Tornar-se noia: trajetória e sofrimento social nos usos de crack no centro
de São Paulo
Tornar-se noia: trajetória e sofrimento social nos usos de crack no centro
de São Paulo
Bruno Ramos Gomes* e Rubens de Camargo Ferreira Adorno*
*Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo,
Brasil; brunoramosg@uol.com.br
**Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo,
Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa Social em Saúde Pública, Brasil;
radorno@usp.br
Becoming "noia": trajectory and social suffering in the "uses
of crack" in the city centre of São Paulo
ABSTRACT
This text reflects on the trajectories of subjects of different ages who have
come to occupy specific areas of the historic city center of São Paulo, in
Brazil, around the use of crack. From the ethnographic observation made in the
last five years in "Cracolândia" and from reports of some of these
homeless people who make heavy use of crack, we intend to understand the
trajectories of users in the process of "becoming noia" and the
agency devices they use in their daily life seeking preservation and survival
in the places where drug use occurs, and dealing with the social suffering
resulting from this condition.
KEYWORDS: territories, crack, trajectory, social suffering, harm reduction.
O presente trabalho tem origem na experiência de um dos autores, Bruno Ramos
Gomes, que, na condição de ator social de uma ONG, conviveu nos últimos cinco
anos com usuários de crack na região conhecida como Cracolândia, parte do
bairro da Luz, no centro de São Paulo, e decidiu aprofundar o estudo do tema em
programa de mestrado em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP),
propondo-se exercitar um olhar etnográfico.
O estudo dessa região e dos usuários de crack da região central da cidade de
São Paulo tem sido alvo de pesquisas realizadas no âmbito do Liesp (Laboratório
Interdisciplinar de Pesquisa Social em Saúde) na instituição referida. Esse
texto foi produzido a partir de uma experiência de inserção no campo com a
contribuição de um olhar etnográfico. Buscou-se a sistematização da experiência
de campo que os autores possuíam de visita e abordagem a esse território, no
qual se produziram dissertações e teses que utilizaram a etnografia no campo da
saúde pública, como se encontra apresentado também em outro artigo desse
dossiê, que trata do tema das populações em situação de rua.
A partir dessa experiência inicial, os autores fizeram uma revisita ao campo,
motivados por recentes investidas policiais que se assemelharam a mobilizações
de guerra, com presença de cavalarias, carros blindados e inspeção policial
constante durante vários dias. Tais operações não têm conseguido remover os
usuários dessa área. A movimentação policial e o esforço de outras áreas do
governo municipal ' como agentes da assistência social, da saúde e fiscais da
vigilância sanitária, funcionários das companhias de energia elétrica, de gás e
saneamento ' têm exercido pouca influência no controle ou encaminhamento dos
noias (categoria nativa usada para identificar esses usuários) para
tratamento; o que vem ocorrendo é um deslocamento dos usuários dentro da mesma
área da cidade, como uma tática de avanço e recuo. Quando estabelecimentos são
fechados em uma rua, deslocam-se para algumas quadras adiante, permanecendo na
região os estabelecimentos por eles frequentados, como pequenos hoteis,
pensões, bares e casas de garotas de programa.
Importante destacar que a relação com as pessoas neste local aconteceu através
de idas a campo junto com agentes de redução de danos de uma organização não
governamental chamada Centro de Convivência É de Lei.
[1]
Este serviço mantém um tipo de relação de proximidade com os usuários que não
se insere no projeto governamental de requalificação da área, em que participam
os outros agentes da prefeitura. O distanciamento do aparato oficial
possibilita à ONG um acesso diferenciado aos usuários de crack. Este tipo de
acesso e o tipo de diálogo que permite estabelecer com eles serão discutidos
mais adiante no texto.
A Cracolândia na região central de São Paulo
De acordo com Silva, historicamente se percebe que a região hoje conhecida como
Cracolândia é desde o começo do século XX um espaço de passagem, de
possibilidade de acesso a locais mais desejados (1999: 35). A área da
Cracolândia encontra-se entre duas estações de trem e a antiga estação
rodoviária da cidade de São Paulo, tendo em suas redondezas um fluxo grande de
pessoas que tomam trens suburbanos, além de hoteis e pensões de baixíssimo
custo. O espaço, delimitado por alguns quarteirões perto das estações, se
aproxima bastante do que Fernandes e Pinto (2006) chamam de território
psicotrópico.
Estes são os lugares em que a vida corre em torno das drogas ilícitas: no caso
da pesquisa de Fernandes e Pinto (2006), a heroína e a cocaína e sua vida nas
ruas de bairros periféricos da cidade do Porto; neste caso, a cocaína nesta
composição particular que possibilita que seja fumada e rapidamente absorvida '
o crack. De acordo com esses autores, um território psicotrópico é reconhecido
pela função que desempenha, sendo também sedutor para os indivíduos que têm
interesses em torno das drogas, sejam eles consumidores ou traficantes, e
apresenta regras informais que regem estes estilos de vida, além de
comportamentos de defesa frente a estranhos por parte dos que ocupam este
espaço. Constitui-se como interstício espacial e ponto final do longo processo
de produção e distribuição das drogas.
Nestes bairros periféricos há uma mescla do público e do privado na organização
do espaço que é constituído no interstício entre estas duas áreas que ao mesmo
tempo se interpenetram: o espaço público é utilizado de forma privada para o
consumo de drogas e sua venda, ao mesmo tempo em que o espaço privado das
residências se torna público pela constante entrada e saída de usuários para
compra e consumo da droga.
