Como nos tornamos antropólogos?: Imprevisto e mutualidade na constituição do
terreno etnográfico da saúde mental em Lisboa
INTRODUÇÃO: MUTUALIDADE E CONDIÇÃO DO CONHECIMENTO ANTROPOLÓGICO
Este ensaio é uma reflexão sobre os imponderáveis com que me defrontei no meu
trabalho de campo, realizado entre 2006 e 2010, em diversas instituições e
serviços de psiquiatria e saúde mental da Área Metropolitana de Lisboa. Esse
trabalho tinha por objetivo inicial compreender como se tornam psiquiatras
aqueles que se especializam nesta área da medicina.
Ao longo da investigação ocorreram imprevistos de ordem diversa que
dificultaram a minha fixação num dado serviço para cuja observação tinha,
muitas vezes, já obtido a devida autorização. Os procedimentos e as categorias
que antecipadamente tinha imaginado como certos ' a delimitação prévia do
terreno ou a escolha da observação de um dado serviço hospitalar como
representativo da realidade que pretendia observar ' tiveram de ser, por
conseguinte, inúmeras vezes repensados ante a constatação de que nenhum lugar é
um ali previamente identificado e traduzido por uma proposição de tipo
ontológico.
Quatro anos após o início do trabalho de campo, constatei que produzira um
terreno etnográfico a partir do qual pudera compreender que as fronteiras do
campo psiquiátrico se encontravam muito para além de qualquer serviço
hospitalar que pudesse ter observado. Contudo, paradoxalmente, os imprevistos
encontrados e as tentativas de resolução desses mesmos imprevistos permitiram-
me compreender os processos de constituição identitária de psiquiatras também
como processos de aprendizagem do ser antropólogo.
Deste modo, os entraves encontrados converteram-se em conhecimento sobre toda
uma cartografia psiquiátrica que inclui os hospitais, mas que também transpõe
os seus limites físicos e simbólicos. São disso exemplos as memórias inscritas
na disposição arquitetónica de hospitais no tecido urbano e a sua íntima
relação, quer com as vanguardas científicas e arquitetónicas do seu tempo, quer
com o complexo espaço político de planeamento e expansão geográfica da própria
urbe; ou os itinerários que levam a que uns utentes tenham de se dirigir a
determinados serviços locais de atendimento e outros a serviços em áreas
geográficas diferentes, constituindo assim um outro mapa, local, regional e
nacional, da saúde mental; ou ainda as acessibilidades da rede de cuidados
continuados de saúde, que, por sua vez, se inscrevem numa dimensão mais ampla
de integração da saúde numa utopia de desenvolvimento global e progresso
típicos da modernidade tardia.
Mas do encontro com psiquiatras resultou a necessidade de encarar a
mutualidade enquanto categoria de produção de conhecimento antropológico.
Neste caso, esta necessidade resultou do facto de também eu ter sido, não
somente observada pelos meus informantes, como ainda confrontada sobre os meus
próprios processos de produção de conhecimento sobre eles. Foram mesmo inúmeras
as situações em que senti a sua perplexidade ou a sua simpática
condescendência quando me interrogavam sobre as hipóteses que eu levava para o
terreno e eu tentava explicar-lhes que não tinha hipóteses, pelo menos, no
sentido convencional, mas apenas problematizações. Mesmo assim, era confrontada
ainda com certa curiosidade: como tencionava recolher os dados para análise?
Com que metodologia? Como os iria representar? Porque escolhera psiquiatras e
não outra realidade para observar?
A perplexidade era recíproca e devolvia-lhes uma curiosidade idêntica: como
explicavam a aparente contradição da ação psiquiátrica que, se por um lado
reclamava para si um procedimento profissional consentâneo com a objetividade
científica, por outro justificava o encontro com o doente como instrumento
privilegiado de acesso à pessoa humana? Então explicavam-me que a psiquiatria
era uma ciência, por vezes, uma arte especial. Não dispunha dos meios de
diagnóstico disponíveis para as outras especialidades, mas isso não a tornava
menos científica:
As doenças mentais não se veem em hemogramas, nem em TAC. Tem de se
aprender a detetá-las por outros meios. Por isso é que a
interpretação correta dos sintomas do doente é tão importante. Por
isso, demoramos muito mais tempo na consulta do que as outras
especialidades da medicina, embora isto também já esteja a perder-se
e a psiquiatria, certa psiquiatria, tenda a agir como se a dimensão
humana não estivesse lá, e apenas estivesse a doença. Por isso,
(ainda) privilegiamos tanto o face a face com o nosso doente, porque
para termos acesso à doença precisamos da pessoa. E como é que temos
esse acesso? Somos todos humanos, não é? Eu chamo-lhe intuição e
digo-lhe que ela (a intuição) se aperfeiçoa com o tempo. Você há de
chamar-lhe outra coisa qualquer na sua antropologia. O que é que lhe
chama?
Ao mesmo tempo, este esforço para justificarem a sua ambivalência metodológica
mostrava-me que lhes parecia, apesar de tudo, que eu conseguiria compreender o
seu mundo e também que valorizavam a representação que eu viesse a fazer deles.
Em alguns psiquiatras encontrei até um outro tipo de interlocução, uma vontade
de colaboração conjunta na representação do grupo, embora sempre nos moldes que
julgavam poder ser de interesse comum face aos seus próprios interesses de
representação médico-profissional.
As implicações desta intersubjetividade em campo levaram-me então a pensar esta
última como uma dimensão da interlocução ' uma mutualidade ', porém, aqui bem
distinta da metáfora da tradução, regida sobretudo por categorias de
representação de natureza linguística, ou até mesmo de uma metáfora da
reciprocidade simétrica, no sentido latouriano.
Mas como redefinir então a investigação face aos imponderáveis que se nos
deparam a cada passo na pesquisa de campo e que fazem com que o antropólogo
sinta, não poucas vezes, que as relações de poder estabelecidas em campo lhe
são frequente e amplamente desfavoráveis, apesar do mundo comum partilhado?
Cabe aqui esclarecer que uso a expressão um mundo comum partilhado, no
sentido que lhe conferem Christina Toren e João de Pina-Cabral (2009). Para
estes antropólogos, alteridade e identidade não deverão ser encaradas como
simétricas, pois a possibilidade de diferenciação e de identificação impõe-se
historicamente, quer dizer, impõe-se sob a existência de uma forma prévia,
anterior, de alteridade. Uma alteridade que é constitutiva de toda a
identidade. Neste sentido, a possibilidade da poesis humana depende de uma
confrontação fundacional com um outro anterior:
If all human beings and all superpersonal forms of identity arise
out of others, this means that there is ultimately only one world.
Therefore, on the one hand, we all share a door of entry that opens
up an escape route to the situatedness of our condition. This is the
door of anterior alterity (Toren e Pina-Cabral 2009: 14).
Se bem que este mundo não seja necessariamente unitário e seja, por
conseguinte, falaciosa qualquer tentativa solipsista de o apreender na sua
totalidade pluridimensional, é, no entanto, um mundo comum a todos nós. E, tal
como propõe Pina-Cabral, nem a antropologia deverá prescindir de uma noção de
real, nem os antropólogos-etnógrafos deverão deixar de insistir na natureza
científica do conhecimento antropológico.
Dada a natureza do imponderável, este constitui, na realidade, um princípio de
incerteza. Mas, na medida em que a incerteza é geradora de uma
intencionalidade, que nunca poderemos captar por completo, dependemos sempre de
outrem para fazer sentido dessa intencionalidade, dando assim origem a novas
intencionalidades e novos compromissos mútuos de entendimento do mundo. Quer
dizer, o conhecimento antropológico só pode produzir-se mediante uma condição
de mutualidade. É esta condição que nos permite situarmo-nos por relação ao
contexto de observação. A mutualidade é sempre constitutiva do lugar onde o
antropólogo se posiciona. No sentido em que a mutualidade implica estar com,
estar na companhia de, esta condição é, por conseguinte, coconstitutiva do
outro, não lhe é nem anterior nem exterior.
Mais ainda, o encontro, o face a face que ocorre na mutualidade implica
necessariamente a inscrição de uma ética, isto é, um posicionamento ético no
próprio face a face, que é ao mesmo tempo sua condição constituinte. Os dilemas
de ordem ética ocorrem por isso sempre no curso do processo da mutualidade e
não antes.
Ora, foi mesmo esta condição da mutualidade que me ajudou a pensar sobre a
minha posição na relação em campo com psiquiatras e a poder fazer sentido do
mundo que partilhei com eles durante o trabalho de campo. Por outras palavras,
o compromisso mútuo de entendimento do mundo é condição necessária para a
produção de conhecimento antropológico e, nesse sentido, constitui também
aprendizagem do fazer antropológico. É também sobre essa aprendizagem, que
permite produzir conhecimento de tipo científico, que irei agora refletir.
