Sobre o lugar e os usos das imagens na antropologia: notas críticas em tempos
de audiovisualização do mundo
“Will the new ethnographic films be subject to less marginalization and more
acceptance from the mainstream of cultural anthropology as a serious means of
anthropological expression, or will they remain merely an audiovisual aid to
teaching?” (Durington e Ruby 2011: 201).
(Longo) impulso para uma reflexão
A ideia de escrever este artigo resulta de um certo desapontamento pessoal com
o facto de não ver partilhado com maior frequência e intensidade, entre
antropólogos visuais e não visuais, o espaço de produção, mostra, utilização e
reflexão acerca de produtos audiovisuais. Em concreto, tenho a perceção de que
quem trabalha com imagens na antropologia está à parte dos restantes
antropólogos através de processos que, em bom rigor, são de auto e
heteroexclusão e com visíveis manifestações nos diferentes encontros
científicos que vão sendo promovidos – pela European Association of Social
Anthropologists (EASA), pela Société Internationale d’Ethnologie et de Folklore
(SIEF), pela Associação Portuguesa de Antropologia (APA) –, nos quais a
produção audiovisual é relegada para uma marginalidade teórico-epistemológica.
Parece-me, por outro lado, que a divisão disciplinar (não visual – visual),
menos imposta do que assumida, ajuda a manter num certo nojo uma reflexão
crítica mais profunda e alargada (a toda a antropologia) sobre a forma como as
imagens são tratadas nas pesquisas antropológicas e recebidas ou acedidas nas
mais variadas formas da sua exibição pública e, em particular, nos encontros
científicos. Diria, portanto, que o audiovisual mantém na antropologia um
estatuto de marginalidade duplamente produzido e reproduzido por antropólogos
visuais e não visuais.
De facto, os antropólogos visuais continuam (mais) a falar e a mostrar
produções entre si e pouco contacto é estabelecido, em termos do que se escreve
sobre teoria, metodologia e epistemologia, com os restantes antropólogos. Neste
particular, alguns factos parecem evidentes, fazendo a apreciação do que
observo nos referidos encontros científicos portugueses e europeus e apesar de
as mostras de filme (etnográfico ou documentário) e as exposições (fotografia e
instalações audiovisuais) integrarem, cada vez mais, os seus programas: (1) as
sessões de mostra de filme decorrem com a presença maioritária ou exclusiva dos
antropólogos visuais e/ou dos produtores e realizadores, que, muitas vezes, não
têm formação antropológica (uma tendência muito estimulada pelos próprios
antropólogos visuais); (2) os debates sobre os filmes têm poucas ou nenhumas
ligações com debates teóricos que se vão produzindo na ciência antropológica
mais vasta; (3) os painéis organizados sobre temas preferencialmente “visuais”
são frequentados apenas por antropólogos visuais; (4) poucas ou nenhumas
referências são feitas nos painéis “não visuais” a filmes, fotografia e
produtos audiovisuais mais em geral; (5) os produtos audiovisuais,
nomeadamente filmes, não são convocados com uma maior frequência para os
diálogos metodológicos, teóricos e epistemológicos promovidos pelos
antropólogos não visuais nos seus textos e comunicações, mesmo aqueles que
tratam de objetos ou temas com produção audiovisual relacionada; (6) poucos
painéis promovem, de facto, um encontro de abordagens visuais e não visuais;
(7) raramente a abertura destes encontros ou de sessões plenárias é feita com a
exibição de um produto audiovisual; (8) o reconhecimento curricular (científico
e académico) dos produtos audiovisuais não está instituído a um mesmo nível do
da produção textual.
Dito disto, importa referir que este texto não se assume como um manifesto pró-
visual; pelo contrário, o objetivo é o de estimular diálogos entre
antropólogos, colocando a antropologia visual em lugares mais centrais nos
debates teóricos, metodológicos e epistemológicos da antropologia social em
Portugal.[1] Também não pretendo traçar a história da antropologia visual
(portuguesa) nem tampouco reivindicar uma centralidade extraordinária para a
mesma. [2] Apesar de investigar com imagens – fotografia e filme etnográfico
(Martins 2005) –, não me assumo como antropólogo visual. A minha perspetiva é,
também, a de que a distinção entre antropólogos visuais e não visuais serve
apenas para efeitos de argumento textual. Considero que os antropólogos fazem
antropologia e que as especializações não nos devem fazer diferenciar
subcategorias profissionais ou académicas (e. g. antropólogo visual ou
antropólogo político), embora reconheça que a antropologia visual dialoga com
outros saberes e afazeres (as artes, em geral, e o cinema e a fotografia, em
particular – Edwards 2011; Schneider 2011; Gray 2010; Griffiths 2002; Okely
2001; Grimshaw 1997, 2001b) e que, também por isso, em muitos momentos públicos
de divulgação e discussão dos seus produtos, os interlocutores em presença não
são (nem teriam de ser) maioritariamente antropólogos (Banks e Ruby 2011). Esta
constatação não significa que os produtos audiovisuais, mesmo sem
intencionalidade científica explícita e/ou explicitada, não sirvam à
antropologia e aos antropólogos.
No meu trabalho, por exemplo, utilizo imagens sempre que considero necessário
aceder a determinados aspetos da realidade social que me escapam nas formas de
pesquisar não visuais e nas representações criadas via texto escrito, ou para
propor diferentes perspetivas de uma mesma realidade (Ginsburg 2011; Martins
2005); invoco, neste particular, não só as formas hápticas de conhecimento
(Grimshaw 2005), que no âmbito de uma antropologia ambiental (e. g. Lee e
Ingold 2006; Pink 2007a) e de uma antropologia da experiência e dos sentidos
(Pink 2006; Grimshaw e Ravetz 2005) têm sido valorizadas, mas, também, o que
Farnell (2011) define como uma perspetiva agencial do movimento humano – ou
seja, uma antropologia que enfatiza produções espacializadas e corporalizadas
de conhecimento, compostas de inúmeras interações, movimentos, gestos e
olhares, que através da descrição escrita via texto não se conseguem
transmitir. Farnell fala de uma segunda revolução somática para sublinhar a
ideia de que “the way human agency works is in terms of the signifying
enactments of moving” (2011: 154); assim, a melhor forma de captar o movimento
(motion) de uma “moving person” – e de epistemologicamente manter a sua
integridade – será através das imagens e dos sons (motion pictures),
garantindo, assim, menor perda de informação no processo de tradução
(transcrição) do observado in situ.
