Gesù Cristo è il Signore: a Igreja Universal do Reino de Deus em Itália
A religião, como fenómeno social, como expressão simbólica das experiências
sociais, é de primordial importância na análise de todas as sociedades humanas.
[1] É um elemento determinante para a compreensão da vida social, das práticas
institucionais, para entender as experiências quotidianas e os processos de
mudança social (Wilson 1982).
O fenómeno migratório internacional, principalmente depois da II Guerra
Mundial, foi (e ainda continua a ser) extremamente importante na criação,
expansão, dispersão e globalização dos novos movimentos religiosos, com um
grande destaque para as igrejas (neo)pentecostais, abrangendo o triângulo
religioso entre o Brasil, os Estados Unidos e a Europa (Beyer 2006; Clarke
2006; Rodrigues [no prelo]).
O fenómeno do neopentecostalismo, católico e protestante, surgiu nos Estados
Unidos na década de 1960 e rapidamente se expandiu para diferentes partes do
mundo, nomeadamente para a América Latina, com especial destaque para o Brasil.
Em consequência disso, o neopentecostalismo é hoje um dos maiores movimentos
religiosos do mundo (Coleman 2000) e o Brasil é o país com a maior concentração
de pentecostais do mundo.
O processo de globalização e os grandes fluxos migratórios transcontinentais
provocam significativas mudanças sociais, culturais, religiosas e identitárias.
A principal consequência deste fenómeno migratório é que as sociedades
contemporâneas estão cada vez mais plurais, do ponto de vista étnico, cultural
e religioso (Pluss 2009).
A análise sociológica e antropológica do fenómeno religioso no contexto da
globalização corrobora a enorme importância que a religião, através da migração
maciça de pessoas, ocupa nas sociedades atuais (Yang e Ebaugh 2001). A religião
torna-se particularmente importante quando as pessoas / grupos migram. As
circunstâncias desfavoráveis da diáspora reforçam o sentimento de pertença e a
religião desempenha, neste contexto, um papel muito importante na manutenção da
identidade cultural, linguística e religiosa do grupo (Haddad, Smith e Esposito
2003).
Partindo dessas orientações teóricas, pretende-se abordar neste texto o caso da
Igreja Universal do Reino de Deus em Itália, onde atua com o nome de Chiesa
Cristiana dello Spirito Santo. Será dada especial ênfase ao seu forte
proselitismo e estratégia de implantação em Itália e à sua relação com os
imigrantes, brasileiros e de outras minorias étnicas, e com os nacionais
italianos.
O trabalho de campo etnográfico em Roma envolveu ainda a participação nas
atividades de duas igrejas católicas, que oferecem missas em português,
destinadas aos imigrantes brasileiros em Roma. Neste trabalho de campo
constatou-se, em ambas as igrejas, a presença regular de cerca de vinte fiéis
brasileiros nas missas dominicais.
Por outro lado, existem diversas igrejas evangélicas oriundas do Brasil e que
contam com pastores e muitos fiéis brasileiros em Roma. Para além do estudo
sobre a Chiesa Cristiana dello Spirito Santo, tema central deste artigo, o
trabalho etnográfico envolveu a participação nos cultos de duas destas igrejas
evangélicas (Batista Renovada e Congregação Cristã no Brasil), seguindo as
indicações fornecidas por alguns interlocutores de que elas seriam as que mais
reúnem fiéis brasileiros evangélicos em Roma e que também oferecem celebrações
em português.
Religião e emigração: o caso brasileiro
A partir do neopentecostalismo, surgiram no Brasil centenas (ou mesmo milhares)
de novas igrejas evangélicas (Chesnut 1997). A partir do final dos anos de
1980, as principais igrejas, mas principalmente a Igreja Universal do Reino de
Deus ' IURD (Rodrigues 2006), seguindo inicialmente o grande fluxo emigratório
de brasileiros (principalmente para os Estados Unidos e Europa), começaram um
rápido e expressivo movimento de expansão internacional, constituindo hoje um
importante e global fenómeno religioso (Mariz 2009).
A forte expansão do neopentecostalismo a partir da América Latina para os
Estados Unidos e Europa ocorre dentro da denominada reverse mission (Freston
2010). Surgidas a partir do trabalho de evangelização do protestantismo europeu
e pentecostal norte-americano, as igrejas protestantes pentecostais,
principalmente brasileiras, consideram-se responsáveis pela importante missão
divina de (re)cristianizar os Estados Unidos, que se desviaram da moral e da
prática protestante, e a Europa, que passa por um forte processo de
secularização / laicização.
