As escolas entre as lógicas competitiva e colaborativa: modos de regulação
globais num contexto local português
Introdução
Nas últimas três décadas, vários países europeus introduziram alterações na
forma de distribuição de competências educativas entre o estado e as instâncias
intermédias e locais, com consequências para os modos de regulação dos sistemas
de ensino. Algumas das tendências comuns nas políticas educativas têm sido
identificadas por referência ao modelo de “quase-mercado”.
Neste artigo, procuramos compreender de que forma essas orientações globais são
“vernacularizadas” (Appadurai, 1996) nos discursos e práticas de atores num
mesmo contexto local português. Baseando-nos na abordagem comparativa
compreensiva proposta por Van Zanten e Ball (2000), partimos num primeiro
momento da identificação dos traços principais do modelo de quase-mercado e, de
forma sumária, avaliamos a sua expressão no sistema português, através da
produção legislativa.
A análise empreendida a nível do contexto local é enquadrada pelas orientações
globais e as políticas educativas identificadas anteriormente, com vista a
perceber em que medida as práticas de relações entre escolas se pautam por
lógicas competitivas e de que forma se articulam com outras formas de
relacionamento, numa primeira aproximação aos múltiplos processos de regulação
local em jogo (Barroso, 2006). Esta reflexão baseia-se em notas de campo e
entrevistas realizadas aos diretores de sete escolas do contexto, que são,
segundo a literatura, os principais protagonistas na tradução de políticas
nacionais, gozando de uma relativa autonomia (Sebastião et al., 2013), bem como
os mais informados sobre as dinâmicas locais (Van Zanten, 2006).
Os quase-mercados educativos: tendências globais e nacionais
O conceito de quase-mercado
É possível reconhecer algumas semelhanças na (re)distribuição de competências
entre atores educativos operada em vários países europeus nas últimas três
décadas, com impacto nos processos de regulação dos sistemas, isto é, no “modo
como são definidas e controladas as orientações, normas e ações que asseguram o
funcionamento do sistema educativo” (Barroso, 2006: 44). O conceito de
regulação é entendido de um ponto de vista construtivista, sendo baseado em
processos múltiplos e, por vezes, contraditórios, que englobam tanto regulações
normativas, expressas em orientações e modelos cognitivos, regulações
institucionais, geralmente em forma de legislação ou normas, como regulações
locais, resultado de ações individuais e coletivas em situação.
Inspirados pelos quadros teóricos e instrumentos de análise das políticas
públicas, como o conceito de referencial,[1] certos autores reconhecem a
emergência de novos modos de regulação institucional na Europa (Maroy, 2005),
enquanto configurações específicas de arranjos institucionais, resultado de
mecanismos de coordenação e controlo postos em prática pela ação pública
estatal. A análise do significado destas evoluções tem sido efetuada com o
recurso à definição de modelos cognitivos que, enquanto tipos-ideais, poderiam
inspirar a mudança dos modos de regulação institucionais através da adoção de
certas medidas. Estes modelos operariam como referenciais, participando
enquanto regulação normativa induzida nos processos de regulação dos sistemas.
“Estado avaliador” (Neave, 1988; Broadfoot, 2000) e “quase-mercado” (Whitty,
1996; Maroy, 2005) têm sido os conceitos mobilizados para resumir os modelos de
regulação emergentes.
O primeiro remete para uma avaliação a posterioride resultados, num contexto de
pilotagem em controlo remoto por parte do estado, que detém o controlo sobre a
definição dos objetivos do sistema e da aferição da sua qualidade e deixa às
autoridades inferiores os meios para cumprir as metas previamente fixadas. Este
conceito encontra-se associado à noção de prestação de contas, através de
dispositivos de controlo, como as inspeções de escolas.
A noção de quase-mercado, que exploraremos de forma mais aprofundada neste
artigo, difundiu-se no seguimento das reformas nos sistemas de saúde e educação
em Inglaterra pelo governo de Margaret Thatcher. A introdução de “mercados” na
prestação de serviços sociais caracteriza-se, segundo Le Grand (1991), por um
estado financiador de serviços prestados por uma variedade de fornecedores
(públicos e privados), que operam em competição por clientes que, com base em
informação relativa à qualidade dos serviços, exercem o seu direito de escolha.
São, porém, quase-mercados, na medida em que as organizações em competição não
visam forçosamente a maximização dos seus lucros, nem são necessariamente
geridas de forma privada; do lado da procura, o poder de compra não é expresso
em termos monetários, sendo antes previstas ajudas orçamentais para a compra de
um serviço específico.
Num esforço de síntese, Afonso (2010) sugere que a expressão quase-mercados em
educação se aplica nos casos em que um conjunto de mecanismos e dispositivos
favorecem o desenvolvimento de lógicas e valores de comparação, concorrência e
liberdade de escolha no sistema público, desde que não levem à privatização ou
não sejam introduzidos por razões de lucro. Outras ordens de razão explicam o
prefixo do conceito de quase-mercado em especial no que diz respeito à
educação, apontando para as especificidades deste campo que justificariam a
intervenção do estado. São disso exemplo a capacidade desigual das famílias de
fazerem escolhas informadas sobre a qualidade da educação prestada e a natureza
não unicamente privada, mas também pública, do bem educacional. Um quase-
mercado permanece então regulado pela administração central (Levacic, 1995,
cit. em Whitty e Power, 2002), nomeadamente no que diz respeito à entrada de
novos fornecedores (escolas), investimento e qualidade do serviço.[2]
Políticas educativas e quase-mercado
A introdução de elementos de quase-mercado na política educativa foi marcada
pelo documento Education Reform Act (1988) que mudou o sistema educativo em
Inglaterra, nomeadamente ao admitir a escolha da escola por parte dos pais e ao
aumentar a autonomia das escolas, diminuindo o poder tradicional das
autoridades educativas locais (Broadfoot, 2000). Foram transferidas
responsabilidades financeiras, pedagógicas e de gestão de pessoal para os
Conselhos de Escolas, o que favoreceria a diversificação da oferta educativa. O
encorajamento da liberdade de escolha e da concorrência entre escolas fez-se,
além disso, através do financiamento de escolas em função do número de alunos,
bem como de uma maior difusão de informação sobre o funcionamento das escolas,
designadamente através das famosas league-tables, que as ordenam segundo a
classificação nos exames nacionais (Barzano, 2009).
