Da antropologia à antropologia aplicada ou a afirmação da disciplina no Norte
de Portugal
o contexto local deve se transformar num laboratório a ser
explorado, considerando-se seus problemas e história: é dele que deve
emergir a vocação' pretendida pelo curso, onde colaboram docentes e
discentes (Tavares 2010: 59).
Na década de 1990 em Portugal, assiste-se à abertura de licenciaturas e
unidades curriculares de antropologia em muitas instituições do ensino superior
fora dos centros universitários de Lisboa e Coimbra, espaços centrais da
prática antropológica portuguesa.[1] Por um lado, este processo é favorecido
pelo crescimento económico derivado da entrada de Portugal na antiga CEE
(Comunidade Económica Europeia) e, por outro, pelo aumento do número de
antropólogos formados na academia portuguesa e noutros países e respetiva
integração profissional em instituições de ensino e investigação do país.
Esta expansão e o seu crescimento associado foram desenvolvidos, nalguns casos
no Norte de Portugal, sob a noção de antropologia aplicada (Pereiro e Mendes
2005), como forma de diferenciação social de uma antropologia interventiva nos
assuntos e problemas públicos. Estou a referir-me aos casos da Universidade
Fernando Pessoa e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; a primeira,
uma universidade privada sediada no Porto (litoral) e a segunda, uma
universidade pública sediada no interior norte (em Vila Real, com polos em
Chaves e Miranda do Douro).
Embora não exista um consenso sobre a noção de antropologia aplicada (cf.
Foster 1969; Bastide 1972; Van Willigen 1986; Eddy e Partridge 1987; Chambers
1985; Stull e Schensul 1987; Guerrero 1997; Ervin 2000; Goldman 2000;
Podolefsky e Brown 2001; Tommasoli 2003; Pereiro e Mendes 2005; Olivier de
Sardan 2005), podemos defini-la a partir do exercício antropológico de
aplicação de dados, perspetivas, teorias e métodos para identificar, avaliar e
contribuir para a resolução de problemas socioculturais. Ela corresponde a uma
antropologia em ação, à prática de uma investigação-ação ou uma ação-
investigação, não desenvolvida propriamente para uma instituição académica '
universitária ', mas para organizações sociais não académicas (por exemplo,
empresas, governos, administrações públicas, ONGD, associações, etc.).
No texto que se segue analiso algumas formas de produzir antropólogos
profissionais (Guedes 2004) e a institucionalização da antropologia aplicada na
Universidade Fernando Pessoa e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro,
e assinalo casos vivenciados por mim através da minha carreira docente e de
investigação nessas duas instituições de ensino superior. Pelo caráter limitado
deste texto e refletindo a minha própria vivência, o espaço dedicado à
experiência da UTAD será mais alargado. Depois de analisar estes dois casos,
apresento uma leitura pessoal da situação atual da antropologia no ensino
superior do Norte de Portugal; finalmente esboço umas conclusões que assinalam
as diversidades nos processos de reprodução social do conhecimento
antropológico e da sua institucionalização universitária. Por questões de falta
de espaço neste texto e também de menor conhecimento meu, não vou abordar
outros casos como os da Universidade Aberta (campus do Porto) ou da
Universidade do Minho, organizações nas quais houve uma institucionalização
relativamente importante da antropologia.
A antropologia na Universidade Fernando Pessoa
Em 1990 foi criado (Portaria n.º 909/90, de 27 de setembro), no Instituto
Erasmus de Ensino Superior, o curso de antropologia, sendo posteriormente
integrado como licenciatura na Universidade Fernando Pessoa (UFP), fundada
através da fusão, em 1994-95, desse Instituto com o ex-Instituto Superior de
Ciências da Informação e da Empresa (ISCIE), cujo interesse público foi
reconhecido oficialmente pelo Ministério da Educação em 1996 (Decreto-Lei n.º
107/96, de 31 de julho). O curso funcionou quase durante uma década e o último
ano em que foram admitidos alunos na licenciatura em Antropologia da UFP foi em
1998-99. O curso foi reestruturado em 2001, sem chegar a entrar em vigor, e
suspenso em 2003-2004, devido ao decréscimo na entrada de alunos, o que podemos
observar no quadro_1, comparativo sobre os candidatos aos cursos de
antropologia em Portugal.
