Amor à venda?: Ritualizações do programa entre as prostitutas do restaurante
Granada
Este artigo foi redigido a partir da monografia apresentada na conclusão do
curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará, em
2011 (Luna Sales 2011).[1] Ele é baseado no seu terceiro capítulo, que se
concentra nas ritualizações do programa performadas pelas meninas[2] do
restaurante Granada, um espaço que envolve o restaurante e o motel, chamado
pelos seus agentes apenas de bar, localizado no centro da cidade de
Fortaleza, Ceará.
A prática da prostituição feminina no Granada implica certas ações
padronizadas, que apesar de não determinadas absolutamente, vão servir de guia
para as performances (Strathern 1988; Dawsey 2005) elaboradas pelos atores
sociais ' não só prostitutas ' e relacionadas ao vivenciado dentro deste
contexto.
Nessas ações encontram-se elaboradas distinções entre o que é feito (dito,
insinuado) com clientes, de um lado, e parceiros (regulares ou esporádicos), de
outro. Estas distinções organizam não somente o ato sexual em si, mas tudo o
que envolve o estar com estes e aqueles. Apesar de, em muitos aspectos, a
relação com os amigos[3] parecer mimetizar a tida com os maridos, namorados e
amantes, essa mimese é representada como vazia de desejo romântico-sexual
feminino, o que transfigura forma e conteúdo em um duplo monstruoso (do amor)
no qual as diferenças não são abolidas, mas embaralhadas e misturadas. Todos
os duplos são intercambiáveis, sem que sua identidade seja formalmente
reconhecida (Girard 1990: 201).
Mario Perniola (2000) discute o erotismo como um intermediário poético entre o
humano e a divindade, que ao mesmo tempo em que os fará parecer iguais, não
permitirá que se esqueça que são essencialmente diferentes, fazendo-me comparar
as meninas a essas poetisas eróticas, senhoras do liminar sexo pago.
O processo ritual apareceu-me intuitivamente como ferramenta metodológica
adequada para interpretar a prática sexual das prostitutas do Granada,
primeiramente por esta ser entendida por elas como algo fora do normal ou do
estabelecido pela sociedade mais abrangente (Silva 2007), apesar de muitas
vezes, em suas vidas, ser mais frequente o encontro com clientes que com
parceiros não comerciais.[4]
Bem além disso, porém, o programa, tal como ele é feito pelas meninas do
Granada, se insinua como um ritual pelo seu poder organizador quanto às
experiências vividas no contexto da prostituição. Mais que encadear ações, as
performances das meninas no programa estabelecem um modelo de interação que
ultrapassa diferenças individuais, eficaz além dos limites espaço-temporais do
encontro (Houseman 2004). Tal modelo de interação reforça as já distintas
categorias de cliente e parceiro não comercial, de forma a apartá-las
reiteradamente no âmbito das classificações. Consequência disto é a produção de
clientes não-homens, destituídos de agência, com os quais não se faz sexo, mas
sim programa (Olivar 2011).
No programa, as meninas cozinham seus clientes de forma a suprimir a sua
parte-homem. Desde a aproximação até o pagamento, a relação estabelecida é
aquela própria do consumo cotidiano, que alimenta outras socialidades que não
aquela com o homem (objetificado) em face de si (Fausto 2002). Por meio da
apreensão de si mesmas enquanto um coletivo e da produção (coletiva) de um
ritual, a perspectiva das meninas se impõe e faz meros clientes dos homens que
frequentam o bar (Castro 1996; Olivar 2011).
Pontuo ainda que o ritual a ser descrito aqui, da forma como o farei, é uma
invenção, uma construção antropológica, encorporada [5] nos termos desta
disciplina; as formulações que as meninas fazem de suas próprias práticas são
compreendidas de formas diversas (Strathern 1988). Trata-se de um esquema
elaborado a partir de vários depoimentos, muitos deles contraditórios, mas que
foi aqui estruturado numa forma una, de modo a representar a tomada de poder de
significação por um grupo específico, observada na pesquisa. Este grupo seria o
formado por Andrea (não por acaso mencionada primeiro), Nálary, Cassandra e
Vítor.
É este oritual de que falo. O uso deste termo evocará esta ficção antropológica
no decorrer da escrita, sem comprometer-me com definições consagradas ou
representações das meninas ' se fosse lhes perguntado, com certeza elas
achariam no mínimo esquisito que eu descrevesse os programas que fazem desta
maneira.
