Entre as luzes e as sombras da cidade: visibilidade e invisibilidade no
graffiti
Entre as luzes e as sombras da cidade: visibilidade e invisibilidade no
graffiti
Ricardo Campos*
Partindo de uma pesquisa de natureza etnográfica junto de jovens que se dedicam
ao graffiti urbano, procura‑se reflectir sobre a condição social destes
actores que vivem, simultaneamente, entre dois universos sociais e culturais,
construindo intrincadas estratégias de gestão da identidade e do seu
quotidiano. O graffiti representa para muitos jovens um horizonte de ruptura e
transgressão, um território de rejeição da lei e dos normativos hegemónicos
onde se experimentam o risco e o desvio, a excitação e as sanções tantas vezes
dolorosas. Este universo social, complexo e paradoxal, serve de mote à análise
de questões como a relação entre as margens e o centro, a construção
identitária no mundo contemporâneo, a visualidade e o anonimato na cidade.
Palavras‑chave: juventude, graffiti, cidade, identidade, anonimato,
visualidade.
Between the lights and the shadows of the city: visibility and invisibility in
graffiti
An ethnographic research developed within the graffiti community of Lisbon is
the starting point for a reflection regarding the social condition of the young
members of this community. The graffiti writers live between two social and
cultural universes, building complex strategies of managing identity and
everyday life. Graffiti represents, for many young people, a ground for
struggle and transgression, a chance to reject the law and the hegemonic norms,
an arena where they experiment risk, excitement and, sometimes, painful
sanctions. This complex and paradoxical social universe inspires the author to
analyze subjects such as the relation between the margins and the center,
identity construction in the contemporary world, visuality and anonymity in the
city.
Keywords: youth, graffiti, city, identity, anonymity, visuality.
O presente artigo surge no âmbito de uma série de reflexões sobre o significado
do graffiti
[1]
contemporâneo, integradas num projecto mais vasto que procura fundar alicerces
para uma exploração antropológica da cidade enquanto território de comunicação
visual (Campos 2005; 2007). A visualidade é um campo relativamente ignorado da
pesquisa social. No entanto, como defendem diferentes autores na área da
antropologia (Canevacci 2001; Banks 2001; MacDougall 1997; Pink 2001; Ribeiro
2004) e da sociologia (Chaplin 1994; Sauvageot 1994; Harper 2000; 1998), esta é
uma dimensão extremamente importante da vida social, necessitando de um
projecto de questionamento teórico e metodológico sólido.
Tive a oportunidade de estudar o graffiti urbano ao longo de mais de quatro
anos, observando a cidade e trocando impressões com os autores desta linguagem
tão particular.
[2]
Este é um universo complexo e heterogéneo, incentivando diferentes olhares e
leituras. Achei particularmente interessante pensar o graffiti e os seus
protagonistas à luz dos problemas que as ciências sociais têm levantado sobre
os processos de construção identitária nas sociedades complexas, num mundo cada
vez mais globalizado. Diferentes autores parecem apontar para uma realidade que
reflecte a existência de identidades mais fluidas, impermanentes e compósitas
(Appadurai 2004; Hall 2004; Velho 1987; Hannerz 1996; 1997). A identidade
social / cultural remete, cada vez mais, para um projecto em curso, um processo
contínuo de fabricação de um ser social que utiliza diferentes recursos e
estratégias nesta gestação (Velho 1987; Hall 2004). Neste contexto, as
denominadas tribos juvenis ou urbanas (Feixa 2006; Pais e Blass 2004)
representam arenas sociais onde os mais jovens exploram estratégias de
construção identitária que reflectem bem a natureza global, fragmentada e
criativa deste processo.
A condição social dos actores do graffiti urbano é interessante para
problematizarmos os processos de construção identitária, a fragmentação de
identidades e a criatividade dos grupos na fabricação de modelos culturais à
margem dos padrões hegemónicos. O graffiti é, desde as suas origens, o
resultado de uma acção de subversão. Enquanto cultura, representa um conjunto
de normas de acção, de valores, representações e ideologias fundados tendo por
referência uma acção que é ilegal e, consequentemente, alvo de perseguição. As
identidades colectivas e individuais forjadas neste território à margem
(tempo e espaço sociais identificados como opostos à norma social dominante)
incorporam a ruptura, dramatizam o estigma, capitalizam o desvio na elaboração
de narrativas individuais e desígnios colectivos.
Correspondendo a um universo social fechado, que se protege do exterior e se
resguarda na penumbra, o ingresso neste mundo implica a adopção da uma nova
condição social, um lugar à margem dos papéis e normativos hegemónicos. Esta
passagem determina a reconfiguração do eu, marcado por rituais precisos e por
regras que definem os requisitos necessários à aceitação na comunidade.
[3]
Deste modo, como em muitos outros grupos ou comunidades representados como
marginais ou desviantes, a ruptura com a norma e o desvio oferecem
oportunidades para a construção de novos vínculos sociais e para a adesão a
padrões alternativos (Becker 1963; Goffman 1988). O espaço de transgressão é,
também, um espaço de ordem e integração.
Ao estudar esta cultura apercebi‑me da importância que a visualidade
[4]
assume na definição de atributos culturais e marcas identitárias dos grupos
juvenis que actualmente habitam as nossas cidades. Entre o ver e o não ver,
entre o dar‑se a ver e o esconder‑se, tecem‑se subtis linhas de gestão das
identidades pessoais e colectivas que reflectem a forma como os jovens se dão
ao mundo e pretendem ser observados. No exemplo que nos ocupa esta situação é
bastante evidente. O graffiti vive da visualidade, resulta de uma acção
individual e colectiva que usa os suportes visuais e uma determinada linguagem
para comunicar e construir sentido, para estabelecer lugares sociais e
hierarquias simbólicas.
Aqueles que se dedicam ao graffiti trabalham na obscuridade, numa labuta
persistente que serve de legitimação à pertença a este universo. A existência
(ou seja, o reconhecimento da existência do indivíduo pelos seus pares)
alcança‑se pela acção, pela prática primordial que origina todo um modelo
cultural significativo para os agentes.
Neste contexto, o território e a visualidade assumem‑se como dimensões a
explorar de forma estratégica na construção das identidades e do estatuto dos
actores. Usar a cidade, conhecer e utilizar o espaço edificado resulta num
processo de apropriação e dominação territorial que se encontra no cerne de
muitas culturas juvenis urbanas (Magnani 2002, 2005; Pais 2005). No graffiti é
fundamental sinalizar a cidade, demarcá‑la com siglas que possam ser
vislumbradas. É a visão de uma cidade tatuada na pele por diferentes grupos em
busca de excitação e reconhecimento pelos seus pares. O que lemos na epiderme
da cidade são manifestações desta identidade que usa os códigos de comunicação
urbanos para alcançar notoriedade.
Estas são algumas das questões tratadas nas páginas que se seguem, que
pretendem reflectir sobre os processos através dos quais os jovens writers
utilizam os diferentes recursos do seu quotidiano para forjar identidades
paralelas, num espaço sociocultural na periferia das normas dominantes.