O modelo de expansão mundial pentecostal segue normalmente as diásporas
emigratórias, partindo das regiões periféricas (América Latina, África e Ásia)
para áreas centrais, nomeadamente EUA / Canadá, Europa e Japão. No caso
específico do pentecostalismo brasileiro, a expansão ocorre através do forte
fluxo emigratório brasileiro, mas também através de missionários (católicos e
principalmente protestantes) para essas regiões mais desenvolvidas que,
extrapolando a fronteira étnica brasileira, atuam com outros imigrantes e
também com nacionais, como é o caso apresentado neste texto.
Partindo da reflexão de Ebaugh (2003), podemos afirmar que, no caso específico
do contexto da imigração brasileira, as igrejas neopentecostais têm
desempenhado um duplo e importante papel: a) ajudam a manter a identidade
brasileira na diáspora; b) tentam adaptar-se à cultura da host society, onde
elas agora estão inseridas. Neste último caso, mesmo utililizando um forte
proselitismo religioso, a estratégia dessas igrejas é respeitar os traços
culturais e identitários do país de acolhimento. Esta estratégia passa também
por utilizar, não a língua portuguesa, mas a língua oficial da host society
para converter outros grupos étnicos e principalmente os nacionais, como é o
caso da IURD em Itália, tema deste trabalho.
Sí, qui si parla italiano: a IURD em Itália
Seguindo o seu eficiente modelo de expansão e internacionalização, Portugal
foi um país estratégico para a IURD, uma porta de entrada na Europa ocidental,
onde há uma presença significativa de imigrantes brasileiros (Ruth e Rodrigues
1999). Como afirmou Freston, que a IURD tenha se expandido a outros países
[...] não surpreende, mas sim a dimensão e velocidade dessa expansão (1999:
385).
A instalação inicial da IURD em Itália, com o nome de Chiesa Cristiana dello
Spirito Santo (CCSS), ocorreu em 1993 e foi feita seguindo a sua tradicional e
conhecida prática ' através da compra e arrendamento de espaços para a prática
de culto, espaços estes localizados em áreas urbanas centrais. A sede nacional,
a catedral (figura 1), foi estrategicamente instalada a poucos metros da
movimentada Roma Termini, a principal estação central de comboios, não só de
Roma, mas de toda a Itália.
Figura 1 - A sede da IURD em Roma.
A Igreja Universal, seguindo criteriosamente a sua estratégia de expansão e
conversão evangélica em Itália, hoje tem salas de culto em várias cidades, como
Milão, Nápoles, Mântua, Turim, Bari e Florença (onde também fizemos trabalho de
campo), e grupos de oração (que normalmente se transformam em salas de culto)
em Verona, Udine, Peschiera, Terracina, Sicília-Siracusa e Génova. Sobre o
trabalho de evangelização no território italiano, o jornal Exército Universal
da IURD, que possui versões impressas e online, afirmou em julho de 2010 que
[ ] a evangelização da Igreja Universal em solo italiano é maciça.
Televisão, jornal, rádio e distribuição diária de folhetos pelas ruas
das cidades, com o apoio dos grupos de evangelização e de resgate'
colaboram para o crescimento evangelístico e pela busca da aceitação
do Evangelho pelos italianos, já que é forte a influência religiosa
no país. Essa determinação faz com que a cada dia mais e mais igrejas
sejam abertas (em <http://www.exercitouniversal.com.br/2010/07/
igreja-universal-na-italia.html>).
O website da IURD em Itália (http://iurditalia.org/) também permite a
visualização de vídeos de programas da Igreja e disponibiliza a rádio
onlinePositiva, que funciona 24 horas por dia e cujo conteúdo, focado na
propagação da doutrina da Igreja e no atendimento espiritual, é todo difundido
em italiano.
Via di Porta Tiburtina, 18 / 20. A 500 metros da já citada Roma Termini, a sede
nacional da IURD italiana encontra-se frente a um monumento histórico. É um
prédio moderno que, incluindo o seu estacionamento e a sua área de recreação,
possui 150 metros quadrados. O imóvel custou 1.617.600,00 euros e o valor
estimado da reforma e construção do novo prédio foi de 1.500.000,00 euros.[2]
Inaugurado em 27 de junho de 2010, o templo tem capacidade para abrigar 500
pessoas sentadas e fica aberto permanentemente, com quatro reuniões diárias e
atendimento espiritual durante as 24 horas do dia. Antes da inauguração da sede
nacional, entre 1993 e 2010, as reuniões na cidade ocorriam num pequeno salão
no bairro de Casilino (periferia de Roma) que era chamado templo provisório.