Este ritual tem como maior característica a complexidade, porque é condensador
de experiências, memórias e representações diversas, mas ao mesmo tempo é
simplificador, uma vez que tenta colocar sob a unidade processual tantas ações
que ocorreram e tantos significados possíveis, nem todos previstos. A unidade
assumida, contudo, não é aleatória. Ela encerra o vivenciado com aquelas
meninas que animam no campo a constatação de Gilles Deleuze e Félix Guattari:
Os grupos e os indivíduos contêm microfascismos sempre à espera de
cristalização. [ ] O bom, o mau são somente o produto de uma seleção ativa e
temporária a ser recomeçada (Deleuze e Guattari 1995: 18).
O RITUAL
Enquanto estrutura complexa, o ritual do namoro[6] com as meninas se desdobra
ao infinito em possibilidades imprevistas e nos ritos subjacentes, mas não
menos importantes, que fazem ao lado do primeiro a substância e o sentido dos
símbolos postos em prática. Deste modo, busco aqui a construção de uma
estrutura maior contendo três fases principais ' as apreendidas pelo discurso
de Andrea e Nálary, principalmente ', as quais serão ramificadas e confrontadas
pelas falas das outras meninas, mas que ainda assim não chegarão a abarcar a
totalidade.
"VAI NAMORAR HOJE?" - APROXIMAÇÃO
O primeiro momento ritual seria aquele em que é travado o contato inicial entre
prostituta e cliente. É, em linhas gerais, a situação em que interesses
objetivos, apresentáveis com uma resposta que seria simples, vou ou não
vou, são exprimidos, determinando o decorrer dos acontecimentos.
Há, contudo, ao invés de clareza objetiva, jogos intrincados de palavras,
gestos e olhares que, imbuídos de uma significação não evidente para uma
iniciante no universo da prostituição no Granada, irão possibilitar a
continuidade da ação.
A primeira ação ritual a ser analisada é o estabelecimento do contato com fins
sexuais. A posição da grande maioria das meninas em relação a isto é de que o
homem tem que chamar.[7] Note-se, contudo, que este chamar não se restringe ao
contato verbal. Na verdade, é por meio dos olhares que se entende a aproximação
masculina e, por vezes, esses olhares são tão furtivos e de homens tão esquivos
que eu não me apercebo nem destes, quanto mais daqueles. Só vou saber quando
alguma menina se levanta para encontrá-los ou elas comentam, depois, o motivo
de não terem ido.
Independente da minha falta de perspicácia e de interesse em fazer programas,
que me deixam meio cega para essas aproximações, é interessante notar que a
relação é estritamente delimitada. Ficam homens de um lado, geralmente em
pares, bebendo cerveja e colocando músicas no jukebox; e mulheres de outro,
mais numerosas, bebendo refrigerante e maquiando-se interminavelmente. A
situação muda ' interagem homens e mulheres, na mesma conversa, na mesma mesa '
quando o compromisso de fazer o programa é firmado.
Andrea, ao me contar como deve agir uma menina no Granada para se dar bem,
exemplifica:
Enquanto o homem toma uma cerveja, conversa e pergunta se ele vai
namorar ou não. Aí se ele não for tem que sair logo da mesa. Mas se
ele disser fique aqui que você não perde, e tal, daqui a pouco a
gente vai' aí a gente fica mais um pouco. Se vir que ele não quer
nada, tem que sair, né? Se for besta fica lá perdendo tempo
[conversa do dia 2 de setembro de 2010].
Deste modo, mesmo as conversas triviais na mesa do bar, os refrigerantes
bebidos ' ou as cervejas ' são parte constituinte do ritual do programa com as
meninas. Estas ações só tomarão lugar se houver a expectativa concreta de subir
para o quarto em um momento posterior.
Segundo nota do dia 23 de setembro de 2010, Marlene comenta indignada que um
cliente seu foi roubado por aquela gorda. Pergunto se era Cassandra a quem
ela se referia e ela diz que sim. Explica que Cassandra teria ficado se
botando para seu cliente, olhando para ele, enquanto eles tomavam cerveja, o
que culminou na saída dele com a segunda.
É importante perceber, portanto, que enquanto bebem e conversam besteira, as
meninas já estão fazendo o programa e, quando este não tem o final bem-
sucedido, por conta de outra que rouba o cliente, configura-se uma
deslealdade, uma transgressão à regra de boa convivência entre elas. Esta
situação não ocorre, porém, quando a menina está, por algum motivo,
impossibilitada de atender o cliente.
Entendi esta forma de aproximação ' o homem chamar para conversar e depois
subir para o quarto ' como sendo a mais recorrente, principalmente entre os que
já estão habituados a frequentar o Granada e, por consequência, o centro de
Fortaleza.