ANATOMIA DOS ESPAÇOS PSIQUIÁTRICOS METROPOLITANOS
O terreno etnográfico que fui constituindo não resulta de uma qualquer visão
aplanada ou exterior da realidade. Nem tão-pouco de uma delimitação prévia. O
terreno resulta, antes, de muitos imprevistos e da minha experimentação
vivencial, por vezes até mesmo sensorial, de inúmeros aspetos, quer conceptuais
e arquiteturais, quer institucionais e informais. Uso aqui a categoria
imprevisto no sentido espacial e metafórico em que um trilho ou caminho não
havia sido antecipadamente esperado ou pensado, obrigando-me a explorar o campo
em redor na expetativa de encontrar (o melhor) solo para a abertura de trilhos
alternativos que me reposicionassem no caminho da indagação inicial. De um modo
ou de outro, eles foram-me obrigando a reparar neles, ao mesmo tempo que também
assinalavam as estruturas psiquiátricas existentes na cidade.
As etnografias sobre psiquiatria e saúde mental frequentemente elegem para
observação e reflexão antropológicas aspetos que, por serem os mais tratados ao
longo do tempo, presumimos serem aqueles que diretamente conduzem o etnógrafo
ao core do fenómeno psiquiátrico. As etnografias de referência tornam-se deste
modo as que se debruçam, por exemplo, sobre as instituições psiquiátricas
(Foucault 1991; Goffman 1961), as desordens psiquiátricas (Quintais 2000;
Quartilho 2001; Fadiman 1997; Barrett 1996), os hospitais e serviços de
psiquiatria (Estroff 1985;Rhodes1995), a aprendizagem da psiquiatria e da
profissão médica (Sinclair 1997; Good e Good 1993; Luhrmann 2000; Bonet
2004)ou os aspetos socioculturais enquanto formatadores ideológicos das
nosologias psiquiátricas (Lechner 2009; Incayawar, Wintrob e Bouchard 2009;
Martínez-Hernáez 2000).
Por conseguinte, interessada que estava em observar particularmente como os
psiquiatras aprendem a sua profissão, pareceu-me inquestionável eleger o seu
local de trabalho no hospital como o locusnatural dessa aprendizagem. Além
disso, a desinstitucionalização dos pacientes psiquiátricos fazia já parte do
plano de reestruturação dos serviços de psiquiatria e saúde mental portugueses,
iniciado em 2002. Neste contexto, importava-me compreender como os psiquiatras
experienciavam um contexto de trabalho que eu entendia como migratório e nele
aprendiam a sua profissão. Quer dizer, importava-me compreender comoos
psiquiatras transitavam do hospital psiquiátrico para o hospital geral por
referência a esse mesmo contexto de reforma dos serviços de saúde mental.
Sobretudo, dada esta situação migratória, queria compreender como se
estabeleciam estas relações de proximidade laboral entre psiquiatras e os seus
colegas de outras especialidades, no quotidiano do trabalho no hospital geral.
Os meus primeiros esforços etnográficos concentraram-se então em procurar um
serviço de psiquiatria e em obter aí autorização para observar o seu
quotidiano. Todavia, inúmeras ocasiões ocorreram em que, tendo obtido prévia
autorização por parte de diretores de serviço, ou negociado os termos da minha
observação em campo com responsáveis de serviço, me preparava para acompanhar
as suas rotinas de trabalho e esse acesso vinha, num derradeiro momento, e de
forma imprevista, a ser-me negado pelas mais diversas razões.
Ao mesmo tempo que me indagava sobre a natureza das sucessivas dificuldades que
se me deparavam, acabei por percorrer diversos itinerários na área
metropolitana de Lisboa, na procura insistente de um outro serviço ou hospital
onde pudesse realizar a minha etnografia.
As minhas caminhadas pela cidade em busca desse quase lugar mítico ' o
hospital psiquiátrico ' fizeram-me experienciar um campo menos óbvio e arredado
das cogitações psiquiátricas mais imediatas. Percorri os itinerários urbanos
que me conduziram por entre lugares como os hospitais e centros de saúde, mas
também falei com psiquiatras nos seus consultórios particulares. Assisti a
congressos de psiquiatria, visitei tendas de divulgação de associações
particulares de apoio a doentes, contactei com familiares e amigos de pessoas
com doença mental, assisti a eventos de comemoração do Dia Mundial da Saúde
Mental. Testemunhei ainda iniciativas no mesmo âmbito, tais como, por exemplo,
o Movimento UPA (Movimento Unidos Para Ajudar) ' um projeto que reuniu, em
2008, diversas bandas de música portuguesa e realizadores de cinema que
produziram e ilustraram, sob a forma de outdoors, inúmeros suportes
publicitários numa campanha solidária contra a discriminação das pessoas com
doenças mentais.
Na minha demanda pela cidade fui, pouco a pouco, compreendendo que existiam
várias portas de entrada para o campo psiquiátrico e que este era bem mais
complexo do que imaginara. Muitas eram facilmente transponíveis porque abriam
para zonas mais obscurecidas, porque menos expostas aos holofotes da vigilância
médica institucional. Explorando-as, fui observando que, à semelhança dos
campos rurais, existiam certas áreas que se transformavam em zonas de
periferia, uma espécie de arrabaldes do campo psiquiátrico. À noite, eu podia
encontrar essa periferia sinalizada a cada esquina, a cada ruela mais escura ou
sob uma arcada menos iluminada, pelos odores fétidos da urina e de uma outra
presença humana que, à luz do dia, tendia a passar-me despercebida, como
constatei certa noite em que acompanhei voluntários de uma instituição de apoio
aos sem-abrigo na distribuição da refeição noturna. O forte odor a urina sob as
arcadas de edifícios da administração pública, na baixa lisboeta, nos jardins
públicos ou em bairros periféricos, os papelões que serviam de esteira a homens
e mulheres enrolados sobre si, em mantas esburacadas e imundas, os sacos de
plástico de hipermercados que serviam de termo ao metro quadrado de chão
calcetado onde dormiam, tudo adquiria para mim novos significados territoriais
simplesmente porque alguns psiquiatras tinham interpretado o que eu vira,
ouvira, cheirara ou tocara, à luz de um quadro de referências psicopatológicas:
Grande parte dos sem-abrigo da cidade sofre de perturbações mentais. As
crises económicas lançam para as bordas da humanidade pessoas que se afundam em
depressão séria.
A desinstitucionalização, por sua vez, envia psicóticos, esquizofrénicos
e pessoas com todo o tipo de perturbações mentais para a rua.
Um indivíduo que sofre de depressão, se não for tratado, aos 55 anos
pode ter perdido trinta anos da sua produtividade expectável. Muitos vão parar
à rua, sem um teto.
Estas interpretações, sancionadas pelo conhecimento psiquiátrico, alteraram a
minha perceção da cidade. Nunca mais passei pelos mesmos locais, à luz do dia,
quando os cenários e as pessoas já não eram os mesmos que se veem durante a
noite, sem que reconhecesse alguns desses fortes odores que ainda aí
permaneciam e os misturasse quer com a minha memória sensorial, quer com as
narrativas psiquiátricas sobre os sem-abrigo da cidade. Deste modo, fui
descobrindo que a cidade é constituída por zonas marginais cujas dinâmicas, ora
centrífugas, ora centrípetas, escapam à nossa visão comprometidamente linear e
diurna.
Pouco a pouco, o campo que estudava alargava-se e podia perceber uma outra rede
de relações que nunca teria percebido caso tivesse estado ocupada com a minha
etnografia dos corredores de um serviço psiquiátrico. Mas o que encontrava na
rua não era nem menos importante nem menos psiquiátrico, na medida em que se
constituía por referência a sinaléticas, de vária ordem, da ação psiquiátrica.
Foi deste modo que comecei a olhar para outros espaços na cidade e a descobrir
algumas coisas sobre eles. Alguns são espaços apenas transitórios, quer dizer,
permanecem fisicamente sinalizados por um dia ou dois para, logo de seguida,
desaparecerem, como as tendas de divulgação de organizações de apoios a
familiares de pessoas com doença mental, que visitei em outubro de 2009, num
parque da cidade.
Numa dessas tendas conversei com as pessoas que distribuíam folhetos
informativos sobre uma associação de apoio a doentes com esquizofrenia,
conversei com familiares de alguns desses doentes que me contaram os seus
próprios percursos até chegarem à organização. Eu própria tivera conhecimento
dessa iniciativa porque vira um cartaz afixado num serviço de psiquiatria. O
que faz um familiar de doente psiquiátrico tomar parte de uma associação de
apoio a outros familiares de outros doentes psiquiátricos? A Ana era mãe do
Pedro:
Conheci a associação por intermédio do psiquiatra do meu filho. Ele
falou-me nela e que aqui encontraria outras mães e pais que poderiam
partilhar as suas experiências, os seus sofrimentos, as suas
pequenas alegrias. Às tantas senti-me menos sozinha, menos bizarra.
Compreendi que não era a única mãe do mundo a ter um filho
esquizofrénico, que havia mundo para além do meu, e um mundo parecido
até com o meu. Porque não conhecê-los?
Compreendi que uma rede invisível e complexa de relações e sociabilidades se
produzia a cada instante, num qualquer lugar, assinalando um mundo que existe
mesmo para além de nós e que quotidianamente se constitui. Mas só assim o
entendi quando conversei com a Ana e a acompanhei nos seus percursos diários
durante algum tempo. Como nos lembram os organizadores na introdução do
presente dossiê, chamando a atenção para as palavras de Pina-Cabral,
[p]artindo da constatação de que o mundo vivido é historicamente
constituído, os antropólogos foram frequentemente tentados a
considerar que o que havia para analisar era apenas esse mesmo
processo constitutivo; isto é, que não há mundo (that there is no
world) (Pina-Cabral 2010, cit. em Viegas e Mapril, neste dossiê).
