O impacto do PISA em Portugal através dos media
Introdução
Desde o início do Programme for International Student Assessment (PISA) em
2000, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico(OCDE) tem
vindo a tornar-se a referência na produção de indicadores sobre a qualidade dos
sistemas de ensino nacionais. Segundo a própria OCDE: “O PISA representa um
compromisso dos governos na monitorização dos resultados dos sistemas
educativos através da medição do aproveitamento dos alunos de forma regular e
com uma matriz comum internacionalmente acordada. Tal visa providenciar uma
nova base para o diálogo na definição de políticas e para a cooperação na
formulação e implementação de objetivos educativos de forma inovadora que
reflita a avaliação das capacidades que são necessárias à vida adulta.”(OECD,
2009: 9).
Apesar de a divulgação dos primeiros resultados do PISA ter pouco mais de uma
década, hoje existe já alguma evidência do seu impacto e influência na
formulação, implementação e avaliação das políticas públicas de educação
(Breakspear, 2012) e diversos autores estudaram já o designado PISA effect
(Grek, 2009; Grek e Ozga, 2008) ou tentaram estabelecer relações entre este e
as políticas públicas de certos países (Baird, et al., 2011; Bieber e Martens,
2011; Breakspear, 2012; OECD, 2010b).
Para avaliar o impacto do PISA num país, a reação nos meios de comunicação
social (media) constitui um relevante elemento de análise. Desde logo porque
estes constituem hoje as principais instâncias mediadoras da comunicação entre
os diversos atores sociais (Melo, 2005). Assim, a expressão nos media não
revela necessariamente a relevância política de um assunto e ainda menos nos
dará uma medida consistente das reações de reforma política a um determinado
facto, ou seja, a resposta mediática e a resposta política não se confundem.
Mas, dá-nos, pelo menos, uma medida da controvérsia pública, pois podemos
concluir que, se houver um elevado número de peças jornalísticas nos media
acerca de um assunto, tal significa uma elevada relevância do mesmo na opinião
pública desse país. Não surpreende pois que o impacto do PISA nos media e as
eventuais relações com as políticas públicas possam ser objeto de investigação,
tendo em vista o estudo destas.
O número de estudos que utiliza a análise dos media para investigar o impacto
público do PISA é ainda pouco abundante e o estudo da sua relação com as
políticas é ainda mais raro. Figazzolo (2009) no âmbito do estudo do impacto do
PISA 2006 refere a análise de 12 mil artigos sobre o PISA no mundo inteiro
entre dezembro de 2007 e outubro de 2008 (obtidos através de um agente de
monitorização dos media online designado Meltwater News). Dessa análise, cerca
de 40% dos artigos fazem uma referência simples ao PISA sem qualquer explicação
adicional, 29% citam os resultados (rankings) sem outras explicações (somente
2% a 3% dão explicações técnicas adicionais) e 28% usam o PISA como referência
para pedir reformas nas políticas de educação. A Finlândia é citada em cerca de
75% dos artigos, quase sempre como um exemplo a seguir pelos outros países. Em
termos de conclusões a autora refere que os media têm contribuído para uma
interpretação simplista dos resultados do PISA, assente somente nos rankings,
exercendo frequentemente uma pressão como promotores de reformas baseadas em
critérios de eficiência da OCDE.
Também Dixon et al. (2013) fazem a análise da cobertura mediática e das
respostas políticas do PISA 2006 e do PIRLS (Progress in International Reading
Literacy Study) em quatro países europeus. Recensearam 912 artigos na Alemanha,
175 na Finlândia, 60 no Reino Unido e 29 em França. Concluíram pela
negatividade da maioria dos artigos acerca da política educativa,
independentemente dos resultados obtidos. Assim a Finlândia mostra a mesma
percentagem de cobertura negativa que a Alemanha, apesar de aquela apresentar
muito melhores resultados nos testes. Também a resposta política nos diversos
países não foi uniforme. Assim, enquanto na Alemanha foi definida uma agenda
radical de reforma, em França, apesar dos maus resultados relativos, não houve
resposta semelhante.
Estudos sobre o impacto do PISA nos mediarelativamente a Portugal são
inexistentes. Nesse sentido, este artigo apresenta os resultados de uma análise
de conteúdo à cobertura do PISA em Portugal nos jornais Expresso e Diário de
Notícias e na revista Visão no período de 2001 a 2012.
Portugal no PISA
O PISA é um estudo internacional da OCDE que pretende aferir os conhecimentos,
as competências e as atitudes dos alunos de 15 anos avaliando o modo como
estes, que se encontram perto de completar ou que já completaram a escolaridade
obrigatória, adquiriram alguns dos conhecimentos e das competências essenciais
para a participação ativa na sociedade (OECD, 1999).
