Homogamia, distância global e educativa entre os cônjuges
Introdução
O panorama nupcial português mostra que, ao longo do século XX, a nupcialidade
conheceu dois períodos distintos. Nos primeiros 40 anos do século, verificaram-
se as baixas taxas de nupcialidade, comuns nos regimes tradicionais e que
resultavam da eficácia das estratégias de limitação do casamento praticadas com
o intuito de controlo da natalidade (Bandeira, 1996). A partir dos anos 40, o
mercado matrimonial torna-se mais dinâmico e aumentam progressivamente as taxas
brutas de nupcialidade, para atingirem os seus valores mais elevados em 1975,
11,3‰ (INE, 2014b). Esta subida reflete um processo de liberalização do acesso
ao casamento que se traduz no rejuvenescimento da idade média ao primeiro
casamento e na diminuição do celibato (Bandeira, 1996).
O abrandamento das tradicionais restrições de acesso ao casamento impulsionou a
livre escolha do cônjuge e, por conseguinte, a subida das taxas de
nupcialidade. Todo o mercado matrimonial foi revitalizado com a passagem de
testemunho do poder de decisão quanto a quem casa com quem.
Na década de 1960, é a vaga emigratória que acentua a liberalização do acesso
ao matrimónio. Este efeito paradoxal deve-se, principalmente, a dois motivos.
Por um lado às características do próprio movimento, pois corresponde a uma
emigração de proximidade (sobretudo para países europeus). Por outro lado, este
movimento transforma os jovens portugueses, antes trabalhadores rurais nas
propriedades agrícolas familiares, em trabalhadores assalariados.
Os jovens portugueses passaram a reunir as condições económicas necessárias à
constituição de um novo agregado familiar e a liberdade social para escolherem
com quem o pretendiam fazer. A liberdade de escolha passou a ser influenciada
prioritariamente pelo sentimento amoroso, o que, teoricamente, poderia ter
conduzido a uma subversão dos determinismos sociais que tradicionalmente
impunham uniões “entre iguais”.
Em 1959, Alain Girard, do Institut National d’Etudes Demographiques, dirigiu um
inquérito sobre a escolha do cônjuge em França, concluindo que, não obstante o
direito à livre escolha de um parceiro, se mantinha a tendência de as pessoas
procurarem unir-se a um seu semelhante, ou seja, a regra homogâmica continuava
a regular a formação de casais. Com uma metodologia pioneira neste âmbito,
Girard torna mensurável a distância global entre os cônjuges, permitindo
simultaneamente a identificação das variáveis em que se verifica maior
proximidade ou maior distância (Girard, 1981 [1959]).
O trabalho que aqui se introduz tem por objetivo conhecer as estratégias
individuais face à distância entre os cônjuges, através da valorização de
qualificações e aquisição de novas competências. Contribuindo para o
conhecimento de uma problemática que, em termos científicos e no panorama
nacional, não tem sido muito explorada, este trabalho incide, concretamente, na
forma como o processo de reconhecimento, validação e certificação de
competências (RVCC) poderá fazer parte de uma tentativa de aproximação do
adulto aos capitais escolares do seu cônjuge e/ou de outros parentes em
primeiro grau.
Nesta modalidade de qualificação — o processo de RVCC — valorizam-se as
aprendizagens efetuadas ao longo da vida. Cada indivíduo percorre um trajeto de
demonstração de saberes para obter a certificação de um nível de escolaridade.
Assim, este sistema provoca alterações àquilo a que Kellerhals et al. (1982) se
referiram como sendo o dote escolar. Enquanto a metodologia de Girard incidiu
sobretudo na comparação dos cônjuges quanto ao estatuto herdado (capitais
familiares), Kellerhals et al. consideraram que o estatuto que cada indivíduo
adquire ao longo da vida se reveste de maior importância após a massificação do
ensino que permitiu a igualdade de oportunidades escolares. Assim se conferiu
uma nova dimensão ao estudo da homogamia.
Esta perspetiva de Kellerhals et al. parte do pressuposto de que o sucesso no
processo de escolarização aumenta a probabilidade de mobilidade social através
de um casamento entre cônjuges provenientes de famílias com capitais distintos,
mas entre indivíduos com semelhantes dotes escolares.
Desta forma, este estudo gira em torno de três conceitos fundamentais que
importa esclarecer. O primeiro é o conceito de homogamia que aqui é adotado
como a tendência dos cônjuges valorizarem a existência de características
sociais comuns na seleção do cônjuge (Singly,1987a). O segundo é o conceito de
distância global, ou seja, quão distantes são os cônjuges relativamente a um
conjunto de características sociais (Girard, 1981 [1959]). Por fim, o terceiro
conceito, o de distância educativa, é neste estudo aplicado como dizendo
respeito à diferença entre os cônjuges quanto ao nível de escolaridade, questão
anteriormente analisada no contexto português por Almeida, Sobral e Ferrão
(1997) e por Rosa (2008).
Tomando o trabalho de Girard (1981 [1959]) e de Kellerhals et al. (1982) como
ponto de partida, este estudo testa duas hipóteses: (1) enquanto característica
individual de natureza mutável, o nível de escolaridade é uma das variáveis que
mais contribui para a distância global entre os cônjuges; (2) o investimento na
escolarização através do processo de RVCC reduz a distância educativa entre os
cônjuges. Procurando explorar as hipóteses enunciadas, o trabalho empírico
baseia-se na reconstituição e análise dos percursos escolares, conjugais e
familiares de 289 adultos em processo de RVCC na Grande Lisboa, no ano de 2009.
Homogamia e heterogamia na escolha do cônjuge
A homogamia, segundo Singly (1987a: 27), determina que “duas pessoas com
características sociais idênticas se escolham com mais frequência do que duas
pessoas diferentes” ou, por outras palavras, a eleição de “alguém próximo, um
par, uma pessoa que pertence ao mesmo contexto social” (Almeida, 1995: 107).