Ora, precisamente, há mundo, há real, e o esforço de descrição produz algum
tipo de conhecimento sobre esse mesmo mundo. Recorro agora a dois breves
exemplos etnográficos, tentando ilustrar o que quero dizer.
Exemplo 1
João é enfermeiro psiquiátrico há mais de 50 anos. Começou no Hospital Júlio de
Matos no tempo em que vieram os enfermeiros suíços, homens possantes, com
grande força de braços. Só eles é que conseguiam conter os loucos em agitação.
Não existiam os medicamentos que temos hoje. Hoje a loucura é uma coisa
diferente. João contou-me que, quando era ainda um jovem aprendiz de
enfermagem, os enfermeiros habitavam na ala dos doentes. Viviam, noite e dia,
tal como eles, encerrados na ala psiquiátrica ou numa enfermaria.
João não vivia, contudo, encerrado da mesma maneira. Ele era responsável por
uma enfermaria e tinha na sua posse o chaveiro e a chave que encerrava os
loucos no lado de dentro. Onde é que estava a chave? A chave andava sempre
connosco, nunca nos separávamos dela. Nós e as chaves eram quem impedia que os
loucos transgredissem o seu espaço delimitado.
Dias depois desta conversa, eu acompanhava João ao longo do corredor do
departamento de psiquiatria de um moderno hospital geral, construído na década
de 1990, na periferia de Lisboa. Ao longo do corredor, há portas entreabertas
por onde se vislumbram acessórios de enfermagem, secretárias, batas brancas
penduradas em cabides, pastas e malas de mão pousadas em alguma cadeira.
Aproximamo-nos do topo do corredor onde há uma porta encerrada, mesmo defronte
de nós. João retira a mão vazia de dentro do bolso da bata e, com a ponta dos
dedos, introduz um código num pequeno painel, fixado na parede, ao nível dos
olhos.
Cinquenta anos depois, a mão de João encena uma rotina que conhece há décadas:
cerra e descerra uma porta que divide e separa os doentes do restante espaço.
Já não há uma chave grande que chocalha pendurada num chaveiro preso à cintura
do enfermeiro-chefe. Neste outro tempo, há um pequeno painel eletrónico, com um
teclado numérico. É preciso estar-se autorizado para ter acesso ao código de
abertura desta outra porta deste outro tempo. A mesma mão, a mão do João que
aprendeu um dia a girar para a direita e para a esquerda uma peça metálica
introduzida num mecanismo de fechadura, também aprendeu a memorizar um código
numérico e a teclá-lo num monitor. Mudou o artefacto, mas o gesto é ainda
memória do outro: circunscrever, separar, os doentes problemáticos dos
restantes ocupantes do serviço.
Como que adivinhando os meus pensamentos, João sente necessidade de dizer
qualquer coisa. Certamente que interpretou o meu olhar atento, que lhe seguia
os gestos da mão:
' Hoje isto é tudo mais moderno ' diz, sorrindo em tom de cumplicidade.
' Mas continua a existir uma porta trancada ' digo eu, no mesmo tom cúmplice de
quem julgou estar a partilhar.
' Pois ' murmura João, no derradeiro momento em que a porta se abre diante de
nós, para um outro corredor, e os meus olhos procuram os outros.
O que acabo de descrever mostra-me que o João me levou a visitar um mundo que
ele conhece melhor que eu, e que eu só pude visitar porque ele assim mo
permitiu, mas é um mundo que permanece para além de qualquer um dos dois, que
de qualquer modo nos é, a ambos, anterior. O João repete os mesmos gestos que
muitos antes dele já repetiram também, tal como eu própria repito um modo de
olhar que, pelo menos, gerações de antropólogos anteriores a mim já registaram
milhares de vezes.
Exemplo 2
Há espaços que deixam de ser usados e envelhecem, mas não desaparecem
totalmente. Continuam sob outras formas. Em 2010 voltei ao primeiro local que
visitara quando iniciei o trabalho de campo, quatro anos antes. Aí, no n.º 20
da rua das Taipas, localizava-se o primeiro Centro de Atendimento a
Toxicodependentes ' o CAT das Taipas. Mas deparei-me com uma porta encerrada. O
CAT tinha sido transferido para o novíssimo Parque de Saúde Lisboa Norte. O
Parque nascera do encerramento de alguns pavilhões do Hospital Júlio de Matos.
Por sua vez, este hospital psiquiátrico ficara muito mais pequeno e o seu
funcionamento estava a ser reestruturado à luz das diretrizes da chamada
reforma da saúde mental.
Em setembro de 2010, voltei ao Hospital Miguel Bombarda e muito havia mudado
desde que lá entrara pela primeira vez, em 2006. O hospital encerrou
definitivamente no final de 2010. A oitava enfermaria e o panótico, cenário de
alguns filmes do cinema português contemporâneo, já estão classificados como
património de interesse público.
Estes são exemplos de espaços que envelheceram. Em contrapartida há sempre
novos espaços a formarem-se continuamente, conquistando outros espaços
anteriores. O hospital onde o João começou a trabalhar como enfermeiro, o Júlio
de Matos, foi construído, na década de 1940, nos arrabaldes a norte da cidade.
Nessa época, com as políticas de obras públicas do Estado Novo, a cidade
expandia-se nessa direção (Fernandes 1997). O hospital onde o João hoje
trabalha foi construído seis décadas mais tarde, noutros arrabaldes, a
ocidente, para lá de uma das portas de entrada na cidade, as portas de
Benfica. Sónia, uma das jovens internas de psiquiatria deste mesmo hospital
onde o João trabalha, vive num moderno bloco de apartamentos cujos terrenos
foram conquistados a baldios e a bairros clandestinos no início de 2000.
Sónia, diferentemente do João no seu tempo, já não tem de viver dentro do
hospital durante o seu internato. Atravessa toda a cidade, num eixo norte-sul,
todos os dias, quando sai de casa, de manhã, e depois, quando regressa.
Diariamente, de caminho para o hospital, passa para além das portas de
Benfica e percorre uma rodovia com um dos tráfegos mais intensos do país ' o
IC19 ' até, finalmente, chegar, por uma via de acesso exclusiva, ao perímetro
do hospital, que serve uma das zonas hoje mais intensamente povoadas do
distrito de Lisboa.
O campo de influência psiquiátrica alargou-se geograficamente. Mas também se
complexificou infinitamente, pois partilha com outros campos e outras rotas
sentidos outros que não exclusivamente os psiquiátricos. Que contributo poderá
esta constatação empírica trazer para o debate antropológico sobre como
conhecemos o que conhecemos?
A DESCRIÇÃO ETNOGRÁFICA
As experiências etnográficas de percurso pela cidade podem mesmo contribuir
para nos situarmos na teoria social e num posicionamento tal que possa dar
conta da complexidade do mundo em que vivemos. Cristiana Bastos (2001) propôs
isto mesmo num exercício etnográfico de práticas e representações de cura numa
rua de Lisboa ' a rua de São Lázaro. A microetnografia de curto alcance captou,
num vislumbre etnográfico, uma Lisboa contemporânea onde se sobrepõem camadas
de sentidos, de tempos e memórias, de espaços diferenciados e combinações de
práticas e crenças relativas à saúde, à doença e à cura. O exercício não
pretende ser mais que um esboço etnográfico mas, ainda assim, a partir de um
pequeno segmento da cidade, a descrição etnográfica densa permite descobrir
novas e inesperadas relações que passariam despercebidas caso não passassem
pela análise etnográfica, esse clássico e sempre singular método de análise
antropológica.
Num outro trabalho etnográfico com objetivos bem distintos dos do exercício de
Cristiana Bastos, Luís Vasconcelos, na sua investigação sobre os itinerários do
consumo de heroína de jovens consumidores na cidade de Lisboa, descobriu não
apenas a realidade constitutiva de uma Lisboa psicotrópica nos relatos destes
jovens, que não eram simples representações da verdade, mas atos de construção
cognitiva que servem várias funções (Vasconcelos 2003: 17), mas também a
agencialidade de atores a quem tradicionalmente os poderes relegam para as
margens.
As caminhadas que me conduziram através da cidade e dos seus arredores, que me
levaram a subir e descer avenidas conhecidas, a fazer de automóvel o percurso
para hospitais que se situam junto a eixo rodoviários de intenso fluxo, ou
outros que percorri a pé porque a malha apertada das ruas e esquinas
dificultava o estacionamento, constituíram emocional e etnograficamente um
território psiquiátrico que existe muito para além dos muros dos hospitais
psiquiátricos ou das paredes dos serviços de psiquiatria de hospitais gerais ou
centros de saúde.
Muito por consequência dos imprevistos no trabalho de campo, pude começar a
pensar que a psiquiatria portuguesa e a prática psiquiátrica estão longe de se
localizar dentro de fronteiras exclusivamente locais ou até mesmo nacionais.
Nesse sentido, apesar de se me terem deparado as maiores dificuldades no acesso
ao quotidiano hospitalar strictu senso, presumivelmente em nome da ética dos
médicos e suas reticências a que o seu encontro com os pacientes seja
presenciado por pessoas estranhas à relação clínica, em contrapartida, pude
entender que a ação psiquiátrica não se restringe ao locus da consulta.