Também poderemos falar de quase-mercados educativos em sistemas onde a
expressão dos valores e conceções de diversas comunidades religiosas e
políticas permitiu, como na Comunidade Francesa da Bélgica, o reconhecimento e
financiamento de vários fornecedores da educação. O princípio constitucional da
liberdade de escolha resultou, por um lado, numa iniciativa escolar múltipla e
descentralizada (Delvaux e Maroy, 2009), permitindo, por outro, a livre escolha
das escolas por parte das famílias. A lógica competitiva foi tradicionalmente
caracterizada por um “princípio de discrição” (Mangez, 2011), assegurando deste
modo a coexistência e autonomia dos diferentes fornecedores. Transformações
culturais e sociais acentuaram a lógica mercantilista, na medida em que as
escolhas parentais surgem hoje menos orientadas por convicções religiosas ou
políticas e cada vez mais guiadas pela oferta educativa e as características
das escolas (Van Haecht, 2004), ao mesmo tempo que estas desenvolvem
estratégias competitivas para atrair famílias e alunos.
A partir destes dois exemplos, podemos resumir os elementos de um modo de
regulação institucional identificáveis com o modelo de quase-mercado em pelo
menos três tipos de mecanismos ou dispositivos, articulados entre si, que
contribuem para o desenvolvimento de um ambiente de concorrência entre as
escolas. Em primeiro lugar, a diversificação da oferta disponível, seja através
da introdução de novos currículos ou cursos, seja pela atribuição de uma maior
autonomia de organização pedagógica às escolas, que permitirá o desenvolvimento
de opções diferenciadas. Não raras vezes, o estímulo para a diversificação da
oferta é também realizado por via de um financiamento público da oferta
privada. Em segundo lugar, dispositivos para as famílias poderem escolher entre
a oferta disponível, ora através da liberdade de escolha entre escolas públicas
(isto é, flexibilizando os critérios que limitam essa escolha, como a
tradicional área de residência), ora pela existência de incentivos financeiros
na frequência de escolas privadas (desde créditos fiscais aos chamados
“cheques-ensino”[3]). Tais dispositivos podem ser acompanhados pela divulgação
de informação sobre as escolas, habitualmente sobre os resultados escolares, e
apontam para uma regulação de tipo mercantil, na qual os “clientes” avaliam a
qualidade do sistema através da sua possibilidade de escolha. Como refere
Afonso (2010), a escolha induz também a necessidade de desenvolver mecanismos
de avaliação, como exames nacionais, de maneira a possibilitar, através da
divulgação de resultados, a comparação entre escolas. Assim, e em terceiro
lugar, no sentido de encontrar um equilíbrio entre direitos de consumidores e
diretos de cidadãos (Whitty e Power, 2002), mecanismos de prestação de contas e
avaliação. Estes mecanismos permitiriam uma regulação do ambiente de
concorrência, tanto pelo estado central (nomeadamente através de provas
nacionais externas ou inspeções de escolas) como pela comunidade local
envolvente (sobretudo pela sua representação nos órgãos de gestão da escola e
participação na tomada de decisões).
Os argumentos a favor da introdução destes elementos baseiam-se essencialmente
na maior eficiência na gestão das escolas e numa maior liberdade de escolha das
famílias. Entre as principais críticas, consta a criação ou o agravamento de
desigualdades, fruto da combinação entre estratégias de investimento das
famílias em percursos distintivos e estratégias de escolas mais seletivas, que
admitem os alunos académica ou socialmente mais capazes (Abrantes e Sebastião,
2010; Sá e Antunes, 2007).
A articulação com as lógicas nacionais: os limites do quase-mercado no sistema
educativo português
Numa análise comparativa das políticas educativas a nível europeu, baseada em
dados provenientes de fontes secundárias, foi possível identificar alguns dos
elementos característicos do quase-mercado, designadamente na maior
descentralização de competências e autonomia das escolas, no desenvolvimento de
mecanismos de avaliação e, sobretudo, na maior possibilidade de escolha das
famílias e na publicação de resultados (Batista, 2012). Para além dessas
tendências, existem formas de apropriação e recontextualização de políticas a
nível dos sistemas educativos (Barroso, 2006), no confronto entre os
referenciais europeus e as instituições locais preexistentes.
A evolução das políticas educativas portuguesas, no que diz respeito à
diversificação da oferta e à autonomia das escolas, ao papel das famílias e aos
dispositivos de avaliação, permite lançar algumas pistas de discussão sobre a
apropriação e o significado que adquirem neste sistema as orientações globais.
Em consonância com as tendências europeias, o papel da avaliação afigura-se
como crucial na compreensão da redefinição das competências e relações entre
atores educativos (Batista, 2012). De forma sumária, podemos identificar os
principais aspetos na produção legislativa que apontam para a relativa
expressão do modelo de quase-mercado no sistema educativo português, de acordo
com os mecanismos apresentados no ponto anterior.