Alguns aspectos aproximam o bairro da Luz e a forma como a região é ocupada
pelas atividades em torno do crack desta noção de território psicotrópico,
enquanto outros os distanciam. A região de nosso estudo, apesar de estar no
centro da cidade e de ter sua existência constantemente combatida pelo poder
público, também se constitui como um local com regras informais diferentes do
resto da cidade em relação ao uso de drogas. Perto de pólos comerciais
especializados em diferentes setores, como a rua Santa Ifigênia (pólo comercial
de eletro-eletrônicos) ou a rua Guaianazes (pólo de oficinas e venda de peças
de motos), a região delimitada pelas ruas Cleveland, Mauá, Nothman, Guaianazes
e a avenida Duque de Caxias se constitui como referência importante da venda e
consumo de crack, e não só para quem ali habita. Pode-se ali encontrar usuários
de drogas das mais diversas classes sociais, originários de diferentes bairros
da região metropolitana de São Paulo e nas mais diversas situações: pessoas
arrumadas com terno ou roupas de trabalho que passam ali apenas para comprar a
droga ou para fumá-la em algum intervalo do trabalho; jovens de classe média ou
alta; crianças em situação de rua; catadores de material reciclável.
É interessante também observar que este território se move para as regiões
adjacentes, de acordo com as ações de repressão que vai sofrendo: antes das
primeiras ações da prefeitura o território chamado de Cracolândia situava-se
apenas algumas quadras ao lado. Esse espaço, através dos pequenos hoteis,
pensões e bares e do consumo e venda de crack na rua, se constitui como espaço
público quase que em toda sua extensão, excetuando-se os quartos de hotel.
Grande parte das pessoas que habitam ali passa todo o seu tempo na rua,
realizando todas as suas atividades exposta à população em geral, carregando a
identidade de usuário nesta exposição. Não existe intimidade, todos estão
homogeneizados sob esta identidade. Junto com esta dinâmica peculiar no espaço
público se instauram regras de convivência diferentes do resto da cidade.
Desde o início da década de 1990, época também em que começou a incorporação do
uso de crack como mais uma atividade no uso do espaço cotidiano da rua ali
existente, se tem um movimento de associações comerciais em conjunto com o
governo para transformar a região central em local atraente para
empreendimentos imobiliários e para a circulação das pessoas de nível socio-
econômico elevado. Com a implantação de uma sala de concertos de música
clássica, um ateliê, um museu, além da sede da companhia de dança do estado,
esse movimento se intensificou desde 2005, como uma das bandeiras da atual
gestão política. A partir das atividades em campo neste período e dos relatos
colhidos pode-se perceber o sentido que tem estar ali para as pessoas que por
motivos diversos se estabeleceram, mesmo que temporariamente, neste espaço.
Apesar de extremamente instável e de constituir-se mais como espaço de
trânsito, já que muito geralmente estes usuários não têm uma residência no
local e ficam em situação de rua sem uma fonte fixa e formal de renda, pode-se
perceber entre eles uma constância na ocupação da região.
Essa persistência em ficar na região, mesmo com as frequentes ações policiais,
é conformada por diversas questões sociais e se dá através de ações táticas que
lidam com os instrumentos de poder e com os lugares de cada um ali no local. A
constante exposição pública e as investidas de todas as instituições para gerir
o espaço, a ponto de organizarem verdadeiras intervenções militares, com uso de
cavalaria, grandes equipes integradas de áreas tão distintas como a saúde, a
assistência social e a companhia de eletricidade, armamento pesado e cobertura
midiática criam uma constante tensão no local. No entanto, de alguma forma o
grupo de usuários resiste, expondo seus corpos marcados, em uma forma de
estar no espaço público que os identifica como usuários de crack, ou noias,
vivendo um cotidiano de precariedade e sofrimento.
A partir do lugar social conferido pelo trabalho na redução de danos, buscou-se
interpretar as falas como parte da expressão dessa situação, o usuário exposto
e vestido como tal em um lugar público. Busca-se entender aqui esta situação de
extrema precariedade e sofrimento levando-se em conta o contexto em que está
inserido, compreendendo-a como sofrimento social. Entende-se o sofrimento
social como algo resultante de danos infligidos pelas forças sociais na
experiência humana (Kleinman, Das e Lock 1996). Dessa forma o sofrimento, numa
perspectiva antropológica, seria o efeito da violência que as ordens sociais
levam as pessoas a carregar (Kleinman 2000). Isso não supõe uma relação de
causa-efeito entre o social e o indivíduo, mas sim que as restrições de
possibilidades dadas pelo social conformam as experiências cotidianas das
pessoas e que este sofrimento e esta violência são vividos no corpo, na fala e
nas relações.
O modo como as forças sociais estão presentes no cotidiano dessas pessoas acaba
por restringir as possibilidades de formas de viver as situações de grande
sofrimento, constituindo formas de subjetividade. Assim, consideramos a maneira
de se apresentarem no espaço público (roupas sujas e rasgadas, corpo sujo e
descuidado, o modo de caminhar) como a expressão e o lugar do corpo dos
usuários.
Estar na região na figura do agente redutor de danos possibilita uma via de
acesso a essas pessoas. No entanto, ao mesmo tempo em que este lugar propicia
um diálogo com o usuário, neste contato ele revela apenas uma de suas facetas.
Como o redutor é visto pelo usuário na região? A partir disso, de que forma ele
se revela?
