Os usos da narrativa futebolística portuguesa em Maputo
Este trabalho resulta de uma coleção de momentos etnográFICOS que, dado o seu
caráter esparso, é neste artigo apresentada de forma sintética e em diálogo com
dados de outra natureza. A observação decorreu durante dois períodos, em 2006 e
2008. Neste segundo período, a pesquisa etnográfica foi coordenada no terreno
por Nuno Barbosa, a quem devo um agradecimento especial. Este artigo, ao
contrário de outros presentes neste dossiê, centra-se no consumo do desporto
enquanto elemento de uma cultura popular urbana e não na sua prática.
Estudar o futebol e a emigração
O estudo da relação entre futebol e emigração pode ser interpretado como uma
continuidade da análise da relação entre futebol e nação. Inúmeros estudos têm
prosseguido esta linha de inquérito, exemplificando as formas como o futebol
tem acentuado e reproduzido identidades nacionais.[1] Neste sentido, os
emigrantes, representando uma espécie de nação em movimento, seriam portadores
dos traços que identificam uma cultura nacional, distinta das outras culturas
com que se relacionam nos países de acolhimento. O consumo do futebol do país
de origem tem o potencial de surgir como mais uma marca da singularidade
nacional, confirmando este laço como elemento matricial das vidas de um grupo
de indivíduos, agregados em comunidade. O futebol, como mecanismo de
identificação e representação, encontrar-se-ia ao lado de outro conjunto de
referentes culturais, onde se incluem aspetos tão diversos como a tradição
gastronómica, a reprodução de uma cultura popular tradicional, a comemoração de
dias festivos ou a constituição de associações de índole nacional ou regional.
O domínio daquilo que designo por narrativas futebolísticas confere a
possibilidade de representação de entidades definidas nacional, regional ou
localmente. A relação destas narrativas com a sociedade e a história encontra-
se para além, no entanto, das fronteiras que delimitam esta função de reforço
identitário.[2] Norbert Elias, ao enunciar a existência de um processo de
desportivização (Elias 1992: 192), estabeleceu uma ligação causal entre o
advento das práticas desportivas modernas e um conjunto de transformações
estruturais: o crescimento da divisão social do trabalho, do qual decorria
determinada estratificação social, o incremento da centralização do Estado, o
aumento das interdependências sociais e, por fim, o surgimento de práticas de
lazer, transformadas na substância de culturas populares urbanas em processo de
generalização. A conjugação destes elementos explicaria a emergência de
desportos modernos com regras codificadas e universais que proporcionariam o
encontro entre equipas de diferentes proveniências.
A aptidão representativa das narrativas futebolísticas, como meio público e de
simbolizar entidades diversas, concorre para ocultar a diversificação das suas
funções e usos estratégicos. Para compreender estes usos é fundamental
considerar estas narrativas como uma forma social própria, meio de
organização de um stock de conhecimento social (Berger e Luckman 1967: 41)
específico, acumulado por grupos de indivíduos de acordo com as
particularidades do seu percurso e padrões de socialização. Em termos
genéricos, por exemplo, este conhecimento específico tem sido acumulado e
reproduzido mais por homens do que por mulheres. Em determinados contextos, as
narrativas atravessam com facilidade as fronteiras que definem uma estrutura de
classes, noutros, são marcadamente reproduzidas por estratos da população
socialmente localizados. Uma das características deste stock de conhecimento
social específico é a sua capacidade de se transformar num repertório de
interação social (Domingos 2009). A narrativa, forma de organização do
conhecimento que beneficia da estrutura sequencial e recorrente das competições
desportivas, modo de acumulação contínua de conhecimento, tem a propriedade de
um material de interação (Goffman 1983: 11), dispositivo de comunicação e
apresentação individual. O seu valor de uso, desigual em função dos indivíduos
e grupos que a manipulam, remete para mercados de práticas contextuais. As
narrativas futebolísticas participam em processos de ritualização social,
vertente de uma cultura popular urbana, com uma dimensão performativa
específica; são um meio de participação social e de sociabilidade e criação de
laços.
O papel das narrativas futebolísticas cunhadas nacionalmente num quadro
migratório, como em outros quadros históricos e sociais, extravasa a função de
representação nacional que é mais visível enquanto expressão consciente de uma
identidade. Os seus usos sociais quotidianos sugerem, no entanto, outras
lógicas de causalidade: misturam-se com condições de existência particular, com
a inserção dos indivíduos no contexto produtivo local, aspeto primordial da
definição formal e informal da condição do imigrante, com a distribuição
desigual de outras propriedades individuais e coletivas, como o capital
educacional ou cultural. A relação da narrativa futebolística com estas
condições contextuais garante-lhe determinado valor num mercado de consumos e
de lazeres alargado, o que remete para a sua integração numa conceção lata de
estilo de vida, eixo de uma situação social delimitada e também do modo como os
indivíduos se concebem e imaginam a sua posição em determinado contexto social.
Como base do estabelecimento de relações sociais, a narrativa futebolística é
um recurso quotidiano com um valor variável.