Relativamente à diversificação da oferta, é importante referir, em primeiro
lugar, os vários diplomas publicados desde finais dos anos 80, que visam
conferir uma maior autonomia às escolas públicas, associando as novas
responsabilidades à construção de um projeto educativo próprio e a um novo
modelo de gestão e administração das escolas (entre os principais, o decreto-
lei nº 43/89, de 3 de fevereiro, o decreto-lei nº 115-A/98, de 4 de maio, e o
decreto-lei nº 75/2008, de 22 de abril). Apesar de alguns avanços, que
permitiriam o desenvolvimento de opções próprias e projetos diferenciados, a
evolução normativa pautou-se por avanços e recuos e foi criticada por deixar de
fora aspetos considerados essenciais, como o recrutamento de professores e a
questão financeira (Formosinho et al., 2010). A extensão destas medidas
encontra-se condicionada por uma história e uma cultura nacionais específicas
deste sistema, que ainda permanece, quando comparado com os restantes sistemas
europeus, bastante centralizado e com pouca autonomia das escolas (Batista,
2012). Com efeito, o governo central concentra ainda as responsabilidades
principais, tanto a nível da conceção, planeamento e coordenação do sistema,
como ao nível de conteúdos, através do currículo nacional, ou na gestão de
recursos. Porém, outros aspetos apontam para uma relativa diferenciação da
oferta. Por um lado, pela diversificação de vias de ensino, nomeadamente pela
introdução de opções profissionais, currículos alternativos ou possibilidades
de as escolas terem disciplinas e ofertas complementares (ver art.os 5º e 6º do
decreto-lei nº 139/2012, de 5 de julho). Por outro, pelos apoios financeiros
concedidos à oferta privada desde os anos 80 (decreto-lei nº 553/80, de 21 de
novembro, hoje decreto-lei nº 152/2013, de 4 de novembro) plasmados em cinco
tipos de contratos entre as escolas e o estado: (i) de associação, que
garantem, nas mesmas condições de gratuidade do ensino público, a frequência
das escolas privadas em zonas onde a rede pública seja deficitária ou esteja
saturada; (ii) simples ou de desenvolvimento de apoio à família, que atribuem
um apoio financeiro às famílias economicamente mais desfavorecidas, os
primeiros no ensino básico e secundário, os segundos na educação pré-escolar;
(iii) de patrocínio,que apoiam o ensino em domínios pouco ou nada desenvolvidos
no ensino oficial (como escolas artísticas ou de música); e (iv) de
cooperação,que financiam parte da escolarização de alunos com necessidades
educativas especiais. Esta alternativa privada, embora tenha aumentado o seu
público na década 2000-2010,[4] constitui todavia uma minoria no sistema e é
altamente regulada pela administração central.
Quanto à liberdade de escolha, importa sublinhar que os apoios às escolas
privadas se traduzem em custos mais reduzidos para as famílias que queiram
optar por um estabelecimento particular, alargando desse modo o seu leque de
escolha. No seio do ensino público, a matrícula dos alunos fez-se
tradicionalmente segundo critérios rígidos associados à área de residência,
sobretudo no ensino básico. Ainda assim, tem havido uma certa flexibilização no
sentido de liberalizar a matrícula (despacho n.º 5048-B/2013, de 12 de abril),
permitindo às famílias uma hierarquização de cinco estabelecimentos
preferenciais, sendo essa escolha condicionada à existência de vagas (que são
preenchidas, porém, por uma lista de critérios legalmente fixados, entre os
quais se privilegia o local de residência). Note-se que, apesar de não
constituir uma medida política, a publicação sistemática dos resultados dos
exames nacionais, em forma de rankings, em meios de comunicação de referência
com forte impacto, parece ser o elemento mais característico do quase-mercado,
podendo induzir lógicas de comparação entre as diferentes escolas e um ambiente
de concorrência entre estas.
Finalmente, é importante referir medidas que têm promovido mecanismos de
avaliação e prestação de contas. Entre as medidas políticas sobre a avaliação,
destacam-se duas suscetíveis de contribuir para lógicas compatíveis com o
quase-mercado, na medida em que permitem uma comparação entre escolas e os seus
resultados são públicos, ou seja, podem constituir a base de escolha para as
famílias: (i) o desenvolvimento de provas e exames nacionais em todos os ciclos
de ensino (decreto-lei nº 139/2012, de 5 de julho); (ii) programas de avaliação
externa de escolas, cujos relatórios são acessíveis através da Internet
(programa desenvolvido no seguimento da lei nº 31/2002, de 20 de dezembro).
Sobre a prestação de contas à comunidade local e a possibilidade de as famílias
participarem na regulação das escolas, sublinhe-se a legislação que, desde os
anos 90, consolida a sua participação nas escolas, seja através da Associação
de Pais (lei nº 29/2006) ou na representação nos seus órgãos de gestão,
obrigatória com os novos modelos de administração e autonomia das escolas.
Para além da evolução legislativa, o alcance do modelo de quase-mercado deve
ser aferido através da consideração do papel dos contextos locais e dos seus
atores. Alguns contributos de investigações anteriores alertaram, de facto,
para desfasamentos entre as normas legais e as práticas locais. Assim, por
exemplo, a existência de critérios restritivos à matrícula e admissão de alunos
nas escolas públicas não impossibilita práticas clandestinas de escolha por
parte das famílias (Barroso e Viseu, 2003; Sá e Antunes, 2007) ou mecanismos de
seleção por parte das escolas (Abrantes e Sebastião, 2010). A comparação entre
escolas, decorrente da divulgação de resultados, como os rankings, leva algumas
escolas a promoverem a sua imagem (Martins, 2009; Antunes e Sá, 2010) e a
competirem por alunos (Sebastião et al., 2013), ao oferecerem percursos
diferenciados para se adaptarem a diferentes públicos (Abrantes e Quaresma,
2013; Quaresma, Abrantes e Lopes, 2012). Os espaços de autonomia permitidos
pela legislação podem ser usados ou recontextualizados de forma diferenciada e
com objetivos distintos consoante a cultura organizacional de escola (Torres,
2011). Noutro sentido, são observados limites e constrangimentos ao exercício
de algumas competências ou responsabilidades porém legalmente consagradas,
nomeadamente na participação das famílias na tomada de decisão nas escolas (Sá,
2000).
De maneira a analisar como os processos de (re)distribuição de competências, em
particular aqueles que remetem para dispositivos e lógicas características de
quase-mercados, afetam (e são afetados pelas) relações entre diferentes escolas
situadas num mesmo espaço local, recorremos a parte do material empírico
recolhido no âmbito de um estudo mais alargado,[5] centrado num município
português da área metropolitana de Lisboa, Cascais, que passamos a apresentar.
Apresentação do contexto local
A delimitação de um município para o estudo das relações entre escolas não é
inédita (ver Maroy, 2004), o que não significa que essas relações e a possível
existência de um ambiente de concorrência se esgotem nos limites
administrativos do concelho, como teremos oportunidade de demonstrar. O
contexto urbano heterogéneo de Cascais possui, porém, duas características que
encorajariam o desenvolvimento de lógicas de caráter competitivo entre escolas
(Van Zanten, 2005) e lhe conferem pertinência para este estudo: a diversidade
de oferta de educação e do público escolar.