A ação psiquiátrica é tão porosa aos efeitos dos fluxos gerados pelas
mobilidades quanto qualquer outra atividade. Cada vez mais frequentemente, por
exemplo, os jovens internos de psiquiatria constroem novas fronteiras, novos
espaços para além dos espaços hospitalares onde aprendem os rudimentos da
clínica. Muitos dos jovens psiquiatras que entrevistei participaram em ações de
sindicalização face à precariedade laboral e à ausência de contrato coletivo de
trabalho; outros falaram-me das suas experiências académicas ou científicas no
estrangeiro, para onde foram fazer cursos curriculares ou doutoramentos; outros
aspiravam a entrar em redes internacionais de investigação psiquiátrica e
neurológica. Todos estes percursos são também percursos de sociabilidades
várias, ao mesmo tempo que estas sociabilidades ocorrem num mundo
contemporâneo, obedecendo igualmente às suas lógicas.
Mas somente a descrição, embora dando conta de um objeto multidimensional e
permeável aos fluxos e mobilidades da contemporaneidade, pode ficcionar estas
fronteiras particulares. Tratar-se-á sempre, porém, de um campo que descobri
por causa de sucessivos imprevistos ao longo da investigação. Mas, por efeito
desses mesmos imprevistos encontrados, tive também de repensar determinadas
categorias de pensamento. É de algumas dessas categorias que irei agora dar
conta por meio de exemplos etnográficos, de modo a demonstrar, sob um ângulo
diferente do que até aqui tenho estado a seguir, o modo como a minha
aprendizagem do trabalho de campo se foi processando e produzindo conhecimento
sobre a realidade observada.
COMO NOS TORNAMOS PSIQUIATRAS? E COMO NOS TORNAMOS ANTROPÓLOGOS?
O que faz a psiquiatria? Como se é psiquiatra?
Conheci os meus primeiros informantes psiquiatras através de um colega de
doutoramento, que trabalhava no Instituto da Droga e da Toxicodependência e
fizera a sua tese de mestrado sobre heroinómanos em Lisboa. Eram quatro
psiquiatras e trabalhavam em centros de atendimento a toxicodependentes ' os
CAT. Foi também com estes psiquiatras que eu decidi que queria fazer trabalho
de campo num hospital. Mas isso só aconteceu quando entrevistei o quarto
informante, o único que, além do CAT, também trabalhava numa ala de um hospital
psiquiátrico. Com eles aprendi que havia muitos psiquiatras que não faziam
ideia de como se fazia psiquiatria no hospital porque, simplesmente, o seu
próprio trabalho com os toxicodependentes os tinha colocado numa espécie de
marginalidade disciplinar, como se fossem uma subespecialidade que não cabia no
contexto hospitalar. A Alice, a primeira informante, contou-me um pouco dessa
história.
Em fevereiro de 2006 encontrei-me várias vezes com ela no seu gabinete de
consultas, no n.º 20 da rua das Taipas, em Lisboa (CAT das Taipas). Esse era o
seu local de trabalho desde que saíra do Hospital de Santa Maria para integrar
a equipa das Taipas. Chegar à rua das Taipas partindo do Instituto de Ciências
Sociais (ICS), no n.º 9 da Avenida Prof. Aníbal de Bettencourt, no Campo
Grande, dispondo apenas de um prévio contacto telefónico a marcar a hora do
encontro com Alice, constituiu não somente uma primeira exploração do terreno
mas igualmente uma primeira experiência da produção de espacialidade desse
mesmo terreno.
Na década de oitenta, os casos de toxicodependência que chegavam às urgências
do Hospital Universitário de Santa Maria geravam uma situação curiosa. Embora
atendidos no serviço de psiquiatria deste hospital, era difícil encará-los
nessa altura como doentes de psiquiatria: Ninguém os queria, ninguém gostava
deles. Só davam chatices. Eram utentes de ninguém. Os doentes toxicodependentes
são especiais, conta Alice. Só mais tarde um grupo de psiquiatras veio a
formar os CAT, que se desenvolveram de forma autónoma e independente, fora do
âmbito hospitalar.
Alice tem memória dos tempos da sua formação médica e dos tempos em que
praticou medicina no Hospital Universitário de Santa Maria. A partir do momento
em que, por razões profissionais, se dedicou aos CAT, perdeu o contacto
profissional com o quotidiano hospitalar e hoje não sabe bem como é a
psiquiatria hospitalar.
A minha decisão de observar o hospital psiquiátrico chegou depois de me ter
encontrado com o quarto informante ' o Paulo ' no Hospital Miguel Bombarda
(HMB), onde ele também trabalhava. O facto de ter reunido com ele no seu
gabinete, na mais antiga instituição psiquiátrica em Portugal, permitiu-me
encontrar um tipo de doentes e de organização dos serviços inteiramente
diferente dos que tinha conhecido nos CAT e que me pareceu de imediato ligar-se
com o tipo de situações que tinham constituído o meu interesse na tese de
mestrado (Patriarca 2002).
Paulo forneceu-me alguns contactos de outros psiquiatras que, como ele,
trabalhavam no mesmo hospital. Pensou que me seria útil conversar com pessoas
de idades diferentes. E, de facto, pareceu-me, nessa altura, que diferentes
gerações teriam diferentes experiências que enriqueceriam a minha etnografia.
Os contactos de Paulo tinham-me conduzido a outros espaços e a novas
curiosidades. Reparara, por exemplo, que a estruturação do quotidiano ocorria
de modo distinto para psiquiatras seniores e para internos da especialidade.
Também percebi que ser psiquiatra num hospital como o Miguel Bombarda ou o
Júlio de Matos era diferente de ser psiquiatra em hospitais gerais, como o de
Santa Maria, o Fernando Fonseca ou o Curry Cabral.
Por isso, os meus esforços concentraram-se, a partir daí, em encontrar maneira
de entrar no hospital para observar as suas rotinas diárias e fazer a
respetiva etnografia. Tratei então de pensar na forma de apresentar o meu
interesse particular de investigação aos responsáveis de serviços de
psiquiatria, administradores de hospitais, diretores clínicos ou psiquiatras e
internos de psiquiatria.
Percebi rapidamente que teria de lidar com a sua expectável curiosidade e
explicar-lhes qual o meu contexto académico, qual a minha instituição de
acolhimento, quem era o meu orientador, como pensava desenvolver a minha
investigação, quais eram as hipóteses que pretendia testar em campo, que
autores pensava serem fundamentais para entender a psiquiatria, quais conhecia,
se já lera Goffman ou qualquer outro. Pensei que para tudo isto teria de
encontrar uma categoria de identificação. Pareceu-me que a categoria
psiquiatrasresolveria razoavelmente o problema.
Fui, no entanto, confrontada de imediato, e de forma inesperada, com um
primeiro problema metodológico. O problema era colocado por parte dos
psiquiatras e condicionou a minha entrada, nesse momento, no interior do
hospital. O problema que teria de discutir com eles era, precisamente, como eu
tencionava estudá-los.
Como classificamos? Como conhecemos o que conhecemos?
Apresentarei agora uma breve reflexão sobre o meu trabalho de campo que
procurará explicitar como, ao tentar explicar a psiquiatras como tencionava
estudá-los, redirecionei eu própria a minha reflexão num sentido no qual não
tinha antes pensado: como nos classificamos uns aos outros?
Este redirecionamento muito deve ao modo como fui interpelada e como isso me
obrigou a indagar sobre a natureza do trabalho etnográfico. A questão prática é
saber como representamos o outro. Mas a escrita mostra-nos uma impossibilidade
intrigante: não temos acesso a esse outro sem que primeiro esteja nele inscrito
um nós. Esta interpelação, constitutiva de corresponsabilidade (ética), esta
mutualidade inscrita no exercício etnográfico, tem sido amplamente debatida por
João de Pina-Cabral (2009) nos seus trabalhos mais recentes. E é nesse sentido
que a encaro aqui, recorrendo a dois exemplos retirados do meu diário de campo,
com os quais procurarei esclarecer um pouco melhor como a imprevisibilidade
pode tornar-se produtora de conhecimento antropológico.
Certa tarde, encontrei-me com Eduardo para conversarmos sobre o seu percurso
médico como psiquiatra. Eu pensava que, por seu intermédio, surgiria alguma
forma de eu ter acesso ao seu local de trabalho. Tínhamos combinado o nosso
encontro por telefone. Contei-lhe que fora um primo dele, que eu conhecia por
meio de um amigo comum, quem me tinha dado o seu contacto. Expliquei-lhe que
estava a fazer um percurso doutoral em antropologia sobre como os psiquiatras
se tornam psiquiatras no seu contexto de aprendizagem e de trabalho. Recebeu-me
de forma muito simpática em sua casa, um moderno apartamento perto de Lisboa.
Quando entrei ouvi as notas de uma música jazz a tocar na aparelhagem e a voz
suave de Billie Holiday. Gosto muito de jazz e, talvez por isso, senti-me algo
confortável com o que imaginei ser um traço em comum que facilitaria a
desenvoltura da nossa conversa. Talvez até quebrasse um pouco a minha timidez
em entrevistar médicos. De alguma maneira não pensada, sentia que ser médico é
mais que ser antropólogo. Só mais tarde me questionei sobre este não-pensado.