O caminho percorrido desde os casamentos “arranjados” que caracterizavam as
sociedades pré-industriais, e desde a visão da família europeia enquanto uma
unidade de produção económica, até à valorização dos laços afetivos e conjugais
(Almeida, 1995) induzirá que o amor foi o grande vencedor da batalha pela livre
escolha do cônjuge. Quando a seleção do parceiro era desprovida de afeto,
seguindo critérios de propriedade e linhagem (Shorter, 1975), era compreensível
que os níveis de homogamia fossem tão elevados, principalmente nas classes
superiores onde, mesmo no século XX, a escolha do cônjuge era o resultado de
uma estratégia hermética de manutenção de riqueza (Roussel, 1975).
Contudo, estudos mais recentes, do período pós-industrial e realizados sobre a
sociedade portuguesa, continuam a verificar a regra homogâmica (Almeida, Sobral
e Ferrão, 1997; Rosa, 2004, 2008).
Um forte contributo para a subsistência desta regra é o papel das cenas de
encontro. A questão geográfica assume tanta importância que é apontada por
Kellerhals et al. como sendo a interpretação probabilística para a homogamia.
[1] De acordo com esta linha de pensamento, a homogamia é fruto de uma
probabilidade: se pessoas semelhantes frequentam e se movimentam nos mesmos
espaços sociais, a probabilidade de cruzamento com um par é superior à
probabilidade de cruzamento com um ser com características díspares (Kellerhals
et al., 1982). Quer isto também dizer que “cena de encontro atípica, escolha de
cônjuge atípica” (Bozon e Héran, 1988: 139).
Assim, a heterogamia, por sua vez, significa a tendência para as uniões entre
pessoas com características díspares e, existindo, importa conhecer a natureza
dessa diferença. Quando o homem apresenta um capital global superior ao da
mulher estamos perante o fenómeno de hipergamia (o tipo de heterogamia mais
comum). Se a balança pende a favor do sexo feminino, fala-se em hipogamia. A
prevalência da hipergamia explica-se pelos papéis sociais distintos que homem e
mulher ocuparam ao longo dos últimos séculos. A evolução das sociedades
modernas ocidentais ditou que a mulher se mantivesse relativamente à margem da
escola e do trabalho, em Portugal, pelo menos até à década de 60 do século XX
(Almeida, 1995). Nas últimas décadas “o aparecimento de mulheres trabalhadoras
de sucesso e de maridos que cuidam da casa desarranjou as classificações de
classe tradicionais baseadas no homem como fonte de sustento de um agregado
familiar dependente” (Giddens, 2008: 301). Este “desarranjo” conduz aos casos,
cada vez mais frequentes, de hipogamia.
Efetivamente, uma significativa parte das uniões são heterogâmicas. A análise
da homogamia de per si não dá conta das trocas que ocorrem no mercado
matrimonial, isto porque nem todas as uniões são entre seres semelhantes e
porque homens e mulheres não procuram o mesmo de um casamento (Singly, 1987a).
Dessa forma, afigura-se tão interessante estudar a homogamia quanto a
heterogamia.
Homogamia e heterogamia ao longo da vida a dois
Homogâmico ou heterogâmico, o casamento implica um trajeto protagonizado por
dois seres, e este poderá tornar os cônjuges mais próximos ou mais distantes no
que respeita a variáveis-chave. Crê-se, à imagem do pressuposto de Kellerhals
et al., que a partilha e a interação entre dois seres pode ser representada por
duas linhas com uma distância entre si que se altera com o passar dos anos
(Kellerhals et al., 1982). “O casamento não suprime as propriedades respetivas
dos cônjuges” (Singly, 1987a: 9) e o afastamento das linhas que os representam
poderá não ter qualquer relação com um afastamento afetivo. Apesar de a
sociologia do divórcio frequentemente indicar a heterogamia como causa das
separações (Singly, 1987b), em rigor, o afastamento das linhas que representam
os cônjuges significa apenas que nesse determinado momento as características
comuns são em menor número do que outrora, isto porque “um casal homogâmico
socialmente no início de carreira conjugal não o será necessariamente no fim”
(Singly, 1987b: 182).
No mercado matrimonial cada um joga os seus trunfos e vê reconhecido o seu
valor social (Singly, 1987b). A montante, o estatuto herdado condiciona
fortemente o matrimónio, a jusante o estatuto adquirido revoluciona os termos
em que se desenrola a escolha do cônjuge. Os trunfos de cada indivíduo estão
relacionados tanto com o estatuto herdado (herança cultural, social e
económica) como com o estatuto adquirido do indivíduo, donde se salienta a
importância do dote escolar, que se repercutirá na posição socioprofissional.
Daí que Goode (1970: 66) refira que “o estudante talentoso e pobre, por
exemplo, é aconselhado a casar tarde, porque depois de comprovada a sua
capacidade, ele poderá encontrar melhor partido”.
A herança familiar não se altera, é imutável, mas ao nível individual existem
atributos mutáveis e imutáveis. Efetivamente, não é possível alterar a idade, a
pertença étnica ou a profissão dos pais. Mas qualquer um de nós pode melhorar o
nível de instrução, alterar o estado civil, converter-se a uma religião, mudar
de residência, de profissão ou alterar a situação perante a profissão.
Assim, arriscamo-nos a considerar que algumas características são de maior
importância para o casal no momento da constituição da união, pois são
imutáveis. Apesar do (des)agrado que suscitem no cônjuge, tiveram de ser por
ele aceites ou toleradas para a união ter tido lugar. Essa tolerância faz parte
das estratégias matrimoniais dos atores sociais e nela poderão inserir-se todas
as variáveis referentes ao estatuto herdado do indivíduo, pois não são
expectáveis, ou até possíveis, alterações ao longo do tempo.