Graffiti enquanto universo cultural
Graffiti são as letras nas paredes, é a caligrafia, é ver as cenas escritas, é
ver os tags, é o dia‑a‑dia [ ] É estares activo, é pintares e fazeres as tuas
cenas como fazes sempre: vais pintar uns comboios, metro, mandas uns tags
Depois há todas aquelas cenas pelo meio que podem não parecer Graffiti, mas
estão ligadas: é a cultura, é estarmos todos juntos, é sermos uma crew, La
cultura (writer HEL em Rapolho 2005: 52).
Definir graffiti é bem mais complexo do que parece, facto que é comprovado pela
variedade de definições académicas e pelas ideias difusas que o cidadão comum
possui sobre este fenómeno. Para a maioria, o termo graffiti aplica‑se,
usualmente, às inscrições executadas no espaço citadino, em suportes diversos,
como os muros, as paredes e variado mobiliário urbano, através da utilização de
diferentes instrumentos (geralmente o aerossol ou o marcador). Daí que a
definição usual abarque um conjunto extenso de actividades, códigos e processos
criativos que estão longe de assumir uma coerência interna ou um sentido de
conjunto. Nesta podem inscrever‑se diferentes expressões da denominada street
art, obscenidades rebuscadas, frases românticas, impropérios dirigidos a
políticos, aclamações desportivas, entre tantas outras manifestações da
inesgotável competência criativa do sujeito urbano.
O termoderiva do italiano graffiare, que significa algo como riscar. Graffiti,
palavra entretanto banalizada, corresponde ao plural de graffito e designa uma
marca ou inscrição feita num muro / parede.
[5]
Se podemos identificar vários espécimesde graffiti na rua, temos de reconhecer
que apenas alguns podem ser identificados como expressões legítimas, de acordo
com aquilo que, historicamente, se convencionou chamar graffiti, com base numa
especificidade de linguagens, modos de produção e atmosfera cultural (Cooper e
Chalfant 1984; Castleman 1982; MacDonald 2001; Campos 2007; Marques, Almeida e
Antunes 1999). Para Joan Garí (1995) existem basicamente dois modelos de
graffiti que, sendo distintos, partilham um princípio comum que confere a esta
manifestação a sua singularidade: a transgressão. De acordo com este autor
encontramos, em primeiro lugar, o modelo europeu (ou francês), herdeiro de uma
tradição de pensamento filosófico, poético e humorístico em forma de máxima
[6]
e, em segundo lugar, o modelo americano, desligado do pensamento e artes
oficiais e intimamente ligado aos meios de comunicação modernos. Esta é uma
partição que, embora englobando um conjunto alargado de manifestações, não
esgota os formatos de expressão individual e colectiva presentes na superfície
das cidades. Por exemplo, no caso português, podemos interrogar‑nos sobre o
lugar ocupado pelos murais políticos surgidos no pós‑25 de Abril. No entanto,
ao contrário de outras expressões realizadas nas paredes, com considerações de
ordem política, clandestinas e de natureza subversiva que afrontavam o regime
anterior a 1974 (Pais 2002), dificilmente podemos aceitar os murais políticos
pós‑25 de Abril como objectos transgressores, produções de natureza ilegal ou
marginal. Estes correspondiam a processos de comunicação perfeitamente
enquadrados numa ordem política, sendo veículos de comunicação socialmente
aceites e politicamente legítimos (apesar de o seu uso ser mais comum em
determinados partidos políticos, praticamente todos os partidos usaram o muro
como suporte para a realização de murais e inscrição de palavras de ordem).
Historicamente associado à cultura hip‑hop, o modelo americano a que alude
Joan Garí tende, na actualidade, a ser hegemónico nas nossas cidades. Este
graffiti caracteriza‑se por uma forte presença da dimensão pictórica, que
tende a subordinar a palavra, relegando‑a para uma posição subalterna no
processo comunicativo (Sánchez e Tauste 2002; Garí 1995). O projecto em que me
envolvi nos últimos anos tem por referência, precisamente, o graffiti hip‑hop,
uma linguagem particular com as suas convenções, modos de fazer e instrumentos
que são reconhecíveis e abundam nas cidades que habitamos.
Quando falamos deste tipo de graffiti falamos de um universo cultural
sustentado por um conjunto de pessoas que partilham uma identidade e um sentido
de comunidade, dispõem de um vocabulário e de uma forma de expressão, conservam
uma série de regras, valores e práticas que, no seu conjunto, servem como
elementos de distinção perante outras comunidades. Aqueles que fazem graffiti
denominam‑se writers. É suposto um writer conhecer e adoptar um modelo
cultural comum a todos aqueles que ambicionam fazer graffiti.
Os writers podem actuar de forma isolada, o que é relativamente raro, ou em
grupo, geralmente integrados em crews. Estas equipas são formadas por jovens
de diferentes idades, proveniências geográficas e sociais.
[7]
Considero que estes colectivos se constituem na sequência de dinâmicas
diversas, que tanto podem privilegiar a heterogeneidade como a homogeneidade do
grupo. Há, claramente, factores que tendem a acentuar o carácter difuso,
fragmentado e móvel destes agrupamentos. A crescente mobilidade física e social
dos actores, a formação de circuitos comunicativos alargados e de redes
virtuais, a constituição de projectos e estilos de vida móveis, parecem
promover a fluidez e impermanência, o carácter compósito destas formações.
Todavia, apesar desta heterogeneidade, em grande parte dos casos as redes
sociais que se estabelecem estão, de alguma forma, vinculadas ao espaço, às
relações de proximidade e vizinhança, à ocupação de territórios particulares.
As diferentes crews podem, deste modo, assumir uma identidade territorial e,
eventualmente, social. A condição etária é outro elemento homogeneizador.
Apesar da diversidade de trilhos que se podem antever neste mundo, existem
regularidades que estão fundamentalmente associadas à idade dos protagonistas.
A biografia de cada um no graffiti articula‑se com os modos de vida
tipicamente juvenis, acompanhando a gradual passagem ao estado adulto e a
consequente alteração de papéis e estatutos sociais. Para além da idade, outro
atributo se revela, imediatamente, como factor de homogeneização importante: o
género. Um breve olhar sobre o campo revela‑nos um horizonte fortemente
dominado pelo sexo masculino, situação que está bem vincada em determinados
traços distintivos desta cultura.
[8]
O graffiti é, essencialmente, jovem e masculino.
O graffiti assume‑se como um veículo de comunicação entre pessoas, um sistema
de comunicação visual, com as suas convenções pictóricas, técnicas e
ferramentas de execução. Institucionalizou‑se enquanto linguagem urbana
críptica, indecifrável pela larga maioria mas reconhecível pelos poucos que a
dominam. Como explica CRAFT:
[ ] a maior parte das pessoas olha para aquilo: vandalismo, puro e duro!
Porque não consegue interpretar nada dali, porque isso exige uma noção de de
de estética sobre as letras que a maior parte das pessoas não tem (entrevista a
CRAFT).
Como qualquer outro produto da actividade humana, o graffiti sofreu mutações
importantes desde os seus primórdios. No entanto, o léxico verbal e icónico da
cultura graffiti continua a manter vivas as referências originais. Refiro‑me
aos tag, throw‑up e masterpiece, este último geralmente substituído pelo termo
hall of fame. Encontramos, todavia, uma maior fusão de referências, mobilidade
e interferência de linguagens que tornam estes formatos cada vez menos
estanques, dispersando‑se em ramificações com alguma peculiaridade e tornando
difícil, por vezes, identificar algumas formas de expressão de acordo com os
critérios tradicionais.