Mas, na altura, este aspeto era suficientemente significativo para determinar,
de acordo com o tom da conversa, o rumo e a facilidade ou dificuldade em obter
uma maneira de entrar num hospital.
Ao longo de mais de duas horas, Eduardo conversou sobre o seu trabalho, a tese
de mestrado que realizara sobre serviços de psiquiatria em articulação com os
centros de saúde, as suas rotinas. No final, porém, pronunciou-se sobre o que
entendia ser a minha impossibilidade de acesso a conhecimento sobre
psiquiatras:
' O que eu lhe estive a contar sobre a psiquiatria e sobre mim
próprio não lhe vai servir para nada no seu estudo.
' Porque não? ' indaguei, atónita.
Respondeu-me calmamente:
' Aquilo que você conseguiu ao vir ter comigo foi um enviesamento do
seu estudo. Se você quer conhecer os psiquiatras portugueses tem
sempre de usar um método que não esteja contaminado, isto é, tem de
usar uma amostra recolhida aleatoriamente. É evidente que você chegou
aqui porque conhece o meu primo. E se me pede contactos de outros
psiquiatras, eu até lhos posso dar, mas vou dar-lhe nomes de colegas
de quem gosto, porque acho que são os melhores. Não vou dar-lhe os
outros, alguns nem sequer tenho os contactos deles. E isso não vai
ser representativo de todos os psiquiatras. Será, quando muito,
representativo dos psiquiatras que eu lhe escolhi'. Portanto, você
vai ter aí no seu estudo um enviesamento grave. Eu não surgi no seu
estudo de forma aleatória. Está a contaminar a sua amostra,
invalidando-a assim. Percebe?
O duro remate de uma agradável conversa acabava de me lançar numa angústia que
durou meses. Durante muitas semanas, deambulei pelo meu terreno, angustiada
com o problema da contaminação da amostra. Na verdade, essa angústia
resultava do conflito entre a minha crença de que aquilo que este psiquiatra me
dissera era verdade e o absurdo empírico desta crença. Por um lado, eu tinha de
acreditar que o que ele me dissera sobre a metodologia fazia sentido para ele.
Por outro, não fazia sentido para a minha própria metodologia. Como
compatibilizar este conflito? Como avançar? Desistir da observação que eu
delineara parecia-me absurdo. Mas mais absurdo me parecia tentar convencer os
psiquiatras de que a minha metodologia era tão válida quanto a deles,
sobretudo, quando lhes tinha de dizer que o que eu pretendia era observá-los no
exercício do seu trabalho, acompanhando-os nas suas rotinas. Eduardo tinha
conseguido, pois, contaminar-me com a sua ideia. Mas esta imprevisibilidade
da ação de Eduardo, se, por um lado, não me permitia, por meio dele, entrar no
hospital onde ele trabalhava, por outro, obrigava-me a procurar um sentido para
esta impossibilidade.
Percebi que fazer etnografia era entendido como uma metodologia com pouco
crédito científico. Para Eduardo, eu parecera-lhe uma má investigadora quando
percebera a minha intenção de não usar uma metodologia semelhante à que ele
mesmo usaria em circunstâncias idênticas. Como autorizaria então que eu
discorresse cientificamente sobre ele, enquanto psiquiatra, e os seus pares?
Mas o modo como eu me colocava a questão já era intrigante: eu admitia para mim
própria que o meu conhecimento sobre outra pessoa dependia, de algum modo, do
seu prévio consentimento. Esta questão epistemológica ocupou-me ao longo de
todo o trabalho de campo e julgo que a redação da dissertação é uma tentativa
de encontrar uma resposta satisfatória para este problema: como conhecemos o
que conhecemos? Embora não seja exatamente esta a questão que me ocupa neste
artigo, a sua formulação decorreu desta imprevisibilidade de Eduardo.
Esta perturbação teve um efeito prático nos meus contactos seguintes. Daí em
diante, sempre que abordava um psiquiatra, comecei a prestar atenção ao modo
com que me escutava, geralmente cético, ao explicar-lhe como pretendia realizar
a minha etnografia. Passei a ter algum cuidado em não os deixar pensar que o
meu intento era estudar psiquiatras mas sim observar como aprendiam a ser
psiquiatras. Quando lhes perguntava se poderiam ajudar-me a entrar num contexto
onde eu pudesse realizar o meu estudo, logo me perguntavam como é que eu ia
fazer isso.
Durante muitas semanas fui apenas assistindo às reuniões clínicas nos serviços
de psiquiatria de vários hospitais. Em certo momento, quando eu também queria
saber como diagnosticavam as doenças mentais, comecei a perceber que todos os
psiquiatras me repetiam uma mesma ideia da representacionalidade. Quando lhes
perguntava, por exemplo, como o psiquiatra diagnostica as doenças, ou como
decide qual a doença de que o paciente sofre, devolviam-me uma expressão de
cética condescendência. Olhavam-me como se achassem que jamais eu poderia
perceber como eles o faziam, dado que eu não era um deles.
Como poderia então perceber? Para quê darem-se sequer ao trabalho de tentar
explicar-me, deixando-me entrar nos seus contextos de trabalho?
Mas então uma outra questão me ocorria: se eu não poderia percebê-los, como
poderia descrevê-los? Como se pode compreender algo que não se conhece? Concluí
que teria de modificar o ângulo de observação e tentar compreender de outra
maneira aquilo que me parecera, durante muitos meses, um exasperante impasse no
meu avanço no terreno etnográfico. As implicações metodológicas desta
dificuldade eram importantes. Se a proposição que eu tinha vindo a encontrar no
terreno era verdadeira, então os psiquiatras nuncapoderiam curar os pacientes,
pois, nesse caso, teriam também eles de ser os doentes. E esta proposição era
mais ou menos absurda. Como construíam então as suas categorias analíticas
tendo em vista a terapia?
A questão da intuição, surgida no contexto etnográfico, clarificou um pouco
esta outra questão de saber como o psiquiatra constrói as suas categorias
analíticas e apontou-me outros interesses de investigação, que procurei seguir.
Mas a questão de saber comoos psiquiatrasconstroem categorias analíticas no ato
terapêutico colocou-se-me ainda, numa outra perspetiva, quando percebi que, nas
relações sociais e de amizade que eu ia estabelecendo, também eu era objeto de
categorização, mesmo que não estivesse num contexto formal terapêutico. Reparei
que sempre que eu dizia que eram eles (os psiquiatras) o meu objeto de estudo,
invariavelmente, surgia uma reação que se traduzia, primeiro numa gargalhada
(ah, somos nós que somos o objeto de estudo e não os doentes!), logo seguida de
uma pergunta que me intimidava, porque encerrava o temível pressuposto de que
um psiquiatra está sempre tentando avaliar a nossa sanidade mental. Além disso,
este comportamento parecia confirmar o que inúmeras vezes me repetiram, ora sob
a forma de advertência, ora sob a forma de irónica cumplicidade: Os
psiquiatras estão habituados a entrevistar. É difícil deixarem-se apanhar'.
Antes disso, já eles te entrevistaram a ti.
Invariavelmente, queriam saber: Por que é que você veio estudar-nos? Pensando
em arranjar uma forma airosa para sair do embaraço classificatório desta
pergunta, contei um dia uma meia-verdade. Tinha acabado de ser apresentada, na
cantina de um hospital psiquiátrico em Lisboa, ao diretor clínico, e precisava
que ele me autorizasse a passear pelo hospital para eu fazer a minha
etnografia. Um interno tinha-mo apresentado e recomendara-mo mesmo como a
pessoa indicada para o que eu pretendia. No meio de todo o movimento da
cantina-bar, sentada a almoçar, diante de um diretor com o prato já esvaziado,
na hora tardia do almoço, eu participava contudo do enquadramento psiquiátrico.
Pensei em contornar a questão, não respondendo diretamente: Olhe, o meu
primeiro interesse surgiu da literatura. Lembro-me de ter lido O Castelo, do
Kafka, teria uns 13 anos Ainda eu não tinha terminado e, para minha surpresa
e aflição, ele diz-me, enquanto olha distraído para o lado, para um paciente
que vai a passar com excessivo vagar, com um tabuleiro cheio de comida: Ah,
sim, O Castelo. Isso é um livro dos obsessivo-compulsivos. E dá-se a
gargalhada geral entre os presentes à volta da mesa.
É usual no curso de medicina e nas cadeiras de psiquiatria estudarem-se
narrativas literárias como abordagens de casos ou manifestações passíveis de
interpretar à luz da epistemologia psiquiátrica. São usadas, por exemplo, pelo
valor heurístico que possuem para a aprendizagem do relacionamento do médico
com os pacientes e as suas perturbações. Porém, nunca eu tinha pensado em mim
própria como tendo uma personalidade obsessivo-compulsiva, mas, vendo bem como
consegue uma adolescente ler até ao fim a história sem história do agrimensor K
que chega a um castelo e incessantemente procura, sem nunca o encontrar, o
responsável pela sua contratação?
Não contei ao psiquiatra que tinha lido o livro porque o tinha comprado por
causa da capa, onde flutuava aéreo um belo castelo germânico. Aos 13 anos,
pensava mais ou menos que com tal título e capa só poderia estar diante de uma
história de príncipes e princesas encantadas. E depois, ao ler o romance, fora
até ao final da história, crescentemente irritada, é certo, mas acreditando que
uma história tinha de ter uma história.