Pelo contrário, outras características, muitas delas pertencentes ao estatuto
adquirido do indivíduo, são mutáveis, podem alterar-se tanto no momento de
escolha do cônjuge como ao longo da vida em casal. Um extraordinário exemplo é
a escolaridade, pois a alterar-se será sempre no sentido ascendente, de
progressão; apesar de o seu efeito poder ser tanto a proximidade como o
afastamento das tais linhas paralelas que representam cada um dos cônjuges.
A homogamia educativa
Em Girard (1981 [1959]), num universo de 1646 casais franceses, 66% dos
inquiridos casaram com alguém com o mesmo nível de instrução; a observação de
550 jovens famílias suíças por Kellerhals et al. (1982) regista 51% de cônjuges
com a mesma escolaridade.
Em Portugal, a equipa de Almeida, Sobral e Ferrão (1997), após inquirir 290
sócios de empresas dos concelhos de Loures e Barreiro, refere que “nenhum dos
licenciados tem como parceiro alguém com um nível de instrução equivalente à
instrução primária — nem tão-pouco algum sócio gerente com a 4.ª classe casou
com alguém com diploma universitário” (Almeida, Sobral e Ferrão, 1997: 889).
Com base no inquérito “Famílias no Portugal Contemporâneo” (FPC), Rosa observa
que, no momento de formação do casal, 57,5% dos casamentos eram homogâmicos
quanto ao capital escolar. Com valores bastante aproximados entre si, a
heterogamia traduzia-se em 20,2% de casamentos hipergâmicos e 22,3% de
casamentos hipogâmicos (Rosa, 2008).
Pode considerar-se que o dote feminino é inflacionado nos casos em que a mulher
apresenta um nível de escolaridade de ensino superior ou técnico, porque
interfere positivamente na probabilidade de se tornar uma trabalhadora
assalariada (Singly, 1987a: 88). Contudo, um bom nível escolar também pode
aumentar o celibato feminino. Singly (1987a) verificou taxas de celibato mais
elevadas nas mulheres mais escolarizadas, quando tal relação não era tão
evidente no sexo masculino.
Também o denominado “fenómeno da mulher graduada” alerta para a relação entre a
escolarização e a nupcialidade. Em Singapura, a partir dos anos 80, verificou-
se o aumento da idade média de primonupcialidade e, por conseguinte, o aumento
da idade média ao nascimento do primeiro filho. A responsabilidade de tais
transformações recaiu sobre a massificação da escolarização feminina. O
investimento no capital escolar pelas mulheres foi tão acentuado que os homens
graduados deram sinais de preferência por mulheres menos escolarizadas, em
detrimento das com igual habilitação académica. Em Singapura, conjuga-se assim
a preservação dos valores confucianos da família, do trabalho e do estado com
os de um país altamente tecnológico e principal centro económico do Sueste
asiático. No sentido de contornar este fenómeno sociodemográfico, o governo
colocou em prática um conjunto de medidas financeiras de incentivo à procriação
dos casais mais escolarizados (Lyons-Lee, 1998).
Em Espanha, a partir dos resultados dos censos de 2001, Esteve e Cortina (2006)
identificam um índice de homogamia educativa de 79% para a coorte de 1920-29,
com uma diminuição progressiva até aos 53% na coorte de 1960-69. No mesmo
sentido, Birkelund e Heldal (2003), para a sociedade norueguesa, indicam que,
na coorte mais velha em estudo (1900-1909), a homogamia educativa aproximava-se
dos 70%, enquanto na coorte mais nova (1950-1959) este número caía para os 40%.
Em Portugal, Rosa (2008) verifica que a homogamia educativa é superior nas
mulheres nascidas entre 1950 e 1954 (66,7%) do que entre as mulheres das
coortes entre 1965 e 1974 (52,5%).
Esta diferença entre coortes na importância atribuída à distância educativa
entre os cônjuges pode ter, pelo menos, três explicações. Em primeiro lugar,
privilegiando o lirismo amoroso, os sentimentos poderão ter-se tornado no
preditor mais importante no processo de seleção do cônjuge. Em segundo lugar,
este efeito de coorte pode dever-se à diluição de parte das clivagens
educativas e sociais que resultou da democratização e massificação do ensino em
Portugal. Em terceiro lugar, a diminuição da prevalência homogâmica nas coortes
mais jovens pode justificar-se pela própria duração, mais curta, da união.
Neste contexto, o investimento na educação pode ser entendido como uma forma de
aumentar o património familiar (Singly, 1987a), mas também como estratégia
individual de aproximação ao capital do cônjuge. É aqui que os caminhos das
dinâmicas familiares se cruzam com a iniciativa Novas Oportunidades e, mais
precisamente, com o processo de RVCC.
Aprendizagem ao longo da vida: o processo de reconhecimento, validação e
certificação de competências
Valorizando o percurso de cada indivíduo de uma forma longitudinal, o Centro
Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional (Cedefop) define como
aprendizagem ao longo da vida “todas as atividades de aprendizagem decorridas
ao longo da vida que resultam na melhoria do conhecimento, saber-fazer,
aptidões, competências e/ou qualificações por razões pessoais, sociais e/ou
profissionais” (Cedefop, 2008: 46). É este o princípio que subjaz à validação
de competências: fazer confluir as aprendizagens decorridas em diferentes
contextos numa certificação formal. Porque a “formação e a obtenção de
qualificações já não ocorre hoje uma vez na vida” (Giddens, 2008: 527), surgiu
o processo de RVCC.