Relativamente à oferta educativa, constata-se em primeiro lugar o equilíbrio
entre a oferta pública e privada (figura_1), sobretudo no ensino básico, tal
como acontece em Lisboa, mas em mais nenhum outro concelho da Grande Lisboa. No
ensino secundário, o peso da oferta privada diminui, surgindo todavia como o
terceiro maior de todos os concelhos da Grande Lisboa.
O expressivo peso da oferta privada não corresponde, por si só, a uma evidência
da existência dos princípios mercantilistas: “a simplificação de que uma rede
pública ao estado pertence (como o grande tutor da escola) e uma rede privada é
parte integrante do mercado é desconhecer uma série de tramas envolvidas no
emaranhado de pertenças, formas de financiamento e regulações presentes nos
vários tipos de escola” (Martins, 2012: 101). Para além de o ensino particular
ser fortemente regulado pelo estado em Portugal, existem neste contexto local
específico estabelecimentos “dependentes”, isto é, que recebem pelo menos 50%
do seu financiamento de base de agências do governo, através de um contrato de
associação. Porém, a maioria do ensino privado é considerado “independente” —
com importantes margens de decisão no que diz respeito à contratação e gestão
de pessoal docente, bem como na matrícula dos alunos —, embora possa ter
contratos simples com o estado, o que permitiria um apoio financeiro às
famílias mais desfavorecidas que optem por este tipo de ensino. Essa escolha
pode ser potenciada pela diversidade dos estabelecimentos privados, atestada
pela existência de escolas internacionais, escolas religiosas católicas e
colégios integrados em institutos de solidariedade social (IPSS), que não
ministram os mesmos níveis de ensino e diferem bastante em termos de dimensão.
As escolas públicas no concelho também demonstram alguma variedade, antes de
mais pela sua dimensão, pela oferta educativa ou pela população escolar que
acolhem. A sua localização geográfica em muito contribui para as diferenças da
sua composição social, que distinguem não só oferta privada (maioritariamente
situada no litoral, com exceção da escola com contrato de associação) e
pública, mas também as escolas públicas entre si. Como dizia uma das diretoras:
Há as escolas aqui de Cascais que são do lado de baixo da linha, e há as
escolas que são do interior, do lado de cima da autoestrada. E nós que estamos
aqui no interior […] temos de facto estes bairros de realojados que às vezes a
população que nós temos lá dentro não é a mesma de uma escola que está ao pé da
linha, percebe? [D4, 38].
Com efeito, a população residente em Cascais possui uma elevada heterogeneidade
social, económica e educativa, como se pode notar a partir dos indicadores
apresentados no quadro_1. Particularmente as duas freguesias do interior,
Alcabideche e São Domingos de Rana, distinguem-se das restantes (podendo
albergar ainda variabilidade interna).
Estas e outras particularidades já documentadas em outros estudos, tais como a
questão da identidade, cultura e estratégia das escolas, fazem tanto do ensino
privado como do ensino público em Portugal uma realidade heterogénea (Diogo,
2008; Sebastião, 2009). É nesse sentido que Abrantes e Quaresma (2013) alertam
para a necessidade de considerar, na realização de observações empíricas, uma
paisagem mosaico de escolas, superando a conceção dual público/privado.
O presente estudo inscreve-se nessa preocupação, centrando-se em sete escolas
do município, selecionadas intencionalmente segundo cinco principais critérios
que garantem a diversidade dos contextos observados, nomeadamente a sua
localização, a natureza institucional, a existência de contrato com a
administração central, a dimensão e os resultados escolares.[6] O quadro_2
apresenta sumariamente algumas dessas características.
Os elementos que seguidamente apresentamos resultaram de uma primeira análise
de uma parte do material empírico recolhido durante o trabalho de campo
desenvolvido nestas escolas no ano letivo de 2012/2013. Dos vários instrumentos
mobilizados, retivemos essencialmente os dados obtidos através das entrevistas
semidiretivas realizadas aos diretores e referentes à contextualização da
escola no meio local, distinguindo três principais vertentes: (i) a
caracterização da imagem e reputação da escola nesse contexto; (ii) as
estratégias desenvolvidas para as manter ou melhorar; (iii) as relações
desenvolvidas com outras escolas. A apresentação e a interpretação dos dados
foram complementadas pelas notas de campo elaboradas em conversas informais e
pela observação de reuniões, na medida em que determinados excertos
significativos permitem a aferição das (práticas observadas sobre as)
informações recolhidas através dos discursos dos diretores.[7]
Entre a lógica competitiva e a lógica colaborativa: as relações entre escolas
no contexto local
No enquadramento das tendências globais e nacionais dos modos de regulação dos
sistemas de ensino, procurámos analisar a natureza da relação entre escolas
neste contexto local, em especial a existência de lógicas competitivas,
consonantes com o modelo de quase-mercado.
Atratividade e imagem da escola
Uma análise da atratividade e da imagem das escolas ganha aqui particular
relevância, pois remete para a sua posição num ranking simbólico do contexto
local, configurando um mercado informal de escolha para as famílias (Sebastião
et al., 2013). Partimos da definição de atratividade proposta por Barroso,
Dinis, Macedo e Viseu — “capacidade que a escola demonstra ter de suscitar a
vontade dos alunos em querer frequentá-la” (2006: 169) —, embora se trate aqui
de uma atratividade tal como sentida pelos diretores das escolas.