Não contei nada disto ao psiquiatra. Ao mesmo tempo que achei que demoraria uma
eternidade a contá-lo, de qualquer modo, ele já fizera o diagnóstico dele: eu
era uma obsessivo-compulsiva se o que eu queria era estudar psiquiatras. Talvez
até um pouco louca, porque essa era uma tarefa impossível. Olhando agora para o
que tinha sido o trabalho de campo até esse momento, talvez ele não estivesse
tão longe assim de uma espécie de verdade.
E, no entanto, se o facto de o psiquiatra não conhecer a minha história não o
impedia de me categorizar numa nosologia, e se tal facto não constituíra
impedimento para eu lhe reconhecer uma certa verdade, então, a sua ação de me
categorizar tinha de significar muito mais do que um mero ato classificatório
de desordens psiquiátricas ou até mesmo de intuição, o que quer que este
termo signifique. Se fosse apenas isso, eu teria de assumir a classificação
dele como um duplo insulto: a) ele estava a dizer que eu sofria de uma
perturbação psiquiátrica; b) fazia-o, para mais, fora do contexto formal da
consulta médica.
Da mesma forma, analisar a minha própria reação (a não pensada e a pensada)
levou-me a refletir no seguinte. Se eu compreendia que ele não me estava a
insultar, isso significava que eu reconhecia qualquer coisa nele, que
partilhava com ele uma qualquer semelhança, um reconhecimento de que o que
ambos dizíamos fazia sentido. E, se assim era, então, o aparente ato não
pensado que o levara à minha categorização, a partir do que lhe contara sobre o
livro de Kafka, também teria de ser relacionalmente analisado enquanto
fenómeno, e não enquanto ato determinístico de uma qualquer realidade
preexistente.
Quer dizer, se analisarmos o ato de classificar em psiquiatria como o fim
último do exercício da psiquiatria, estaremos simplesmente a reproduzir um
pressuposto da assepsia ontológica (pressuposto, aliás, absurdo) para as
desordens psiquiátricas, isto é, que a terapia bem-sucedida depende da
capacidade de o psiquiatra conseguir corretamente isolar do mundo a doença, de
forma asséptica, como se ela fosse uma coisa-em-si.
Se observarmos a história da psiquiatria, veremos como ela se tem constituído a
partir desta mesma crença de que as doenças mentais podem ser conhecidas,
alcance-se para tal a técnica científica que permita esse conhecimento. Mas, ao
mesmo tempo que esta ideia é incessantemente reproduzida, até mesmo quando se
critica o reducionismo biológico da doença mental, o certo é que ela é apenas
(mais) um (entre muitos outros) instrumento de mediação usado pelo psiquiatra
na sua interpelação. Por si só, estes instrumentos não existem senão numa
mediação necessariamente contaminada. E, por isso, ao serem tocados pelos
agentes dessa mediação, estão tão contaminados de sentidos quanto qualquer
outra coisa no mundo.
IMPREVISTOS NA NEGOCIAÇÃO ENTRE AGENTES: O "EMPIRISMO INGLÊS"
O meu encontro com o diretor clínico lançara-me durante semanas numa espécie de
mal-estar. Duvidava já, quase dois anos depois de ter iniciado o trabalho de
campo, que os meus propósitos, que se tinham convertido em urgentes
necessidades, dado que o tempo para dedicar ao trabalho de campo se ia
encurtando, conseguissem alguma vez interessar suficientemente os responsáveis
dos serviços de psiquiatria dos hospitais. Já tinha acumulado algum material
etnográfico, que recolhia nos diários, em gravações e entrevistas, leituras de
jornais, conforme ia acompanhando as notícias que saíam nos media e iam dando
conta de reações, no interior do campo psiquiátrico, à reforma dos serviços em
curso.
Em maio de 2007 decidi voltar a falar com Sérgio, psiquiatra no Hospital de
Santa Maria. Fora das pessoas mais interessadas em seguir o meu projeto e dera-
me algumas ideias que me tinham entusiasmado. Quando fui falar com ele,
convidou-me para ir conhecer o Serviço de Urgências daquele gigantesco
hospital. Contou-me um pouco da história da construção do edifício, datado dos
anos cinquenta.
Sérgio sugeria-me, entusiasmado, que seria muito interessante se eu fizesse aí
a minha observação de campo. Teria era de esperar que surgisse um paciente
psiquiátrico. Sérgio dizia-me que era absolutamente fascinante perceber como
a equipa de serviço decidia que um caso era para psiquiatria. Aprenderia
muitíssimo naquele lugar, afiançou-me. Teria, no entanto, de pedir autorização
ao diretor de serviço, dado que sempre existem constrangimentos de ordem ética
que é necessário resolver primeiro. Sentia-me confiante com a sua
disponibilidade e interesse. Notei que, enquanto antropóloga, o conhecimento
que viesse a produzir naquele contexto seria bem-vindo.
Quando falei com a diretora, ela logo me marcou uma reunião para dias mais
tarde. No dia combinado, esperei quatro horas para que me atendesse. Durante
esse tempo, fui observando a dinâmica do serviço dos internamentos, sediado
nesse mesmo andar. Até que, finalmente, pudemos conversar sobre o meu projeto e
a forma como pretendia realizar a minha etnografia.
Mas, mais uma vez, e de modo para mim não esperado, a diretora ensaiou a minha
presença no seu gabinete como um drama de antagonismo disciplinar. Depois de me
ouvir, questionou-me sobre a minha formação em antropologia, dando-me a
entender que sabia muito bem o que era a antropologia. Não somos macacos'
para antropólogo observar ' disse-me, com autoridade.
Percebi o que queria dizer mas, julgando que seria urgente desfazer o equívoco
disciplinar, apressei-me ainda a explicar que eu estava institucionalmente
posicionada numa antropologia sociocultural.
Sei muito bem o que é a antropologia. Os médicos têm cadeiras de
antropologia na licenciatura, não é preciso que vocês nos digam o que
é a antropologia. Eu também li o livro do Jorge Dias sobre aqueles
povos de Moçambique, não me lembro agora do nome deles.
Referia-se aos maconde e pareceu-me que esperava que eu soubesse
instantaneamente do que ela me falava. Sentia-me a desempenhar o papel de uma
aluna submetida à severidade de um exame. Se não respondesse a todas as
questões de forma satisfatória, teria de me ir embora. Percebia que o custo
para entrar e fazer a minha etnografia dependia da minha capacidade de
persuadir o diretor acerca da validade do meu projeto antropológico, algo que a
minha examinadora não parecia prestes a conceder. Mas a sua atitude era para
mim tão despropositada que resolvi que o meu papel ali não seria o de aluna e,
por isso, não fui capaz de lhe responder. Eu estava ali como antropóloga assim
esperava ser tratada.
Fui ainda questionada, pelo menos assim me senti, quanto às hipóteses
científicas que trazia comigo. Outra vez a mesma interrogação, a mesma
pergunta que me deixava estarrecida. Apesar da presença do antropólogo em campo
ser sempre engajada numa qualquer teoria, não se vai normalmente para o campo
para testar hipóteses antecipadamente pensadas. As hipóteses nascem mais tarde,
não antes, depois de o antropólogo experimentar viver com aqueles que
pretende compreender, sendo por eles interpelado, num processo de mútuo
entendimento do mundo, para então, sim, poder fazer da investigação uma
investigação antropológica.
Este sentido da observação etnográfica não foi de modo algum entendido pela
minha interlocutora. As suas interrogações eram por mim interpretadas como
juízos de valor. O meu método etnográfico não era ali validado porque não era
reconhecido. Não existindo reconhecimento, não existia a sua validação
científica. A entrada era-me assim recusada por meio da encenação de papéis de
desvalorização.
Ofereceu-me um artigo que escrevera sobre psiquiatria e diálogo cultural.
Acompanhou-me delicadamente até à porta do seu gabinete, pedindo que lhe
trouxesse um projeto escrito para ela apreciar e decidir então se me autorizava
a estar no serviço. Inesperadamente, ela disse: É esse empirismo dos
britânicos! Lembro-me de ter balbuciado, numa voz sumida: Não é isso, é que
como é que podemos compreender uma realidade, falar sobre ela, se não
estivermos imersos nela, nem que seja por É isso é!, repetiu ela. Sorria,
junto à porta. O empirismo da antropologia britânica!
Confirmei vezes sem conta esta frase escrita nesse dia no meu diário. Anotei a
lápis: Ela sabia, o tempo todo! Sim, não havia macacos. Nunca tinha havido.
Este foi o imprevisto mais duro que encontrei no campo de trabalho, pois por
causa dele acreditei que nunca escreveria uma etnografia de um serviço de
psiquiatria. Procurei outros lugares psiquiátricos para observar. Foi nessas
caminhadas que acabei por conhecer algumas rotas psiquiátricas da cidade. A
metáfora dos macacos tinha sido usada pela diretora como uma anedota. Na
altura, eu não o tinha percebido e pareceu-me até uma espécie de ácida
provocação. Do mesmo modo, a enigmática expressão com que me despediu naquele
dia ' o empirismo britânico ' tinha um sentido que ia muito para além do seu
significado imediato. Mas só o entendi alguns anos mais tarde.
