Modos de explicação
Explicar, na teoria sociológica, consiste em especificar os fatores operantes
na constituição de um dado tipo de fenómeno social através das relações,
temporalmente sequenciais, entre esse fenómeno e outros fenómenos sociais. É
hoje comum, entre autores de diferentes orientações teóricas, designar tais
fatores operantes como “mecanismos”. Porém, o acordo termina quando se procura
especificar um pouco mais a definição de “mecanismo”. Por exemplo, segundo
Hedström, mecanismo social é “uma constelação de entidades e atividades
organizadas de modo tal que geram, regularmente, um tipo particular de
resultado” (Hedström, 2005: 25). Especificando, o autor acrescenta que, no
essencial, por entidades entende atores individuais, por atividades entende os
atos desses atores e por constelações as relações entre esses atores e as suas
propriedades. Em conclusão, “isto significa que explicações baseadas na ação
estão no centro de todos os mecanismos sociais” (idem: 26).
Aqui chegados, deixa de haver grande diferença entre esta definição particular
de “mecanismo social” e a pretensão do individualismo metodológico segundo a
qual a explicação sociológica de um qualquer fenómeno só está completa quando
são identificados os microfundamentos desse fenómeno, em particular os atos
individuais e as relações entre atores e atos individuais que estão na sua
origem, como sustenta, por exemplo, Raymond Boudon (1998). Esta pretensão de
exclusividade de um único modo de explicação sociológica não nos parece útil,
por três razões.
Consideremos, para clarificar o enunciado dessas razões, um exemplo simples já
utilizado noutro texto (Pires, 2014). Exemplo: é frequente a criação de novas
normas que revelam incompatibilidades com normas preexistentes,
incompatibilidade que é, em si mesma, um facto social de âmbito macro
constituído não pela nova norma mas pela interdependência sistémica entre essa
nova norma e as antigas normas. Com este exemplo em mente retomemos a
argumentação sobre as três razões porque nos parece inútil a pretensão de
exclusividade do individualismo metodológico enquanto modo de explicação.
Em primeiro lugar, porque é inútil a remissão para o plano micro da ação
individual quando está simplesmente em causa explicar fenómenos macro com
origem em relações no plano macro. É o caso, tratado no exemplo acima, das
relações sistémicas de compatibilidade ou incompatibilidade entre normas. Dir-
se-á que essas relações sistémicas são relações entre entidades ou processos
gerados, em última instância, por atos individuais, e que, nesse sentido, a
explicação sistémica da sua relação é incompleta — o que é indiscutível. Porém,
a análise dos atos na origem de tais entidades ou processos nada acrescentaria
à explicação da natureza sistémica de interdependência lógica das suas
relações, uma propriedade emergente que não caracteriza as normas mas apenas as
relações entre normas, um exemplo do caráter estratificado da realidade
salientado na corrente do realismo crítico (Danermark e outros, 2002: 59-66).
Uma explicação pode ser incompleta mas isso não é razão suficiente para ser
considerada deficiente (Heath, 2011).
O que nos leva à segunda objeção à pretensão de exclusividade do individualismo
metodológico. O modo de explicação adequado depende do objetivo da explicação,
e a definição desse objetivo é sempre a definição do âmbito da explicação. Em
rigor, uma explicação completa sobre o que quer que seja é impossível, em
sociologia como em qualquer outro domínio científico. Por isso, em termos de
âmbito, as explicações adequadas são as explicações suficientes para os
objetivos analíticos em causa. Se, como no exemplo que temos vindo a usar, o
que se pretendia era, simplesmente, explicar o modo de funcionamento lógico do
sistema normativo, a análise da sua génese seria, para isso, desnecessária.
Por fim, e continuando com o mesmo exemplo, a explicação procurada até podia
querer incluir a identificação da génese das normas sistemicamente
interdependentes. No entanto, o estado do conhecimento sobre o fenómeno em
análise poderia não o permitir, por falta de informação relevante e testada
sobre essa génese. Nesse caso, e como adiante se verá, é não só necessário como
aconselhável limitar a explicação ao plano sobre o qual há informação, no caso
as relações sistémicas de compatibilidade ou incompatibilidade entre normas, e
não retirar daí mais do que eventuais conjeturas, com muitas reservas, sobre a
génese dessas normas.
Em resumo, o tipo adequado de explicação varia em função das propriedades dos
processos em análise, dos objetivos da explicação e do grau de conhecimento
sobre aqueles processos. Não há um tipo único de explicação eficiente, apesar
da pretensão individualista sobre a indispensabilidade da microfundamentação de
todo o tipo de explicação sociológica. Há apenas explicações adequadas.
Ação sem atores: a sedução das falsas explicações fáceis
As razões invocadas nos parágrafos anteriores são tão triviais que se torna
estranha a adesão à pretensão de exclusividade do individualismo metodológico.
Há, porém, uma razão para tal. Na história da sociologia foi frequente a
construção de teorias sistémicas que dispensavam a análise da ação mas que
propunham explicações de tipo teleológico que pressupunham essa análise.
Faziam-no, nomeadamente, de dois modos. Por um lado, atribuindo propriedades da
ação a entidades não atuantes, enquanto atalho para explicar a génese das
relações observadas. Por outro, retirando da análise das configurações
sistémicas conclusões sobre as razões dos atos que teriam produzido tais
configurações, razões essas apresentadas como explicações daqueles resultados.
