Ethnic Boundary Making: Institutions, Power, Networks
RECENSÃO
Ethnic Boundary Making. Institutions, Power, Networks [Andreas Wimmer, 2013,
Nova Iorque, Oxford University Press]
Nuno Oliveira*
* Investigador no Max Planck Institute for Religious and Ethnic Diversity e no
CIES-IUL, Av das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa. E-mail:
nuno.filipe.oliveira@iscte.pt
O livro Ethnic Boundary Making de Andreas Wimmer, possui a ambição das obras
que marcam um campo científico e lhe definem as possibilidades futuras. Tamanho
fôlego heurístico tem esta obra que já mereceu um simpósio na revista Ethnic
and Racial Studies, com comentários, apreciações e críticas de alguns dos mais
reconhecidos teóricos atuais que trabalham sobre identificações étnicas, tais
como Rogers Brubacker, Richard Jenkins, Miri Song e Michèle Lamont.
Esta obra, que organiza num quadro analítico ambicioso muito do trabalho prévio
do autor, propõe uma rutura, que poderíamos mesmo apelidar de paradigmática,
com uma visão essencializada da etnicidade ou com o paradigma herderiano, como
é designado por Wimmer. Segundo este, o “cânone herderiano” (p. 10) subsiste
ainda em muitas das análises que acabam — tantas vezes inadvertidamente — por
substantivar a etnicidade ou a nação, e isto apesar dos reptos sistemáticos
contra a armadilha essencialista. Por outro lado, dicotomias como
primordialismo vs. instrumentalismo devem ser igualmente questionadas porque
não têm em conta a variabilidade da natureza das fronteiras étnicas, optando
por explicações monocausais. O construtivismo de Wimmer assume que o senso
comum que associa a etnicidade a comunidades integradas, com culturas
perfeitamente delimitadas e categorias partilhadas de identidade, deve ser
liminarmente rejeitado. Ao invés, a saliência (ou não) dessa possível
delimitação não apenas deve ser investigada empiricamente como cotejada
sistematicamente com variáveis estruturais.
Muito embora o seu construtivismo procure uma especificação analítica que vá
para além do essencialismo, coloca, em paralelo, sérias reservas a um tipo de
construtivismo que apelida de radical; ou seja, aquele que vê as identidades
como estando em fluxo permanente, intercambiáveis num jogo pós-moderno de
liquefação social, ou então como meros efeitos das políticas estatais e
portanto sem aderência nas interações quotidianas. Um tal construtivismo
radical não cuida, na realidade, de investigar o que torna tais identidades
mais ou menos salientes, dado um conjunto de condições a serem especificadas.
É neste sentido que Wimmer apela para uma analítica das formas étnicas
(Wacquant, 1997) para mostrar porque é que a etnicidade é ainda saliente em
alguns contextos, e porque é que define linhas de desigualdade, enquanto
noutros foi absolutamente secundarizada. Para Wimmer, mais comparações
empíricas e ferramentas precisas são necessárias para evitar a queda no
hiperconstrutivismo, bem assim como no seu antípoda herderiano, o
essencialismo.
Para o fazer, propõe um modelo analítico composto por um conjunto de propostas
teóricas, aparentemente díspares, mas que o autor integra, de forma sólida e
abrangente, numa teoria geral das fronteiras étnicas, que combina a teoria
dinâmica da etnicidade de Barth, a teoria dos campos de Bourdieu, o conceito de
fronteira simbólica de Lamont e Mólnar, e o sentido subjetivo de
Zusammengehorigkeitsgefuhl[pertença partilhada] imbricado com o poder e o
prestígio na aceção de Weber, articulação cujo fito último será superar a
“absolutização da lente étnica”, na expressão de Glick-Shiller.