Este estudo, organizado por ciclos de análise trienais, recolhe informação
sobre conhecimentos específicos e competências dos alunos em três domínios:
leitura, matemática e ciências. Em cada ciclo, o PISA elege um dos domínios
como principal (designado major): PISA 2000 e PISA 2009 — literacia de leitura;
PISA 2003 e PISA 2012 — literacia matemática; e PISA 2006 — literacia
científica. A par desta informação, o PISA recolhe ainda dados sobre a escola e
o contexto dos alunos em casa, as suas estratégias de aprendizagem, os
ambientes de aprendizagem e a sua familiaridade com computadores.
Entre 2000 e 2009[1] o número de países participantes tem vindo a aumentar
(43 países em 2000 e 65 países em 2009), atraindo cada vez mais um maior número
de países não membros da OCDE, o que revela o crescente interesse pelo PISA.
Portugal participou neste estudo desde o seu início, e até 2009 os resultados
obtidos colocaram o país sempre abaixo da média da OCDE (esta média é fixada em
500 pontos, com um desvio-padrão de 100 pontos, numa escala de avaliação de 0 a
1000) e nos lugares mais baixos do ranking: 26º a leitura, 27º a matemática e
28º em ciências, num total de 43 países que participaram no PISA 2000; 28º a
leitura, 37º a matemática e 37º em ciências, num total de 57 países que
participaram no PISA 2003; e 31º a leitura, 37º a matemática e 37º em ciências,
num total de 57 países que participaram no PISA 2006.
Relativamente aos resultados de Portugal em 2009, e de acordo com o Gabinete de
Avaliação Educacional do Ministério da Educação (GAVE-ME), “pela primeira vez
desde o início do programa em 2000, os alunos portugueses atingem pontuações
que se situam na média dos desempenhos da OCDE, no domínio da literacia de
leitura” (Serrão, Ferreira e Sousa, 2010).
O mesmo relatório afirma mesmo que “Portugal é um dos países que mais progride
nos três domínios” (id., ibid.), dando principal destaque ao facto de a
progressão observada entre 2000 e 2009 se dever em grande parte à redução da
percentagem dos alunos com baixos níveis de desempenho, ou seja, alunos que não
atingem o nível 2 de proficiência, que é considerado pela OCDE como o patamar
mínimo de competências que todos os alunos deveriam atingir (OECD, 2010a).
Em 2009, os 489 pontos a literacia de leitura colocam Portugal na média da OCDE
(OECD, 2010a) e os 487 pontos a literacia matemática e os 493 pontos a
literacia científica demonstram um progresso significativo entre 2000 e 2009,
também nestas duas áreas.
O PISA e as políticas de educação
Os resultados da primeira edição do PISA 2000 tiveram especial impacto na
Alemanha, tendo “caído como uma bomba” neste país (Leibfried e Martens, 2009).
A colocação da Alemanha na parte inferior do ranking nos três domínios
avaliados provocou o que veio a ser designado PISA shock (Grek, 2009) e “a
política educativa tornou-se, da noite para o dia, tema de campanha eleitoral”
(Leibfried e Martens, 2009: 7). Tal resultou em diversas medidas de reforma
como a aprovação de standards nacionais ou medidas de apoio aos alunos com
dificuldades e aos emigrantes (Ertl, 2006).
O impacto do PISA não foi, no entanto, igual em todos os países. Grek (2009) no
seu estudo sobre a Alemanha, a Finlândia e o Reino Unido analisa três reações
diferentes. A primeira, já descrita como PISA shock, corresponde a um largo
debate público sobre os resultados, com mudanças políticas subsequentes. A
segunda — PISA surprise —, relativa à Finlândia, diz respeito à obtenção,
inicialmente inesperada, de elevados resultados, que conduziram a uma especial
atenção e estudo internacionais. A terceira — PISA promotion —, relativa ao
Reino Unido, diz repeito a uma promoção dos resultados pelo governo, apesar da
pouca atenção dos media, no sentido de justificar e legitimar as propostas e as
medidas de política em desenvolvimento (Grek, 2008, 2009).
Em 2008 o próprio Governing Board do PISA encomendou uma avaliação externa do
seu impacto nas políticas públicas. Tal estudo dizia respeito às edições de
2000 e 2003 e ainda aos primeiros resultados de 2006. Das conclusões (cf.