O graffiti enquanto expressão e prática cultural é geralmente simplificado nas
palavras dos seus autores, sendo reduzido a duas vertentes distintas: a ilegal
e a legal. A vertente ilegal, geralmente denominada bombing, pressupõe uma
acção manifesta de transgressão, de violação das normas, através da execução de
graffiti em suportes proibidos. Este pode subdividir‑se em street bombing
(executado nos diferentes suportes da arquitectura urbana) e train bombing
(executado em carruagens de metropolitano e comboio). O princípio que subjaz à
prática do bombing reside, basicamente, no fazer‑se ver, disseminar um símbolo
pela malha urbana, tornando‑o o mais visível possível. A vertente legal está
mais próxima das realizações de índole artística, cuja principal ambição é o
desenvolvimento e exposição das virtualidades técnicas dos autores e não a
infracção. Geralmente o termo legal
[9]
é usado no graffiti por oposição à actuação de natureza ilegal. Estas
categorias correspondem a fórmulas com intenções, atitudes, práticas e
objectivos completamente distintos. Apesar desta divergência, um mesmo
writerpode dedicar‑se às duas esferas de acção, sendo a versatilidade uma
característica valorizada pela comunidade. Vejamos como diferentes
writersdescrevem as distintas modalidades de graffiti:
[ ] o bombing é muito uma afirmação pessoal e para os outros, no sentido em que
eu fui capaz de fazer aquilo, eu atingi aquele sítio, [ ] mandar cenas
brutais naqueles sítios é mesmo uma afirmação pessoal e para te destacares dos
outros, percebes? [ ] O hall of fame é a vertente artística, mostrares o teu
skillcomo designer, como pessoa que gosta de desenhar e criar pieces
abusadíssimos que uma pessoa fica ali: hei! comprava este quadro!
(entrevista a RAPS).
Se calhar nos dias em que vamos fazer bombingachamos que o graffiti é mais uma
coisa de contestação e espalhar uma mensagem. Quando vou fazer um hall of fame
se calhar vejo o graffiti mais como uma arte que ainda tem muito para dar e e
vejo o graffiti mais pelo seu lado técnico e por uma mensagem mais artística,
não tanto como contestação na rua, uma contestação directa (entrevista a
FICTO).
Bombing é mais para para mim é espalhar o nome, o mais possível Hall of fame
é juntar tudo o que nós aprendemos com o bombing, estarmos ali com grande
empenho e dedicação, mostrar os nossos skills, ali ao máximo, uma coisa bem
pensada. Não quer dizer que o bombing não seja pensado, mas o bombingtem de ser
uma coisa rápida, temos de deixar lá a nossa marca, né? [ ] No hall of fame
sinto‑me mesmo mesmo descontraído, a pintar com quem eu gosto, a conviver e a
tentar fazer um bom trabalho, acima de tudo, uma boa cena (entrevista a
SMILE).
Como podemos constatar pelos discursos, a representação das diferentes facetas
que o graffiti pode assumir é relativamente consensual entre os writers. No
entanto, a forma como cada um se implica nestas distintas esferas de actividade
depende de factores de ordem pessoal e contextual que revelam desiguais
horizontes de sucesso e investimento. A prática individual dos writers, que
jogam estrategicamente entre estas duas vias, é essencial para o julgamento
interno e para a hierarquização do campo, como nos explica RAPS:
[ ] aquele gajo abusa mais no hall of fame, faz uns pieces bem melhores, aquele
gajo vai‑se destacar é no hall of fame. O outro que vai fazer as missões mais
arriscadas pode não pintar tão bem em hall of fame, mas, como fez aquela missão
mais arriscada, já espalhou o nome não sei quantas mil vezes, tem não sei
quantos grafs, tipo o F do Porto, o gajo é capaz de ser o maior bomber de
Portugal. Não tenhas dúvidas, a nível de Portugal é capaz de ser dos maiores
bombers, aquele gajo tem grafs em todo o lado e aquele gajo destacou‑se mesmo
por isso, não é pelo estilo, não é pela cena de pintar, é pelo a quantidade de
cenas que tem (entrevista a RAPS).
Apesar desta bifurcação dos campos de actuação, que acompanha a evolução de uma
cultura com mais de três décadas que se foi globalizando, o graffiti tem na sua
génese uma actividade ilegal, um acto manifesto de transgressão. Rezam as
crónicas que o graffiti nasce, oficialmente, nos inícios da década de 1970 em
Nova Iorque, momento em que adquire alguma visibilidade na sequência da
crescente exposição mediática a que é sujeito (Cooper e Chalfant 1984;
Castleman 1982). A edição de 21 de Julho de 1971 do New York Times noticiava
um estranho fenómeno perpetrado por um jovem de origem grega residente em Nova
Iorque, nos seguintes termos: Taki é um adolescente de Manhattan que escreve o
seu nome e o número da sua rua para onde quer que se desloque. Ele afirma que é
algo que tem, necessariamente, de fazer (Cooper e Chalfant 1984: 184). Este
jovem, chamado Demetrios, dedicava‑se a inscrever a enigmática sigla Taki 183
pelas carruagens de metropolitano da cidade. Não se concebe o graffitisem a
existência de uma demonstração aparentemente tão simples como a colocação de
uma mensagem num suporte proibido (não previsto para o efeito). Ainda hoje, a
pertença ao campo e o reconhecimento por parte dos pares passa,
necessariamente, pelo bombing, pelas incursões na ilegalidade, território de
aprendizagem de técnicas, procedimentos e regras de conduta.
O entretanto denominado graffitilegal ou artístico é uma derivação dos
princípios originais do graffiti, o resultado das metamorfoses culturais do
campo. Este tipo de graffiti, mais preocupado com a natureza estética dos
artefactos produzidos e menos com a dimensão subversiva do acto, surge no
âmbito de um série de processos sociais distintos que, ao longo da sua
história, favorecem a emergência de diferentes práticas e expressões de um
graffitisocialmente tolerado. Para este processo em muito contribuíram os meios
de comunicação sociale determinados agentes artísticos (artistas, galerias de
arte, marchands) que, em muitos casos, elevam writersà categoria de artistas
plásticos de sucesso, facilitando a propagação de uma representação do graffiti
que oscila frequentemente entre a arte e o vandalismo. Estas representações são
apropriadas pelos writers que, actualmente, tendem a segmentar este campo entre
o graffitiilegal (mais puro e associado à essência original desta prática) e
o graffitilegal (expressão com ramificações distintas que tendem a
distanciar‑se das lógicas fundadoras, incentivando o convívio com outros
territórios sociais e culturais).
Graffiti enquanto fórmula de comunicação urbana
Quem pinta olha para um tag e identifica aquilo como graffiti, portanto, como
arte no meu caso, e consegue avaliá‑lo enquanto bom tag ou mau tag, ou arte ou
má arte (entrevista a CRAFT).
O graffiti assenta, como vimos, em fórmulas codificadas de expressão. Fazê‑lo
implica conhecer as formas elementares da linguagem para, em primeiro lugar,
saber ler e interpretar e, em segundo lugar, poder produzir e comunicar. Este é
um denominador comum, que todos os membros desta cultura compartilham,
independentemente das práticas a que se dedicam ou da opinião pessoal acerca da
qualidade e pertinência das mesmas.