O curso de licenciatura da UFP foi o primeiro curso de Antropologia em Portugal
a dar mais importância à dimensão aplicada da disciplina. Em 2003 foi criado o
mestrado em antropologia (não abrindo, todavia), e, na mesma altura, abriu o
curso de pós-graduação em intervenção humanitária, dirigido por Paulo Castro
Seixas e ligado à sua experiência de investigação em Timor e na direção da ONGD
Médicos do Mundo (delegação do Porto). Esta última formação, que posteriormente
se converteu num mestrado, representou uma reinvenção da antropologia pelo
caminho das suas aplicabilidades e da sua articulação e diálogo
interdisciplinar com outras ciências sociais como a sociologia e não só.
Os antropólogos que protagonizaram este projeto foram, entre outros, Paulo
Castro Seixas, Paula Mota Santos, Álvaro Campelo, Alcinda Cabral e Daniel
Seabra. Todos eles, com exceção de Daniel Seabra (ex-aluno do curso de
antropologia da UFP), tinham uma formação antropológica internacional (em
Espanha, França e Reino Unido). A minha participação no projeto da UFP iniciou-
se em meados dos anos 1990, colaborando na sua revista Antropológicas, e no ano
escolar de 1997-98 fui docente de Antropologia Urbana no 4.º ano da
licenciatura em Antropologia. Importa relembrar que este projeto significou uma
tentativa de construir um núcleo antropológico diferenciado no país em relação
à hegemonia científica dos centros antropológicos de Lisboa (ISCTE, FCSH-UNL e
ISCSP). Como parceiros deste projeto estavam as Edições Fernando Pessoa e,
parcialmente, a SPAE (Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia),
símbolo de uma tradição antropológica nortenha muito ligada à arqueologia.
Uma outra etapa do processo foi a criação do Centro de Estudos em Antropologia
Aplicada (CEAA) em 1999, avaliado na altura pela Fundação para a Ciência e a
Tecnologia com a classificação de Bom. A implementação do centro pressupunha
a afirmação de uma investigação antropológica ligada a uma antropologia
administrativa (Spradley e McCurdy 1980 [1975]), a uma antropologia para o
desenvolvimento (Carmo 1999; Giménez Romero et al. 1999; Escobar 2000) e a uma
antropologia em ação (Van Willigen 1986; Greenwood 2002). As linhas principais
de trabalho do centro foram as do património cultural e desenvolvimento,
museus, ajuda humanitária, cooperação para o desenvolvimento, urbanismo e
planificação urbana, associativismo e organizações locais de desenvolvimento. O
CEAA fechou em 2007 e passou a Centro de Estudos Culturais, da Linguagem e do
Comportamento (Ceclico), tendo perdido a sua natureza disciplinar e passado a
pluridisciplinar.
Alguns exemplos do envolvimento da investigação da Universidade Fernando Pessoa
foram os da sua cooperação com o Ecomuseu do Barroso, a ONGD Médicos do Mundo
ou a candidatura a património imaterial da humanidade da cultura oral galaico-
portuguesa. Estes exemplos mostram a ênfase interventiva e aplicativa de
teorias, métodos e técnicas antropológicas nas problemáticas sociais
contemporâneas. A sua ligação com a Galiza e as suas instituições de cariz
antropológico (por exemplo, departamentos universitários de antropologia, a
Associação Galega de Antropologia, o Museu do Povo Galego, etc.) são outro dos
traços distintivos deste projeto de institucionalização de uma antropologia
aplicada a Norte.
Um outro importante papel público da antropologia da UFP foi o da intensa
dinâmica de organização de congressos de antropologia; por exemplo, o VI
Congresso Internacional de Estudantes de Antropologia (celebrado em 1998 e pela
primeira vez de âmbito ibérico), o seminário Cultura e Arquitetura (celebrado
em 1997), e as jornadas sobre exclusão e racismo (em 1997). Porém, este papel
público não evitou que as razões do mercado servissem para motivar a
suspensão da licenciatura em Antropologia da UFP. Coincidindo com um período de
recessão económica de Portugal, que se arrasta até hoje, os interessados em
estudar antropologia optaram por procurar universidades públicas, como podemos
comprovar no quadro acima apresentado.
