Fisioterapia na autoestima de mulheres com incontinência urinária: estudo
longitudinal
O estudo da autoestima refere-se à avaliação pessoal e subjetiva, que o
indivíduo faz si próprio, e que normalmente mantém, expressando atitudes de
aprovação ou desaprovação em relação a si mesmo, seja de modo positivo ou
negativo, podendo conter julgamentos sociais que as pessoas internalizam
(Bernichon, Cook, & Brown, 2003).
A autoestima refere-se a processos de autoatribuição e de comparação social,
salientando o valor pessoal, constituindo assim uma relação forte com a
identidade, na medida em que, quanto mais os indivíduos valorizarem as suas
capacidades, maior é a probabilidade que têm de se superar a si mesmos,
elevando assim a sua autoestima (Brown, 1993)
A investigação indica ainda que uma elevada autoestima tem implicação social, e
é favorecedora de conforto, ao passo que baixa autoestima constitui um estado
debilitante (Brown & Dutton, 1995). O constructo autoestima é, pois
detentor de um importante papel mediador no comportamento psicológico, social e
físico do indivíduo (Sonstroem, 1997).
Esta avaliação está assim associada a fenómenos de compensação ou
descompensação emocional, podendo englobar diversos auto-esquemas, ou seja, as
pessoas avaliam-se a elas próprias de forma favorável nalguns aspetos, mas não
noutros, significando assim que os auto-esquemas podem influenciar as
perceções, a memória e as inferências acerca da própria pessoa (Taylor &
Armor, 1996)
A autoestima depende do modo como avaliamos as nossas identidades de papéis
específicos, isto é, conceitos do self em papéis específicos e as qualidades
pessoais (Neto, 1999). Segundo Rosenberg (1965), o nosso nível global de
autoestima é o produto destas avaliações individuais, sendo cada identidade
pesada de acordo com a sua importância.
É de salientar que a autoestima constitui uma componente do autoconceito
(Martin-Albo, Nuniez, Navarro, & Grijalvo, 2007; Garcia, Musitu, &
Veiga, 2006). Alguns estudos conceptualizam o autoconceito como uma estrutura
cognitiva contextualizada e dinâmica com funções adaptativas e autorreguladoras
importantes (Diehl, Hastings, & Stanton, 2001). Desempenha um papel
preponderante ao nível individual, uma vez que a ele se ligam motivos,
necessidades, atitudes e sentimentos acerca das capacidades, aparência e
aceitabilidade social próprias do indivíduo, constituindo um elemento nuclear
da personalidade (Bruce, 1996).
Diehl, et al. (2001) acrescentam que o autoconceito é interpretado como uma
estrutura organizada de conhecimentos, características, valores, memórias
episódicas e semânticas acerca do self.
Nos últimos anos, os investigadores têm revelado um interesse crescente no
estudo da incontinência urinária (IU), que sob o ponto de vista de Saúde
Pública, pode ser interpretado como uma realidade crescente e preocupante, que
surge com inevitáveis e importantes repercussões físicas, sociais, psicológicas
e económicas nos mais variados contextos de vida da mulher.
A IU tem sido definida pela International Continence Society como uma condição
na qual a perda involuntária de urina constitui um problema social e/ou
higiénico, podendo ser objetivamente demonstrada. Atualmente, esta definição
deve contemplar qualquer queixa de perda involuntária de urina (Haylen, et al.,
2010).
A IU na mulher implica repercussões negativas nos seus mais variados contextos
de vida, ao nível físico, social, económico e psicológico, nomeadamente a
diminuição da autoestima, estando associada a pudor, embaraço, isolamento
social (Viana, Viana, & Festas, 2005; Viktrup, Koke, Burgio, &
Ouslander 2005)
Vários investigadores, após estudos sobre a problemática da IU nas mulheres,
consideram a fisioterapia uroginecológica, nomeadamente os exercícios dos
músculos do pavimento pélvico, como eletiva no tratamento de qualquer tipo de
manifestação de IU, sendo recomendada como primeira linha de tratamento
(Dumoulin & Hay-Smith, 2010).
