Risco e resiliência em adolescentes com necessidades educativas especiais:
Desenvolvimento de um programa de promoção da resiliência na adolescência
Ao longo da vida, todos nos debatemos no dia-a-dia com situações mais ou menos
difíceis que ameaçam o nosso equilíbrio. Estas situações surgem nos mais
variados contextos. Em alguns casos é possível evitar o confronto com estes
problemas. Contudo, em algumas situações torna-se inevitável o confronto com
alguns destes acontecimentos e consequentemente o surgimento de problemas que
podem provocar um desequilíbrio no nosso bem-estar físico e mental (Simões,
2005, 2007). Quando conseguimos dar uma resposta positiva aos problemas que
surgem na nossa vida, isto é, quando conseguimos lidar com sucesso com a
adversidade, pode-se dizer que somos resilientes (Garmezy, 1999; Masten, et
al., 1999; Rutter, 1996;Werner & Smith, 2001). Nas crianças e adolescentes,
o atributo de resiliente envolve a capacidade de ultrapassar factores de risco
aos quais estão expostas e, consequentemente, o evitar de consequências
negativas, tais como, problemas de comportamento, problemas emocionais ou
dificuldades académicas (Hauser, Vieyra, Jacobson, & Wertreib, 1985).
A resiliência constitui, por definição, uma qualidade elástica que envolve a
capacidade de distender sob o efeito do stress e depois voltar ao normal
(Garmezy, 1993, 1999). A resiliência parece assim ser um processo dinâmico e
não necessariamente uma capacidade excepcional que nos torna transcendentes ou
invulneráveis à adversidade (Beauvais & Oetting, 1999; Pereira, 2001;
Ralha-Simões, 2001). A resiliência permite uma maior capacidade de adaptação às
situações possibilitando deste modo um continuado ajuste às circunstâncias da
vida, mesmo as menos favoráveis (Benard, 1999; Callahan, Rogé, Cardénal,
Cayrou, & Sztulman, 2001). As pessoas resilientes apresentam um conjunto
de características que lhes permitem ultrapassar diversas situações, mais ou
menos difíceis mantendo o equilíbrio necessário para um bom funcionamento
físico, mental e social, nomeadamente: capacidade de tomada de decisões,
capacidades de comunicação, assertividade, empatia, autocontrolo, auto-estima,
auto-eficácia, optimismo, bom humor, disponibilidade, autenticidade,
flexibilidade, inteligência, criatividade, e boa saúde física e mental (Gore
& Eckenrode, 1996; Grotberg, 1997; Masten, 1999; McWhirter, McWhirter,
McWhirter, & McWhirter, 1998; Werner & Johnson, 1999). Para além destas
características, que podem ser considerados como factores de protecção
individuais, outros aspectos fazem com que a nossa resposta a estas situações-
problema seja mais ou menos eficaz, nomeadamente: a presença de factores de
protecção familiares e comunitários, a existência de múltiplos factores de
stress, a forma como se percebe o problema, o confronto anterior com a
adversidade, e a própria situação, o contexto e o momento em que esta tem lugar
(Garmezy, 1987; Grotberg, 1998; Luthar, Cicchetti, & Becker, 2000; Rutter,
1987; Simões, et al., 2007).
A resiliência surge assim como um processo importante ao longo de toda a nossa
vida e em particular nos momentos ou etapas em que o confronto com situações
difíceis se coloca de forma significativa (Simões, et al., no prelo). A
adolescência é uma destas etapas. Múltiplas transformações, a nível físico,
cognitivo, emocional e social, ocorrem neste momento da vida. Para além de
todas estas transformações, às quais os adolescentes têm que se adaptar, novos
desafios se colocam. E são múltiplos os desafios a vencer: a adaptação a toda
uma nova condição biológica, a conquista de uma nova autonomia, o
estabelecimento de novas relações interpessoais próximas e duradouras, a
progressão académica, entre outros. Para além destes desafios, o adolescente
precisa ainda, tal como todo o ser humano, de se sentir valorizado como pessoa,
estabelecer um lugar num grupo produtivo, sentir-se útil para os outros, dispor
de sistemas de suporte e saber usá-los, fazer escolhas informadas e acreditar
num futuro com oportunidades reais. Ultrapassar estes desafios e preencher
estas necessidades tornam-se requisitos necessários para que os adolescentes se
tornem adultos saudáveis e produtivos (Carnegie Corporation of New York, 1995).