Contudo, e apesar desta situação, os antropólogos da UFP reinventaram a
antropologia e o seu exercício profissional universitário num processo de
adaptação à nova situação; e criaram uma licenciatura em Estudos Culturais com
maior atratividade de alunos e encaixaram-se nalguns mestrados com uma ênfase
aplicada e interventiva, como o da formação em Intervenção Humanitária.
A antropologia aplicada no Polo da UTAD em Miranda do Douro
Em outubro de 1998 entraram em funcionamento a licenciatura em Antropologia
Aplicada ao Desenvolvimento e uma outra em Trabalho Social no polo da UTAD em
Miranda do Douro, criado nesse mesmo ano. A criação deste polo correspondeu à
política de expansão da UTAD em Trás-os-Montes e em particular no distrito de
Bragança, saindo assim da sua sede central em Vila Real e complementando-se o
polo de Chaves (fronteira com a Galiza) com um terceiro espaço de ensino
superior na fronteira com Zamora (Castela e Leão). No mapa da figura_1 podemos
ver a localização geográfica relativa dos três polos da UTAD.
Miranda do Douro era em finais da década de 1990 uma pequena cidade situada na
fronteira com a região de Castela e Leão (Espanha), com pouco mais de 2500
habitantes. O projeto político de criação de um polo universitário neste
concelho com cerca de 10.000 habitantes representou uma experiência e um ensaio
de desenvolvimento comunitário local, no qual teve muita importância o uso
social da antropologia e o papel dos antropólogos, como veremos a seguir.
A criação da licenciatura em Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento foi feita
por Despacho da Reitoria da UTAD n.º 6553/97 (publicado no Diário da República,
n.º 195, 2.ª série, de 25 de agosto de 1997), tendo sido proposta pelo
psicólogo José Vasconcelos Raposo, hoje professor catedrático de psicologia na
UTAD, durante o mandato do reitor José Manuel Torres Pereira. Importa sublinhar
que esta criação foi feita de forma paralela ao tradicional enquadramento
departamental, gerando uma tensão conflitual com o Departamento de Economia e
Sociologia da UTAD, o departamento por excelência das ciências sociais. Antes
de 1997, a disciplina de antropologia era oferecida nalguns cursos da UTAD
ligados à gestão agrária, sendo ministrada pela antropóloga Amélia Frazão
Moreira, hoje professora da Universidade Nova de Lisboa.
Os primeiros anos da licenciatura em Antropologia foram marcados pelas difíceis
e exigentes condições colocadas à entrada de alunos, o que levou a que nos dois
primeiros anos tivéssemos poucos alunos de Antropologia (também
comparativamente com Trabalho Social). A mudança nas condições de acesso dos
alunos ao curso permitiu que no terceiro ano do projeto aumentasse a sua
procura, com uma destacada feminização da demanda. O acréscimo da procura por
parte de alunos permitiu a contratação e a construção de uma equipa de jovens
antropólogos (Paulo Mendes, Pedro Silva, Octávio Sacramento, Luzia Oca,
Humberto Martins, Xerardo Pereiro), com formação internacional em Portugal,
Espanha, Reino Unido e Itália.
Com destaque para a etiqueta de antropologia aplicada, e com o polémico
epíteto de desenvolvimento associado, a construção da especificidade do curso
pela sua aplicabilidade e intervenção social contribuiu para o aumento da
diversidade da antropologia portuguesa, colocando-a não apenas no plano da
análise e interpretação cultural, mas também no plano da reflexão crítica e
orientação da mudança sociocultural:
Os estudantes de Antropologia Aplicada conhecerão e utilizarão as
ferramentas de investigação etnográfica, mas também aplicarão estas
no desenho, execução e avaliação de projetos de desenvolvimento e
outros (a título de exemplo, em áreas tão díspares quanto Saúde e
Ambiente, Turismo e Integração Social ou Museologia e Urbanismo)
[texto de divulgação do curso].