O presente estudo tem como objetivo investigar os efeitos da fisioterapia na
autoestima de mulheres com IU, tendo sido estabelecida a seguinte hipótese:
Espera-se encontrar diferenças ao nível da autoestima em mulheres com IU entre
o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo.
Métodos
Participantes
Participaram neste estudo longitudinal e prospetivo 157 mulheres com
diagnóstico clinico de IU, das quais 100 (64%) constituem o grupo experimental
de fisioterapia, seguidas no Serviço de Medicina Física e Reabilitação do
Hospital de São João, e 57 (36%) constituem o grupo de controlo, seguidas na
Consulta Externa da Unidade de Uroginecologia e Reconstrução do Pavimento
Pélvico do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São João.
Selecionamos a amostra por conveniência para facilitar o acesso á população,
tendo avaliado as participantes dos dois grupos antes da intervenção (pré-
teste) e após a implementação de um programa de 12 semanas de fisioterapia
uroginecológica (pós-teste).
De acordo com os objetivos apresentados, foram estabelecidos como critérios de
inclusão: mulheres caucasianas, com diagnóstico clínico de IU de esforço, com
idade superior a 18 anos, de nacionalidade portuguesa, inseridas em condições
normais na comunidade e dispondo de condições para a realização de uma vida
autónoma, e seguidas no Serviço de Medicina Física e Reabilitação e na Consulta
Externa da Unidade de Uroginecologia e Reconstrução do Pavimento Pélvico do
Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São João; como critérios de
exclusão: mulheres que já tivessem sido submetidas a cirurgia uroginecológica,
fisioterapia uroginecológica ou medicação para tratamento da IU, com patologias
graves e perturbações psiquiátricas clinicamente diagnosticadas, com elevado
défice ao nível de competências cognitivas, visuais e motoras, com diagnóstico
de incontinência fecal, prolapsos pélvicos e patologias do sistema nervoso
central, e outras alterações das condições de saúde, que pudessem alterar as
variáveis psicológicas das participantes durante o pré-teste e o pós-teste.
Nos Quadros seguintes apresentamos as características sociodemográficas da
amostra (idade, estado civil, escolaridade, situação profissional, atividade
profissional, situação económica). Assim, podemos observar no quadro_1, as
características sociodemográficas relativas à idade da amostra, onde as
participantes deste estudo apresentam uma média de idade de 51 (DP=13) para o
grupo experimental de fisioterapia e de 54 (DP=11) para o grupo de controlo.
No quadro_2, podemos observar que as participantes de ambos os grupos eram
maioritariamente casadas, e com o ensino básico do 1º ciclo. Relativamente à
situação profissional, as participantes eram, maioritariamente ativas, 51% do
grupo experimental de fisioterapia e 51% do grupo de controlo, no entanto,
destaca-se que, respetivamente, 30% e 33% das participantes eram reformadas.
Relativamente à atividade profissional exercida foi utilizada uma tabela
normativa do nível profissional daClassificação Nacional de Profissões do
Instituto do Emprego e Formação Profissional (Instituto do Emprego e Formação
Profissional, 2001).
Podemos observar ainda que a maioria das participantes do grupo experimental de
fisioterapia são trabalhadoras não qualificadas (23%), enquanto a maioria das
mulheres do grupo de controlo são operárias, artífices e trabalhadoras
similares (33%).
No que concerne à situação económica, observamos que a maioria das
participantes revelou estar satisfeita com a mesma, quer as do grupo
experimental de fisioterapia (61%) quer as do grupo de controlo (53%).
Material
Aplicamos a Escala de Autoestima Global e o Questionário para a identificação
de características sociodemográficas, que passaremos a enunciar e explicitar.