Este conjunto de notas críticas ganhou um forte impulso com a mostra de filme
etnográfico que teve lugar no congresso da SIEF realizado em Lisboa em abril de
2011 e do qual fui um dos programadores, em particular com a exibição do
documentário O Compasso(Regina Guimarães e Saguenail, 2008), realizado no
âmbito de uma investigação sociológica sobre Fonte Arcada (coordenada por José
Madureira Pinto e João Queirós da Universidade do Porto). O filme, feito num
registo wisemaniano de longa duração e produzido como complemento à
investigação não visual sobre transformações em meio rural, revela aspetos que
escapam ao texto escrito e nos quais se inclui a própria investigação enquanto
processo interativo e relacional que envolve diferentes atores sociais
(personagens em filme) – sociólogos, tarefeiros e sujeitos estudados. A câmara
ajudou, de facto, a “abrir” a investigação, tornando-a mais pública
(percetível), não só, e em particular, para os sujeitos da investigação (Pinto
2010), mas, também, para os próprios investigadores/realizadores.
Em suma, considerando, por um lado, o privilégio do sentido da visão na
pesquisa antropológica (Herzfeld 2011; Grimshaw 2001b; Fabian 1983) [3] e, por
outro, o predomínio da palavra escrita na transmissão do conhecimento e na
produção de representações sobre o “outro” (Herzfeld 2011; Mead 1975), [4]
importa retomar alguns dos clássicos questionamentos da antropologia visual na
sua relação com a antropologia. O que fazer com o visual na antropologia
(MacDougall 1997)? E qual o lugar do visual na antropologia social,
reconhecendo que existe uma antropologia visual (e do visual) que tem uma vida
própria(Banks e Ruby 2011; Ruby 2005)? Como e porquê usamos as imagens na
antropologia? Servirão as imagens por si só como interpretações alternativas da
realidade social? Reabrindo, assim, o debate em torno das virtudes
epistemológicas do visual, conseguimos aceder a, e mostrar, aspetos da
realidade que, de outra forma, nos escapariam? Ou seja, trazem as imagens novos
conhecimentos sobre a realidade social? Ou servem as imagens apenas para
confirmar ou ilustrar um argumento escrito e, no limite, a sua função
operatória do ponto de vista metodológico-epistemológico é residual, nada
acrescentando de novo em termos de representação e/ou conhecimento? As
perguntas, embora não originais (Campos 2011; Banks e Ruby 2011; Grimshaw 2005;
Griffiths 2002; MacDougall 1997; Mead 1975), são atuais, em virtude do que me
parece ser a manutenção de um afastamento intencional entre quem não trabalha
preferencialmente com imagens e quem o faz – incluindo profissionais e amadores
que realizam produtos audiovisuais com potencial etnográfico (Edwards 2011;
Durington e Ruby 2011; Pink 2001a, 2001b).
Afastamentos e aproximações (ou o lugar do visual na antropologia)
A história da antropologia visual, por proximidade maior ou menor, é a da
própria antropologia (Edwards 2011; Grimshaw 2001b, 2005; Griffiths 2002), não
obstante tendências e trajetos terem divergido em determinadas fases ou
períodos da mesma e se reconhecer a institucionalização da antropologia visual
como projeto consolidado apenas a partir da Segunda Guerra Mundial, com impulso
decisivo a partir dos anos 70 do século XX (Banks e Ruby 2011). De facto, não
podemos afirmar que a antropologia tenha depreciado o visual na sua história;
muito pelo contrário. Neste ponto importa ativar uma distinção entre os
denominados campos da antropologia. Se a imagem (fixa e em movimento, nos seus
mais variados desenvolvimentos técnicos) teve um lugar de destaque como
ferramenta de pesquisa e como prova (evidência) na antropologia físico-
antropométrica da segunda metade do século XIX, já o mesmo não se pode dizer do
período de “sociologização” teórico-epistemológica da disciplina, com os
paradigmas dominantes da primeira metade do século XX. Na primeira fase, a
história da imagem, e em particular da fotografia, está recheada de contributos
vários (Griffiths 2002). Os projetos de fotografia antropométrica, nos quais
pode ser incluída a cronofotografia de Étienne-Jules Marey (Griffiths 2002),
com a obsessão positivista-objetivista de medições, classificações e
comparações entre corpos, especímenes de raças ou grupos culturais, tiveram um
forte impulso com as emergentes técnicas desse período – o que Pinney,
classificando o entusiasmo e fé no signo (evidência) visual do período
evolucionista da antropologia, denominou como “a verdade do cientismo
fotográfico” (cit. em Griffiths 2002: 99). Esse tipo de abordagem seria
criticado no virar do século por fotógrafos de um estilo mais naturalista, que
identificavam a falta de contexto – da cultura viva que estaria ausente das
fotografias de corpos nus em pose segundo instrumentos de medição no estilo
antropométrico (Griffiths 2002).
Contudo, apesar de a antropologia social, em especial com a afirmação dos
paradigmas teóricos funcionalistas e estruturalistas (sociológico-analíticos),
ter privilegiado o invisível relativamente ao visível das culturas, dando
ênfase em largo período da primeira metade do século XX a conceitos abstratos
(não visualizáveis), como os de função, estrutura, organização social, que
reivindicavam mais o lápis e a palavra escrita do que a câmara e a imagem
(Wolbert 2000; Mead 1975; Temaner e Quinn 1975), a história da antropologia tem
sido feita entre o verbal e o visual (Herzfeld 2011). Mesmo nas clássicas
monografias fundadoras da antropologia sociológica moderna, autores como
Malinowski ou Evans-Pritchard representaram visualmente o que conheceram, tendo
produzido conjuntos volumosos de imagens – especialmente fotográficas (Edwards
2011; Morton 2005; Wolbert 2000).
Nesta história do visual na antropologia também não podemos esquecer o projeto
de antropologia aplicada de Margaret Mead e Gregory Bateson no Bali (anos 30 do
século passado), que conduziu à produção de vários filmes e fotografias (e. g.
A Balinese Family) e do próprio “momento” fundador do moderno trabalho de campo
antropológico com a “famosa” expedição ao Estreito de Torres no Pacífico, num
projeto da Universidade de Cambridge liderado por Alfred Cort Haddon em 1898.