Contudo, durante os primeiros anos de existência do curso e do polo, existiram
duas formas diferentes de entender a antropologia aplicada. Uma primeira, a do
Prof. Dr. José Vasconcelos Raposo (mentor do curso), projetava a antropologia
aplicada como oposta e separada da antropologia (dita académica), do ponto de
vista teórico, metodológico e da sua intervenção sobre o mundo. Neste sentido,
segundo o próprio, a luta pelo reconhecimento da antropologia aplicada
significava uma rutura com as genealogias antropológicas convencionais, com
vista à construção de uma outra nova. A segunda, abraçada pelo grupo de
antropólogos acima citados, entendia a antropologia aplicada como estando
intimamente ligada ao corpus teórico-metodológico e ao projeto humanístico da
antropologia. Portanto, considerávamos a polaridade entre antropologia aplicada
e antropologia académica como uma falsa dicotomia, reconhecendo também que toda
a antropologia é implicada e aplicável na reflexão e construção de modos de
viver humanos. Paralelamente, existia nos nossos debates permanentes uma forte
preocupação ética com a intervenção da antropologia e com as saídas
profissionais e a empregabilidade dos licenciados em Antropologia, para além da
própria academia. Um exemplo que projeta este argumento pode ser reconhecido
nas potenciais saídas profissionais para os licenciados em Antropologia
Aplicada indicadas na divulgação oficial do curso da UTAD:
* agências de desenvolvimento;
* museus e ecomuseus;
* fundações culturais;
* entidades regionais de turismo;
* escolas secundárias;
* parques naturais;
* organizações associativas;
* câmaras municipais;
* corpo diplomático;
* centros de saúde e hospitais;
* organizações não governamentais;
* organizações governamentais, sobretudo nas áreas de ação social e cooperação
internacional;
* universidades públicas e privadas, universidades populares e sénior;
* empresas, inclusive gabinetes de arquitetura, consultores turísticos, etc.
As principais áreas de atuação e tipos de trabalho a serem desempenhados pelo
licenciado em Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento, tal como indicado
também nos documentos de divulgação do curso da UTAD, seriam as seguintes:
* antropologia e gestão cultural;
* minorias étnicas e integração social;
* saúde;
* planificação urbana e desenvolvimento local;
* avaliação de necessidades;
* património cultural e turismo;
* ensino e educação em contextos formais, informais e não formais;
* antropologia visual;
* estudos de mercado e de mass media;
* publicidade;
* assessoria e consultoria;
* ambiente e ordenamento do território.
Depois de um período inicial de desenvolvimento do polo (1998-2002),
Vasconcelos Raposo, pró-reitor no mesmo, foi substituído por Chris Gerry,
catedrático de economia do desenvolvimento da UTAD. Este último liderou um
processo de construção de um corpo docente qualificado, de reestruturação da
oferta educativa, de integração dos docentes em departamentos e centros de
investigação da UTAD, de internacionalização, e de envolvimento com a
comunidade mirandesa e fronteiriça. Este envolvimento foi realizado através da
construção de um relacionamento participativo com a comunidade local, que
acabou por se apropriar da universidade como sua, algo que se produziu em breve
tempo, graças a uma atitude antropológica de colaboração institucional e de
procura de soluções para os problemas da região (por exemplo, o despovoamento e
o envelhecimento).
Posto isto, importa dizer que no polo de Miranda do Douro formámos 130 alunos
em Antropologia Aplicada ao Desenvolvimento e várias centenas de trabalhadores
sociais com formação específica em áreas da antropologia (Pereiro 2002). No
quadro_2 apresentamos alguns dados da evolução do número de formandos em
Antropologia.
Como podemos ver no quadro_2, depois de 2003-2004 verifica-se um decréscimo do
número de alunos candidatos ao curso de Antropologia paralelamente a uma
drástica redução do número de entradas, que ocorre muito pelo aumento da oferta
de vagas dos cursos de Antropologia sediados em Lisboa e Coimbra e pelo
relativo carácter periférico do curso e do polo no contexto geográfico e do
ensino superior em Portugal. Estes factos foram determinantes (mas não
exclusivos) na decisão da UTAD de suspender o curso de Antropologia Aplicada ao
Desenvolvimento e de transferir o curso de Trabalho Social (agora Serviço
Social), com uma permanente boa entrada de alunos, para Vila Real. Além destes
factos, questões de política universitária da UTAD e de política nacional da
rede universitária favoreceram estas mudanças.