Comunidades em construção
Em março de 2008 o presidente da República portuguesa Aníbal Cavaco Silva
visitou Moçambique. A antiga colónia portuguesa é um dos países mais pobres do
mundo. Os dados do relatório de 2010 que apresenta o índice de desenvolvimento
humano publicado pela ONU colocavam Moçambique no 165.º lugar, num conjunto de
169 nações. O país tem taxas de mortalidade altas e uma esperança de vida
reduzida, números para os quais contribuiu a prevalência de doenças como a sida
e a malária. Conquistada a independência em 1975, Moçambique atravessou uma
dramática guerra civil que apenas findou em 1992. Em 1990 o governo de partido
único de tendência socialista deu lugar a um regime democrático, até à
atualidade liderado pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). A
economia centralizada passou nos anos 90 a abrir-se ao exterior, iniciando uma
fase geral de liberalização e internacionalização apadrinhada e coordenada por
instituições internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário
Internacional.[3]
No site criado propositadamente para acompanhar a visita presidencial havia uma
entrada dedicada à comunidade portuguesa, com os representantes da qual Cavaco
Silva se encontraria.[4] Como noutras viagens de Estado, o presidente
português, em articulação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e
respetiva Secretaria de Estado, esforçou-se por realçar a existência de uma
comunidade de portugueses, o que provava mais uma vez a vocação diaspórica de
um povo, tanta vez relacionada com esse momento fundador que foi a gesta dos
descobrimentos. Esta comunidade portuguesa, como todas as outras espalhadas
pelo mundo, representava o país, promovendo a língua e as características de
uma cultura nacional, tão dificilmente mensuráveis, mas que o Estado estava
disposto a preservar e a reproduzir (Melo e Silva 2009: 40-41). As Comunidades
Portuguesas, como notou o referido site, são verdadeiros embaixadores de
Portugal e primeiro garante da defesa e afirmação da cultura lusa além-
fronteiras.[5]
O estatuto de Moçambique como ex-colónia portuguesa tornava algumas destas
características culturais lusas menos relevantes neste processo de construção
coletiva. A língua, marcador nacional por excelência, perdia relevância neste
contexto onde o português, apesar de falado por uma minoria da população
(Firmino 2002) era desde 1975 o idioma oficial. A língua e o passado histórico
comum juntavam todos os países de uma comunidade lusófona, organizada deste
1996 na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Na intervenção
dirigida aos moçambicanos, Cavaco Silva resumiu a base desta relação lusófona:
Estamos unidos por laços de afeto e de proximidade histórica e cultural muito
particulares, partilhamos um importante património com outros seis Estados
soberanos, que é o da língua portuguesa, e queremos potenciar ainda mais esta
vantagem estratégica, cada vez mais reconhecida a nível global.[6] Mais tarde,
já durante a estadia em Moçambique, acrescentaria: Quando pensamos em
interesses estratégicos que são comuns pensamos logo na CPLP.[7]
A vantagem estratégica facultada pelos insondáveis desígnios da história devia
agora traduzir-se noutras áreas de atividade; segundo Cavaco Silva: Estou
empenhado, tal como as delegações que me acompanham, em contribuir para um novo
ciclo de cooperação económica e empresarial entre os dois países.[8] O
presidente da República, como relatou a imprensa, fez-se acompanhar nesta
visita por quatro ministros, dois secretários de Estado, deputados e
representantes de 45 empresas, que incluíam os principais investidores
portugueses em Moçambique: os bancos Millennium-BCP, CGD e BPI, a EDP e a Galp
Energia, as Águas de Portugal, as construtoras Teixeira Duarte e Soares da
Costa, a Visabeira, os operadores turísticos TAP, Grupos Pestana e Amorim. O
investimento português em Moçambique tem crescido de forma assinalável nos
últimos anos, sobretudo nos setores da banca, energia, telecomunicações,
cimento e construção, distribuição de água e turismo (Matos 2009: 177). O papel
estratégico da visita presidencial foi vincado pela realização de um seminário
económico, promovido pela Aicep Portugal Global, Agência para o Investimento e
Comércio Externo de Portugal, vocacionada para a globalização da economia
portuguesa e a promoção da imagem do país, organizando campanhas de marketing
internacional sob a expressão Marca Portugal.
Uma comunidade portuguesa?
Assumindo-se que a existência de uma comunidade implica a partilha por um
conjunto de indivíduos de determinadas particularidades objetivas e subjetivas
suficientemente relevantes para justificar a operacionalidade do próprio termo,
os dados sobre os indivíduos que formavam a comunidade portuguesa em Maputo
pareciam expor uma contradição entre a proclamada imagem de um grupo homogéneo
unido por uma cultura nacional e a diversidade de atributos e experiências
históricas que caracterizavam os seus membros. O site da presidência anunciava
a presença de 11 mil portugueses em Moçambique. Mais de metade, cerca de seis
mil, havia nascido no território, e a maior parte nunca terá ido a Portugal;
apenas 3845 eram naturais do país. Dos restantes nacionais, destacavam-se os
547 que haviam nascido na Índia mas que possuíam passaporte português. Segundo
os dados cedidos pelo Consulado Português em Maputo referentes a junho de 2006,
o universo de 10.279 portugueses registado, dos quais 655 com dupla
nacionalidade, era relativamente masculinizado (56,8%) e urbano (89%
encontrava-se em Maputo).[9] Em recente e inédito artigo sobre a população
portuguesa em Maputo, Elizabeth de Matos sugere que os números oficiais ficam
aquém da realidade, avançando a autora com a cifra de 30 mil indivíduos (Matos
2009: 164). Algumas razões são adiantadas para explicar a discrepância. Serão
sobretudo os imigrantes deslocados recentemente, em especial os beneficiários
das facilidades concedidas pelas leis de abertura ao investimento estrangeiro,
aqueles que maioritariamente estão inscritos no consulado.[10] Outros
portugueses, apesar de o Estado moçambicano o proibir, mantêm passaporte dos
dois países, mas não se registaram. Por fim, haverá em Moçambique imigração
constituída por indivíduos com problemas legais e criminais em Portugal,
condição pouco compatível com a denúncia oficial da sua presença (Matos 2009).
Incluídos ou não no número de cidadãos que se encontram nesta situação perante
a lei, há em Maputo vários portugueses que vivem na margem de uma
representação oficial da nacionalidade. Em 2006 conheci vários destes homens,
dependentes de negócios duvidosos e com uma existência precária, muitas vezes
partilhada com mulheres moçambicanas. As condições da sua vinda para Moçambique
enunciavam, por si só, uma narrativa sobre a sua relação conflitual com
Portugal, onde deixavam dívidas, o fantasma do desemprego ou relações
familiares desestruturadas.
No universo da população que passou a ser considerada portuguesa na sequência
da lei da nacionalidade aprovada depois da independência das antigas colónias
nacionais, e que consagrou o critério jus sanguinis em detrimento do jus soli,
165 mil indivíduos regressaram à antiga metrópole, 20 mil permaneceram em
Moçambique, rumando parte substancial dos restantes 60 mil para a África do Sul
e para a antiga Rodésia de Ian Smith, hoje Zimbabué (Matos 2009: 164). Neste
contexto diverso, a separação entre os novos e os velhos portugueses em
Moçambique será, como notou Elizabeth de Matos, uma das mais significativas.
