada (ß = 0,61;
p < 0,001) do que o género (ß = -0,15; p = 0,002).
DISCUSSÃO
O principal objetivo da presente investigação foi estudar a ideação suicida e a
sintomatologia depressiva e a relação que se estabelece entre ambas, numa
amostra de adolescentes da população geral, tendo sido confirmadas as hipóteses
assumidas. Os resultados obtidos relativamente às diferenças de género
evidenciaram que as raparigas apresentaram níveis mais elevados de
sintomatologia depressiva e ideação suicida (hipótese 1) e são consistentes com
a literatura internacional. Estudos com características semelhantes, ou seja,
que recorrem a medidas de auto-resposta e utilizam amostras comunitárias, têm
encontrado também que os adolescentes do sexo feminino reportam níveis médios
mais elevados de sintomatologia depressiva do que os adolescentes do sexo
masculino (p.e., Brown, Jewell, Stevens, Crawford, & Thompson, 2012;
Roberts, Andrews, Lewinsohn, & Hops, 1990). A investigação também tem
mostrado que a ideação suicida é mais prevalente nas raparigas do que nos
rapazes (Garrison, Addy, Jackson, McKeown, & Waller, 1991; Marcenko,
Fishman, & Friedman, 1999; Lopes, 2012). Há estudos que têm concretizado
análises mais finas sobre as diferenças de género na associação entre
sintomatologia depressiva e ideação suicida (p.e., Allison, Roeger, Martin,
& Keeves, 2001), tendo encontrado resultados curiosos que deixam pistas
para estudos futuros na população portuguesa: o aumento do risco da ideação
suicida nas raparigas não parece aplicar-se em todos os graus de severidade da
sintomatologia depressiva, tendendo a ser significativo apenas nos níveis
moderados de depressão. A presença de ideação suicida poderá ser, assim, um
indicador da severidade da depressão nas raparigas.
Os dados do presente estudo também corroboram os resultados dos estudos
internacionais, no que toca à presença de relações fortes e significativas
entre sintomatologia depressiva e ideação suicida (p.e, Burge & Lester,
2001; Kisch, Leivo, & Silverman, 2005; Konick, & Gutierrez, 2005). No
modelo de regressão múltipla hierárquica, a ideação suicida revelou-se, como
esperado, um forte preditor da sintomatologia depressiva, mesmo controlando a
variável género (hipóteses 3 e 4).
Sabe-se que, em amostras clínicas, a contribuição do género para a
sintomatologia depressiva e para a ideação suicida é significativa, sobretudo
em níveis moderados de sintomatologia depressiva (Allison, Roeger, Martin,
& Keeves, 2001). De realçar ainda a existência de estudos que atestam a
importância do género na ideação suicida quando os adolescentes se encontram
institucionalizados; por exemplo, Brown, Jewell, Stevens, Crawford e Thompson
(2012) encontraram que ser do sexo feminino contribui mais para a ideação
suicida que o facto de estar deprimido.
Quanto à presença de ideação suicida nesta amostra, a percentagem encontrada
(10,7%) está de acordo com as taxas de prevalência observadas noutros estudos
da população geral (Arria et al., 2009; Crow, Eisenberg, Story, & Neumark-
Sztainer, 2008; Lopes, 2012). A taxa encontrada neste estudo é inclusivamente
mais elevada que a encontrada por Dupéré, Leventhal e Lacourse (2009) em
adolescentes canadianos. Realce-se que optamos pelo ponto de corte mais
conservador sugerido pelo autor original do instrumento de medição da ideação
suicida (SIQ = 41). No manual da escala, Reynolds (1988) considera também um
ponto de corte mais baixo, também para amostras não clínicas (SIQ = 30). Caso
tivéssemos optado por esta solução, o número de adolescentes com ideação
suicida seria bem mais elevado.
Estes dados não deixam de ser preocupantes, sobretudo tratando-se de uma
amostra da população geral, ou seja, não clínica. Pouca atenção tem sido dada à
ocorrência de ideação suicida em grupos da comunidade bem como às suas
implicações a longo prazo. Poucos estudos têm investigado as ligações
duradoiras existentes entre a expressão de ideação suicida na adolescência,
particularmente na fase intermédia, e psicopatologia no adulto, ideação e
comportamento suicida e défices no funcionamento ao longo da vida (p.e.,
Reinherz, Tanner, Berger, Beardslee, & Fitzmaurice, 2006).
Os resultados encontrados estão de acordo com a literatura internacional e
corroboram a necessidade de se identificar precocemente sintomatologia
depressiva e ideação suicida nos adolescentes portugueses da população geral, e
de serem desenvolvidas estratégias preventivas e de intervenção na
sintomatologia depressiva na adolescência.
Este estudo comporta várias limitações, pois trata-se de um desenho transversal
e que utiliza instrumentos de auto-resposta. É importante que se realizem
estudos futuros de natureza longitudinal e que utilizem amostras clínicas.