Dossier Género e Estudos Feministas
Macedo, Ana Gabriela (coord.) (2008), «Dossier Género e Estudos Feministas»,
Revista Diacrítica – Ciências da Literatura, n.º 22, 158 pp.
Salomé Coelho
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Literatura, dança, pintura, sociologia da linguagem, gestão empresarial,
estudos pós-coloniais, cinema, filosofia e sociologia da comunicação são
algumas das áreas do saber em que se inscrevem os textos que compõem o dossier
«Género e Estudos Feministas», incluído no número 22 da Revista Diacrítica, do
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. O dossier é composto
por duas secções. A primeira parte – «Lugares-Fronteira na Performance
Académica: Género, Feminismos e Identidade» – inclui textos de investigadoras
do «Núcleo de Investigação em Género e Estudos Feministas» da Universidade do
Minho (Margarida Pereira, Joana Passos, Francesca Rayner, Márcia Oliveira,
Isabel Ermida, Silvana Mota-Ribeiro, Emília Fernandes e Ana Gabriela Macedo). A
segunda parte, designada «Testemunhos, percursos pessoais, percursos
académicos, estórias outras…», é um singular «puzzle polifónico» (Macedo: 14)
de narrativas pessoais de investigadores/as dos estudos feministas e de género
(Patsy Stoneman, Rosemary Betterton, Rachel Bowlby, Tânia Ramos, Ana Paula
Ferreira, Teresa Joaquim, João Manuel Oliveira, Ana Luísa Amaral).
A originalidade e a relevância deste dossier não se circunscrevem à amplitude
de epistemologias feministas ou temas abordados. Mais do que um aglomerado de
textos variados, aquilo que encontramos neste dossier é uma teia de textos que
se interpelam mutuamente e convergem no «questionamento do “conceito de
fronteira”» (Macedo: 14) e da aparente fixidez das áreas do saber, onde os
estudos feministas e de género se incluem. Tal questionamento das fronteiras
(do que é ou não possibilidade de análise nos estudos feministas, do que é
central ou marginal) não se faz apenas a partir da leitura do dossier, mas no
próprio dossier, já que subjectividades de académicos/as dos estudos
feministas, através de narrativas na primeira pessoa, são, como vimos,
reclamados para o centro da reflexão. Há, assim, uma espécie de «política da
localização», tal como definida por Adrienne Rich, que perpassa todos os
textos, na medida em que cada sujeito de enunciação se revela, se convoca e se
expõe, sem falsas pretensões de distanciamento ou de verdades universais. A
consciência e exposição dessa parcialidade parecem constituir o motor para o
«cruzamento de olhares» (Macedo: 13) tão presente neste dossier. É como se cada
autor/a partisse da consciência e da afirmação do seu olhar parcial,
localizado, constrangido pelas normas científicas dominantes do campo
disciplinar de onde parte ou onde chega, e da noção da urgência de cruzar esse
olhar com outros, para se confrontarem e resignificarem. Como o nome da revista
deixa adivinhar, o desejo é, como a letra diacrítica se junta a outra para
criar significados diversos, que os textos se interroguem mutuamente, dialoguem
entre si, se misturem e contaminem, criando significados outros.
Mas as fronteiras colocadas sob suspeita não são apenas as que (não) delimitam
as áreas do saber. Também as fronteiras entre o que é pensamento e acção,
ciência e ideologia são debatidas ou, até, esbatidas. Partindo da afirmação do
saber implicado, da reflexão como acção, da literatura como política – ou da
poesia como sendo para comer, como dizia o poema de Natália Correia –, os
textos apresentados neste dossier assumem-se como comprometidos, como formas de
intervenção política, e concorrem para a transformação social das realidades
analisadas.
A fechar o dossier, um poema de Ana Luísa Amaral, cujo verso penúltimo – «nem
homem nem mulher» (158) –, ainda que apresentado como conclusão, se afigura
como nova possibilidade de abertura dos textos. Como transgressão última das
fronteiras, neste caso das fronteiras de «género», o poema aproxima e projecta
o dossier para as discussões prementes, ainda que tímidas a nível nacional,
reclamadas aos estudos feministas, por via das abordagens queer. Será desejável
que, aos diversos olhares presentes neste dossier, se cruzem os da teoria
queer, para que os Estudos Feministas e de Género possam continuar a reclamar-
se como (in)disciplina que questiona as fronteiras dos saberes, mas que não se
esquece de começar por si própria, contestando os seus próprios limites e
silenciamentos.