Padrões de exogamia em quatro grupos de imigrantes em portugal (2001 e 2011)
Introdução
A população estrangeira residente em Portugal cresceu gradualmente depois do 25
de Abril de 1974 e, especialmente, a partir da década de 90 do século XX. Nos
últimos 30 anos, Portugal passou a ser não só um país de emigração, mas também
de imigração.[1] Segundo os dados dos censos (INE), o número de estrangeiros no
total da população residente no país passou de 1,2% em 1991 para 2,2% em 2001 e
3,7 % em 2011.[2]
Uma das consequências da presença de imigrantes em Portugal foi o aumento do
número de casamentos mistos, ou seja, aqueles em que pelo menos um dos cônjuges
nasceu fora de Portugal. De facto, num contexto onde o casamento tem vindo a
perder peso (o número de casamentos desceu de 58.390 em 2001 para 36.025 em
2011), os casamentos em que pelo menos um dos elementos do casal não é natural
de Portugal, apesar de também terem decrescido, fizeram-no em menor proporção,
passando de 20,4% em 2001 para 26,5% em 2011 (11.885 e 9560 respetivamente).
Assim, o objetivo deste artigo é analisar os padrões e o grau de exogamia, isto
é,o casamento entre dois indivíduos com naturalidades distintas, em quatro
grupos de imigrantes residentes em Portugal, em dois momentos concretos — 2001
e 2011[3] —, selecionados de acordo com critérios estruturais relativos à
antiguidade dos fluxos de imigração no nosso país. As naturalidades são: os
originários dos PALOP (Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Cabo-Verde, São Tomé e
Príncipe), da União Europeia dos 12 (excluindo Portugal, obviamente),[4] do
Brasil[5] e dos países do Leste Europeu (Ucrânia, Rússia, Roménia, República
Moldava e Geórgia).[6]
A presença, no nosso país, de cidadãos originários da Europa Ocidental,
particularmente os nacionais de Inglaterra, França, Alemanha e Espanha,
enquadra-se em fluxos imigratórios mais antigos datados do início dos anos de
1960 e ligados a atividades económicas e financeiras qualificadas. É
essencialmente a partir da década de 1980, aquando da entrada de Portugal na
então denominada Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, que a imigração
dos cidadãos da Europa dos 12 aumenta, com base na necessidade de recrutamento
de quadros profissionais qualificados para inserção num mercado de trabalho em
forte expansão internacional, como era o caso português (Marques e Góis, 2008;
Peixoto, 1999).
Tal como os cidadãos da Europa dos 12, também os imigrantes dos PALOP se
inserem em fluxos imigratórios mais antigos, iniciados sobretudo depois do
processo de descolonização ocorrido após o 25 de Abril. A partir daí, e de
forma progressiva, as comunidades cabo-verdiana, angolana, moçambicana, são-
tomense e guineense têm-se instalado no país, motivadas pelas relações
histórico-políticas estabelecidas entre Portugal e as ex-colónias, por fatores
relacionados com a instabilidade política e militar vivida em alguns desses
países nas últimas décadas, e pela necessidade de mão de obra associada ao
crescimento económico após a adesão de Portugal à Europa comunitária (Machado,
2009; Malheiros e Esteves, 2012).
De facto, e se até ao início do século XXI, a presença de imigrantes em
Portugal estava relacionada com a nossa história colonial e com relações
económicas e culturais mais privilegiadas com alguns países europeus, após essa
data intensificam-se notavelmente os fluxos migratórios de comunidades mais
recentes, motivados em grande parte pelas necessidades de mão de obra nas obras
públicas e para a modernização de várias infraestruturas nacionais (Malheiros,
2007; Peixoto, 1999). Neste contexto, a imigração brasileira surge como um
exemplo de charneira, na medida em que, se a primeira vaga destes cidadãos,
surgida entre meados dos anos 80 e 90 do século XX, era constituída por
indivíduos qualificados (Pinho, 2007), a segunda vaga, estabelecida no país
após 1999, apresentava já características de imigração laboral, sendo marcada
por indivíduos menos qualificados e com uma maior presença feminina (Padilla e
Ortiz, 2009; Malheiros, 2007; Peixoto e Figueiredo, 2007).