Foi em confronto com estas explicações erradas que se construiu a credibilidade
do individualismo metodológico. Se, em alternativa, pretendermos alargar o
leque de modos de explicação legítimos, retendo em particular os contributos da
análise funcional, é necessário começar por identificar e colocar de lado
aqueles dois tipos de falsas explicações.
Consideremos, por exemplo, a teoria neomarxista do subdesenvolvimento, muito
popular nos meios académicos entre as décadas de 1960 e 1980. Segundo a teoria,
o subdesenvolvimento não seria sinónimo de falta de desenvolvimento, de atraso,
mas o resultado de um desenvolvimento bloqueado e deformado, nos países do
terceiro mundo, em função das necessidades dos países mais desenvolvidos, do
primeiro mundo. Nesta explicação há duas afirmações diferentes mas encadeadas.
A primeira sustenta que era útil aos países desenvolvidos a existência de
países subdesenvolvidos. A segunda sustenta que existia subdesenvolvimento por
causa dessa utilidade. Aceitemos, para os efeitos que nos ocupam, a primeira
afirmação, ignorando toda a controvérsia em seu torno, isto é, aceitemos, para
efeitos argumentativos, que existia uma relação funcional entre
subdesenvolvimento e desenvolvimento à escala mundial. O mero reconhecimento
daquela pretensa funcionalidade é, no entanto, insuficiente para explicar a
origem, ou determinar as causas, do subdesenvolvimento. Não é logicamente
aceitável transformar o efeito de um processo, no caso a pretensa utilidade do
subdesenvolvimento, na causa desse efeito. Dizer que o subdesenvolvimento do
terceiro mundo é útil ao desenvolvimento do primeiro mundo é uma afirmação
empiricamente contestável mas logicamente possível. Dizer que existe
subdesenvolvimento do terceiro mundo porque este é útil ao desenvolvimento do
primeiro mundo é metodologicamente errado. Num certo sentido, é mesmo pura
batota, pois a passagem da primeira para a segunda afirmação não é suportada
por qualquer tipo de prova nova mas apenas pelo acrescento da palavra “porque”.
O mesmo tipo de erro está presente na conceptualização da semiperiferia como
categoria de países com funções de mediação entre o centro, ou primeiro mundo,
e a periferia, ou terceiro mundo. Segundo um dos mais conhecidos promotores
desta conceptualização, “o sistema-mundo capitalista necessita de um setor
semiperiférico” pois, caso contrário, e dadas as tensões resultantes da
desigualdade entre centro e periferia, “o sistema capitalista enfrentaria
rapidamente uma crise económica e uma crise política” (Wallerstein, 1979: 69-
70). O deslizar de uma identificação de funcionalidade, metodologicamente
legítima ainda que empiricamente controversa, para uma explicação
funcionalista, metodologicamente inaceitável, dificilmente poderia ter
ilustração mais clara (Pires, 1990).
Nos dois parágrafos anteriores, o erro argumentativo pode ser resumido com uma
frase lapidar: “uma necessidade não cria a sua própria satisfação” (Berger e
Offe, 1982: 521). Ou, numa versão mais clássica e longa, “mostrar a utilidade
de um facto não é explicar como nasceu nem como é o que é, pois as funções para
que serve supõem as propriedades específicas que o caracterizam, mas não o
criam. A nossa necessidade das coisas não pode fazer que sejam assim ou de
outro modo e, por conseguinte, não é tal necessidade que pode extraí-las do
nada e conferir-lhes existência. Esta depende de causas de um outro género. O
sentimento que temos da sua utilidade pode incitar-nos a fazer atuar estas
causas e a aproveitar os resultados que implicam, mas não a suscitar esses
resultados a partir do nada” (Durkheim, 1984 [1895]: 108).
Em abstrato, aquelas citações são autoevidentes. Ilustradas com exemplos
simples da vida quotidiana, essa evidência é ainda maior. Por exemplo, não é
pelo facto de alguém necessitar de dinheiro que terá dinheiro. Precisará de o
ganhar ou de o roubar, mas, sem atos que tenham o dinheiro como contrapartida,
ele não aparecerá apenas porque é necessário. Da mesma forma, se alguém
necessitar de proteção térmica para nadar em águas geladas, para não morrer de
hipotermia, terá de agir com esse objetivo. De contrário se, por exemplo, cair
num mar gelado em circunstâncias imprevistas, morrerá, pois a necessidade da
proteção térmica não garante a sua disponibilidade, exceto se quem tiver essa
necessidade agir para a garantir — no caso, levando consigo proteção térmica
sempre que houver risco de cair em águas geladas (o que, convenhamos, não será
a mais prática e provável das decisões).
Portanto, e admitindo, apenas para efeitos de argumentação, que a existência da
semiperiferia contribui para atenuar as tensões que resultariam de uma
polarização entre países ricos e países pobres, a contestação do argumento de
Wallerstein é óbvia. Tem que haver semiperiferia porque de contrário haverá
crise? Não, a ser verdadeira a função de mediação da semiperiferia, se não
houver semiperiferia haverá crise. Tem que existir semiperiferia porque ela é
necessária? Não, se houver semiperiferia ela será útil. Tenho que ter dinheiro
porque necessito dele? Não, se nada fizer para ter dinheiro não o terei.
