Deficiência e inclusão social: os percursos da lesão medular em Portugal
Introdução
As pessoas com deficiência vivem na sociedade portuguesa numa flagrante
situação de exclusão e num contexto social opressivo das suas especificidades.
[1] Apesar de sucessivas propostas legislativas e do continuado desenho de
políticas sociais, elaboradas no propalado desígnio de conduzir a uma inclusão
social deste grupo particularmente vulnerável, a realidade social vem dando
prova de uma tenaz perpetuação deste quadro excludente (Martins 2006; Veiga,
2007; Fontes, 2009; Portugal et al., 2010). Esta situação reflete-se nas
próprias ciências sociais (Martins et al., 2012). Não obstante o seu
investimento analítico nas questões da desigualdade social, a questão da
deficiência vem sendo uma vertente de análise sistematicamente negligenciada
(Barnes e Mercer, 2003; Davis, 2002).
Em termos conceptuais, a deficiência constitui uma categoria eminentemente
moderna, estabelecida enquanto uma exterioridade do modelo biomédico de saúde e
normalidade corporal. Daqui decorreu a consagração de um percurso de adequação
à normalidade das ditas pessoas com deficiência, numa abordagem medicalizada
que, na maior parte das vezes, situa de forma estreita os problemas evocados
pela deficiência no corpo, que é também a sede de saúde ou doença. Trata-se de
uma abordagem que, no essencial, aceita a norma, aceita a deficiência como um
desafio individual, preservando intactas as margens da sociedade (Striker,
1999: 135, 142). Portanto, não colocando em causa intervenções inteiramente
apropriadas das práticas médicas, como o diagnóstico, a estabilização da
condição clínica, e a recuperação funcional, haverá que procurar analisar como
podem ser profundas e negativas as consequências das classificações médicas
(Oliver, 1990: 48, 49). Sobretudo porque uma tal abordagem consagra perspetivas
e práticas individualizadoras em que “o efeito da medicalização dos problemas
sociais é a sua despolitização” (Barnes, Mercer e Shakespeare, 1999: 60).
O questionamento da naturalização da exclusão social a que as pessoas com
deficiência são sujeitas nas sociedades ocidentais só tem lugar a partir dos
anos 1970, com o desenvolvimento dos Estudos da Deficiência (Disability
Sudies). Esta nova área de estudos, sedimentada em países como o Reino Unido ou
os EUA, é subsidiária da politização surgida nos anos 1960 e 1970 em torno da
deficiência nestes mesmos países (Oliver, 1996; Hanh, 2002). A sua politização
deveu-se sobretudo ao ambiente de efervescência política e à emergência dos
ditos novos movimentos sociais. A luta política passou então a estar mais
sensível às relações de poder que estão presentes na vida quotidiana, ao efeito
das representações culturais e às políticas do corpo, criando-se, com esta
mudança, um inédito espaço de enunciação para a experiência de exclusão vivida
pelas pessoas com deficiência. Assim, nos anos 1970, um pouco por todo o mundo,
viriam a criar-se e a reformular-se estruturas organizativas que estabeleceram
como propósito central, por vezes único, a visibilização do estigma (Goffman,
1963) e das múltiplas formas de opressão a que as pessoas com deficiência estão
sujeitas. Essa crítica social veio também contestar as lógicas que ao longo de
séculos vincaram o protagonismo exclusivo das organizações para pessoas com
deficiência. Tal contestação, com maior expressão nos países centrais do
sistema-mundo, viria a nutrir, tanto quanto a articular-se, com o
reconhecimento académico da situação estrutural de opressão vivida pelas
pessoas com deficiência: valores culturais paternalistas, barreiras
arquitetónicas de comunicação e transporte, ausência ou inadequação de apoio no
sistema regular de ensino, critérios excludentes no acesso ao ensino superior e
ao emprego, entre outros. A partir de diferentes aflorações políticas, como o
Independent Living Movement nos Estados Unidos (cf. Albrecht, 2002; Hahn, 2002)
ou o Social Model no contexto britânico (cf. Oliver, 1990, 1996), surge um
corpo teórico que cresce lado a lado com este novo movimento social (Barnes,
Oliver e Barton, 2002).
Abordagens da deficiência: modelos e perspetivas
O desenvolvimento da medicina moderna produziu mudanças significativas no
entendimento social da saúde e da doença e na forma como a sociedade lida com
elas. Em resultado, assistimos ao desenvolvimento de um diagnóstico médico
cientificamente alicerçado que apresenta a “cura” como principal objetivo;
assistimos à consolidação de um ramo de conhecimento com o poder de “determinar
as fronteiras entre o que são pessoas ‘normais’ e ‘anormais’, mentalmente ‘sãs’
ou não, saudáveis e doentes” (Barnes e Mercer, 2010: 18); assistimos à
individualização e à medicalização da deficiência (Stone, 1984; Oliver, 1990);
assistimos à institucionalização e à segregação das pessoas com deficiência
(Finkelstein, 1980; Goffman, 1987; Hughes, 2001); e assistimos à hegemonização
do modelo médico da normalidade face à deficiência (Davis, 1995).
De acordo com este modelo, que se centra nas ideias de normalidade e numa
apetência estandardizada para o trabalho, as barreiras e limitações enfrentadas
pelas pessoas com deficiência derivam diretamente das suas incapacidades
funcionais, reais ou imputadas. Em resultado, as pessoas com deficiência são
convertidas em seres humanos não válidos, dependentes e passivos, para os quais
a única solução passa pela sua adaptação às condições do meio que os rodeia.