Os filmes realizados pela equipa de Haddon são considerados pioneiros na
história do filme etnográfico, surgindo apenas três anos depois das
experimentações dos irmãos Lumière nas ruas de Paris e que, considerados pelo
prisma de que filmam pessoas “reais”, também podem ser vistos como filmes
etnográficos (Durington e Ruby 2011).[5] Apesar de baseados numa reconstituição
de práticas culturais – com encenação – e no âmbito de uma salvage anthropology
atenta aos mundos em desaparecimento e aos aspetos materiais e folclóricos, os
filmes e o projeto de Haddon são devedores de uma antropologia de contacto e
contexto – que tem em W. H. Rivers um dos seus principais intérpretes –, isto
é, uma antropologia que, por um lado, queria ter acesso em primeira mão ao
ponto de vista nativo tal como produzido em contexto (Grimshaw 2001a e 2001b)
e, por outro, não queria deixar de registar mundos humanos (naturais e
culturais) em “eventual” extinção. Neste sentido, é interessante verificar como
parece ser constante esta ideia de mundos em desaparecimento para uma
antropologia que precisa de recorrer ao visual. Anos mais tarde (70-90 do
século XX), a Granada Television (Reino Unido) em colaboração com o
Departamento de Antropologia Social da Universidade de Manchester, levou a
efeito um bem-sucedido projeto de filmes documentários de raiz etnográfica com
o título Disappearing World /O Mundo em Extinção, com localizações de filmagem
um pouco por todo o mundo (incluindo a Europa). Também a clássica crítica de
Mead (1975) ao insuficiente uso de audiovisuais na antropologia fala da
urgência em não deixar perder traços e elementos culturais e da
responsabilidade dos antropólogos quanto ao seu registo por meios visuais.
Na antropologia portuguesa encontramos também muitos trabalhos que são
complementados com recurso a imagens (fotografia ou vídeo). Algumas correntes,
focadas em aspetos de cultura material, património coletivo e elementos
folcloristas, têm feito um uso sistematizado das imagens (com uso da fotografia
e/ou do filme). O trabalho realizado pela equipa de Jorge Dias no contexto do
Centro de Estudos de Etnologia (que viria a estar na origem do Museu de
Etnologia) é um bom exemplo. Em particular, em relação ao filme etnográfico em
Portugal, Benjamim Pereira teve um papel muito ativo desde os anos 50 do século
passado, com extensão ao trabalho colaborativo com a equipa do Institut für den
Wissenschaftlichen Film, de Göttingen, nos anos 70, que levou à produção de uma
extensa (e intensiva) etnografia fílmica sobre tradições populares portuguesas.
[6]
Entretanto, vários antropólogos portugueses têm realizado filmes etnográficos e
documentários ou participado com aconselhamento científico em projetos
fílmicos, revelando a sua disponibilidade para a utilização de meios e produtos
audiovisuais no âmbito de pesquisas antropológicas. Também a fotografia é
presença assídua nos trabalhos realizados, com exemplos que, por tão
diversificados, não caberiam neste texto. Cito apenas dois. Na coleção Portugal
de Perto das Publicações Dom Quixote, onde estão representadas etnografias
marcantes feitas sobre Portugal, o trabalho de Joaquim Pais de Brito (1996)
apresenta um interessante conjunto de fotografias (proposta seguida noutras
obras da coleção) que vai além da mera ilustração. As fotografias assumem-se,
com a ajuda das legendas (algumas muito descritivas), como um ensaio paralelo,
permitindo-nos perceber de outra forma (mais sensorial) aspetos da organização
da vida social local que o texto escrito não consegue passar. Recentemente,
numa parceria do CRIA e da Câmara Municipal de Lisboa, Chiara Pussetti
coorganizou com Vítor Barros a exposição multimédia “Woundscapes: Sofrimento,
Criatividade e Vida Nua”, que contou com colaborações antropoartísticas de
vários antropólogos.[7]
Todavia, reparo que as imagens tendem a ser pouco utilizadas e/ou usadas sem
que haja necessariamente uma reflexão (Edwards 2011; Martins 2011), servindo um
propósito que considero pouco ambicioso de, por um lado e em termos da
publicação de monografias antropológicas, mostrar os contextos e sujeitos
investigados, o que tem como exemplo preferencial o da fotografia ilustrativa
com ambição empírico-realista (Edwards 2011; Cornu 2010; Hammond 1998), isto é,
são um registo que visa autenticar ou garantir determinada evidência objetiva
de uma presença num terreno de estudo, de um contexto físico, performance e/ou
de um sujeito observado; por outro lado, as imagens servem projetos pessoais ou
coletivos paralelos, que se situam fora das academias e que intencionalmente
procuram novas audiências ou mesmo novos formatos de comunicação.[8] As
imagens, nos dois casos, tendem a tornar-se residuais ou marginais face ao
lugar central ocupado pelo texto escrito ou pelo discurso que privilegia as
palavras ditas. Não existe uma equalização estatutária em termos de produção
argumentativa, que poderia traduzir-se, em termos concretos, na utilização de
mais imagens (filmes, fotografias, desenhos) nos artigos e apresentações orais,
com maior exploração dos conteúdos interpretativos associados – num cruzamento
mais profícuo de várias técnicas de pesquisa, teorias e epistemologias.
Edwards (2011) assinala que uma certa iconofobia vigente, não só na
antropologia mas um pouco por todas as ciências sociais, deriva das virtudes
polissémicas associadas às imagens e que podem, precisamente, fazer perigar a
desejada objetividade de um certo modelo (positivista-racionalista) que nelas
tem imperado. Para esta autora, a história da utilização da fotografia na
antropologia (o seu foco principal de discussão) revela continuados “cuidados”
delimitadores das eventuais fugas ao jugo da objetividade assente no valor
indexical-realista da mesma. Através, por exemplo, do controlo físico dos
objetos ou sujeitos filmados (com estilos associados, como o da “pose”), ou
pelo recurso a legendas, vários autores (onde estão incluídas referências da
antropologia como Malinowski ou Evans-Pritchard) tentam atingir mais ou menos
naturalisticamente uma representação objetiva da realidade (Edwards 2011). No
entanto, Edwards aborda a impossibilidade ou falácia da câmara (registo)
neutral, fazendo acionar o argumento da construção social e cultural do olhar;
por um lado, não vemos todos a mesma coisa da mesma forma (Okely 2001) e, por
outro, existe sempre um estilo ou escolha autoral – isto é, reconhece-se a
impossibilidade de um não-estilo, desvelando, assim, o trabalho de seleção do
fotógrafo/antropólogo.
Há antropologia sem texto?
“Attitudes among anthropologists toward film have been anything but unified
throughout the history of the discipline. This ambivalence […] is the result of
cinema’s simultaneous appeal to scientific verisimilitude and visual spectacle”
(Griffiths 2002: 312).