O redutor de danos da ONG costuma estabelecer uma relação de proximidade com os
usuários, tentando evitar conflitos e estimular o autocuidado. Pela sua
distribuição de materiais preventivos, como preservativos, piteira para os
cachimbos de crack e manteiga de cacau, os usuários sentem-se à vontade para
falar sobre seu uso de drogas. A região tem vivido nos últimos anos intensas
ações repressivas sobre as pessoas ligadas ao uso de crack, usuários e pequenos
traficantes. Assim, os usuários costumam ver os diferentes grupos que trabalham
na região de forma polarizada: existem aqueles que estão do lado deles, e os
que estão contra eles, do lado da polícia. O trabalho do redutor não é bem
visto pelos policiais, e muitas vezes os redutores sofrem revistas policiais
junto aos usuários. Estes geralmente veem os redutores como pessoas que estão
do seu lado no conflito. Isso fica aparente nas conversas, que geralmente se
iniciam com comentários sobre a tensão do lugar, a intensidade das ações
policiais e a dificuldade de se ficar no local. O redutor é percebido também
como alguém que está ali para interferir na existência deles, surgindo assim a
ideia de cuidado.
Outros serviços, como os dos agentes comunitários de saúde e agentes da
assistência social, conseguem uma aceitação diferente por parte dos usuários,
que acabam recorrendo a eles para questões pontuais e concretas, como ajuda
para ir ao hospital, por exemplo. Estes agentes são vistos como agentes da
municipalidade que, na verdade, oferecem pouca acolhida, e muitas vezes passam
a ser vistos como mais uma força que intervém para retirá-los do espaço. São
vistos como aliados da polícia e em oposição aos usuários. Observa-se um
movimento dos agentes de saúde buscando se distanciar das ações policiais para
mudar isso, porém a constante pressão da atual gestão municipal para que
retirem os usuários dali rapidamente dificulta o acolhimento e aproxima os
agentes da polícia, no ponto de vista dos usuários.
Pode-se perceber assim que o contato com as pessoas que ficam na região e que
fazem uso de crack se dá de forma particular com a figura do redutor de danos,
quando comparada com os outros agentes que frequentam a região. Percebendo o
redutor como alguém que está ali para oferecer cuidado e incentivar o
autocuidado e que também sofre com as ações repressivas, os usuários costumam
sentir-se livres para colocar algumas questões e acionar discursos que não têm
com os outros para falar de suas vidas e da situação em que se encontram.
Assim, buscou-se reproduzir as falas para os redutores e interpretá-las a
partir deste lugar.
O que se fala com os redutores
Ao mesmo tempo em que a posição do redutor de danos se mostra como um lugar
específico para ter acesso a essas pessoas e seu cotidiano, esse acesso é
limitado pelas mesmas questões que o possibilitam. Ao se aproximar oferecendo
cuidado, algo bom, os assuntos costumam geralmente girar em torno da saúde e
da situação de vida. Como forma de falar de saúde e das razões por que não está
se cuidando, o usuário em alguns momentos se coloca como vítima da situação,
expressando a partir desta relação o que imagina que a população em geral
espera de seu sofrimento. Fala de seu cotidiano como se não fosse necessário
que agisse para manter esta forma de viver frente a todos os acontecimentos e
as necessidades do dia a dia, como comer, dormir ou conseguir dinheiro para
fumar, por exemplo. Junto a isso, dá para perceber em alguns momentos o
desconforto de alguns ao falar de coisas menos corretas, como fazer sexo em
troca de dinheiro ou roubar.
Apesar destes limites colocados pelo próprio lugar do pesquisador em campo,
este se mostra como um dos que possibilita maior proximidade com o cotidiano
dos usuários. Outras possibilidades seriam poder conviver de forma a ser
considerado um deles ou a inserção no cotidiano dos que comercializam a
droga. Ao mesmo tempo, as persistentes ações policiais exigem do grupo que
comercializa a droga que esteja em constante mobilidade, dificultando uma
inserção neste grupo do tráfico também.
Contrariamente a outras regiões e cidades em que o comércio da droga acontece
em um ponto de venda específico, aqui o tráfico fica pulverizado entre as
diversas pensões e os diversos quartos de pequenos hotéis da região, e ganha a
rua através do pequeno comércio entre os usuários, tornando nebulosa a
fronteira que distingue o usuário do traficante. O primeiro relato deste artigo
traz alguém que não faz uso de crack, apenas vende-o. Mas o caso de Vejota não
é o mais comum: via-se constantemente nas permanentes idas a campo pessoas
identificadas como noias, muitas vezes sujas e com seu cachimbo, com uma ou
duas dezenas de pedras na mão oferecendo-as a possíveis compradores em meio à
multidão de usuários. Estes normalmente são vistos, enquanto fumam, em
amontoados de mais de cem pessoas nas calçadas da região.
A partir de como os usuários aparecem nas reportagens jornalísticas sobre a
região, tem-se a impressão de que todos permanecem ali por estarem reféns do
crack, submissos à droga. A noção psiquiátrica de dependência, forma como os
especialistas costumam compreender o tipo considerado mais problemático de
uso de crack, não é suficiente para entender o modo de vida ali, e pode-se
perguntar mesmo se seria útil neste caso. No DSM-IV-TR, última versão do
catálogo de psicopatologias da Associação Americana de Psiquiatria (APA 2000),
são alguns os critérios para que a pessoa seja considerada dependente de alguma
substância: continuar o uso apesar de significativos problemas ligados a este;
aumento da tolerância, sintomas de abstinência e um comportamento compulsivo de
consumo. Por tolerância entende-se a necessidade do aumento da quantidade usada
para se obter o efeito desejado. Os sintomas de abstinência consistiriam de
mudanças mal-adaptativas no comportamento quando se reduz ou pára o uso, tendo-
se muitas vezes que voltar a fazer uso para aliviar estes sintomas. Ao
comportamento compulsivo de consumo estão ligados, por sua vez, um uso maior do
que o desejado, tentativas frustradas de reduzir ou parar o uso, a utilização
de muito tempo para se conseguir a substância, usá-la e recuperar de seus
efeitos, o abandono ou a redução de atividades sociais e de trabalho, e a
continuidade do uso apesar de o sujeito admitir algum prejuízo relacionado a
este.