Esta tarefa só é possível através de uma intervenção médica e/ou
reabilitacional no sentido de produzir a “cura” ou a sua adaptação. A
reabilitação pode ser assim entendida como um instrumento de transformação dos
corpos e das mentes das pessoas com deficiência, com vista à sua “normalização”
e à superação das suas limitações físicas (Oliver, 1990).
O desagrilhoamento das pessoas com deficiência face a uma ótica centrada
exclusivamente nas suas limitações funcionais individuais em favor de uma
perspetiva que, ao invés, visibilize o modo como as suas possibilidades se
encontram reféns das formas excludentes de organização social (Oliver, 1990;
Corker e French, 1999) foi formulado pela emergência da mobilização política
das pessoas com deficiência e a formulação de uma abordagem social da
deficiência. Uma das primeiras organizações no Reino Unido a questionar a
naturalização da deficiência foi a Union of the Physically Impaired Against
Segregation (UPIAS), criada em 1972 por dissidentes de outras organizações de
pessoas com deficiência, ao defender que é a sociedade que incapacita
(disables) as pessoas que designa como deficientes.
A UPIAS procurava superar as conceções que vinham alimentando a ideia de que a
central reivindicação das pessoas deficientes deveria ser a demanda de melhores
pensões sociais. Ao invés, esta organização colocou no primeiro plano a
necessidade de se transformarem, quer as conceções dominantes detidas em torno
das pessoas com deficiência, quer a organização social que excluía as pessoas
deficientes da sociedade, remetendo-as à experiência da segregação e pobreza
(UPIAS, 1976).
A emergência de conceções politizadas da deficiência veio assim denunciar o
“modelo individual/médico da deficiência”, cuja vigência se reconhecia como
hegemónica nas sociedades ocidentais. É precisamente esta dimensão social que
urge ser evocada na compreensão das vidas das pessoas que sofreram lesões
medulares, tanto mais que a literatura neste âmbito invariavelmente se
restringe às questões médicas e à reabilitação médica individual num sentido
estrito (e.g. Somers, 2001; Klein e Karp (orgs.), 2004).
O desenvolvimento médico operado após a Segunda Guerra Mundial ao nível dos
tratamentos, com a generalização do uso dos antibióticos, da anestesia,
antissepsia, sulfatos, etc., permitiu reduzir drasticamente a elevada taxa de
mortalidade dos lesionados medulares. Os avanços médicos, o aumento da
esperança de vida dos lesionados medulares e o elevado número destes,
resultantes tanto da Primeira como da Segunda Guerra Mundial, transformaram a
lesão medular num problema social a que é necessário dar resposta; em resultado
disso começam a surgir os primeiros centros de reabilitação. Em Portugal a
criação de instituições dirigidas à reabilitação especializada de pessoas com
lesão medular surge apenas nos anos 1960 com a criação do Centro de Medicina de
Reabilitação de Alcoitão. Se em Portugal as estruturas que definem mais
cabalmente as respostas médicas surgem tardiamente, a resposta ao desafio da
inclusão social é, ainda hoje, muito incipiente.
Partindo das histórias de vida das pessoas com lesão medular, este artigo
propõe-se apresentar uma exploração analítica dos seus percursos biográficos e,
simultaneamente, das respostas institucionais e sociais oferecidas. Ao longo do
trabalho empírico de que este texto dá conta, realizaram-se 93 entrevistas
semiestruturadas: 28 entrevistas a pessoas com lesão medular em reabilitação
inicial, 22 entrevistas a profissionais e quadros gerentes dos três centros de
reabilitação, 29 entrevistas com pessoas com lesão medular nas suas
comunidades, distribuídas pelas diferentes regiões do país, e 14 entrevistas
com as redes de apoio (familiares e institucionais) na comunidade.
Na primeira parte do artigo analisaremos as respostas institucionais colocadas
à disposição das pessoas com lesão medular ao longo de todo o processo de
reabilitação. Na segunda parte analisaremos as vivências pessoais deste
percurso e as respostas dos entrevistados face à existente rede institucional e
ao seu funcionamento.
Os percursos institucionais das pessoas com lesão medular
O percurso terapêutico das pessoas com uma lesão medular traumática passa por
várias fases.[2] Em termos esquemáticos e como podemos observar na figura_1,
este processo inicia-se ainda no local do acidente através de uma intervenção
dos serviços de socorro.
A esta fase inicial segue-se uma segunda fase, de internamento hospitalar,
inicialmente no hospital distrital da zona onde são prestados os primeiros
cuidados e, após a confirmação da lesão medular, o utente é transferido para um
hospital que disponha de urgências polivalentes dotadas de serviço de
neurotraumatologia, a fim de ser submetido a uma operação à coluna vertebral e
às outras estruturas lesionadas. Em algumas situações, identificadas à partida
como mais graves, a pessoa é transportada diretamente do lugar do acidente para
as urgências polivalentes. Findo o período de recuperação pós-operatória e
estabilização fisiológica, as pessoas com lesão medular são transferidas para
outras unidades (como os hospitais distritais, unidades de cuidados continuados
e, mais raramente, para casa) onde aguardam vaga para o centro de reabilitação
médica inicial para pessoas com lesão medular.