A escala de auto ' estima global para adultos de Rosenberg (The Rosenberg Self-
Esteem Scale) foi desenvolvida por Rosenberg (1965), tendo sido adaptada para a
população portuguesa por Neto (1996), cuja versão foi utilizada no nosso
estudo.
A versão original desta escala revelou-se um instrumento com qualidades
psicométricas amplamente reconhecidas e satisfatórias, sendo largamente
utilizada no contexto internacional e nacional (Neto, 2002; Neto, 2008). Este
instrumento é considerado uma medida unidimensional, englobando 10 itens que
avaliam a autoestima global, sendo estes subdivididos em 5 itens, indicadores
de atitudes positivas e outros 5 itens, indicadores de atitudes negativas, cada
um deles com diferentes categorias de resposta que registam as atitudes globais
acerca do self. Exemplos de itens desta escala são: Sinto que tenho boas
qualidades e Às vezes penso que não presto para nada. Os itens negativos e
positivos não foram apresentados consecutivamente para tornar a estrutura da
escala menos transparente, reduzindo o viés de resposta direcionada.
Para cada questão existem quatro possibilidades de resposta numa escala tipo
Likert, pedindo-se aos sujeitos para se avaliarem numa escala, que utiliza
quatro alternativas de resposta: desde totalmente em desacordo (1) a
totalmente em acordo (4). A cotação dos itens negativos foi invertida. Os
scores obtidos variam entre 10 e 40. Assim, quanto mais elevados forem os
resultados obtidos maior é a autoestima global dos sujeitos.
Este instrumento é considerado um dos melhores instrumentos na avaliação da
autoestima global, sendo uma das primeiras medidas do conceito global do eu,
e impulsionadora da avaliação moderna do autoconceito, como sendo uma
organização de partes e componentes organizados hierarquicamente e
interrelacionados de modo complexo. Integramos também um conjunto de variáveis
sociodemográficas de resposta fechada, que se pretende assumir como uma medida
objetiva das condições de vida dos participantes. As variáveis
sociodemográficas foram avaliadas através de um questionário que recolheu
informação no sentido de caracterizar a amostra, nomeadamente, a idade, o
estado civil, a escolaridade, a situação profissional, a atividade
profissional, a situação económica.
Procedimento
O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética do Hospital de São João. Obtivemos
o consentimento das mulheres para participar no estudo através do preenchimento
voluntário do questionário e da declaração de consentimento informado,
considerando os princípios éticos estabelecidos pela Declaração de
Helsínquia. Os instrumentos foram aplicados às participantes do grupo
experimental de fisioterapia, antes e 12 semanas depois do programa de
fisioterapia uroginecológica, assim como às do grupo de controlo, respeitando a
sua completa liberdade de participarem ou não na investigação e garantindo-lhes
a absoluta confidencialidade das respostas.
É de referir que o conjunto dos instrumentos foi constituído por uma breve
explicação do objetivo geral do estudo, das tarefas a realizar e do
procedimento de preenchimento, assim como a declaração de consentimento
informado. Às participantes, o pedido de colaboração foi justificado como sendo
um contributo para um estudo em curso, visando medir as reações das pessoas
perante a sua vida e a sua condição clínica.
Após a recolha de dados, procedeu-se ao seu registo e ao respetivo tratamento
estatístico, utilizando o programa informático Statistical Package for Social
Science (SPSS), na versão 18.0® para Windows. As variáveis contínuas são
descritas através da apresentação da média, desvio-padrão, mediana e valor
mínimo- valor máximo. As variáveis categóricas são descritas através de
frequências absolutas e relativas para cada categoria. Foram testadas hipóteses
sobre a distribuição de variáveis contínuas com distribuição não normal,
através da utilização do teste não paramétrico de Mann-Whitney. O nível de
significância considerado foi de 5%.