Por fim, a partir do início do século XXI, Portugal começou a receber de uma
forma intensa e num curto espaço de tempo contingentes de imigrantes vindos da
Europa de Leste, sobretudo ucranianos, russos, moldavos e romenos que, embora
sem relações históricas e culturais com o nosso país, muito contribuíram para
mudar estruturalmente o mapa dos estrangeiros residentes. Apesar de estes
cidadãos apresentarem um nível de escolaridade mais elevado do que a média
nacional, a sua inserção no mercado de trabalho é tendencialmente marcada por
trajetórias de classe descendentes e por um processo de desqualificação
profissional, ilustrado pela inserção laboral destes indivíduos em setores de
serviços domésticos (no caso das mulheres) e na construção civil (no caso dos
homens) (Baganha, Marques, e Góis, 2004; Marques e Góis, 2008, 2010).
Os dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF, Relatório da Imigração,
2001 e 2011) permitem constatar que, entre dois momentos concretos (2001 e
2011), o peso de cada um destes grupos em Portugal sofreu alterações: se a
presença de imigrantes que pertencem a fluxos de imigração mais antigos — PALOP
e UE-12 — sofreu um ligeiro decréscimo no espaço de dez anos, já o contingente
dos indivíduos originários do Leste europeu e do Brasil aumentou
consideravelmente. Neste contexto, importa avaliar como evoluíram os padrões de
exogamia de cada um destes grupos de imigrantes ao longo da década, dado que
níveis de exogamia mais pronunciados poderão indicar uma maior integração
social por parte destes cidadãos na sociedade de acolhimento (Kalmijn, 1998). A
par da prossecução deste objetivo, a análise aqui desenvolvida permitirá ainda
detetar eventuais mudanças ocorridas na estrutura matrimonial de cidadãos
pertencentes a fluxos de imigração mais antigos (PALOP e UE-12) e a fluxos de
imigração mais recentes (originários do Brasil e da Europa de Leste) e que
residem no país há menos tempo. Pretendemos ainda perceber que outros fatores
poderão explicar a propensão para o casamento exogâmico.[7]
Neste sentido, começaremos por enquadrar teoricamente a temática dos casamentos
exogâmicos (ou mistos), passando em seguida a algumas considerações
metodológicas acerca dos dados em estudo e das análises efetuadas. Num momento
posterior, serão apresentados, interpretados e discutidos os resultados
obtidos, apresentando-se, por último, as principais conclusões.
Casamentos exogâmicos como indicador de integração social
Para além das preferências pessoais que possam condicionar a escolha, no
mercado matrimonial, de um cônjuge de outra origem nacional, existem,
fundamentalmente, quatro perspetivas teóricas explicativas da exogamia. Em
primeiro lugar, a teoria da troca social postula que os grupos de imigrantes
que casam com nacionais do país de acolhimento tendem a trocar recursos
socioeconómicos elevados por recursos de estatuto simbólico, de forma a
integrarem-se socialmente (Merton, 1941; Kalmijn, 1998). Esta teoria foi
sobretudo ilustrada em investigações centradas em casais mistos inter-raciais
(Shoen e Wooldredge, 1989; van Tubergen e Maas, 2007) ou em abordagens
relativas à homogamia etária (Cortina Trilla, Esteve e Domingo, 2008) ou
educacional em certos países europeus (Cortina Trilla, Esteve e Domingo, 2008;
Dribe e Lundh, 2008; Kalmijn, 1998; van Tubergen e Maas, 2007). Neste sentido,
um imigrante com elevados recursos educacionais e profissionais capazes de
assegurar o bem-estar económico e o estatuto social do casal poderá, dentro do
mercado matrimonial do país de acolhimento, trocar esses mesmos recursos por
uma união conjugal com um cônjuge nativo.