Vários são, de facto, os comentários depreciativos de antropólogos não visuais
sobre a qualidade antropológica de alguns projetos audiovisuais e, em especial,
a dos documentários. “Isso não é antropologia”, ouço amiúde, particularmente
fazendo referência à fraca ou inexistente contextualização histórica e teórica
dos filmes (porque insuficiente em termos de trabalho de campo realizado), a
que acresce uma suposta falta de estudo comparativo que pudesse, de alguma
forma, aproximar-se do filme científico-analítico do género da série realizada
por Mead e Bateson no Bali ou de The Ax Fight (Asch e Chagnon 1975). [9] Esta
é, aliás, uma questão que Stoller (1992) comenta detalhadamente em relação à
apreciação que é feita no seio da antropologia à etnografia fílmica de Jean
Rouch – muito menosprezada pela (eventual) insuficiência científica dos seus
registos, numa crítica clara à não integralidade (contextual) e profundidade
(teórica) dos mesmos.
Noutras vezes, a ênfase depreciativa é colocada na dimensão espetacular do
registo imagético, como se o “outro” enquanto conceito referencial da
antropologia fosse apresentado como demasiado exótico, numa espécie de
manipulação (edição) da sua singularidade. Voltamos neste ponto não só à
crítica feita à instabilidade semântica dos enunciados visuais e à dificuldade
em assegurar uma garantia da representação feita sobre coletivos, na qual se
inscreve o problema da contextualização e da perda de controlo do autor sobre a
utilização das imagens, mas, sobretudo, a uma eventual superficialidade na
abordagem que tem como limite a falta de tempo de estudo dedicado às pessoas
representadas, isto é, a um trabalho de campo que supostamente não explora com
profundidade suficiente a realidade estudada. Esta segunda apreciação negativa
reconhece também uma questão epistemológica central, relacionada com os acessos
preferenciais do conceito de cultura e a emergência do hermeneutic turn na
antropologia da segunda metade do século XX. Ou seja, à cultura não se acederia
por comportamentos, práticas ou através de elementos materiais, o que
significaria uma quase impossibilidade epistemológica da sua representação
visual.
Sobre este assunto, Grimshaw (2001a e 2001b) fez semelhante reflexão para o
Granada Centre for Visual Anthropology (GCVA) da Universidade de Manchester,
constatando a crescente dificuldade de afirmação e prova da “antropologicidade”
dos documentários produzidos pelos estudantes do MA in Visual Anthropology
daquele centro, por razão não só dos objetos e sujeitos filmados, mas,
igualmente, pelos próprios acessos metodológicos e fracas “pontes” teóricas com
a antropologia mais em geral. Uma das críticas apontadas, e discutida por
Grimshaw (2001a e 2001b), sugeria que os filmes produzidos seriam cada vez
menos etnográficos, seguindo convenções televisivas do género docusoap. Isto é,
os filmes seguiriam indivíduos excêntricos do ponto de vista social, criando
narrativas culturais sujeitas ao ritmo das exigências televisivas e não
respeitando aquilo que Rouch (1975) designou por integralidade da realidade
observada, com base num envolvimento demorado e sujeito a um processo de
estranhamento, que, justamente, justifica a sua continuada descoberta. De certa
forma, nesta formulação podemos ancorar a definição de filme etnográfico
proposta no início dos anos 70 do século passado pelo realizador e antropólogo
francês (Rouch 1975), que, ao contrário do que diziam alguns dos seus críticos,
indiciava como necessária a prática de um trabalho de campo com observação
participante do género malinowskiano. Mais tarde, é o próprio Rouch, no
entanto, que, assumindo a ambição de uma generalização da prática (produção e
receção) do filme etnográfico na antropologia, identifica alguns dos riscos de
uma produção descontrolada:
“O nosso objetivo [Comité du Film Ethnographique] era de uma grande ambição:
iniciar o diálogo entre o rigor científico e a arte cinematográfica. Mas, desde
aí, o Filme Etnográfico tornou-se adulto e reconhecido no mundo inteiro sob o
nome de Visual Anthropology-Antropologia Visual. Esta evolução foi possível
graças à televisão […] Mas hoje é essa mesma televisão que, ao introduzir uma
imagem eletrónica efémera e, sobretudo, ao impor a criação de quadros rígidos
de difusão (13’, 26’ ou 52’), se arrisca a pôr em questão as regras elementares
da nossa disciplina” (Rouch 1995: 11).
Por outro lado, apesar de a antropologia visual ser uma disciplina per se desde
meados dos anos 70 do século passado (Banks e Ruby 2011; Hockings 1975; Mead
1975), de os registos visuais acompanharem toda a história da antropologia
moderna (Grimshaw 2001b; Griffiths 2002), e da sua crescente afirmação através
da proliferação de cursos e escolas por todo o mundo, ela não se define, ao
contrário de outras “especializações” antropológicas, pela especificidade do
seu objeto, como acontece, por exemplo, com a antropologia política ou a
antropologia das religiões. Embora exista uma antropologia do visual (Ruby
2005; Ribeiro 2004) que analisa sistemas e culturas visuais e as imagens ou
produções visuais enquanto geradoras de significados (Ribeiro 2004), a
antropologia visual que tem predominado assenta numa base metodológica na qual
o filme etnográfico ou o documentário têm lugar central (Ruby 2005). Ou seja,
são feitos filmes sobre culturas, sociedades e indivíduos ou estudam-se
culturas, sociedades e indivíduos através de filmes não necessariamente
etnográficos na sua intenção original de produção, mas que concorrem com as
abordagens textuais e analíticas sobre os mesmos objetos de estudo.
Quer isto dizer que a antropologia visual, apesar de várias reivindicações de
novas explorações metodológicas, teóricas e epistemológicas (Ruby 2005;
MacDougall 1995), se tem afirmado sobretudo através de trabalhos que devem
muito às etnografias de base convencional, nomeadamente na criação de uma
linearidade narrativa que pouco ajuda a revelar (desconstruir) as
complexidades, incoerências ou inconstâncias da vida social; isto é, as
etnografias visuais em formato fílmico ou fotográfico predominam e apresentam-
se, normalmente, como complementos ou substitutos das etnografias que resultam
em monografias escritas, seguindo algumas das convenções antropológicas
convencionais – nomeadamente na procura de conhecer a diversidade cultural
através de interlocutores representativos desta. Vejo precisamente aqui a
matéria para que os diálogos entre antropólogos visuais e não visuais possam
ser estimulados, num desafio que não é novo mas que se afigura tão necessário
como reinventável nas formas e nas intensidades cooperativas ou colaborativas.