Breakspear, 2012) salienta-se que o impacto é maior a nível nacional do que
regional, local ou de escola, constituindo os decisores políticos o principal
grupo interessado. Os resultados também mostraram que os países valorizam cada
vez mais as competências avaliadas no PISA, que este é usado na maioria dos
países para monitorizar a equidade e o desempenho, e que a sua influência na
definição das políticas públicas tem vindo a crescer ao longo do tempo.
Mais recentemente a OCDE publicou um outro estudo sobre o impacto do PISA nas
políticas públicas, envolvendo 37 países (id., ibid.). Nesse estudo pretendeu-
se analisar, por um lado, o impacto do PISA na construção das políticas
nacionais de educação e, por outro, o seu uso e integração nos instrumentos
normativos de política dos diversos países.
O estudo investigou a dimensão em que o PISA, como standard internacional de
desempenho dos sistemas de ensino, foi integrado nas políticas e práticas
educativas de cada país (id., ibid.: 7). Este estudo fornece evidência de que a
maioria dos países tomou medidas de política ou iniciou reformas, de dimensão
diversa, em resposta aos resultados do PISA, na sequência de alguma das
respetivas edições, e que os países que mostraram respostas políticas mais
substanciais se incluem nos grupos com resultados quer abaixo, quer acima da
média (id., ibid.: 27).
Metodologia
Este trabalho foi realizado com o principal objetivo de analisar de que forma o
PISA foi regularmente tratado na imprensa periódica nacional entre dezembro de
2001 e dezembro de 2012, e quais as relações estabelecidas com as políticas
públicas de educação. Fica de fora deste estudo, a análise do impacto na
imprensa nacional dos resultados do ciclo mais recente deste programa da OCDE,
o ciclo PISA 2012, uma vez que tal só poderia ser realizado estando já
disponíveis as notícias de um período de, pelo menos, um ano após a divulgação
dos resultados, ou seja, de dezembro de 2013 a dezembro de 2014.
Na seleção dos media optámos pela imprensa periódica, por razões essencialmente
metodológicas, como a maior disponibilidade de acesso aos conteúdos e aos
instrumentos de recolha e tratamento de dados. Em face dos diversos tipos de
meios de comunicação social escrita existentes, optámos por aqueles
habitualmente designados “de referência”, pela maior associação atribuída por
estes à agenda e discussão das políticas públicas. Assim selecionámos uma
referência de cada um dos três principais tipos de meios: um jornal diário, um
jornal semanário e uma revista semanal, que foram, respetivamente: o Diário de
Notícias (DN), o Expresso e a Visão. Para cada um deles foi feita uma pesquisa
boleana subordinada aos termos “OCDE” + “PISA”.
Com vista a alcançar o principal objetivo deste estudo foi executada uma
análise de conteúdo qualitativa e quantitativa através de um conjunto de
critérios para codificação do conteúdo das peças jornalísticas.
Os critérios de codificação foram os seguintes:
tom ou sentido da peça numa escala de três pontos (positivo, neutro e
negativo); atores políticos (referência a primeiro-ministro, ministros,
secretários de estado ou dirigentes do Ministério da Educação); intervenientes
(escolas, professores, sindicatos); abrangência da análise das peças
jornalísticas (nacional ou internacional); medidas políticas (reforma educativa
no geral vs medida política concreta, recursos humanos, rede escolar,
currículo, investimento em educação); resultados dos alunos portugueses
(desempenho positivo, neutro ou negativo).
A análise de conteúdo das peças jornalísticas foi desenvolvida, com recurso ao
softwareMaxQda, em dois momentos distintos:
no primeiro momento foi realizada uma análise temática dos títulos e do
conteúdo das peças, permitindo aferir o sentido destas face ao PISA e aos
resultados obtidos pelos alunos portugueses; cada peça jornalística foi
classificada quanto à relação do conteúdo com o PISA, considerando uma relação
direta, quando a peça tinha como objetivo noticiar ou analisar o programa ou os
seus resultados, e indireta, quando o objetivo da peça se referia a outro tema,
incluindo o PISA de forma secundária; no segundo momento foi realizada uma
análise temática mais fina do conteúdo das peças, frase a frase, codificando-as
de acordo com os critérios acima referidos e contabilizando o número de
referências.
O PISA nos media portugueses
Como já referimos atrás o PISA tem constituído um instrumento de ação da OCDE
com impacto público e influência nas políticas de educação de diversos países
(Martens e Niemann, 2010). Uma das formas de estudo desse impacto é a análise
do conteúdo dos media sobre o programa. Assim, no âmbito da componente empírica
do presente estudo, realizámos uma análise de algunsmedia portugueses no
período que medeia entre o lançamento da primeira edição do PISA e 2012. A
seleção do período 2001-2012 contemplou assim, desde logo, uma preocupação
extensiva, cobrindo todo o período dos quatro primeiros ciclos de avaliação de
existência do PISA, para permitir analisar a evolução dessa cobertura mediática
quer do ponto de vista quantitativo, quer do ponto de vista qualitativo,
especialmente nas evidências de eventuais relações com as políticas públicas de
educação.