[10]
Esta é uma linguagem umbilicalmente ligada ao seu suporte, ocupando um lugar
especial na cidade. A arena comunicacional em que adquire sentido reduz‑se ao
espaço citadino, repleto de diferentes códigos e circuitos comunicacionais que
concorrem para a polifonia típica das grandes urbes densamente povoadas e
cosmopolitas (Canevacci 1997). É, pois, na arquitectura da cidade, na malha
social e cultural que se desenha na sua superfície que temos de encontrar a
justificação para a génese e metamorfose deste fenómeno.
Uma digressão atenta à multivocalidade citadina revela‑nos a explosão de
circuitos de comunicação de natureza visual que constantemente reclamam a nossa
atenção, em gigantescos painéis publicitários, em cartazes políticos, nos
estrategicamente posicionados sinais de trânsito, nas apelativas vitrinas das
lojas ou em murais trabalhados por desconhecidos. As imagens, isoladas ou
assistidas pelas palavras e sons, surgem‑nos de diversos ângulos e dos locais
mais inesperados. Se há uma cidade física, também há imaginários urbanos (Silva
2001), que compõem a nossa experiência subjectiva da cidade, uma cartografia
cognitiva e sentimental muito particular.
Se a cidade é o contexto onde relações e culturas particulares se desenvolvem,
também é o território onde formas particulares de comunicar se desenham. O muro
é, desde os tempos mais remotos, suporte privilegiado para a inscrição de
símbolos, sendo apropriado por diferentes pessoas, grupos e instituições, com
objectivos, funções e poderes distintos. Se o muro é lugar de ordem e harmonia,
também é lugar de confronto e desobediência, é objecto de disputa, arena de
confrontos simbólicos e recurso cobiçado (Figueroa Saavedra 2006).
Todavia, o graffiti não vive apenas no muro, nasce nas paredes, nos tectos, nas
janelas, nas portas, nos caixotes de lixo, nas carruagens de metro ou de
comboio, nos vidros e estofos de autocarros, entre outros suportes inanimados
que povoam a geografia urbana. Qualquer superfície é, à partida, legítima desde
que cumpra o requisito fundamental: esteja no espaço público, independentemente
do estatuto da propriedade, ao dispor de todos.
Estas manifestações resultam de uma prática territorializada. O espaço físico
da cidade sustenta uma malha de acções que dão corpo e solidez a uma comunidade
particular. É nas paredes da cidade que os writers ganham vida, adquirem
estatuto e concorrem por lugares de destaque. É nas paredes que estes se dão a
ler, expondo as suas virtudes e fragilidades, sujeitando‑se à avaliação dos
restantes membros desta comunidade. Os territórios da cidade não são, portanto,
vazios de sentido. Os writers e as crews sabem‑no bem. Utilizam o espaço de
forma lúcida e pragmática, com objectivos comunicacionais precisos e com
justificação cultural. A aprendizagem da cultura comporta uma educação do olhar
direccionado para uma leitura da cidade, das suas formas e conteúdos, dos seus
suportes e linguagens, em função de uma praxis.
O writer é um agente que procura na arquitectura os spotsmais interessantes,
busca no mobiliário urbano suportes inteligentes para a comunicação, está
atento aos mais insignificantes tags, conhece as fábricas abandonadas, os spots
mais controlados e os menos acessíveis, familiariza‑se com os yards,
mantém‑se vigilante fiscalizando a movimentação das autoridades, está atento
aos outdoors mais recentes e às paredes brancas. A sua cidade é um repositório
de signos. A sua cidade é um livro aguardando escrita. As citações que se
seguem são elucidativas, relativamente à forma como se usa estrategicamente a
cidade:
[ ] o sítio também é bastante importante, que é a visibilidade que tu tens. Se
fizeres ali naquele sítio ou se fizeres dois metros ao lado, ou noutra parede
o sítio. O sítio é muito importante e hoje em dia tenho muito a noção disso, do
sítio, e quando há sítios que surgem tento logo lá ir mesmo, porque sei que se
eu não for vai lá outro (entrevista a RAPS).
Eu vejo spots que gosto, eu anoto. Eu tenho uma lista de spots que eu quero
fazer. Eu nessas coisas sou um bocado metódica [ ] Eu escolho os spots, p'ra
já, primeiro que tudo, é se eles são visíveis, se forem visíveis é um spot que
eu quero fazer. Depois tem de ser um spot que eu olho p'ra já, acho que há
qualquer coisa, parece que não é uma mística, não é nada disso, mas aquele
spot atrai‑te. Há uns que são mais visíveis que outros, mas há uns que
atraem‑te mais, não sei porquê, e por exemplo acho que em primeiro lugar, é
esse factor de ser visível. Depois se é uma parede boa, ou uma chapa, por
exemplo. Se as chapas são boas, se dá para mandar cores, se é uma parede
razoavelmente boa (entrevista a DONA).
Agir no território do proibido parece ser, invariavelmente, algo que distingue
o graffiti de outras formas de comunicação no espaço público. E aqui surge o
acto de rebelião. E surge igualmente aquilo que é fundamental, e provavelmente
justifica a acção dos jovens nestes territórios, o prazer da transgressão. Isto
quer dizer que aqueles que fazem graffiti habitualmente não inscreveriam essa
mensagem no seu espaço privado. As inscrições em locais não previstos para o
efeito reflectem, de forma mais ou menos consciente, a desobediência a um
normativo que estabelece regras claras num universo comunicacional controlado
por poderes públicos e privados.
Para os writers a cidade é o seu campo de batalha, tomada como espaço de
reivindicação, de manifestação de singularidades identitárias. Pode
estabelecer‑se uma analogia entre a superfície da cidade e a superfície
corporal, matérias visíveis capacitadas de poder de comunicação, apropriadas
por diferentes jovens para exprimirem singularidades colectivas e, em muitas
situações, resistência ou desafio às normas e poderes dominantes. A este
propósito, um paralelismo entre o graffiti e a tatuagem (Ferreira 2007),
inscrições em diferentes epidermes, parece‑me particularmente interessante
para pensarmos a importância da visualidade enquanto recurso político, campo
estratégico fundamental para a expressão de identidades que desafiam as
convenções hegemónicas. Tomar posse da cidade é, neste contexto, uma
manifestação de poder e, simultaneamente, a expressão de uma existência que,
apesar de cilindrada pelo anonimato citadino e pelos poderes que regulam o
espaço urbano, se consegue fazer ouvir (ou ver).
A transgressão simboliza, também, provocação à moral e aos bons costumes. O
acto pode ser levado às últimas consequências com a linguagem obscena e a
iconografia indecorosa, num claro desafio à ordem. A transgressão redunda,
também, em imprevisibilidade e perturbação, surge inesperada, num ápice, em
locais imprevistos e impróprios, causando surpresa a quem passa. As linguagens
de transgressão, nas palavras de Célia Ramos, violam as expectativas da
cultura que predetermina, num texto como o da cidade, como e quando o seu
espaço e tempo podem ser utilizados (Ramos 1994: 44). O graffiti revela,
assim, um duplo sentido comunicacional. Em primeiro lugar, a mensagem, o
conteúdo verbal ou icónico da mensagem com um determinado significado. Em
segundo lugar, a transgressão, que comunica desobediência e recusa da norma. Os
dois estão interligados, pois o conteúdo expresso só alcança sentido enquanto
infracção.