Segundo nos relatou (em 13 / 3 / 2011) um fiel cabo-verdiano que participa no
grupo de jovens da IURD romana, o então pastor do salão de Casilino, nas suas
pregações, enfatizava sempre que o aperto e o caráter temporário daquele
pequeno espaço daria lugar a um templo amplo, condizente com a fé e com o
comprometimento com Deus dos fiéis italianos em geral. Participavam ativamente
das atividades deste local de culto e contribuíam financeiramente para a
manutenção deste templo provisório os seguintes fiéis: treze cabo-verdianos e
nigerianos (dos quais nove eram mulheres) e seis brasileiros (dos quais quatro
mulheres) que lá aceitaram Jesus, segundo este interlocutor de 15 anos.
Um domingo na IURD romana
Domingo, dia 6 de março de 2011. Chegámos à catedral-sede nacional da IURD
italiana (figura 2) às 9h30 da manhã. O pastor Leandro, que já conhecia um dos
autores deste texto, estava neste dia em missão de trabalho em Milão. Fomos
recebidos por uma obreira brasileira que, quando soube que éramos também
brasileiros, perguntou o que estávamos a fazer em Itália e, no fim da (curta)
conversa, disse-nos que uma graça iria acontecer neste dia nas nossas vidas. O
bispo Wagner Simões presidiu ao culto, que durou duas horas, das 10 da manhã ao
meio-dia. Notámos a presença de vinte obreiros no templo: quinze mulheres e
cinco homens, todos elegantemente vestidos com os respetivos uniformes.
Participaram no culto aproximadamente cem pessoas, predominantemente imigrantes
de diferentes nacionalidades (muitos de origem africana e na sua maioria
mulheres de meia idade), poucos brasileiros e uma pequena minoria de
italianos / as.
Figura 2 - Entrada principal do Templo, com a citção da legislação italiana
sobre a liberdade religiosa. Ao lado, a placa da IURD italiana, com o
tradicional símbolo da Igreja.
Do lado direito do altar há uma citação bíblica, em italiano: Se uno mi serve,
Il Padre l'onorerà (João, 12:26, ou: Se alguém me serve, o Pai o honrará). O
culto começou com uma oração, feita pelo bispo Wagner Simões, para purificar o
corpo e a alma dos presentes. Além dele, havia outros dois pastores no altar:
Pedro (português) e Andrade (brasileiro), todos elegantemente vestidos com fato
de cor escura. Após a oração inicial, a pregação do bispo incidiu sobre quatro
temas principais:
Libertação ' porque Deus quer que o homem seja livre
Conversão ' que implica mudanças na vida do crente
Novo nascimento (born again) ' o renascer numa nova
espiritualidade
O batismo no Espírito Santo ' o que torna o fiel um espírito novo
O culto foi proferido em italiano, assim como todos os principais cultos que
são feitos no templo. O culto deste dia era especial, pois marcava o início da
Quaresma e, por isso, o número quarenta tinha um significado simbólico muito
importante. Explorando liturgicamente este simbolismo, o bispo Wagner referiu
várias vezes a importância de, neste período, se orar durante quarenta dias,
para reforçar o vínculo com Deus e com a Igreja.
Um outro aspeto simbólico importante presente neste culto foi o momento das
ofertas. Quando o bispo pede as contribuições, as ofertas, ele invoca
primeiramente trinta pessoas para contribuírem com trezentos euros cada uma;
isso simboliza os trinta dias do mês, cada fiel correspondendo a um dia. Após a
solicitação do bispo, trinta pessoas dirigiram-se ao altar e pegaram nos
respetivos envelopes para as ofertas. Entre as trinta pessoas estavam quatro
obreiros, sendo três mulheres. Esgotados os envelopes para a oferta de 300
euros, o bispo apela a que os fiéis doem cem euros. Finalmente, reforçando o
aspeto simbólico da Quaresma, o bispo pede para todos os presentes doarem no
mínimo quarenta euros cada um.
Num determinado momento do culto, o bispo chama os dizimistas ao altar em fila
indiana para depositarem o envelope com dinheiro e receberem a unção com o
óleo. Logo a seguir, baixaram uma enorme tela situada em frente ao altar, que
permite a projeção de vídeos através de data-show, e começaram a exibir os
testemunhos de fiéis recém-convertidos. Comprovando e reforçando a importância
da conversão de nacionais, os depoimentos apresentados foram feitos por três
italianos: duas mulheres e um homem. Para além dos pedidos dos trezentos, dos
cem e dos quarenta euros, os obreiros começaram a passar as sacolinhas para
receberem as ofertas.
Após o ofertório final, o bispo Wagner convidou os fiéis presentes para
assinarem a bandeira italiana que cobria a mesa que se encontrava em destaque
no altar (figura 3).
Figura 3 - O altar do templo, com a tradicional frase: "Jesus Cristo é o
Senhor", com a bandeira italiana cobrindo a mesa de cerimónias.
