Morbilidade psicológica e representações da doença em pacientes com esclorese
múltipla: Estudo de validação da Hospitalanxiety and Depression Scale(HADS)
A Esclerose Múltipla (EM) é uma doença desmielinizante crónica que ataca a
substância branca (mielina) do Sistema Nervoso Central (SNC), caracterizada por
lesões disseminadas e múltiplos sintomas. Apesar de amplamente disseminada, há
áreas de predilecção como as áreas periventriculares do cérebro, pedúnculo
cerebral e medula espinhal (Meireles, 2000). O seu desenvolvimento é
considerado imprevisível, tendo em conta que não é possível determinar a
natureza, gravidade ou o momento da progressão da patologia em cada doente,
afectando jovens adultos (entre os 20 e 45 anos) sendo o prognóstico individual
incerto (Andrés & Guillem, 2000). Deste modo, a Esclerose Múltipla pode ser
classificada de acordo com o tipo de evolução: recidivante-remitente (RR),
secundária progressiva (SP) e primária progressiva (PP) (Lublin & Reingold,
1996).
A maioria dos pacientes com EM vive mais de metade das suas vidas com a doença
e esta mantém-se presente devido aos factores físicos, psicológicos e sociais
inerentes a uma doença crónica. Estes factores podem provocar incapacidade e
impedimentos que por seu lado influenciarão a qualidade de vida destes doentes,
que depende das condições individuais e sociais de cada indivíduo (Hernández,
2000).
Diversas investigações têm verificado uma relação entre o distress emocional e
a EM (Devins & Seland, 1987; Minden & Schiffer, 1990; Schiffer, Caine,
Banford, & Levy, 1983; Whitlock & Siskind, 1880). Os sintomas
depressivos são muito frequentes na EM e presume-se que cerca de 50% dos
pacientes sofrem destes sintomas (Sadnovick, Remick, Allen, Swartz, & Yee,
1996; Siegert & Abernethy, 2005). A explicação histórica da observação de
depressão em pessoas com Esclerose Múltipla é de uma reacção a uma doença
stressante com potenciais consequências em diversas áreas (família, social,
emprego, independência nos cuidados) do dia-a-dia (Sadovnick et al., 1996). Ao
longo da progressão da doença, a depressão pode ser evidente sob a forma de
negação, mas a depressão patente parece aumentar e começa a ser mais aparente
quando a capacidade funcional diminui. A deterioração dos sintomas e a falta de
cura faz da EM uma doença bastante stressante, e as dificuldades de ajustamento
são muito prevalentes.
Por seu lado, a ansiedade também está associada à EM, no entanto há pouca
investigação que avalia esta relação (Joffe, Lippert, Gray, Sawa, &
Horvath, 1987; Schiffer et al., 1983; Zorzon et al., 2001). Ansiedade é algo
que os pacientes com EM experienciam muitas vezes tanto no seu curso normal da
doença como devido a problemas específicos relacionadas ou não com a doença. O
medo da dor ou da incapacidade, são frequentemente partilhadas por estes
doentes, bem como a própria imprevisibilidade da doença poder causar ansiedade.
Na realidade, existem trabalhos que sugerem que a prevalência da ansiedade
nestes doentes varia entre 19% a 34% (Minden & Schiffer, 1990; Pepper,
Krupp, Friedberg, Docher, & Coyle, 1993; Stenager, Knudsen, & Jensen,
1994; Smith & Young, 2000). Estudos recentes demonstraram que as mulheres
com EM desenvolvem mais ansiedade que os homens (Feinstein, O´Connor, &
Feinstein, 1999), e que nos primeiros 2 anos após o diagnóstico de EM os
doentes e parceiros apresentam altos níveis de ansiedade e distress (Jasssens
et al., 2006). Segundo os autores, os estudos realizados apontam para altos
níveis de incapacidade estarem associados a altos níveis de ansiedade e
depressão e, em consequência disso, poderem afectar igualmente a qualidade de
vida dos pacientes com EM.