Sendo tão evidente o erro, o que está por detrás da sua frequente ocorrência é
uma concentração nas consequências intencionais da ação que sustentariam os
imperativos objetivos da reprodução dos sistemas sociais. Nos exemplos
anteriores, bem como na teoria marxista em geral, a descoberta de uma
funcionalidade sistémica tende a ser explicada como o resultado de um ato
intencional da responsabilidade de quem beneficia com essa funcionalidade. Este
erro é simétrico do que decorre do centramento do individualismo metodológico
nas consequências não intencionais da ação. Da imagem de um mundo povoado por
aprendizes de feiticeiro sem controlo sobre os seus atos, que subjaz a muitas
das propostas teóricas características do individualismo metodológico,
passamos, nas principais versões da teoria marxista contemporânea, à imagem de
um mundo orquestrado na sombra por uma grande conspiração.
Para além da pouca verosimilhança de ambas as imagens, há, na segunda, um
problema específico. À pergunta “quem beneficia com o subdesenvolvimento” a
resposta habitual é “as classes dirigentes dos países do primeiro mundo”,
quando não “os países do primeiro mundo” ou, mesmo, “o capitalismo mundial”. Ou
seja, os interessados não são atores mas sistemas ou, quando identificados como
classes, conjuntos de atores sem instrumentos de decisão coletiva. Em rigor, o
argumento caracteriza-se por, tal como no funcionalismo em geral, “pressupor
uma intenção sem um ator intencional” (Elster, 1982: 454). É pois a atribuição
de propriedades dos atores e das relações entre atores aos sistemas e às
relações sistémicas que permite saltar da identificação de uma relação
funcional para a construção de uma aparente, mas falsa, explicação da génese
dessa relação. E é o reconhecimento da ilegitimidade metodológica daquela
atribuição que explica a atracão exercida pela exigência de microfundamentação
sempre que está em causa a explicação de macrofenómenos sociais. Porém, é
possível recusar os vícios da explicação funcionalista, qualquer que seja a sua
inscrição teórica, e, ao mesmo tempo, salvaguardar as virtualidades da análise
funcional e alargar o âmbito da análise causal para outros domínios que não o
dos poderes causais da ação.
As principais falsas explicações fáceis são simples de listar. Resultam, em
regra, de erros comuns em (más) explicações funcionalistas que não respeitam o
âmbito da (boa) análise funcional. São mais habituais entre não funcionalistas
que praticam, desconhecendo-a, a argumentação funcionalista, do que entre
funcionalistas conhecedores das armadilhas da análise funcional. Destacamos
cinco:
a) em geral, pressupor a fusão entre os estados subjetivos dos indivíduos e
as consequências objetivas da sua ação;
b) em particular, explicar as consequências dos atos pelas razões desses
atos ou, inversamente, deduzir as razões dos atos das consequências desses
atos;
c) em geral, atribuir propriedades da ação a entidades não atuantes,
enquanto atalho para explicar a génese das relações observadas;
d) em particular, pressupor uma intenção sem um ator intencional;
e) em geral, transformar o efeito funcional de um processo na causa desse
efeito.
Virtualidades da análise funcional
A análise funcional que se pretende salvaguardar é, simplesmente, a
identificação e caracterização das relações funcionais, ou funções, isto é, das
relações entre as partes de um sistema e o conjunto do sistema que contribuem
para a existência desse sistema. Sinteticamente, diz-se que existe relação
funcional entre Y e Z quando o fenómeno Y é parte de Z e contribui para a
existência de Z. Por outras palavras, função é toda a consequência de um
fenómeno que contribui para a reprodução do sistema no âmbito do qual esse
fenómeno ocorre. São por isso componentes fundamentais da análise funcional a
identificação e caracterização dos sistemas, das suas partes constitutivas e
das propriedades das relações entre as partes e entre estas e o conjunto do
sistema. Quando realizada com estes objetivos estritos, a análise funcional é
útil pois contribui para explicar a integração e operação dos sistemas sociais.
Para garantir as condições de eficácia da análise funcional neste âmbito
estrito convém, porém, reter as recomendações de Merton (1970 [1968]: 91-103),
que podemos resumir na trilogia diversidade das consequências, especificação
relacional e equivalência funcional. Primeira recomendação: é indispensável
considerar a funcionalidade como apenas um dos possíveis efeitos sistémicos do
fenómeno em análise. Outros efeitos incluem a disfuncionalidade ou, mesmo, a
irrelevância funcional desse fenómeno, pois “um facto pode existir sem servir
para nada” (Durkheim, 1984 [1895]: 109). Segunda recomendação: é indispensável
especificar o âmbito da análise funcional, pois a funcionalidade de um fenómeno
depende do âmbito relacional considerado. Um fenómeno não é funcional ou
disfuncional em absoluto, pode ser funcional num determinado âmbito relacional
e disfuncional ou não funcional noutro. Terceira e última recomendação: é
indispensável distinguir entre a função e o fenómeno e admitir a possibilidade
de a mesma função poder ser preenchida por outros fenómenos. Nas palavras de
Merton, “tal como a mesma coisa pode ter múltiplas funções, assim pode a mesma
função ser diversamente preenchida por coisas diferentes” (Merton, 1970 [1968]:
100).