Dessa pesquisa, foram obtidas 136 peças jornalísticas de diversos géneros
(incluindo notícias, entrevistas, reportagens e artigos de opinião) e dimensões
(desde algumas linhas a várias páginas), distribuídas anualmente conforme
consta no quadro_2.
As peças foram obtidas através do arquivoonline dos órgãos referidos, exceto as
do Expresso e da Visãopublicadas em suporte de papel, que foram fornecidas pela
respetiva empresa proprietária.
A divulgação dos resultados do PISA ocorre habitualmente no final do ano
(dezembro) seguinte à sua realização, ou seja, ocorreu em 2001, 2004, 2007 e
2010. Analisando o número de peças publicadas, verificamos que os picos se
situam em 2005-2006 e 2009-2010-2011. Assim, parece óbvio concluir que a
primeira edição do PISA (2000) não suscitou grande impacto nos jornais em
análise. A partir daí o número médio de referências anuais tendeu a crescer
para a edição de 2003, situação que parece novamente decrescer para a edição de
2006 e voltar a subir, agora de forma significativa, para a de 2009.
Apesar das oscilações parece poder concluir-se por um crescimento do impacto ao
longo do tempo, sendo este muito significativo do PISA 2000 (11 peças
jornalísticas) para o PISA 2009 (68 peças jornalísticas). Outros fatores da
agenda política podem também ter alguma interferência nas oscilações anuais,
como o facto de terem ocorrido eleições legislativas em 2005, 2009 e 2011.
Também a significativa quebra de 2007 e 2008, para além de respeitar a anos
intermédios de ciclo, não deixará de ter sido influenciada pelo domínio que a
avaliação dos professores tomou, nesses anos, na agenda mediática respeitante
às políticas públicas de educação.
Num primeiro momento todas as peças jornalísticas foram classificadas de acordo
com a tipologia habitualmente utilizada: notícia, reportagem, entrevista e
artigo de opinião. Essa classificação permite-nos verificar que, na sua
maioria, o nosso corpus de análise é constituído por notícias (representando
quase 70% do total), sendo as entrevistas o tipo menos encontrado (apenas 10
das 136 peças jornalísticas).
Nesta primeira fase analisou-se também a relação do conteúdo da peça com o
PISA, considerando uma relação direta, quando a peça tinha como objetivo
noticiar ou analisar o programa ou os seus resultados, e indireta, quando o
objetivo da peça se referia a outro tema, incluindo o PISA de forma secundária.
Desta análise concluiu-se que no Expresso o conteúdo de cerca de 53% da
totalidade das peças jornalísticas que fez parte do corpus de análise estava
relacionado diretamente com o PISA, na Visão esta percentagem não chegava aos
30% e no DN cerca de 70% das peças jornalísticas possuíam conteúdo relacionado
diretamente com o PISA.
Quando analisamos mais aprofundadamente as peças jornalísticas verificamos a
existência de uma relação direta entre a dimensão da peça e o PISA enquanto
elemento central — em peças mais curtas o principal objetivo é noticiar os
resultados obtidos pelos alunos portugueses, os rankings entre países e a
evolução ao longo do tempo.
Trabalhos já anteriormente referidos (Dixon et al., 2013) concluíram pela
negatividade das apreciações sobre a educação e a política educativa da maioria
dos artigos jornalísticos sobre o PISA, independentemente dos resultados
obtidos em diversos países europeus. Interessaria, por isso, fazer uma análise
dessa dimensão no caso português. Tal foi feito através da análise dos títulos
das peças jornalísticas, os quais foram sujeitos a uma leitura extensiva e a
uma classificação de acordo com a seguinte categorização:
· Positivo — quando o título expressava qualidades ou melhorias da
educação, do país, da escola, dos professores ou dos alunos:
· “Portugal foi o que melhorou mais nas provas da OCDE” (DN, 08/12/
2010).
· “Educação serve de exemplo: OCDE faz filme sobre o sistema de ensino”
(Expresso, 14/05/2011).
· Negativo — quando o título expressava defeitos ou insuficiências da
educação, do país, da escola, dos professores ou dos alunos:
· “Estudantes portugueses reprovados” (Expresso, 08/12/2001).