Em Portugal, o final da década de 1990 marca a alteração do rumo das políticas
públicas dirigidas à promoção da escolarização da população adulta, através do
alargamento do leque de modalidades de educação e formação de adultos
disponíveis e da valorização das aprendizagens decorridas ao longo da vida
(Ávila, 2005; Gomes, 2012). Em 2001, é criada a rede nacional de centros de
RVCC,[2] rede a partir da qual se passa a promover o sistema de RVCC (portaria
n.º 1082-A/2001). Esta rede constituiu a porta de entrada para a qualificação
da população portuguesa, e estes centros operacionalizavam, não só o processo
de RVCC, mas também toda a orientação da formação profissional de dupla
certificação (escolar e profissional) tendo como público-alvo os adultos que
pretendiam ver reconhecidas as experiências profissionais, sociais, familiares
que resultaram em conhecimentos, aptidões, competências num grau escolar ou
numa carteira profissional (RVCC Pro).
Este período foi um marco importante naquilo que constitui a educação/formação
em Portugal porque iniciou um caminho pioneiro, a par de outros países
europeus, na validação das aprendizagens não formais e informais com base na
construção de um portefólio (Singh, 2005) e de acordo com competências
identificadas e discriminadas pela então Agência Nacional de Educação e
Formação de Adultos (ANEFA)[3] nos referenciais de competências-chave para a
educação e formação de adultos (Alonso et al., 2001, 2002; Gomes, 2006).
A partir de 2005, a iniciativaNovas Oportunidades procurou, entre outros
objetivos, reverter a “atávica desqualificação da população adulta (que se viu
privada do direito a uma adequada educação-formação inicial na idade própria)”
(Carneiro, 2010). Por conseguinte, a partir de 2006, através do alargamento da
rede de centros, e principalmente de 2007 em diante, com o início da
certificação de nível secundário, o processo de RVCC ganha popularidade junto
da população adulta portuguesa. Com efeito, enquanto no período 2000-2005,
foram registadas 153.719 inscrições de adultos no processo de RVCC, em 2006
esse número foi de 77.246 e em 2007, 282.012. Em 2009, existiam já 460 centros
NO em funcionamento e um total de 142.862 inscrições de nível básico e 134.686
de nível secundário (Bettencourt, 2011).
Relativamente ao número de certificações, ao longo do período 2006-2010, o
número máximo de certificações registou-se em 2009, ano em que 73.554 adultos
foram certificados com o ensino básico e 38.760 com o ensino secundário
(Bettencourt, 2011). Desta forma, a taxa específica de certificação, em 2009,
foi de 51,4% no ensino básico e 28,8% no ensino secundário contrariando a ideia
frequentemente avançada pela comunicação social de que o processo de RVCC foi
“uma modalidade demasiado fácil, imediata e ilusória de elevar o nível
educativo da população”(Abrantes e Aníbal, 2014: 83).
Descendo no nível de desagregação da informação, na região de Lisboa, em 2009,
operavam 87 centros NO. As equipas destes centros NO receberam, entre 2006 e
2008, 97.002 inscrições.[4] A distribuição por sexo dos 42.295 inscritos na
Grande Lisboa, em 2008, evidencia uma sobrerrepresentatividade do sexo
masculino até ao grupo de idades dos 35 ou mais anos, tendência que se inverte
e agudiza à medida que se avança no grupo etário (figura_1).
Estes dados parecem anunciar a existência de um perfil diferenciado entre os
sexos na população inscrita nos centros NO da região de Lisboa, questão que
será desenvolvida adiante com base nos resultados deste estudo. A distribuição
etária realça que os inscritos têm sobretudo entre os 25 e os 44 anos. Com
efeito, “é um facto aceite pela maioria das pessoas de que uma melhor
escolarização pode proporcionar melhoria na carreira profissional” (Lopes,
Cerol e Magalhães, 2009: 128), isto apesar de as evidências demonstrarem que o
processo de RVCC tem tido um impacto reduzido na alteração da situação laboral
dos adultos (Carneiro, 2010).
De facto, as motivações dos adultos para o prosseguimento de estudos são
sobretudo ao nível da “realização / valorização pessoal” e da “progressão na
escolaridade” (Carneiro, 2010; Azevedo, 2009). Todavia, não é de descurar, em
ambos os níveis de certificação, o peso de “reforçar o papel na família”
(Carneiro, 2010), motivação que poderá estar relacionada com a importância que
alguns adultos atribuem ao facto de os membros do agregado familiar deterem
níveis de escolaridade semelhantes (Azevedo, 2009).
Todavia, as evidências sobre os efeitos do processo de RVCC sugerem que este
excede as motivações iniciais dos adultos. De acordo com Carneiro, o impacto do
processo de RVCC verifica-se, essencialmente, em três eixos: “reforço da
autoestima e da motivação para continuar a aprender”, melhorias nas
“competências pessoais e sociais, cívicas e culturais”, aperfeiçoamento das
competências ao nível da “literacia (leitura, escrita e comunicação oral) e em
e.competências (uso de computador e internet)” (Carneiro, 2010: 10).
Metodologia e apresentação da investigação
Esta investigação pretendeu determinar se o processo de RVCC poderá fazer parte
de uma tentativa de aproximação do capital escolar do adulto aos capitais
escolares do cônjuge. Partiu-se do pressuposto de que, apesar da liberalização
do acesso ao matrimónio e da importância crescente do sentimento amoroso na
escolha do cônjuge, a regra homogâmica continua a verificar-se, e que, ao longo
da vida a dois, os cônjuges procuram esbater as diferenças iniciais.
Nesse sentido, formularam-se duas hipóteses norteadoras do trabalho empírico a
realizar:
1. enquanto característica individual de natureza mutável, o nível de
escolaridade é uma das variáveis que mais contribui para a distância global
entre os cônjuges;
2. o investimento na escolarização através do processo de RVCC reduz a
distância educativa entre os cônjuges.