Alguns adolescentes, como são o caso dos adolescentes com Necessidades
Educativas Especiais, poderão ter mais dificuldades para ultrapassar estes
desafios, especialmente quando o seu ambiente não constitui um elemento
facilitador desta tarefa (Simões, Matos, Tomé, & Ferreira, 2008). Vários
estudos têm mostrado que estas dificuldades parecem ser reais. O estudo
realizado por Anderson e Clark (1982), envolvendo adolescentes com deficiência
motora, evidenciou que estes revelam falta de controlo sobre as suas vidas,
falta de independência, falta de preparação para a vida adulta, dificuldades de
adaptação na transição da escola para a vida activa e isolamento social.
O estudo do Health Behaviour in School - aged Children / Organização Mundial de
Saúde (HBSC/OMS) realizado em Portugal (Matos & Equipa do Projecto Aventura
Social, 2003) mostrou que os adolescentes que referem ter problemas de saúde
(deficiência ou doença crónica), e que frequentam o ensino regular, consideram
ser mais frequentemente ser vítimas de bullying, ficar sozinhos na escola,
sentir-se menos felizes e ter mais sintomas físicos e psicológicos, em
comparação com os adolescentes que referem não ter este tipo de problemas.
Perante este cenário torna-se fundamental intervir o mais cedo possível
(European Agency for Development in Special Needs Education, 2004; Simões,
2000), promovendo factores de protecção que permitam a estes adolescentes lidar
com sucesso com os desafios ou com as adversidades que se lhes colocam. Para
que esta intervenção seja mais eficaz torna-se fundamental a pesquisa dos
factores associados a este processo junto dos adolescentes com NEE. Neste
sentido foi desenvolvido o projecto “Risco e resiliência em adolescentes com
necessidades educativas especiais” ( Projecto financiado pela Fundação para a
Ciência e Tecnologia /Ministério da Ciência e do Ensino Superior – Projecto
RIPD/PSI/63669/2005 (Abril 2006-2008) que teve como objectivos conhecer os
comportamentos e estilos de vida dos adolescentes com necessidades educativas
especiais, e desenvolver um programa direccionado para a promoção da saúde e
resiliência direccionado para pais, professores e outros técnicos.
MÉTODO
Para a concretização dos objectivos acima mencionados, o projecto “Risco e
resiliência em adolescentes com necessidades educativas especiais”, envolveu
quatro tarefas:
- Aplicação de um questionário aos adolescentes com NEE de forma a conhecer os
factores e comportamentos associados à saúde e à resiliência – Estudo
Quantitativo;
- Disseminação dos resultados obtidos através da realização de encontros
regionais e de grupos de discussão (focusgroups) envolvendo os adolescentes com
NEE – Estudo Qualitativo;
- Desenvolvimento de um programa de intervenção direccionado para pais,
professores e outros técnicos, tendo como base a promoção da saúde e da
resiliência;
- Formação de pais e técnicos no âmbito do programa desenvolvido, de forma a
possibilitar a sua participação activa nestes processos.
Estudo Quantitativo
A primeira fase do estudo, de cariz quantitativo, envolveu, tal como previsto,
a construção, aplicação e análise de questionários na área da saúde e
resiliência, aplicados aos alunos com NEE de carácter prolongado. O
questionário englobou questões sociodemográficas, bem como um conjunto de
questões relacionadas com os comportamentos e estilos de vida dos adolescentes
(consumo de tabaco, álcool e drogas, hábitos alimentares, violência, ambiente
escolar, expectativas futuras, bem-estar e apoio familiar, sintomas físicos e
psicológicos, imagem corporal). As questões relacionadas com os comportamentos
e estilos de vida faziam parte do questionário do estudo “Health Behaviour in
School-aged Children” (HBSC), estudo colaborativo da Organização Mundial de
Saúde (Currie, Smith, Boyce, & Smith, 2001) realizado em Portugal pela
Equipa do Projecto Aventura Social desde 1998 (Matos & Equipa do Projecto
Aventura Social, 2003; Matos, Simões, Carvalhosa, Reis, & Canha, 2000;
Matos, et al., 2006). Para além destas questões, o questionário do estudo
"Risco e Resiliência emAdolescentes com Necessidades Educativas Especiais”
apresentava um conjunto de questões relacionadas com a resiliência, que
englobam uma escala de acontecimentos de vida “Life Events Checklist” (Johnson,
1986), uma escala de resiliência “Módulo de Resiliência/Califórnia Healthy Kids
Program Office (CHKS, 2000) e a subescala do autoconceito da escala de saúde
mental “Beck Youth Inventories for children and adolescents” (Beck, Beck, &
Jolly, 2001). Foi também utilizada a escala de bem-estar global “Mental Health
Index” (Gaspar & Matos, 2008).