Deste modo, o objectivo do presente estudo é por um lado avaliar a depressão e
ansiedade nos doentes com Esclerose Múltipla e para esse efeito estudar a
escala de avaliação Hospital Anxiety and Depression Scale (Zigmund &
Snaith, 1993) e por outro avaliar de que modo a morbilidade psicológica está
relacionada com as representações na doença.
MÉTODO
Participantes
A amostra da presente investigação foi constituída pelo universo de utentes do
Hospital de S. João no Porto, especificamente da consulta externa de Neurologia
e Psiquiatria. Trata-se de um estudo transversal com uma amostra de
conveniência de 100 pacientes com Esclerose Múltipla clinicamente definida,
pelos critérios de Poser, Paty, e Scheinberg, (1983). Estes critérios incluem a
evidência clínica de duas ou mais lesões na substância branca em pelo menos
duas ocasiões e ainda o uso dos parâmetros paraclinicos.
De acordo com estes critérios foram inquiridos 100 pacientes com Esclerose
Múltipla a participação foi voluntária, sendo o consentimento de resposta
precedido de informação sobre o âmbito e finalidade do estudo.
As principais características sócio-demográficas, clínicas e psicossociais da
amostra estão apresentadas no Quadros 1 e 2. Os doentes com EM apresentam um
valor médio na escala de depressão de 5.0 (DP= 3.74) e de 7.6 (DP= 4.46) na
escala de ansiedade.
Quadro 1
Distribuição dos elementos da amostra (doentes com EM) segundo as suas
características sócio-demográficas
Quadro 2
Distribuição dos doentes com EM segundo as suas características clínicas
Material
A escolha dos instrumentos foi baseada na natureza dos fenómenos que se
pretendiam estudar e nas qualidades psicométricas destes. Os instrumentos
utilizados para medir as variáveis estudadas nos doentes com EM foram:
Questionário Clínico e Socio-Demográfico (Pereira & Sousa, 2001); Hospital
Anxiety and Depression Scale (HADS) (Zigmond & Snaith, 1983), versão
portuguesa de McIntyre, Pereira, Soares, Gouveia, e Silva (1999); Illness
Perception Questionnaire-Revised (IPQ-R) (Weinman & Petrie, 1997), versão
portuguesa de Figueiras e Alves (2007).
Hospital Anxiety Depression Scale(HADS). A avaliação da ansiedade e depressão
foi realizada com o Hospital Anxiety Depression Scale(HADS). Trata-se duma
escala constituída por 14 itens (7 itens para avaliar a ansiedade e 7 itens
para avaliar a depressão), desenvolvida por Zigmond e Snaith (1983), para
avaliar de uma forma breve, os níveis de ansiedade e depressão em doentes com
patologia física e em tratamento ambulatório. Apesar de ter sido desenvolvido
para ser utilizado nestes doentes, é na actualidade largamente utilizado na
investigação e prática clínica para avaliar de uma forma breve os níveis de
ansiedade e depressão em populações não psiquiátricas (Herrmann, 1997).
Ao contrário de outras escalas e inventários para avaliar a ansiedade e
depressão como o Beck Depression Inventory (Beck, Ward, Mendelson, Mock,
& Erbaugh, 1961), Zung Depression Scale (Zung, 1965) e o State Trait
Anxiety Inventory (Spielberger, Gorsuch & Luchene, 1970), que foram
desenvolvidos e utilizados em contextos psiquiátricos, o HADS permite a
avaliação dos níveis mais leves de distress em doentes com patologia física.
Outro aspecto relevante, prende-se com o facto de o HADS não incluir itens
focados em aspectos somáticos, o que é apropriado para doentes com patologia
não psiquiátrica, visto que poderia elevar e falsear os resultados finais. Por
exemplo, no caso dos doentes com Esclerose Múltipla, os sintomas de perda de
energia e perda de interesse, podem constituir uma consequência directa do
sintoma fadiga muito frequente nestes doentes e não estar directamente
relacionado com depressão.