As hipóteses enunciadas remetem para dois conceitos que importa esclarecer: o
da distância global e o da distância educativa entre os cônjuges. Considerou-se
que a distância global entre os cônjuges sintetiza a posição de cada casal
relativamente a um conjunto de variáveis que pertencem aos estatutos herdados e
adquiridos dos cônjuges. Por conseguinte, tomando como ponto de partida o
trabalho de Girard (1981 [1959]), procedeu-se ao cálculo do indicador global da
distância entre os cônjuges (IGDC).[5] Acerca dos cônjuges considerou-se a
idade, a escolaridade, a nacionalidade, a naturalidade, a religião, o local de
residência, a coabitação, o estado civil, a ocupação (no momento do encontro),
a profissão (se trabalhadores), a situação perante o trabalho atual, a
profissão atual e a existência de irmãos. Sobre os pais e mães dos cônjuges,
observou-se a idade, a pertença étnica, a escolaridade e a ocupação (no momento
do encontro entre os cônjuges).
A distância educativa entre os cônjuges, tal como é entendida aqui, corresponde
à diferença de, pelo menos, um nível de escolaridade entre eles.
Exemplificando: um casal em que o adulto em processo de RVCC detenha o 3.º
ciclo do ensino básico e o seu cônjuge o ensino secundário é considerado
heterogâmico antes da certificação. Neste caso, o processo de RVCC terá o
efeito de reduzir a distância educativa entre os cônjuges mas, consoante o
ponto de partida de cada, um múltiplos cenários são possíveis (figura_2).
No intuito de explorar as hipóteses apresentadas, reconstituíram-se os
percursos escolares, conjugais e familiares dos indivíduos, com base na
inquirição de adultos em processo de RVCC através de questionário (82 e 289
questionários válidos utilizados na primeira e na segunda hipótese,
respetivamente).
O universo de estudo corresponde aos indivíduos casados, em união de facto,
divorciados, separados de facto e viúvos em processo de reconhecimento de nível
básico e secundário, em centros NO da Grande Lisboa, no ano de 2009. A unidade
amostral corresponde ao inquirido, ao seu cônjuge atual ou ao seu último
cônjuge (caso aplicável a sujeitos divorciados, separados de facto e viúvos) e
aos filhos ou enteados (em coabitação ou não com o inquirido). Assim, a unidade
amostral não corresponde exatamente à conceção de família nuclear tal como tem
sido encarada pelas ciências sociais.[6] Assume uma forma um tanto ou quanto
híbrida pois, apesar de este ser um estudo que se concentra no casal,
considera-se importante a influência e o estímulo que poderão ter os filhos e
os irmãos no momento de decidir dar continuidade ao processo de escolarização.
Recorreu-se a uma amostra não aleatória devido à impossibilidade de aceder à
listagem da população inscrita em centros NO por proteção dos dados dos
indivíduos. A técnica de amostragem foi por conveniência, para que numa só
deslocação e sincronicamente se recolhessem dados sobre mais do que uma unidade
amostral. Os centros NO constituíram os elementos intermediários, pois são, por
excelência, o contexto com maior concentração de adultos inscritos.[7] Tendo em
consideração as desvantagens que decorrem da técnica de amostragem selecionada,
existiu a preocupação de incluir na amostra centros distribuídos
geograficamente pela área da Grande Lisboa e que operassem em ambientes sociais
diferentes. Foram ainda constituídas quotas inter-relacionadas para que a
distribuição da amostra respeitasse a distribuição dos adultos inscritos nos
centros NO da região da Grande Lisboa, por nível de ensino, sexo e grupo
etário, em 2008.
Em traços gerais, a amostra corresponde a 0,7% da população, verificando-se uma
sobrerrepresentação dos dois grupos etários superiores, especialmente no grupo
com 65 anos ou mais. Tal justifica-se pela sua reduzida presença no universo de
estudo; caso a amostra fosse proporcional, este grupo etário praticamente não
seria integrado na amostra. Ressalve-se que tanto os dados disponibilizados
pela ANQ como os dados facultados pelo Anuário Estatístico da Região de Lisboa
2008, do Instituto Nacional de Estatística (INE), inibem quaisquer análises
comparativas. A título exemplificativo podemos referir que os grupos etários
utilizados pela ANQ divergem dos utilizados pelo INE, as estatísticas da
educação do INE distinguem ensino público de privado, ensino regular de
recorrente, mas não se referem, à data, aos programas de educação e formação de
adultos. Esta impossibilidade e o facto de os dados da ANQ não estarem
desagregados por estado civil tornam pouco rigorosa qualquer análise
comparativa, pelo que nos inibimos de a fazer.
Distância global entre os cônjuges
Dos 82 casais que participaram nesta fase do estudo, a distribuição por sexo
dos indivíduos em processo de RVCC é de 44% de homens e 56% de mulheres. As
idades apresentam um valor médio de 41 anos (mínimo 20 e máximo 73 anos). O
grupo etário mais representado é o dos 18 aos 24 anos (27%), seguindo-se o dos
35 aos 44 anos (22%) e o dos 55 aos 64 anos (18%). As gerações entre os 25 e os
34 anos correspondem a 13% da população e as dos 45 aos 54 anos representam
12%. No grupo etário com 65 anos ou mais está 7% da amostra.
O estado civil atual predominante é casado(a) (71%). 24% estão unidos(as) de
facto, 4% estão divorciados(as) e 1% viúvos(as). Nesta subamostra os
divorciados estão sub-representados devido a terem evidenciado maior
dificuldade em responder às questões relativas ao ex-cônjuge.