De todo o país, foram seleccionadas aleatoriamente 143 escolas do ensino
regular, através da lista nacional do Ministério de Educação estratificada
pelas cinco regiões escolares (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e
Algarve). Estas escolas foram posteriormente contactadas telefonicamente para
obter a confirmação da sua disponibilidade para colaborar no estudo.
Para cada escola foi enviado um envelope com 10 questionários e uma carta
dirigida aos Serviços Especializados de Apoio Educativo com o objectivo de
explicar o procedimento e informar os professores sobre as instruções de
aplicação do questionário. O tempo de aplicação foi de aproximadamente 90
minutos. Da totalidade de questionários enviados para as cinco regiões do país,
foi obtida uma taxa de respostas 53,8% das escolas. Em relação aos alunos foi
obtida uma taxa de resposta de 34,5%. No total participaram no estudo
quantitativo 494 sujeitos (57,7% do género masculino e 42,3% do género
feminino) com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos de idade (M=14,36;
DP=2,33). No que diz respeito aos problemas apresentados, 23,7% dos
adolescentes referiram ter dificuldades de aprendizagem, 9,7% uma deficiência
motora, 9,5% um problema na fala, linguagem ou comunicação, 6,7% uma
deficiência visual, 5,5% uma deficiência auditiva e 8,1% uma doença crónica.
Cerca de um quarto dos alunos referiram não ter problemas e cerca de um décimo
referiu ter outros problemas, como, por exemplo, perturbações do
desenvolvimento.
Os dados obtidos no estudo foram analisados em função de variáveis como o
género e a idade dos adolescentes e comparados com os resultados obtidos no
estudo HBSC/OMS (Matos et al., 2006) tendo como objectivo verificar as
diferenças entre os adolescentes com e sem NEE.
Estudo Qualitativo
O estudo qualitativo teve como objectivo um aprofundamento dos dados obtidos no
estudo quantitativo, de modo a permitir uma compreensão mais detalhada das suas
atitudes, percepções e crenças e o modo como isso afecta os seus comportamentos
relacionados com a saúde e a sua resiliência.
Para a concretização deste objectivo realizaram-se cinco encontros, um encontro
por região, numa escola de cada uma das cinco regiões participantes no estudo.
A selecção das escolas para a realização do encontro teve como critérios a
participação no estudo quantitativo, o facto de reunir o maior número de alunos
com NEE participantes e por último a localização geográfica de forma a ser
central na região educativa a que pertencia. Foram convidadas a participar no
encontro todas as outras escolas da região, bem como os pais dos alunos com NEE
e outras instituições comunitárias que desenvolviam trabalho no âmbito das NEE.
Esta tarefa envolveu também a realização de grupos focais, que consistiu na
realização de entrevistas colectivas (Calderon, Baker, &Wolf, 2000), que
tiveram como objectivo recolher e debater diferentes opiniões dos adolescentes
com NEE sobre questões relacionadas com o risco e protecção na saúde e
resiliência, permitindo deste modo contextualizar os resultados do estudo
quantitativo. Participaram neste estudo 33 alunos com NEE de ambos os géneros,
com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos. Estes alunos integraram 5
grupos focais com uma média de 6 sujeitos em cada grupo. Cada um dos grupos
abrangia alunos com características heterogéneas ao nível do género, idade e
necessidades especiais. No que diz respeito à distribuição pelas regiões do
país (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) verificou-se
uma distribuição relativamente equitativa dos alunos.
Após a realização dos grupos focais, as entrevistas foram gravadas em sistema
de áudio e transcritas. Foi utilizada uma metodologia qualitativa, a análise de
conteúdo, na análise das entrevistas dos participantes nos grupos focais.
Assim, os dados provenientes da segunda fase do estudo, foram alvo de uma
análise de conteúdo: definição de categorias, codificação e registo de exemplos
ilustrativos de cada categoria identificada.