Visibilidade e invisibilidade, anonimato e identidade no Graffiti
O graf não é mais que o tag ampliado a uma escala p'r'aí de 1000 ou não sei o
quê. Porque o tag a cena é seres rápido e teres stylena cena, para não ser um
tag vulgar [ ] espalhares o teu tage não sei o quê e criares impacto, ser uma
cena que chama a vista É o graffiti! É bué egocêntrico, tu queres é que as
pessoas olhem para a tua cena (entrevista a RAPS).
É longa a história dos modos e instrumentos usados pelos poderes instituídos
para exercerem o controlo e a vigilância das populações. O Estado tem vindo a
diversificar e aperfeiçoar os modos através dos quais identifica e vigia. No
entanto, como nota o sociólogo Gary Marx (1999), falar dos processos de
identificação (documentação da identidade individual e simultaneamente da
capacidade de localização do indivíduo) implica falar dos processos de
não‑identificação. O anonimato
[11]
existe nos interstícios de uma sociedade com fortes e rigorosos mecanismos de
identificação, adaptando‑se à evolução dos seus procedimentos.
Como refere Nissenbaum (1999), o anonimato permite aos indivíduos permanecerem
inalcançáveis, localizarem‑se num horizonte resguardado dos olhares. A
associação entre anonimato e diferentes tipos de estigma ou de desvio é
bastante próxima, sendo que o anonimato é utilizado como um recurso estratégico
importante por determinados indivíduos e grupos que partilham uma condição ou
situação que os coloca, de alguma forma, à margem das convenções e regras
dominantes (Goffman 1988; Fróis 2005). Diferentes grupos minoritários ou
marginais desenvolvem processos de ocultação da identidade que lhes permitem
agirem na sombra, sem risco de serem identificados e eventualmente perseguidos
por práticas ou atitudes não conformes à norma.
O graffiti contemporâneo está indiscutivelmente associado à invenção de um acto
de comunicação anónimo, que deriva da índole ilegal que esta prática comporta.
A criminalização e persecução incentivam a inventividade, canalizada para a
criação de estratégias de camuflagem. No mais completo anonimato ou sob
pseudónimo, as palavras e imagens surgem de uma forma que, sendo socialmente
reprovável, necessita da protecção de uma máscara. Ou seja, a mensagem não
assinada confere completa liberdade no uso das palavras (ou iconografia),
colocando o seu autor ao abrigo de avaliações de ordem moral ou de acusações de
ordem criminal. Daí que o graffitiviva literalmente na sombra, sendo executado
essencialmente ao abrigo da noite, sob a protecção da penumbra.
Todavia, no mundo do graffiti a relação entre o anonimato e a identificação é
mais complexa do que parece. O anonimato, como condição, remete para uma
ausência de identificação, facto que não corresponde inteiramente à situação
que analisamos. Em primeiro lugar porque o writer recorre à fabricação de uma
personagem, imbuída de nova identidade e personalidade, que suspende a
identidade oficial. No graffiti aquilo que encontramos é a criação de um
pseudónimo, uma nova identificação que corresponde a um alter-ego reconhecido
pelos membros da comunidade. A assinatura desvenda o acto imputável a uma
personagem forjada, encobrindo o indivíduo oficialmente reconhecido. Em segundo
lugar porque o anonimato se destina basicamente ao mundo exterior, que pode ser
entendido como agressor. A face encoberta pela máscara criada é, geralmente,
conhecida pelos membros da comunidade mais próximos. Basicamente, procura‑se
preservar o anonimato do writer perante o exterior, salvaguardando a sua
intangibilidade. Em terceiro lugar, apesar do aparente paradoxo, a acção do
writer parece constituir uma voz fracturante que se insurge contra o anonimato
urbano.
[12]
Ou seja, recorrendo a estratégias de ocultação conhecidas, o writer inventa
uma nova identificação (e identidade) que deve ser exposta na superfície da
cidade, ostentada de forma maciça, reconhecida enquanto denominação e sigla
pictórica. Ser‑se nomeado, reconhecido no meio da multidão anónima é a causa
que move grande parte daqueles que fazem graffiti:
[ ] é preferível quase ter um graf no sítio certo do que teres vinte ou trinta
grafsespalhados à toa, é preferível, porque é a visibilidade. Tu fazes o graf
para quê? Para as pessoas verem (entrevista a RAPS).
Como vimos, a cultura graffitinasceu no seio do movimento hip‑hop
norte‑americano há mais de três décadas, tendo alcançado alguma notoriedade
pública quando os meios de comunicação social nova‑iorquinos relataram o
enigmático fenómeno representado pela multiplicação da sigla Taki 183. Taki
seria o diminutivo do nome de baptismo do jovem Demetrios, enquanto o 183
corresponderia ao número da rua onde este habitava. Através desta operação de
composição de um pseudónimo, o tag, este jovem dava origem a uma acção que foi
seguida por muitos outros que, com siglas compostas com uma estrutura
semelhante (nomeadamente Frank 207, Chew 127e Júlio 204), se dedicavam a
assinalar a sua marca na cidade (Castleman 1982).
O tag surge da mente engenhosa de alguém que necessita de preservar a sua
pessoa e, simultaneamente, de publicitar a sua pessoa, num exercício algo
paradoxal. Este é inventado a partir de uma condição aparentemente
incongruente, em que alguém procura alcançar a fama mantendo‑se invisível. O
dilema é resolvido com o recurso aos processos inaugurados pela publicidade de
massas, ou seja, pela saturação de uma marca no espaço, marca essa que serve de
símbolo a algo ou alguém. É da relação entre o visível e o invisível que nasce
o tag. Criam‑se códigos, apenas conhecidos e reconhecidos por alguns, que
permitem aos seus autores alcançar a fama sob anonimato.
Apesar de ser menos comum, um writer pode optar por incorporar vários tags, o
que é indicador, geralmente, de uma personalidade múltipla no mundo do graffiti
(os múltiplos tags funcionam como heterónimos que indiciam distintas facetas de
actuação). Um writer pode, ainda, ir assumindo diferentes tagsao longo da sua
biografia neste meio, num processo curioso de extinção e (re)nascimento.
Quando acontece, a adopção de novos tags ocorre geralmente por duas razões: em
primeiro lugar, pela saturação do tag, que pode gerar cansaço e restringir a
actividade criativa do sujeito, exigindo uma operação de renovação da sigla
identitária; em segundo lugar, por uma estratégia que visa desorientar as
autoridades policiais.
O tag representa uma forma codificada de identificação. É uma colecção de
letras cuja composição pretende servir para designar alguém que pertence à
comunidade de writers.
[13]
Supõe, portanto, a substituição da identificação oficial, habitualmente o nome
de baptismo, reconhecido pelas instâncias oficiais e pela sociedade, por uma
identificação que apenas é (re)conhecida por um número limitado de pessoas.
Isto não significa que esta identificação seja ignorada por todos aqueles que
não pertencem a este núcleo. Indica, contudo, que são obscuros os termos de
descodificação. Ou seja, o cidadão comum não sabe ler um tag, nem consegue
estabelecer a ligação entre o código e a entidade física de referência, o seu
autor.