Isto é, o audiovisual antropológico não é nem pode ser, por um lado, uma
espécie de sucedâneo dos produtos textuais (são, de facto, outras coisas o que
se procura conhecer e o que se consegue conhecer), nem, por oposição extrema,
poderá cair num registo que não respeite quesitos antropológicos mínimos.
Durington e Ruby identificam esta dificuldade:
“We look forward to future productions from those that have moved on into
academic posts; many graduates of these training programs, however, have ended
up with careers in the media and not as academic anthropologists. If the
purpose of the training is to produce anthropologists who can make films as an
expression of their scholarly work, then these programs are not working” (2011:
206).
Reconhecendo que esta conclusão não é partilhada por todos e que está sujeita a
crítica forte, nomeadamente dos antropólogos que sustentam uma prática
antropológica que não se esgota nas academias (e. g. Pink 2011), a verdade é
que muitos alunos (antropólogos mas não só) se inscrevem em programas de filme
etnográfico não para seguir antropologia mas para seguir carreiras mais ligadas
ao cinema, à televisão e, em particular, à produção independente de filme
documentário. É este o percurso de Catarina Alves Costa, ex-aluna do GCVA de
Manchester, cujas produções têm derivado mais (mas não só) para circuitos não
académicos. Todavia, o exemplo de Catarina Alves Costa parece-me apropriado por
várias razões. Primeiro, porque foi ela que estabeleceu em Portugal, no início
dos anos 90, um novo tipo de “cinema do real”, estimulando relações entre
televisão (mais do que cinema) e antropologia; em segundo lugar, porque
continua a lecionar nos cursos de antropologia nas principais universidades
portuguesas, transmitindo saberes interdisciplinares que devem muito a
gramáticas extra-académicas (do cinema, da televisão, das artes plásticas);
[10] e porque os seus filmes, inicialmente produzidos e difundidos em circuitos
extra-académicos, acabam por “regressar” à academia através das aulas de
antropologia visual por ela ou por outros ministradas.
De facto, não é a antropologia visual que está em causa enquanto disciplina por
direito próprio (Banks e Ruby 2011; Ruby 2005; Ribeiro 2004). O que aqui se
discute é o uso das imagens e sua influência nos processos de produção de
conhecimento e criação de representação pelos antropólogos, afirmando que são
necessários usos mais regulares e profícuos que se traduzam em inovações
metodológicas e novas reflexões teóricas, que, a meu ver, estão ainda muito
deficitárias na antropologia. Apetece, pois, retomando o desafio fundador de
Mead (1975), reafirmar que as imagens podem trazer novas possibilidades e
oportunidades aos antropólogos nos seus processos de conhecimento (etnografia
como processo) e representação do “outro” (etnografia como produto). Esta é,
aliás, uma das obsessões de David MacDougall (1997), quando fala numa
antropologia visual que se afirme como verdadeira alternativa à antropologia
não visual, situando uma nova epistemologia do conhecimento/representação na
convocação de novas combinações sensoriais. E se os interesses de Mead (1975)
já não serão tão entusiasticamente abraçados nos dias de hoje, em particular a
sua ingénua pretensão de cientificidade/objetividade no registo para efeitos
arquivísticos e taxionómicos, não podemos negar o facto de que, passados 35
anos de afirmação e consolidação (Ruby 2005), a antropologia visual está ainda
restrita a um universo de especialistas (antropólogos visuais, realizadores
profissionais, fotógrafos) sem que se reconheça um envolvimento maior da parte
da comunidade mais vasta de antropólogos.
Em 1975 Mead fazia um apelo “desesperado” ao uso dos meios visuais, alegando
que o eventual desconhecimento das técnicas e o receio de as utilizar mal por
parte dos seus colegas antropólogos seria uma não questão. Afinal, a
antropologia, em particular com o impulso para o estudo da diversidade em
contexto (Griffiths 2002), sempre acompanhou as inovações técnico-tecnológicas,
delas fazendo uso, e não só ao nível do filme e da imagem mais em geral. Brady
(1999) faz referência à forma como o fonógrafo veio alterar a etnografia no
final do século XIX. Em meados dos anos 50 do século passado, a sincronização
do som com a imagem gravada veio também produzir alterações substanciais no
modo como os filmes etnográficos eram feitos até então – possibilitando, desde
logo, uma nova relação cinematográfica e antropológica ao “dar voz” aos
sujeitos filmados. Libertavam-se (ainda) mais as subjetividades que há muito
alguns antropólogos procuravam; entre eles estava Jean Rouch, considerado
fundador de um novo filme etnográfico que progressivamente fazia reconhecer a
relação e as interações entre observados e observador nos processos de
pesquisar antropologicamente.
Hoje em dia, as técnicas estão mais fáceis e disponíveis para todos (Campos
2011), assim como acontece com cursos e colaborações de outros profissionais
que poderão complementar o trabalho dos antropólogos menos habilitados
tecnicamente (Zoettl 2011). Será então pela natureza individualizada do
trabalho do antropólogo e pela recusa de autorias partilhadas, com eco na
elaboração dos textos, que as imagens não são utilizadas? O olho singular do
antropólogo do terreno deverá ser escrutinado apenas pela sua especificidade
relacional, interativa, dialógica, recusando contaminações colaterais de outros
observadores etic? Ou será por razão eticometodológica, para não revelar
identidades e preservar relações e interações sociais descobertas e descritas
ao abrigo de confidencialidades negociadas, que reconhecemos um evitamento do
uso das imagens?
Inerente a esta discussão é também a do (necessário) reconhecimento dos
produtos audiovisuais para efeitos de currículo académico e a sua equalização
estatutária relativamente aos textos científicos escritos (Crawford 2010). Nos
últimos anos a questão tem sido debatida em fóruns de discussão como a Visual
Anthropology Network of the European Association of Social Anthropologists
(VANEASA) ou a Society for Visual Anthropology (SVA, presentemente inscrita na
American Anthropological Association), deixando antever algumas alterações
significativas no estatuto de “menoridade” a que os trabalhos antropológicos
com imagens têm sido votados. Como é referido pela SVA, os meios e produtos
audiovisuais oferecem contributos específicos para a antropologia que devem ser
reconhecidos do ponto de vista da valorização curricular dos profissionais e
dos conteúdos resultantes das investigações levadas a efeito:
“Ethnographic visual media (specifically film, video, photography, and digital
multimedia) play a significant role in the production and application of
anthropological knowledge and form an integral part of the discipline’s course
offerings. Anthropologists involved in the production of visual works make
valuable scholarly contributions to the discipline. In addition,
anthropologists increasingly include visual media productions as part of their
curricula vitae” (Society for Visual Anthropology 2001).