Mobilizando a categoria de “mecanismo”, na definição mais geral, embora
excessivamente metafórica, proposta pelos realistas, como conjunto de fatores
operantes na constituição de um dado tipo de fenómeno social, ou sequência-
padrão de processos “que faz com que uma situação se transforme (ou não) numa
outra” (Brante, 2001: 18), é ainda possível usar a análise funcional para
suscitar questões de causalidade e preparar o terreno para a análise causal. A
ação social é, em geral, teleológica, ou seja, tem por origem a prossecução de
uma finalidade. Isso não significa, porém, que seja possível presumir a
intenção a partir da análise dos resultados, pois esses resultados podem não
corresponder à intenção do ato que os produziu. Os atos intencionais têm
consequências não intencionais que, em alguns casos, superam ou anulam as
consequências pretendidas. Mas isso não quer dizer, por sua vez, que não haja
consequências correspondentes às intenções dos atos. A ser assim, nenhuma
organização funcionaria com um mínimo de eficácia. Ora, as organizações são
justamente uma invenção social que permite assegurar, com a máxima eficácia
possível, a correspondência entre intenções e resultados da ação.
É por isso legítimo, quando se identifica o efeito funcional de um fenómeno,
colocar a hipótese de esse efeito justificar a emergência ou reprodução do
fenómeno em causa, no sentido em que este será o resultado de atos que visaram
ou visam, deliberadamente, produzir, ou reproduzir, esse efeito. E, colocada
essa hipótese, desenvolver o correspondente processo de investigação para a sua
verificação no plano da análise causal.
Noutros casos, porém, é difícil imputar o efeito funcional, regularmente
observado, a uma intenção causal inicial. Quando assim é, a relação entre
análise funcional e explicação causal pode fazer-se por duas vias. Consideremos
os seguintes enunciados:
E1: na sociedade s e no tempo t, Y tem consequências favoráveis para Z;
E2: na sociedade s e no tempo t, Y ocorre porque tem consequências
favoráveis para Z.
Não sendo metodologicamente legítimo passar diretamente de E1 a E2, como mais
atrás se referiu, as duas vias possíveis para o fazer serão então as seguintes:
P1: na sociedade s e no tempo t, Y ocorre porque tem consequências
favoráveis para Z em virtude do mecanismo de retroação M;
P2: sempre que as circunstâncias são tais que um item do tipo Y tem
consequências positivas para um item do tipo Z, Y tem ocorrido.
No primeiro caso (P1), é possível explicar pelos seus efeitos a relação
funcional observada porque é possível identificar o mecanismo causal de
retroação (feedback) que lhe está associado, isto é, o mecanismo por via do
qual as consequências dos atos que têm efeitos funcionais reagem, em retorno,
sobre esses atos, assim ficando assegurada a reprodução daqueles efeitos
funcionais.
No segundo caso (P2), em que não é possível identificar o mecanismo causal de
retroação, a solução apresentada tem o estatuto do que G. A. Cohen (1982)
designou por “leis consequenciais”. “Leis” porque enunciam uma regularidade
observável num contexto delimitado. “Consequenciais” porque a regularidade em
causa se manifesta no plano dos efeitos de um dado fenómeno social, não dos
seus antecedentes. Claro que, como Cohen o reconhece, esta solução não
desemboca numa explicação causal mas numa hipótese de explicação causal, numa
conjetura suficientemente plausível para permitir a construção, posterior, de
uma proposta de interpretação teórica.
Se as relações entre análise funcional e análise causal forem assim
controladas, vale a pena conservar as duas. Nomeadamente porque quando se faz a
economia de qualquer uma delas tende a aumentar o risco de introdução sub-
reptícia de um pressuposto de fusão entre estados subjetivos dos indivíduos e
consequências objetivas da sua ação, como quando se retiram, da análise das
configurações sistémicas, conclusões sobre as razões dos atos que teriam
produzido tais configurações, e, de seguida, se apresentam essas razões como
explicações daquelas configurações.
Um pequeno exemplo, retirado do estudo sociológico das migrações, ajudará a
perceber as consequências indesejáveis de um tal pressuposto. É muito comum a
imputação de razões económicas às migrações a partir da verificação de que
essas migrações permitem dar resposta, no destino, a necessidades económicas.
Ou seja, classifica-se como económica uma migração devido às suas
características funcionais e, a partir daí, deduzem-se que são económicas as
motivações dos migrantes que a realizaram. Ora, as razões para a migração só
podem ser conhecidas analisando as histórias dos migrantes, não por dedução a
partir dos resultados dessa migração.
No caso das migrações internacionais, um conjunto de pessoas de um país pode
querer migrar pelas mais variadas razões, mas a possibilidade que têm de
concretizar essa migração depende tanto da sua vontade para o fazer como da
autorização do estado de destino. Com frequência, a coincidência de vontades
das duas partes é independente da coincidência das razões das partes. Uma
pessoa pode querer migrar por razões políticas e ser autorizada a fazê-lo pelas
autoridades no destino porque estas entendem haver necessidades económicas que
requerem a importação de mão de obra. No final, a convergência é perfeita
porque quem migra precisa de trabalhar para se sustentar independentemente das
razões porque migra.
Dir-se-á que a conclusão a retirar do exemplo aponta para a necessidade de
completar sempre a análise funcional com a análise causal dos microfundamentos
da ação. Em rigor, porém, o que é necessário é não confundir os dois planos e
não deduzir o conhecimento de um da análise do outro. No exemplo em causa, é
relativamente fácil identificar e analisar os resultados, isto é, as dinâmicas
funcionais, das migrações, ou mesmo os fatores da sua procura no destino. É
incomparavelmente mais difícil a análise das razões dos migrantes para
migrarem. Quando se faz um inquérito a migrantes depois de estes migrarem, após
alguns anos de permanência no destino, dificilmente se poderão validar as
declarações que os interrogados farão sobre as razões do seu movimento, já que
a memória do percurso tende a ser reconstruída em função da experiência
migratória. Ou seja, um estudo rigoroso sobre as razões dos migrantes para
migrar obrigaria a usar procedimentos de investigação demorados e caros, com
pesquisa tanto na origem como no destino, ao longo de vários anos (sem falar
nas dificuldades metodológicas, e éticas, da identificação dos potenciais
migrantes antes de estes iniciarem, de modos visíveis, o seu percurso de
mobilidade).