O IGDC apresenta um valor médio de 118,5 pontos, numa escala de 20 a 144
pontos. Os valores mínimo e máximo são, respetivamente, 89 e 138 pontos. Pouco
mais de metade da população (52%) obteve valores iguais ou superiores a 120
pontos. Estes valores confirmam a prevalência da homogamia, não só no processo
de formação do casal, mas também ao longo da vida a dois. A comparação destes
resultados com os de Girard (1981 [1959]) sugere que o mercado matrimonial das
sociedades contemporâneas se pauta por algumas regras que são universais e
intemporais.[8] Também na população aqui em estudo, raramente a distância entre
os cônjuges se verifica em todas as variáveis; pelo contrário, os cônjuges têm
em comum diversas características (Girard, 1981 [1959]).
Em termos de valores médios, os grupos etários intermédios (25 a 34 anos, 35 a
44 anos e 45 a 54 anos) são os que obtêm as pontuações mais baixas (quadro_1).
É certo que, sendo estes dados transversais, os resultados não permitem
distinguir efeitos de idade, de período e de coorte. Porém, com base nos
pressupostos de Singly (1987b) e de Kellerhals et al. (1982), justifica-se um
comentário. Apesar de um casal homogâmico no início de um percurso a dois não o
ser necessariamente no fim (Singly, 1987b), a curva em forma de U, desenhada
pelos valores médios do IGDC, reforça a ideia de que a distância inicial entre
cônjuges se altera ao longo da vida a dois (Kellerhals et al., 1982); o que
leva os cônjuges a procurarem esbater essas novas distâncias.
Tentando destrinçar a influência das várias variáveis utilizadas no IGDC na
dicotomia proximidade/distância, observa-se que a nacionalidade, o estado
civil, a religião e a pertença étnica dos pais obtêm valores médios acima dos
6,5 pontos (numa escala de 1 a 7) (quadro_2). Estas podem ser consideradas as
tais variáveis de difícil ou mesmo impossível alteração ao longo da vida. Estes
resultados sugerem que no momento de seleção do parceiro a proximidade nestas
variáveis é de elevada importância.
Confirmando a primeira hipótese deste estudo, as variáveis com pontuações
médias inferiores são a situação atual perante o trabalho (4,99) e a
escolaridade (5,02). À partida, serão estas, as tais variáveis mutáveis, as
responsáveis pelo aumento da distância entre os cônjuges nas gerações
intermédias e sobre as quais aqueles atuarão estrategicamente no sentido de
inverter a tendência de afastamento. Se relativamente à situação atual perante
o trabalho intervêm questões conjunturais que podem gorar as intenções
individuais, o investimento na escolarização é um projeto individual e/ou
familiar menos vulnerável a efeitos exógenos às dinâmicas familiares.
Analisando as variáveis utilizadas na construção do indicador global de
distância entre os cônjuges em termos de homogamia/heterogamia, verifica-se
que, quando existe diferença entre os cônjuges, a hipogamia verifica-se
sobretudo nas características relativas ao capital escolar da mulher, ao dos
seus pais e à ocupação dos pais (quadro_3). A hipergamia denota-se
essencialmente nas variáveis relacionadas com a vida ativa: profissão e
situação perante a profissão (no momento do encontro e na atualidade). Assim,
nesta população, os percursos hipergâmicos relacionam-se com os trajetos
profissionais dos homens enquanto os percursos hipogâmicos justificam-se
através do estatuto herdado e do capital escolar adquirido pelas mulheres.
Capitais escolares, sexo e idade
A partir das respostas dos 289 inquiridos, analisaram-se os trajetos dos
adultos em processo de RVCC e os dos respetivos cônjuges, de modo a conhecer os
contornos da homogamia ou heterogamia educativa.
Recorrendo à estatística inferencial, foram aplicados testes de hipóteses com o
objetivo de averiguar se as diferenças observadas na amostra são
estatisticamente significativas, ou seja, se as conclusões se podem inferir
para a população, com uma probabilidade de erro de 5% (p-value £ 0,05). Os
resultados apresentados foram obtidos através do teste de Fisher, mais adequado
do que o teste do qui-quadrado para comparar pares de valores para o mesmo
elemento da amostra, com amostras de reduzida dimensão.
Em termos de caracterização geral da amostra pode referir-se que um pouco mais
de metade (52%) são do sexo feminino, o que, em termos da relação de
masculinidade, significa que, para cada 100 pessoas do sexo feminino, 93 são do
sexo masculino. A idade apresenta um valor médio de 40,5 anos, sendo o mínimo e
o máximo, respetivamente, 19 e 73 anos.
O grupo etário mais representado é o dos 35 aos 44 anos (31%), seguido do dos
25 aos 34 anos (24%) e do dos 45 aos 54 anos (21%). Os grupos com idades entre
os 18 e os 24 anos e entre os 55 e os 64 anos representam 11% e 10%,
respetivamente, e o grupo etário dos 65 anos ou mais representa 3% da amostra
inquirida.
Quanto ao estado civil, a amostra é constituída por 63% de casados(as), 23% de
unidos(as) de facto, 10% de divorciados(as), 3% de separados(as), havendo ainda
1% de viúvos(as).
A nacionalidade predominante é a portuguesa (97%), sendo os restantes 3%
nacionais de países de língua oficial portuguesa. Por conseguinte, quanto à
naturalidade, 47% dos respondentes são naturais de Lisboa e a segunda
naturalidade mais frequente é não portuguesa, mas de língua oficial portuguesa
(9%).
Relativamente à situação dos adultos perante o trabalho, a mais frequente é
empregado por conta de outrem (67%), seguindo-se a de desempregado (20%). Estes
valores alertam para a importância do processo de RVCC como forma de promoção
da empregabilidade, principalmente se observarmos a situação perante o emprego
mais frequente nos cônjuges. Se em primeiro lugar também surge empregado por
conta de outrem (71%), a segunda situação mais frequente é empregado por conta
própria (20%).
