Adília Lopes ou a impessoalidade da terceira mulher
1. "A minha história / é outra / e começa agora // Estou sempre / a
começar"1
A terceira mulher ou a mulher indeterminada é, na perspetiva do filósofo
francês Gilles Lipovetsky, um novo modelo feminino que determina o lugar da
mulher e orienta o seu destino social. Assim, esta "nova" mulher
seria caracterizada pela sua "autonomização relativamente à autoridade
tradicional exercida pelos homens sobre as definições e significados
imaginário-sociais da mulher" (Lipovetsky, 1997: 291)2. Na verdade,
esclarece Lipovetsky, embora a terceira mulher seja uma "autocriação
feminina" e institua uma "ruptura importante na história das
mulheres", esta não coincide com o "desaparecimento da desigualdade
entre os sexos" (Idem: 292). Contudo, e seguindo a reflexão do filósofo,
os dois géneros encontrar-se-iam numa mesma situação "estruturalmente
similar no que diz respeito à construção do eu'", dado que "para
um sexo, como para o outro" importa apenas a pessoa individual e
idiossincrática. Lipovestsky, apesar de reconhecer que uma "nova
mulher" nasceu, não se aventura suficientemente longe no trilho que
enceta este "terceiro corpo".
Numa outra perspetiva, Hélène Cixous, autora entre outros do texto emblemático
Le Rire de la Méduse, vê neste "terceiro corpo" ' que é também
título de uma das suas obras publicada em 1970 (Le troisième corps) ' um espaço
a ser explorado pelas mulheres na caminhada em prol da sua afirmação
identitária e da sua herstory ainda por escrever. A polifacetada teórica define
o terceiro corpo como o espaço existente entre as categorias, entre as
identidades que tomou a mulher ao longo dos tempos. Através da exploração deste
espaço, argumenta Cixous, é possível desafiar a categoria culturalmente
produzida que é a categoria mulher. Desmembrando desta forma esta construção
cultural, cria-se um espaço outro que, na visão cixousiana, se localiza num
terceiro corpo encarado como o habitat principal no âmbito conceptual
feminista. Seguindo a leitura desconstrucionista de teor derridiano e feminista
de Cixous será a mulher, por razões anatómicas e libidinais, a mais disposta à
experiência da diferença, ao acolhimento do elemento terceiro no seu próprio
interior. Assente nesta premissa, a teórica francesa conclui ainda que a
escrita enquanto elemento "outro" se adapta a este terceiro corpo
oriundo dos interstícios do "feminino". A escrita converter-se-á
então para a escritora e na escritora "a passagem, a entrada, a saída, a
estadia, do outro que eu sou e não sou, que não sei ser, mas que sinto passar,
que me faz viver ( ) ' que me rasga, inquieta, altera, quem? ' uma, um, uns/
umas? ( )" (Cixous, 2010: 115).
Neste espaço outro que a produção escrita esboça inscrevemos a perspetiva
ginocrítica que pretendemos seguir. Com efeito, e apesar de reconhecer que
certos objetivos da fase fundacional desta crítica especializada foram já
ultrapassados ou recolocados em questão, parece-nos todavia imprescindível
manter um ponto de vista crítico no qual a diferença sexual é verdadeiramente
uma categoria da análise epistemológica nas ciências humanas. Assim, utilizamos
o termo ginocrítica na esteira da professora e crítica Anna Klobucka como um
"modelo interpretativo que tem por objetivo a mulher enquanto produtora
de significado textual" tal como "no sentido alargado de um
paradigma científico e académico" (Klobucka, 2009: 16). Num artigo
emblematicamente intitulado "Os Estudos Feministas Revisitados:
Finalmente Visíveis?" datado de 1999, mas publicado em 2001, Ana Gabriela
Macedo destaca, por um lado, a ainda ténue visibilidade deste tipo de estudos
no panorama português e, por outro, parafraseando Elaine Showalter, define o
objetivo da crítica feminista:
A crítica feminista, seja centrando-se essencialmente nas
representações literárias da diferença sexual, seja no modo como os
géneros literários têm sido moldados de acordo com os valores
masculinos ou femininos, ou ainda com a exclusão da voz feminina do
terreno literário, da crítica ou da teoria, tem-se preocupado
fundamentalmente em estabelecer o género e o espaço do feminino como
categoria fundamental nos estudos literários (Macedo, 2001: 272).