Programa de Promoção da Saúde e Resiliência
A terceira etapa do projecto em análise, consistiu na concepção de um programa
de promoção de factores aliados à saúde e à resiliência para adolescentes com
NEE, fundamentando-se em aspectos teóricos obtidos através de referências
bibliográficas na área da saúde e da resiliência, bem como aspectos empíricos
obtidos nos estudos quantitativo e qualitativo realizados nas fases anteriores.
Formação de Pais e Técnico
Procedeu-se, na etapa seguinte, à realização de um conjunto de acções de
formação cujos alvos foram pais, professores e outros agentes educativos por
serem os intervenientes directos na vida dos adolescentes e, como tal, uns dos
principais factores aliados à sua saúde e resiliência. A divulgação foi feita a
partir de cada uma das escolas que participou no estudo qualitativo (uma escola
por região) para todas as restantes escolas da região participantes no estudo
quantitativo, bem como para outras organizações que de algum modo estivessem
ligadas à problemática da deficiência. As acções de formação foram abertas a
toda a comunidade educativa, contudo a principal destinatária foi a população
com ligação mais directa aos adolescentes com necessidades educativas
especiais, na sua maioria professores responsáveis pelos apoios educativos, ou
com um elevado número de alunos com estas necessidades, e ainda pais de
adolescentes com NEE.
Foram realizadas cinco acções de formação distribuídas pelas cinco regiões
educativas do país, cada uma com uma média de 15 participantes presentes (na
sua maioria professores e pais). A acção de formação teve uma duração de 10
horas repartidas por 2 ou 3 dias (em função do local da formação). Para além da
componente teórica sobre as áreas da Adolescência, Necessidades Educativas
Especiais e Resiliência, a acção de formação apresentava uma forte componente
prática orientada para a promoção de factores de protecção na saúde e
resiliência, implementada através de dinâmicas de grupo como, por exemplo,
dramatizações, actividades de comunicação, de cooperação, discussão e reflexão.
RESULTADOS
Estudo Quantitativo
Apresenta-se de seguida a análise das diferenças entre diferentes grupos de
adolescentes com NEE (rapazes e raparigas, mais novos e mais velhos);
posteriormente determinam-se as diferenças entre grupos de adolescentes com NEE
e sem NEE e por fim os factores de protecção associados ao bem-estar global dos
adolescentes com NEE.
Os resultados do estudo quantitativo mostram que os adolescentes com NEE passam
por etapas de desenvolvimento semelhantes às dos adolescentes sem NEE. De um
modo geral, os rapazes têm maior tendência para comportamentos de risco, como o
envolvimento em lutas e o consumo de drogas ilícitas, e as raparigas apresentam
mais sintomas psicológicos e uma maior tendência para problemas com a sua
imagem corporal (ver Quadro 1). Mais concretamente verificou-se que os rapazes
praticam mais actividade física, envolvem-se mais frequentemente em lutas,
falam mais facilmente com o pai, sentem menos pressão com os trabalhos de casa,
sentem-se mais frequentemente bem e em forma, cheios de energia, capazes de
fazer actividades que gostam nos tempos livres, têm mais tempo para eles,
sentem-se menos frequentemente tristes e sozinhos, consomem mais colas e outros
refrigerantes, afirmam mais vezes que os colegas os aceitam como são e passam
mais horas a jogar playstation. As raparigas fazem mais dieta, referem mais
frequentemente que alterariam alguma coisa no corpo, gostam mais da escola,
passam mais horas a fazer os trabalhos de casa e referem menos frequentemente
que têm uma saúde excelente.
Quadro 1
Diferenças entre géneros
A análise das diferenças em função da idade (ver Quadro 2) mostraram que os
adolescentes mais novos praticam mais actividade física, envolvem-se mais em
lutas, falam mais facilmente com o pai, consideram mais frequentemente que os
professores acham as suas capacidades académicas muito boas, sentem-se mais
vezes bem e em forma, cheios de energia, têm mais tempo para eles próprios,
fazem mais actividades que gostam, divertem-se mais com os amigos, provocaram
mais vezes os colegas na escola e têm melhor percepção da sua saúde. Por outro
lado, os adolescentes mais velhos referem mais frequentemente um consumo
regular de tabaco, de bebidas alcoólicas e de marijuana, sentem-se mais vezes
tristes e sozinhos, estão mais tempo na Internet, e referem ainda mais
frequentemente que gostariam de alterar alguma coisa no corpo e que já tiveram
relações sexuais.