Sobre a mesa havia uma jarra de óleo para ungir os fiéis. Porquê este ritual da
assinatura da bandeira italiana? Neste culto dominical faltavam onze dias para
uma data especial para a República Italiana: o aniversário de 150 anos da
unificação política do país, facto que ocorreu em 17 de março de 2011.
Após a assinatura da bandeira italiana (que continuou presente no altar durante
todo o mês de março de 2011), foram apresentados em vídeo mais três testemunhos
de fiéis italianos. A mensagem segue um padrão: tinham problemas nas suas vidas
(nas áreas profissional, de saúde e afetiva) e depois de começarem a participar
nos cultos da Chiesa Cristiana dello Spirito Santo, e de firmarem um vínculo
com Deus, por meio da participação nas correntes de oração promovidas pela
Igreja, viram as suas vidas completamente transformadas e não tiveram mais
problemas, materiais e / ou espirituais.
O culto terminou e os fiéis presentes que participam no grupo de jovens do
templo saíram juntos para almoçar num pequeno restaurante próximo do local. As
atividades deste grupo ocorrem todos os domingos à tarde, às 14h00. O pastor
Andrade, oriundo de São Paulo, é o responsável e, neste dia, o grupo de jovens
contava com dezessete elementos e uma maior igualdade entre os géneros: com
predominância de africanos (cabo-verdianos e nigerianos na sua grande maioria)
e a presença de um italiano e de um romeno.
A jovem Juliana, brasileira, esposa do pastor Andrade, que era uma das obreiras
do culto da manhã, estava agora como participante no grupo de jovens, assumindo
um papel de articuladora entre eles. Antes, como obreira no culto da manhã,
Juliana usava uma roupa / uniforme e uma postura muito formal; agora estava
vestida e comportava-se como uma adolescente. O pastor Andrade, igualmente,
apresentava uma nova postura, bastante informal, era também um verdadeiro
adolescente, que não se distinguia dos demais presentes: tinha trocado o fato
escuro, usado no culto da manhã, por uma camisa desportiva, jeans e ténis. Ele
cantou, dançou, pulou, tocou piano e deu até cambalhotas.
Os jovens pastor Andrade e a sua esposa Juliana demonstraram já conhecer todos
os presentes, chamando-os pelos nomes. Ele falava de problemas comuns aos
jovens, de questões / problemas que fazem parte das suas vidas quotidianas.
Houve um concurso de dança hip hop e os jovens, bem alegres e descontraídos,
dançaram juntos como se estivessem numa discoteca. A seguir houve um concurso
de karaoke com canções pop. Samuel (um dos jovens presentes) e o pastor Andrade
tocaram piano; este último tocou uma canção de Michael Jackson ' You are not
alone. Além disso, também houve exibições de kickboxing. Estas atividades
diversificadas têm um propósito: trabalhar com os jovens o tema de que ognuno
ha il suo talento (cada um tem o seu talento). Após uma oração, o pastor
Andrade fez uma breve reflexão sobre este tema, que culminou com uma mensagem
final deixada aos jovens: Oggi tu fai la tua scelta, domani la tua scelta ti
farà (hoje tu fazes a tua escolha, amanhã a tua escolha te fará).
Essa reunião-culto do grupo de jovens não tem a estrutura de um culto normal e,
reforçando a sua proposta de atrair e congregar jovens, mais parecia um
encontro comum de pessoas daquela idade. Todo o espaço foi especialmente
preparado para atender os jovens. Havia no templo um ambiente acolhedor, bem
iluminado e alegre. A música era tocada num volume bastante alto e luzes
especiais foram acionadas, por exemplo. É interessante realçar que o Salmo 150
faz referência e até mesmo incentiva estes aspetos presentes no culto dos
jovens e que podem ser caracterizados como festivos.[3] Tais características
e estratégias festivas para atrair e congregar jovens também foram constatadas
por Rodrigues [no prelo], a partir de uma pesquisa sobre a atuação de igrejas
pentecostais brasileiras na área metropolitana de Nova Iorque. Esta atuação
diferenciada e específica voltada para os jovens evidencia como a CCSS / IURD
está consciente tanto da importância dos descendentes (segunda geração) de
imigrantes para o seu crescimento enquanto instituição religiosa, quanto da sua
possível influência na trajetória de vida destes jovens.
Para Alejandro Portes e Josh DeWind (2007: 17-22), a esfera religiosa tem sido
menos um elemento determinante da migração e incorporação e tem conduzido mais
a uma série de interaction effects (efeitos de interação) com outros fatores.