Pelo exposto já se terá percebido que a noção de fronteira assume uma dimensão
analítica central. Contudo, ela assume uma conotação metafórica, contrariamente
a Barth, para quem a fronteira era o resultado concreto de interações numa dada
situação. Wimmer explica, contra os críticos que apontaram essa pecha (Jenkins,
2014) que o conceito de “fronteira” não possui qualquer dimensão ontológica;
corresponde sim à “justaposição entre modos de classificação e modos de
associação ou dissociação” (Wimmer, 2014). O que possui dimensão ontológica é o
comportamento estratégico dos atores; ou seja, a construção das fronteiras
resulta da procura de alinhamentos com determinados indivíduos e não outros, da
promoção de certos tipos de classificação definidora de quem pertence ou não,
com o intuito de ganhar reconhecimento, poder ou acesso a recursos, e que
depende de um conjunto multicausal de fatores que importa investigar.
Neste sentido, a abordagem da construção de fronteiras (boundary-making)
sustenta-se na procura de processos padronizados recorrentes, compostos por
mecanismos gerais combinados com acontecimentos históricos únicos e conjunturas
específicas de condições que produzem a realidade social. Consequentemente,
pretende Wimmer, torna-se possível ambicionar uma teoria geral isolando os
mecanismos gerais das contingências contextuais, chegando assim a uma tipologia
do funcionamento das fronteiras étnicas e raciais. Essa tipologia é-nos
desvelada através de um modelo configuracional que tem em conta a
multicausalidade dos processos de construção de fronteiras. Um tal modelo toma
como central a processualidade da construção da etnicidade, assim como a
multiplicidade de fatores que contribuem para a sua saliência ou para o seu
apagamento.
Primeiro, são explicitados três mecanismos que influenciam a dinâmica da
construção de fronteiras étnicas: a distribuição do poder num dado campo
social, o alcance de redes sociais existentes e o quadro institucional que
fornece incentivos para o estabelecimento de determinadas fronteiras em
detrimento de outras. Wimmer fornece variadíssimos exemplos, se bem que não
tratados em grande detalhe, do funcionamento de tais mecanismos. A amplitude do
seu conhecimento é claramente demonstrada pela capacidade de mobilizar casos de
todas as partes do mundo, algo que acompanhará o leitor ao longo do livro.
Subsequentemente, Wimmer desenvolve os tipos de estratégias que os atores
prosseguem para “fazer fronteiras” (boundary making) e como impõem a sua visão
das divisões legítimas da sociedade numa linha enfaticamente bourdieusiana.
Quatro tipos principais são equacionados: (1) redesenhar a fronteira expandindo
ou limitando o tipo de pessoas que ela categoriza (expansion/ contraction); (2)
reconfigurar a fronteira desafiando a ordem hierárquica das categorias étnicas
(transvaluation); (3) mudar a própria posição — individual ou coletiva — num
sistema de fronteiras (positional moves); (4) ou enfatizando outras formas não
étnicas de pertença, reduzindo a importância da etnicidade como princípio
classificatório (blurring).
E como as estratégias dos atores se socorrem de meios, Wimmer elenca os
principais: a utilização de categorias étnicas para descrever o mundo social
(desde as conversas quotidianas às categorias censitárias); a marcação
simbólica das fronteiras grupais com recurso a diacríticos culturais (modos de
falar, vestuário, etc.); a discriminação dos outsiders privilegiando os membros
de um grupo particular; a organização política apoiada na saliência de uma
categoria étnica; e, finalmente, o uso de violência e terror contra os membros
de uma categoria étnica. Segue-se que, integrando estratégias e meios, chegamos
a um modelo analítico comportando as dimensões mais significativas da natureza
das fronteiras: diferenças no nível de fechamento social, na saliência
política, na diferenciação cultural e na estabilidade histórica.