Quadro 2
Diferenças entre grupos etários
No entanto, quando se comparam os adolescentes com NEE e os adolescentes sem
NEE, as diferenças tornam-se mais evidentes, essencialmente na relação com a
família, escola e pares (ver Quadro 3). No geral os adolescentes com NEE
revelam mais dificuldades na comunicação com os pais, na relação com os pares e
maiores dificuldades na escola. Mais concretamente, os adolescentes com NEE
praticam menos actividade física, têm menos amigos, afirmam mais frequentemente
que os professores consideram que eles têm uma capacidade académica inferior à
média, referem menos frequentemente que se sentem felizes e mais que se sentem
tristes ou sozinhos, são mais vezes provocados na escola, sentem mais pressão
com os trabalhos de casa e têm pior percepção da sua saúde.
Quadro 3
Diferenças entre adolescentes com NEE e sem NEE
Os resultados deste estudo vieram ainda revelar a existência de uma relação
negativa e significativa entre os acontecimentos de vida negativos (AVN) e o
bem-estar global (F(2,425)=4.04, p<.05). A análise mais detalhada, tendo em
atenção diversos níveis de acontecimentos de vida (nenhuns, poucos ou muitos),
mostrou que perante muitos acontecimentos de vida os adolescentes parecem ficar
especialmente vulneráveis dado que se verifica uma quebra nos seus níveis de
bem-estar na presença de múltiplos acontecimentos de vida. Em relação a este
aspecto, este estudo mostrou que todos os recursos externos (família, escola,
comunidade, pares), recursos internos, bem como o autoconceito, constituem
factores de protecção para o bem-estar, dado que os adolescentes com níveis
mais elevados de recursos apresentam também níveis mais elevados de bem-estar.
No entanto, verificou-se que apenas os recursos na família (ver Gráfico 1) e o
autoconceito (ver Gráfico 2) apresentam um efeito moderador do impacto dos
acontecimentos de vida negativos no bem-estar geral, dado que apenas estes
factores parecem manter os níveis de bem-estar independentemente dos níveis de
acontecimentos de vida negativos. Mais concretamente verificou-se um efeito
principal dos recursos na família (F(1,375)=42.59, p<.001) e dos acontecimentos
de vida negativos (F(2,375)=4.46, p<.05) no bem-estar global. O efeito
principal dos recursos na família mostrou que existem diferenças ao nível do
bem-estar global em função dos níveis de recursos na família: os adolescentes
com mais recursos na família apresentaram valores mais elevados de bem-estar
(M=36.08, DP=.51) comparativamente com os adolescentes que referiram níveis
mais baixos de recursos na família (M=31.58, DP=.46). O efeito principal dos
acontecimentos de vida negativos mostrou que existem diferenças ao nível do
bem-estar global em função dos níveis de acontecimentos de vida negativos: os
adolescentes que não tiveram acontecimentos de vida negativos (M=34.51, DP=.52)
e os adolescentes que tiveram poucos acontecimentos de vida negativos nos
últimos 12 meses (M=34.82, DP=.40) apresentaram valores mais elevados de bem-
estar comparativamente com os adolescentes que tiveram muitos acontecimentos de
vida negativos (M=32.16, DP=.80). Estes efeitos principais foram qualificados
por uma interacção significativa entre os dois factores em estudo (F
(2,375)=4.88, p<.01). Os adolescentes com níveis elevados de recursos na
família mantêm os seus níveis de bem-estar global na ausência de acontecimentos
de vida negativos (M=36.00, DP=.80), ou na presença de poucos (M=36.07, DP=.59)
ou muitos acontecimentos de vida negativos (M=36.17, DP=1.17), enquanto os
jovens com baixos recursos na família diminuem significativamente os níveis de
bem-estar global na presença de muitos acontecimentos de vida negativos
(M=28.16, DP=1.10) comparativamente com os adolescentes com poucos (M=33.57,
DP=.53) ou nenhuns acontecimentos de vida negativos (M=33.03, DP=.66).