Neste espetro de parcas relações intradisciplinares, não são só os antropólogos
visuais, salvo raras e pontuais exceções (e. g. Zoettl 2011; Campos 2011;
Ribeiro e Bairon 2007; Ribeiro 2004; Fradique 1997), ou todos aqueles que não
sendo antropólogos produzem imagens de cariz ou utilização etnográfica, que não
sentem a necessidade ou a vontade de comunicar algumas das suas ideias e
reflexões com os seus colegas e, concomitantemente, abrirem mais o seu trabalho
aos antropólogos não visuais. A prática de incluir artigos de antropologia
visual nas principais revistas de ciências sociais não é comum em Portugal. Na
verdade, não existindo revistas da especialidade neste país, seria expectável
que artigos de antropologia visual pudessem estar mais presentes em revistas
como a Etnográfica e a Análise Social.[11] Em sentido contrário, a prática dos
antropólogos não visuais de escreverem sobre produtos audiovisuais (filmes,
fotografias, desenhos, etc.) não é também muito comum. Na revista Etnográfica
encontramos talvez uma das únicas e honrosas exceções, protagonizada por Maria
Cardeira da Silva (2003) numa referência a quatro filmes temáticos (turismo)
com os quais a autora discute uma questão central na antropologia – a do
relativismo cultural. As suas palavras deambulam entre referências teóricas a
textos escritos e os planos vistos e revistos nas imagens editadas pelos
realizadores, embora a autorreconhecida informalidade do escrito possa
pressupor que falar sobre filmes não é a mesma coisa que falar sobre textos.
[12]
Creio, portanto, que há possibilidades a explorar e diálogos a incentivar de
modo a que a antropologia faça mais uso e recurso das imagens para produzir
novos conhecimentos e novas representações sobre culturas, sociedades, grupos e
indivíduos. Apesar de a democratização dos vários acessos às novas tecnologias
ser um facto inegável (Campos 2011; Pink 2011), o âmbito do audiovisual mantém-
se na sombra (embora menos) nos cursos e departamentos de antropologia em
Portugal. Existem disciplinas e graduações a serem oferecidas, vontade e
interesse por parte de docentes e alunos nos cursos, e experimentações
metodológicas em certas unidades curriculares; no entanto, o audiovisual vive
numa margem epistemológica, ou, sobretudo, há uma vigilância epistémica
permanente que sobre ele é mantida num universo dominado pelos textos escritos
e pelas palavras. Mesmo o filme etnográfico ou o documentário (e este
convivendo, cada vez mais, noutros centros considerados menos académicos) são
votados a um estatuto de menoridade representacional e de produção de um
conhecimento menos antropológico sobre o social e o cultural. [13] Esta margem
faz-nos olhar para um centro (mainstream) teórico-epistemológico que teima em
manter o registo metodológico por técnicas de pesquisa convencionais na
antropologia: a etnografia com base na observação participante – trabalho de
campo, registo escrito de notas e inquirições e passagem posterior a texto
(ensaio, artigo, livro, manual) –, sendo este depois utilizado na formulação do
argumento de ensino e na metodologia de transmissão de saberes e avaliação de
aquisição (apesar da progressiva “powerpointização” das aulas significar uma
conversão ao poder da imagem). A resistência à utilização do audiovisual acaba
por traduzir, assim, o desejo de manter a antropologia (e as ciências sociais,
em geral) imune à contaminação pouco científica do mesmo.
Pode o audiovisual (apenas, sem escrita) ser válido como representação
antropológica? Na igual medida de uma antropologia feita via texto? Pode o
visual criar acessos alternativos às dimensões culturais, sociais e individuais
sob estudo em projetos antropológicos, constituindo-se como ferramenta
metodológica com a mesma validade que os métodos de inquirição convencionais?
Será possível pensar numa utilização do visual em âmbito alargado (Pink 2007a e
2007b; Jablonko 1995), com projetos não académicos (inscritos em produções
artísticas ou âmbitos de intervenção social), que conviva harmoniosamente com
as convenções académicas ao nível da antropologia e das ciências sociais?
Condições contemporâneas da pesquisa audiovisual: oportunidades e ameaças
Na verdade, o meu argumento reconhece a produção de análises e interpretações
específicas e alternativas sobre a realidade social através da utilização das
imagens, em formatos continuamente renovados (e. g. digital e multimédia), num
contexto atual de audiovisualização crescente do mundo, que tem efeitos nas
sociedades, nos indivíduos e na própria ciência antropológica. Por um lado, são
as investigações antropológicas que dão uso mais profícuo e assíduo ao
audiovisual fora do próprio domínio especializado da antropologia visual e da
antropologia académica (Banks e Ruby 2011; Campos 2011, Pink 2007b). Por outro,
em muitas sociedades, assistimos a uma mediatização e a uma espetacularização
extrema de fenómenos sociais e individuais que tem como exemplos a
“facebookização”das relações e interações sociais e o que chamaria o
“sobretelevisionamento”dos detalhes quotidianos das vidas individuais e
familiares. São tendências sociais (e audiovisuais) que têm cúmulos nos
formatos televisivos do género Big Brother, através dos quais assistimos não só
a uma sobre-exposição de indivíduos aparentemente normais, mas também à própria
produção identitária individual e coletiva em processos mediatizados. Tudo isto
é realizado perante audiências de milhões de espetadores, que, por sua vez,
incorporam e alimentam o desejo da sua própria exibição pública mediatizada.
Estes fenómenos sociais são obviamente facilitados por uma democratização no
acesso aos meios de produção audiovisual (máquinas de filmar e de fotografar,
software, etc.) e não apenas nas sociedades ditas “ocidentais” ou modernizadas.