Na verdade, o que ela me estava querendo dizer era que se sentiria muito
desconfortável se um antropólogo entrasse nos seus domínios. Ela teria então de
ceder o seu posicionamento de observador privilegiado a alguém de fora, vendo
assim suspenso o seu próprio poder de determinar o que é psiquiátrico e o que
não o é. Na sua atitude estava presente o mesmo receio da contaminação que eu
encontrara em Eduardo e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que não existe
mundo fora do mundo e que a ciência, qualquer que seja a sua área de
intervenção, é apenas um instrumento operativo.
A escola da antropologia britânica, fortemente enraizada na etnografia, não
teme o contacto com as pessoas. É nesse contacto mesmo, nessa inerente
mutualidade, que o antropólogo compreende o mundo em que se situa com os seus
informantes e que o conhecimento sobre esse mundo se torna possível. O
cognitivismo tem impedido que se compreenda este tipo de problema do acesso ao
terreno como bloqueios protegidos por interesses, isto é, por categorias
valorativas. Nesse sentido, as proposições da diretora que descrevi poderiam
ser interpretadas como se tivessem sido apenas uma expressão da autoridade que
a ela, enquanto responsável pelo serviço, certamente foi conferida e plenamente
reconhecida. Mas o problema, como adverte Donald David, autor que tem servido
de inspiração aos nossos antropólogos de referência, como João de Pina-Cabral,
reside precisamente em esta perspetiva negar que, simplesmente, coisas como
intenções, desejos ou crenças possam residir num lugar que seja no mundo e não
na mente:
As consequências são importantíssimas. Pois se as pessoas podem
(habitualmente) exprimir os seus pensamentos corretamente por
palavras, então os seus pensamentos ' as suas crenças, desejos,
intenções, esperanças, expetativas ' também têm que em parte ser
identificadas por acontecimentos e objetos exteriores à pessoa. Se os
significados não estão na cabeça, então, ao que parece, também o não
estão as crenças, nem os desejos, nem o resto (Davidson 2004: 6).
Deste modo, as proposições da diretora, que tantas consequências tiveram no
modo como produzi a minha etnografia, têm um alcance bem maior do que a
hipotética explicitação de uma (má) vontade. Elas têm que, em parte, ser
identificadas por acontecimentos e objetos exteriores ao sujeito que fala e
age. São esses acontecimentos e objetos exteriores que os nossos pontos de
comunicação, de interlocução com os nossos informantes, tocam materialmente. É
a partir deles que poderemos tentar compreender um mundo, mesmo que seja
impossível compreendê-lo na totalidade.
Julgo que poderia articular aqui muitos trabalhos de campo de antropólogos
brasileiros que têm refletido sobre as implicações práticas de questões como a
ética, tão comummente levantadas pelos profissionais da medicina como
justificação para o seu impedimento ao trabalho de campo de antropólogos no
domínio da biomedicina. Os seus trabalhos apontam, no entanto, para um tipo de
intervenção ainda pouco explorada etnograficamente em Portugal ' de que se fala
quando se impõe a ética médica naquilo sobre que queremos falar?
Contudo, a questão ética, quando analisada no trabalho de campo, mostra que
esta parece ser uma categoria que poderemos analisar exaustivamente, pois a sua
análise abre-nos a porta para que observemos historicamente, mas também
materialmente, quer os nossos próprios pressupostos, quer os das pessoas que
pretendemos observar. O trabalho de Ceres Víctora mostra-nos precisamente como
a questão da ética, que se levantou na observação de um grupo de portadores de
VIH, conduziu à reflexão sobre a pesquisa qualitativa e o seu uso na saúde. A
partir dessa reflexão, a pesquisadora e suas colaboradoras questionaram as
clássicas dicotomias teoria-prática, sujeito-objeto e racionalidade-técnica,
identificando essas dicotomias como estando na origem de falácias científicas.
Quer dizer, se a presença do pesquisador das ciências humanas pode ser
encarada, pela medicina, por exemplo, como intrusa e não-ética face ao
mundo do doente, também, paradoxalmente, a racionalidade médica exclui esse
mesmo mundo, importando-lhe apenas a doença e os seus sinais. Mas os
antropólogos brasileiros vão mais longe ainda na extração das implicações
éticas e epistemológicas e observam que esses questionamentos, quando
projetados para os Comitês de Ética em Pesquisa, apresentam o grande desafio de
avaliar a adequação metodológica em conjunto com os procedimentos éticos de
cada projeto, quer este seja um projeto individual quer seja um projeto levado
a cabo por instâncias governativas ou não-governativas (Víctora 2011: 111).
Estes antropólogos trazem para a arena da discussão a questão política da saúde
pública (Langdon, Maluf e Tornquist 2008), ao mesmo tempo que apresentam o
grande desafio de questionar, problematizando-a, a noção ocidental de
indivíduo, recorrente na medicina ocidental em detrimento da noção de pessoa,
como bem reflete Luiz Fernando Duarte a propósito da sua pesquisa de campo em
Niterói, observando as classes trabalhadoras e a construção das suas
identidades sociais (Duarte 1988, 2003, 2004a).
CONCLUSÃO
A etnografia que escrevi foi o relato do meu quotidiano num campo que não é
menos psiquiátrico que um qualquer outro quotidiano de um serviço de
psiquiatria que eu pudesse ter registado no meu diário de campo. Só muito mais
tarde, perante a insistência desesperada do meu orientador para que começasse a
escrever sobre os meus longos meses em campo, comecei a compreender que, a
existir um centro, ele será necessariamente um centro etnograficamente
imaginado. Mas o corpo do etnógrafo, esse, sentiu as suas pressões, os efeitos
das suas forças, não só centrípetas mas, sobretudo, as centrífugas. A atenção
aos efeitos dessas forças na escrita etnográfica ajudou-me a posicionar-me na
interpelação dos psiquiatras ao meu trabalho e à minha presença no seu campo.
Procurando trilhos e caminhos em torno do hospital que me conduzissem à porta
de entrada seguinte, encontrei não um serviço de psiquiatria, mas um campo
psiquiátrico: mais, um terreno metropolitano, mundo bem mais vasto do que
aquele que inicialmente imaginara. Essa foi a minha primeira aprendizagem
resultante destas múltiplas interpelações em campo.
Os sucessivos imprevistos de que aqui fui dando conta resultaram, na maior
parte, em descobertas. Se bem que aqui tenha descrito os imprevistos com que me
defrontei ao longo do trabalho de campo como impedimentos inesperados
relativamente a uma entrada cuja autorização, tudo indicava na altura, me seria
concedida sem problemas de maior, na verdade, as implicações teóricas e
epistemológicas resultantes desses impedimentos foram bem mais importantes do
que podia previamente supor. Por meio delas, refiz muitas das categorias que
levava inicialmente para o campo: como proceder metodologicamente, como
classificar, compreender e representar o outro e a mim própria, como negociar
categorias de conhecimento?
A cidade foi surgindo aos meus olhos de modo diferente. Avistei-lhe outras
paisagens (espaciais e temporais), toquei nas texturas de arquiteturas nem
sempre visíveis ao olhar demasiado familiarizado do etnógrafo em casa. A
questão da racionalidade como marca de modernidade não podia deixar de ser
contemplada na minha etnografia. Mas não consegui dissociar essa marca como um
traçado arquitetural de algo bem mais estruturante, não só da psiquiatria, mas
também da antropologia, e de nós todos que habitamos um mundo comum. Talvez só
me tenha verdadeiramente ocorrido explorar essas texturas nas dinâmicas da
cidade depois de ter entendido esta, não como uma planura, um cenário, mas
antes como um processo temporal e espacialmente interativo com os sentidos, as
memórias, a aprendizagem e experiência, e com aqueles cujas vidas queria
conhecer.
Olhando um pouco para esse tempo, reconheço que a minha noção de centrome
conferia nessa altura uma aparente legitimidade para o encarar enquanto core,
isto é, como ponto de confluência de forças a partir das quais emanava o que
quer que fosse que conglomerasse aquilo que eu entendia como sentido-ele-
mesmo da prática psiquiátrica, ainda que não tivesse sequer questionado a
prioriesse sentido. Tendo como inspiração as etnografias sobre o quotidiano dos
serviços de psiquiatria que encontrara em monografias tão exemplares como as de
Sue Estroff (1985), Lorna Rhodes (1995), Rob Barrett (1996) ou Tanya Luhrmann
(2000), também eu ambicionava alcançar um horizonte longínquo, à maneira de
Malinowski, isto é, encontrar a entrada definitiva para a observação daquilo
que julgava ser o motor de produção do sentido psiquiátrico ' o quotidiano no
serviço de psiquiatria lisboeta ', ainda que inicialmente também não me tivesse
questionado sobre a razão de ser de todos os autores destas etnografias fazerem
parte, de um modo ou de outro, do círculo das mesmas familiaridades
psiquiátricas que intentavam estudar.