De forma geral, grande parte dos usuários se encaixa em alguns destes
critérios, senão em todos. Porém, esta classificação de dependente não é
suficiente para explicar esta forma de uso e a vida em torno dele. Por quê ser
um dependente ali, com a intensa repressão policial e a violência que atravessa
o cotidiano de diversos ângulos? Porque não fumar o crack a apenas algumas
quadras para algum dos lados e assim não sofrer as constantes, tensas e
violentas ações policiais? Ao se estabelecer contato com os usuários dessa
forma, é possível perceber algumas coisas que podem nos ajudar a entender que
há agenciamentos por parte dos usuários e que a trama de sentidos ali é mais
complexa do que o efeito de uma substância química sobre um sujeito e seus
aspectos psicodinâmicos. Em seus relatos, pode-se perceber a importância da
sociabilidade naquele local para as pessoas que, por diversos caminhos,
passaram a viver com possibilidades bastante restritas de fazerem escolhas em
diversas partes de sua vida social. Foram selecionadas, a partir dos registros
das idas a campo com a instituição, três narrativas que expressam formas
diferentes de habitar a região.
O primeiro relato é de um vendedor de pedras de crack com um longo histórico de
vivência de situações de rua e marginalidade, que não vê tanto sentido em estar
ali entre os usuários, mas que se mistura entre eles para poder se proteger da
polícia e retirar seu sustento. O segundo é de Oseias, usuário de crack que se
porta como noia, estando nesta situação há alguns meses, desde que saiu da
cadeia.
[2]
E o terceiro é o de Shirley, usuária de crack que faz programas para sustentar
seu dia a dia, tendo o grupo de noias como o seu grupo de pertencimento e
sociabilidade, na ausência de outras possibilidades.
Vender o crack: teria outra forma de se ganhar a vida?
Uma das histórias interessantes de se observar é a de Vejota, por envolver uma
trajetória de vida que nos mostra a restrição de possibilidades como um fator
importante para sua permanência ali. Quando criança de rua foi cuidado por
Juca, que atualmente é agente redutor de danos da instituição, por isso se
sente bastante à vontade para falar de si.
Quando o encontramos está muito bem arrumado, destoando de todos ao redor, já
que em sua maioria os usuários estão com poucas roupas, rasgadas e bem sujas.
Com um pequeno brinco brilhante, correntes e pulseiras de prata no pescoço e
nos pulsos, um grande relógio e roupas novas, realmente se destaca dos outros.
Conta que quer participar da equipe de futebol que está sendo montada pela ONG
e que teria outros amigos que jogam bem para participar também. Apesar de ter
me conhecido naquele dia, Vejota se sente à vontade com o outro agente redutor
e passamos a conversar sobre a situação de rua ali da região, e ele aproveita
para contar bastante de si.
Durante a conversa ele explica como ainda está no movimento[3] de venda de
drogas ali, mas frisa que só porque não tem outra opção. Pessoas que conhece
dali até ofereceram a ele empregos, como o de técnico de som, mas não sabia se
aceitava por na verdade não conhecer nada dos equipamentos que teria que
manejar. Relata que sabe como a vida ali no movimento da droga é arriscada, mas
que não sobra outra opção para ganhar dinheiro suficiente para se sustentar. Já
foi preso duas vezes, ficando ao todo quatro anos na cadeia. Lá aprendeu a
desenhar, e afirma que queria encontrar um trabalho de desenhista industrial,
pois faz isso muito bem. Conta como fazia desenhos tão detalhados na cadeia que
fazia somente três por mês. Uma vez conseguiu vendê-los, mas depois o comprador
descobriu que ele tinha acabado de sair da cadeia e não comprou mais. Sabe que,
se continuar no movimento ali, pode acabar preso novamente, e não quer isso.
Conta, então, de sua trajetória de vida e das possibilidades que tem de
inserção na sociedade a partir dela.
Com certo orgulho, fala que já está na vida de rua há 19 anos, tendo
atualmente 30. Já fez de tudo na rua, e antes de ficar preso era um noia
como os outros que compram suas pedras de crack. Durante as duas vezes em que
ficou dentro da cadeia aprendeu muita coisa ruim, mas lá também aprendeu a
desenhar e percebeu que não queria ficar naquela situação pra sempre. Apesar de
já ter ficado na rua em uma situação completamente deteriorada e de nesta época
fazer um uso intenso de crack, além de provar as diferentes drogas que lhe
ofereciam, como remédios, cocaína injetável ou inalantes, afirma não querer
mais isso para si. Hoje em dia diz só usar maconha (termo brasileiro para a
canábis) e ter aprendido que os químicos fazem mal. Esta é uma categoria do
senso comum no Brasil, em que se diferencia entre drogas menos danosas e mais
danosas, sendo as primeiras de origem mais natural, como a maconha e o
tabaco, por exemplo, e as segundas a cocaína e o crack, entre outras, que
seriam mais perigosas e danosas por serem químicas, sendo assim mais fortes e
difíceis de controlar.
As táticas cotidianas frente à polícia
Tendo um histórico de ex-noia que decidiu, a partir de sua experiência na
cadeia, agenciar de outra forma sua relação com a droga, passando ao estatuto
de traficante, vemos no seguinte relato como Vejota toma uma postura ativa no
momento da revista policial, passando-se por usuário, uma categoria menos
procurada na região do que o traficante. Em conversas com policiais da região,
eles relatam como não interessa a busca de usuários, por ser ineficaz na
retirada deles do local.[4] Ao mesmo tempo em que a constante exposição dos
usuários infunde sofrimento pela anulação de sua intimidade, este lugar protege
de outras violências.