No que diz respeito a esta resposta institucional, a análise das entrevistas,
tanto a profissionais como com a pessoas com lesão medular, revela uma melhoria
significativa no atendimento das equipas de emergência médica nos últimos dez
anos. Tal como pudemos apurar, esta melhoria do serviço prestado fica sobretudo
a dever-se a uma maior e melhor formação das equipas de socorro. O mesmo não se
pode afirmar face ao período de internamento hospitalar. Como a grande maioria
dos nossos entrevistados relata, esta fase de internamento hospitalar
caracteriza-se por frequentes transferências entre hospitais e pela falta de
informação das pessoas com lesão medular seja acerca do seu estado clínico seja
sobre as razões que estão na base dessas transferências hospitalares. De igual
modo, são identificadas falhas no período de transição entre as unidades
hospitalares e os centros de reabilitação. Conforme pudemos perceber,
idealmente, para assegurar um atendimento adequado da pessoa com lesão medular,
a passagem da posição deitada para a cadeira de rodas deve ser feita numa
unidade de convalescença da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados
(RNCCI). No entanto, na prática, por falta de cobertura de camas na RNCCI, esta
passagem é feita precocemente nos hospitais gerais, onde frequentemente
inexiste preparação adequada para tal etapa, ou tardiamente nos Centros de
Reabilitação, o que implica o aumento do período de permanência nestes centros,
a ocupação de tempo que deveria ser dedicado à reabilitação médica propriamente
dita e, logo, o escusado agravamento do tempo de espera na entrada para estes
serviços.
Os centros de reabilitação médica inicial
Em Portugal existem atualmente três centros de reabilitação especializados na
área da lesão medular: o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (criado
em 1966), o Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro (CMRRC) —
Rovisco Pais (cujo serviço de lesão medular foi criado em 2007), e o Centro de
Medicina Física e Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel (criado em
2007). Está ainda prevista a abertura do Centro de Reabilitação do Norte, em
Gaia, cuja inauguração tem sido sucessivamente adiada.
Como a nossa análise revelou, a realidade dos centros de reabilitação a este
nível é muito díspar, apresentando o CMRRC — Rovisco Pais as mais longas listas
de espera para entrada no serviço de reabilitação. Entre as várias razões
justificativas desta situação é de salientar o facto de este centro de
reabilitação abranger toda a população das zonas Centro e Norte do país e de se
tratar do único centro a nível nacional totalmente integrado no Ministério da
Saúde. Esta situação é particularmente penalizadora se tivermos em conta que
quanto maior o tempo de espera menor é o potencial de reabilitação médica.
Trata-se de um quadro extensível à realidade nacional no que concerne à lesão
medular. As palavras do diretor do Serviço de Lesionados Vértebro-Medulares do
CMRRC — Rovisco Pais, são disso ilustrativas:
Nós, neste momento [2012], como sabe, temos três centros de reabilitação em
Portugal, só o nosso, digamos, faz parte do Sistema Nacional de Saúde como
entidade pública pura, portanto nós temos obrigação, embora seja o Centro de
Reabilitação da Região Centro, originalmente, vocacionado só para os distritos
da ARS do Centro, nós neste momento recebemos doentes de todo o país. Como
calcula, 30 camas para todo o país é muito pouco. Nós, neste momento [2012],
temos, à espera de um primeiro internamento no nosso centro, 22 doentes, e à
espera de reinternamento mais de 30, portanto eu, neste momento, tenho uma
lista de espera com mais de 52 doentes para internar, isto em termos temporais,
dado que são internamentos sempre prolongados, acarreta que um doente quando cá
chega, digamos, já muitas das vezes passou o tempo que nós chamamos minimamente
adequado para iniciar o seu processo de reabilitação mas, infelizmente, é a
realidade que temos. [E isso dá-se, portanto, pela exiguidade? Pela falta de
camas?]Exiguidade, falta de camas. Nós temos 30 com mais 5 moradias adaptadas,
portanto o máximo 35 doentes. Sabendo que um doente tetraplégico demora, em
média, em termos de processo de reabilitação, como deve ser, entre cinco a oito
meses, podendo estender-se até um ano, que um doente paraplégico demora, no
mínimo dos mínimos, entre dois e quatro meses, como ambos são internamentos
prolongados e estão sempre a surgir novos casos e, neste momento, não
conseguimos dar resposta em tempo útil, em tempo útil não diria, portanto em
tempo idealmente indicado para conseguir internar o doente. [Médico]
O reduzido número de centros de reabilitação existentes em Portugal, o seu
vasto raio geográfico de intervenção e a distância entre as unidades de saúde e
as comunidades de origem dos utentes constituem uma significativa barreira ao
envolvimento das famílias no processo de recuperação e reabilitação.
Claro que, vir para cá, nos primeiros tempos, a gente foge da beira de quem
gostamos, vimos para um isolamento, um isolamento das pessoas a quem estávamos
habituados. É a troca de pessoal, é a troca de enfermeiros, é a troca de
auxiliares, o ambiente é totalmente diferente, depois temos sempre a falta dos
familiares, não é? Nós quando estamos perto de casa temos sempre esse agrado. E
aqui, não; aqui é nos fins de semana, e nem todos… Acaba por ser um bocado
longe das habitações — em relação a mim falo, há pessoas, se calhar, de mais
perto e com mais facilidades de se deslocar cá. [Jorge,[3] lesionado medular]
Os centros de reabilitação constituem, todavia, o único espaço institucional
devidamente preparado para atender as especificidades da lesão medular, algo
que se torna ainda mais patente face à realidade que se segue. Após a alta do
centro de reabilitação, a pessoa com lesão medular regressa ao seu domicílio,
onde poderá recorrer aos serviços locais de apoio domiciliário ou, por razões
médicas e/ou sociais, é reencaminhada para uma Unidade de Longa Duração e
Manutenção da Rede de Nacional de Cuidados Continuados Integrados, ou mesmo
para um lar.