Rob Barrett, por exemplo, é simultaneamente psiquiatra e antropólogo, o que
facilitou o seu estudo da esquizofrenia num hospital psiquiátrico australiano,
onde pôde acompanhar o trabalho de uma equipa psiquiátrica. Tanya Luhrmann, que
diz de si própria ser meio-antropóloga (a halfie anthropologist) por o seu pai
ser psiquiatra e ela própria ter ponderado seguir psiquiatria, frequentava um
curso semestral onde acompanhava o treino de internos de psiquiatria. O seu
intuito não era escrever uma etnografia mas, sim, aprender algo sobre psicoses
e depressões e sobre o modo como funcionava a psicanálise. O objetivo era o de
tentar perceber se as doenças psiquiátricas que ela vira em San Diego eram
iguais no Tibete ou no Bornéu ' lugares, como ela diz, onde ninguém ouvira
falar de Freud. Um dia, muito naturalmente, um desses jovens internos
perguntou-lhe o que ela achava de escrever sobre eles, psiquiatras. Outros
autores cujo trabalho antropológico no âmbito da psiquiatria produziu
referências importantes, como Kleinman (1988), Good e Good (1993), Young (1990)
ou Incayawar, Wintrob e Bouchard(2009), são antropólogos e psiquiatras e têm
usado a sua formação secundária em antropologia para refletir sobre a sua
própria profissão enquanto psiquiatras.
Referindo-se à importância da familiaridade prévia com o campo estudado, Luís
Vasconcelos chama a atenção para a utilidade de o etnógrafo não ser totalmente
estranho ao campo para que lhe possa ser reconhecido, e até facilitado, o
acesso:
Muito do meu interesse pelos toxicodependentes radica no facto de
ser funcionário do Serviço de Prevenção e Tratamento da
Toxicodependência, hoje Instituto da Droga e da Toxicodependência, e
de durante quase seis anos, com início em 1988, menos de um ano
decorrido sobre a sua inauguração, ter trabalhado no CAT das Taipas.
Muito da facilidade com que foi autorizada a realização do trabalho
de campo deve-se a esta situação. Não foi certamente a apresentação a
alguns utentes desta instituição como antropólogo interessado em
consumidores de heroína, facto que me atribui uma relativa
exterioridade em relação às profissões dos vários trabalhadores deste
CAT, que deixou de denunciar a familiaridade com os espaços onde tal
apresentação foi efetuada. Aceitei mesmo a sugestão, feita por alguns
dos meus antigos colegas de trabalho, para conversar com alguns dos
utentes apresentados. Foi nessas conversas que Rui e Inês aceitaram
ser entrevistados (Vasconcelos 2003: 16).
No meu caso, a minha familiaridade com o terreno psiquiátrico resumia-se à
minha anterior experiência de investigação, no âmbito da minha dissertação de
mestrado em Ciências Sociais, sobre a desinstitucionalização num programa de
reabilitação na Casa de Saúde do Telhal (Patriarca 2002). Como é sabido, o
acesso aos terrenos de investigação constitui uma parte importante, e até
determinante, do rumo que essa mesma investigação poderá ter. Quanto mais
rapidamente e sem grandes sobressaltos burocráticos o etnógrafo encontrar um
contexto de observação, tanto menos possibilidades haverá de ver comprometidos
os seus esforços de entrada no campo que pretende observar. Mas nem sempre lhe
é permitido que decida os termos da sua observação sem uma qualquer
contrapartida ou negociação prévias. Outras vezes, o acesso é-lhe simplesmente
barrado em alguma instância intermédia ou superior, e aquele pode ver o seu
trabalho comprometido total ou parcialmente, como nos mostram as reflexões de
antropólogos como Piero Leirner (1997, 2008) ou Frank Pieke (2000).
Finalmente, como se faz então etnografia, como nos tornamos antropólogos
através dessa aprendizagem do trabalho de campo?
Um dos primeiros ensaios de resposta a esta questão fê-lo Evans-Pritchard num
pequeno texto de reflexão sobre o seu próprio trabalho de campo. Nesse mesmo
texto, que apelidou de fragmentos de história antropológica, Evans-Pritchard
remeteu uma possível resposta para a enigmática afirmação de Paul Radin,
antropólogo de origem austro-americana: Nunca ninguém sabe inteiramente
(Evans-Pritchard 1976: 240). O quase aforismo de Radin, que estudou com Franz
Boas e influenciou gerações de antropólogos americanos, embora não respondesse
de imediato à inquietação dos inúmeros alunos e leitores de Evans-Pritchard '
como se faz trabalho de campo?', servia, no entanto, a este último, de mote às
suas reflexões, tratando de mostrar o quanto o princípio da incerteza era
metodologicamente fundador do trabalho de campo. Era assim, deste modo,
convocado para o fazer antropológico o empirismo implicado na aprendizagem
de ser etnógrafo. Tratava-se de não mais que uma atualização da noção
malinowskiana da imponderabiliada vida social (Malinowski 1997 [1961]), isto é,
de tudo aquilo que para Malinowski parecia desviar-se da evidência concreta
observada pelo etnógrafo (Dias 1997: 42).
Todavia, se a natureza epistemológica da incerteza se impõe na antropologia
clássica enquanto estratégia de conhecimento sobre os indivíduos e sociedades
estudadas, relativamente aos quais o etnógrafo se mantém num aparente
posicionamento de distanciação, quer geográfica, quer sociocultural, já nos
finais do século XX é precisamente a ideia de distanciamento como neutralidade
que é posta em causa pela crítica antropológica. Doravante, não mais se poderá
ignorar que a presença do etnógrafo é sempre ideologicamente pensada e que tal
condição acarreta importantes implicações éticas, teóricas e epistemológicas.
Numa avaliação do gesto fundador de Malinowski, apresentada num volume dedicado
ao trabalho de campo dos tempos modernos, Jill Dias sugeria que foi
precisamente o crescente reconhecimento da necessidade de revisão
das categorias e aceções culturais, não só dos indivíduos estudados
pela etnografia mas também do próprio etnógrafo, que levou a nova
antropologia interpretativa a refletir mais profundamente sobre o
trabalho de campo etnográfico como fonte de conhecimento (Dias 1997:
50).
Na década de noventa, tornava-se cada vez mais insustentável a visão panótica
implícita na conceção malinowskiana do observador-participante. Ao mesmo tempo
que o enfoque do etnógrafo se virava para a processualidade do fazer
etnográfico, comanufaturava-se no mesmo gesto os meios da aprendizagem dos
múltiplos afazeres do trabalho de campo, entre eles, a aprendizagem de como
integrar as interpelações com que aquele se confronta na rotina do exercício
antropológico.
Muito desta revisão se deve às profundas alterações na conceção das fronteiras
geográficas e físicas dos terrenos estudados, bem como às descobertas
etnográficas das suas margens e forças hegemónicas. Mas também muito se deve
aos deslocamentos desses terrenos para o at homedo etnógrafo, como tem sido
discutido por Pina-Cabral (1992, 2000, 2006), Lima e Sarró (2006) ou Mapril
(2006, 2008) em ensaios dedicados à reflexão antropológica sobre a condição dos
terrenos metropolitanos contemporâneos.
A leitura desses textos não pode deixar de nos mostrar a relevância das forças
dinâmicas que permanentemente produzem os movimentos tectónicos que sentimos
sob os terrenos que habitamos. E, se distanciarmos o nosso olhar para
horizontes geográficos aparentemente tão distantes como o Brasil ou a China,
certamente encontraremos etnografias que nos mostram como as dificuldades
relatadas obrigaram a que o antropólogo encontrasse caminhos distintos que, não
somente não se tornaram menos científicos, como também produziram conhecimento
sobre o mundo. Veja-se, a título de exemplo, trabalhos de estudantes de pós-
graduação brasileiros, como os de Piero Leirner (2008), que lhe viu serem
sucessivamente indeferidas as autorizações para observar elites militares, ou
os de Rui Harayana (2008), sobre as dificuldades que lhe foram impostas, em
nome da ética médica, por uma equipa de investigação biomédica quando este
antropólogo procurava observar o trabalho dessa mesma equipa.
E, contudo, encontramos relatos semelhantes por parte de antropólogos de renome
internacional, como nos mostra, por exemplo, Frank Pieke a propósito das suas
reflexões sobre o trabalho de campo que realizou na China (Pieke 2000), ou João
de Pina-Cabral (2002) sobre o trabalho que realizou em Macau sobre as elites
governativas, ou ainda trabalhos de importantes pesquisadores brasileiros sobre
o campo da saúde e da medicina, como nos mostram as reflexões de Ceres Víctora
(2011) ou Duarte (2003, 2004a, 2004b). Estes relatos mostram-nos que, mesmo
geograficamente distantes, os problemas epistemológicos colocados no trabalho
de campo são semelhantes aos que encontramos at home, na medida em que as
relações de poder com as elites ditam elas próprias que encontremos outros
caminhos e que reflitamos sobre as suas implicações na produção de conhecimento
antropológico.
O horizonte distante desloca-se em direção à proximidade e impõe novas
incertezas, sob a forma de novos imprevistos, que constituem, por sua vez,
novas condições de produção do conhecimento, como bem o demonstra ainda Antónia
Pedroso de Lima (1997) a propósito do seu trabalho sobre as grandes famílias
das elites financeiras de Lisboa. No seu conjunto, todas estas etnografias nos
mostram que, para constituirmos os nossos terrenos, temos também de os entender
como uma arena pública, onde o consentimento, a ética e a negociação, em jogo
contínuo, são aspetos com que cada vez mais teremos de aprender a lidar. As
relações de poder que se estabelecem com a nossa presença tenderão a ser tão
mais conflituais quanto mais nos aproximarmos das elites de que queremos
produzir conhecimento antropológico.