Baseados em exemplos etnográficos da Europa e da América do Norte, os autores
citam quatro importantes elementos: 1) o movimento religioso (no caso do
presente texto, a Igreja Evangélica) raramente cria fluxos migratórios
próprios, mas acompanha os emigrantes e muitas vezes atenua os impactos do
processo migratório sobre os seus membros; 2) o movimento religioso não dita as
políticas migratórias estatais, mas ajuda nas suas implementações ou,
alternativamente, confronta-as quando percebe que elas podem ser prejudiciais
aos seus interesses ou aos dos seus membros; 3) o movimento religioso raramente
inicia atividades transnacionais, mas fortalece os seus membros através das
conexões de igrejas, que se encontram em diversos pontos geográficos; 4) a
esfera religiosa não cria o contexto social que é confrontado pela segunda
geração de imigrantes, mas pode tornar-se uma força vital em conduzir os jovens
e ajudá-los a integrar-se nas sociedades de acolhimento.[4]
Estes elementos relativos à esfera religiosa em contextos de migração,
referidos por Portes e DeWind (2007), estão presentes na realidade dos grupos
de brasileiros que vivem em Roma. O quarto elemento em particular, que se
refere à segunda geração, é muito pertinente, pois está em consonância com os
desejos dos jovens: sete brasileiros (três do sexo masculino e quatro do sexo
feminino, com idades entre os 14 e 17 anos)[5] afirmaram que não querem o que
classificam como uma integração subalterna (comum na vida dos filhos de
outros grupos de imigrantes, segundo eles) e que a participação em instituições
religiosas os ajudou a desenvolver, juntamente com as suas famílias, uma rede
de bons contactos, que foi e continuará a ser muito importante no futuro,
para que consigam apoios e melhores condições no competitivo mercado de
trabalho italiano. Ou seja, estes jovens de segunda geração perceberam que a
esfera religiosa lhes pode proporcionar um maior capital social (Bourdieu e
Wacquant 1992: 119) e consequente ascensão social.
A Chiesa Cristiana dello Spirito Santo também ora em inglês: o culto para a
comunidade negra
Domingo, dia 6 de março de 2011. O culto começou às 16h00 e terminou às 17h00.
Estavam presentes uma imigrante latino-americana, sete africanas (cinco
nigerianas) e uma afro-americana, casada com um italiano.
Os dois temas principais do culto foram Power (Força) e Faith (Fé). Todo o
culto foi feito com as pessoas à frente no altar, em pé. Num momento de forte
espiritualidade de oração coletiva e de imposição das mãos, uma fiel africana
manifestou estado de possessão demoníaca. O exorcismo foi feito pelo pastor
Pedro, um português que se converteu à IURD em Portugal e que é casado com uma
portuguesa. O seu primeiro trabalho como pastor foi nos Estados Unidos
(Califórnia), onde pregava em espanhol, visando converter a comunidade
hispânica. Depois de passar por Londres, foi enviado pela hierarquia da IURD
para ser pastor em Roma.
A única obreira presente neste culto era negra e chamava-se Esther. É
importante notar que foi escolhida uma obreira negra porque o culto em causa
era especialmente dedicado aos fiéis negros. Neste caso, para além de
partilharem a mesma identidade religiosa (de serem todos evangélicos), há
também a partilha da mesma pertença étnico-racial (de serem todos negros). A
Esther é estudante oriunda da Nigéria e está há cinco anos em Itália. No culto
anterior, ela era uma das participantes do grupo de jovens, liderado pelo
pastor Andrade, tendo inclusive cantado no concurso de karaoke.
Como é prática na IURD, a importância do dízimo foi realçada pelo pastor
durante todo o culto. Neste houve também a projeção em vídeo de testemunhos,
em particular um em inglês, de uma afro-americana que falou sobre os problemas
que ela enfrentava antes da sua conversão à IURD: infelicidade, problemas
económicos e de saúde, decorrentes de um processo de depressão e desemprego.
Ela testemunhou enfaticamente que, após a conversão, a sua vida mudou
radicalmente e que todos os problemas foram sanados ' Hoje sou feliz, com
saúde e com um bom emprego, concluiu. Em seguida, houve o testemunho
presencial de uma mulher negra sul-africana, que falou sobre a sua experiência
religiosa na IURD, testemunho este muito semelhante ao apresentado
anteriormente na projeção em vídeo.
A grande maioria dos fiéis presentes estava com uma fita vermelha no pulso
direito (colocada no culto do domingo anterior) que foi cortada pelo pastor
Pedro. A fita simboliza a ligação do fiel com a Igreja, como uma corrente que o
liga à instituição religiosa e que, além disso, lembra diariamente ao fiel que
ele faz parte da Igreja. Após o corte da fita, ocorreu a colocação de uma nova
fita vermelha no pulso dos presentes, reproduzindo e reforçando assim,
simbolicamente, a união deles com a Igreja. Os fiéis ficam assim amarrados /
ligados à Igreja, pois foram intimados a estarem presentes no culto do próximo
fim de semana para renovação da fita / vínculo.