Entre estes últimos impera uma débil identificação com Portugal, país que em
muitos casos não conhecem ou conhecem mal: consideram que Moçambique é a sua
terra. Este afastamento não implica que a origem portuguesa e referentes de
identificação nacional não sejam utilizados como elementos distintivos no
interior da estrutura social local.
Os novos imigrantes chegam sobretudo por razões profissionais (Matos 2009: 166-
167), viagem facilitada pelas leis de enquadramento do investimento
financeiro e da circulação de trabalhadores acima mencionadas. A maior parte
não tem laços anteriores e vem com contratos a termo e a ideia de permanecer
apenas por uma temporada. Alguns acabam por ficar. Outros dos imigrantes mais
recentes regressam da África do Sul[11] ou do Zimbabué, locais onde a situação
política e económica se lhes tornou desfavorável. Estes últimos regressam para
ficar e não pensam voltar a Portugal, dado que, como os velhos portugueses,
têm menos afinidades com o país.
A população portuguesa em Moçambique está assim marcada por experiências
históricas diversas, por uma relação com Portugal e Moçambique diferenciada,
assente em distintas naturalidades e mobilidades geográficas, e por
experiências geracionais díspares.
Uma comunidade lusófona?
A diversidade que caracteriza as experiências dos portugueses em Moçambique não
invalida, no entanto, que entre portugueses e moçambicanos se produzam
representações que parecem desenhar a projeção de uma comunidade. O trabalho de
Elizabeth de Matos (2009), baseado num número elevado de entrevistas realizadas
a portugueses e moçambicanos a viver em Moçambique, revela que ser português
é uma condição percebida por intermédio de várias categorias, destacando-se, a
este propósito, aquela que remete para o passado colonial. Os portugueses
reconhecem que a relação com os moçambicanos é ainda muito influenciada pelas
memórias vividas da opressão colonial, unificadas por um discurso oficial,
reproduzido em discursos, pelos media e pela escola. Mas acrescentam que certa
imagem negativa resulta também da sua posição profissional e social, a de uma
minoria privilegiada num contexto de enorme pobreza (Matos 2009: 169). Quase
metade dos portugueses entrevistados por Elizabeth de Matos afirma sentir
racismo por parte dos moçambicanos (2009: 170), que, por sua vez, se queixam
dos portugueses pelas mesmas razões. Apesar de reconhecerem o seu impacte na
sociedade moçambicana, nomeadamente cultural (2009: 173), os moçambicanos
entrevistados continuam a ver o português como o colonizador (Matos 2009). Mais
do que isso, 65% consideram que os portugueses os veem como indivíduos
inferiores, reproduzindo modos de categorização que inevitavelmente relembram
velhas formulações coloniais: preguiçosos, pouco inteligentes, incompetentes
(2009: 174-175). Estas impressões assentam em experiências quotidianas
práticas, por exemplo em lojas exploradas por portugueses, mas também em
observações sobre as relações utilitárias dos portugueses com as mulheres
moçambicanas (2009: 174). Este facto distinguiria, aliás, o comportamento dos
portugueses do de outros brancos em Moçambique. A autora conclui reconhecendo
que entre portugueses e moçambicanos persiste um regime de separação. O
fechamento social dos portugueses, mais evidente naqueles que chegaram há pouco
tempo (2009: 171), reforça um tipo de representação estereotipada sobre o outro
e a permanência de uma vincada desconfiança.
A fragilidade das análises que tendem a reduzir as relações de poder a uma
dualidade nacional, que quase sugere uma espécie de racismo intrínseco, é
percetível tanto nas análises que confinam as relações de poder à expressão de
um confronto entre comunidades nacionais, como naquelas que, eliminando o poder
da equação, sustentam a agregação daquelas unidades comunitárias numa nova
unidade cultural, base de uma comunidade transnacional. Em Moçambique, a
condição nacional, forma de nomeação corrente, sintetiza complexas relações de
poder. Os portugueses foram os autores visíveis e nomeáveis de um sistema de
dominação que lhes concedia por meios legais e ilegais uma supremacia sobre as
populações locais. A experiência colonial de desigualdade, além de permanecer
em sentimentos e discursos contemporâneos, parece confirmar-se pela situação
atual da maioria dos portugueses na sociedade moçambicana.
Os dados sobre a inserção profissional da população portuguesa denunciam uma
posição social relativamente confinada. Entre trabalhadores qualificados do
setor da prestação de serviços e na indústria até aos mais recentes
trabalhadores por conta própria, em especial nas áreas do comércio, transportes
rodoviários, hotelaria, restauração, pescas e atividades ligadas à agricultura,
os portugueses vivem em Moçambique, de forma genérica, uma situação
privilegiada.[12] Dos 10.279 recenseados no consulado de Maputo em 2006, 867
eram menores em idade escolar, 1374 eram estudantes e 211 eram reformados. Na
população ativa havia 1287 indivíduos na categoria de profissões científicas
técnicas e liberais, 847 na de pessoal do comércio e vendedores e 157
desempenhavam tarefas administrativas.[13] Significativamente, não havia
registo de portugueses na categoria de pessoal dos serviços de proteção e
segurança, pessoais e domésticos, existiam muito poucos a exercer profissões
operárias, apenas oito indivíduos na categoria de trabalhadores de produção e
indústrias extrativas, transformadoras e condutores de máquinas e apenas 75 em
atividades de agricultura e trabalhos agrícolas.