A concepção de um nome, que resulta de um processo aparentemente simples e
espontâneo, carrega uma carga simbólica importante e marca a transição para um
novo campo social, com as suas lógicas internas. O primeiro passo para a
aceitação nesta comunidade dá‑se, então, através desta operação mágica de
extinção da identidade oficial (marcada por uma biografia e um nome de
baptismo) e pela criação de uma nova identidade que corresponde a um novo ser,
com uma biografia ainda por traçar. Esta capacidade criadora investe o agente
de um poder novo, nas palavras de Babo:
Dar nomes às coisas faz parte de um poder atribuído, desde Crátilo, ao
Onomaturgo, aquele que está investido do poder de nomear. Diz‑se da arte do
graffiti que é a arte do autógrafo e é como autógrafo ou assinatura que ele
pode ser entendido. Ora, o tagé performativo nessa dimensão, já que ele se
arroga esse direito onomaturgo de nomear (Babo 2001: 227).
Revelar‑se na assinatura de um alter-ego concebido ao abrigo de fantasias
pessoais empossa o seu autor de uma espécie de poder divino, outorga‑lhe
jurisdição sobre o ciclo da vida e morte da personagem, sobre as suas opções de
vida. Esta operação determina que, neste universo, o indivíduo é tão
responsável pela elevação do seu nome como pelas acções que lhe são imputadas.
O writer é, então, o seu tag. Este deve sentir‑se bem na pele e na máscara que
criou, em sintonia com o conjunto de letras que serve de identificador perante
os companheiros. A partir do momento em que se assume um identificador perante
a comunidade, é dever de todo o writer preservar, defender e honrar o seu tag,
procurando elevá‑lo a uma categoria superior.
Dar‑se a ver é, portanto, um acto heróico, o culminar de um processo em que
alguém concebe um alter-ego e desvenda a sua existência, ostenta a sua
presença, resistindo às adversidades e superando todas as contrariedades
(autoridades policiais e vigilantes, obstáculos físicos, conflitos grupais,
etc.). Em diversas situações me apercebi da forma como os writers se concebem
como uma espécie de heróis modernos, enfrentado todos os perigos e vilões,
fiéis a uma missão e vocação que é difícil contrariar.
[14]
Esta representação heróica da actividade é especialmente relevante no caso do
graffitiilegal, em que as missões funcionam como simulacros de situações que
remetem para imaginários cinematográficos e alegorias belicistas, contextos
particularmente adequados à exibição de actos de bravura e à consagração dos
mais valorosos.
O tag é usualmente composto por um conjunto disperso de letras que podem não
corresponder a um signo linguístico (com significado e significante).
[15]
Geralmente, quando é o resultado de alguma reflexão, é escolhido em função do
impacto verbal ou visual que transporta. Os termos usados, quando comportam um
significado verbal, invocam ideias, imaginários, sensações que, por alguma
razão, são queridos ao seu autor e servem de qualificação individual na
comunidade, conferindo à nova identidade um sentido preciso, uma designação que
carrega um determinado desígnio, como confidenciou FIRE:
FIRE neste momento é o meu nome principal, é o meu nome, FIRE, é o nome que as
pessoas respeitam [ ] VODU, o FIRE, o ENEMY, têm todos a ambição de serem um
nome forte, respeitado. FIRE é um nome mítico, n'é?, o fogo. FIRE é o fogo, é
um elemento decorativo na roupa, em inúmeros graffitis, em desenhos, em
publicidade, em tudo. FIRE é um nome fortíssimo, e eu adoptei esse nome para
ser também um nome forte em graffiti (entrevista a FIRE).
Esta identificação com o tag é importante, na medida em que permite ao autor
criar uma carreira, uma memória ou um certo sentido alegórico para a sua
actuação enquanto writer. Muitos, à falta de outras motivações, decidem‑se por
um corpo apelativo de letras, flexível e rico em termos de potencial pictórico.
DONA justifica a criação do seu tag nos seguintes termos:
Acabei por ficar com aquele nome: DONA, e depois achei que DONA é um nome
forte. É bué importante o nome que tu escolhes, é bué importante as letras.
Para já tem letras mais razoavelmente boas. O D é bom, o A é bom, porque
depois temos que escolher as letras que dê para nós partirmos daí [ ] E DONA é
um nome que tem poder, um nome que tem força, é sempre DONA de qualquer
coisa, [ ] está sempre por cima, digamos assim. Eu acho isso importante, é um
nome forte, depois é um nome que Por exemplo, lês DONA parece que fica na
cabeça, é um nome tem força! (entrevista a DONA)
A relevância de um writer provém, então, da notoriedade alcançada pelo seu tag.
A relação mágica que se estabelece determina que o poder do nome seja
equivalente ao poder do ego. O nome eleva o ego. O nome é a matéria‑prima, o
objecto de trabalho, dedicação e aperfeiçoamento, a razão de ser de uma prática
cultural e de uma cultura.
[16]
O tag assume, assim, uma dimensão sagrada, é um elemento que deve ser
respeitado. Quanto mais visível, ornamentado e imponente for o tag, mais
crédito concede ao seu detentor:
É um dos grandes objectivos Eu acho que não é verem o nome, mas terem respeito
por esse nome, por exemplo um gajo que pinta muito, pinta é assim mesmo
vândalo, pinta grandes bombas e comboios e não dá hipótese, toda a gente
fica: epá, esse gajo! Ele abusa mesmo, porque tem grande estilo e faz cenas
mesmo abusadas e está por todo o lado E têm mais respeito por esse nome
(entrevista a CRIA).
Daí que o desrespeito e a desonra no mundo do graffiti estejam, basicamente,
associados à violação do tag, sendo esta prática uma clara demonstração de
desprezo por alguém que pertence à comunidade. Como afirma FIRE:
O que nós pomos na parede é o nosso nome. Se alguém toca naquilo que nós
fazemos, é connosco que está a falar [ ] Se alguém nos pisa vamos ter de ser
confrontados com isso. É a nossa imagem, é o nosso bem‑estar dentro do
graffiti que está em causa (entrevista a FIRE).
À dupla face do writer corresponde, igualmente, uma vida dupla, uma existência
dividida entre, por um lado, as actividades rotineiras aceites pelas normas da
sociedade e, por outro lado, as actividades camufladas, ao abrigo da vigilância
das autoridades e da crítica da sociedade. Como mencionava um dos writers
entrevistados, durante doze horas por dia sou uma coisa vá lá, das 9 às 5 sou
uma coisa, a partir daí sou uma pessoa dograffiti.Esta duplicidade é regulada,
com maiores ou menores atritos, em função das circunstâncias e dos modos como
vivem o quotidiano. Com frequência emergem conflitos, episódios fracturantes,
dinâmicas que obrigam a uma reavaliação das implicações individuais no
graffiti:
A escola, pronto Fodeu‑me um bocado a vida, o graffiti. Mas isso é porque eu
sou preguiçoso, percebes? Porque há pessoal que faz a escola, faz o graffiti,
sai à noite, faz tudo. Pessoas organizadas, percebes? Só que eu não, meu [ ]
Família, pronto, [ ] já tive uns problemas, quando a minha mãe se passava da
cabeça: Ah, tu já não pintas mais! e o caraças. E eu: Tá bem. Mas já houve
uma altura em que eu disse mesmo: Mãe, eu vou continuar a pintar, por muito
que tu queiras ou não, por muito que me dês dinheiro ou não. E disse‑lhe e
ela percebeu isso e ela sempre gostou, estás a ver? Só que a irritava o facto
de estar sempre a ir parar à esquadra. Eu disse‑lhe: Pá, mãe, é uma coisa que
eu não consigo evitar, eu nunca hei‑de de deixar de pintar, é a mesma coisa
que tu nunca hás‑de deixar de ver televisão, percebes? Eu disse‑lhe logo
isso desde puto. Podia levar chapadas mas eu avisei logo, mãe, isto é assim.