Na saída do culto conhecemos Tiago, um ítalo-brasileiro nascido no Paraná,
casado com uma brasileira e que tem uma filha pequena já nascida em Itália. Ele
veio do Brasil diretamente para Roma, onde mora há três anos. Tiago comentou
que, com a certidão de nascimento do seu avô, em três meses conseguiu a
cidadania italiana, de maneira bem mais rápida e fácil do que se realizasse o
pedido através dos consulados italianos no Brasil. É fiel da IURD desde os três
anos de idade, juntamente com a sua família e o seu irmão chamado Murilo,
pastor da Universal em Chelas, bairro de Lisboa. Tiago contou-nos que a Igreja
tinha um culto em português, mas que resolveu atuar só em italiano e inglês.
Quando nós lhe perguntámos Mas porquê o culto somente em italiano?, ele
respondeu prontamente: Porque estamos na Itália.
A IURD em Florença
Após a participação em vários cultos na catedral-sede em Roma, e para
compreender melhor o processo de implantação da IURD em Itália, fomos fazer
trabalho de campo etnográfico em Florença.
Sexta-feira, dia 11 de março de 2011. Chegámos ao templo da Chiesa Cristiana
dello Spirito Santo às 10h20 e assistimos somente ao fim do culto. Estavam
presentes cinco mulheres brasileiras e um italiano da Sicília, todos
aparentando estar na faixa etária de 30 anos. Conhecemos Mônica, cantora e
compositora evangélica, natural de Pernambuco, mas criada em Maceió, que mora
há onze anos em Itália. Converteu-se à IURD ainda no Brasil. Mônica possui um
papel muito ativo dentro da Igreja, atuando inclusive como uma das principais
evangelizadoras na cidade de Florença. Terminado o culto, começou a preparar-se
para evangelizar não convertidos pelas ruas da cidade de Florença.
Este novo templo da CCSS em Itália foi inaugurado em 16 de janeiro de 2011.
Como é estratégia da IURD, está localizado numa área central da cidade, de
fácil acesso e próximo da estação principal de comboios, a Santa Maria Novella.
Antes da inauguração deste templo, funcionava na cidade um grupo de oração, que
se reunia numa parte mais afastada do centro da cidade. O pastor João Carleti
mora há três anos em Itália, é natural do Espírito Santo (Brasil) e é
responsável pelos grupos de jovens da IURD em todo o país. Este pastor contou-
nos que era toxicodependente, a sua irmã foi a primeira da família a
converter-se à IURD e que foi ela quem o levou à Igreja para que ele
abandonasse o vício e se convertesse. O pastor Murilo, irmão do obreiro Tiago
da sede nacional de Roma (do qual já falámos), que agora está em Lisboa, já
atuou no grupo de oração de Florença.
O pastor João lidera ainda um grupo de oração na Sicília (Siracusa) e comentou
que as negociações estão avançadas no intuito de abrir uma igreja nesta ilha.
Quando mencionámos que tínhamos participado em cultos da IURD em Roma, ele
confidenciou que para resolver o problema do embargo à obra da sede nacional de
Roma (que durou dois anos e meio), a IURD contou com o apoio do senador Lúcio
Malan, o único protestante do Senado italiano e que faz parte da Igreja
Evangélica Valdense.[6]
O pastor João falou-nos ainda do projeto de, brevemente, poder abrir uma rádio
de alcance regional (na Toscana) e que isso só não ocorreu até ao momento por
conta da forte burocracia italiana. Segundo ele, a IURD na Europa está toda
estruturada, bem coesa e com os seus membros e principalmente as suas
lideranças interligadas e sempre em contacto através da Internet. Quando um dos
etnógrafos mencionou que morava em Portugal, Mônica imediatamente disse que
queria visitar este país e colocou para tocar na igreja um CD com uma canção da
sua autoria e interpretação, para que escutássemos. No contexto da conversa,
percebemos que ela tinha interesse em divulgar o seu trabalho em Portugal e,
assim, tornar-se uma famosa cantora evangélica.
Segundo o pastor João, os italianos de uma maneira geral são um povo de muita
fé e com quem é preciso trabalhar com calma. A ideia é tentar levar a
palavra de Cristo sem confrontar com a fé deles, acrescentando o pastor que,
sempre aberta ao diálogo, a IURD oferece as condições necessárias para que a
aceitação e a conversão possam partir de cada um dos italianos que porventura
venham conhecer o trabalho que a CCSS promove no país. Este pastor ainda fez
referência à dificuldade que sente em expressar a palavra de Deus em italiano,
em ter que escolher as palavras certas e precisas para explicá-la neste idioma.