Esta situação sugere uma posição social dominante e a confirmação de algumas
das representações herdadas do tempo colonial. As representações sobre o
português remetem para uma situação de privilégio, assente no opressor passado
colonial, numa situação atual de minoria abastada e na sua condição de
branco, expressão fenotípica da hegemonia de relações de poder antigas e
sinal da permanência da raça como elemento de explicitação da lógica de
estratificação. Outras variáveis de estatuto social podiam ser avançadas no
contexto destas representações dominantes, revelando distinções mais finas,
complexificando, mas não anulando, a força destas noções dominantes. Estas
representações hegemónicas traduzem-se de forma particular nas interações
quotidianas, sobretudo porque apenas em espaços de partilha determinados por um
fechamento social a normal assimetria das relações de poder entre moçambicanos
e portugueses é atenuada. Desta forma, impõe-se em termos gerais, em espaços
públicos ou privados, uma ordem da interação penalizadora para os moçambicanos,
formalmente injusta, produtora de inseguranças, para a existência da qual os
traços fenotípicos continuam a ser elementos preponderantes. Esta subordinação
pública é muitas vezes invertida no contexto do que Erving Goffman designou
como as regiões dos bastidores (Goffman 1993 [1959]), ou no que James Scott
nomeou hidden transcripts (Scott 1990), espaços sociais protegidos onde
finalmente se tornava possível comentar crítica e abertamente, sem
penalizações, um sistema de relações de poder. Para quebrar a ontologização
nacional sugerida pela análise, é de assinalar que as mesmas lógicas se
manifestam em contextos de relações de poder muito assimétricas em que os
portugueses não estão presentes. É assim, em situações públicas e privadas, nas
relações entre os moçambicanos mais pobres ' quase todos os moçambicanos ' e
outros estrangeiros, brancos e abastados, como também o é entre aqueles
moçambicanos e as novas classes dominantes locais, negras, mestiças e sempre
abastadas, que reproduzem práticas socialmente codificadas estruturadoras das
relações de poder.
Um estilo de vida nacional?
A posição social dos portugueses em Maputo reflete-se nos seus estilos de vida
e em práticas de fechamento que apenas parcialmente podem ser atribuídas a uma
partilha nacional. Pedro Soares dos Santos, administrador da Jerónimo Martins,
proprietária de várias redes de grande distribuição, entre as quais os
supermercados Pingo Doce, dizia recentemente que o seu grupo não investia em
Angola e Moçambique, sobretudo em Moçambique, porque nestes países não havia
consumidores (Expresso, caderno Economia, 13 / 12 / 2010, p. 14). Com esta
afirmação assinalava a quantidade insuficiente do tipo de consumidor necessário
para viabilizar uma rede de retalho com determinadas características. A maior
parte da população de Maputo abastece-se em mercados locais, mais ou menos
informais, que caracterizam a cidade, em especial os seus subúrbios. Por lá
circulam todo o tipo de produtos, mas sobretudo os de primeira necessidade. É
ainda nestes contextos de consumo que se reproduzem inúmeras práticas de
encontro e de lazer, base de determinados estilos de vida. Os consumos e
estilos de vida da grande maioria dos portugueses em Maputo, refletindo a sua
posição social, contrastam de forma radical com os hábitos e as rotinas atrás
definidos. Grande parte desta população habita os bairros privilegiados
concentrados na parte este de Maputo: Polana, Sommerchild e o mais central
Bairro da Coop. Nesses contextos, coabitam com outros membros desta classe
dominante outros estrangeiros e a florescente classe alta moçambicana, produto
das prioridades económicas do país. Os portugueses frequentam habitualmente
espaços públicos situados na mesma área ou na parte mais cara da baixa da
cidade. É fácil encontrá-los em restaurantes dispendiosos para o moçambicano
médio onde a proporção de indivíduos brancos aumenta significativamente, como
são os casos do Monte Alentejano, a Taverna, a Cristal, o Piri-Piri, o Costa do
Sol, o Escorpião ou o Cegonha, ou em cafés como o Nautilus ou o Surf, ou em
locais de convívio relativamente confinados como o Jardim dos Namorados, ou em
bares como o Kampfumo, na estação de caminho-de-ferro, no Eagles, no Rua d'Arte
ou no Mundo's, ou ainda em clubes como o Náutico e o Naval.
Nos que chegaram mais recentemente nota-se uma maior distância em relação aos
hábitos de consumo dos moçambicanos. Muitos destes portugueses, apesar do
preço mais elevado, preferem comprar produtos nacionais nos supermercados e
muito raramente se arriscam nos mercados de rua. Mesmo nos supermercados
prefere-se Luso, Mimosa ou Quinta da Aveleda ao invés de marcas locais ou sul-
africanas, como Namaacha, Clover ou Nederburg. A maioria desta população viaja
em transporte particular ou táxi, evitando a rede de chapas, transportes
públicos explorados por privados que atravessam a cidade. Os seus filhos são
educados em escolas privadas, destacando-se a este propósito a Escola
Portuguesa em Maputo, criada em 1999 no âmbito de um acordo de cooperação.
Quando necessitam de assistência médica dirigem-se a clínicas privadas; quando
o caso é mais grave rumam até à vizinha África do Sul. Como é usual nas classes
média e alta locais, a maioria dos portugueses tem empregadas domésticas e
bábás que limpam, cozinham e tomam conta das crianças e quase sempre
contratam serviços de segurança, segmentos da oferta de emprego cruciais para a
grande reserva de mão de obra suburbana.
A diversidade histórica de experiências da população portuguesa junta-se ao seu
genérico confinamento de classe como fatores de explicação do reduzido número
de lugares de encontro comunitário institucionalizado. A Confraria do
Bacalhau, espaço reservado a sócios, é um dos seus poucos lugares de encontro.
Em Maputo só existe mais uma associação de portugueses, a Associação
Portuguesa de Moçambique, com uma atividade pouco saliente.[14] Não se
reproduz em Maputo a experiência de constituição de locais de encontro coletivo
que caracterizou a imigração portuguesa (Melo e Silva 2009), bem com o
quotidiano dos colonos na então cidade de Lourenço Marques (Domingos 2009).
Imigrantes e colonos em processo de mobilidade trouxeram hábitos importados dos
contextos de origem, valorizados enquanto estratégias de sobrevivência e de
equilíbrio existencial.