As estratégias de ensino-aprendizagem da antropologia no polo de Miranda do
Douro, efetivamente de pequena dimensão, focaram-se: (a) no ensino
personalizado e na antropologia em ação ' trabalho de campo implicado e
aplicado quase permanente dos alunos; (b) no contágio do exotismo da região e
na inovação sobre a tradição; (c) no impacto positivo na comunidade local e
transfronteiriça, através de protocolos, relações de cooperação e cumplicidade
com organizações, nas quais estão incluídas câmaras municipais, museus,
associações de vária índole e juntas de freguesia; (d) na internacionalização
por meio do estabelecimento de mais de 30 acordos Sócrates-Erasmus com outras
universidades (e.g. Universitat Rovira i Virgili, Universitat de Barcelona,
Universidade de Santiago de Compostela, Universidade de Sevilha, Universidade
de Valladolid e Euskal Herriko Universitatea, em Espanha; Universidade de Lodz,
na Polónia; Università della Sapienza, em Itália); (e) no estabelecimento de
protocolos como outros departamentos de antropologia (e.g. Universidade de
Louisville, nos Estados Unidos); (f) em ligações e relações privilegiadas com
todos os departamentos de antropologia portugueses: ISCTE, FCSH-UNL, ISCSP/UTL
e FCT/UC; e (g) na organização de eventos e reuniões científicas, servindo de
reforço e complemento da formação dos nossos estudantes, além do seu contributo
para o intercâmbio científico, para a criação de redes e a concretização de um
campus transfronteiriço e transnacional (e.g. VII Congresso Internacional de
Estudantes de Antropologia, Jornadas de Antropologia Aplicada, Congresso
Leituras Antropológicas de Trás-os-Montes, Cursos de Língua e Cultura
Mirandesas, etc.).
No sentido que apontamos, na nossa relação com as outras universidades
portuguesas e espanholas, a licenciatura em Antropologia Aplicada ao
Desenvolvimento serviu como espelho para pensar criticamente o ensino da
antropologia no ensino superior e algumas reestruturações e redefinições de
cursos (por exemplo os da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto Superior
de Ciências Sociais e Políticas).
Do mesmo modo, é preciso assinalar a importância de alguma investigação
antropológica focada sobre as problemáticas transfronteiriças, o
desenvolvimento local, o património cultural e o turismo. Esta investigação foi
reforçada através da colaboração com a Asociación Etnográfica Bajo Duero, de
Zamora, e a sua revista O Fiadeiro/El Filandar, que acabou por integrar
publicações em espanhol, português e mirandês ' segunda língua oficial de
Portugal, ligada ao astur-leonês ' e tendo uma coordenação hispano-lusa. Esta
cooperação permitiu construir pontes intelectuais entre os dois lados da
fronteira e entre discursos antropológicos, literários e folcloristas. Alguns
destes projetos e exercícios de investigação antropológica estão detalhados no
quadro_3.
Neste relato sobre a experiência de Miranda do Douro é de apontar ainda que a
licenciatura em Antropologia Aplicada foi reestruturada em 2004-2005. No
entanto, em 2006-2007 a abertura de novas vagas foi suspensa por decisão da
reitoria da UTAD e o primeiro ano deixou de receber alunos; em 2009 o curso foi
novamente reestruturado e adequado a Bolonha (ver Diário da República n.º 134,
2.ª série, 13 de Julho de 2010, Despacho da UTAD n.º 11426/2010, pp. 37701-
37704). Embora não tenha ainda voltado a abrir vagas, é relevante o objetivo
definido no artigo 3.º deste despacho, e que mostra que tipo de antropologia se
pretende ensinar e qual o modo de usar a antropologia aplicada ' seguindo
basicamente as orientações da reestruturação anterior:
O 1.º ciclo em Antropologia Aplicada da UTAD visa formar
antropólogos ministrando uma formação teórico-prática que se
sedimente como base fundamental para futuros desempenhos
profissionais, logo completada com uma formação especializada em
mestrados e doutoramentos. A formação em Antropologia Aplicada tem
como base os corpos teóricos da Antropologia acumulados nos dois
últimos séculos e as metodologias de investigação qualitativa e
quantitativa em Ciências Sociais. Esta formação visa a aplicação do
conhecimento antropológico em íntima colaboração com as populações e
os grupos humanos com os quais o antropólogo trabalha (isto é,
segundo uma lógica em que deve predominar uma gestão participada
entre os diferentes saberes).