Após esta visita ao templo da IURD em Florença, andámos pelos principais pontos
turísticos da cidade e constátamos que, tanto os fiéis da IURD que estavam no
culto, quanto os demais brasileiros / as que encontrámos no centro da cidade,
apresentavam um perfil socioeconómico diferenciado daquele que conhecemos entre
a maioria dos brasileiros que vivem em Roma: os que moram em Florença têm um
maior nível educacional e uma melhor situação económica. Além disso, notámos a
presença de muitos / as estudantes brasileiros / as descendentes de italianos e
com a cidadania italiana, visto que a legislação de Itália segue o preceito do
jus sanguinis.
A IURD está consciente desta heterogeneidade, presente nos diversos grupos de
brasileiros espalhados pelas principais cidades italianas, e tenta adaptar a
sua estratégia de conversão a essas particularidades regionais e locais. Esta
suposição foi confirmada por três interlocutores: João, cabo-verdiano de 58
anos, que frequenta a IURD romana com a sua esposa e os seus dois filhos
adolescentes, e dois brasileiros, um obreiro e um fiel da IURD romana, que
serão a seguir apresentados.
O obreiro e o convertido
Roma, domingo, 13 de março de 2011. Após o culto dominical, um dos etnógrafos
pôde participar no almoço self-service que a igreja oferece aos seus fiéis ao
custo de dez euros. Nesta ocasião, foi possível conhecer e conversar com
Eduardo e Marivaldo, mais conhecido como Júnior.
O carioca Eduardo tem 35 anos e vive há seis na Europa, tendo passado
temporadas em Barcelona e Pisa antes de chegar a Roma. Ele contou que já
conhecia o trabalho da IURD no Brasil, mas que, de facto, só aceitou Jesus na
IURD romana (CCSS) após o bispo Wagner Simões o ter retirado da sarjeta,
ainda toxicodependente, sem dinheiro e imigrante ilegal ' sem o permesso di
soggiorno (documento que permite aos estrangeiros a residência legal em
Itália). Segundo Eduardo, depois de se tornar um membro fiel da IURD em Roma,
regularizou a sua situação na Imigração italiana, conseguiu um trabalho e um
local para morar, local este que lhe foi oferecido por Júnior.
O capixaba (natural do Espírito Santo) Júnior tem 33 anos e no Brasil estudou
apenas até à quarta série do ensino fundamental. Sem chances de conseguir um
bom emprego no Brasil, em virtude da sua baixa escolaridade, em 2006, Júnior
aceitou o convite de um tio para ir para Itália e desde aquele ano trabalha
numa fábrica em Ciampino, cidade integrada na área metropolitana de Roma.
Quando questionado sobre porque ofereceu o sofá no seu pequeno apartamento de
uma divisão para Eduardo morar, Júnior afirmou que já fez o seu pé-de-meia,
que pretende retornar ao Brasil brevemente e que quis deixar no coração de
Eduardo a seguinte mensagem: ele deve ajudar outros brasileiros necessitados
que procuram a IURD em busca de ajuda e, dessa maneira, continuar a missão
que Deus conferiu aos iurdianos: eu estou te ajudando agora p'ra que no futuro
você ajude outras pessoas, disse Júnior ao receber Eduardo em sua casa.
Júnior contou ainda que já era membro da IURD no Brasil, tendo inclusive sido
batizado no seu estado natal, o Espírito Santo. Porém, só em Roma se tornou um
verdadeiro fiel e começou a participar p'ra valer na Igreja. Quando
questionado sobre a razão disso, Júnior foi enfático: Aqui é um outro mundo,
aqui a gente vive em um deserto. O brasileiro aqui é ainda mais dividido e
egoísta que lá no Brasil. Sem a ajuda da Igreja, eu nunca tinha me achado
aqui. Após a conversa, Júnior convidou o etnógrafo para participar no
churrasco e na evangelização pelas ruas de Roma, que ele e outros fiéis da IURD
romana iriam promover no domingo seguinte. Etnograficamente, não haveria melhor
ocasião para conhecer ainda melhor a vida de Júnior e como funciona este
trabalho de evangelização, por isso, o convite foi imediatamente aceite.
Domingo, 20 de março de 2011. O etnógrafo chegou à IURD romana à hora do
churrasco, às 12h30, e aproximou-se de Júnior, que falou sobre a sua trajetória
dentro da Igreja. Ele frequenta a IURD em Roma há três anos, desde o tempo em
que a primeira sala de culto funcionava no templo provisório de Casilino.