Quanto às características psicométricas, e no que se refere à validade de
constructo do HADS, apesar de alguns estudos demonstrarem estruturas factoriais
diferentes (Anderson, 1993; Lewis, 1991; Martin & Thompson, 2000), a
confirmação dos dois factores da escala original preconizados pelos autores, é
apoiado pelo estudo de Moorey et al. (1991), numa amostra de 586 doentes com
cancro. Foram encontrados dois factores explicando 53% da variância. A
correlação entre os dois factores foi de 0,37 para os homens e 0,55 para as
mulheres. Num estudo mais alargado, realizado por Smith, Selby, Velikova, e
Stark (2002), em 1474 doentes com cancro, confirma-se uma estrutura de dois
factores para o HADS, que no seu conjunto explicam 49.18% da variância. Estes
dois factores correlacionam-se significativa e positivamente (r=0,52). Roberts,
Bonnici, Mackinnon, e Worcester (2001), noutro estudo realizado em 167 mulheres
com Enfarte Agudo Miocárdio (EAM) ou submetidas a cirurgia bypass da artéria
coronária (CABG) (48% EAM e 52% CABG), encontraram resultados que apoiam também
uma solução de dois factores. Segundo os autores, os dois factores explicam no
seu conjunto, 41.4% da variância inicial (24,5% a ansiedade e 16,9% a
depressão). Os resultados demonstraram uma elevada correlação entre os factores
ansiedade e depressão (r= 0.79).
No que concerne à fidelidade, os coeficientes encontrados nas duas sub-escalas
revelam uma elevada consistência interna (Moorey et al., 1991). De acordo com
os autores, o coeficiente alfa de consistência interna de Cronbach é de 0,93
para a ansiedade e de0,90 para a depressão. O coeficiente alfa de consistência
interna de Cronbach para as duas sub-escalas noestudo de Smith e colaboradores
(2002), foram respectivamente de 0,83 para a ansiedade e 0,79 para a depressão.
Os coeficientes alfa de Cronbach obtidos no estudo de Roberts e colaboradores
(2001), foram de 0,89 para os 14 itens da escala (HADS -Total), 0,85 para a
ansiedade, e 0,80 para a depressão, demonstrando uma boa consistência interna.
Num outro estudo realizado por Strik, Honing, Lousberg, e Denollet (2001), em
206 doentes com enfarte agudo do miocárdio (156 homens e 50 mulheres), os
coeficientes alfa de consistência interna de Cronbach, foram respectivamente de
0,88 para o HADS-Total, 0,82 para a depressão e 0,83 para a ansiedade.
Outros estudos realizados confirmam uma elevada consistência interna, com o
alfa de Cronbach a variar entre os 0,80 e 0,90 para as duas sub-escalas
(Brandberg, Bolund, Sigurdardottir, Sjoden, & Sullivan, 1992; Herrmann
& Buss, 1994; Martin & Thompson, 2000) e 0,82 para o total da escala
(Martin & Thompson, 2000).
Diversos estudos de fidelidade teste-reteste realizados demonstraram uma
elevada fidelidade após 3 semanas para a ansiedade (0,89), depressão (0,86) e
resultado total (0,91) (Spinhoven, Ormel, Sloekers, Kempen, Speckens, & van
Hemert, 1997). Além de 6 semanas também foi encontrada uma boa fidelidade
teste-reteste, variando entre os 0,63 e 0,85, com correlações próximas dos 0,70
(Elliott, 1993; Herrmann & Buss, 1994; Strik et al., 2001). Os coeficientes
de fidelidade teste-reteste para a escala total, sub-escala de ansiedade e sub-
escala de depressão, entre a admissão e 2 meses de seguimento num estudo de
Roberts e colaboradores (2001), eram respectivamente de 0,78, 0,79 e 0,63.