Gráfico 1
Análise da relação entre acontecimentos de vida negativos, bem-estar global
(BE) e os recursos na família
Gráfico 2
Análise da relação entre acontecimentos de vida negativos, bem-estar global
(BE) e o auto-conceito
Foi ainda possível verificar o efeito moderador do auto-conceito na relação
entre os acontecimentos de vida negativos e o bem-estar global. O efeito
principal do autoconceito (F(1,348)=57.98, p<.001) mostrou que existem
diferenças ao nível do bem estar global em função do auto-conceito: os
adolescentes com níveis mais elevados do auto-conceito apresentaram valores
mais elevados de bem-estar (M=35.93, DP=.46) comparativamente com os
adolescentes que referiram níveis mais baixos do auto-conceito (M=30.42,
DP=.56). O efeito principal dos acontecimentos de vida negativos (F
(2,348)=5.04, p<.01) mostrou que existem diferenças ao nível do bem estar
global em função dos níveis de acontecimentos de vida negativos: os
adolescentes que não tiveram acontecimentos de vida negativos (M=33.90, DP=.56)
e os adolescentes que tiveram poucos acontecimentos de vida negativos nos
últimos 12 meses (M=34.28, DP=.41) apresentam valores mais elevados de bem-
estar comparativamente com os adolescentes que tiveram muitos acontecimentos de
vida negativos (M=31.34, DP=.83). Estes efeitos principais foram qualificados
por uma interacção significativa entre os dois factores em estudo (F
(2,348)=4.17, p<.05). Os adolescentes com níveis elevados de auto-conceito
mantêm os seus níveis de bem estar global na ausência de acontecimentos de vida
negativos (M=35.68, DP=.66), ou na presença de poucos (M=36.26, DP=.48) ou
muitos acontecimentos de vida negativos (M=35.83, DP=1.12), enquanto os jovens
com níveis mais baixos de auto-conceito diminuem significativamente os níveis
de bem-estar global na presença de muitos acontecimentos de vida negativos
(M=26.85, DP=1.23) comparativamente com os adolescentes com poucos (M=32.29,
DP=.67) ou nenhuns acontecimentos de vida negativos (M=32.11, DP=.90).
Estudo Qualitativo
Os resultados obtidos no estudo qualitativo, realizado apenas com adolescentes
com NEE, vão ao encontro dos resultados obtidos no estudo quantitativo.
Analisando cada uma das temáticas abordadas (comportamentos relacionados com a
saúde, ambiente familiar, relações com os pares e ambiente escolar), foi
possível verificar que os adolescentes com NEE referem interesses, necessidades
e problemas apontados como comuns durante esta etapa da vida. Concretamente, no
campo dos comportamentos associados à saúde, verificou-se que ao nível da
alimentação, consumo de substâncias, tempos livres, sexualidade e sintomas
psicológicos as questões levantadas envolvem de um modo geral uma alimentação
pouco equilibrada, a experimentação de substâncias, envolvimento em
comportamentos de bullying, o preenchimento dos tempos livres com actividades
sedentárias, como ver televisão e jogar computador, problemas emocionais e
problemas com a imagem do corpo, e a iniciação da actividade sexual.
As frases que se seguem foram extraídas da discussão realizada com os
adolescentes e ilustrativas das questões acima mencionadas:
“Às vezes como muitos doces... doces, esparguete com hambúrgueres e
batatasfritas, é isso”
"Vejo televisão, as minhas novelas...”,
“Eu quero emagrecer, ando em dieta..”
“Eu, bebo, mas é só mais ou menos nas festas, quando o meu pai não está a ver”.
“Essas pessoas (adolescentes com NEE) quando se sentem tristes ou sozinhas é de
ser gozadas, elas querem ficar um pouco sozinhas para pensar um pouco na vida,
eu no meu caso nunca pensei nesse caso, nunca senti, só um pouco, às vezes, de
vez em quando, mas nunca fico muito tempo triste como alguns ficam...”
“Eu acho que depende porque é assim, eu encaro a minha deficiência bem, mas há
pessoas que se calhar não encaram tão bem e por isso ficam tristes…”
“Os que têm apoio são mais provocados que os que não têm. Eu acho que isso está
mal”.
“... eu sou virgem e a minha relação sexual há-de ser com uma rapariga que eu
goste e que eu tenha a certeza que ela gosta de mim”
“Eu não falo de sexo, nem com os amigos, nem com as amigas. Com ninguém”
“Eu acho que as pessoas quando fazem relações sexuais têm de ter cuidado, não
correr riscos e depois os mais novos têm de ter mais cuidado”
A importância das relações interpessoais nos vários contextos de vida foi
também um importante tema de debate. Durante a adolescência as interacções
sociais estendem-se do núcleo familiar para outros contextos sociais com os
seus pares e outros adultos. À semelhança do que foi verificado no estudo
quantitativo, também neste estudo se tornou saliente o facto dos adolescentes
com NEE possuírem, de um modo geral, menos amigos que os adolescentes sem NEE,
bem como o facto dos adolescentes com NEE valorizarem bastante a escola.