Como evidenciam os artigos deste dossiê, o associativismo estabelece-se também
como um dos eixos de reprodução de uma narrativa futebolística portuguesa em
várias partes do mundo, tal como havia sucedido em Moçambique durante o
período colonial. Os novos imigrantes portugueses em Maputo chegam, em termos
genéricos, ou com pouca experiência associativa, ou com uma experiência
associativa distinta. A sua adaptação ao novo contexto, bem como aliás a sua
vida no local de origem, dependem menos dos recursos e da ativação de uma rede
de relações comunitárias centrada em associações de índole nacional, regional,
desportivas ou recreativas, do que de outro tipo de capitais, decorrente da
posse de qualificações educacionais e sobretudo de contactos profissionais
estabelecidos já em Portugal. A este fraco associativismo acrescenta-se a quase
invisibilidade dos momentos de celebração nacional. Só o 10 de Junho,
oficialmente organizado pelas autoridades portuguesas locais, merece uma
comemoração. O Dia de Portugal inclui uma cerimónia organizada pela embaixada e
tem normalmente como ponto alto um concerto de um artista português. Em 2006,
quando me encontrava em Maputo, a artista convidada foi a fadista Mariza. Esta
comemoração foi oferecida à comunidade portuguesa, dir-se-ia aos seus
representantes mais notáveis, mas também às forças locais da cidade. O preço
do bilhete do espetáculo era de 950 mil meticais, ou seja, na altura, quase
35 euros, três quartos do salário mínimo nacional, mais ou menos o que recebe
por mês uma empregada doméstica por trabalhar nove horas por dia, de segunda a
sábado. À parte destas comemorações, datas como o 25 de Abril e o 5 de Outubro
passam despercebidas.
Estas formas e estilos de vida tendem a criar um distanciamento entre os
portugueses e a maior parte da população local. No caso daqueles que chegaram
há menos tempo, a própria fonética da língua portuguesa acentua a já evidente
diferença social. O fechamento social da maioria dos portugueses ' dir-se-iam
os pequenos fechamentos sociais, dada a sua fraca dinâmica coletiva ' é marcado
por um conjunto de práticas em relação ao trabalho, à educação e à saúde, aos
percursos urbanos e aos lazeres, resultantes de um lugar de classe que, em
determinadas ocasiões, se manifesta pela demarcação de uma pertença nacional.
Nestes contextos, a identificação nacional atua como um meio de distinção
social. Questionemos, pois, o papel do futebol nestas estratégias de fechamento
e relacionamento sociais.
A narrativa do futebol português como forma de contraste social
O aspeto mais relevante dos usos sociais da narrativa do futebol português em
Maputo é sem dúvida o facto de não serem os portugueses aqueles que mais
intensamente exploram a sua manipulação quotidiana. Se o futebol é um dos
sinais mais evidentes de uma presença atualizada de Portugal na capital de
Moçambique, perante o desinteresse geral sobre os assuntos da antiga colónia,
isso deve-se aos adeptos moçambicanos (Domingos 2005-2006). Tal fenómeno
assenta fundamentalmente na identificação local com os clubes portugueses,
núcleos fundamentais da reprodução regular desta narrativa em Maputo, eixos de
memórias e de acumulação de conhecimentos. A vitalidade revelada pela narrativa
do futebol português no contexto da cultura popular urbana em Maputo é
reconhecível pelo acompanhamento prestado pelos media: as transmissões semanais
de jogos portugueses pela televisão pública moçambicana (TVM), acrescentadas
aos jogos mostrados pela RTP África, os relatos na rádio, as notícias nos
jornais, a circulação de jornais desportivos entre os moçambicanos ' ao
contrário da outra imprensa portuguesa e apesar do seu preço elevado. Nas ruas
de Maputo é comum observar indivíduos ostentando as camisolas dos clubes
portugueses. Quando o Benfica visitou Moçambique em 2006, as manifestações
públicas, no aeroporto, nas ruas, nas escolas, no estádio, assinalaram a
extraordinária popularidade do clube português (Domingos 2005-2006).
Reduzida à sua função de instrumento de representação comunitária, a narrativa
futebolística portuguesa parece comprovar, pela sua pujante presença em Maputo,
a persistência de uma presença cultural portuguesa, herança do período
colonial, elegível como símbolo de uma condição lusófona. Noutra perspetiva,
como algumas opiniões assinalaram,[15] o apreço popular pelas ocorrências da
narrativa do futebol português constitui-se como um sinal de neocolonialismo e
de falta de autoestima dos habitantes da nova nação, que passivamente aceitam
esta forma de aculturação. Estas interpretações ignoram, no entanto, as
utilizações desta forma social específica enquanto eixo de práticas quotidianas
e o seu poder na criação de laços sociais, de rotinas e de performances
retóricas e corporais (Domingos 2009). Durante o período colonial, a hegemonia
da narrativa metropolitana na cultura popular da colónia de Moçambique, não
apenas entre os colonos e seus descendentes, deveu-se ao seu papel particular
na formação de laços sociais que acompanhou o processo de estruturação urbana
realizado num meio colonial em transformação (Domingos 2005-2006).
Passados 31 anos sobre o fim do colonialismo em Moçambique, o meu domínio desta
narrativa permitiu, em inúmeras interações, comprovar o modo como inúmeros
habitantes da cidade de Maputo a manipulam com agilidade. Foi assim em cafés,
em conversas com vendedores, em lojas, em mercados de rua, com jovens
estudantes, com velhos habitantes da cidade. A narrativa futebolística
portuguesa revela-se um idioma social vivo, usado nos tempos de lazer, mas
também em contextos laborais, familiares ou escolares.[16] Tal como a língua
portuguesa em Maputo, utilizada como fim prático de comunicação, e estando
sujeita a um mercado linguístico que a coloca em competição com outras línguas
e idiomas, se submete aos usos que dela fazem, sendo assim apropriada e
reorganizada, também a narrativa futebolística portuguesa, idioma social,
sobrevive pelos seus usos práticos, sendo objeto de inúmeras apropriações. As
utilizações quotidianas das narrativas futebolísticas portuguesas por parte dos
moçambicanos convivem com as representações negativas da população do antigo
colonizador. Quando se identificam com os clubes portugueses, eixos a partir
dos quais os indivíduos se situam em relação à narrativa e núcleo das suas
retóricas e posições, os moçambicanos não parecem imaginar um referente
nacional. Desnacionalizados, estes clubes parecem afirmar-se simultaneamente
como entidades supranacionais, pertencentes a uma cultura popular global.