Neste sentido, resgatar a história silenciosa e latente das mulheres e
reescrever a(s) história(s) será objetivo de uma vertente crítica especializada
a que a mesma Showalter apelidou de "ginocrítica", distinguindo-
a da crítica feminista. Determinar, se tal for possível, as idiossincrasias de
uma literatura especificamente feminina, uma literatura of their's own, explica
em parte a especialização desta crítica. A ginocrítica, ponto de vista crítico
cujo epicentro é o olhar da mulher, defende de facto que as mulheres têm
processos de leitura e escrita diferentes do homem, por força das diferenças
biológicas e das formações culturais da categoria de género. Repensando e
revisando o cânone, a ginocrítica centra-se na escrita feminina, elaborada por
um sujeito diferente do masculino, contextualmente posicionado e
biograficamente marcado. Elaine Showalter, principal promotora desta revolução
da crítica feminista, definiu assim os seus limites e objetivos: "o
estudo das mulheres enquanto escritoras' e os seus temas são a história, os
estilos, os temas, géneros e estruturas da escrita de mulheres; a psicodinâmica
da criatividade feminina; a trajetória da carreira feminina individual ou
colectiva; e a evolução e leis da tradição literária feminina"
(Showalter, 1989: 248).
A "revolução da crítica feminista", como a denomina a própria
Showalter, floresceu em combinação com outras abordagens críticas oriundas do
formalismo, da semiótica, da psicanálise. A mudança de paradigma do
"machocentrismo " à perspetiva feminista de leitura e de crítica
acarretou uma experiência diferente, um ângulo outro na receção e também na
produção do fenómeno literário; a crítica feminista (feminist criticism)
estabeleceu o género como categoria fundamental da análise literária. Contudo,
mais do que identificar na escrita os estereótipos de uma escrita marcadamente
feminina ou claramente masculina, afigura-se de extrema importância
"reflectir sobre o fundamento e os processos imaginativos e ideológicos
que presidem à construção desse feminino ou desse masculino no tecido
poético" (Santos e Amaral, 1997: 7)3.
Nas teorizações que estabelecem o controverso conceito de "escrita
feminina ", em particular nas diferentes propostas apresentadas por
Cixous, Irigaray ou Wittig o corpo, fonte direta da escrita feminina, veicula
um discurso subversivo potente já que, escrevendo a partir do corpo, se recria
o mundo e se permite o aparecimento da multiplicidade, da variedade que põe em
causa o binarismo até então aceite e o falso neutro masculino de que dava conta
Maria Isabel Barreno. No entanto, quer o conceito de "feminilidade"
quer o de "escrita feminina" são problemáticos e avassaladores
porque extremos. Como o assinala Ann Rosalind Jones em "Writing the Body
Toward an Understanding of l'Écriture feminine": "elas (féminité e
écriture feminine) foram criticadas por serem idealistas e essencialistas,
elaboradas no interior do sistema que pretendiam minar; foram atacadas como
sendo teoricamente imprecisas e perniciosas para uma ação política construtiva
" (Jones, 1989: 367). De facto, o corpo e a sexualidade femininos não
existem aprioristicamente e independentes de uma sociedade e cultura
determinadas. O conceito de mulher surge como um conceito escorregadio e
marcado por variações de raça, de classe, de orientação sexual, de país ou
ainda de etnia. Todavia, como ideias alternativas, polémicas e teoricamente
chamativas, féminité, écriture feminine e a própria noção de
"mulher", apresentam-se como estratégias vitais que podem, pese o
seu extremismo ideológico, levar a mudanças políticas, sociais e a uma
performance do sujeito que tenha realmente impacto. Através da linguagem, da
sua disposição no corpo da folha e na entrega do corpo da mulher como condição
sine qua non, poder-se-á chegar a representações díspares, não binárias e mais
próximas da realidade do mundo e da vida. A mudança do filtro interpretativo
acaba com alguns dos mitos arreigados à escrita feminina e à mulher, enquanto
página em branco pronta para ser escrita pelo criativo e poderoso lápis
masculino, afirmando de maneira simultânea novos protocolos de leitura
enformados por uma renovada visão crítica do mundo e consequentemente da
literatura.