Nos indivíduos inscritos, a escolaridade mais frequente é o 3.º ciclo (56%),
seguida do 2.º ciclo (32%) e do 1.º ciclo (12%). No que concerne aos cônjuges,
os níveis de escolaridade mais observados são o 3.º ciclo (29%) e o ensino
secundário (27%). O 2.º ciclo é a escolaridade de 19% e o 1.º ciclo de 15%. O
ensino superior verifica-se em 10% da amostra.
Cruzando o nível de escolaridade dos cônjuges, observa-se a presença de
percursos tanto homogâmicos como heterogâmicos. A situação mais frequente, em
todos os níveis de ensino, é o cônjuge ter a mesma escolaridade que o próprio,
isto é, verifica-se essencialmente a homogamia educativa nos três primeiros
ciclos de ensino, com valores de 39%, 28% e 39%, respetivamente (quadro_4).
Contudo, em termos globais, o peso relativo da homogamia educativa da população
em estudo (35%) é francamente inferior ao identificado por Rosa (2008) para a
população portuguesa com o inquérito FPC (58%). O peso da heterogamia (65%)
deve-se sobretudo aos casos de adultos em processo de RVCC cujos cônjuges detêm
um capital escolar superior (46%). Apenas 18% dos indivíduos em processo de
RVCC detêm já um capital escolar superior ao do seu cônjuge.
O teste de Fisher confirma a existência de diferenças estatisticamente
significativas entre os níveis de escolaridade próprio e do cônjuge.
Para os indivíduos que possuem 1.º ciclo, 61% dos cônjuges possuem nível
superior, para os que possuem 2.º ciclo, 24% dos cônjuges possuem nível
inferior e 48% possuem nível superior, para os que possuem 3.º ciclo, 19% dos
cônjuges possuem nível inferior e 42% possuem nível superior, sendo as
diferenças observadas estatisticamente significativas. Globalmente, pode
afirmar-se que o processo de RVCC irá aproximar os cônjuges quanto ao nível de
escolaridade. Importa saber se tal se verifica por sexo e por grupo etário.
A análise da escolaridade dos cônjuges segundo o sexo permite saber que existe
uma diferença estatisticamente significativa entre os níveis de escolaridade
próprio e do cônjuge, para ambos os sexos (quadro_5). As esposas distribuem-se
essencialmente pelos ciclos do ensino básico. Já os esposos, apesar de também
se distribuírem pelos diferentes níveis de ensino, têm uma concentração
superior no ensino secundário.
Assim, o processo de RVCC irá aproximar os cônjuges quanto ao nível de
escolaridade para ambos os sexos, com exceção das mulheres que têm o 2.º ciclo.
A aproximação à escolaridade do cônjuge é superior para o sexo masculino, pois
apresenta um menor nível de escolaridade, quando comparado com o dos cônjuges,
facto que se justifica por a idade média de interrupção dos estudos ser em
todos os grupos etários inferior à apresentada pelo sexo feminino.
A análise do capital escolar dos cônjuges, por grupo etário, permite
acrescentar que existe uma diferença estatisticamente significativa entre os
níveis de escolaridade próprio e do cônjuge, para todos os grupos etários,
exceto o dos 45 aos 54 anos.[9] O caminho em direção à homogamia é
protagonizado essencialmente pelas gerações mais novas. É nestes grupos etários
que as percentagens do ensino secundário e do ensino superior são mais
significativas no sexo masculino e, como tal, serão estas as parceiras que mais
procurarão reduzir a distância educativa através de um investimento na sua
escolarização. Assim, afigura-se que, na escolha do cônjuge, as jovens em
processo de RVCC valorizam diplomas escolares superiores ao seu, mas mais tarde
procuram esbater as clivagens iniciais.
Os cônjuges dos adultos pertencentes às gerações mais velhas apresentam
percentagens do 2.º ciclo e do 3.º ciclo superiores nos homens e uma
percentagem do ensino secundário mais alta no sexo feminino. Por conseguinte,
os homens vão aproximar-se das suas esposas (homogamia educativa) e as mulheres
vão querer aproximar-se ou mesmo ultrapassar o nível de escolaridade dos
esposos (homogamia ou hipogamia educativa).
Em suma, o processo de RVCC contribui para que, dos 65% de casais
heterogâmicos, 46% se aproximem após a certificação (quadro_6). Dos 42% de
casais hipergâmicos, 75% tornar-se-ão mais próximos, valor que contrasta com os
58% de casais hipogâmicos, dos quais 69% se aproximarão findo o processo de
RVCC.
Relativamente aos 35% de casais homogâmicos cujo processo de RVCC afastará os
cônjuges quanto ao capital escolar, destaca-se a escolarização no feminino, com
a transformação de 57% dessas uniões em casais hipogâmicos.
Perante os resultados apresentados, a segunda hipótese deste estudo é
confirmada, ou seja, o investimento na escolarização através do processo de
RVCC permitirá reduzir a distância educativa entre os cônjuges.
Para além da análise da relação entre os capitais escolares dos cônjuges,
examinou-se a eventual relação entre os capitais escolares do adulto em
processo de RVCC, os dos filhos e os dos irmãos.
Quanto à relação com os filhos, globalmente pode afirmar-se que o processo de
RVCC não irá aproximar o adulto dos filhos quanto ao nível de escolaridade
(p = 0,729). Os resultados indicam que, para os indivíduos que possuem o 1.º
ciclo, 87% dos filhos possuem nível superior ao dos pais. Entre os que possuem
2.º ciclo, 19% dos filhos possuem nível inferior ao seu e 69% possuem nível
superior. Quanto aos que possuem 3.º ciclo, 31% dos filhos possuem nível
inferior e 35% possuem superior. Considerando a evolução do sistema escolar
português desde a década de 1970, seria expectável que existisse uma diferença
maior entre a escolaridade dos pais e a escolaridade dos filhos. Estes
resultados, principalmente os relativos ao 3.º ciclo, indicam que o capital
escolar dos pais condiciona o dos filhos.