Muitos adeptos moçambicanos conhecem as ocorrências de diversos campeonatos de
futebol europeus, o que demonstra a circulação transnacional das narrativas
futebolísticas. O mesmo processo de mobilidade do conhecimento é visível
noutras dimensões de uma cultura popular globalizada, desde as novelas
brasileiras à música ou ao cinema americanos, mas também no contexto de
globalizações mais locais, decorrentes, por exemplo, da influência da cultura
popular sul-africana ou da importância, localmente significativa, do cinema
indiano. Como outros elementos de uma cultura popular globalizada, o futebol
português, sedimentado nas preferências clubistas locais desde o momento em que
alguns naturais de Moçambique se destacaram no então campeonato metropolitano,
serve as práticas e a imaginação dos adeptos moçambicanos.
Em suma, os significados criados por esta narrativa, decorrentes de usos que se
expressam em manifestações de aprovação ou desaprovação, argumentos, opiniões e
emoções, são, em grande medida, independentes dos referentes nacionais aos
quais estão associados e relativos a factos e ocorrências inerentes ao universo
intrínseco da narrativa, da sua ordem factual, sempre disputada retoricamente.
A faculdade representativa da narrativa não desaparece, apenas se complexifica.
O efeito de representação depende do contexto de interação e performance, o que
remete para uma diversidade de ordens sociais que se encontram bastante para lá
de uma constante remissão para o imaginário nacional. A interpretação dos usos
concedidos pelos moçambicanos à narrativa futebolística portuguesa,
contrariando explicações fundadas na simples representação nacional, pode
enveredar, no entanto, por uma uniformização da condição de moçambicano. Para
lá da assinalada hegemonia masculina, quem são os moçambicanos que mais
manipulam esta forma social específica? E por que razão o jogo parece ser mais
importante para eles do que para a população portuguesa em Maputo?
Narrativas futebolísticas e modernidade
Para se avaliar o peso da narrativa do futebol português no contexto da
formação de estilos de vida em Maputo na atualidade é necessário examinar mais
atentamente as suas condições sociais e históricas de produção. No contexto
colonial, o surgimento de práticas e consumos desportivos modernos assumia-se
com um elemento de uma cultura popular urbana e um símbolo de uma era moderna.
[17] Foi assim que, mesmo sob um sistema de discriminação institucionalizado
(Zamparoni 1998), as populações dos subúrbios de Lourenço Marques, de modo mais
ou menos organizado, desenvolveram autonomamente os seus clubes e competições.
Por outro lado, o processo de desportivização em Moçambique, em diálogo com as
transformações históricas no sistema colonial, deu origem a um conjunto de
dinâmicas bastante particulares, nomeadamente criando um espaço de mobilidade
social para atletas do subúrbio pobre. Esta possibilidade foi reforçada pelas
conquistas dos pioneiros deste processo ' Matateu, Coluna, Hilário ou Eusébio
', que rapidamente se tornaram, primeiro, no mundo do futebol dos colonos,
depois, nos clubes metropolitanos, vedetas de um espetáculo fortemente
mediatizado, figuras de uma cultura popular alargada. A sua participação
destacada na então narrativa metropolitana reforçou a disseminação de um
conhecimento específico sobre os clubes, os jogadores, os resultados e as
performances. Tal informação constituiu-se como matéria de rituais sociais
reproduzidos entre os habitantes da cidade. Apesar de o desporto se ter
instituído em Moçambique como um instrumento de múltiplas discriminações,
vincando o desígnio do sistema colonial (Domingos 2010), a lógica
profissionalizante inerente ao processo de desportivização criou o seu espaço
de possibilidades objetivas, ampliado pelo contexto do colonialismo tardio, que
se traduziu de forma indelével na cultura popular urbana de Maputo. Os usos da
narrativa desempenhavam um papel de criação de laços sociais, num contexto de
multiplicação das interdependências, correlativo de uma maior especialização
social do trabalho, do conhecimento e das práticas de lazer.
A formação de narrativas futebolísticas durante o período colonial expressava o
advento de uma condição urbana. À margem da sociedade colona, foi entre as
populações mais urbanizadas ' as que viviam próximas do centro, aquelas cujo
quotidiano se relacionava de modo mais notório com um mercado de trabalho
formal, os que tinham maior mobilidade urbana, índices de educação mais
elevados, acesso à informação e contacto regular com os colonos ' que a
narrativa metropolitana se difundiu. A importância da narrativa metropolitana
para estes estratos da população é comparável à centralidade adquirida pelos
usos de outros elementos de uma condição urbana em constituição, que
expressavam modos de adaptação, manipulação e apropriação, e não um simples
mimetismo, e que se traduziam em consumos, práticas de lazer e formas de vestir
diversos.[18] Os usos da narrativa metropolitana constituíram-se como uma
dimensão distintiva do estilo de vida urbano de certa classe de habitantes da
cidade de Maputo. No contexto da sociedade colonial, o seu valor, como elemento
de distinção, não se comparava a outros consumos e práticas. As socia-
bilidades da elite colona assentaram na partilha de lazeres específicos, entre
os quais se encontravam a prática de desportos como a vela ou o ténis. Para
alguns elementos de camadas da pequena burguesia africana, numericamente
residuais, o futebol era preterido a práticas desportivas consideradas mais
civilizadoras, como a ginástica (Domingos 2009: 123-124). Ainda assim, no seio
da população que ia progressivamente habitando a cidade, entre a maioria dos
colonos e parte da população suburbana, o futebol estabeleceu-se como um esteio
crucial da sua experiência urbana.