O regresso a casa
Na grande maioria dos casos, nem os centros de saúde, nem os serviços de apoio
domiciliário prestados pela rede social de apoio à deficiência, nem os
hospitais gerais dispõem de especialistas em lesões vértebro-medulares. Mesmo
nos espaços institucionais onde existem estes especialistas, como no caso dos
hospitais com unidades de urgência polivalente e das unidades de cuidados
continuados de convalescença, verifica-se a ausência de unidades especiais que
abordem a lesão medular na amplitude das suas implicações. Esta situação é
particularmente aguda ao nível dos serviços da comunidade. As respostas
institucionais para pessoas com lesão medular, aquando do regresso à
comunidade, são mínimas, tanto no que se refere à qualidade como à cobertura de
serviços e estruturas de apoio existentes, tal como demonstraram as diferentes
entrevistas, realizadas a profissionais de saúde, a pessoas com lesão medular e
a organizações da sociedade civil. Um tal cenário coloca em risco muito do
trabalho de capacitação desenvolvido nos centros de reabilitação. Além das
questões que se prendem com os retrocessos ao nível dos ganhos funcionais, cabe
considerar as complicações de saúde (úlceras de pressão, infeções urinárias,
etc.) que frequentemente resultam de lacunas nas estruturas de apoio fora dos
centros de reabilitação:
[…] porque entretanto também havia umas feridas, lá está, por falta de
cuidado. Porque apesar de eu ser posicionado algumas vezes eles não estão
preparados para receber doentes como nós. Por exemplo, eu já fui algumas vezes
internado, depois disso em outros serviços no Hospital São João e eles não
estão minimamente preparados para doentes com lesão medular que sejam
dependentes para levantar, para deitar, para virar. Que tenham de ser
posicionados, que precisem dum colchão especial, não estão minimamente
preparados para isso. Pelo menos não estavam há uns tempos atrás. [João,
lesionado medular]
Nos casos mais graves — os dos tetraplégicos com lesões muito altas e com a
necessidade de apoio médico complexo — a alta do centro de reabilitação pode
significar uma esperança de vida contada em meses.
Os serviços de apoio domiciliário, por melhor se adequarem às necessidades
quotidianas das pessoas com lesão medular, são uma instância chave no processo
de reinserção na comunidade. A carência de serviços de apoio constitui,
todavia, um forte obstáculo à autonomização da vida das pessoas com lesão
medular em Portugal, que quase invariavelmente acabam por ter de recorrer à
ajuda familiar. Esta realidade coloca a maioria dos lesionados medulares numa
situação de dependência face à família, reforçando e naturalizando a imagem das
pessoas com deficiência como dependentes e incapazes de gerir as suas vidas e,
desta forma, condicionando o processo de reconstrução identitária.
Tal como acontece noutros setores populacionais, também no caso da maioria das
pessoas com lesão medular, a diminuição da responsabilidade estatal tem sido
compensada por um aumento da responsabilidade familiar. Não obstante os alertas
de exaustão das famílias (Wall et al., 2001; Damas et al., 2002), continuam a
ser estas o crucial suporte económico, psicológico e social das pessoas com
lesão medular (Henriques, 2004: 137). Como relata um dos nossos entrevistados:
A ajuda da mulher e isso. Para mim acho que a minha maior ajuda… foi impecável,
esteve sempre ao meu lado, sempre, sempre. Eu estive seis meses hospitalizado e
ela nunca me faltou um dia, e a fazer 80 quilómetros todos os dias para um lado
e para o outro. Cento e sessenta quilómetros todos os dias, 80 para cada lado…
de stresse… nunca me faltou um dia… seis meses… É preciso ter coragem e eu
olhar para ela é de não perder assim a fé… que a pessoa estar a lutar e a outra
pessoa a baixar assim não está a sofrer só, está a fazer a outra pessoa sofrer.
Além do que ela sofreu… [Luís, lesionado medular]
Como o relato anterior deixa antever, dentro da família, o papel de mulher-
cuidadora — sobretudo a mãe e a esposa — emerge como um lugar-comum (facto tão
mais saliente na análise em apreço dado que a prevalência de lesões medulares é
muito superior nos homens). Na linha da divisão de trabalho que acontece na
sociedade portuguesa, em que as mulheres são o esteio da “sociedade
providência” (Santos, 1993; Portugal, 2008), são as mães ou as esposas que
muitas vezes abdicam das suas carreiras profissionais para cuidar do familiar
com lesão medular ou que acumulam esta prestação de cuidados pessoais com a sua
atividade profissional. Neste quadro há uma tendência, mesmo que temporária,
para que um dos membros da família, habitualmente a mulher, transforme
radicalmente a sua vida pessoal para passar a viver em função da pessoa com
lesão medular. Nestas situações, as relações familiares passam a estruturar-se
em torno dos papéis de cuidador e de recetor de cuidados, atuando os restantes
membros da família em conformidade com este núcleo central. Esta delegação de
responsabilidades estatais tem, portanto, duas consequências centrais. Em
primeiro lugar, um assinalável esforço da parte da estrutura familiar, que
frequentemente acarreta situações de exaustão e de tensão interpessoal; por
outro lado, quando esta estrutura não existe, o lesionado medular enfrenta
gravosas situações de desamparo ou a “alternativa” da institucionalização (que
muitas vezes tem por destino instituições — como lares de idosos — inteiramente
desadequadas, seja para as especificidades do cuidado, seja para a idade dos
lesionados). Em segundo lugar, reitera-se um quadro de menorização da pessoa
com deficiência que, constituída como sujeito passivo e dependente, se vê
despojada de uma relação de cuidado capaz de lhe conferir autonomia de decisão
e controlo sobre a sua vida.