· “Portugal entre os piores a Ciência” (DN, 30/11/2007).
· Neutro — quando não constava do título qualquer atributo ou não
resultava claro um juízo de valor sobre os mesmos:
· “Escolas: O que há de novo?” (Visão, 08/09/2005).
· “Portugal vs Grécia” (Expresso, 16/04/2011).
A escolha dos títulos para objeto desta análise deve-se, por um lado, à adoção
de um critério de maior objetividade (a maior extensão e complexidade dos
textos completos introduz uma maior subjetividade e dificuldade na
categorização do respetivo sentido e orientação), mas, também, ao facto de
estes traduzirem, de forma mais óbvia, os critérios editoriais dos respetivos
órgãos de comunicação social, precisamente porque são sujeitos, em regra, a uma
avaliação (ou até formulação) a esse nível. Quando existiam subtítulos com
destaque, os mesmos foram incluídos na análise do título, porque, muitas vezes
ajudam a configurar, de forma mais objetiva, o sentido daquele. Os resultados
da análise realizada foram os verificados no quadro_4.
Curiosamente, na totalidade das peças os sentidos positivo e negativo
equivalem-se rigorosamente, bem como o número de títulos neutros. Tal
distribuição não é, no entanto, absolutamente idêntica para os três meios,
havendo uma ligeira preponderância dos positivos no Expresso, dos negativos na
Visãoe equilíbrio noDN, ainda que as diferenças não sejam significativas.
Estes resultados parecem não alinhar assim com os de Dixon et al. (2013), que
apontam para uma preponderância da negatividade no estudo que realizaram, para
a Alemanha, Finlândia, França e Reino Unido, mas, também não permitem uma
conclusão contrária. No entanto, se tivermos em conta a distribuição ao longo
do tempo, verificamos que, enquanto os títulos negativos e neutros se encontram
distribuídos ao longo do período analisado, a maioria dos títulos de sentido
positivo estão concentrados nos anos de 2010 e 2011 (31 do total de 45, sendo
19 do DN, 11 do Expresso e 1 da Visão) e superando de forma clara os títulos
negativos nesses mesmos anos (18 no total de 45, sendo 9 no DN, 8 no Expressoe
1 na Visão). Tal radica no facto de os resultados de Portugal no PISA 2009
terem apresentado uma melhoria significativa face às edições anteriores, em
qualquer das três áreas (leitura, matemática e ciências) como já foi referido
anteriormente.
Para confirmar ou infirmar esta conclusão, procedemos a uma análise do conteúdo
dos artigos em função dos descritores desempenho positivo / desempenho
negativo, tendo obtido os resultados apresentados no quadro_5.
O quadro_5 mostra que a totalidade de referências a desempenho positivo/
negativo não apresenta uma significativa diferença, aproximando-se bastante do
resultado obtido para os títulos. Mas, no respeitante à distribuição ao longo
do tempo, verificamos que as referências negativas se distribuem por todos os
ciclos, com maior incidência no respeitante ao PISA 2003. As referências
positivas incidem, na quase totalidade, no respeitante ao ciclo do PISA 2009.
Tais referências estão de acordo com os resultados obtidos pelos alunos no
PISA, os quais mostram uma melhoria substancial na edição de 2009 face às
edições anteriores.
Podemos concluir que nos três primeiros ciclos do PISA os resultados mostram
uma clara preponderância do sentido negativo das peças jornalísticas, mas que
tal situação se inverteu relativamente à edição de 2009, onde a positividade
ultrapassou largamente a negatividade nas peças publicadas. Podemos concluir
que há uma diferença significativa no impacto nos media do PISA 2009
relativamente às edições anteriores, quer do ponto de vista quantitativo, quer
qualitativo. Praticamente metade da totalidade das referências tem lugar em
2010 e 2011. Assim em contraste com uma média de 6,9 peças/ano nos restantes
anos, o ano de 2010 atinge 44 e o de 2011 atinge 23. Por outro lado, os
resultados do PISA 2009 mostram também um impacto diferente do ponto de vista
qualitativo. Assim, verifica-se um predomínio da negatividade no respeitante às
edições anteriores (2000, 2003 e 2006), que se altera para um predomínio da
positividade para a edição de 2009, o que se relaciona com a melhoria dos
resultados dos alunos obtida neste ano.