Entre os grupos que ganharam uma preponderância social, política e económica
após a independência de Moçambique, precisamente entre camadas urbanas cujos
limites não são fáceis de definir com precisão, encontravam-se muitos
indivíduos para quem o futebol era uma presença regular na sua vida quotidiana;
muitos indivíduos conhecedores da narrativa do futebol metropolitano e que
iriam continuar a reproduzi-la, embora ela agora fosse portuguesa. À
semelhança de outros hábitos e lazeres típicos da vida urbana destes estratos
da população da agora cidade de Maputo, o uso da narrativa futebolística
permaneceu. Esta, como outras permanências, tendem a ser marginalizadas pelas
interpretações que centram os regimes de causalidade dentro das fronteiras da
história política. A identificação com a narrativa futebolística portuguesa não
emanava de uma imaginação nacional ou imperial, pois a grande maioria desta
população saudou o fim do colonialismo, mas dos vínculos emocionais e práticos
a clubes, jogadores, jogos e a toda uma memória social incorporada (Connerton
1999: 4-5), traduzida no quotidiano urbano em múltiplas interações diárias que
representavam e simbolizavam o advento de uma condição moderna, elemento
valorizado de determinado estilo de vida, dimensão de um habitus urbano. Na
cidade, o domínio da narrativa do futebol português tem a faculdade de criar um
contraste entre as vivências dos estratos da população que a utilizam e, não
tanto a maioria da população rural, mas sobretudo as populações suburbanas que
mantêm hábitos de vida mais influenciados pela sua origem rural.
No quotidiano da maioria da população portuguesa em Maputo, o consumo do
futebol exerce um papel marginal na consolidação de um estilo de vida cujas
fronteiras são delimitadas por outros hábitos, também definidores de uma
condição urbana, mas bastante mais restrita. O futebol não é condição de um
fechamento social, fenómeno em primeiro lugar dependente das práticas,
assinaladas anteriormente, que delimitam o estilo de vida de uma classe
privilegiada.
O elemento ocasional da narrativa portuguesa: a seleção nacional como elemento
de contraste
A mesma lógica de diferenciação atrás descrita foi visível num contexto de
consumo desportivo que, à partida, seria bastante mais indicado para demarcar a
representação nacional. Nos casos das grandes competições internacionais de
futebol, campeonatos europeus e mundiais, a faculdade de representação nacional
inerente à narrativa desportiva destaca-se, sem prejuízo dos seus usos enquanto
repertório da interação. Durante a realização do Mundial da Alemanha em 2006 e
do Euro 2008, disputado na Suíça e na Áustria, notou-se uma maior dinamização
dos portugueses em Maputo. Em alguns contextos, como no jogo entre Portugal e
Angola, na abertura do Mundial, adeptos portugueses juntaram-se no Eagles, bar
situado na baixa, propriedade de um português, munidos de camisolas, bandeiras
e cachecóis. Por altura do Europeu, na cervejaria Cristal durante o encontro
com a República Checa, a comunidade estava ainda mais demarcada. Todo o espaço
assinalava a presença de um conjunto nacional: multiplicaram-se as bandeiras,
os cachecóis e os equipamentos da seleção, num ambiente festivo. Os portugueses
viam o jogo nas mesas reservadas e, desde o passeio do lado de fora, dezenas de
moçambicanos olhavam para o ecrã da Cristal. Este tipo de manifestação pública
foi, no entanto, menos ocasional. Na maior parte dos casos, os portugueses que
decidiam ver o jogo fora de casa partilharam os espaços com os outros clientes,
apresentando poucos símbolos identificadores da sua condição nacional. Foi
assim no Jardim dos Namorados, situado na Polana, aquando da vitória de
Portugal sobre a Holanda nos oitavos de final do mundial, ou no restaurante
Mundo's, na ronda seguinte, contra a Inglaterra. O espaço privado parecia, no
entanto, ser o local preferido para os portugueses observarem os jogos, quase
sempre em reuniões de amigos, como sucedeu no Europeu de 2008 numa residência
na zona da Polana, onde 20 portugueses, trabalhadores da embaixada, da banca e
empresários, mas também alguns colegas de trabalho moçambicanos, se juntaram
para o jogo entre Portugal e a Turquia. Apesar de o futebol ser na ocasião o
motivo do encontro, estes grupos de amigos já se reuniam regulamente noutras
ocasiões. Os jogos da seleção pareciam ser momentos de celebração de
sociabilidades já estabelecidas, promovidas por amigos, colegas de trabalho,
familiares, e não para mobilizações coletivas fundadas na identidade nacional
ou na partilha regular dos usos da narrativa futebolística portuguesa, o que
revela o seu valor diminuto no quadro das relações sociais.
Uma narrativa disputada
Se mesmo em circunstâncias muito mediatizadas, em que o futebol servia de forma
direta a representação nacional, não se viu desenhar em Maputo uma comunidade
portuguesa, interessava questionar o modo como a narrativa futebolística
proporcionava determinadas representações aos adeptos moçambicanos. No dia da
meia-final do campeonato do Mundo de 2006, a propósito do jogo entre Portugal e
França, o jornal Notícias publicava um grande anúncio do Banco de
Desenvolvimento e Comércio de Moçambique e da Moçambique, Companhia de Seguros.
Ambas as empresas eram propriedade do banco português Montepio Geral. No
referido anúncio afirmava-se:
Esta noite os nossos corações vão bater forte em simultâneo. Não foi
Moçambique. Ficámos muito tristes. Depois queríamos Angola. Brasil,
Portugal. Todos nas meias. Não aconteceu. Ficou Portugal a
representar mais de 230 milhões de falantes de língua portuguesa,
onde nos incluímos nós, moçambicanos. Agora vivemos um sonho. Um
sonho do qual não queremos acordar. Até os grandes Eusébio e Coluna
dizem que é desta. Esta noite a seleção portuguesa não vai parar. Os
nossos corações vão sofrer e bater forte em simultâneo (Notícias 5 /
7 / 2006: 12).