2. "Deus é a nossa / mulher-a-dias / que nos dá prendas / que deitamos
fora"4
Consciente dos dispositivos de poder exercidos pelo primeiro sexo na sociedade
que a viu nascer, a terceira mulher patenteada pela escritora portuguesa
contemporânea Adília Lopes (Lisboa, 1960) expressa-se da seguinte forma:
"Vivo numa sociedade / de homens / posso convidar / um homem / que
conheço mal / para sair / mas ele achava / estranho / e nem eu gostava / de
fazer isso" (Lopes, 2009: 199)5. Esta sensação de estranhamento,
provocada pela atitude fora de normas do processo de galanteio habitual entre
homem e mulher, evidencia o visível mal-estar da mulher numa sociedade da
verdade falocrática. Com efeito, a sociedade é construída pelos
"homens", termo genérico, universal e representativo de todo o
tecido social. Esta afirmação taxativa e de uma aparente cientificidade
apresenta-se como um axioma válido para todos aqueles que a constituem. Porém,
nos versos seguintes "posso convidar / um homem / que conheço mal / para
sair / mas ele achava / estranho", o genérico "homens"
particulariza-se em "um homem / que conheço mal" que não entende o
convite feito por um elemento outro da sua sociedade (sublinhado nosso), pois
esta é uma sociedade de homens, denominação específica, não abrangente da
multiplicidade. Por essa razão, a alteridade, o outro, o diferente não se revê
neste conjunto "de homens" que, de forma análoga, rejeita a
diferença. O complemento determinativo "de homens" acaba retirando
a força genérica que o termo "sociedade" exibe e que a poetisa, a
partir de um acto prosaico da vida em sociedade (convidar alguém para sair),
denuncia. Por outro lado, a coordenada "e nem eu gostava / de fazer
isso" sublinha que a própria mulher aceita a distribuição de papéis
sociais e se submete a esta. Neste sentido, o sujeito poético confirma que esta
sociedade é exclusivamente de homens e as regras estabelecidas no jogo social
são da sua autoria. Expondo a falácia desta sociedade, a poetisa desvela a
precaridade do jogo social dominado por um grupo que impõe as suas regras.
Outro poema que segue a mesma dinâmica de repartição social é o conhecido
"Poetisa-fêmea, Poeta-macho (cliché em papel couché)" do qual
citamos o início: "1 / Eu estou nua / eu estou viva / eu sou eu // Eu uso
gravata / e, olhe, não foi barata // 2 / Sou uma poetisa-fêmea / falo do falo /
/ Sou um poeta-macho / sacho ( )" ( Lopes, 2009: 462)6. Iniciando pela
voz "feminina" da poetisa7 e por três máximas vitais ("Eu
estou nua / eu estou viva / eu sou eu"), o poema apresenta uma série de
definições essenciais expressas pela forma verbal "sou", uma
insistência em formas pronominais e verbais de primeira pessoa ("eu,
estou, uso, falo, sacho, tenho, escrevo, mim"), assim como uma reiteração
do determinante indefinido um / uma ("uma poetisa, um poeta"). A
dicotomia poetisa-fêmea / poeta-macho e os atributos respetivamente atribuídos
a cada figura encerram claramente clichés, preconceitos, construções culturais
e representações identitárias vinculados à hegemonia ideológica patriarcal.
As formas de primeira pessoa, aplicadas quer ao "eu" feminino, quer
ao masculino, respondem-se de maneira dialógica dado que a poetisa e o poeta se
autodefinem seguindo uma lógica de verdadeiro slam, onde a poetisa fala, em
primeira posição na troca comunicativa, dando o mote ao seu interlocutor macho.
Expressando-se como poetisa ostenta, in praesentia, o seu corpo físico que
marca o género sexual e gramatical. Esta tomada de palavra por parte da voz
"feminina", no espaço dialógico dominado pelo "falo",
sublinha a escrita transgressora que produz Adília penetrando, sem pedir
licença, no império do macho. A poetisa escreve como fala e não como
"falo" apesar de falar sobre ele, toma a palavra, materializa o seu
corpo e produz lixo, pois falar implica colocar-se numa situação comunicativa
em que a linguagem gestual atua simultaneamente. A gestualidade de Adília
visibiliza-se nos excessos de uma escrita do quotidiano feminino onde o culto
do poder simbolizado pelo phalo domina. A oralidade nua e crua de Adília
associa-se ao "louvor do lixo"8 que faz a poetisa, um louvor à
singularidade de um grão de voz que é grito mas também saída de si em direção
ao outro. Seguindo um dos eixos temáticos destacados por Burghard Baltrusch ' a
dicotomia entropia / "desentropiar" ' (Baltrusch, 2008)9, este
"lixo" está presente no pó que asfixia os modelos literários
canonizados e impede a sua revisão e reescrita. A mulher-a-dias, demiurga neste
universo que domina por limpá-lo à sua maneira, desintegra-o da sua sujidade e
dá-lhe uma ordem nova, limpa, mas instável e sempre a recuperar.