Como foi referido, nos casos em que o regresso ao domicílio não é uma opção
viável por razões médicas e/ou sociais, as soluções existentes em Portugal são
limitadas e resumem-se aos lares e às unidades de cuidados de curta, média ou
longa duração. Tal como acontece no acesso aos serviços e às prestações
sociais, também aqui o acesso não é garantido, estando dependente de vagas,
totalmente inexistentes em algumas zonas do território nacional. Por outro
lado, não são raras as situações de pessoas jovens que se veem na insólita
situação de serem colocadas num lar de idosos. Isto mesmo nos explicava uma
assistente social de um dos centros de reabilitação:
[…] são as situações mais graves e que para nós são desafios muito grandes
porque a maior parte das respostas, em termos sociais, não se adequam a esta
população. Porquê? Porque é uma população normalmente jovem que não é, quanto a
mim, não é legítimo da nossa parte querer encaminhá-los para um lar de idosos e
por vezes é a única possibilidade que nós temos […] Existem já alguns centros
residenciais para pessoas com alguma dependência, mas são mesmo muito, muito,
muito insuficientes. É impossível dar resposta… Mesmo os lares… Não há
respostas suficientes, porque o número de vagas é sempre muito inferior à
necessidade das pessoas, então os centros residenciais […] Também há as
unidades de cuidados continuados, ao nível dos cuidados de tipologia da longa
duração. Agora o utente precisa de ter critérios clínicos para integrar as
unidades, não basta ser uma situação social. O que nos causa grandes
constrangimentos. Por isso, por vezes, temos aqui os utentes bastante tempo sem
a alta social. [Assistente social]
Uma das consequências mais marcantes da lesão medular é a perda de mobilidade
e/ou sensibilidade ao nível dos membros inferiores e a necessidade de
utilização de uma cadeira de rodas por parte dos lesionados medulares. Dada a
falta de acessibilidades de grande parte do ambiente construído em Portugal, o
momento de alta hospitalar ou do centro de reabilitação levanta também a
questão da adequação da habitação familiar às novas necessidades da pessoa com
lesão medular e das acessibilidades na comunidade para permitir a mobilidade em
cadeira de rodas. Tal como pudemos apurar, estas adaptações no espaço doméstico
são mais facilitadas no caso de o lesionado medular estar coberto por uma
companhia de seguros, uma vez que são, na indeminização paga em resultado do
acidente, alocadas verbas para a remodelação da habitação. Já no caso das
pessoas com lesão medular dependentes do sistema nacional de saúde e do serviço
de segurança social, dada a morosidade e a dificuldade em obter estes apoios, a
execução de adaptações fica dependente do esforço financeiro da família. Como
tem sido assinalado, o estado-providência português caracteriza-se precisamente
pela existência de diferentes regimes de segurança, com graus distintos de
generosidade, e pelo fraco nível de proteção social dos grupos economicamente
mais desfavorecidos (Santos, 1999; Andreotti et al., 2001; Hespanha, 2001). No
caso das pessoas com lesão medular sob exclusiva proteção do regime geral de
segurança social, esta situação é vivenciada não só através do baixo valor e do
caráter não universal das prestações sociais, mas também através da maior
dificuldade no acesso a serviços de reabilitação, a cuidados de saúde, a
acompanhamento médico, a ajudas técnicas e a outros elementos facilitadores da
sua inclusão. O acesso a determinados serviços essenciais no processo de
inclusão na comunidade — onde se incluem serviços apoio domiciliário, serviços
de fisioterapia e enfermagem, remodelações de modo a tornar a habitação
acessível ou mesmo vagas nas unidades de cuidados continuados — são
extremamente morosos, obrigando a contínuas e insistentes diligências junto das
diferentes entidades. Assim, a título ilustrativo, das 27 pessoas com lesão
medular entrevistadas, já residentes na comunidade, em 19 casos as habitações
sofreram obras de adaptação ou houve necessidade de mudar de habitação, mas em
apenas dois casos existiu algum apoio direto da segurança social. Neste
processo, assumem especial relevância as juntas de freguesia, que em muitos dos
casos oferecem os materiais — e por vezes a mão de obra — para estas obras de
adaptação.