O anúncio assumia uma preferência coletiva dos jovens moçambicanos pelos países
lusófonos. O nós lusitano, que reproduzia mais uma vez os usos de uma
retórica culturalista para perseguir objetivos de índole económica,[19] estava
longe, no entanto, de representar qualquer unanimidade. Uma carta de um leitor
do Notícias, Feliciano Bartolomeu Chilengue, relatava a sua experiência numa
das praças da cidade onde o município havia colocado ecrãs gigantes. O cenário
enunciava uma situação onde muitos não sabiam a quem apoiar, dados os laços de
irmandade que nos unem àqueles dois países, apesar de sermos de continentes
diferentes (Notícias, 19 / 6 / 2006, p. 15). O leitor criticava aqueles que
festejaram a derrota da seleção africana, justificando-o com a rivalidade
entre os dois povos (moçambicano e angolano). A sua perspetiva era evidente:
Se for para apoiar as seleções africanas devíamos apoiar também Angola, como
as outras, que isso vai dignificar o futebol do continente negro (Notícias,
19 / 6 / 2006, p. 15). O apoio às equipas africanas durante o Mundial de 2006
em Maputo foi evidente na opinião pública e sobretudo na opinião publicada.
Quando o Gana conseguiu passar à segunda fase da prova, o Notícias de Maputo
escreveu Gana coloca África nos oitavos de final (Notícias, 23 / 6 / 2006,
p. 26). A imaginação de um continente afirmou-se em inúmeros momentos em
conjunto com uma ideia de negritude. As equipas da África negra eram eleitas
em relação às do norte de África, embora estas últimas fossem preferidas, de
forma genérica, às de outros continentes. Este fator criava também uma
representação desterritorializada, já que a presença de atletas com origem na
chamada África negra em equipas não africanas acabava por se tornar num
critério de apreciação positiva dessas equipas, como foi visível no apoio
generalizado à equipa da França, expressão fenotípica da história colonial do
país, na final contra a Itália. Tal apoio culminou com a interpretação
compreensiva da famosa agressão do francês Zidane ao defesa italiano
Materrazzi, imediatamente justificada, em mensagens de telemóvel que circularam
poucos minutos depois do acontecimento, como uma razoável defesa da honra.
Era evidente que, por detrás destas representações dos vínculos continentais e
raciais, existia uma análise, mais ou menos elaborada, das relações de poder,
que quase sempre se repercutia no apoio aos fracos contra os fortes. Quando o
Gana se encontrou com o Brasil nos oitavos de final da prova o Notícias
anunciava a África unida contra o Brasil (Notícias, 27 / 6 / 2006, p. 22). A
seleção brasileira, equipa muito apoiada em Maputo, foi preterida por também
representar o poder no futebol. O discurso sobre o poder era quase sempre
enunciado por intermédio de opiniões sobre as arbitragens, acusadas de
deliberadamente prejudicarem os mais fracos, em especial as equipas africanas.
O jogo de representações era bastante mais complexo do que o anúncio
lusofonista da companhia de seguros Moçambique e do BDC parecia fazer crer.
O peso da representação de comunidades nacionais, continentais ou linguísticas,
eivadas de discursos sobre o poder, nos usos das narrativas futebolísticas
durante competições internacionais apresentava, porém, os seus limites. Sob o
discurso das nações e das pertenças, os adeptos usavam constantemente
argumentos de ordem estética e técnica para suportarem as suas preferências. A
atitude militante convivia com o reconhecimento do mérito e a consagração da
autonomia estética do próprio jogo. A preferência generalizada pela equipa
francesa em detrimento da italiana não revelava apenas a força da negritude,
mas também a importância do desempenho. Critérios semelhantes justificaram, na
noite do jogo entre Brasil e França, a inversão das preferências das dezenas de
pessoas que se reuniram no Jardim dos Namorados, convencidas pela arte do
futebol demonstrada pela equipa francesa e em especial por Zidane, o seu
número dez. Os usos da narrativa futebolística revelavam novamente um mundo de
rituais sociais, de performances retóricas e argumentativas que juntavam
opiniões sobre o mundo a interpretações sobre o jogo.
Conclusão
A proliferação de um discurso legitimador da existência de um conjunto de
comunidades contribui para ocultar a lógica das ações, práticas e
representações das populações que são inseridas dentro destes todos
comunitários. A construção destas comunidades, promovida institucionalmente,
realiza uma dupla ocultação. Por um lado, esquecendo a história, reifica e
reproduz, através de um processo de eufemização, categorias que recuperam
modelos de construção nacional e imperial. Por outro lado, oculta a relação
dos indivíduos com as estruturas sociais onde se encontram inseridos e que se
traduzem pela diversidade de posições na esfera das relações de produção, pela
diversidade de posse de capitais culturais e educativos e pelas relações destes
fatores com identidades de género, regionais, etc. Transforma-se a emigração
económica em diáspora cultural e o sistema de dominação colonial em herança
cultural. No quadro de um discurso culturalista, a história, a nação e as
comunidades lusófonas surgem como as oportunidades que justificam a existência
de planos estratégicos de natureza económica. Durante o Estado Novo, este
discurso justificou a manutenção da força colonial portuguesa em África,
projeto mais amplo de evidentes contornos económicos (Alexandre 1979; Clarence-
Smith 1985), fundado na exploração do trabalho indígena e na cobrança de
impostos, que se refletiu na formação de sociedades radicalmente desiguais e
com uma estratificação social racializada.
O estudo de um consumo cultural específico organizado por uma narrativa
futebolística portuguesa, elemento de uma cultura popular urbana com um
significado particular na história de Moçambique, possibilita desafiar estas
construções culturais comunitárias. O significado histórico desta narrativa,
apesar do seu referente nacional, empossa-a como um elemento de uma experiência
urbana dotada de uma autonomia funcional, apropriada por indivíduos colocados
em contextos sociais específicos que a usam como estratégia de relacionamento
quotidiano. A necessidade de desnacionalização desta narrativa futebolística
é comprovada pelo papel acessório que ela desempenha na vida da maioria da
população portuguesa em Maputo, cujos estilos de vida, recorrendo por vezes às
pertenças nacionais como forma de demarcação social, são marcados por um
fechamento assente em vivências típicas de uma classe privilegiada. Noutro
sentido, o uso destas narrativas por estratos da população moçambicana reproduz
uma experiência histórica de modernidade cuja base se situa no período colonial
e que, pelas faculdades atrás apontadas, se mantém como uma estrutura de
relação quotidiana.