A nova ordem do mundo perpassa também no poema dos clichés "Poetisa- -
fêmea, poeta macho". Prosseguindo a nossa leitura deste poema, entendemos
que o uso reiterado do determinante indefinido um / uma nas cinco primeiras
estrofes salienta a generalização, a indeterminação de poetisas e poetas que
são, simplesmente. Tal como no conceito deleuziano de uma vida enquanto
imanência, o artigo não particulariza; ao invés, subtrai a determinidade
devolvendo os conceitos autorais à sua impessoalidade, virtualidade e constante
devir. O impessoal é aqui pensado não como negação do pessoal mas por aquilo
que tem de absolutamente singular e simultaneamente geral. Assim um poeta / uma
poetisa, como conceitos imanentes à própria vida enquanto força absoluta de
criação e resistência, têm a capacidade de resistir, criar novas formas, novos
possíveis e pulverizar clichés. Contudo, se seguirmos na leitura do poema, da
abrangência permitida pelo determinante indefinido, passamos, nas sexta e
sétima estrofes, à singularidade do determinante definido a / o que trava, de
alguma forma, a virtualidade contida no impessoal colocando-nos face ao evento,
à ocorrência, à quotidianidade: "6 / A poetisa-fêmea / toca viola / o
poeta-macho / viola-a". Por fim, o poema conclui com o regresso da
primeira pessoa, um "eu" indefinido que parece afastado do elenco
das características dos poetas e das poetisas, com preocupações existenciais e
morais: "8 / Não tenho culpa / não tenho desculpa / não tenho cuspo / não
tenho tempo" (ibíd.). Neste movimento ondulante da escrita entre o
indefinido, o definido e o próprio e na oposição feminino / masculino, Lopes
explora uma característica do terceiro corpo que Cixous denominou de
"outra bissexualidade ": "aquela na qual cada sujeito não
encerrado no falso teatro da representação falocêntrica institui o seu universo
erótico. Bissexualidade, isto é, o dar-se conta em si próprio, individualmente,
da presença, diversamente manifesta e insistente segundo cada um ou cada uma,
dos dois sexos, não-exclusão da diferença de nenhum sexo ( )" (Cixous,
2010: 113). Desapropriando-se das primeira e segunda pessoas, Adília Lopes
funde-se no cosmos atingindo a resolução da contradição na impessoalidade da
terceira. Roberto Esposito, seguidor da teorização de Simone Weil sobre o
impessoal, conclui numa obra basilar Tercera Persona ' Política de la vida y
filosofía de lo impersonal (2009) que só desativando o dispositivo de pessoa
poderemos pensar o ser humano enquanto tal, por aquilo que tem de mais único
mas, ao mesmo tempo, de mais comum com o outro.
Tendo em conta a produção poética de Adília Lopes, assim como textos
metaliterários, notas da autora, entrevistas, exibições sociais (televisivas,
leituras de poemas, aparições públicas etc.), pretendemos ler a obra e
sobretudo o projeto literário Adília Lopes como uma escrita que desfaz a
categoria de pessoa na medida exata onde parece exacerbá-la e ostentá-la de
forma quase compulsiva. "Eu estou viva, eu sou eu, este livro foi escrito
por mim" são algumas das declarações poéticas da autora que revelam, na
verdade, que "eu" sou "ela", "eu" sou
sempre terceira pessoa porque "eu" não existo, sou apenas escrita.
De facto, é de salientar que Adília Lopes é um pseudónimo, isto é, o nome de
uma não-pessoa que não reenvia a um "eu" ou "tu", mas a
"ela", à própria escrita que este nome sela.
