Editorial
EDITORIAL
Editorial
Virgínia Ferreira
O trigésimo primeiro número da ex æquomarca o início de um novo ciclo da vida
da revista. A renovação da sua direção e conselhos (de redação e científico)
assim o determina. Não por qualquer tipo de rutura relativamente ao seu
passado, mas apenas porque a rotatividade de funções é um princípio de boa
governação que respeitamos. Para esta nova equipa, aliás, o desafio é dar
continuidade ao excelente trabalho da anterior, pois a rotatividade não implica
necessariamente descontinuidade. Acreditamos que novas vontades facilitam a
inovação e, sobretudo, potenciam a resiliência dos projetos. Assim esperamos.
Antes de mais, agradecemos a/os colegas que prontamente aceitaram o nosso
convite para o conselho científico, o que muito nos honrou, e se propuseram
acompanharnos nos passos necessários para vencer a próxima etapa. A criação do
que chamamos conselho científico, porque lhe atribuímos a função de
aconselhamento científico para o nosso trabalho editorial, trouxe até nós
cientistas sociais de renome de várias áreas do conhecimento, de várias
gerações e de vários continentes e nacionalidades.
Elucidamos desde já que encaramos a entrada da ex æquono décimo sexto ano da
sua publicação com grande ansiedade. Para usar uma imagem batida, digamos que
nuvens cinzentas ensombram o horizonte, não deixando ver o caminho, nem
distinguir entre o que é o nosso desejo e a realidade. As Ciências Sociais e as
Humanidades atravessam uma época de extrema turbulência. Os Estudos sobre as
Mulheres, de Género e Feministas são dos primeiros a sofrer os efeitos
negativos de múltiplas tendências que se observam no campo da ciência e da
investigação. Entre as tendências que mais perigosos desafios representam para
a ex æquocontam-se a erosão da legitimidade epistemológica do conhecimento que
difunde, em face da progressiva assunção, por vezes meramente cosmética, do
produzido nas áreas disciplinares tradicionais. Com efeito, o crescente
fechamento disciplinar, depois de um certo período de relativa, talvez apenas
aparente, abertura, retira expressão e capacidade de expansão a áreas
científicas por natureza interdisciplinares. A hiperespecialização e o
entrincheiramento disciplinar são estratégias de defesa em face das ameaças
representadas pelos critérios de «mérito» e as novas métricas bibliográficas
com que se pretende «medir» o desempenho da atividade científica. A verdade é
que, apesar de a bibliometria de base comercial ter sido amplamente denunciada
como não tendo credibilidade para avaliar o impacto da produção científica em
Ciências Sociais e Humanidades, de momento, ela é incontornável. Tal poderá
traduzir-se na menor atratividade de publicações inter e multidisciplinares,
como a ex æquo.
Também o acelerar da era digital nos impõe desafios completamente novos. A
escrita e a publicação estão a ser totalmente transformadas pela internet, pelo
acesso aberto e pelos «big data». A presença em grandes bases de dados é cada
vez mais importante para garantir que o que se publica é lido e chega a um
maior número de pessoas nos quatro cantos do mundo. Para uma revista que não
possui apoio administrativo próprio trata-se de um pesado encargo. Os desafios
são, portanto, muitos, mas a vontade de os superar é imensa.
Para evidenciar que a rotatividade não implica descontinuidade, este número da
revista segue a estrutura já habitual das três secções ' dossier temático,
estudos e ensaios e recensões. O dossier temático foi constituído em torno da
problemática «Violências de género e direito(s): diálogos feministas». Os
textos que o constituem trazem-nos, sem dúvida, uma consolidação da análise
crítica das violências de género, nas suas várias expressões, e do direito que
delas se ocupa.
A teoria feminista do direito tem procurado perspetivar de que forma o direito
pode ser um recurso efetivo das mulheres para a garantia do exercício dos seus
direitos ou se está condenado à irremediável condição de instrumento de
subalternização e opressão das mulheres. Um Estado e um Direito
predominantemente androcêntricos tendem a minimizar e a trivializar as
violências sobre as mulheres, por intermédio da conjugação complexa de
dispositivos de silenciamento com práticas de invalidação e de esvaziamento de
experiências. Estes processos sociais de apagamento têm profundas repercussões
na forma como quer as vítimas, quer as políticas públicas e os tribunais
definem, atribuem sentido e anulam as violências de género. Os contributos aqui
incluídos irão certamente alargar os horizontes dessa procura.
Na secção «Estudos e Ensaios», dois excelentes ensaios reforçam a diversidade
linguística, disciplinar e temática deste número da revista. Maria Cristina
Gonzalez e Yamile Delgado de Smith, com o seu ensaio «Género y Migración:
Desandando Caminos», convidam-nos, num primeiro momento, a acompanhar o
percurso conceptual e teórico e a desvelar as marcas ideológicas que
consubstanciam a base epistémica do tema em questão, para, em seguida, chamarem
a nossa atenção para a importância da análise com base na estrutura de
oportunidades das mulheres nos contextos de origem e de destino que abriu o
caminho à produção de conhecimentos sobre a agência das mulheres. Esta abertura
foi, na opinião das autoras, crucial para o aprofundamento de várias temáticas,
como os processos identitários, as reestruturações das desigualdades, a
interseccionalidade, as estruturas familiares transnacionais, as cadeias
globais do cuidado e a participação política e a construção da cidadania, entre
outras.
Por seu turno, Sonia Maria Melchiorre, no seu estudo «Gender Member-Gender
Mender: Charlotte Ramsay Lennox and her Fictions», chama a atenção para a obra
de Charlotte Ramsay Lennox, uma das melhores romancistas da cena literária
britânica do século XVIII. Tendo sido a primeira mulher a escrever sobre
Shakespeare e as suas fontes no séc. XVIII e a editora de uma das primeiras
revistas de romances serializados, o estudo da sua obra é hoje incontornável
dada a grande versatilidade plasmada em poesia, ficção e crítica.
A fechar, quatro recensões sobre obras de temáticas também muito diversas:
jornalismo, lei da paridade em Portugal, transexualidade e estilo queer. Bons
alicerces, portanto, para corresponder ao interesse de quem lê a ex æquo.