Os estudantes desta licenciatura conhecerão e utilizarão as
ferramentas de investigação etnográfica, mas também aplicarão estas
no desenho, execução e avaliação de projetos de desenvolvimento e
outros (a título de exemplo, em áreas tão díspares quanto Saúde e
Ambiente, Turismo e Integração Social ou Museologia e Urbanismo). A
formação proporcionada aos estudantes de antropologia aplicada e do
desenvolvimento na UTAD está orientada para um desempenho
profissional em diferentes contextos socio-geográficos: ocidentais,
africanos, asiáticos e latino-americanos, zonas com as quais Portugal
e a Península Ibérica mantêm uma ligação histórica particular.
O polo da UTAD em Miranda do Douro acabou finalmente por fechar no ano letivo
de 2009-10, por decisão da reitoria, regida na altura pelo Prof. Dr. Armando
Mascarenhas, sendo delegado do reitor em Miranda do Douro o Prof. Dr. Humberto
Martins. A licenciatura em Antropologia foi suspensa, a licenciatura em Serviço
Social foi deslocada para Vila Real, e os docentes foram, na sua maioria,
trabalhar para a sede central da UTAD em Vila Real.
Queria sublinhar ainda algumas questões para compreender melhor este processo
agónico, em muitos sentidos, para alunos, docentes, funcionários e comunidade
mirandesa em geral. A primeira é a da própria antropologização do curso de
Trabalho Social (agora Serviço Social) e de outros como o de Turismo e o de
Animação Sociocultural ' a funcionar em Chaves ', como melhor forma de
reconstrução social da vida profissional dos antropólogos. A segunda questão a
destacar é que a antropologia e os antropólogos da UTAD se confrontam com a
necessidade de mostrar a utilidade social e educativa do ensino da antropologia
para não antropólogos, desafio que teve um certo sucesso na relação com a
afirmação da aplicabilidade da antropologia em diferentes contextos
socioprofissionais, entre os quais se encontram os universitários. A terceira é
a da fraqueza institucional da antropologia na UTAD, que se deve
fundamentalmente: (1) a não apresentar um enquadramento institucional
departamental durante os primeiros anos de funcionamento do curso e do polo de
Miranda do Douro; (2) ao facto de o curso ter nascido sem ter em atenção a
ligação com os departamentos de ciências socias da UTAD; (3) à não conclusão do
doutoramento por parte de muitos docentes e à implicação de uma subordinação
política do ponto de vista estatutário e jurídico; (4) à distância física,
simbólica e política do polo de Miranda do Douro face ao centro político da
UTAD em Vila Real, num quadro de relações políticas no qual a antropologia era
vista como algo exótico e auxiliar, portanto prescindível.
Conclusões: a situação atual da antropologia no Norte de Portugal
Atualmente assistimos a uma reconversão neoliberal da universidade e dos seus
objetivos, a que não é alheia a antropologia (Narotzky 2011) e com exemplos
desta transformação apresentados acima. A linguagem dominante nas nossas
universidades integra termos como gestão, clientes, utilidade, eficiência,
produtividade, competitividade e outros. Isto leva a antropologia a um
questionamento sobre a sua utilidade social e a um desafio crítico de adaptação
e resistência face aos estereótipos de que a disciplina é objeto (Pina-Cabral
1998). Enquanto formação disciplinar de 1.º ciclo, em termos quantitativos, a
sua procura é a que se mostra no quadro_4.
De acordo com o quadro_4, temos em 2011 um número de 1196 pessoas que se
candidataram em Portugal para estudar num curso universitário de Antropologia,
considerando a primeira e a segunda fases do concurso nacional. É um número bem
menor que o da década de 1990, o que significa que a antropologia atrai menos e
convence menos o mercado.
Neste quadro geral atual, verifica-se que o enquadramento institucional da
antropologia no ensino superior público do Norte de Portugal apresenta uma
falta de oferta de licenciaturas e mestrados em Antropologia, acontecendo o
mesmo na vizinha Galiza. Os antropólogos académicos trabalham na UTAD, na
Universidade do Minho, na Universidade Fernando Pessoa e na Universidade do
Porto em número decrescente, seguindo esta ordem. Paralelamente, assiste-se
também a uma inserção profissional de alguns antropólogos nos museus (como é o
caso de Jean-Yves Durand no Museu da Terra de Miranda), na sociedade civil
(por exemplo, Gonçalo Mota e Ivett Krezett na associação Aldeia ou Fernando
Cruz na Agir), na cooperação internacional (por exemplo, Sónia Fernandes nos
Médicos do Mundo) e noutros âmbitos profissionais.