Michel de Certeau (2001 [1980]), ao falar sobre o cotidiano, distingue duas
maneiras de fazer as coisas no dia a dia (caminhar, produzir, falar,
cozinhar, etc.): a estratégia e a tática. Os dois termos derivam do contexto
militar e se distinguem na forma como aquele que age se relaciona com o meio e
com os outros ao redor. Considera-se como estratégia a ação de um sujeito, uma
instância de querer e poder, que lhe permitirá isolar e controlar
características do ambiente buscando transformá-lo em algo idealizado. Este
tipo de gesto cabe muitas vezes a instâncias como uma empresa, o governo, o
exército, a prefeitura de uma cidade. Já a tática se caracteriza pela ausência
da possibilidade deste isolamento e controle de características do ambiente. A
ação acontece no espaço controlado pelo outro, e se aproveita, dessa forma, de
momentos especiais, ocasiões favoráveis, utilizando as falhas que as
conjunturas particulares abrem na vigilância de quem detém o poder no espaço.
Segundo De Certeau, a tática é determinada pela ausência de poder assim como a
estratégia é organizada pelo postulado de um poder (2001 [1980]: 101).
Podemos perceber como Vejota age de forma tática ao comercializar o crack ali
na região, lidando com instâncias de poder como a polícia e as ações
governamentais. Pode-se entender mesmo a sua escolha de ser traficante de crack
na região como uma tática de sobrevivência por não poder encontrar outras
perspectivas de ganhar a vida. Ele age na ausência de outras possibilidades e
sabe-se um peixe pequeno, quer dizer, alguém sem poder dentro do poder
paralelo de atividades ilícitas.
Empolgado, comenta sobre as dificuldades de se vender o crack ali. Fala que
tanto a polícia quanto os usuários estão resistindo ali na região (esta ação
começou de forma intensiva, com grande quantidade de policiais nas ruas por
tempo indeterminado), mas acha que os policiais estão demonstrando sinais de
cansaço. Mas, mesmo assim, considera a rua ali bem tensa, sendo muito difícil
vender o crack e não ser abordado pela polícia. Horas antes foi parado pelos
policiais da cavalaria da polícia militar, e nos relata, com detalhes, como
agilmente conseguiu se livrar, mesmo com quatro pedras de crack na mão. Estava
na Praça Coração de Jesus, a um quarteirão dali e bem no meio do movimento de
venda e consumo de crack, com sete pedras de crack e fumando um baseado
(cigarro de maconha). Vendeu três pedras para um menino em situação de rua, e
logo viu que três policiais em cima dos cavalos notaram o movimento e vieram
atrás dele. De certa forma vangloriando-se de sua agilidade, explicou como,
enquanto passava em frente a um telefone público, colocou as pedras dentro da
boca e apagou o baseado. A polícia o parou e parou também o menino. Foi
revistado e os policiais acharam apenas o baseado em sua mão. Os policiais
ficaram perguntando a ele o que havia vendido ao menino. Inventou que na
verdade tinha vindo até ali para comprar um baseado, e que havia comprado
aquele baseado do garoto. Os policiais ficaram querendo saber se não estava
vendendo pedras. Explicou a eles que trabalhava roubando no farol e que vinha
até a região da Cracolândia sem flagrante (nada que o incriminasse), só com o
dinheiro para comprar o que queria. Rindo, fala como os policiais acreditaram
nele e ficaram apenas rindo com a cara dele. Considera que os usuários não têm
opção, e que por isso os policiais não vão conseguir tirá-los de lá. No entanto
não quer ficar mais muito tempo neste movimento de venda de droga. Sabe que é
peixe pequeno, não tem muito envolvimento e quer mudar de vida. Já acumulou
alguns bens, como televisão, DVD, celular e MP4, e agora poderia ficar ganhando
menos dinheiro. Considera-se jovem ainda e quer aos 60 anos ter alguns filhos e
ter dado boas condições a eles. No entanto, lamenta mais uma vez que por
enquanto tenha que ficar se arriscando neste trabalho ali na região.
O interessante é que, ao mesmo tempo em que dessa forma tática ele arranja
meios para se sustentar, as táticas desviacionistas não obedecem às leis
oficiais e colaboram para estratificar e criar um funcionamento diferente na
região, com suas regras e normas paralelas às oficiais. Estas são conhecidas
por um público muito específico: os comerciantes da droga e seus clientes, os
usuários.
Além disso, vemos que na sua trajetória Vejota passou por diversas situações de
marginalidade, como se estivesse no papel de mais alto status dentre os que já
teve: mesmo sendo este ainda um tanto arriscado, o traficante é bem visto e
respeitado pelas pessoas à sua volta, além de ter dinheiro para consumir e se
sustentar. Tendo sido criado desde criança por instituições que cuidam da
população que ocupa as ruas (os menores abandonados, o povo da rua, os
dependentes de drogas ou os moradores de rua), pode-se perceber que na sua
trajetória ele viveu as diversas possibilidades que se apresentam para as
pessoas dentro destas instituições.
O redutor de danos que cuidou dele quando criança, Juca, comentou no dia
seguinte que nos abrigos e na unidade de internação Vejota sempre se mostrou um
garoto esperto e de bom contato pessoal com os educadores. Porém, por ser
negro, nunca era escolhido para ser adotado ou apadrinhado
[5]
por alguém que chegava à instituição, e acabou tendo apenas as possibilidades
de inserção nas escolas e no mercado de trabalho que em geral se tem a partir
dali.