Cassandra explica correta e sucintamente os esquemas de aproximação hegemônicos
no bar: Aí, mas quando tão aqui em baixo eles [os clientes] chegam, tomam uma
cerveja. Aí observam todas as mulheres, aí chama quem lhe interessa, quem
interessar a ele, ele chama.
Há, contudo, como foi advertido acima, muitas formas paralelas que se avultam
ao lado desta. Procurarei explanar algumas delas compreendendo a
impossibilidade de esgotá-las.
Quando as chamam do carro
Dona Larice, que há mais de vinte anos vende lanches para as meninas que fazem
programa no Granada e Passeio Público (praça histórica que faz face ao bar),
comenta que é grande a quantidade de clientes que vêm de carro. Suponho que se
trate de situações em que os homens chamam as meninas de dentro de seus
automóveis como forma de ficarem incógnitos, longe dos olhares acostumados e
perspicazes dos frequentadores, funcionários, comerciantes, moto-taxistas e
prostitutas que se agrupam na esquina da rua Dr. João Moreira com a rua Major
Facundo, seja dentro do bar, na sua calçada, atravessando a rua, ou no carrinho
de lanches de Dona Larice.
No período em que fiz etnografia, entretanto, notei poucas abordagens vindas de
carros ' uma em relação a mim e outra quando uma menina que trabalha na boate
' denominação nativa para o Espaço Show Bar, que fica ao lado do restaurante
Granada pela rua Dr. João Moreira ' voltava de um programa.
O meio de transporte se faz desnecessário tanto no bar quanto na boate, uma vez
que ambos têm a si incorporados uma área de motel: quartos que podem ser usados
para programas em conformidade com os preços praticados no local. Entendo,
portanto, o uso de carro como extraordinário e, principalmente, um artifício de
clientes iniciantes na dinâmica da prostituição do Passeio Público.
Nota-se que a quebra que o uso do carro implica no ritual tem consequências
imediatas. Andrea me contou, por exemplo, a diferença de preço que implica o
desvio no padrão de programas.
Também Rafaela comenta comigo, no dia 27 de outubro de 2010, que, apesar de
seus clientes não serem habitués do bar, eles a procuram majoritariamente a pé.
Esta declaração leva-me a estabelecer outra forma paralela de se travar o
primeiro contato para a realização de um programa, a qual explano no tópico
seguinte.
Quando as chamam pelo telefone
Rafaela, quanto a seus hábitos ao chegar para fazer o trottoir[8] e ainda em
relação a seus clientes, me explica:
Rafaela: É, fico logo por aqui mesmo [na calçada tradicionalmente
ocupada por Dona Larice]. Meu negócio é por aqui mesmo, meus clientes
já sabem que eu só chego esse horário [por volta das 15 horas]. Eu
não tenho cliente em bar, eu não me sento em bar. Meus clientes são
só esses que chegam mesmo. [ ]
Pesquisadora: E tu escolhe os clientes?
Rafaela: Escolho. Não saio com cliente bêbado, não saio com cliente
drogado. Meus amigos são tudo bom mesmo, só vêm me procurar mesmo e
volta, né? Não é cliente de chegar e ficar bebendo [não entendi o
final]. Só vem pra cá mesmo. Só brincar e namorar mesmo [nota do dia
2 de setembro de 2010].
Ela usa bastante o telefone ' quando estou conversando com ela é difícil não
sermos interrompidas uma ou duas vezes com chamadas dos clientes ' e esta
tecnologia implica em padronizar mais uma forma de cativar os amigos. Percebo
sempre uma fala arrastada, com termos água com açúcar como brincar, namorar e
bebê, que fazem parte da característica única que Rafaela assume.
Quando as chamam (ou as seguem) da rua
A terceira ' e última citada, mas não última possível ' é a que creio ser a
mais frequente das chamadas formas paralelas. Dá-se quando os homens
interessados, utilizando um mínimo de contato físico e verbal público com toda
a dinâmica da prostituição, fazem as meninas entenderem a sua intenção do
programa.
Eles passam pela calçada do bar, olham e seguem para o motel, na maior parte
das vezes. A menina, socializada de forma a perceber o mais sutil desses
olhares, encaminha-se também para o motel imediatamente. Questões como preço,
tipo de serviço e duração podem ser combinadas nos espaços do motel que
antecedem o quarto (escada e mesa em que se paga o quarto e a camisinha).
Há os que seguem desde longe as meninas. Ao identificá-las como prostitutas, os
clientes caminham atrás delas, às vezes por muitos quarteirões. Elas os
percebem e entram no seu jogo até que chegam ao motel e sobem, sem uma palavra
trocada anteriormente.