A questão do valor da escrita e da necessidade vital ou acessória da estética
reencontra-se num texto em prosa contido no livro Le vitrail La nuit*A árvore
cortada (2006) e intitulado "Haverá uma beleza que nos salve?"
(Idem: 601-602). Adília, poetisa de papel, "poetisa op-art" ou
ainda "freira poetisa barroca", é um dos elos da cadeia do ser e
considera que "só a bondade nos salva". "Se a nossa obra
artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha,
então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de
escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares" (Idem:
601). A partilha consubstancia-se na solidariedade e na escrita solidária que
Adília pratica, como quem pratica a religião católica. O seu uso paródico dos
textos que pesca quer na tradição canônica quer nos discursos populares, nas
frases feitas e na sua experiência de mulher revaloriza afetivamente o passado
textual e a sua fidelidade aos paradigmas intemporais da arte da escrita,
literária ou não. "A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir
no vazio. Não pode ser." (Idem: 602). Fidelidade também ao mundo
empírico, aos seres que povoam a terra para a qual a sua arte é dirigida. A
própria Adília representaria, deste modo, a experiência mística por excelência
no quadro da doutrina cristã, aquela que permite a ascensão à bondade e à paz,
ao reencontro da unidade perdida.
Daí o surgimento de uma outra forma de se identificar, de se auto-identificar,
sem enigmas, nem problemáticas existencialistas ou feministas: "Um
espelho / não é / uma janela / um espelho / não é / um quadro / Quem espreita /
por meus olhos / no espelho / sou eu / E eu / sou eu / Não há / enigmas"
(Idem: 580) diz-nos, ironicamente10, Adília Lopes. Ironicamente porque de facto
Adília Lopes é, como já o salientámos, um pseudónimo, personagem, máscara
inventados por Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira e é também um
corpo produto da escrita de um "eu" que reaparece noutros corpos
textuais como, por exemplo, no da freira Mariana Alcoforado incontestavelmente,
nas mãos de Adília, autora das epístolas dirigidas ao Marquês de Chamilly. Na
cadeia de ADN formada pelas moléculas de Adília / Maria José inscrevem-se as
identidades queridas e desejadas: "A minha sombra / não é minha / o meu
olhar / não é meu / Quem me roubou / o meu eu / senão eu?" (Idem: 578). O
roubo da identidade dá-se através do próprio ser que, autograficamente, se
constrói e reconstrói num "Círculo de poesia". É de notar que
Adília passa de um Clube da poetisa morta (1997) a um "Círculo de
poesia" (Cadernos, 2007) que a circunda e fecha no mesmo espaço
literário. De facto, o clube veicula a ideia de deslocação, de reunião e
partilha que levaria a um novo começo, uma outra etapa na vida poética. Desta
forma, a opção pela pseudonímia reitera a autodeterminação identitária de um
sujeito que escolhe a sua identidade e os genes que constarão do seu mapa
genético. A deslocação do centro de gravidade do eu pensante, permitida pela
capa da pseudonímia, reforça a incerteza ontológica mas, paradoxal e
ironicamente, esta incerteza é vivenciada de forma paródica, como uma vida ao
lado da vida socialmente aceite (para e doxa). No entanto, o conceito de
círculo, enquanto conjunto de todos os pontos de um plano contido numa
circunferência, limita e encerra os malabarismos poéticos experimentados pela
autora. Por outro lado, relembra a limitação da escrita que nunca se sobrepõe à
pessoa, à mulher de carne e osso que a projeta: "Escrevia / porque estava
sozinha / e queria estar / com pessoas /" (Idem: 579). Todavia a escrita
apodera-se, de forma antropofágica, do ser que a orquestra e a mulher de carne
e osso converte-se numa mulher de carne e verso: "Depois / estava com
pessoas / e queria estar sozinha / para escrever" (Idem: 579).
Encontramos neste jogo de contradições e de releituras das experiências vividas
uma Adília leitora de Adília, leitora de Maria José e leitora do mundo em que
vive. A poetisa, artista num palco pós-moderno, desdobra a história e cultiva o
seu desdobramento, mostrando as várias perspetivas nela contidas. Na relação
que Adília mantém com o passado canónico e consagrado, firma-se a aliança
paródica, símbolo da afetividade e fidelidade à tradição literária.