No caso da UTAD, atualmente, nós os antropólogos estamos enquadrados no
Departamento de Economia, Sociologia e Gestão (um departamento de ciências
sociais) da Escola de Ciências Humanas e Sociais. Lecionamos antropologia em
licenciaturas e mestrados em Serviço Social, Psicologia, Turismo, Animação
Sociocultural, Enfermagem, Arquitetura Paisagista, divididos por Vila Real e
pelo polo de Chaves. No contexto do 3.º ciclo (doutoramento), existiu na UTAD
um doutoramento em Ciências Sociais pelo sistema de orientação tutorial, no
qual a antropologia tinha um pequeno espaço, mas este foi transformado num
doutoramento em Estudos do Desenvolvimento, com parte curricular.
Embora exista um processo de negociação com a Universidade do Minho para
abertura de uma licenciatura conjunta em Antropologia Aplicada, em Braga e Vila
Real, na verdade o panorama aponta para uma reabertura por parte da UTAD de um
1.º ciclo em Antropologia Aplicada. O curso de 1.º ciclo está adequado ao
Processo de Bolonha (Despacho da UTAD n.º 11426/2010, Diário da República, 2.ª
série, n.º 134, de 13 de julho de 2010), mas falta ainda a aprovação por parte
dos órgãos competentes da UTAD e o reconhecimento por parte da A3ES (Agência de
Acreditação e Avaliação do Ensino Superior) para que tal projeto seja uma
realidade.
Relativamente à investigação antropológica feita na UTAD, esta enquadra-se no
Cetrad (Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento), um centro
de investigação pluridisciplinar no qual os antropólogos trabalham com
economistas, sociólogos, gestores, historiadores e outros cientistas sociais.
Além disso, é preciso destacar que alguns antropólogos da UTAD estão integrados
no CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia). Por isso, tendo hoje
mais investigadores e docentes que em princípios dos anos 1990, a antropologia
feita no Norte de Portugal afronta vários desafios, nomeadamente: (a) a sua
reinvenção no contexto universitário e o fortalecimento da oferta de ensino e
investigação nos três níveis de ensino superior (licenciatura, mestrado e
doutoramento); (b) o seu trabalho em rede com as instituições universitárias
vizinhas, com destaque para as da Galiza, com as quais há relações históricas
de cooperação; (c) o aumento do prestígio e reconhecimento do papel social da
antropologia em tempos de crise e mudança social acelerada; (d) a construção
de um projeto que ensine aos alunos os modos de usar a antropologia fora da
academia (Marshall 2010).
As experiências descritas acima, num tom subjetivo e numa perspetiva biográfica
e experiencial, podem ser úteis como instrumento de reflexão sobre a
institucionalização da antropologia no país, e no Norte de Portugal em
particular. Penso que a antropologia académica portuguesa é muito relevante
para o país e para o mundo, devendo afirmar-se como um elo de ligação mais
forte entre a universidade e a sociedade (cf. Fry, Ketteridge e Marshall 2010),
o que lhe exige um papel ativo na resolução de problemas sociais. A
antropologia serviria assim, nas suas implementações institucionais e
educativas diversas, como um espaço de mediação pedagógica, de investigação e
interpretação (Guerra, Sureda e Castells 2011) dos sistemas socioculturais.
A antropologia em Portugal é hoje uma disciplina que contribui para o
alargamento do conhecimento das formas de humanidade e, nos seus diversos
ensinamentos e institucionalizações, deve possibilitar maximizar as
potencialidades e vocações das universidades e os seus ancoramentos locais,
considerando estes como laboratórios antropológico-sociais. Como fazer isto? A
meu ver, explorando a carga semântica e reflexiva da antropologia e fugindo de
um certo romantismo inútil tal como Otávio Velho (1995) tem referido, e
aceitando antropologias heterológicas e transnacionais que ensinem o ofício de
ser antropólogo profissional. Neste sentido, a antropologia está melhor
posicionada do que outras ciências sociais para entender a realidade social e
ao mesmo tempo para nela intervir.