"SÓ FALAM BESTEIRA, MULHER!" - CONVERSA
O segundo momento ritual a ser observado é aquele em que o programa já está
combinado, mas ainda não se subiu para o quarto. Geralmente, dura o tempo que
leva para o amigo terminar a sua cerveja. A menina, já contratada, lhe faz
companhia, aguardando-o, como parte de seu trabalho.
Há uma dupla característica nesta situação em que se estabelece um diálogo
entre o cliente e a prostituta. Se, por um lado, questões práticas são
resolvidas ' o tipo de programa ou a manutenção do programa já acertado ', por
outro, estabelece-se uma interação elaboradora de uma mimese do que seria um
relacionamento de conotação sexual entre homem e mulher não comercial ou por
apetite.
Este segundo aspecto parece-me o mais interessante, uma vez que seriam
discutidas representações do que é considerado um modelo de relacionamento
tradicional e, ao mesmo tempo, as pequenas diferenças, nuances quase
imperceptíveis a um observador externo, que estabelecem os limites
diferenciadores indispensáveis entre o sexo por apetite e o programa.
Há, contudo, um grande índice de evasividade nas respostas das meninas quando
perguntadas acerca dos assuntos que se falam. Como o nome deste tópico
sugere, as meninas com quem conversei dão pouca importância ao que é dito.
Apesar de, com a insistência da pergunta, algumas fazerem esforço para lembrar-
se, este é um assunto que fica enevoado entre as besteiras que têm de
aguentar na profissão.
Por outro lado, quando querem descrever para mim um bom cliente, ou um cliente
com o qual aceitam passar mais que os 10 a 15 minutos tradicionais, elas dizem
que o fazem para ficar só conversando.
Com o tempo e com as conversas fui capaz de perceber que esses duplos de
relacionamentos amorosos têm características definidoras, sublinhadas pelas
meninas ' e segundo seus comentários, às vezes não tanto pelos clientes ', de
modo a deixá-los fora de seu repertório de amores, sejam eles sérios ou
casuais.
Chego à conclusão, neste ponto, de que a pressa ' para saber se ele vai fazer
ou não o programa, para que ele termine logo a cerveja, para que ele goze logo
' avulta-se como a característica mais marcante dos encontros com essas
meninas. Claro que esta não é uma regra absoluta, há sempre os bons clientes
que são escusados desses inconvenientes do relógio e podem tornar-se mesmo
namorados, mas, como se percebe, eles são a exceção.
"E AÍ, VAMO?", "EITA, MULHER!" - SEXO
Levantam-se, saem do bar e seguem por uns poucos dez metros até a porta do
motel. Ao adentrar, deparam logo com uma escada visível da rua, feita com
degraus altos e uma cerâmica de cor entre bege e telha. Sobe-se um lance, no
qual se devem contar uns vinte degraus. No andar superior, tem-se o Juarez,
sentado em um birô, num ambiente iluminado por luz natural, com alguns objetos
em cima da mesa. É ele quem recebe o dinheiro ' cinco reais pelo quarto, um
real pela camisinha ', e dá a chave e o preservativo.
Há duas possibilidades de espaços a partir da mesa do Juarez, que fica em uma
espécie de hall. Pode-se seguir em direção leste, encontrando um corredor
iluminado como o ambiente anterior, no qual estão dispostos uns seis quartos.
Pode-se também seguir oeste, entrando num ambiente mais escuro e no qual, pela
forma menos organizada (as portas não ficam emparelhadas como no outro), tem-se
uma sensação de reforma mal planejada. Neste há mais dois quartos, os quais são
maiores, mais arrumados e, portanto, mais caros (custam seis reais). Deste
segundo espaço, vê-se uma escada em espiral que dá para o interior do bar,
interligando os ambientes. Imagino que esta escada tenha utilidade para os
funcionários (a Tia da limpeza, por exemplo; já as meninas nunca a usam).
As meninas contam que quando chegam ao birô do Juarez pedem logo o quarto e a
camisinha, para que o homem não queira evitar o uso dela. No dia 15 de outubro
de 2010, Andrea conta que o quarto custava sete reais, ficando um para a menina
e seis para o estabelecimento. Atualmente, contudo, o preço baixou para cinco
reais, e este benefício, que funcionava como uma comissão, não existe mais. As
meninas restringem seus ganhos ao valor acertado com o cliente.[9]
Em motéis, o preço geralmente é condicionado ao tempo que se passa no quarto.
Como elas ' estávamos na mesa Andrea, Nálary e eu ' não mencionaram este fator
enquanto expunham as mudanças no sistema, coloquei esta questão, percebendo
contente que a resposta trouxe exposições de importantes símbolos que compõem
este complexo ritual secular.