Viu logo que eu tinha amor à cena (entrevista a NIUS).
Este equilíbrio depende da actuação no universo do graffiti e do tipo de
constrangimentos que decorrem da vida extra‑graffiti. Assim, aquilo que o
writer é fora do graffiti determina em grande medida aquilo que é dentro do
graffiti e vice‑versa. Os dois pólos estão mutuamente implicados e
alimentam‑se reciprocamente, numa dinâmica harmoniosa ou conflituosa. Para se
fazer graffiti não é necessário abdicar da outra vida. Todavia, na maioria
dos casos, existem tensões que são difíceis de solucionar.
Estas antinomias tendem a esbater‑se ao longo do tempo. Nos seus discursos, a
maioria dos writers activos define o graffiti como um modo de vida. Muitos
organizam o quotidiano em função desta actividade, assumindo a sua centralidade
no presente. Com a transição para a idade adulta esta centralidade é
progressivamente questionada, facto que comporta o abandono ou reconversão da
carreira. A reconversão determina, geralmente, uma opção por práticas que
embora vinculadas, simbólica e socialmente, ao graffiti, se situam num terreno
apartado da actividade ilegal. Deste modo, muitos writers,com o gradual
alargamento da carreira no tempo, acentuam o seu envolvimento em actividades de
graffitiartístico e semilegal, alguns tentando mesmo compatibilizar este
universo com as exigências de natureza profissional (por exemplo, desenvolvendo
uma carreira profissional na área das artes visuais).
Quanto mais um writer se dedica à actividade ilegal, quanto mais investe em
tempo, energia, dinheiro e emoções, mais provável se torna o surgimento de
pressões, incompatibilidades e cisões entre a vida do graffiti e o universo
exterior. Esta é, literalmente, uma distinção entre os aspectos diurnos
(escola, família ou emprego) e nocturnos(graffiti realizado ao abrigo da noite
e da vigilância) da vida dos jovens, remetendo para a distinção efectuada por
Pina Cabral (2000), que aludia a estas duas dimensões da vida sociocultural.
Recorro às suas palavras:
Devemos diferenciar entre um aspecto diurno da vida sociocultural, ao qual
correspondem as pessoas, coisas, processos e significados que recebem maior
legitimação, e um aspecto nocturno que corresponde aos que são reprimidos e não
encontram uma forma óbvia de expressão (Pina Cabral 2000: 875).
Os problemas que os writersenfrentam são de diversa ordem e ocorrem por
diferentes razões. De forma a lidar com os distintos obstáculos, esta cultura
desenvolveu uma atitude preventiva assente em modelos estratégicos de contorno
da vigilância e da punição. Agir silenciosamente na sombra, assumir a
invisibilidade como factor de protecção, são factores importantes para o
sucesso. Esta estratégia de prevenção passa, em primeiro lugar, pela adopção de
um tag, que protege a identidade dos prevaricadores. Em segundo lugar,
pressupõe o aprofundamento de estratagemas locais que visam um conhecimento do
território e dos seus actores, uma vigilância dos vigilantes (noção das
rotinas e procedimentos das forças policiais e dos seguranças privados, dos
movimentos dos habitantes citadinos, dos horários de comboios e metropolitanos,
etc.). Dominar os circuitos urbanos e os seus actores (adjuvantes e oponentes)
é fulcral para uma carreira sem contratempos de maior. Ver sem ser visto é uma
forma de poder (Robins 1996). Ora, os writers procuram ser invisíveis vigiando
o mundo visível e os seus agentes. Das fronteiras nocturnas vão desvendando as
circularidades diurnas habitadas por perigos diversos que importa prever,
ultrapassar, conquistar.
Como vimos, o graffiti representa um território de transgressão e subversão, de
excessos e riscos vários, de intenso prazer e emoções à flor da pele, que
contrasta com as restantes actividades do quotidiano, rotineiras, regradas e
vigiadas por instâncias diversas. Esta dimensão nocturna da vida de muitos
jovens encontra‑se em muitas das denominadas tribos juvenis, pois, como
refere Machado Pais,
Em sociedades sujeitas a uma planificação, ordenamento e controle acentuados, a
tentação é a de subverter as ordens institucionais [ ] O que se passa é que os
jovens se sentem particularmente atraídos por tudo o que excita os sentidos,
inclusive quando essa busca de excitação se realiza mediante condutas de risco
(Pais 2002: 22).
Ferrell (1996) notou esta espécie de excitação incandescente presente nas
actividades do graffiti que, à semelhança de outras culturas juvenis urbanas,
encontram nestas acções uma compensação ao tédio da vida quotidiana. A
transgressão recreativa (Ferrell 1996) gera este tipo de sensações e uma
ritualidade muito própria, carregada de adrenalina e extremamente viciante.
Por diversas ocasiões ouvi animados relatos de episódios que revelam a
intensidade e o prazer associados ao risco, à satisfação decorrente da
transgressão e da concretização de tarefas complexas. As fugas à polícia e aos
seguranças privados, as ocasionais cenas de violência envolvendo crews rivais
ou os muitos acidentes que ocorrem, transformam a actividade num jogo perigoso
que, para muitos, é uma obsessão. Trata‑se de uma cultura que joga nos
limiares do socialmente aceitável e da legalidade, que promove a transgressão
e, em certo sentido, a transcendência ' vencer barreiras sociais e legais,
dominar os medos e incapacidades, superando os limites que são impostos ao
sujeito. As palavras de alguns writers a propósito de bombing no metropolitano
e nos comboios, actividades que condensam uma série de elementos que as definem
como as mais perigosas, são elucidativas:
É a cena mais brutal que existe. Eu lembro‑me que cada vez que eu pintava um
metro eu saía de lá, tipo Man, onde vamos curtir agora? Isto é até amanhã!
[ ] Ficas mesmo eu pelo menos, ficava bué feliz da vida [ ]. É tudo cenas que
tu depois não consegues explicar porque estás a sentir aquilo, percebes? Quem
gosta, gosta. Quem não gosta, olha, que desista! (entrevista a NIUS)
E eu acho que train bombing, por ser das cenas mais arriscadas, é a cena que
mais pica me dá, percebes É como é que eu hei‑de dizer? É o ponto máximo
da adrenalina, estás a ver? Tu estás a arriscar, tu vais arriscar, tu sabes que
podes ser apanhado, mas quando vês um train a girar como vimos agora é tipo é
alta emoção. Tu nem imaginas o que um gajo sente. [ ]. É uma cena do outro
mundo e é bué da bom quando tens amigos teus que percebem do graf e que não
sabem que tu foste fazer e vêem na linha e mandam‑te um props, telefonam‑te,
ou mandam uma mensagem,whatever (entrevista a MASK)
Conclusão
As culturas juvenis têm sido observadas como entidades sociais relativamente
plásticas, particularmente produtivas na reconfiguração dos figurinos estéticos
e simbólicos, na (re)invenção das práticas do quotidiano (Pais 2005; 1993; Pais
e Blass 2004; Feixa 2006; Amit‑Talai e Wulff 1995; Willis 1990). Paul Willis
(1990), numa análise às culturas juvenis, introduziu a expressão trabalho
simbólico, aludindo à actividade humana através da qual é produzido
significado pelo recurso a diversas matérias‑primas, simbólicas e materiais,
disponíveis no ambiente social e cultural. Segundo este autor, o trabalho
simbólico é essencial para a construção das identidades sociais dos jovens,
sendo um importante mecanismo de reconhecimento e catalogação social. Para
Willis, o trabalho simbólico dos indivíduos conjuga diversos elementos: em
primeiro lugar, os instrumentos da linguagem, do corpo, do drama; em segundo
lugar, a criatividade simbólica,processo através do qual se engendram
significados e identidades recorrendo a diferentes estratégias e materiais.