Interrogando este passado e buscando sobretudo as suas antepassadas, o
pseudónimo Adília mantém o género da criadora Maria José, reivindicando uma
linhagem, uma cadeia de um ser dito "feminino". O nome tresanda a
banalidade e encoraja, ao mesmo tempo, a familiaridade, a aproximação a uma
persona que poderia ser uma mulher de "todos os dias",
aparentemente despreocupada, ingénua e livre das suas escolhas e opções.
Aparentemente, pois Adília também põe "em prática atos tanto de
resistência como de construção feminista, sendo que é precisamente no campo da
intertextualidade que se encontram muitas e interessantes oportunidades para
tal" (Klobucka, 2009: 312). Lembrando que a igualdade permanece utópica '
"Eu escrevo / pequeno- -almoço / os poetisos escrevem / almoço pequeno /
/ Sobre a erva / sobre a relva"11 (Lopes, 2009: 591) ' a autora
desmistifica, com o auxílio do sufixo "-iso", o tradicional poeta
que se torna "poetiso", classificação depreciativa. Este uso da
forma masculina de "poetisa" relembra que a grande e reconhecida
escrita poética sempre foi a dos poetas "machos". No juízo da
professora Rosa Maria Martelo "a expressão os poetisos' é uma resposta à
centralidade histórica do termo poeta, de resto, um termo de que algumas
autoras se apropriaram, sobretudo nos anos 70 e 80, em resposta à
subalternização longamente carreada pelo termo poetisa" (Martelo, 2010:
241). Às "poetisas" não foi permitida a entrada no Olimpo da poesia
ou da "coisa" escrita, já que estes seres estavam confinados às
amarguras dos trabalhos domésticos e conjugais. A prisão patriarcal podia
admitir fantasias ridículas de mulheres escritoras, mas não seriam mais do que
isso12. Por outro lado, a inversão simples da expressão "pequeno-
almoço" e a antinomia "erva / relva" reforçam a diferença e
valorização de uma prática de escrita (masculina) face a outra considerada
esteticamente inferior.
3. "Porque a caridade bem ordenada por nós mesmos é começada"13
No âmago de um tempo considerado (e desconsiderado) pós-moderno, a igualdade
entre sexos parece subsistir apenas no questionamento sobre as identidades que
se colocam os indivíduos e do qual as teorias feministas foram / são porta-voz.
A re-visão da história lida e escrita por mulheres, assim como a interrogação
sobre a naturalidade de uma diferença sexual articulada com as desigualdades
entre os sexos levam a reformular a perspetiva crítica até então adotada no
âmbito literário. A voz errante das mulheres mantida "sob a terra",
nas palavras de valter hugo mãe, e abafada por uma cosmovisão masculina tida
como neutra, única e exemplar vem ressuscitando do fundo do corpo feminino,
despertando-o da sua forçada letargia e inscrevendo-o nas re-leituras que o
sujeito crítico elabora. Importa realçar que este despertar no âmbito luso
deve-se em grande parte à obra plural Novas Cartas Portuguesas publicada em
1972, da autoria das "Três Marias", Maria Isabel Barreno, Maria
Teresa Horta e Maria Velho da Costa.
Destruindo fronteiras entre categorias estéticas, entre o pessoal e o político,
entre o coletivo e os dispositivos de poder, as Novas Cartas emolduram-se numa
poética do excesso porque "rompem, extravasam" conceitos e
fronteiras. Continuando a citação de Maria de Lurdes Pintasilgo no prefácio à
obra, o excesso patenteia- se sobretudo "na ousadia de serem mulheres a
quebrar os limites, a inverter a situação sujeito / objeto universalmente
adquirida" (Pintasilgo, 2010: XXVIII). Escrito por três mulheres de nome
Maria, de nacionalidade portuguesa e num Portugal onde se vivia a primavera
marcelista, o texto eclode como crítica às formas sociais e opressoras do
patriarcado e questiona vários aspetos da vida nacional. O primeiro desafio que
lança prende-se com a dessencialização da figura da mulher que simultaneamente
se torna Mariana, Maria Ana, Mónica, Ana Maria, Maria, Isabel, Fátima, Teresa,
ou seja, uma mulher em devir, uma posição do discurso.