Perguntei então se esses seis reais tinham um tempo certo. Elas
disseram-me que se podia ficar por até uma hora, mas que elas
terminavam tudo em 15 minutos, contando com banho antes e depois.
Achei interessante e remarquei que elas, realmente, estavam sempre de
cabelo molhado [nota do dia 15 de outubro de 2010].
Estes símbolos estão ligados ao palco em que são postos em ação. O quarto do
motel representa neste ritual um espaço liminar. O é porque, entendendo, como
Turner (2005), que a liminaridade se configura pela posição interestrutural,
a construção social deste espaço específico ambientará o ápice da fabricação do
relacionamento amoroso entre os que, há pouco, eram meros desconhecidos.
Encontro neste processo ritual de criação do íntimo ' que tem seu ponto máximo
na transa ', portanto, a substância que doa coerência e inteligibilidade à
prática da prostituição enquanto profissão para as meninas do Granada. É um
íntimo próprio ao corpo, um íntimo cerceado por quatro paredes e 15 minutos. É
o íntimo dos corpos buscado pelos homens, expressado em prazer sexual dos
homens e a todo momento simulado e fabricado pelas meninas (mulheres!). Recria-
se, portanto, um ambiente doméstico, na medida em que o sexo está ligado a ele,
dentro de um ambiente público, na medida em que as práticas comerciais se
impõem.
As estruturas que marginalizam ' mas que ao mesmo tempo se penetram ' nesta
prática seriam as que se configuram em categorias primordiais da sociedade mais
abrangente. O doméstico e o mundano, fundidos no quarto do motel, são os mesmos
atributos paradoxais que carregam as meninas. Elas não são somente produto do
liminar, elas o produzem.
Nesta produção, eu entendo a participação masculina como coadjuvante. Eles
seriam, mal comparando, o sacrificante de Marcel Mauss e Henri Hubert (2005).
Ele é elemento essencial na performance ritual, ele é mesmo o animador da
instituição que restaria como que adormecida ' na verdade sentada nas cadeiras
duras do Granada, tomando um sorvete ou fumando um cigarro ', aguardando a sua
chegada.
É o seu trânsito, adentrando e saindo dos círculos que, neste caso, não são
sagrados, apesar de fortemente delimitados estruturalmente, que o faz
coadjuvante. Na tradição ocidental (Sallmann 2010; Rago; 2008; Pasini 2009) ao
homem é condescendentemente permitido circular entre os meios de prostituição
sem ser associado definitivamente a eles. Ele pode ir e vir, mesmo que vá e
venha com muita frequência.[10]
As meninas que, com seus corpos e seus espíritos, ambos maquiados para recebê-
los, os satisfazem em seu desejo transgressor, não têm a mesma mobilidade. As
duras fronteiras que lhes são impostas enquanto mulheres não permitem aos olhos
dos outros e aos de si mesmas tanta complacência.
A posição liminar é assumida interna e externamente.[11] Pode-se largar a
vida e, pode-se largá-la completamente, mas como acontece com Catarina (que
passou alguns dias naquele espaço dada uma vinda ocasional à cidade), muitas
delas, mesmo casadas e empregadas, retornam ao lugar no qual a independência
começou a ser buscada e onde a cumplicidade, mesmo que as meninas sejam outras,
ainda pode ser sentida.
Eliana Calligaris (2006: 60), em Prostituição: O Eterno Feminino, propõe: É
interessante pensar na origem da palavra prostituição, que segundo Bloch e
Warburg, vem do latim prostituere que significa expor livremente' . Essa
exposição livre, se pensada na perspectiva das meninas, relacionar-se-ia ao uso
do corpo e da sexualidade segundo práticas comerciais, que se afastariam do
relacionamento monogâmico compreendido enquanto forma dominante de vivência da
sexualidade na sociedade mais abrangente. O paradoxo decorrente desse uso,
contudo, é resolvido quando as meninas ritualizam as relações sexuais que
mantêm com seus clientes, delimitando-as e afastando-as de suas experiências
com parceiros não comerciais.
A produção do íntimo no quarto não visa uma mimese perfeita. As meninas quase
nunca querem se entregar, os amigos nem sempre querem o feijão com arroz.