O processo de RVCC poderá ter um papel importante na rutura desta tendência. A
iniciativa Novas Oportunidades tem um efeito positivo na participação dos pais
no percurso escolar dos filhos e esse acompanhamento promove o sucesso escolar
(Salgado, 2010).
A mesma relação entre o capital escolar do adulto, mas desta feita com o irmão
mais velho, indica que o processo de RVCC irá aproximá-los (p = 0,000*). Para
35% dos indivíduos que possuem o 1.º ciclo, os irmãos possuem nível superior a
esse. Quanto aos que possuem o 2.º ciclo, 21% dos irmãos possuem nível inferior
e 58% possuem nível superior. Relativamente ao 3.º ciclo, 27% dos irmãos
possuem nível inferior e 34% possuem superior.
Conclusões
A obtenção de uma qualificação ao longo da vida, para além de estimulada por
programas governamentais como a iniciativa Novas Oportunidades, é também
resultado de um desejo individual e, eventualmente, até familiar. A
investigação que agora se conclui procurou conhecer o papel do processo de RVCC
numa eventual estratégia do adulto de aproximação ao capital escolar do
cônjuge.
A partir da revisão dos principais trabalhos realizados no âmbito do mercado
matrimonial, delinearam-se as relações entre o papel do nível de escolaridade
na distância global entre os cônjuges e o efeito do processo de reconhecimento,
validação e certificação de competências na distância educativa entre eles.
Relativamente ao indicador global entre os cônjuges conclui-se que entre os
parceiros a homogamia prevalece tanto no momento de formação do casal como ao
longo da vida conjugal. Porém, considera-se que tal proximidade poderá não ser
tanto atribuível às exigências do casal, mas mais o resultado dos determinismos
sociais do mercado matrimonial e, em particular, das cenas de encontro. Esta
poderá ser uma explicação para a persistência da homogamia, mesmo após a
liberalização do casamento e da escolha do cônjuge.
Os contornos da homogamia e da heterogamia fazem sobressair que, nas gerações
intermédias, são questões como a escolaridade e a situação perante o trabalho
que distanciam os cônjuges, reforçando que o processo de RVCC seja parte de uma
estratégia individual de aproximação ao cônjuge.
Os resultados sugerem que o processo de RVCC serve um propósito: transformar os
casais hipergâmicos e hipogâmicos em casais homogâmicos. Quando o cônjuge é
mais escolarizado do que o próprio, situação recorrente nesta população, ele
exerce um efeito de atração sobre o seu par.
Observando a distância educativa entre os cônjuges, antes de partirem para o
processo de validação de competências, esta população contabilizava 35% casais
homogâmicos. Após a certificação, a percentagem casais homogâmicos subirá para
os 46%.
Quanto aos casais cujos capitais escolares se afastam após o processo de RVCC,
existe uma clara vantagem do sexo feminino: 57% dos casais inicialmente
homogâmicos tornam-se hipogâmicos. Verifica-se assim que, no grupo de
homogâmicos iniciais, o processo de RVCC esbate a hipergamia e a homogamia
fazendo sobressair uma escolarização no feminino.
Contudo, tais resultados podem não corresponder necessariamente a uma
estratégia concertada do sexo feminino e ser antes fruto da (des)igualdade de
género. De uma maneira geral, em Portugal, a mulher é mais afetada pelo
desemprego. De acordo com os dados do Inquérito ao Emprego, entre 2000 e 2010,
a diferença média entre as taxas de desemprego feminina e masculina foi de 2
pontos percentuais. Em 2009, enquanto a taxa de desemprego do sexo feminino era
de 10,1%, a taxa de desemprego do sexo masculino situava-se nos 8,8% (INE,
2014a). Assim, estando a mulher numa posição de desvantagem quanto à sua
participação no mercado de trabalho, poderá ser ela quem se sente mais atraída
pelos sistemas de qualificação. Nestes casos a estratégia será mais
institucional do que individual e terá como objetivo mais o combate ao
desemprego e não tanto a promoção da igualdade de género.
Este fenómeno hipogâmico também poderá ainda justificar-se com o estatuto
herdado das inquiridas, pois também nos níveis de escolaridade e nas ocupações
dos pais e mães dos cônjuges, se verificam fenómenos hipogâmicos.
Porque a vida a dois é um processo dinâmico, os percursos individuais alteram
algumas das distâncias iniciais dando azo a novos contornos conjugais. E, nesse
sentido, os resultados desta investigação aguçam o interesse na aplicação de
uma perspetiva metodológica de análise longitudinal para a identificação e
compreensão dessas alterações. Igualmente importante, seria analisar o efeito
da distância educativa entre os cônjuges na realização pessoal do adulto e, por
conseguinte, o impacto deste efeito nas motivações do adulto para o processo de
RVCC. Adicionalmente, em investigações futuras, seria relevante percecionar se
os comportamentos aqui observados são específicos dos casais em que um dos
cônjuges frequenta o processo de RVCC ou extensíveis a outros sistemas de
ensino, ou mesmo a outros universos de estudo.
A sociedade atual é dotada de uma elasticidade superior à de outros tempos, mas
não é só a liberdade (ou a falta dela) que determina quem casa com quem. Por
conseguinte, se a regra homogâmica continua a ser um estimulante objeto de
estudo, a análise dos seus casos atípicos tanto na forma de hipergamia como de
hipogamia afigura-se cada vez mais estimulante.