No caso de Vejota é possível perceber a incidência de diversas questões sociais
que ajudam a conformar seu lugar como proporcionando poucas possibilidades de
ação e de inserção: criança com contatos rompidos com a família; negro;
vivência de rua; problemas com drogas; passagens pelo sistema carcerário; pouca
escolaridade.
No relato a seguir apresentado vemos também como Oseias, saído há pouco tempo
da cadeia e sem família, vive com uma grande restrição de possibilidades, e
enquanto isso permanece ali fazendo uso de outras ações táticas para não ser
pego pela polícia.
Da cadeia para a Cracolândia
Encontramos Oseias na Praça Julio Prestes (a uma quadra do encontro com
Vejota), deitado. Enquanto coloca em seu cachimbo a piteira que lhe demos, ele
reclama do intenso movimento dos policiais pelas ruas. Explica-nos então que
está ali, naquele lugar, para poder fumar em paz: mantém o corpo todo coberto e
só deixa uma abertura para acender o cachimbo no lado oposto àquele de onde vêm
os carros. Assim, quando os carros de polícia estão se aproximando acham que
ele está apenas dormindo e não param ali. Além disso, nos mostra um elástico
que deixa preso ao corpo na altura do ombro, por baixo da camiseta esfarrapada
que usa, onde prende o cachimbo para escondê-lo de uma eventual revista
policial. São táticas utilizadas por ele para poder permanecer ali, de forma a
não sofrer com as estratégias utilizadas pela polícia para afastar os usuários
do lugar, que consistem normalmente em coerções violentas ou retenção, levando
os usuários até a delegacia.
Está na região da Cracolândia há seis meses, desde fevereiro. Passou alguns
anos na cadeia e nos mostra suas tatuagens distribuídas por boa parte do corpo,
e principalmente uma grande nas costas, com muitas caveiras. Sabe que se a
polícia vir estas tatuagens vai saber que saiu da cadeia e vai ficar achando
que ele matou policiais, e por isso tem medo do que podem fazer com ele, já que
algumas das tatuagens que carrega são características de quem comete este tipo
de crime. No entanto, fala que só mata um tipo de gente: estupradores. Apenas
este tipo de gente merece morrer, pelo imenso sofrimento que traz às mulheres e
sua família. Fazem sofrer muito as mulheres que são filhas, mulheres e até mães
das pessoas. Além disso, fazem sofrer muito os pais das vítimas. Por conta de
tudo isso, diz que eles que merecem morrer e que não perdoa este tipo de gente.
Mostra-nos uma tatuagem no braço esquerdo com o nome de todos de sua família:
pai, mãe, uma irmã e um irmão. Fala que saiu da cadeia, mas que todos de sua
família já morreram e realmente não tem para onde ir. Está desde então ali na
região, mas em algum momento quer sair dali; considera, porém, que seis meses
é pouco tempo para conseguir construir alguma coisa quando se sai da cadeia. É
interessante perceber como sempre fala do sofrimento do outro, colocando-se
como cuidador ou provedor e não entrando em contato com o sofrimento da sua
situação.
Ao reclamar da polícia, nos mostra também um pouco do que poderíamos chamar de
linha crucial para que alguém seja considerado um noia, um usuário
descontrolado dependente do crack: a transgressão de alguns valores éticos para
se conseguir a droga.
Comenta que a polícia está muito violenta, e reclama que eles acham que todos
que estão ali são noias, enquanto na verdade existem pessoas de vários tipos
que passam ali para fumar. Diz que é como gato e rato, os usuários passam o
dia inteiro fugindo da polícia e tentando fumar nos momentos em que conseguem
se distanciar deles. Pergunto sobre a diferença entre estes tipos de usuários.
Ele me conta que pessoas que são mais organizadas e têm dinheiro passam ali
para fumar. O noia, no entanto, segundo ele, é aquele que fuma
descontroladamente, a qualquer custo, fazendo qualquer coisa para conseguir a
droga, mas nem todos os usuários dali estão nesta condição.
Conta-nos que sustenta sua forma de viver ali praticando roubo à mão armada nos
faróis ou na rua. Pergunto onde consegue a arma, se costuma alugá-la para
praticar suas ações. Neste momento tira do bolso um estilete sem lâmina e nos
mostra como com aquilo ali finge estar com uma arma na mão. Segundo ele, o que
na verdade faz as pessoas passarem seus bens é o pânico que gera sua
aproximação agitada e colocando pressão para que as pessoas deem logo o que
pediu. Fala isso rindo um pouco. Relata então uma vez em que quase machucou uma
mulher ao roubar, mas que ficou aliviado ao perceber que tinha se machucado a
si mesmo, e não à sua vítima.
Oseias se coloca como noia e está vestido e em um estado que levaria qualquer
um olhando de longe a considerá-lo dessa forma. No entanto, busca na sua
narrativa se diferenciar dos noias, tentando mostrar uma ética em suas ações
cotidianas, ao mesmo tempo em que faz uso da figura pública do noia enquanto
alguém temido pela população em geral para conseguir manter seu cotidiano.