Por vezes, além do desejo por sexo em si, existe o desejo por especificidades
fetichistas (como quando elas comem os clientes com o auxílio de vibradores)
que só poderiam ser satisfeitas, sem macular a identidade masculina que as
construções de gênero correntes por eles assumidas lhes atribuem, em um
ambiente liminar, com meninas liminares.[12]
É enquanto espaço eminentemente liminar, portanto, que o quarto se configura
como palco em que os ritos têm de ser mais claros e determinantes. Num ambiente
no qual se poderia fazer tudo, é muito importante que se ritualize o que se vai
fazer. Como preleciona Mary Douglas (1976: 119), o perigo está nos estados de
transição, no limbo em que não se tem certeza de nada, e o perigo é
controlado por um ritual. Para além da teoria, este é um fato importante
porque, dada a inobservância de algum rito, dependendo da menina, pode haver a
não consumação do programa.
Os ritos praticados pelas meninas no quarto do motel (assimilados pela
presença, naturalidade, ênfase, etc., nas falas, em razão de que não foram por
mim presenciados) podem ser classificados como ritos de pureza, ou não
contaminação, física e moral. Estes foram divididos nos tópicos abaixo.
Da assepsia
Como propus na nota citada anteriormente, é interessante observar que as
meninas estão muitas vezes de cabelos molhados, banhadas há pouco tempo em
decorrência de um programa feito recentemente ou mesmo para atrair os clientes.
Importa notar que o cabelo molhado aqui é tanto prova de sua assepsia e exemplo
a ser seguido pelos clientes quanto uma forma de convite ao programa. Os
cabelos molhados estão ligados, ainda, a um atributo positivo do bom cliente,
que é representado frequentemente como um homem cheiroso.
Do amigo, portanto, espera-se também o asseio. Continuando no exame das notas
do dia 15 de outubro, a questão dos banhos ' contados no tempo despendido no
quarto do motel como parte integrante do programa ' é abordada novamente:
Perguntei se os clientes tomavam banho também. Elas disseram que
sim, que pediam para eles tomarem. Havia os que não queriam, mas elas
insistiam, e ainda assim, alguns limpavam a rola só assim' [Andrea
imitou um homem fazendo um círculo com os dedos indicador e opositor
e percorrendo-o ao logo de um pênis imaginário] e que quando iam
colocar a camisinha só vinha o preto'. Neste caso elas mandavam
lavar direito, que não colocariam aquilo no periquito' delas,
imagina se estoura a camisinha' .
Da camisinha e a questão da ereção
Após o banho têm início as práticas diretamente ligadas à cópula. Duas questões
sobressaem: a ereção e o uso da camisinha. Estes elementos aparecem de forma
imbricada e são determinantes no desfecho do ritual. Nálary e Andrea garantem
só fazer com camisinha, inclusive no caso de sexo oral. Todas as meninas com
quem conversei disseram o mesmo. As primeiras, contudo, a despeito de suas
próprias práticas, relatam que são minoria, que existem muitas que fazem sem
camisinha e, deste modo, acostumam mal os clientes.
A camisinha aparece como objeto importante tanto na sua presença quanto na sua
ausência. O grau de exigência do seu uso por parte das meninas promove uma
divisão de estilos de programas e, portanto, de clientes ' inclusive migrações
destes.
Importa notar uma questão prática: ela só pode ser colocada com o pênis ereto '
devendo para isso o homem estar bastante excitado ' e, dadas as
particularidades do programa, as preliminares são bastante limitadas. Isto se
dá porque, como será visto posteriormente, o contato físico entre prostituta e
cliente será reduzido ao mínimo possível na maior parte das vezes.
Quando perguntei a Andrea pela questão da ereção, necessária para que fosse
possível colocar a camisinha, ela contou-me que a maioria já saía do banheiro
de pau duro. A outra opção foi logo o caso de serem brochas ' impotentes ',
caso no qual elas não teriam nada a fazer. Tentei retomar o meio termo e ela
deixou vaga a ideia de masturbá-los.
Já Cassandra expõe bem as ações requeridas para excitar o cliente em conversa
do dia 20 de outubro:
Às vezes eles já saem de dentro do banheiro, eles já vêm tão na
tara, sem o Ah, quando vem de pau mole você tem que bater punheta,
ou então você pega a camisinha, quando tá de pau mole, eu boto na
boca, aí deixo a camisinha na boca e chupo o pau dele até endurecer.
Mas tem deles que já vêm tão na tara de transar que saem do banheiro
já loucos, já.
Dos beijos e do contato físico
Os limites relacionados a beijos na boca e contato físico em geral são a mais
clara e homogênea característica definidora do programa. Todas as meninas têm
limites relacionados ao contato físico com os clientes e aqueles costumam ser
parecidos. A ressalva em relação aos bons clientes ' que muitas vezes tornam-se
namorados ou maridos ' permite-nos imaginar a quebra de algumas dessas regras
de pureza.