Insistir, em casos destes, na indispensabilidade da análise causal dos
microfundamentos da ação para completar a explicação pode ter efeitos
exatamente contrários aos procurados, pois, dadas as dificuldades assinaladas,
é grande a tentação para fazer funcionar, sub-repticiamente, o pressuposto da
fusão entre estados subjetivos dos indivíduos e consequências objetivas da sua
ação e deduzir aqueles estados, desconhecidos, das consequências, conhecidas. A
tentação é aliás facilitada por as interrogações sobre as razões dos atos só
poderem ser formuladas depois não só de esses atos se terem concretizado como
de terem ganho visibilidade através das suas consequências. Ou seja, é através
do conhecimento das consequências dos atos, nem sempre imediatas, que se inicia
o questionamento sobre as razões desses atos. Sendo em muitos casos difícil
aceder aos atores responsáveis por tais atos para os questionar sobre as razões
destes, ou, quando o acesso é possível, controlar os efeitos de memória nas
respostas a esses questionamentos, a alternativa mais comum passa pela dedução
dessas razões das características da situação e dos resultados dos atos. Estes
exercícios de compreensão sem observação tendem a desembocar numa racionalidade
retrospetiva, post factum, impossível de testar.
A boa solução é, pelo contrário, reconhecer a plena legitimidade, utilidade e
suficiência da análise funcional dos resultados da ação, desde que dela não se
pretendam extrair conclusões sobre os atos que deram origem aos fenómenos em
análise. Esta autonomia dos planos de análise e modos de explicação é aliás
necessária porque também é incorreta a operação inversa à descrita. Isto é, não
é possível deduzir as consequências dos atos das razões para a ação, sobretudo
devido aos efeitos não esperados da ação, por exemplo, os introduzidos pelos
modos dinâmicos de combinação dos atos e dos seus resultados. Reencontramos,
aqui, o problema das relações e processos de agregação abundantemente tratado
na literatura sociológica.
Para contrariar alguns dos enviesamentos induzidos pelo pressuposto da fusão,
Merton propôs, como se sabe, que se distinguisse entre funções manifestas e
funções latentes, definindo as primeiras como consequências de atos pretendidas
e reconhecidas pelos atores, e as segundas como consequências objetivas de atos
não pretendidas nem reconhecidas pelos atores (Merton, 1970 [1968]: 127-150).
Exemplificando, uma sessão de culto religioso teria como função manifesta a
celebração de Deus e como função latente o reforço da integração social como
consequência da participação regular no ritual cerimonial. Ou seja, a função é
manifesta quando existe uma relação causal entre estados subjetivos dos
indivíduos e consequências objetivas da sua ação. No exemplo em causa, a crença
religiosa (causa subjetiva) explicaria a celebração religiosa (consequência
objetiva da ação). Inversamente, a função é latente quando não é possível
deduzir a consequência objetiva de um ato, ou conjuntos de atos, do estado
subjetivo do autor ou autores desses atos.
No exemplo dado por Merton, não é possível deduzir as funções integradoras do
ritual de uma intenção integradora dos praticantes no ritual cerimonial.
O ritual é desencadeado pela crença e é o desempenho deste que tem funções
integradoras, independentemente da existência ou não de uma intenção subjetiva
de integração. Por outras palavras, a função integradora do ritual é uma
consequência não pretendida dos atos subjetivamente causados pela crença. Por
um lado, os crentes praticam o ritual cerimonial porque partilham uma crença, e
com essa prática regular reproduzem a crença. Por outro, e independentemente
das crenças que o originam, a prática do ritual, não a razão deste, tem
consequências funcionais não pretendidas (o que não é o mesmo que indesejadas),
a saber, a integração social dos participantes.
Note-se que este tipo de consequências não pretendidas da ação tem
características muito diferentes daquelas que estão habitualmente em foco nas
análises orientadas pelo individualismo metodológico. Estas análises incidem
sobretudo sobre dinâmicas sociais em que as consequências não pretendidas da
ação têm uma relação tensa, quando não mesmo contraditória, com os objetivos
pretendidos da ação, em suma, em que as consequências são efeitos indesejados
da ação. No limite, são o que Raymond Boudon (1977) designa por “efeitos
perversos” da ação, isto é, efeitos de sentido contrário ao pretendido pelos
atores.
No exemplo de Merton que temos vindo a tratar, as consequências não pretendidas
da ação não são perversas, no sentido em que se oporiam aos objetivos
pretendidos da ação. São antes consequências não pretendidas que poderemos
qualificar como colaterais, eventualmente reforçando a concretização dos
objetivos pretendidos, eventualmente irrelevantes para a prossecução destes. O
critério da sua relevância nada tem a ver com as razões dos atos que as
originaram mas com a dinâmica funcional de reprodução das relações entre os
praticantes do ritual cerimonial (função de integração) que resulta do modo de
desempenho desses atos. Voltaremos a esta questão mais adiante. Por ora, convém
apenas reter que na análise da relação entre razões e consequências dos atos
deve ser considerada a possibilidade da ocorrência de, pelo menos, três
possibilidades:
a) as razões explicam as consequências observadas, isto é, os efeitos dos
atos correspondem, ainda que em grau variável, às intenções dos atores (efeitos
intencionais pretendidos pelos atores);
b) as razões não estão relacionadas com as consequências observadas, isto é,
os efeitos dos atos são independentes das intenções dos atores (efeitos
colaterais não pretendidos pelos atores);
c) as razões estão negativamente relacionadas com as consequências
observadas, isto é, os efeitos dos atos são parcial ou totalmente
contraditórios com as intenções dos atores (efeitos indesejados, eventualmente
perversos, não pretendidos pelos atores).