Na grande maioria dos casos a adaptação do espaço doméstico às necessidades da
pessoa com lesão medular é uma realidade aquando da alta do centro de
reabilitação. O mesmo não acontece relativamente ao período de espera entre a
alta hospitalar e a entrada para o centro de reabilitação. Este período é,
assim, marcado por contrariedades acrescidas, que refletem o quão pouco
acessível é a esmagadora percentagem do espaço edificado em Portugal:
E os meus pais explicavam ao diretor do hospital e aos enfermeiros: que eu não
morava numa casa adaptada; eu morava num apartamento, num primeiro andar, só de
escadas; não havia condições para eu voltar para casa. E os meus pais, como
sempre, muito boas pessoas, estavam a fazer de tudo para mudar o mais rápido
possível… Por isso é que o meu processo de alta do hospital de Coimbra, depois
de restabelecida, demorou um pouco. Porque eles explicavam a situação de que eu
não tinha ainda casa. E lá eles eram acessíveis: “Então a gente vai deixar ela
aqui, até ela conseguir ir para Alcoitão.” E tentavam, o mais depressa
possível, arranjar-me vaga para Alcoitão. E lá, com a assistente social,
pressionando, e depois a gente tentava falar — eu não, que estava no hospital,
mas os meus pais e amigos estavam sempre a fazer telefonemas, a pressionar…
Então, foi um processo um pouquinho demorado, para conseguir a minha entrada em
Alcoitão, foi… Mas entrei; sei lá, passados oito meses, mais ou menos, do
acidente, consegui. […] E, enquanto eu estava lá, os meus pais trataram da
mudança. Arranjaram um apartamento à pressa, alugado; nós fomos para lá morar,
realmente, também não havia grandes acessos; mas era o que, na altura, as
possibilidades financeiras permitiam [Ana, lesionada medular]
As dificuldades deste período de transição entre o hospital e o centro de
reabilitação devem-se, nesta fase, não só às condições físicas dos lesionados
medulares — na maior parte dos casos não foi feito o levante e a passagem para
a cadeira de rodas — mas também à existência de barreiras físicas, seja na
habitação seja no espaço público. Estes fatores fazem com que as pessoas com
lesão medular fiquem muitas vezes confinadas ao espaço do seu quarto, que seja
prolongado o período de internamento hospitalar, como o relato acima
exemplifica, ou que sejam, noutros casos, internadas em clínicas privadas
enquanto aguardam vaga para entrada no centro de reabilitação.
Nos diferentes momentos da relação entre as respostas institucionais e a vida
pessoal, a análise do percurso das pessoas com lesão medular demonstra a
carência e inadequação de respostas que maximizem a sua reabilitação e que
agilizem o processo de inserção na comunidade. A ausência destas respostas é
tão mais gravosa em face de um ambiente que, sob variados pontos de vista —
social, cultural, laboral, arquitetónico, urbanístico —, é, por defeito,
ostensivamente hostil à inclusão social das pessoas com lesão medular (e com
deficiência, de um modo geral).
Os percursos pessoais da lesão medular
Lesão medular e experiência incorporada
A lesão medular tem como implicações físicas mais comuns e evidentes a
paraplegia (perda de mobilidade e/ou sensibilidade ao nível dos membros
inferiores), a tetraplegia (perda de mobilidade e/ou sensibilidade nos quatro
membros) e, eventualmente, outras disfunções orgânicas. No entanto, desde o
momento do acidente, passando pelos centros de reabilitação, até à integração
na comunidade, as pessoas enfrentam momentos complexos, marcados por desafios,
transformações e angústias, que de modo algum se apreendem por um olhar cingido
seja às questões médicas e funcionais, seja aos enquadramentos institucionais
de resposta a essas mesmas questões.
Definido entre uma subjetividade corpórea profundamente transformada, um modus
vivendi que tem de ser reconfigurado e uma construção social hegemónica que
retrata a pessoas com deficiência em termos profundamente opressivos, o
processo de reconfiguração identitária e vivencial das pessoas com lesão
medular enfrenta desafios particularmente árduos. A partir dos dados do
trabalho de campo, pode-se dizer que a forma como as pessoas com lesão medular
vivenciam as transformações impostas pela lesão depende de uma multiplicidade
de fatores, dos quais destacamos: a distância temporal face à ocorrência da
lesão, a estrutura socioeconómica, a situação profissional, a situação familiar
e afetiva, o sistema de proteção ativado aquando do acidente (nomeadamente
existência de seguro), o ambiente social na área de residência, etc.
Se é verdade que podemos elencar algumas varáveis que condicionam o ajustamento
dos sujeitos à necessidade de, após a lesão, terem de viver em novos termos, o
impacto pessoal e emocional desta reconfiguração vivencial e existencial
inscreve-se sempre nas particularidades e contingências de cada história de
vida. Não ignorando os importantíssimos condicionantes sociais, estamos perante
a necessidade, bem sublinhada por Arthur Kleinman, de, perante eventos
significativos de sofrimento e tribulação, acedermos aos mundos locais da
experiência dos sujeitos:
For an ethnography of experience the challenge is to describe the processual
elaboration of the undergoing, the enduring, the bearing of pain (or loss or
other tribulation) in the vital flow of intersubjective engagements in a
particular local world. (Kleinman, 1992: 191)
A partir das entrevistas, podemos, pois, concordar com Michael Oliver (1988),
quando ele refere que, não obstante as respostas sociais e os recursos
disponíveis, ter uma lesão medular será sempre um episódio biográfico altamente
significativo que implica sentimentos de vulnerabilidade e incerteza. De facto,
o período inicial que se segue à lesão medular é frequentemente marcado por uma
forte angústia vivencial e por uma expectável meditação ontológica em que os
tempos da vida aparecem por referência ao antes e ao depois da ocorrência da
lesão:
A parte mais difícil é você saber que você trabalhava, que tinha a sua vida
normal e, de repente, você vê sua vida se desmoronar. Você vem abaixo. Aí você
se sente muito mal, muito, muito mal. Se sente uma pessoa inútil, que não pode
fazer nada, dependendo dos outros para tudo. [Helena, lesionada medular]
Assim, a lesão medular comporta uma consciência do corpo por via daquilo que
Leder designa dys-appearance. Esta formulação é explicada do seguinte modo:
“Empreguei o termo dys-appearance para me referir à tematização do corpo que
acompanha a disfunção e os estados problemáticos”(Leder, 1990: 86). Assim dys-
appearance — cujo prefixo dys o autor extrai do grego para dizer “mal” — nomeia
o acréscimo de consciência do corpo por via de uma irregularidade, de uma perda
ou de um excesso no seu funcionamento. Do ponto de vista das perceções
subjetivas do próprio corpo, a pessoa lesionada confronta-se com um sentimento
de vulnerabilidade num corpo despojado das referências anteriores ao acidente.