Como segunda perspetiva, a teoria da assimilação é a teoria predominante para
explicar a integração social dos imigrantes e a sua assimilação (isto é,
integração plena) na sociedade recetora. Neste sentido, os casamentos entre
imigrantes e nacionais ilustram a integração social desses indivíduos, estando
um número elevado destas uniões associado a sociedades onde as barreiras
culturais e socioeconómicas foram diluídas e os imigrantes adotaram
características da população nativa (Alba e Golden, 1986; Dribe e Lundh, 2008;
Pagnini e Morgan, 1990). Como tal, um fator essencial no âmbito da teoria da
assimilação é o tempo de permanência dos imigrantes no país recetor: grupos com
uma permanência mais longa têm mais probabilidade de casar fora do grupo de
origem do que grupos pertencentes a vagas de imigração mais recentes. Outros
fatores de integração social que potenciam a união entre grupos estrangeiros e
nativos são o domínio da língua e a aquisição de certas competências pessoais
(conhecimento da cultura e dos estilos de vida) próprias do país de destino
(van Tubergen e Maas, 2007).
Neste contexto, e decorrendo da teoria da assimilação, as segundas gerações de
imigrantes teriam probabilidades mais acrescidas de casar com cidadãos da
sociedade de acolhimento do que as primeiras gerações, visto terem sido
socializadas (escola, grupos de amigos) no mesmo contexto nacional que os
grupos nativos (Muttarak e Heath, 2010). No entanto, estudos centrados nos
Estados Unidos indicam que os comportamentos endogâmicos continuam a prevalecer
entre descendentes de imigrantes originários da América Latina, Ásia ou África
(Hwang, Saenz e Aguirre, 1997), sugerindo, por isso, a teoria da assimilação
segmentada como proposta alternativa. Segundo esta terceira perspetiva, a
integração social dos imigrantes deverá ser relativizada tendo em conta a
diversidade cultural existente entre os vários grupos de origem e as respetivas
diferenças nas suas trajetórias e padrões de assimilação; assim, se certos
grupos têm uma cultura familiar mais endogâmica, revelando uma tendência para o
fechamento, outros demonstram um grau de abertura mais propenso às uniões
afetivas com diferentes comunidades (Portes, 1995; Hwang, Saenz e Aguirre,
1997; Muttarak e Heath, 2010). Por outro lado, a existência de capital social
elevado (família, amigos) pode funcionar como mediador, atenuando as diferenças
culturais de cada grupo e facilitando a assimilação na sociedade de
acolhimento. As estratégias conjugais exogâmicas variariam, assim, de acordo
com as diferentes culturas matrimoniais e os recursos socioeconómicos
disponíveis de cada grupo de origem.
Por último, a teoria da estratificação social defende que certos fatores
macroestruturais condicionam os padrões de casamentos mistos. Blau e Schwartz
(1984) afirmam que as condições estruturais que proporcionam a interação entre
grupos sociais distintos são a dimensão do grupo e o seu grau de
heterogeneidade. Grupos sociais mais pequenos têm maior propensão a estabelecer
relações intergrupais do que grupos maiores, uma vez que os seus membros têm
mais oportunidades de interagir com indivíduos fora do grupo, já que a sua
“base de recrutamento” é menor. A dimensão do grupo encontra-se, pois,
inversamente relacionada com o número de casamentos mistos, uma vez que grupos
sociais maiores têm uma maior probabilidade de escolha endogâmica face a grupos
mais pequenos (Blau e Schwartz 1984; Muttarak e Heath, 2010). No que respeita à
heterogeneidade, quanto maior ela for para um grupo social (relativamente a
características como o sexo, etnicidade, religião, estatuto socioeconómico e
segregação espacial), maior a propensão para a exogamia (Blau e Schwartz, 1984;
Hwang, Saenz e Aguirre, 1997). Neste contexto, certas investigações têm
sugerido que o grau de exogamia diminui em presença de comunidades imigrantes
com uma relação mais equilibrada entre os sexos ou que se encontrem
espacialmente segregadas (Muttarak e Heath, 2010; van Tubergen e Maas, 2007).