Este relato é rico por nos mostrar a extrema restrição de inserção que este
sujeito vive no cotidiano. E um ex-presidiário, com marcas corporais que o
identificam como alguém odiado pela principal instância de poder com quem se
confronta, a polícia. Segundo ele, fez a tatuagem porque esta era bem vista
dentro da cadeia pelos outros, por ser também uma forma de confrontar os
carcereiros e policiais. No entanto, ao sair de lá estas marcas têm o efeito
contrário, colocando-o sob o risco constante de sofrer violências por parte da
polícia. Sem ter família a quem recorrer, acaba por ficar limitado à
sociabilidade dos outros usuários. Apesar de ter uma vida restrita a este
convívio, tenta se diferenciar do que considera ser um usuário sem controle, no
sentido em que mantém alguns parâmetros éticos. Pode-se perceber assim que há
uma construção de uma hierarquia dentro do próprio grupo que usa crack nas
mesmas condições e forma de estar na rua. O noia é aquele que está no nível
mais baixo, carregando um grande estigma de alguém sem controle e sem limites
em sua busca de uso do crack, não sendo confiável nem para os outros usuários.
A categoria de noia, extremamente estigmatizada, em muitas situações leva o
usuário a um exílio, impedindo-o de retornar à sua região de pertencimento, por
conta de problemas ali. Quando passam a ser vistos como noias, em algum
momento são levados a buscar outro espaço.
Frente à vida com possibilidades restritas conformada pelas trajetórias dos que
vivem ali, parece que não é apenas o crack que mantém as pessoas na região,
ganhando até em alguns momentos um peso secundário nisso. Como diz Phillipe
Bourgois, quando as outras relações, como as com a família, por exemplo, estão
enfraquecidas ou foram rompidas, a sociabilidade de rua parece mais atraente
(Bourgois 1998). Também a narrativa de Oseias mostra como o dispositivo de
controle social sobre suas vidas os coloca entre a rua e instituições
criminais, o que acaba cronificando esta situação, ao reduzir cada vez mais as
possibilidades de inserção na sociedade.
Percebe-se neste relato e no anterior que tanto a figura do noia como a do
traficante precisam lidar constantemente com as ações policiais. A atividade
policial ali na região não visa apenas a repressão de crimes, mas é feita
constantemente no intuito de organizar e normatizar a população da região. Os
policiais passam dando ordens para que os usuários não fiquem ali. As contínuas
batidas policiais e as passagens também constantes das viaturas acontecem para
instabilizar a atividade dos usuários, na tentativa de criar um movimento de
saída daqueles que não são considerados integrantes normais da sociedade, os
usuários de crack em situação de rua. Ao mesmo tempo em que a segurança pública
age de forma mais intensa e constante, em seu entorno existem outras forças
estatais que têm também o objetivo de retirar e tratar esta população,
envolvendo agentes da saúde e da assistência social. No entanto, estes serviços
são ao mesmo tempo mal estruturados, com poucos recursos e ineficazes, ou
muitas vezes inexistentes.
No fervo com a galera: sociabilidade entre os noias e a restrição de
possibilidades
Neste mesmo dia encontramos Shirley, uma usuária conhecida pelos agentes
redutores de danos, que frequenta de vez em quando o centro de convivência da
instituição. Depois de cumprimentá-la, ela nos conta que está muito mal. Está
com infecção pulmonar e com febre já há vários dias, não conseguindo nem fumar.
Passou os últimos três dias inteiros dormindo na rua mesmo e acabou de acordar.
Está com roupas de frio um pouco sujas e com um cobertor na mão. Diz que junto
a tudo isso sua depressão atacou novamente e que não tem conseguido ir atrás
de se cuidar e também de fazer o que precisa ser feito para conseguir dinheiro
para fumar e comer. Pergunto o que ela costuma fazer para ter dinheiro. Fica um
pouco desconfortável, mas logo conta que faz programas na região. O redutor
oferece camisinhas, mas ela diz que está muito mal, e que realmente não está
conseguindo fazer programas ou fumar. Diz que se dá um trago passa minutos
tossindo, então nem tem tentado mais.
Lembramos como seria importante tentar não dormir na rua e ir ao hospital para
que tratasse a infecção do pulmão. Sabe que seria importante, mas não vê
possibilidade de dormir em albergues, por serem longe, lotados, e por ter que
sair de lá logo cedo. Além disso, diz que já foi ao hospital ali perto e não
deram remédios a ela, dando alta algumas horas depois, decidindo então não
tentar novamente. Além disso, conta que o médico deu-lhe um sermão, falando que
é mesmo com problemas de saúde como estes que fica quem fuma crack. O redutor
se oferece para acompanhá-la novamente, caso queira. Ela diz então que não
consegue no momento ir atrás do que precisa por conta de sua depressão, e
lamentamos com ela sua situação. Despede-se de nós e fala que, enquanto não
consegue fazer nada, vai se juntar aos outros, ficar ali no fervo com a
galera.[6] Perguntamos se seria para fumar, e ela diz que não, que estava indo
mesmo só para ficar com as pessoas, pois realmente não estava conseguindo
fumar.
Fica clara neste relato a situação precária de saúde que Shirley está vivendo.
Está gravemente incapacitada, não conseguindo dar conta de suas atividades
diárias para sobreviver e sustentar seu uso de crack e sua rotina. No entanto,
fica claro também como as instituições disponibilizadas pelo Estado para lidar
com as questões que está vivendo, como o hospital e o albergue, não são vistas
por ela como possibilidades concretas. Por conta das ações da prefeitura para a
requalificação da região, os albergues estão sendo realocados em bairros
distantes do centro da cidade. Além disso, os que ali dormem são obrigados a
sair dali logo cedo, ficando em um bairro distante com poucas possibilidades de
conseguir dinheiro. Isso significa para ela ter que andar de onde está o
albergue até o centro, local onde boa parte da população de rua vive e que é
também onde se consegue ganhar dinheiro dos transeuntes mais facilmente. Esses
detalhes inviabilizam a ida dela ao serviço de saúde.