Estes elementos são fundamentais, na medida em que muitos dos recursos
tradicionais de, e das bases herdadas para, o significado social, pertença,
segurança e certeza psíquica, perderam a sua legitimidade para uma boa
proporção de jovens. Não mais existe o sentido de uma cultura total com lugares
definidos e um sistema de valores universal partilhado (Willis 1990: 13).
Deste modo, o trabalho simbólico e a criatividade simbólica permitem produzir e
reproduzir identidades individuais, situar as identidades sociais num contexto
histórico e social e, por último, transmitir um sentimento de vitalidade e
agência, uma noção da capacidade de actuação do indivíduo no mundo (Willis
1990). A comunicação na parede, tal como aquela que surge através de outros
canais, como por exemplo o corpo, resulta de uma apropriação das matérias ao
dispor da juventude, num processo criativo de bricolage com profundo
significado semiológico (Hebdige 1976).
A rua é, neste contexto, um recurso crucial para os jovens, reivindicada como
espaço de criatividade e emancipação, onde as ritualidades juvenis aparecem
como uma espécie de celebração da diferença e da autonomia (Pais 2005:
62‑63). Os muros estão pejados de inscrições enigmáticas que desvendam a
existência de grupos que usam a cidade para comunicarem e adquirirem estatuto
no seio de uma comunidade que se protege dos olhares externos.
O anonimato faz parte do jogo. Formular um nome confere poder e um sentido de
destino que está ausente no nome de baptismo, outorgado por outrem. O writer é
o único responsável por esta criação e pela carreira associada ao nome. O
graffiti oferece aos jovens a possibilidade de jogarem com as identidades,
definindo estratégias em que a dimensão lúdica está presente, no gozo da
recriação de papéis e máscaras. Sob estas máscaras, o proibido é permitido. A
marginalidade, a incursão pelos aspectos nocturnos e reprimidos da vida social
(e psicológica) adquirem para estes jovens uma centralidade que se opõe à
centralidade hegemónica imposta pela moralidade dos adultos e dos poderes
instituídos. Esta é uma nova centralidade, sob a qual orbitam relações
emocionais, estados gregários, normas de conduta e uma ética que contribuem
para formar o ser social. Entre jovens definem‑se regras e condutas,
moldam‑se ideologias, aprendem‑se modos de fazer. Este espaço à margem é,
assim, território de socialização, de aprendizagem de papéis e de
experimentação social.
Ser writer implica abraçar uma realidade à margem, perigosa e socialmente
censurada. O percurso espinhoso é, aliás, um dos ingredientes fundamentais à
compreensão de um universo cultural que glorifica uma imagem heróica de writer,
personagem que deve transpor todas as resistências para alcançar os seus
objectivos e a aclamação dos seus. As recompensas são unicamente de natureza
simbólica, afectiva e social, derivam de uma aceitação na tribo, da valorização
de um nome erigido com base no mérito pessoal.
[17]
Esta é uma carreira que se constrói à margem dos padrões hegemónicos e
normativos dominantes, perturba a lei e a lógica da organização urbana,
subverte os paradigmas estéticos.
O writer é um bom exemplo da forma como as identidades podem ser construídas e
reformuladas integrando, simultaneamente, dimensões legitimadas pela hegemonia
e rejeitadas por esta. O writer aprende a gerir esta duplicidade ontológica,
entre uma identidade visível, cumpridora de papéis socialmente reconhecidos
como válidos (filho, aluno, vizinho, etc.), e uma identidade invisível, criada
no reduto de uma cultura que se protege e que define internamente os trâmites
para a fabricação de novas identidades e papéis sociais. Escapar aos olhares da
sociedade e à vigilância das autoridades é, desde logo, uma aprendizagem básica
que todos os iniciantes neste universo têm de fazer sob pena de não singrarem
no meio. De certa forma e como diversos autores puseram em evidência (MacDonald
2001; Ferrell 1996), este jogo que se estabelece entre os writers e a
autoridade é a força motriz para muitos dos que se dedicam ao graffiti ilegal.
[18]
Contornar a vigilância, desafiar o poder e o aparelho ao seu serviço,
ultrapassar os constrangimentos, adquirindo estima na comunidade writer, são
situações que justificam a dedicação a esta causa. O mérito é alcançado, em
grande medida, pela capacidade de definir estratégias de actuação na sombra,
pela elegância com que se contorna a lei e se desafia a ordem.
A incursão por este mundo revelou‑me o writer como uma espécie de super‑herói
do mundo nocturno, alguém que domina as vielas e que se move nos subterrâneos,
que espia as autoridades e escapa aos mais variados perigos. Este assume uma
vida dupla. Numa operação mágica investe‑se de uma máscara que lhe confere
poderes acrescidos e o direito a ingressar num mundo restrito. Como qualquer
super‑herói, transcende as limitações humanas, supera a normalidade e finta as
rotinas que fazem da vida diurna um mundo de tédio e constrangimentos vários.
Os writers vivem uma vocação e uma missão, como muitos testemunharam por
palavras sentidas. Daí a enigmática inscrição do writer OBEY que, recentemente,
acompanhava um graffitiem Lisboa e que, agora, adquire todo o sentido: A man
with a mission so, don't fuck with me.
Breve Glossário
Bombing
Graffiti de natureza ilegal. É comum distinguir entre street bombing (ou
bombingde rua) e train bombing (ou bombingem comboios).
Bomber
Writer que faz bombing.
Crew
Um grupo de writers que pinta em conjunto, formando uma equipa que adopta uma
sigla que a identifica no meio.
Graf
Abreviatura de graffiti.
Hall of fame
Graffiti, realizado na maior parte dos casos em paredes legais ou pouco
expostas. Resulta numa execução de grandes dimensões e com maior complexidade
pictórica.
Props
Dedicatórias que podem acompanhar um graffiti.
Spot
Local onde o writerpinta (ou local potencial para a execução de um graffiti).
Tag
É o pseudónimo do writer, o nome que este adopta no meio. O termo tag
aplica‑se também à assinatura (fazer um tag ou tagar).
Writer
Alguém que pinta a aerossol de acordo com uma série de regras e convenções,
sendo portanto reconhecido como membro de uma comunidade que faz graffiti.
Yard
Parque de estacionamento para material ferroviário circulante.
Tagar
Espalhar o tag.
Train
Comboio.