Estes resultados demonstram uma boa estabilidade teste-reteste durante o
período de 8 semanas. A correlação entre as sub-escalas era de 0,60.
O HADS é uma escala de auto-administração e demora cerca de 10 minutos a ser
preenchida. O modo de resposta dos 14 itens da escala varia de zero (0 -Baixo)
a três (3 -Elevado), numa escala de Likert de 4 pontos. Para cada item existem
quatro possibilidades de resposta, devendo a pessoa escolher aquela que se
adapta à forma como se tem sentido durante a última semana. Os resultados
totais de cada subescala variam de 0 a 21, resultantes da soma dos valores dos
itens de cada subescala. Os valores mais elevados indicam níveis elevados de
ansiedade e depressão. Resultados elevados em cada subescala indicadores de
maior ansiedade e depressão.
De acordo com um estudo realizado por Zigmond e Snaith (1983), em 100 doentes
com diferentes queixas de doenças física e em tratamento ambulatório, as
pontuações obtidas entre 8 e 10 para cada subescala poderão indicar uma
possível perturbação clínica, e entre 11 e 21, uma provável perturbação
clínica. Os autores sugerem o valor de oito (8) como ponto de corte,
considerando os valores inferiores como ausência de ansiedade e de depressão.
Por outro lado, consideram que a severidade da ansiedade e da depressão podem
ser classificadas como normal (0-7), Leve (8-10), moderada (11-15) e severa
(16-21) (Snaith & Zigmond, 1994). Os mesmos autores referem que pode ser
usado uma pontuação total (HADS-Total) como um indicador clínico, desde que
seja analisado como um índice de perturbação emocional ou distress.
Existe uma versão portuguesa da escala que teve por base 1331 sujeitos, doentes
com cancro, AVC, epilepsia, diabetes tipo II, doença cardíaca coronária,
obesidade mórbida, depressão, distrofia miotónica, apneia do sono e um grupo
controlo de sujeitos saudáveis, não se tendo registado alterações relativamente
á forma original tendo esta versão portuguesa apresentado propriedades
psicométricas semelhantes a original (Pais-Ribeiro, Silva, Ferreira, Martins,
Meneses, & Baltar, 2007; Silva, Pais-Ribeiro, & Cardoso, 2006).
Illness Perception Questionnaire-Revised.As representações da doença foram
avaliadas através do Illness Perception Questionnaire-Revisedque avalia
quantitativamente as cinco componentes das representações cognitivas da doença
(identidade, consequências, duração, controlo/cura e causas) em doentes com
patologia crónica (Leventhal, Nerenz, & Steele, 1984).
A escala de identidade é cotada através da soma dos resultados dos sintomas
seleccionados pelos sujeitos. Assim um resultado elevado significa um maior
número de sintomas que o sujeito associa à doença. Por sua vez, um resultado
elevado nas dimensões: Duração significa percepção mais crónica da doença;
nas Consequências, percepção negativa das consequências; nas subescalas
Controlo Pessoal, e Controlo de Tratamento, maior controlo respectivamente;
na Coerência, uma compreensão pobre da doença; na Duração Cíclica,
percepção mais cíclica e por último na Representação Emocional, emoções
negativas associadas à doença. Em relação à subescala Causas dado tratar-se
de atribuições causais específicas que só em algumas situações pode ser
apropriado agrupar ou combinar, não foi incluída no presente estudo dado não se
enquadrar nos seus objectivos.
Procedimento
Por motivos metodológicos e operacionais os doentes de ambos os sexos com
diagnóstico de EM foram avaliados no local da Consulta Externa de Doenças
Desmielinizantes e Hospital de Dia de Neurologia e Psiquiatria do Hospital de
S. João, no Porto.
Após o deferimento do pedido de autorização da comissão de ética, em conjunto
com os neurologistas tendo em conta os critérios de Poser, iniciou-se a
selecção dos doentes com EM. Os dados sócio-demográficos de carácter clínico/
psicossocial foram retirados tanto das informações do processo do doente, bem
como do livro de registo que todos os doentes de Esclerose Múltipla têm em seu
poder.