Em relação ao serviço de saúde, são constantes os relatos dos usuários de como,
quando são identificados como usuários de crack, normalmente não são atendidos,
por conta do estigma que carregam. Foi isso que aconteceu a Shirley, e dessa
forma acaba tendo que suportar o sofrimento de sua doença ali na rua. Com as
possibilidades restritas pela precariedade das políticas públicas voltadas à
população em situação de rua e pelo estigma que carrega ao ser identificada
como usuária de crack, resta-lhe então ficar junto aos outros na movimentação
em torno da venda e do consumo do crack, apesar de não conseguir fumar.
Ao se compreender a aceitação de sua situação e seu estado de saúde, que
convive com a precariedade de existência, percebemos que esta condição não é
simplesmente o resultado da ação de uma substância sobre um organismo, mas
depende também de elementos que dizem do lugar ocupado na sociedade.
O lugar como símbolo de classificação e identidade e a produção dos intratáveis
A despeito do intenso movimento do governo para que os usuários de crack não
mais fiquem na região, os agentes de saúde, da assistência social e os
policiais enfrentam essa resistência no dia a dia. Porém, essa resistência não
se dá de forma calculada e organizada. Como diz Carvalho, ao comentar um livro
da antropóloga Veena Das, não quer dizer que há alguém que resiste no
cotidiano, pois não há, necessariamente e sempre, este agente da resistência:
ao menos não se deve falar de uma resistência calculada; mas de uma existência
possível (2008: 13)
Apesar de ser tida como uma droga da qual, diferentemente da maconha, se faz
uso sozinho e que é disruptiva socialmente, percebemos que o crack funciona
como elemento importante na sociabilidade destas pessoas, que buscam fumá-la
cada um com seu cachimbo, mas identificando-se entre si como noias. A falta
de perspectiva de inserção em outros contextos fortalece este contexto de
sociabilidade como importante para elas. Esta situação, juntamente com as ações
governamentais, tem tido como resultado a cronificação destas pessoas neste
circuito e lugar. Entende-se que estas pessoas vivem em uma condição de
restrição de possibilidades de inserção na sociedade, e pode-se perceber que as
ações que teriam como objetivo tirá-los dessa condição acabam por reforçar o
estigma ligado ao noia e restringir ainda mais as possibilidades de vida
destas pessoas.
O noia, percebido como aquele que desrespeita as normas sociais e os
parâmetros éticos em busca da pedra de crack, é visto com desconfiança e não
consegue estabelecer relações de outra forma com as pessoas. Ao mesmo tempo,
percebe-se que, frente a essa grande restrição de possibilidades, os usuários
identificam-se com o lugar de noia, portando-se dessa forma no espaço público
e mantendo relações cotidianas com pessoas assim caracterizadas. As
racionalidades de especialistas e da lei, separando usuários e traficantes,
não dão conta desta realidade.
Numa das últimas investidas a campo, no verão de 2010, um especialista
apontava, por exemplo, que o papel da polícia seria o de reprimir o tráfico,
para acabar com a oferta de crack na região, ao mesmo tempo em que comentava a
falta de ações de saúde pública. O que se mostra na prática é a repressão
policial aos usuários e também aos agentes de saúde que, na verdade, atuam no
mesmo sentido de combater a permanência dos usuários ali, dada a inexistência
de estruturas de acolhimento.
É essa forma possível de existência que percebemos nas respostas que dão
Shirley e Vejota para agenciar ou simplesmente resolver suas questões para
viver seu cotidiano. O relato de Oseias, o segundo usuário com quem
conversamos, mostra isso também. Marcado em seu corpo por tatuagens que o
definem como alguém saído da cadeia, não consegue vislumbrar outra perspectiva
desde que saiu de lá, seis meses antes. Símbolos inscritos no corpo para ganhar
um lugar dentro da cadeia, as marcas de ex-detento restringem o seu circuito de
sociabilidade ao ganhar a liberdade e a rua. Segundo ele, seis meses é pouco
para poder se inserir em outro lugar ou outra ocupação. Não tem mais familiar
ou outra rede a que possa recorrer nem para onde ir desde que saiu da cadeia, e
fica então na região convivendo com os outros usuários e fumando crack. No
entanto, não considera que está no nível mais baixo na hierarquia de uso,
mostrando que fuma de forma organizada, protegendo-se da maneira que pode da
violência ao redor e não querendo desrespeitar sua própria ética para conseguir
sustentar sua forma de vida.
O que seria afinal uma hierarquia de uso, senão uma classificação externa
desligada de lugares e contextos? No espaço da Cracolândia fica expressa uma
relação entre o lugar social, ou o lugar por onde passaram as trajetórias dos
sujeitos apresentados, e o uso de uma droga. Predomina no cenário mais
conservador da sociedade a perspectiva da retirada e do internamento
compulsório desses usuários. Essa ação busca enquadrá-los como os intratáveis
que devem ser submetidos à força ao tratamento psiquiátrico, o que contraria o
movimento da reforma psiquiátrica ocorrido no Brasil. Por outro lado, a ação de
redução de danos, que é apoiada pelo Ministério da Saúde, necessita de um maior
fortalecimento e de maior articulação institucional para poder se legitimar
como uma ação de atenção e de garantia de direitos.
O que podemos concluir de nossa inserção na Cracolândia é que, na abordagem de
campo, tanto na etnografia como no trabalho da redução de danos, exercemos a
intersubjetividade através de uma escuta e do respeito das falas dos noias,
que por sua vez têm respondido a essas trocas; não seria então o fortalecimento
dessas estratégias a condição para retirá-los do lugar de intratáveis?