“Os que não têm apoio têm mais (amigos)”
“Eu acho que é, pronto, como já disse os amigos que tenho são os meus colegas
de turma, os meus colegas de escola, mas depende, isto é assim, às vezes há
quem seja simpático e até ajude as pessoas com deficiência e depois há aquelas
que olham para o deficiente e olham logo para o outro lado. Mas eu acho que,
pronto, ao se ter deficiência também se pode ter amigos. Eu acho”.
“Eu, no meu caso, eu gosto muito da escola. Quando acabar o 12º ano não sei
como é que vai ser, tenho de arranjar um emprego porque senão vai ser muito mau
para mim… mas isso é um bocado mais complicado. É porque é assim, eu gosto
muito da escola mas na faculdade há muitas complicações e depois estou longe de
casa…”
“Há quem ache a escola uma seca, há quem não goste, há quem goste, mas acho que
a escola é importante para o futuro”
“Gosto muito de estar na escola”
Programa de Promoção da Saúde e Resiliência
Na base da construção do programa e definição das suas componentes encontra-
se: (1) o modelo de Benard (1999), que serviu também de suporte à escala de
resiliência que fazia parte do questionário aplicado aos adolescentes com NEE,
acima reportada; (2) os dados empíricos obtidos nos estudos realizados no
âmbito do projecto, e que apontam para a importância dos recursos externos
(família, pares, escola, comunidade) e dos recursos internos (competências
pessoais e sociais) como factores de protecção para o bem-estar e saúde dos
adolescentes com NEE. Neste contexto destacam-se ainda a importância dos
recursos na família e do autoconceito que se revelaram verdadeiros factores de
resiliência dado conseguirem manter os níveis de bem-estar destes adolescentes
face a níveis elevados de adversidade; (3) a experiência da equipa de
investigação do projecto na implementação de programas de promoção de
competências pessoais e sociais em diversos contextos.
O programa desenvolvido centrou-se na promoção de competências pessoais e
sociais determinantes para autonomia, resiliência e inclusão dos jovens com NEE
e apresenta 10 componentes, organizadas em dois grupos (Simões, Matos, Tomé,
Ferreira, & Equipa do Projecto Aventura Social, 2009):
- Recursos externos (família, pares, escola, comunidade)
- Ligações afectivas
- Expectativas elevadas
- Oportunidades de participação
- Recursos internos
- Cooperação e comunicação
- Empatia
- Resolução de problemas
- Auto-eficácia
- Autoconhecimento
- Objectivos e aspirações
-Auto-estima
Formação de Pais e Técnicos
A avaliação das acções de formação, efectuada através de questionários de auto-
preenchimento realizados no final de cada uma das acções, mostrou que a maioria
dos participantes considerou a formação foi muito interessante e muito útil
(cerca de 60%) sendo que os restantes referiram que a formação foi interessante
e útil. Mais de 97% dos participantes referiram ainda que gostaram muito da
acção de formação. No que diz respeito ao nível de satisfação com as diversas
componentes da formação, a maioria dos participantes referiu ter gostado muito
das várias componentes, com especial destaque para a introdução/apresentação,
bem como da discussão final.
Em relação aos conhecimentos adquiridos, verificou-se que a maioria dos
formandos reportou ter adquirido conhecimentos nas áreas da adolescência e da
resiliência. No que diz respeito ao nível de competências após a frequência da
acção, praticamente a totalidade dos participantes (94% a 100%) referiu estar
mais preparado para ajudar os adolescentes a acreditar nas suas capacidades, a
criar planos para o futuro, a lidar com os seus problemas, a melhorar a sua
auto-estima, a valorizar e reforçar os comportamentos positivos, sentindo-se
mais capazes de os ajudar a conseguir aquilo a que se propõem. A maioria dos
participantes refere ainda estar mais confiante nas capacidades dos
adolescentes (61%) e também mais confiante para manifestar os seus sentimentos
em relação aos seus filhos/alunos (69%). De destacar ainda que mais de metade
dos participantes na acção de formação referiu ainda estar mais preparado para
falar com os adolescentes sobre as questões que o preocupam (61%), bem como
para fazer actividades em conjunto com os adolescentes (58%).
Em relação à oportunidade de participação numa formação semelhante, a
totalidade dos participantes referiu que viria novamente a uma formação deste
tipo.