No plano da análise funcional importa saber, num segundo momento, se os efeitos
colaterais não pretendidos pelos atores são ou não reflexivamente reconhecidas
por estes. Quando esse reconhecimento acontece e é positivamente avaliado, a
sua reprodução passa a ter causalidade própria nas razões e dinâmicas da ação.
Os efeitos colaterais não pretendidos transformam-se em efeitos intencionais
pretendidos pelos atores. O reconhecimento reflexivo é o mecanismo de retroação
que explica a operação do que podemos chamar causalidade reversa (Stinchcombe,
1968: 99), isto é, o modo como o efeito gera a emergência da causa que o
reproduz. Se a partir do seu reconhecimento reflexivo a reprodução dos efeitos
inicialmente colaterais passa a ter uma explicação causal, é no entanto através
do momento especificamente funcional da análise que podemos descobrir a origem
das razões que explicam o ato responsável por essa reprodução intencional de
efeitos desejados.
Porém, nos casos frequentes em que o reconhecimento não acontece, a reprodução
do efeito colateral tem causalidade derivada: as razões manifestas do ato.
A explicação da reprodução daquele efeito beneficia de um aprofundamento mínimo
da análise funcional.
Em primeiro lugar, a reprodução do efeito colateral é facilitada se o seu
impacto não acarretar consequências indesejadas para os autores dos atos que o
provocaram. Por outras palavras, não sendo reproduzido por vontade deliberada
de o obter, o efeito colateral não intencional tem a sua reprodução facilitada
se não for reflexivamente reconhecido ou experimentado em termos práticos como
algo indesejável. Mais, se em termos práticos constituir experiência
positivamente valorizada, poderá mesmo facilitar também a reprodução das razões
que estão na origem do ato. Por exemplo, se o sentimento de pertença,
experimentado mas não reconhecido, resultante da performatividade do ato ritual
que visa celebrar uma crença constituir experiência positivamente valorizada
pelos participantes no ritual, então é a razão reconhecida do ato que fica
reforçada, isto é, o valor da crença. Por outras palavras, a funcionalidade
latente do ato pode reforçar a funcionalidade manifesta deste ao criar um
ambiente mais favorável à adesão às suas razões (neste caso a crença). Note-se
que o contrário também é verdadeiro. Se numa sociedade mais individualizada o
reforço do sentimento de pertença coletiva for experimentado como opressivo,
poderão as razões do ato (no caso, a crença) ser minadas pela disfuncionalidade
dos efeitos colaterais não pretendidos. Ou seja, a experiência pelos atores dos
efeitos dos atos, e não apenas o reconhecimento subjetivo desses efeitos,
poderá constituir mecanismo de retroação suficientemente eficaz para induzir a
reprodução ou alteração desses mesmos atos.
Em resumo, sustenta-se neste artigo que a análise funcional:
a) consiste na identificação e caracterização das relações funcionais, ou
funções, isto é, daquelas relações entre as partes de um sistema e o conjunto
do sistema que contribuem para a existência desse mesmo sistema;
b) é útil para explicar o funcionamento e integração dos sistemas sociais,
desde que daí não se retirem conclusões sobre os atos que deram origem aos
fenómenos em análise;
c) exige, para ser devidamente controlada, o reconhecimento da trilogia
mertoniana diversidade das consequências, especificação relacional e
equivalência funcional;
d) deve ser desdobrada para dar conta dos diversos efeitos funcionais de um
mesmo ato e dos diferentes mecanismos causais de retroação;
e) permite suscitar questões de causalidade e preparar o terreno para a
análise causal.
Modalidades de análise causal
Utiliza-se aqui o termo causa no sentido mais geral de fenómeno antecedente que
provoca o efeito observado. Isto é, diz-se que existe relação de causalidade
entre X e Y quando o fenómeno X antecede e provoca Y. Tendo em conta as
propriedades da agência humana, a expressão “provoca” deve ser entendida em
termos probabilísticos, pelo que a frase “o fenómeno X antecede e provoca Y”
significa, mais rigorosamente, que “o fenómeno X antecede Y e aumenta a
probabilidade de ocorrência de Y”. Clarificada a definição geral, importa
especificá-la em função do tipo de relação e dinâmica causal em análise. Em
particular, é útil distinguir entre diferentes tipos de poderes causais e entre
diferentes dinâmicas de causalidade. No primeiro caso, entre poderes causais
generativos e potenciais. No segundo, entre dinâmicas causais gerais e
singulares.
Poderes causais generativos são um exclusivo do domínio da ação. Por
causalidade generativa entende-se a iniciação de um processo unidirecional que
tem por resultado a existência do fenómeno observado (Cowan e Rizzo, 1996:
274). A causalidade generativa opera quer no plano interno da ação, quer no
plano externo. No plano interno, na relação causal entre as razões da ação,
enquanto fator de iniciação dos atos, e esses mesmos atos — as razões são, como
argumentava Weber (1984 [1922]) as causas dos atos observados. No plano
externo, na relação causal entre os atos e as suas consequências, quer no plano
das relações interindividuais com outros atores, quer no plano agregado das
relações grupais e sistémicas — os atos são as causas das configurações das
relações sociais observadas.