Tornou-se obreiro há dois anos, após ser testado diversas vezes pelo bispo
Wagner e pelos outros pastores. Indagado sobre os testes, Júnior respondeu
que foram ações que visavam avaliar o seu nível de comprometimento e fidelidade
com a causa da evangelização e que dois destes testes ocorreram da seguinte
maneira: o pastor telefonou às 23h30 para ele ir a uma reunião de preparação
das atividades de evangelização que seriam feitas no dia seguinte; outro teste
aconteceu quando ele se preparava para voltar para casa, depois de participar
no culto da noite, após uma jornada inteira de trabalho, e o pastor, mesmo
sabendo que ele estava com fome e cansado, convidou-o para uma atividade de
evangelização, que na altura não foi especificada. Júnior, como um bom fiel,
não pensou duas vezes e nem questionou do que exatamente tratava tal atividade
ou a que horas ela terminaria. Júnior não sabia que estava a ser testado e só
percebeu isso quando, num evento de convocação e formação de novos obreiros, o
informaram que ele havia sido escolhido por Deus para a missão de ser um
obreiro da IURD e atuar em Roma.
Após o churrasco, o etnógrafo participou na evangelização pelas ruas de Roma,
com os fiéis que estavam presentes naquele evento: onze brasileiros (todos
obreiros da Igreja e dos quais seis eram mulheres), dois casais de obreiros
cabo-verdianos e sete jovens ' três rapazes e uma jovem de Cabo Verde e três
jovens mulheres da Nigéria, dentre estas Esther, da qual já falámos.
O trabalho de evangelização consistiu basicamente na distribuição de folhetos
de divulgação do culto especial pela saúde, que ocorre todas as terças-feiras
na igreja. Um aspeto interessante é que os pastores e obreiros da IURD
presentes naquela atividade ignoravam nos seus discursos o facto de que Roma é
a sede da Igreja Católica e sempre se referiam a esta cidade como uma terra
pagã e hedonista que, por isso, precisa ser evangelizada. Divididos em
grupos de três ou de duas pessoas, cada grupo fazia a distribuição dos folhetos
pelas caixas de correio dos apartamentos, pelos para-brisas dos carros e aos
transeuntes que aceitavam as ofertas dos folhetos. O etnógrafo fez este
trabalho com Júnior e Eduardo e, antes de terminar a atividade, dirigiu-se a
Júnior demonstrando mais uma vez interesse pela sua trajetória dentro da IURD
romana. Júnior concluiu dizendo: Nós somos um exército, a gente é como um
soldado que 'tá sempre pronto p'ra batalha e eu 'tou muito feliz por poder 'tar
participando dessa missão.
Considerações finais
Diversos estudos sociológicos e antropológicos já salientaram que, embora a
maioria dos brasileiros emigrados se defina como católica, o nível de
pertencimento que estes apresentam em relação à Igreja é mínimo, esporádico ou
simplesmente inexistente, ao contrário dos evangélicos (Rodrigues 2012).
Com base nas pesquisas etnográficas que realizámos no período de novembro de
2010 a abril de 2011, podemos afirmar que, em Itália, sem contar com a presença
de turistas e visitantes esporádicos, dentre as instituições religiosas, sejam
elas católicas ou evangélicas, a que mais consegue reunir fiéis brasileiros de
maneira regular é a IURD-CCSS. Esta realidade é um dos reflexos dos profundos
impactos sociais que a transnacionalização do protestantismo brasileiro, na sua
vertente pentecostal, promove mundo afora, como é o caso aqui abordado da
capital italiana, sede da histórica e tradicional Igreja Católica romana.
Ligando o Brasil e a Itália através da esfera religiosa, no contexto do
transnacionalismo protestante-pentecostal, neste artigo discutimos o caso da
Igreja Universal do Reino de Deus em Itália, onde atua com o nome de Chiesa
Cristiana dello Spirito Santo. Foi dada ênfase ao seu forte proselitismo e
estratégia de implantação em Itália e à sua relação com os imigrantes,
brasileiros e de outras minorias étnicas, e com os nacionais italianos. A
abordagem antropológica foi feita no contexto da problemática da diáspora
brasileira e da reverse mission, dois fenómenos muito importantes e de grande
interesse para as ciências sociais. Por isso, são importantes e necessários
mais estudos sobre as especificidades do fenómeno da diáspora brasileira /
pentecostalismo noutros países onde haja uma expressiva presença de imigrantes
brasileiros para, dessa forma, poder compreender melhor as inúmeras interfaces
que tal fenómeno apresenta nas esferas religiosa, política, económica, social e
demográfica no mundo contemporâneo.