O desafio à categoria mulher passará também pelo desmantelar da categoria
autoral e pela escolha da figura anacrónica de Mariana Alcoforado, pseudo- -
autora das Lettres Portugaises (1669), como voz e protótipo da mulher
portuguesa submissa e marginalizada. Provocando a autoridade social, política,
familiar e através do estilhaçamento autoral que pulveriza o conceito canónico
de autor e de autoridade literária fecundado numa tradição machista do génio
literário português, as Novas Cartas utilizam a figura em trânsito da freira de
Beja, ou seja, uma figura em contínua deslocação representada pela sua condição
marginal. A marginalização de Mariana evidencia-se, de facto, na sua tripla
condição periférica e de excluída: Mariana vive fora da comunidade, no exterior
do círculo social da maioria, enclausurada num convento de uma cidade
periférica, pertencente a um país exterior aos círculos do poder. Os círculos
de exclusão nos quais se move a freira ligam-se, paralelamente, à exclusão da
figura autoral feminina do cânone tradicionalmente masculino. Na escolha de
Mariana, da sua história pessoal e transgressora e da sua posição privilegiada
de "estar à janela" subjaz uma opção política, socialmente
comprometida e literária de originar uma genealogia da escrita feminina
portuguesa cujo ponto de partida seria Mariana Alcoforado, uma proposta
subversiva, transitória e movediça do tratamento da filiação materna no âmbito
da memória literária.
Recuperando esta genealogia, Adília Lopes14
vinca que a sua escrita pertence a uma voz gramaticalmente feminina:
"Vivo / dia a dia / sou / uma mulher-a-dias" (Lopes, 2009: 599),
mas também impessoal tal como o sublinhamos no decurso deste artículo. Desde o
corpo próprio, mas sobretudo do corpo da escrita, Adília problematiza a
linguagem tornando-a desconcertante, abalando-a, retorcendo-a. Em Adília a
questão não é tanto de redefinir a subjetividade feminina em termos de
diferença sexual e enfatizar assim a falta de simetria entre os sexos, mas
buscar a sua identidade no espaço da comunidade, da partilha com o outro onde
se desenha a impessoal terceira pessoa. Sendo escrita, isto é, terceiro
elemento que rompe a relação dialógica do "eu" e do
"tu", Adília Lopes é impessoal, pois extravasa o conceito de
pessoa, chamando a atenção, a partir deste movimento para fora, para as
minorias, os excluídos ou a-normais (mulheres, deficientes, animais). A
projeção social e política da sua intervenção artística na qual é patente a re-
visitação ou re-visão da história lida e escrita por mulheres, assim como a
interrogação sobre a naturalidade da história única contada por eles (history),
conduz a uma necessária leitura ginocrítica da obra adiliana.
Utilizando a contratualização autobiográfica como arma para defender um nome
que abarca, de forma rizomática15, problemáticas identitárias e ontológicas,
Adília Lopes sintetiza, posicionando-as lado a lado, a excecionalidade dada à
arte poética e a marginalidade de todos aqueles que não correspondem às normas
de uma sociedade catalogadora e impositiva. Este pressuposto autobiográfico
afigura- se como "condição indispensável da eficácia crítica da obra
poética adiliana, " dado que associa uma "hiperconsciência
discursiva de poeta" à banalidade e "vulnerabilidade de um
quotidiano" comum que "habitualmente não tem voz" (Martelo,
2010: 245).
Ler Adília como mulher do seu tempo e perspetivá-la ginocriticamente leva-nos a
perceber que a autora ultrapassa as polémicas teóricas de teor feminista e se
inscreve de uma certa forma na resistência própria ao texto poético através do
seu discurso "a contramão" e na sua reconfiguração do sujeito
mulher enquanto sujeito sexual e com voz. Da mesma forma, entender Adília Lopes
como um projeto literário e a escolha pseudonímica como elemento basilar desta
arquitetura autoral equivale a formular este projeto enquanto "construção
da personagem de mulher autora de poesia, isto é, da poetisa" (Klobucka,
2009: 279). Sendo, segundo Hélène Cixous, impossível "definir uma prática
feminina da escrita"( ) "pois nunca se poderá teorizar esta
prática, encerrá-la, codificá-la, o que não significa que não exista"
(Cixous, 1995: 30), a escrita / leitura de Adília representa singelamente uma
hipótese de leitura do mundo, da identidade, do ser que se escreve e que, nesse
movimento de inscrição no papel e na memória histórica, resiste aos discursos
hegemónicos e falsamente inclusivos.