Este tipo de causalidade é teleológica, na medida em que ao agir em função de
razões, os atores o fazem para atingir uma finalidade que começou por ser por
eles subjetivamente antecipada. Muita da confusão metodológica atrás referida a
propósito da discussão do conceito de função tem origem nesta propriedade da
ação. Dizer que se age com um propósito não é o mesmo que dizer que tudo o que
existe no plano social tem um propósito, nem que a funcionalidade de um
processo social deriva de um propósito. Como já se referiu, o que existe
resulta tanto de intenções como de consequências não intencionais da ação, quer
por efeito das propriedades dos atos que concretizam as intenções, quer por
efeito dos processos de agregação desses atos. Essas consequências emergentes
não intencionais podem ser funcionais, mas são-no independentemente dos
propósitos dos atos que os originaram. Em termos mais sintéticos: as razões ou
propósitos dos atos explicam os atos, não as consequências destes, mesmo quando
essas consequências coincidem com aqueles propósitos, pois neste caso é
necessário explicar que condições, para além das razões, explicam essa
coincidência, noutros casos ausente. O estudo das razões dos atos é
analiticamente relevante para explicar a iniciação desses atos, mas pode ser
parcial ou totalmente irrelevante para explicar o conjunto das suas
consequências. Estas dependem, em parte, dos poderes causais potenciais das
estruturas sociais.
Os poderes causais potenciais (Archer, 2010: 277) exercem-se através da ação e,
não sendo diretamente observáveis, são comprováveis pelas suas consequências.
Enquanto condições e orientações da ação, tornam mais ou menos provável a
emergência ou reprodução quer de diferentes razões da ação, quer de diferentes
modos de combinação dos atos e das consequências dos atos. Por outras palavras,
se os poderes causais das estruturas não explicam a iniciação da ação,
explicam, em termos probabilísticos, as distribuições observáveis quer dos
tipos de razões e de atos, quer dos modos das suas combinações. Pois, embora em
princípio possam emergir todo o tipo de razões, atos e combinações de atos, nem
todas as razões, atos e combinações de atos têm a mesma probabilidade de
sucesso num ambiente social que preexiste ao ator e à ação.
Se assim não fosse os resultados dos atos seriam por regra imprevisíveis. Ora,
a ideia de que é possível explicar os processos sociais por referência aos atos
que os originaram requer o pressuposto de que os atores têm boas razões para
fazerem o que fazem porque, entre outras coisas, eles reconhecem que os atos
orientados por essas razões têm resultados regularmente previsíveis. Como
refere Pierre Demeulenaere (2011: 178), esta é uma ideia claramente pressuposta
no conceito de ação instrumental, pois “a escolha de certos meios para atingir
um fim tem por base o facto, habitual, de que tais meios conduzem,
habitualmente, a tal fim”. Ora, a referida previsibilidade não depende dos atos
mas do ambiente estruturado em que os atos ocorrem, isto é, depende da
existência de sequências de conexões causais probabilisticamente regulares
enquanto propriedades daquele ambiente (Demeulenaere, 2011).
Se a iniciação da ação depende de razões, e da sua distribuição social
estruturalmente condicionada, a sua concretização depende de capacidades para
agir. Os poderes causais potenciais explicam a variação social das capacidades
para agir, os padrões desiguais de distribuição dessas capacidades. Explicam,
em particular, os diferenciais de poder de controlo sobre os resultados da ação
e, portanto, são parte da explicação dos diferenciais de eficácia dos atos do
ponto de vista do grau de coincidência entre razões e consequências dos mesmos.
Não significa isto, porém, que a emergência de consequências não pretendidas da
ação se deva apenas a variações no grau de controlo, pelos atores, da adequação
entre razões e consequências dos atos. A emergência de consequências não
pretendidas da ação pode ser independente daquela adequação quando, por
exemplo, tem por origem as propriedades do desempenho da ação. Retomando, uma
vez mais, o exemplo de Merton sobre a diferença entre funções manifestas e
latentes, é claro que as consequências integradoras do ritual têm origem não no
descontrolo dos efeitos dos atos dos participantes no ritual, como já se
salientou, mas nas propriedades do seu desempenho, em particular nos domínios
do reforço da pertença grupal e da identidade coletiva. A performatividade dos
atos tem efeitos específicos não dedutíveis das razões desses atos.
A subalternização, quando não mesmo o desconhecimento, da componente
performativa da ação é, aliás, mais uma das limitações do individualismo
metodológico. O ato é tratado como mero tradutor das razões em consequências,
como o mecanismo simples por via do qual a subjetividade se transforma em
objetividade. Definir o ato em si, na sua dimensão performativa, como objeto de
análise próprio, como sede de efeitos causais generativos próprios, não
teleológicos, é, pelo contrário, um dos contributos fundamentais da tradição
interacionista, em particular na sua variante dramatúrgica, à Goffman (bem como
uma das muitas intuições acertadas de Merton).
Consideremos, por fim, a distinção entre dinâmicas causais gerais e singulares.
As primeiras remetem para a relação entre causa e regularidades, as segundas
para a relação entre causa e acontecimento. Um novo exemplo no domínio do
estudo das migrações permite ilustrar esta distinção e a sua relevância.