Da tipologia de atratividade proposta pelos autores, retivemos a definição de
atratividade passiva, quando a capacidade de captar alunos decorre
essencialmente de fatores exógenos (por exemplo, devido à legislação, a
preferências das famílias dadas a localização ou as características dos
edifícios). À atratividade ativa — que corresponde, segundo a definição dos
autores, a situações em que os fatores de atratividade são endógenos à escola
(como determinada identidade ou filosofia da mesma, resultados, qualidade dos
cursos) — acrescentámos, porém, um outro tipo, designado atratividade
estratégica. O objetivo, aqui, é o de captar estratégias claramente
apresentadas pelos diretores como ações de promoção da imagem da escola,
sabendo, pelos resultados de vários outros estudos realizados em contexto
nacional, que existem estratégias informais e muitas vezes não declaradas
desenvolvidas pelas escolas de maneira a manter determinado estatuto local
(Abrantes e Sebastião, 2010; Sebastião et al., 2013).
A atratividade passiva apenas foi referida por dois diretores de escolas
públicas, que destacaram essencialmente a localização da escola, mas também
questões como o equipamento, a estabilidade do corpo docente ou a perda de
atratividade de outras escolas. A atratividade ativa foi a mais referida pelo
conjunto de diretores entrevistados (com apenas uma exceção), estando
geralmente identificada com valores ou identidade da escola (por três
diretores), ou com resultados escolares (quatro diretores). Três diretores
(dois de escolas públicas e um de uma escola privada) referiram estratégias
desenvolvidas pelas escolas para captar alunos, sendo a mais comum os cursos ou
opções curriculares.
A atratividade dita estratégica é aquela que aponta para a entrada em jogo das
escolas na competição local, pelo menos a nível de estratégias externas, mesmo
que analisemos por enquanto apenas uma competição dita de primeira ordem (Van
Zanten, 2005) para captação de mais alunos. Quais são, então, as escolas que
admitem entrar nesse tipo de competição, e por que motivo?
Procurámos compreender os mecanismos em jogo no desenvolvimento de lógicas
competitivas das escolas através das suas estratégias externas, apoiando-nos em
alguns elementos propostos por autores da chamada Nova Sociologia Económica na
análise dos mercados. Na sua conceção de mercado como uma estrutura socialmente
construída e definida em termos das perceções dos participantes, Podolny foca a
sua atenção nas posições de status dos produtores e nas suas implicações. O
conceito de statusno mercado é apresentado como “the perceived quality of that
producer’s products in relation to the perceived quality of that producer’s
competitors’ products” (1993: 830). Embora, no caso da educação, não se possa
falar propriamente de produtos, o que está aqui em causa é a perceção da
qualidade da escola, num ordenamento pelo menos implícito da oferta existente.
Uma ordem de status não exclui a possibilidade de existirem vários segmentos de
mercado, cada qual com a sua própria ordem, fazendo com que a posição de um
produtor varie consoante os segmentos. No caso da educação, os segmentos
poderiam significar o que Abrantes e Quaresma (2013) designam “circuitos
educativos”, distinguindo por exemplo público/privado, via regular / via de
ofertas profissionalizantes, ou mesmo os diferentes níveis de ensino.
Como alerta o mesmo autor, o status do produtor (no nosso caso, a escola) pode
não corresponder à qualidade efetiva dos seus produtos. No entanto, essa ordem
de status funciona como uma entidade estrutural e condiciona as opções dos
consumidores (neste caso, as famílias). Um dos corolários deste argumento é que
os produtores numa posição elevada não necessitam de investir tanto em
publicidade como os produtores com status mais baixo, na medida em que “more
customers simply flow to the producer without the producer actively seeking
them out” (1993: 838).
Em Portugal, grande parte da informação pública existente sobre as escolas
baseia-se nos resultados obtidos nos exames nacionais, através dos rankings.[8]
Porém, estudos desenvolvidos sobre os argumentos de escolha da escola mostram
que essa informação é mobilizada de forma diferenciada segundo a classe social
das famílias (Diogo, 2008) ou não é necessariamente invocada por grande parte
delas, sendo mesmo ultrapassada por aspetos que vão desde a oferta escolar e
qualidade das instalações a questões como a boa preparação para os exames, o
ambiente de disciplina ou a abertura da escola aos pais (Antunes e Sá, 2010).
Estas últimas ordens de razões parecem remeter para uma imagem construída da
escola, possivelmente passada “de boca a boca” e que, para além de contribuir
para aferir a sua atratividade e guiar as escolhas das famílias, condicionaria
também o desenvolvimento de ações estratégicas por parte das escolas com vista
a captar alunos. Assim, escolas com uma boa imagem, e considerando uma relativa
estabilidade dessa imagem, não necessitariam de desenvolver estratégias
específicas para atrair população escolar, uma vez que as famílias e alunos já
as escolheriam à partida - tenderiam então a adotar atitudes de “poupadoras”
(Van Zanten, 2005). Escolas numa posição inferior ou que sentissem a sua imagem
em declínio apostariam em estratégias de promoção, sendo “empreendedoras” (id.,
ibid.).
No sentido de aferir se tal se verificava no contexto local em estudo, cruzámos
as categorias relativas à atratividade e à imagem da escola no contexto local
percecionadas pelos diretores. O quadro_3 traduz esse cruzamento, apresentando
o número de segmentos de texto codificados simultaneamente em duas categorias,
com uma distância máxima de três parágrafos.