De facto, assistimos a uma globalização da representação e do direito à
autorrepresentação audiovisual (e. g. cinema indígena) com importantes
consequências para o modo como a antropologia pode estudar estes fenómenos
(Edwards 2011; Ginsburg 2011; Zoettl 2011). Ou seja, estamos perante fenómenos
que presumem nos seus atos de conhecimento e (melhor) representação a
utilização das imagens (e sons), não só devido a uma dimensão espetacular
(estética e visualizável) dos mesmos, mas, sobretudo, porque os seus agentes,
fruto de pertenças e socializações coletivas, se reconstroem na sua
singularidade e diferença através destes processos circunstanciais, precários,
instáveis e tendentes à sua individuação (Wieviorka 2010 [2008]), utilizando,
em muitos casos, o audiovisual como suporte privilegiado para a sua
reconstrução identitária ou para a afirmação dela (Edwards 2011; Ginsburg
2011). Estamos, de facto, perante agentes sociais que requerem uma antropologia
ao nível do indivíduo (Lahire 2005) e cujo acesso metodológico otimizado é o
audiovisual. Voltamos aqui ao argumento de Farnell e à sua teorização em torno
dos “discourses from the body” (2011: 151) e à ideia de uma antropologia
reflexiva que mostra as interações de conhecimento em processo. De facto, um do
contributos teóricos fundamentais do uso do audiovisual deriva, em grande
medida, de uma inerência óbvia inscrita no trabalho com as imagens e que se
reflete no que Farnell designa como a recusa “of the body as a static object”
(2011: 151). A autora utiliza a expressão “segunda revolução somática” para
sugerir uma rutura epistemológica com os tipos de conhecimento produzidos
através das formas ditas convencionais. Grimshaw (2005) fala de formas hápticas
de conhecimento para aceder aos sujeitos de estudo, que são hoje mais
visualizáveis por uma certa exigência teórica relacionada com a individualidade
do sujeito no mundo contemporâneo (Wieviorka 2010 [2008]; Lahire 2005), que não
pode mais ser visto apenas e só como representativo de um ou vários coletivos,
mas que se afirma como experiência singular num quadro de dinâmicas relacionais
e interativas em permanente mudança (Jackson 1989).
Isto é algo que coincide em termos metodológicos com a câmara-ator de Jean
Rouch, que nos anos 50 do século passado antecipou, em filme, teorizações que
mais tarde apareceriam escritas em torno de questões como as de autoria
partilhada e a de dar voz aos outros com reconhecimento da sua
copresencialidade. Rouch começou a incluir o operador de câmara no
enquadramento dos seus planos. Esta decisão não teve que ver apenas com uma
opção estética e/ou política (ética também). Nessa câmara que também nos mostra
antropólogos que perguntam coisas de certa forma a outras pessoas, revejo um
“movimento” epistemológico (ético e político) fundamental com vista ao
reconhecimento, porventura tardio, de que a antropologia é feita com pessoas e
por pessoas e de que o trabalho de campo, apesar do tempo longo e da
proximidade, não garante objetividade, ajudando, pelo contrário, a situar
devidamente as diversas subjetividades que resultam dos múltiplos encontros que
ocorrem no trabalho de campo. Penso que esta é, de facto, uma das grandes
virtudes de trabalhar com o audiovisual.
Posto isto, importa dizer que as imagens podem ter diferentes tipos de
produtores, estatutos, origens e fins; podem ser produzidas pelos próprios
antropólogos ou por outros indivíduos, sujeitos ou não da pesquisa
(contemporâneos ou não do investigador); podem ser fixas (fotografia, desenho e
gravura), em movimento (filme, vídeo) ou combinar os dois tipos (formatos
multimédia e digital), e ter diferentes suportes de registo (câmaras
profissionais, telemóveis, videovigilância); podem também ser produzidas ou não
por antropólogos em contextos de pesquisa e ter uma intencionalidade
etnográfica ou antropológica (mais ou menos explícita); i. e. as imagens têm um
potencial de “etnograficidade” que é atribuível numa relação específica de
investigação, o que significa que qualquer uma pode servir para a análise ou a
interpretação antropológica, independentemente do seu ato de produção original
(Pink 2001a e 2001b). Tal como qualquer documento escrito, as imagens são
também analisáveis pela sua indexicalidade semântica, remetendo para um lado
invisível que contextualiza o que se vê, o que também significa dizer que um
eventual desinteresse pela produção audiovisual de ficção (seja ela de que tipo
for) não faz sentido. Todas as imagens são produtos culturais e janelas de
conhecimento sobre atos e formas de pensamento humano.
As imagens chegam-nos, portanto, nas mais variadas formas, e para cada uma as
convenções e possibilidades de uso, técnicas e ações complementares associadas
são necessariamente diferentes; ou seja, para mencionar apenas as mais comuns,
filme e fotografia garantem-nos possibilidades representacionais e objetos de
conhecimento diferentes que, não sendo comparáveis no tipo de abordagem que o
investigador pretenda realizar, podem complementar-se (Edwards 2011; Griffiths
2002). Isto é algo que temos também que considerar a respeito da digitalização
massiva e massificada do audiovisual, e que tem como uma das suas consequências
mais importantes, para além do acesso facilitado à sua utilização, um potencial
de transformação e manipulação criativa (ética e epistemologicamente
discutíveis) dos registos originais por via de ferramentas informáticas
disponibilizadas a baixo custo e pelas baixas competências técnicas requeridas.
É a própria dicotomia original entre fixo e em movimento que está em causa, uma
vez que todos registos são potencialmente modificáveis – pela imputação de
movimento ou, em sentido contrário, por um processo de fixação.
Na verdade, o facto de podermos editar e transformar (numa aceção muito larga)
qualquer registo original gravado tem consequências muito importantes ao nível
do que se pode mostrar, da autoria, dos consentimentos negociados e das
próprias virtudes epistemológicas do audiovisual para a antropologia (AAVV
2008). De facto, estamos perante oportunidades mas, igualmente, perante riscos
quando e se esquecermos quesitos básicos ao nível da inquirição antropológica;
em especial, é fundamental não “atalhar”, num trabalho de campo que deve captar
com profundidade e integridade as pessoas, eventos, performances e, mesmo,
elementos de cultura material; não podemos também, por outro lado, negligenciar
no ato de apresentação (edição da informação) uma boa representação do que
presenciámos, escutámos e conhecemos. No limite, o risco é o da própria negação
científica do registo, reconhecendo, todavia, que através das imagens mostramos
coisas diferentes.