Resultados
No que diz respeito à autoestima das mulheres com IU no pré-teste, podemos
verificar no quadro_3, uma equivalência de médias, sendo que a média
ligeiramente mais elevada (29,56 e DP=4,19) corresponde às mulheres do grupo de
controlo e a média ligeiramente mais baixa (29,09 e DP=4,91) mas muito similar
à anterior, corresponde às mulheres do grupo experimental de fisioterapia.
Constatamos assim, através da análise de variância, que no pré-teste não se
verificam diferenças estatisticamente significativas relativamente às médias de
autoestima das mulheres com IU entre o grupo experimental de fisioterapia e o
grupo de controlo.
No entanto, podemos constatar, no quadro_3, no pós-teste, relativamente à
autoestima das mulheres com IU, que a média mais elevada mais elevada (34,64 e
DP=4,00) corresponde às mulheres do grupo experimental de fisioterapia,
enquanto a média mais baixa (27,61 e DP=5,48) corresponde às mulheres do grupo
de controlo. Constatamos assim, diferenças estatisticamente significativas
relativamente às médias da autoestima das mulheres entre o grupo experimental
de fisioterapia e o grupo de controlo (p<0,001). Deste modo, no pós-teste, é de
atender ao efeito benéfico do programa de fisioterapia uroginecológica sobre a
autoestima das mulheres.
No que diz respeito à variação da autoestima das mulheres com IU entre o grupo
de experimental de fisioterapia e o grupo de controlo, entre o pós-teste e o
pré-teste, podemos verificar no quadro_3, que a média mais elevada (5,56 e
DP=3,35) corresponde às mulheres com IU do grupo experimental de fisioterapia,
enquanto a média mais baixa (-1,84 e DP=3,80) corresponde às mulheres com IU do
grupo de controlo. Constatamos assim, que relativamente à variação entre o pré-
teste e o pós-teste, verificamos diferenças estatisticamente significativas
relativamente às médias da autoestima das mulheres entre o grupo experimental
de fisioterapia e o grupo de controlo (p<0,001).
Discussão
O presente estudo teve como preocupação fundamental investigar os efeitos da
fisioterapia na autoestima em mulheres com IU, entre o grupo experimental de
fisioterapia e o grupo de controlo. A hipótese formulada inicialmente foi
confirmada, dado que existem diferenças estatisticamente significativas em
relação à autoestima das mulheres com IU entre o grupo experimental de
fisioterapia e o grupo de controlo, podendo-se verificar que o tratamento de
fisioterapia uroginecológica promoveu efeitos benéficos sobre a autoestima das
mulheres com IU. Os resultados estão em consonância com os de investigações
anteriores que examinaram a autoestima em mulheres com IU e encontraram aí
diferenças significativas entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo
(Alewijnse, Mesters, Metsemakers, Adriaans, & van den Borne, 2001; Ashworth
& Hagan, 1993; Berghmans, Bernards, Hendriks, & Bo, 1999; Lagro-
Janssen, Debruyne, Smits, & van Weel, 1992). Os resultados ainda são
corroborados por Viana, et al. (2005), que ao investigarem a influência da
fisioterapia uroginecológica na promoção da autoestima em 113 mulheres com IU,
num estudo transversal com dois grupos independentes de mulheres com IU,
efetuado em Portugal, com um grupo de intervenção, submetido a fisioterapia
uroginecológica e um grupo de controlo, sem fisioterapia uroginecológica,
obtiveram diferenças estatisticamente significativas entre o grupo de
intervenção e o grupo de controlo, cujos resultados traduziram-se num aumento
dos níveis de autoestima no grupo das mulheres submetidas ao tratamento de
fisioterapia uroginecológica, contribuindo para uma melhor integração
psicossocial.
Assim, as implicações da especificidade desta área devem ser discutidas em
equipa pluridisciplinar, salientando a relevância da intervenção do
fisioterapeuta na otimização da qualidade das relações mais significativas e
promoção da autoestima das mulheres com IU.