Para o estudo do Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS) foi feita uma
análise das propriedades psicométricas (fidelidade e validade) do instrumento
na amostra de doentes com esclerose múltipla utilizando-se o alfa de Cronbach e
a análise em componentes principais. Na análise das diferenças entre os grupos
recorreu-se ao teste para amostras independentes.
Para se proceder à avaliação das qualidades psicométricas do HADS nesta amostra
foi utilizada a versão experimental portuguesa de McIntyre, Pereira, Soares,
Gouveia, e Silva (1999). As características psicométricas do HADS, na versão
portuguesa utilizada, foram determinadas por uma avaliação da fidelidade e
validade semelhantes á escala original, e de outros estudos citados
anteriormente.
RESULTADOS
Fidelidade
A fidelidade do instrumento foi calculada pela computação do Alfa de Cronbach.
No sentido de avaliar a consistência interna da escala foi calculado o alfa
Cronbach, separadamente para as sub-escalas ansiedade e depressão e o cálculo
do alfa de Cronbach para o total da escala, como medida de distress global, tal
como efectuado pelos autores da escala original. O coeficiente de fidelidade
para o HADS ' total é de (0,87), indicando uma elevada consistência interna dos
itens (Quadro 3), e as correlações dos itens com o total variam entre .39 e
.68.
Quadro 3
Coeficientes de consistência interna de Cronbach do Hospital Anxiety and
Depression Scale -versão adaptada em doentes com EM (14 itens) (N=100)
A análise das correlações dos itens do HADS-A (ansiedade) com o total da
escala, corrigido para sobreposição, revelou que todos os itens apresentavam
correlações acima de 0,36, variando entre 0,36 e 0,67. Nas correlações do HADS-
D (depressão) com o total da escala, corrigido para sobreposição, os valores
obtidos situam-se acima dos 0,25, variando entre 0,25 e 0,62. O coeficiente de
fidelidade para a sub-escala HADS-A é de 0,81 e para a sub-escala HADS-D é de
0,78, o que revela uma boa consistência interna em ambos os casos.
Embora a eliminação dos itens 11 A e 14 D fizessem subir o alfa global das
respectivas subescalas, decidimos mantê-los porque clinicamente falando são
itens significativos e quando eliminados não alterarem o coeficiente de
fidelidade de forma significativa. Além disso, o item 11A tem coeficiente de
>0,40 no factor respectivo e o 14 D aproximadamente 0,40 no factor depressão.
Em relação a este último item abordá-lo-emos de forma mais específica a
propósito do estudo de validade.
Quadro 4
Coeficiente de Consistência Interna de Cronbach do HADS-A (Ansiedade) e HADS-D
(Depressão)(N=100)
Validade
Antes de se realizar a análise factorial procedeu-se à análise do teste de
Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e do teste de esfericidade de Bartlet(TEB), para
verificar se as características dos dados seriam adequadas para se proceder a
uma análise factorial. A análise dos valores obtidos pelo KMO (0,845) e pelo
TEB (523,09, p<.000), confirmam os critérios psicométricos para a realização da
analise factorial.
Quadro 5
Estrutura factorial do Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS), Versão
Adaptada em doentes com EM (N=100)
A validade de constructo foi estudada recorrendo à análise factorial de
componentes principais seguida de rotação varimax. A análise factorial a dois
factores explicou 50,01% da variabilidade total (quadro 6).
Quadro_6
Resultados do t testeentre os grupos com depressão baixa e alta ao nível da
representação da Doença
O primeiro factor (depressão) explica 38% da variância total (eigenvalue de
5,3) e o segundo factor (ansiedade) explica 11,62% da variância total
(eigenvalue de 1,6), explicando no seu conjunto 50% da variância total inicial.