Os atores políticos, os intervenientes, o foco de análise e os resultados
Se tivermos em conta que o primeiro pico de notícias sobre o PISA se dá em
2005/2006,[2] altura em que um novo governo e uma nova equipa do Ministério da
Educação tomam posse e lançam um conjunto de medidas e iniciativas direcionadas
para o ensino da matemática, e em que várias análises realizadas aos resultados
dos exames nacionais desta disciplina são divulgadas, podemos concluir que a
supremacia de peças jornalísticas com enfoque na matemática (cerca de 41% do
total) pode ter sido condicionada pela agenda política de então (Stack, 2006).
É assim muito frequente encontrar peças em que o PISA aparece em segundo plano,
como referência ou como elemento de legitimação da medida política apresentada
pelo executivo.
A ministra da Educação quer inverter os crónicos maus resultados a Matemática
com o programa, anunciando ontem, que entra em vigor em setembro. (Expresso nº
1754, 10/06/2006 — 1.º caderno, p. 21)
Já são conhecidas as mudanças a introduzir para combater o insucesso escolar a
Matemática a partir do 1.º ciclo, nomeadamente a formação de sete mil
professores dos 3.º e 4.º anos de escolaridade. (DN, 12/09/2015)
Outro aspeto apontado pela ministra foi a necessidade de se continuar a
investir no ensino, para que Portugal recupere do atraso em relação a outros
países desenvolvidos, nomeadamente ao nível das infraestruturas escolares. (DN,
27/04/2005)
Por outro lado, em relação à leitura (domínio principal avaliado no PISA 2009),
apesar de esta surgir em segundo lugar (com cerca de 32%), a sua presença
encontra-se maioritariamente no conjunto de peças de divulgação do ciclo PISA
2009, ou seja, com data entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012, associada
aos desempenhos dos alunos portugueses.
Pela primeira vez, os alunos portugueses de 15 anos conseguiram resultados
dentro da média da OCDE nos testes do PISA (Programme for International Student
Assessment) em literacia de leitura. (Expresso nº 1989, 11/12/2011 — 1.º
caderno, p. 24)
Os resultados do PISA 2009 revelam que Portugal é o sexto país cujo sistema
educativo melhor compensa as assimetrias socioeconómicas e que é um dos países
com maior percentagem de alunos de famílias desfavorecidas que atingem
excelentes níveis de desempenho em leitura. (DN, 28/03/2011)
Os atores políticos referidos nas peças jornalísticas foram principalmente o
ministro da Educação (com cerca de 42% do total de 165 referências a atores
políticos). As referências a este ator político concentram-se nas peças de
dezembro de 2004 a novembro de 2007 — associadas à divulgação dos resultados do
PISA 2003 e a medidas políticas —, e de dezembro de 2010 a dezembro de 2012 —
associadas aos resultados positivos obtidos pelos alunos portugueses no PISA
2009.
As boas notícias têm que ver com o excelente desempenho de [ministra da
Educação] e da sua equipa à frente do Ministério da Educação. (DN, Opinião, 19/
09/2005)
Quando não se desvaloriza a progressão — dizendo, como o “especialista” Santana
Castilho, que “é um acaso” ou, como a dirigente do PSD Paula Teixeira da Cruz,
“que não espelha a realidade” —, nega-se a possibilidade de a mudança
verificada em relação aos anteriores estudos PISA, de 2000, 2003 e 2006, se
dever a medidas tomadas [pela ministra da Educação], do plano de ação para a
matemática ao plano nacional de leitura, das aulas de substituição ao estudo
acompanhado, dos planos de recuperação de alunos com maus resultados à
avaliação dos professores. (DN, 10/12/2010)
Foi a ex-ministra da Educação que conduziu e executou a maior parte destas
mudanças e os resultados estão aí para o provar. (Expresso online, 16/12/2010,
Opinião)
Nas peças de dezembro de 2010 a dezembro de 2012 existe uma elevada percentagem
de referências ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, com cerca de 24% da
totalidade de referências a atores políticos.
José Sócrates voltou a citar os “progressos assinaláveis” dos alunos nos testes
PISA, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), para
elogiar as reformas que fez no sector. (DN, 26/12/2010)
O primeiro-ministro escolheu falar dos resultados obtidos pelos alunos
portugueses de 15 anos, nos testes organizados pelo PISA. (Visão nº 928, 19/09/
2015, p. 58)
Como atores políticos presentes nas peças jornalísticas, muitas vezes na
qualidade de fonte de informação, são ainda referidos o Ministério da Educação
(11,52%), o secretário de estado (9,70%), o governo (7,27%) e o diretor do
GAVE-ME (6,06%), gabinete responsável pela coordenação e implementação do PISA
em Portugal.