Wimmer mantém a promessa feita inicialmente de não ceder nem ao campo
herderiano, nem ao seu oposto, o construtivismo radical. Por isso, não recai
naquele exagero teórico que tem por pecha confundir o coletivismo ontológico
com o coletivismo metodológico — se o primeiro é necessariamente reificador, já
o segundo é perfeitamente admissível porque é difícil negar que existam
fenómenos que são coletivos e experimentados como tal. Neste sentido, Wimmer
mostra como a etnicidade pode por vezes ser autoevidente e que essa
autoevidência possui consequências práticas que assumem, neste caso, uma
natureza etnicizada e grupal. Porém, e como o esforço se encontra concentrado
na destruição da herança herderiana, é justamente a isso que o livro dedica os
seus restantes capítulos. Embora estes não apliquem exatamente o esquema
analítico sistemática e laboriosamente desenvolvido anteriormente, o próprio
Wimmer concede que o que vem no seguimento é teoricamente menos ambicioso,
embora empiricamente ancorado (p. 113). Esse facto retira alguma unidade ao
livro, na medida em que subsequentemente nos são oferecidas reformulações de
artigos anteriores de Wimmer sobre fechamento social ou homofilia racial.
Quanto ao primeiro — que entretanto se tornou um clássico —,[1] lembremos que o
estudo incide sobre bairros nas principais cidades suíças com largas
percentagens de imigrantes, entre eles uma significativa população de origem
turca. A investigação mostra que não são os fatores étnicos que estabelecem as
fronteiras entre as populações destes bairros, mas antes uma estrutura insider/
outsider delineada de acordo com a temporalidade da permanência no bairro. A
este propósito, note-se que, embora se faça referência ao facto de os dados
utilizados terem sido recolhidos no final da década de 1990, nenhum outro
momento do capítulo remete para o artigo em causa. Isso seria de somenos, caso
não colocasse em causa o próprio esquema analítico. Com efeito, ao mencionar o
facto de a recolha daqueles dados não refletir o crescimento da xenofobia
populista após o 11 de Setembro e a consequente singularização do Islão em toda
a Europa, parece falsear o esquema configuracional elaborado anteriormente,
onde fatores institucionais, diferenças de poder e recursos, diferenciação
cultural e estruturação de redes possuíam implicações na saliência da
etnicidade. Perguntamo-nos se a estrutura insider/outsider baseada em fatores
não étnicos que Wimmer encontrou nos seus resultados não teria sofrido uma
deslocação etnicizadora ou mesmo “racializadora” numa Suíça que referendou a
proibição de minaretes como elementos poluidores da sua paisagem.
O capítulo seguinte apresenta outro trabalho coordenado por Wimmer — este mais
recente — sobre homofilia étnico-racial medida com recurso a redes sociais
estabelecidas através do Facebook (Wimmer e Lewis, 2010). A premissa por detrás
do conceito de homofilia é que o “contacto entre pessoas semelhantes ocorre num
grau superior do que entre pessoas diferentes” (McPherson, Smith-Lovin e Cook,
2001). No caso da homofilia racial, a semelhança coloca-se evidentemente na
partilha da categoria racial ou étnica. Com este estudo, Wimmer demonstra que
um conjunto de microprocessos sociais possuem maior capacidade estruturante das
redes do que pertenças a classificações raciais autopercecionadas. É assim que
mecanismos como propinquidade, socialidade, disponibilidade e homofilia
cultural e económica mitigam o peso da homofilia racial. Wimmer, talvez porque
se encontre no meio académico norte-americano, é cauteloso, ao dizer que não
reivindica a demonstração do declínio da importância da raça (p. 172), e coloca
várias ressalvas ao facto de a sua amostra ser constituída por alunos de
Princeton, pertencendo estes a uma elite, integrados num ambiente que mobiliza
institucionalmente uma política de mistura étnico-racial. Apesar destas
cautelas, o estudo mostra que a homogeneização racial atribuída à homofilia,
por muitas das investigações citadas por Wimmer e Lewis, é espúria. Quando
desagregadas as categorias raciais censitárias nas quais usualmente estes
estudos se baseiam, relevam-se outros princípios de homofilia. Se não tomarmos
a importância da raça como um adquirido, podemos concluir que “através de
lentes adequadamente desagregadas, a homofilia racial não representa o
princípio primordial de formação de laços entre os americanos”. O argumento
exposto envolve a noção de Blau (1977) segundo a qual “uma categoria contém
vários níveis aninhados de diferenciação ‘concêntrica’ cuja homofilia decresce
com os níveis de inclusão da distinção categorial”. Teremos então que
desagregar a categoria racial tal como é usada pelos registos censitários em
categorias inferiores, para perceber se os efeitos das categorias superiores
são na realidade espúrios. Wimmer já tinha apontado anteriormente que a lógica
das “categorias aninhadas” (nested categories) era uma das estratégias de
desmontagem da armadilha herderiana: não tomar categorias por grupos culturais
delimitados.