Estamos perante aquilo que Martins (2006, 2008) denomina “angústia da
transgressão corporal”. A “angústia da transgressão corporal” refere-se a uma
dimensão de sofrimento pessoal, eminentemente corporal, não totalmente
apreensível na sua relação com elementos sociais. Estamos, portanto, no campo
da vulnerabilidade decorrente de um corpo que falha, que transgride as
referências na existência, as referências no modo de ser-no-mundo. Assim
entendida, a angústia da transgressão corporal concita-nos a reconhecer
dimensões de dor, sofrimento e ansiedade existencial onde o corpo vivido, o
conhecimento incorporado do ser-na-vida e as emoções adquirem uma centralidade.
Este quadro de angústia ontológica tende a atenuar-se à medida que se vai
sedimentando um maior ajustamento à condição imposta pela lesão ou que o
processo de reabilitação produz alguns progressos. No entanto, este percurso é
acompanhado por um complexo calibrar de expectativas que, em grande medida,
passa pela construção de quadros de diagnóstico mais plausíveis em detrimento
da possibilidade de “voltar a andar”:
No início eu ainda pensei “isto é uma coisa passageira, eu vou voltar a ser a
mesma pessoa, vou voltar a andar, vou voltar ao meu trabalho”, mas depois, ao
longo do tempo, fui-me apercebendo e vi que realmente não era assim, e depois
fui falando com médicos, enfermeiros… os próprios médicos também falaram com os
meus familiares, os meus familiares também me prepararam, principalmente a
minha mãe, e fui encarando a realidade. [Álvaro, lesionado medular]
Lentamente, a angústia pessoal e a relação de perda ligada à subjetividade
corpórea dá lugar à consciência dos limites que, fora do corpo, fora do
sujeito, por omissão ou violência, negam à pessoa com lesão medular a
possibilidade de ressignificar a sua existência numa participação social tão
plena quanto possível.
Momentos-chave
Sendo pertinente falar de um fluxo processual da experiência no ocaso de uma
adversidade com marcas biográficas indeléveis, como o fazíamos em cima glosando
Arthur Kleinman, também é verdade que o processo de reconfiguração identitária
das pessoas com lesão medular não deixa de ser marcado por alguns momentos-
chave. Um desses momentos ocorre no período inicial de internamento hospitalar,
após o acidente, quando a pessoa toma conhecimento da lesão. Altura em que o
impacto desta assalta toda a estrutura física, emocional e social dos sujeitos.
O isolamento repentino face aos seus ambientes familiares, a imobilização numa
cama hospitalar, o sofrimento físico, a sensação de alienação em face a um
corpo transformado, e o confronto com um diagnóstico são tudo fatores que
engendram um quadro de vulnerabilidade e incerteza. O momento difícil do
confronto com o diagnóstico traumático é frequentemente agravado pelas
circunstâncias em que ele é conhecido. Seja pela impreparação dos profissionais
na definição de um protocolo de informação que tenha em conta o peso
existencial da revelação a ser feita, seja pelo facto de os primeiros tempos do
cuidado médico implicarem uma peregrinação confusa por diferentes estruturas e
serviços, seja ainda pelo desejo de adiar uma comunicação difícil ou de se
esgotarem as dúvidas acerca da irreversibilidade da lesão, o facto é que são
muitos os casos em que os lesionados conhecem o seu diagnóstico médico de forma
acidental ou através de expedientes comunicacionais confrangedoramente bruscos:
Sim, foi no primeiro hospital onde eu fui operado, no dia a seguir, um médico
[…] que não era o chefe de equipa, chegou lá ao pé de mim, disse-me assim:
“Senhor Leonardo, a operação correu bem mas uma coisa é certa, você nunca mais
vai andar”. Foi um choque para mim… Eu agarrei-me à cara, pus a mãos na cara,
pus-me a chorar… Pus-me a chorar e ele falou, falou e eu não tomei mais atenção
ao que ele me disse. E ele viu o estado que eu estava, foi-se embora, no outro
dia voltou e veio-me pedir desculpa daquilo que ele tinha dito. E eu disse:
“Sr. Doutor, eu nunca o vou desculpar porque o doutor está farto de lidar com
muitos casos e disse-me uma coisa tão violenta [Leonardo, lesionado medular].