Os factores que tinham eigenvalue <1 não foram considerados nas análises
subsequentes. Os resultados desta análise revelam que os 14 itens da versão
original não se organizam exactamente pelos dois factores de acordo com o
modelo original de Zigmond e Snaith (1983).
O quadro demonstra que os itens da ansiedade e depressão apresentam carga
factorial nos factores separados correspondentes. Uma excepção é o item 1
Sinto-me tenso, que apresenta carga factorial superior a 5 nos dois factores
e que portanto decidimos manter no factor original (ansiedade). Verifica-se
ainda, que o item 7A satura melhor o factor depressão enquanto o item 14D
satura melhor o factor ansiedade na nossa amostra. Ambos os itens apresentam
contudo, um valor próximo a 0,40 no factor correspondente. De qualquer forma,
voltamos a realizar o estudo da fidelidade segundo estes resultados e
verificamos que com as alterações, a sub-escala depressão passava a apresentar
um coeficiente alfa Cronbach de 0,82 e a sub-escala da ansiedade um coeficiente
alfa Cronbach de 0,79. Dado que as alterações não eram significativas (0,81
para 0,82 na escala de Depressão e 0,78 para 0,79 na escala de Ansiedade) e
tendo em consideração a saturação próxima de 0,40 dos referidos itens,
decidimos manter a estrutura original definida pelos autores.
Representações de Doença e Morbilidade Psicológica em Doentes com EM
Para definirmos os dois grupos contrastantes no caso das sub-escalas depressão
e ansiedade, foi utilizado o ponto corte de 8 de acordo com os autores da
escala (Zigmond & Snaith, 1983).
Os resultados revelam diferenças significativas que vão no sentido dos doentes
com mais sintomatologia depressiva percepcionarem mais sintomas da doença,
percepção mais negativa e cíclica das consequências da doença, uma compreensão
mais pobre da própria doença, bem como mais distress em relação à doença. À
excepção da dimensão da duração, verifica-se assim diferenças significativas em
todas as dimensões do IPQ-R (quadro_6).
Por seu lado, os doentes com mais sintomatologia ansiosa percepcionam mais
sintomas da doença, percepção mais negativa e cíclica das consequências da
doença, uma compreensão mais pobre da própria doença, bem como mais distress em
relação à doença. À excepção da dimensão da duração, verifica-se assim
diferenças significativas em todas as dimensões do IPQ-R (quadro 7).
Quadro 7
Resultados do t testeentre os grupos com ansiedade baixa e alta ao nível da
representação da Doença
DISCUSSÃO
De acordo com o ponto de corte definido pelos autores originais 8/9, a nossa
amostra não apresenta nem depressão nem ansiedade embora o valor da ansiedade
7.6 esteja bastante próximo do valor clinico. Embora, o valor de ponte de corte
não tenha sido estudado para a nossa amostra nem para população portuguesa,
dada a semelhança das propriedades psicométricas, entre ambas as versões pode-
se assumir esse valor para efeito de rastreio (Pais-Ribeiro et al., 2007).
A análise das propriedades psicométricas do HADS nesta amostra, revela uma boa
fidelidade no HADS total (0,87), bem como uma boa consistência interna das duas
sub-escalas HADS-A (0,81) HADS-D (0,78), por esta análise dos coeficientes de
consistência interna do alfa de Cronbacch do HADS total e sub-escalas, é
possível constatar que os valores obtidos são semelhantes aos obtidos noutros
estudos (Moorey et al., 1991; Roberts et al., 2001, Smith et al., 2002; Strick
et al., 2001), revelando uma elevada consistência interna desta escala.
Por sua vez, o estudo da validade vai no sentido de uma estrutura factorial de
dois factores (depressão e ansiedade) preconizados pelos autores (Zigmond &
Snaith, 1983).
Em relação às representações de doença, os resultados obtidos corroboram a
literatura científica nesta matéria. Na realidade, o estudo de Jopson e Moss-
Morris (2003), revelou que as crenças pessoais dos pacientes acerca da
Esclerose Múltipla desempenham um papel no seu ajustamento à doença.