Em comunicado enviado às redações, o Ministério da Educação avança que “os
resultados do PISA 2009 revelam que Portugal é o 6.º país cujo sistema
educativo melhor compensa as assimetrias socioeconómicas” e que “é um dos
países com maior percentagem de alunos de famílias desfavorecidas que atingem
excelentes níveis de desempenho em leitura”. (Expresso online, 28/03/2011)
Nas peças analisadas os professores (em cerca de 57% do total de 60
referências) aparecem como os principais intervenientes responsáveis pelos
desempenhos positivos dos alunos portugueses, em especial no período relativo à
divulgação dos resultados do PISA 2009 (dezembro de 2010 a dezembro de 2012).
O primeiro-ministro congratulou-se, chamou os professores de “heróis” e deixou
um lamento: “Por que razão ao longo destes anos ninguém no nosso país foi capaz
de dizer que as nossas reformas iam na direção correta?” (Expresso n.º 1989,
11/12/2010, 1.º caderno, p. 24)
O primeiro-ministro assinalou esta terça-feira o “progresso notável” na
qualidade da Educação revelado pelo relatório PISA 2009 da OCDE, atribuindo aos
professores o mérito dos resultados. (DN, 07/12/2010)
São muito frequentes, em especial nas peças jornalísticas em que o PISA aparece
em segundo plano, como referência ou como elemento de legitimação de medidas
políticas, as referências a políticas públicas de educação. Muitas destas
remetem para a necessidade de uma reforma educativa em geral (cerca de 36% das
122 referências) ou de medidas concretas (cerca de 25% do total).
A evolução nacional foi aproveitada ontem pelo Governo, nomeadamente pelo
primeiro-ministro, para, sem tirar “o mérito dos professores e dos alunos”,
defender as virtudes das reformas educativas que implementou desde 2005. (DN,
08/12/2010)
Andreas Schleicher refere que a melhoria de resultados “pode ser explicada em
primeiro lugar pelas políticas seguidas nos últimos anos e por uma conjugação
de fatores como a avaliação de professores e um controlo sério da qualidade do
ensino. (DN, 07/12/2010)
O quadro_7 apresenta medidas políticas concretas relativas à reorganização /
revisão curricular, à reorganização da rede escolar, à avaliação do sistema de
ensino (professores e alunos) ou a programas concretos lançados entre 2000 e
2012 e com referência nas peças jornalísticas analisadas: 96 das 144
referências a políticas públicas de educação encontradas nas peças
jornalísticas.
Desta análise mais detalhada (quadro_8), é possível verificar que as principais
referências se concentram nos ciclos do PISA 2003 (cerca de 40% da totalidade
de referências a medidas concretas) e do PISA 2009 (cerca de 53% da totalidade
de referências) e com maior incidência na implementação das atividades extra- -
curriculares (AEC) no 1.º ciclo do ensino básico (12 referências no total ou 17
referências se considerarmos a introdução do Inglês no 1.º ciclo enquanto AEC)
e no Plano de Ação para a Matemática (PAM), que incluía entre outras ações, a
formação contínua de professores de matemática, reajustamento e especificações
programáticas para esta disciplina e a definição de ações concretas das escolas
com vista ao sucesso escolar (19 referências no total).
É ainda frequente a referência à reorganização da rede escolar (12
referências), seja ao encerramento de escolas de 1.º ciclo com um número muito
reduzido de alunos, à criação de agrupamentos ou à renovação do parque escolar.
Analisando se, nas peças jornalísticas, existiam referências à comparação
nacional ou internacional, encontraram-se 241 referências a outros países e a
comparações entre sistemas de ensino (mais de metade da totalidade das
referências), aos rankings (cerca de 38% do total), mas também aos exames ou
aos resultados nacionais (cerca de 7% do total), como mostra o quadro_9.
A maior parte das referências a outros países é feita aos considerados top
performers no PISA, como a Finlândia e a Coreia do Sul, com uma maior
concentração no período de dezembro de 2010 a dezembro de 2012.
Quando se olha para os resultados dos alunos nos testes internacionais e as
taxas de escolarização da população, não restam dúvidas de que a Finlândia e a
Coreia do Sul lideram a lista dos países mais fortes nesta área. (Expresso n.º
2093, 08/12/2012, 1.º caderno, p. 29).
A introdução dos exames do 9.° ano, instrumento de avaliação nacional e
externo, foi apresentada como um modo de melhorar as performances. (Visão n.º
623, 10/02/2015, “O estado da nação”, p. 46).
474 foi a pontuação alcançada pelos portugueses, dando direito ao 37.° lugar.
(Visão n.º 770, 06/12/2007, p. 118).
No conjunto, Portugal fica em 26.º lugar em matéria de leitura. (DN, 05/12/
2001).