As conclusões a que Wimmer chega sobre outros mecanismos explicativos para a
composição das redes afiguram-se perfeitamente aceitáveis; mais problemática é
a generalização de uma tal leitura quando é o próprio autor a salientar que a
investigação recaiu sobre um universo tão específico que está longe de replicar
as condições sociais da sociedade americana, ou de qualquer outra sociedade
tomada como um todo. Neste sentido, parece prematuro que apenas através de um
estudo que incidiu sobre alunos de Princeton — uma elite mundial em formação,
se alguma vez houve uma — se possa chegar a conclusões tão genéricas. Quanto a
este aspeto, a maior relevância recai sobre os estudos de segregação espacial
que justificam a homofilia racial pelo encurtamento das redes sociais
decorrente daquilo que Louri (2002) designou vicious circles of cumulative
causation. Mas mesmo o estudo canónico de McPherson, Smith-Lovin e Cook (2001)
aqui citado não faz depender a homofilia de uma vontade individual para o
semelhante. Ao invés, mostra claramente que a homofilia racial e étnica é
explicada pelos efeitos estruturais da dimensão da categoria e da diferenciação
social em variáveis sociais tais como a educação, o rendimento, o lugar de
residência, etc. (p. 422). Sendo certo que Wimmer controla estas variáveis, que
espécie de variação se supõe encontrar num universo tão específico (e tão
enviesado relativamente às categorias com que McPherson, Smith-Lovin e Cook
fazem variar a homofilia) como os alunos caloiros de Princeton? O problema aqui
é de ambiente institucional: as redes não são estratificadas segundo categorias
exógenas. E mesmo que a investigação mostre que o estatuto socioeconómico é uma
das “dimensões mais importantes de fechamento social”, o problema mantém-se: o
ambiente institucional acaba por mitigar os fatores que sustêm a hierarquização
racial no contexto norte-americano.
Finalmente, o último capítulo empírico testa a relação entre valores e
determinados grupos étnicos, o que no modelo herderiano possui um cunho de
necessidade, na medida em que a etnicidade é equacionada com uma cultura
particular e com a partilha de um conjunto de valores. Cruzando a escala de
valores de Schwartz utilizada na ESS (European Social Survey) com uma
construção de grupo étnico da autoria de Wimmer e da sua equipa (notemos que
não existe uma tal categorização na ESS), descobre-se que a variação em matéria
de heterodoxia por relação ao grupo maioritário não é explicada pela pertença a
um grupo étnico, mas que diferenças entre ser ateu ou religioso são mais
significativas. Wimmer sublinha este resultado em particular porque ele sugere
que não existe uma descontinuidade radical entre muçulmanos e maiorias
nacionais, como tantas vezes o discurso político ou a opinião pública propalam.
A última parte do livro reafirma as estratégias anti-herderianas que Wimmer
elaborou na introdução, ou seja, a superação das tradicionais categorias
étnico-raciais através da abordagem das “categorias aninhadas”, e a
substituição da delimitação cultural dos grupos própria do pensamento
herderiano por uma análise das estratégias de fechamento social decorrentes de
diferenciais de poder. Em termos metodológicos isto implica definir as unidades
de análise em termos não étnicos (p. 206). O que equivale, nos estudos
empíricos, a eleger como unidades de observação ou os campos sociais ou os
indivíduos, em último recurso o grupo étnico, como construção analítica (caso
da ESS). Em suma, o modelo teórico de Wimmer tem por premissa a abertura dos
processos de formação grupais sem pressupor a priori a sua forma étnica. Não
estando desacompanhado neste desiderato (veja-se para Portugal, Machado, 2002),
o conceito de fronteira e o seu instrumental analítico trazem inegáveis
vantagens operacionais.