Como se pode verificar, nove segmentos foram codificados simultaneamente em
atratividade ativa e boa imagem. Tais segmentos correspondem aos diretores das
escolas privadas (os únicos que relataram ter uma boa imagem) e passam
sobretudo pelos valores ou pela identidade da escola, por exemplo pelo seu
projeto religioso ou pela sua história. Seis segmentos codificados com relativa
boa imagem foram também codificados com atratividade ativa. Esta é a
especificidade das escolas públicas e remete sobretudo para o reconhecimento do
trabalho desenvolvido, da qualidade da escola, ou dos próprios resultados
escolares. Como reconhece a diretora da Escola Verde, e em linha com estudos
anteriores (Sá e Antunes, 2007; Barroso e Viseu, 2003), essa imagem pode levar
ao desenvolvimento de práticas clandestinas por parte dos pais, de forma a
assegurar a matrícula em determinada escola:
Nós o ano passado ‘tivemos no primeiro lugar no ranking das escolas do concelho
de Cascais. Isso também tem alguma influência. Os pais também procuram… Neste
momento o que passa lá para fora é que a escola é uma escola com algum sucesso
e onde há alguma estabilidade. […] Às vezes põem moradas de pessoas familiares
que moram na área de residência. [D Verde, 16]
Os segmentos codificados com relativa má imagem apenas se encontram também
codificados com a atratividade chamada estratégica, o que parece corroborar a
hipótese apresentada. Neste contexto local, tal posição é expressa num caso
relacionado com fenómenos de insucesso, remetendo o problema da reputação e
consequente competição por alunos para uma vertente mais inclusiva que
distintiva (Sebastião et al., 2013). Assim, a diretora da Escola Azul tentou
num primeiro momento alterar a perceção negativa da escola através da mudança
do seu nome (de um nome associado a um bairro com população desfavorecida, para
o nome do patrono da escola) e, seguidamente, apostando em ofertas alternativas
que constituíssem oportunidades para esse público mais desfavorecido:
O que me propus naquela altura — depois dei-lhe outro nome — era mudar a imagem
da escola. […] O que é que eu queria mudar na imagem? É que lá fora as pessoas
reconhecessem que esta escola faz muito cá dentro, não é a escola de há 20 anos
atrás. [D Azul, 34]
Nós temos apostado um bocadinho nos cursos CEF e este ano apostámos nos cursos
profissionais […]. Foi uma política para dar resposta a esses alunos. A nossa
classe era uma classe baixa, estes alunos não iriam todos com certeza para o
ensino regular secundário normal, portanto tentámos apostar nos cursos. [D
Azul, 8-10]
Os dois segmentos codificados em atratividade estratégica e boa imagem remetem,
na verdade, para situações passadas na vida da Escola Amarela, que foram
ultrapassadas devido a ações estratégicas para a tornar atrativa:
A proposta que eu lhes fiz [à direção] foi: “isto só tem uma solução” […]. A
solução era aumentar isto para 9.º ano. […] E investir. Arriscar, investir
dinheiro. Estamos a falar em 93. Entre 93 e 97 foi a preparação de todo este
esquema, por um lado credibilizar de novo a escola, reganhar alunos para o 1.º
ciclo com preços muito mais caros, bastante mais caros […]. Permitiram à escola
encher-se e tornar-se naquilo que é, uma escola de referência, neste momento
com excelentes resultados. [D Amarela, 10].
Dois diretores declararam explicitamente não querer afirmar a imagem da escola
no contexto local. Tal posição parece dever-se, no primeiro caso, ao facto de a
diretora associar essa afirmação a uma lógica competitiva de mercado
incompatível com a filosofia da escola:
Não trabalhamos para as aparências. […] Sinto que nós aqui na escola recusamo-
nos a trabalhar para a imagem. Eu pessoalmente então nesse aspeto tenho muita
dificuldade em trabalhar apenas para a imagem, é mais para o conteúdo. [D
Laranja, 14]
Assim, para além da posição da escola na hierarquia simbólica local, parece que
o desenvolvimento, pelo menos declarado, de práticas que constituam estratégias
competitivas deve também ser interpretado à luz da cultura organizacional de
escola (Torres, 2011) ou de “narrativas de identidade” (Ball e Maroy, 2009),
isto é, formas de os diretores apresentarem as especificidades das suas
escolas. A história, a cultura e a identidade organizacional resultam em visões
distintas da função da instituição escolar,[9] que, caso não consonantes com
uma lógica externa competitiva, tenderão a não permitir, pelo menos de forma
consciente e/ou explícita, estratégias de promoção da imagem.
No segundo caso, o diretor em causa justificou a sua postura face às lógicas
competitivas locais em razão do ciclo do seu plano de ação na escola, que ainda
não teria terminado:
[A escola] Não afirma [a sua imagem no contexto local]. Esse foi um dos
pressupostos do meu plano de ação, que era: nós não vamos fazer publicidade da
escola. Não vamos encetar um plano de marketing para angariar mais alunos […].
Só passaremos a essa fase da divulgação no momento em que houver resultados. [D
Vermelha, 24].
Por várias outras ocasiões durante a pesquisa de terreno efetuada nessa escola
a questão da promoção da imagem surgiu. Numa delas, que ocorreu durante um
Conselho Geral (CG) da escola, a própria presidente do CG e o representante da
Câmara Municipal incitaram o diretor a fazer publicidade da escola aquando da
visita dos avaliadores externos, sugerindo mesmo a comparação dos resultados
com a média nacional e dados sobre a evolução do número de alunos (que daria um
“bom indicador de procura” e “se há procura, é um reconhecimento pelo menos
implícito de qualidade e isso deve ser dito”, segundo o representante do
município). O diretor manteve aí a sua posição, dizendo que só efetuaria esse
tipo de leitura quando terminasse o ciclo do seu plano de ação.
Neste episódio é importante destacar o papel crucial do diretor na definição da
atitude da escola face a lógicas competitivas locais. É de notar, todavia, que
a opção por não afirmar a imagem ou não fazer publicidade positiva pode
constituir, em si mesma, uma prática de distinção, contribuindo de forma
indireta para a consolidação de uma determinada posição no quase-mercado local.
Uma competição de segunda ordem?
Os estudos sobre as interdependências competitivas entre escolas no mesmo
contexto local procuram também identificar elementos de uma competição de
segunda ordem, isto é, concorrência entre escolas no sentido de atrair os
alunos considerados mais favorecidos em relação às suas características
académicas e/ou sociais (Sebastião et al., 2013; Van Zanten, 2005). As
estratégias deste tipo, geralmente desenvolvidas de forma informal, na medida
em que contornam normativos legais, tendem a provocar fortes assimetrias entre
escolas, por vezes muito próximas geograficamente, particularmente no que toca
à composição do público escolar (Abrantes e Sebastião, 2010; Diogo, 2008;
Quaresma, Abrantes e Lopes, 2012; Sebastião, 2009; Sebastião et al., 2013).