Verificaram igualmente que aspectos afectivos e comportamentais podem afectar
as representações da doença.
Em relação à mobilidade psicológica (sintomas depressivos e ansiosos),
verificou-se que as diferenças encontradas vão no sentido dos doentes com mais
sintomatologia depressiva e ansiosa apresentarem uma percepção mais negativa e
cíclica das consequências da doença, uma compreensão mais pobre da própria
doença, bem como mais distress em relação à doença.
Em relação à dimensão identidade dos sintomas, verificamos que os doentes da
nossa amostra com mais sintomatologia depressiva e ansiosa identificam mais
sintomas. Sabe-se que identidade ou a tendência de atribuir um grande número de
sintomas à EM está muitas vezes associada com a fadiga e ansiedade (Jopson
& Moss-Morris, 2003). Visto a EM ser uma doença imprevisível e com uma
variedade de sintomas que variam de pessoa para pessoa, é fácil perceber como
os pacientes muitas vezes fazem falsas atribuições aos seus sintomas diários,
como por exemplo dores de cabeça ou dores de garganta sempre associados à EM
(Leventhal et al., 1984). Esta identificação de sintomas também está
intimamente ligada a um processo somático interno. Neste sentido existem
doentes que são mais focalizados nas sensações do corpo e tendenciosamente
experienciam mais sintomas (Vercoulen et al., 1996).
Em relação à morbilidade psicológica, acredita-se que a doença tem sérias
consequências relacionadas com medidas de incapacidade, representações
emocionais, depressão e baixa auto-estima (Jopson & Moss-Morris, 2003).
Isto é consistente com outros estudos que mostraram que um constructo
relacionado com a percepção intrusiva da doença nas actividades do dia-a-dia,
está associado à depressão e ao ajustamento à EM (Mohr & Cox, 2001). No
nosso estudo, verificamos que compreensão pobre acerca da doença está associada
à sintomatologia depressiva e ansiosa. Estas diferenças vão no sentido de
alguns estudos que referem que a falta de coerência ou compreensão sobre a
doença está relacionada com um funcionamento psicossocial pobre, representações
emocionais negativas e baixa auto-estima (Jopson & Moss-Morris, 2003).
Foi varias vezes reportado na literatura que os doentes com EM tendem a
apresentar altos níveis de depressão e ansiedade quando comparados com outras
amostras clínicas (Schubert & Foliart, 1993, Cleeland, Mathews, &
Hopper, 1970). Estes resultados produzem um modesto suporte para argumentar que
as representações da doença podem ser formadas em função da experiência
pessoal. Deste modo, parece-nos evidente que quando os doentes com EM
apresentam depressão ou ansiedade, a forma como vivenciam ou experienciam a sua
doença será diferente daqueles que não apresentam distress significativo.
Em termos de investigação este estudo de adaptação do Hospital Anxiety and
Depression Scale pretende ser uma mais-valia em futuros trabalhos de
investigação que utilizem este instrumento. Com o auxílio de um instrumento
como o HADS poderemos ter uma melhor compreensão do sofrimento psicológico a
que os doentes com EM estão sujeito e, assim, melhor delinear e orientar o
trabalho de intervenção. Existem várias formas de intervenção no sentido de
melhorar o sofrimento psicológico associado a doenças incapacitantes e
imprevisíveis na sua evolução como é a EM A presença e influência dos factores
psicológicos, em especial a sintomatologia depressiva e ansiosa, como reacções
face ao diagnóstico e ao longo de todo o curso incerto e imprevisível que
caracteriza a EM, devem ser tidas em consideração. Deste modo, a intervenção
terapêutica deve direccionar-se para um tratamento multidisciplinar no sentido
de diminuir o impacto e a progressão da doença aumentando a qualidade de vida
dos doentes com EM.