Notas finais
“The process of gathering anthropological knowledge is today a subject of
research in itself; however, studies focusing on the exchanges between
research, information technology and artistic creation (photography, film,
sounds, multimedia, fine arts… etc.) are still marginal […] The mechanisms of
creation in audio-visual anthropology question the belief system which holds
that images alone can provide an objective reproduction of reality. In the
field of ethnographic film, for example, creative experimentation allows one to
go beyond the limits of direct [observational] cinema which, despite its
descriptive richness, can too often appear to miss some of the initial aims of
rendering the anthropological depth of the situations being filmed. As the
tools of creation and data interpretation are getting richer and the
methodology of fieldwork is being transformed, new forms of narration are
coming into being […]”.[14]
Será consensual o argumento de que as imagens trazem novos e bons contributos à
antropologia em geral e não apenas à antropologia visual e que esta, enquanto
disciplina de contacto e proximidade, oferece à primeira contributos
específicos para o seu projeto intelectual e disciplinar de conhecimento e
reconhecimento da diversidade cultural, social e individual no mundo, ajudando-
nos a conhecer e reconhecer outras coisas e de outras formas (Herzfeld 2011;
Grimshaw 2005; Okely 2001; MacDougall 1997). Será também irrefutável o
imperativo de que a antropologia visual mantenha vínculos, sobretudo teóricos e
metodológicos, com a antropologia social. Neste sentido, respondendo a uma
antiga (mas pertinente) observação de Pina-Cabral (1983: 328), não só o vídeo
não dispensa o “etnógrafo paciente de papel e caneta na mão”, como exige a sua
presença e competências de observação configuradas numa base antropológica. Em
concreto, os pressupostos de um trabalho de campo com observação participante
não podem ser negligenciados.
A questão, portanto, será sempre a de saber se o vídeo tem a mesma importância
do “papel escrito pela caneta” – independentemente de o produtor das imagens
ser ou não antropólogo (visual). Não está em causa quem faz, mas o que se faz e
a sua receção pela antropologia, reivindicando-se mais e melhores diálogos
entre antropólogos visuais e não visuais, mais encontros, aberturas de
congressos com produtos audiovisuais – mais imagens, hapticismo e subjetivismo
–, uma outra centralidade para o visual e para as imagens na antropologia,
quiçá, como referi, não desejada pelos próprios antropólogos visuais, porque os
melhores e mais regulares diálogos parecem ser feitos com as artes – cinema,
fotografia, pintura – e pelo reconhecimento dos seus produtos nos campos das
artes.
Como referi, as imagens acompanham a história da antropologia; estão na sua
génese e no seu projeto de (re)conhecimento da diversidade cultural e social no
mundo. Primeiro com gravuras e desenhos, depois com a fotografia e mais tarde
com o filme. Os primórdios do trabalho de campo antropológico moderno coincidem
com explorações metodológicas que utilizam imagens. A expedição da Universidade
de Cambridge ao Estreito de Torres, liderada por Alfred Cort Haddon, não é
apenas um marco na antropologia visual. Ali começa a ser feito um tipo de
trabalho de campo que, mais tarde, Malinowski consolida. Haddon e W. H. Rivers
anunciavam a mudança de uma ciência da natureza (física, biológica,
taxionómica) para uma ciência humanista (acesso ao mundo a conhecer em primeira
mão e ao ponto de vista nativo com conhecimento contextual).
Porventura, a realidade social encontrar-se-á melhor representada entre (ou
conjuntamente por) produtos audiovisuais e textos escritos. Pois bem, que se
multipliquem as presenças nos seminários, nos debates e nas mostras de filmes,
produzidas para pesquisas antropológicas de antropólogos não visuais ou nelas
utilizadas, e que as suas imagens sejam escrutinadas em artigos de antropologia
social com mais frequência, recuperando a proposta sobre a “etnograficidade”
das imagens depender das suas apropriações para fins de pesquisa (Pink 2001a e
2001b). É certo que existem áreas de especialização na antropologia (e. g.
performance e urbana) que, por razão da disponibilidade visual dos seus objetos
de estudo preferenciais, recorrem frequentemente às imagens como forma de
investigar ou como produtos de investigação. No caso concreto dos estudos da
performance, a inerente ligação às artes e ao conceito de espetáculo como ato
público pressupõe a necessidade de ver (e ouvir) – presenciar –, o que torna
praticamente indispensável a disponibilização de recursos imagético-sonoros aos
seus leitores/espetadores. Por outro lado, importa também reconhecer que a
antropologia visual (re)conquistou nos últimos anos notoriedade, verificável em
indicadores como a oferta de formações de nível superior (pós-graduações), o
aparecimento de unidades curriculares nos cursos de ciências sociais e, em
particular, a produção relativamente significativa de filme documentário –
neste caso, justificada também pela existência de formações em cinema e pela
proliferação de festivais nacionais e internacionais.
Em suma, uma antropologia visual que seja feita em constante e renovado diálogo
com a antropologia social, processo muito negligenciado apesar da sua
progressiva e sustentada afirmação disciplinar no mundo (Banks e Ruby 2011;
Davey 2010; Ruby 2005), não pode passar apenas por ver filmes ou fotografias
como forma de ilustração das diferenças, dos exóticos mais ou menos distantes.
Ver através das imagens e com imagens passa pelos atos de ver (to see) e não
apenas olhar (to look at), que, por exemplo, Berger (2009) constantemente
reclama. Será através desta forma de “tratar” (no duplo sentido de lidar com
algo e de cuidar) as imagens que a antropologia pode beneficiar da sua
utilização. Seguramente, como mostrou o meu trabalho (Martins 2005), poderemos
criar perspetivas diferentes sobre a realidade social – sobre indivíduos,
grupos, processos, performances – e, de certo modo, liquidificar a solidez de
conclusões finais (sempre precárias à luz do reconhecimento da
circunstancialidade histórica de cada observação e dos próprios “decisivos”
imponderáveis da vida quotidiana, dos quais enquanto investigadores também
fazemos parte). Neste processo, as imagens servirão para mostrar como todo o
conhecimento pode ser então provisório e refundível (Edwards 2011), até porque,
revelando indivíduos concretos (com um rosto, um corpo e uma voz), a emergência
de subjetividades é exponenciada. Refiro-me à subjetividade como dizendo
respeito não só ao sujeito conhecedor, mas, sobretudo, ao sujeito conhecido,
que, cada vez mais, está atento às representações que sobre si são criadas,
querendo também criar e ser dono da sua representação (Edwards 2011; Ginsburg
2011). Falamos, portanto, do audiovisual como garante de uma intersubjetividade
alargada, de diálogo e verificação emic-etic, no sentido em que ambos (sujeito
observador e sujeito observado) se (re)veem nos atos de inquirição (relação e
interação), numa espécie de democratização do conhecimento que tem vínculo numa
antropologia (visual) partilhada que tem em Rouch e no casal MacDougall alguns
dos protagonistas principais.