DISCUSSÃO
Ao longo deste trabalho, que teve como objectivos conhecer os comportamentos e
estilos de vida dos adolescentes com necessidades educativas especiais e os
factores associados ao seu bem-estar, foi possível verificar que estes
adolescentes são confrontados com os desafios próprios da adolescência, mas em
muitos casos com outros desafios determinados por factores pessoais ou
ambientais. Como já se referiu na introdução teórica deste trabalho, o conceito
de resiliência parece ter uma especial importância para este grupo de
adolescentes para que consigam ultrapassar com sucesso os múltiplos desafios e
problemas com que são confrontados, nomeadamente, o sucesso académico, o
estabelecimento de interacções adequadas com os pares e a adopção de
comportamentos de saúde, entre outros. Para que o desenvolvimento positivo
destes adolescentes seja uma realidade, e também para que estes adolescentes
tenham as mesmas oportunidades que os adolescentes sem NEE, reveste-se de uma
grande importância a promoção de factores de protecção e de resiliência, mais
especificamente no contexto familiar, escolar e comunitário, bem como recursos
pessoais, como é o caso das competências pessoais e sociais. Tais factores
devem ser promovidos não só directamente junto dos adolescentes com NEE´s mas
também junto dos elementos significativos que contactam com eles nos principais
contextos de vida. Os resultados obtidos a partir deste estudo reforçam a
investigação já desenvolvida neste âmbito (Benard, 1999; Grotberg, 1995, 1997,
1998). Este estudo veio ainda realçar o papel de destaque da família e do
autoconceito que se revelaram como verdadeiros factores de resiliência dado
conseguirem manter os níveis de bem-estar global dos sujeitos face a níveis
elevados de adversidade.
Perante estes resultados desenvolveu-se um programa de promoção da saúde e
resiliência, centrado na importância da promoção das ligações afectivas, no
reforço de expectativas positivas, no incremento de oportunidades de
participação nos principais contextos de vida e no desenvolvimento de
competências pessoais e sociais, como comunicação e cooperação, empatia, auto-
eficácia, resolução de problemas, objectivos e aspirações, autoconhecimento e
auto-estima.
A aplicação experimental do programa, junto de pais, professores e outros
técnicos, parece indicar que o programa é relevante para a aquisição de
conhecimentos relacionados com a adolescência, a resiliência, as necessidades e
qualidades especiais dos adolescentes com NEE´s, bem como para a aquisição de
competências fundamentais para a promoção de factores de protecção e de
resiliência junto destes adolescentes. Estes dados vêm reforçar uma noção
veiculada por vários autores (Matos, Gonçalves, Dias, Gaspar, & Simões,
2003) e que aponta para o facto de que qualquer trabalho de acção directa sobre
o indivíduo deverá abordar os seus contextos de vida e envolver os seus
intervenientes, no sentido de se obter uma diminuição do risco e uma activação
dos recursos de apoio.
Apesar do importante contributo que este trabalho trouxe para o conhecimento
dos comportamentos e estilos de vida dos adolescentes com NEE e dos factores e
processos de resiliência neste grupo de adolescentes, pensa-se ser importante a
realização de um estudo mais detalhado tendo em conta os diversos grupos de
adolescentes enquadrados no âmbito das NEE´s, considerando que a
heterogeneidade de problemáticas incluídas nesta categoria genérica é muito
grande. Deste modo poderá ser possível aprofundar ou encontrar outros processos
ou factores de resiliência associados a grupos específicos dentro das NEE´s.
Também a implementação deste programa junto dos adolescentes com NEE´s, para
além do trabalho com pais e professores, parece ser um aspecto muito importante
de modo a reforçar a acção (conjugada e multidisciplinar) destes programas
sobre os vários intervenientes no processo e assim potenciar os seus
benefícios.
Para finalizar, referência a algumas limitações do estudo, nomeadamente a
reduzida adesão das escolas, possivelmente pelo facto de não estarem
sinalizados alunos com NEE nas escolas em questão. Também o facto da população
ser muito heterogénea e ter necessidade de diferentes tipos e graus de apoio
para o preenchimento do questionário poderá de algum modo ter tido impacto nos
resultados. Salienta-se ainda o facto do estudo qualitativo ter utilizado uma
amostra de conveniência (apesar de descentralizada geograficamente). Este
aspecto aliado à reduzida adesão das escolas limita a generalização dos
resultados à população.