Nas entrevistas realizadas aos diretores não existem referências diretas a uma
competição deste tipo, praticada na maioria dos casos através da seleção de
alunos à entrada ou durante o percurso escolar. Mesmo as escolas privadas
referem o seu caráter aberto ou inclusivo, seja devido à sua filosofia
(católica ou republicana) — ainda que, por exigirem mensalidades, acabem por
servir uma maioria de população socioeconomicamente mais elevada - ou pelo
facto de acolherem efetivamente em parte uma população mais desfavorecida (caso
da Escola Rosa, com contrato de associação).
São, porém, referidos mecanismos de seleção à entrada em duas das escolas
públicas, as que têm ensino secundário. Na Escola Roxa, a diretora afirmou que
as políticas de admissão de alunos da escola seguiam os critérios legalmente
fixados, acabando por acrescentar:
Logicamente quando há excessos ou quando a procura é maior que a oferta com
certeza que prevalecem aí as situações das classificações dos alunos à entrada.
Mas só quando de facto há situações de excessos. [D Roxa, 38].
O diretor da Escola Vermelha, por sua vez, referiu que segue o enquadramento
normativo no caso do ensino regular mas, para os cursos profissionais, existem
exames de aptidão à entrada, pois a escola tem muita procura para esse tipo de
ensino. Foi este o único diretor que referiu diretamente um ambiente de
concorrência de segunda ordem com outras escolas públicas das proximidades, mas
situadas no concelho limítrofe, referindo que a sua má relação com essas
escolas se devia precisamente ao facto de estas desenvolverem estratégias de
seleção dos alunos na altura das matrículas:
Como é que é possível que uma escola que é a 500 metros da nossa e inserida num
conjunto urbanístico que se pode dizer conjunto, embora sejam dois concelhos
[…], como é que é possível que eu tenha 35 nacionalidades na escola e a [outra
escola] duas? […] O problema é que eles não recebem esses alunos. E chutam para
aqui. Porque é que a [outra escola] era quarta no ranking? E a nossa era a 400
e não sei quê há não sei quanto tempo? […] O problema é que eles ficavam com os
[níveis] 4 e 5 e mandavam os 2 e 3 para aqui. [D Vermelha, 52].
Se as estratégias de afirmação local referidas pelos diretores são limitadas,
tanto no caso de uma competição de primeira como de segunda ordem, tal não
significa que o ambiente de competição não se viva nas escolas. É comum ouvir
referências, sobretudo nas escolas públicas, aos resultados obtidos em provas
nacionais e a sua comparação com os resultados obtidos em escolas vizinhas,
tanto nas entrevistas realizadas como nas reuniões das escolas, o que atesta a
existência dessa lógica competitiva, mas também a importância dos rankings na
perceção das escolas e na indução de processos de concorrência e comparação
(Afonso, 2010).
Porém, esse tipo de ambiente não se estabelece entre escolas públicas e escolas
privadas, entre as quais há mesmo uma recusa de fazer qualquer tipo de
comparação. No primeiro caso, tal deve-se à perceção da composição
socioeconómica da população escolar do privado e aos seus mecanismos
autorizados de seleção à entrada, que permitem obter melhores classificações em
provas externas. No ensino privado, foi possível apreender duas posições. Por
um lado, a Escola Rosa, com contrato de associação, que prefere não comparar
resultados com a restante oferta privada, devido ao público diferenciado,
grande parte proveniente de bairros sociais. Por outro, a perceção de alguma
desvantagem face às condições do ensino público, como referiu a diretora geral
da Escola Laranja, que poderia levar a uma perda de alunos:
A diretora geral refere que a escola privada sempre foi considerada como
supletiva, mas que na verdade é uma formação complementar. Com a requalificação
do parque escolar, o Estado deu muitas condições às escolas públicas [exclama:
“sem comentários!”]. As escolas privadas não têm meios para requalificar assim
as escolas e desse modo, a escola católica que é por definição para todos não o
consegue ser porque os alunos não a vão escolher por causa das condições,
nomeadamente os meios tecnológicos. [Conversa informal, Escola Laranja, 22/10/
2012].
Para uma regulação voluntária em rede?
Através da análise das entrevistas realizadas foi possível identificar uma
outra forma de relacionamento entre as escolas deste contexto local, que se
baseia numa lógica colaborativa. Segundo Van Zanten (2005), este tipo de
relacionamento seria menos comum, a menos que incitado pela administração ou
com vista à formação de coligações competitivas. Porém, os encontros entre
todos os diretores das escolas públicas (e o diretor da escola privada com
contrato de associação), pelo menos uma vez por mês, que atestam práticas de
partilha e cooperação, foram, segundo os relatos, encetados por iniciativa dos
próprios intervenientes e são uma prática de há dez anos no concelho.
Nessas reuniões, discutem-se problemas comuns e partilham-se modos de fazer e
experiências das escolas:
E aí nós partilhamos tudo: as angústias, os desabafos, práticas que fazemos…
Fazemos questão de todos os meses reunir para fazermos o ponto da situação… o
que é que alguém está a fazer de bom, o que é que está alguém a fazer que
podemos aproveitar nas escolas. [D Azul, 20].
Aquilo não é logicamente um órgão de consulta, muito menos de decisão, o que
nós procuramos ali é partilhar as nossas experiências, formas de fazer, de
resolver […] [D Roxa, 42].
Esse contacto leva até a que apenas se tomem determinadas decisões após
consulta dos restantes diretores e que se desenvolvam mecanismos conjuntos para
coordenar algumas ações, como a central de matrículas:
As escolas já se reuniam para conseguir distribuir os alunos pelas escolas
quando era o momento das matrículas, mas era […] pouco rigorosa. Aquilo que nós
fizemos foi encontrar uma aplicação informática que resolvesse a maior parte
dos problemas, principalmente aquelas decisões das cunhas e dos pedidos, enfim,
e ao mesmo tempo que otimizasse as instalações existentes no Concelho,
resolvendo de acordo com a legislação em vigor, mais depressa do que nós
fazíamos à mão. [D Vermelha, 46].