Um segundo momento-chave é a passagem da cama hospitalar para a cadeira de
rodas. Este momento constitui um primeiro marco na tomada de consciência sobre
uma nova condição. Se, do ponto de vista funcional, a passagem para a cadeira
de rodas constitui um importante ganho funcional e uma libertação da
imobilidade da cama, esta passagem comporta também o confronto simbólico com
uma nova identidade e com uma nova relação com o usufruto do espaço: porque a
cadeira prefigura um futuro que se perpetuará como uma extensão do próprio
corpo essencial à mobilidade — enquanto a cama remete para a transitoriedade
afeta ao sick role de Parsons (1951); e porque a cadeira é, por excelência, o
símbolo da deficiência na nossa sociedade (basta ver, por exemplo, o dístico
que identifica um estacionamento reservado), pelo que a passagem para a cadeira
implica, igualmente, a incorporação do estigma hegemonicamente associado à
deficiência. O conflito de Sofia com a passagem para a sua própria cadeira
exprime bem o modo como esta convoca o espectro de uma nova vida:
Então fui para o Curry Cabral fazer fisioterapia. Mas a parte que mais me
custou foi quando eles encomendaram a minha cadeira. Porque eu andava na
cadeira do hospital, e depois, quando a minha cadeira chegou eu não a quis. E
durante quase duas semanas o enfermeiro vinha com a minha cadeira e eu mandava-
o embora. A cadeira do hospital era diferente… era tipo: estava a pensar que
sempre me ia levantar da cadeira. A minha cadeira é ter a noção que vou estar
nela para sempre!… E é complicado… [Sofia, lesionada medular]
O terceiro momento-chave é constituído pela primeira visita a casa após a lesão
medular. A importância deste momento em todo o processo advém de dois fatores
principais: o reencontro com a vida de antes da lesão e a consciencialização
das barreiras físicas, sociais e culturais que se lhes colocam. O guia para
pessoas com lesão medular publicado por Sara Palmer, K. H. Kriegsman e J.
Palmer (2008) é congruente com os nossos dados, ao alertar para o modo como o
regresso a casa, após a permanência no hospital ou no centro de reabilitação,
corresponde também a um choque com o mundo real:
Em Alcoitão [Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão] aquilo para nós
era uma terra prometida, aquilo uma pessoa deslocava-se para a esquerda, para a
direita à vontade, íamos à casa de banho tínhamos toda a segurança, agora, de
um momento para o outro apanho-me cá fora, deparo com todas as barreiras
possíveis e imaginárias, barreiras arquitetónicas, barreiras humanas, de
pessoas que encaravam a nossa situação chamando-nos “coitadinho”,
“desgraçadinho”, isto custava um bocadinho a ouvir, quer dizer, e depois quando
chegávamos a algum edifício ficávamos a olhar para os degraus, quando não há
barreiras arquitetónicas — ainda hoje isso acontece — uma pessoa parece, entre
aspas, que se “esquece” da deficiência, mas quando as encontra parece que há
ali um sininho logo a trabalhar… E quando eu saí de Alcoitão foi isso, isso
mexeu muito comigo, mexeu e de que maneira. [André, lesionado medular]
A saída do centro de reabilitação constitui o primeiro ensaio de uma
autonomização após o contexto de proteção que a instituição confere (Oliver et
al., 1988). Por um lado, no regresso a casa, consoante os recursos de que
disponha, a pessoa com lesão medular pode recuperar o controlo sobre a sua
vida, escapando aos rigores do controlo médico (Oliver, 1990; Turner, 1992;
Hughes, 2001) que invariavelmente pautam os tempos e as práticas nos hospitais
e nos centros de reabilitação. Por outro lado, o regresso a casa implica estar
exposto a um mundo hostil que configura o lesionado medular como um corpo
estranho. Num mundo construído em função de uma celebrada normalidade (Davis,
1995) a pessoa com deficiência está exposta a toda a sorte de obstáculos,
incompreensões e ameaças à perda de controlo sobre a sua vida. Adicionalmente,
quando o regresso a casa implica a saída do centro de reabilitação onde se
haviam estabelecido relações de camaradagem junto de outras pessoas da mesma
condição, o regresso a casa pode implicar uma reindividualização da
experiência. Nesse sentido a politização da deficiência no espaço público e a
criação de comunidade em torno da deficiência constitui um elemento fulcral
para fazer face à vulnerabilidade imposta por essa individualização da
experiência.
Conclusão: para uma crise da normalidade
A fraca politização da questão da deficiência em Portugal (Fontes, 2009, 2011)
pela não apresentação de modelos alternativos e positivos de deficiência, tem
constituído também um importante condicionante no processo de reconstrução
identitária das pessoas com lesão medular. A maioria dos nossos entrevistados,
apesar de manter contacto com outros lesionados medulares, sobretudo através de
redes sociais, relata não ter uma atividade de intervenção política pela
inclusão das pessoas com deficiência. É, assim, notória a ausência de uma
plataforma de partilha e coletivização de experiências que permita desenvolver
uma consciência política da realidade dos sujeitos e uma atitude positiva face
à sua situação. Neste particular, há uma recursividade entre as complicações de
saúde — que frequentemente decorrem de cuidados inadequados e da ausência de
recursos — e a exclusão dos lesionados medulares do espaço e da vida pública. A
desadequação da rede institucional de apoio às pessoas com lesão medular, tanto
ao nível de estruturas de saúde, como de respostas sociais para a sua inclusão
na família e na comunidade, constitui uma barreira adicional ao processo de
reconfiguração identitária. Como emerge da nossa análise, urge politizar a
questão da deficiência em Portugal de forma a oferecer modelos alternativos de
deficiência e quadros de vida decentes para as pessoas com lesão medular. Dessa
politização deverá decorrer a criação de uma rede institucional devidamente
apetrechada às necessidades de socorro, reabilitação e inclusão na comunidade.
Dela decorrerá ainda a transformação das lógicas de cuidado médico, de molde a
munirem a pessoa com lesão medular de maior informação e controlo sobre os
passos e itinerários terapêuticos. Finalmente, a análise crítica dos percursos
das pessoas com lesão medular deverá forjar uma transformação social mais
ampla, assim recusemos a trivialização da exclusão social, a hegemonia da
normalidade, e nos deixemos ensinar pelos múltiplos caminhos e lugares da
experiência.