Com as várias conversas, algumas gravadas, outras anotadas, e mesmo memórias de
campo reduzidas a tópicos sumários, deparo com representações de muitas meninas
sobre o assunto. Nas suas falas e, em consequência, neste texto, os carinhos '
ou a falta deles ' são assumidos como forma mais importante de distinção entre
o sexo não pago e o programa. Pode-se, deste modo, elaborar um panorama dos
afetos permitidos, consentidos, necessários e desejados no contexto da
prostituição.
Valdete explica: Aí, quando eu tô com as perna aberta ele fica batendo punheta
e olhando pro meu bicho. Aí eu fico mexendo no pinguelo,[13] balançando. Aí ele
pega, bota a camisinha, aí ele mete, né? Sua fala é reveladora, dado o
posicionamento do efêmero casal. A despeito da cena amplamente veiculada nas
produções midiáticas ' tradicionais e pornográficas (Díaz-Benítez 2010) ', os
corpos aparecem aqui desprovidos do contato físico. O estímulo masculino será
feito pela masturbação enquanto Valdete simularia o mesmo.
Enquanto a primeira ação tem por intenção o estímulo ou mesmo a satisfação do
desejo sexual, a segunda tem como propósito primeiro estimular o desejo
masculino pela simulação do estímulo do desejo feminino. Se a menina fica ou
não, de fato, com tesão, pouco importará em um programa. É necessário apenas
que ela o simule como mais um aspecto do duplo imperfeito da relação por
apetite que começa a ser criado desde que é estabelecido entre as partes que o
programa será feito.[14]
Certa vez perguntei a Andrea e a Nálary se elas gozavam quando faziam programa.
Andrea soltou um enfático nem!, mas depois ponderou que se estivesse há uns
três dias sem gozar e se o homem metesse bem Contou também que Nálary certa
vez descera do quarto tremendo as pernas ' por haver gozado.
As duas terminaram a conversa, contudo, dizendo que mesmo em uma situação
extraordinária de um cliente cheiroso que mete bem evitavam gozar, seguravam
o gozo (e não o retardavam como fazem os homens para prolongá-lo), de modo a
não sentir o ápice do prazer sexual.
Não nego que, ao escutá-las, considerei esta atitude inútil e um tanto estoica.
Entendi a dimensão de pureza, mas considerei-a tributária a um nível de um
machismo que eu considerava superado em relação às práticas sexuais das
meninas. Seria esta moral vitoriana (Foucault 1988) tão enraizada que, em plena
prática do sexo ilícito, proibisse o gozo?
Não muito mais tarde pude perceber, porém, que este gozo está intimamente
relacionado aos afetos, ao carinho e, principalmente, ao desejo (delas).
Enquanto não gozam, as meninas não ficam tão vulneráveis ao envolvimento com
homens indesejáveis. O gozo apresenta na fala das meninas algo ainda
romantizado, ele é guardado para os seus amores ou, melhor dizendo, seus
amores-próprios, estejam eles imbricados com um ideal de relação romântico-
sexual ou não.
Este amor se configura, portanto, como o falso cognato do artigo à venda entre
as meninas do Granada. O que elas oferecem é proporcionar prazer ao homem que
as procura, e isto não é feito senão através de uma complexa ritualização que
as afaste emocional e fisicamente deste prazer e destes não-homens. Deste modo,
quando conversávamos, eu Andrea e Rafaela, esta explicou-me:
Que lá os homens não ficavam pegando em mulher nenhuma. Que elas [as
prostitutas em geral], quando começam a vida', pensam que os homens
vão ficar pegando na perna delas, esse tipo de coisa, mas que não
acontece. Rafaela completou que às vezes nem mesmo no quarto há muito
contato, eventualmente ela dá um jeito para que eles nem peguem em
seus peitos, alisando o rosto do cliente na hora do ato sexual.
Andrea concorda e diz que não deixa eles pegarem, a não ser que seja
um cliente legal, mas que esses cafuçus' [homens de baixo calão] ela
não deixa, não [nota do dia 27 de outubro de 2010].
É importante, portanto, perceber que mesmo os contatos que são considerados
intrínsecos ao ato sexual, como carícias no corpo, principalmente seios e
nádegas, são raramente permitidos. Há uma restrição, tanto quanto for possível,
do sexo aos órgãos genitais. Andrea mencionou certa vez que, com os clientes,
preferia a posição por trás porque evita de forma eficaz beijos e mesmo o
contato físico de um corpo com o outro.
Manuela conta: Não, tem negócio de se esfregar não. Endureceu, já sento em
cima ou ele senta em cima de mim e pronto. Tem negócio de alisado não, que ele
não é meu namorado. Sempre que lhes perguntava o que era diferente quando não
era com um cliente, a resposta constante era o rosto iluminar-se e uma
divertida resposta dizendo que mudava tudo. Que quando elas gostam, aí é
muito diferente, a gente abraça, beija, faz carinho.