É nesse sentido que colocamos a hipótese de estas práticas constituírem
mecanismos de regulação voluntária, que condicionam ou influenciam a afetação e
gestão de recursos, os propósitos e os resultados da ação educativa (Justino e
Batista, 2013). Esta regulação local, de caráter cooperativo e horizontal,
difere dos mecanismos hierárquicos e verticais (típicos de uma regulação
coerciva e burocrática), bem como da regulação dita competitiva (de mercado),
embora se articule com ambas. É uma forma de organização em rede (Lima, 2007)
que se distingue pelo tipo de relações entre atores, a negociação na tomada de
decisão e os meios que asseguram a sua manutenção, designadamente a confiança e
a reciprocidade.
Retomando a teoria da sociologia económica sobre o funcionamento dos mercados,
os consensos ou regras partilhadas nestas reuniões (e mantidas por se
encontrarem regularmente) funcionariam como “instituições sociais”, isto é,
entendimentos que estruturam as perceções de como funciona o mercado e que
possibilitam aos atores interpretar a sua posição e controlar determinadas
situações (Fligstein, 2003). A informação que todos os diretores partilham
sobre o funcionamento e a evolução das restantes escolas nestas reuniões
permitir-lhes-ia, assim, desenvolver também as suas relações competitivas. Numa
das reuniões a que assistimos na Escola Roxa, esse parece ser precisamente o
caso (se bem que talvez não admissível em entrevista):
Quando discute as diferenças no ranking entre escolas públicas e escolas
privadas, a diretora afirma que a questão não está nos professores, mas no
filtro que é feito na admissão dos alunos. No seguimento da discussão, a
diretora diz que pode ser uma opção estratégica da escola começar a fazer
seleção de alunos — e ficar com os melhores. Afirma que tal seleção pode ser
feita, até porque a escola tem sobrelotação e existe uma escola pública ao lado
em défice, que é uma situação que tem de ser resolvida em termos de Rede de
Cascais [Conselho Pedagógico Escola Roxa, 31/10/2012].
Por outro lado, e esta surge como uma nova hipótese de trabalho, podem ser
desenvolvidas estratégias comuns para controlar a competição, seja através da
já referida prática da central de matrículas ou pela diferenciação ou
especialização de certas escolas em determinadas ofertas (cursos profissionais,
ajuda a crianças com necessidades educativas especiais, entre outras). As
práticas colaborativas entre escolas poderiam servir para partilhar os
mercados, evitando a competição direta (Fligstein, 2003). Desta forma, o
trabalho em rede poderia limitar um tipo de comportamento estratégico visando
proteger os interesses próprios, ainda que em prejuízo de outras escolas e
alunos, como é o caso de políticas restritivas de admissão de alunos para a
manutenção de um ambiente selecionado (Abrantes e Sebastião, 2010). A regulação
voluntária estaria assim imbricada com a regulação de mercado.
Este tipo de regulação também pode modificar, ainda que parcialmente, a
natureza da regulação coerciva ou burocrática. Com efeito, os mecanismos de
regulação negociada implicam um processo concertação entre os atores e
organizações envolvidos no objeto de regulação antes da adoção de uma nova
norma. Estes podem inclusivamente unir-se para levar as suas propostas, já
negociadas, à administração superior:
Quando o Ministério nos convoca para a Rede nós fazemos a nossa reunião
antecipadamente para definirmos concretamente o que é que cada um vai dar para
que não haja repetições […] portanto isto é tudo… combinado entre nós. [D Azul,
22]
A lógica colaborativa entre as escolas públicas (e a escola privada com
contrato de associação) não encontra no entanto correspondente entre as escolas
privadas. Estas parecem não desenvolver muitas relações com as restantes
escolas do contexto local, qualquer que seja a sua natureza institucional,
excetuando alguns intercâmbios de caráter pontual, geralmente envolvendo
atividades festivas ou desportivas entre alunos. Duas delas (Escola Laranja e
Escola Rosa) também se encontram em relações que apontam, porém, para lógicas
colaborativas, uma vez que estão inseridas em congregações de escolas de âmbito
nacional ou internacional, que regulam as suas práticas e atividades.
Notas finais
O conceito de “quase-mercado” tem sido mobilizado para resumir um dos modelos
de regulação emergentes dos sistemas educativos no quadro das reconfigurações
da distribuição de competências entre atores educativos. Implica, em termos de
política educativa, uma diversificação da oferta disponível, a liberdade de
escolha da escola por parte das famílias e o desenvolvimento de mecanismos de
avaliação e prestação de contas (permitindo, por um lado, a divulgação da
informação dos resultados para sustentar escolhas e, por outro, uma regulação
das escolas por parte das famílias).
A partir da definição das orientações globais, uma primeira aproximação à
evolução das políticas educativas portuguesas permitiu identificar alguns
elementos característicos do quase-mercado, nomeadamente a diversificação da
oferta, a flexibilização da carta escolar, o reforço da legislação que promove
a participação das famílias na escola e, sobretudo, a publicação sistemática de
resultados com impacto mediático. Mas a expressão desse modelo é ainda
restrita, num sistema que ainda permanece bastante centralizado e com autonomia
das escolas limitada, apontando para uma regulação de tipo coercivo e
burocrático (Justino e Batista, 2013).
Uma primeira análise destas orientações globais e das políticas educativas nas
interdependências entre escolas no mesmo contexto local permitiu destacar
alguns aspetos relacionados com a lógica competitiva, associados a estratégias
desenvolvidas pelas escolas consoante a sua posição no quase-mercado local.
Essa lógica, contudo, combina-se de forma particular com certas práticas locais
no relacionamento entre as escolas com oferta pública, que julgamos constituir
mecanismos de regulação voluntária, de caráter colaborativo e horizontal.
Tendo em conta os sistemas de regulação múltiplos em jogo num sistema educativo
(Barroso, 2006), a questão estará em perceber como se articulam estas formas
incipientes de regulação mercantil e as práticas (apresentadas como)
consolidadas de regulação voluntária com o papel da autarquia local enquanto
outra fonte de regulação, numa altura em que o município integra um projeto-
piloto de descentralização de competências educativas:
O concelho de Cascais está com um projeto piloto de descentralização de
educação para a Câmara […]. É dar resposta a uma necessidade que nós diretores
já sentimos há muito tempo: que é haver um Projeto Educativo de concelho. [D
Verde, 29-33].