É comum explicar-se a existência de fluxos migratórios continuados entre dois
países pelos diferenciais de desenvolvimento entre esses países. O argumento,
simplificando, diz que as pessoas tendem a emigrar dos países menos
desenvolvidos para os mais desenvolvidos pois, comparando as suas oportunidades
na origem e nos potenciais destinos, concluem ser a migração uma solução
vantajosa para os seus interesses. Na realidade, as pessoas fazem apenas
comparações com base na informação de que dispõem, e que definem como credível,
sobre oportunidades concretas de emigração. Por outro lado, as migrações têm
não só vantagens como custos, nomeadamente os custos de insecurização
resultantes do abandono de uma situação presente de integração e conhecimento
social por troca com um futuro de relativo isolamento e desconhecimento
iniciais. Por ambas as razões, as pessoas tendem a migrar para onde há já
migrantes com a mesma origem, pois assim têm mais facilmente acesso quer a
informação credível para avaliarem as suas intenções de migração, quer a apoios
relacionais à sua integração no destino. Neste ponto da argumentação torna-se
necessário evitar o risco de tautologia. As relações entre a configuração
concreta das migrações e os problemas da circulação da informação e da redução
da insecurização permitem explicar a reprodução dos fluxos migratórios, mas não
a sua génese. A superação daquele risco é, no entanto, relativamente simples.
Convém simplesmente distinguir, como em regra deverá ser feito para todo o
objeto de análise, entre o plano da explicação da reprodução dos fenómenos
estudados (neste caso os fluxos migratórios) e o plano da explicação da sua
génese.
As causalidades operantes em cada plano são com muita frequência diferentes. No
primeiro plano, estamos perante processos de causalidade geral, neste exemplo
de causalidade cumulativa (Myrdal, 1957), que sustentam a regularidade da
reprodução do fluxo: (i) a emigração promove a circulação de informação entre
origem e destino o que favorece a concentração dos migrantes no destino; (ii) a
circulação de informação e a existência de coletividades de migrantes facilita
novas decisões de emigração para o mesmo destino. No segundo plano, estamos
perante a causalidade histórica da sequência de acontecimentos singulares que
teve por desfecho a criação de uma primeira vaga de emigração: por exemplo, a
guerra do Vietname, na origem da emigração vietnamita para os EUA, que depois
se reproduziu como migração económica.
Duas notas finais. A primeira para referir que a noção de causalidade singular
implica sempre alguma ideia de contrafatualidade causal. A segunda para
sublinhar que a relação entre os dois tipos de causalidade é instrumental. A
vaga inicial de emigração vietnamita para os EUA, na sequência da guerra, foi
política, de refugiados. Independentemente das motivações desses primeiros
migrantes, ficaram reunidas, com a sua mobilidade, as condições em termos de
circulação de informação e de apoios à integração que permitiram, num segundo
momento, o estabelecimento e reprodução de uma migração sobretudo económica. Em
resumo, a explicação causal da origem de um fenómeno social pode dizer pouco
sobre a reprodução continuada desse fenómeno. Inversamente, a explicação causal
da reprodução de um fenómeno social pode ser irrelevante para a explicação
causal da sua origem.
Em resumo, no plano da análise causal, sustentou-se que:
a.1) tendo em conta as propriedades da agência humana, existe relação de
causalidade entre X e Y quando o fenómeno X antecede Y e aumenta a
probabilidade de ocorrência de Y;
a.2) é útil distinguir entre poderes causais generativos e potenciais e
entre dinâmicas causais gerais e singulares;
b.1) por causalidade generativa entende-se a iniciação de um processo
unidirecional que tem por resultado a existência do fenómeno observado;
b.2) poderes causais generativos são um exclusivo do domínio da ação;
b.3) no plano interno da ação, as razões são as causas generativas dos atos
observados;
b.4) no plano externo da ação, os atos são as causas generativas das
configurações das relações sociais observadas;
b.5) a performatividade dos atos tem efeitos específicos não dedutíveis das
razões desses atos (que poderemos designar por causalidade não subjetiva da
ação);
c.1) enquanto condições e orientações da ação, os poderes causais potenciais
explicam a mais ou menos provável emergência ou reprodução quer de diferentes
razões da ação, quer de diferentes modos de combinação dos atos e das
consequências desses atos;
c.2) os poderes causais potenciais exercem-se através da ação;
c.3) os poderes causais potenciais explicam a variação social das
capacidades para agir;
d.1) é com frequência impossível fundir numa única explicação a análise da
origem e da reprodução de um processo social;
d.2) as dinâmicas causais gerais envolvem a relação entre causa e
regularidades e sustentam a reprodução social e sistémica;
d.3) as dinâmicas causais singulares envolvem a relação entre causa e
acontecimento e exprimem-se em sequências de acontecimentos irrepetíveis que
têm por desfecho a criação de novos processos sociais.
Concluindo, a análise sociológica tem a ganhar com a combinação pragmática de
diferentes modos de explicação, os quais devem ser escolhidos e combinados em
função das propriedades dos processos em análise, dos objetivos da explicação e
do grau de conhecimento sobre tais processos. São úteis e legítimas quer as
metodologias de análise funcional quer as de análise causal, bem como a sua
eventual combinação, desde que acauteladas as limitações e condições de
aplicabilidade de cada uma. Também no plano metodológico a
multidimensionalidade contribui para reforçar a capacidade de análise
sociológica.