Do dinheiro
De acordo com Mary Douglas (1976: 88), [o] ritual torna visíveis sinais
exteriores de estados interiores. O dinheiro medeia as transações, o ritual
medeia a experiência, inclusive a experiência social.
Considero esta passagem duplamente interessante. Em primeiro lugar, porque
elucida a importância de observar os símbolos rituais para conhecer sentimentos
e representações sociais de outro modo inexprimíveis. Em segundo lugar, porém,
a analogia que Douglas faz do ritual com o dinheiro, o qual seria somente um
tipo extremo e especializado de ritual (1976: 88), remete a um dos elementos
determinantes para que se configure o ritual que descrevo.
É certo que o dinheiro não é o único elemento que caracteriza o sexo com
prostitutas. Como foi proposto acima, existem vários ritos de pureza que o
delimitam. Importa, contudo, situá-lo enquanto um símbolo desencadeador deste
ritual sexual. A diferença primeira entre o programa e o sexo por apetite, os
dois modelos de relação contrastados nessa análise, é o pagamento.
Tal se dá porque o homem, ao procurar a relação sexual paga, desencadeia a ação
ritual proposta, inscrevendo-se em espaços liminares commeninasliminares que
lhes proporcionarão outro tipo de sexo (um não-sexo), mesmo que as formas ditas
fetichistas[15] não sejam acionadas.[16]
Importa observar o dinheiro como símbolo dominante (Turner 2005), desencadeador
e, portanto, determinador da ação. Sua presença faz com que o ritual do
programa com as meninas e todas as suas especificidades seja posto em cena.
Quando o dinheiro desaparece, contudo, outro tipo de papel é por elas assumido,
o papel da amante, da namorada, da esposa, que apesar de similar ao da
prostituta em relação ao fazer sexo, é diametralmente oposto na significação
e na prática deste sexo, que de tão afastado é não-sexo, é programa.
Continuando este raciocínio, o dinheiro, enquanto símbolo dominante, suscita
ações que produzem liminaridade. Esta, do modo como é aqui proposta, refere-se
à posição entre, sobretudo, o cansaço da rotina cotidiana, que mesmo a
ambiência no centro de Fortaleza pode demonstrar, e a produção da festa,
apreendida pela inscrição do bar nestes horários de trabalho ' fica aberto das
8 da manhã às 8 da noite, aproximadamente.
A transgressão erótica parece, por isso, algo de diferente e
irredutível, tanto à obediência da tradição como à inovação
revolucionária; ela é uma passagem do momento profano do trabalho e
da fadiga cotidiana ao momento sagrado do sacrifício e da festa. A
sociedade é composta simultaneamente por ambos os momentos: a
suspensão do tabu na experiência erótica configura-se portanto como
um trânsito do mesmo para o mesmo (Perniola 2000: 64).
Ao se dispensar o dinheiro enquanto símbolo dominante, portanto, estabelece-se
uma relação instituída em um domínio socialmente reconhecido, seja ele o do
namoro ou do casamento, que exige outras formas padronizadas de se relacionar.
O trânsito definitivo para o doméstico ' abolindo a dimensão comercial do sexo
' é comumente visto no bar.
Numa circularidade percebo que, quando é estabelecida a realização do programa,
o preço costuma ser, na fala das meninas, a primeira demanda a ser discutida
com os amigos. O pagamento de fato, contudo, costuma ser o último rito a ser
realizado, fechando, deste modo, o processo ritual.
Terminando este artigo, cedo a palavra a Marlene, que, de forma divertida e bem
significativa, conta o caso de um cliente, fazendo uma projeção em relação a si
mesma e assumindo na estrutura complexa de sua fala as grandes contradições
vividas que, no final das contas, lhe dão motivos de risada:
Tem uns que pagam primeiro, tem outros que pagam depois, quando
termina o serviço. Aí, eles dão. Agora, tem uns que faz questão,
Pega, guarda logo o teu, porque uma vez eu tava lá no ponto de
ônibus, esqueci de pagar a mulher e a mulher ficou dando: fiu, fiu,
vem cá', na frente de todo mundo! Eu fiquei passado. Aí agora, na
hora que entrar eu dou logo!' [risos] É, mulher, acontece Tu pensa
que é só a mulher que passa vergonha? Os homens também! Os homens não
gostam de escândalo, não. Pagar meu programa na parada do ônibus, na
frente de todo mundo? Ele arrasou, né?