Conclusões
Os resultados obtidos neste estudo indicam que a presença do PISA nos media
portugueses estudados aumentou ao longo dos anos, desde 2001 até 2012. Tal
aumento não foi, porém, linear, e teve lugar de forma mais significativa em
dois períodos: o primeiro dá-se no ciclo relativo ao PISA 2003, em que o número
de notícias quase triplica face ao ciclo anterior (o primeiro), e no ciclo
relativo ao PISA 2009, que totaliza mais de metade do total das notícias sobre
o programa nos 12 anos considerados, quase triplicando novamente face ao ciclo
anterior e sextuplicando face ao PISA 2000, o que nos permite concluir que o
PISA tem vindo a ganhar espaço na agenda mediática, atingindo especial relevo
no período de 2010-2012, respeitante à edição de 2009.
A matemática é a área de avaliação mais referida nos media, ainda que o domínio
major da edição com mais notícias (2009) fosse a leitura, o que nos diz que a
agenda mediática sobre o PISA está sujeita a fatores de condicionamento da
agenda mediática e política do país, para além dos fatores derivados do
conteúdo e dos resultados do próprio PISA.
Os títulos das peças jornalísticas analisadas, ao contrário do que se verifica
noutros países europeus (Dixon et al., 2013), não mostram globalmente uma
predominância do sentido negativo sobre as políticas de educação, o país, as
escolas, os professores ou os alunos, mas também não mostram o contrário,
havendo globalmente um equilíbrio entre os sentidos positivo e negativo.
Todavia a análise da sua distribuição por ciclos mostra que tal conclusão é um
pouco ilusória, já que o sentido positivo só é maioritário relativamente ao
PISA 2009, sendo o sentido negativo predominante relativamente a todas as
edições anteriores.
O conteúdo das peças jornalísticas mostra também um domínio do sentido negativo
relativamente ao desempenho dos alunos, das escolas ou do país nas três
primeiras edições (com especial incidência na de 2003, em que o domínio major
era a matemática), o qual também se inverte totalmente para um sentido positivo
fortemente dominante na edição de 2009. Pode pois concluir-se que o sentido
positivo/negativo do conteúdo das peças jornalísticas se mostra profundamente
relacionado com o nível concreto dos resultados obtidos pelos alunos
portugueses no PISA, os quais tiveram uma significativa melhoria em 2009, face
aos fracos resultados das edições anteriores.
As notícias sobre o PISA associam os resultados dos alunos portugueses a
medidas de política (tomadas ou a tomar), especialmente nos casos das edições
de 2003 e 2009 (que obtiveram resultados bem diferentes), o que nos leva a
concluir que a acentuação da perceção da negatividade ou da positividade dos
resultados obtidos pelos alunos induz mais fortemente o estabelecimento de
relações com as políticas de educação. Mas também outros fatores relacionados
com a agenda política e mediática, como as eleições e a mudança de governo,
podem influenciar a perceção ou a visibilidade dessa relação.
As medidas de política mais associadas aos resultados obtidos pelos alunos no
PISA são, por um lado, as relativas a casos concretos presentes na agenda
política, quer como causas, quer como ações possíveis de promoção de melhorias
e, por outro, as relativas a orientações gerais ou conjuntos de medidas
orientadas para uma mudança ou “reforma” mais global.
A associação entre o PISA e os atores políticos é também um dado presente, de
forma ainda mais relevante do que as medidas de política, nas peças
jornalísticas analisadas, com especial incidência uma vez mais no ciclo
relativo à edição de 2009, mas também à de 2003. Essa associação tem especial
incidência no “ministro da Educação”, como seria expectável, dado ser o que
está mais ligado às políticas de educação, ainda que a forte presença do
primeiro-ministro no ciclo relativo a 2009 possa significar um reforço induzido
pelo PISA, ou pelos próprios atores, da perceção pública da importância ou
visibilidade das políticas de educação.
Assim, em termos mais gerais podemos ainda concluir que o estudo mostra que,
também em Portugal, se encontra nos media uma forte relação entre o PISA e as
políticas públicas de educação. No entanto, importa ainda referir que a análise
realizada deixa de fora a avaliação das perceções do impacto do PISA pelos
vários atores políticos e intervenientes e a sua mutação ao longo do tempo. Mas
a ligação encontrada entre o PISA e as políticas públicas de educação mostra
que os objetivos definidos pela OCDE, relativos ao uso do PISA como
standardinternacional de performance dos sistemas escolares, com inevitáveis
consequências na formulação e na monitorização das políticas educativas, tem
vindo a afirmar-se e a acentuar-se também em Portugal.