Apesar de divergências analíticas entre estas propostas teóricas para a
explicação da exogamia, na opinião de Kalmijn (1998), todos elas se baseiam na
ideia de que os casamentos mistos são um indicador da interação social e da
aceitação cultural da diferença entre grupos com origens nacionais distintas.
Como tal, pretende-se neste artigo analisar os padrões de exogamia de quatro
grupos de imigrantes em dois momentos concretos — 2001 e 2011 —, de forma a
entender as potencialidades e limitações de cada uma destas perspetivas para o
caso português. Os estudos existentes sobre o tema têm-se centrado em
comparações gerais dos padrões de endogamia e exogamia de grupos de imigrantes
residentes (Ramos e Ferreira, 2012; Ferreira e Ramos, 2008 ,2011), na análise
das dinâmicas matrimoniais de comunidades específicas, como os brasileiros
(Ferreira e Ramos, 2012) ou os europeus (Gaspar, 2009 ,2010).
Assim, a partir dos registos anuais dos casamentos realizados em Portugal,
retiveram-se aqueles em que pelo menos um dos cônjuges é originário de um dos
quatro grupos em análise. Pretende-se responder às seguintes questões de
investigação:
Será que estes imigrantes casam mais dentro (endogamia) ou fora do seu grupo de
origem (exogamia)? Existirão diferentes níveis de exogamia entre os vários
grupos de origem? Dentro dos vários grupos de imigrantes existem diferenças de
género ao nível da exogamia? Será que prevalece a homogamia educacional e
etária entre os casamentos exogâmicos?
Que fatores explicam a propensão para o casamento exogâmico?
Método e dados estatísticos
A análise que aqui apresentamos incide sobre o universo dos casamentos
celebrados em 2001 e 2011 em Portugal (microdados), disponibilizados pelo
Instituto Nacional de Estatística, pelo que teremos de nos cingir às variáveis
coletadas no momento do casamento e que constam destes registos. Segundo
Kalmijn (1998), a utilização de registos anuais de casamento (medidas de
incidência) para análise da evolução e dos padrões dos casamentos mistos num
dado contexto nacional representa o método mais adequado para avaliar eventuais
mudanças no âmbito da nupcialidade ao longo do tempo.
Neste sentido, e após o agrupamento dos indivíduos nos quatro grupos de
naturalidade considerados, foi feita uma análise descritiva, de forma a
caracterizar os casamentos destes grupos em cada um dos momentos e perceber a
evolução destas características ao longo da década. Para além disso, foram
realizadas regressões logísticas (por sexo e por ano), com o objetivo de
identificar quais as variáveis explicativas da propensão para o casamento
exogâmico. As regressões logísticas permitem responder a questões nas quais a
variável a explicar é um acontecimento binário. Assim, foi construída uma
variável dicotómica/binária (exogamia) que corresponde à formação de um casal
cujos membros não têm o mesmo país de origem, com duas categorias (1 = sim, 0 =
não).
As variáveis explicativas referem-se tanto às características individuais dos
cônjuges (idade, país de origem, nacionalidade, nível educativo, estado civil)
como às características do casal (coabitação prévia anterior ao casamento,
homogamia etária, homogamia educacional).
Com exceção da variável idade, todas as restantes variáveis explicativas
entraram na regressão como variáveis dicotómicas ou dummy, de modo a que a
obtenção dos odds ratio permitisse a comparação direta com o grupo de
referência. Os odds ratio interpretam-se como a mudança para a propensão para
casar fora do grupo de origem associada a cada variável explicativa. Os valores
superiores a 1 significam uma tendência crescente para a exogamia, enquanto os
valores inferiores a 1 sugerem uma tendência decrescente, isto é, uma menor
propensão para estar numa relação exogâmica. A utilização dos odds ratio
oferece duas vantagens importantes. Em primeiro lugar, permite medir o grau de
exogamia, na medida em que quanto maior for o valor absoluto dos odds ratio
maior é o grau de exogamia observado, ou seja, maior é a importância que essa
variável tem para o casamento exogâmico. Em segundo lugar, os odds ratio
permitem comparar a exogamia entre vários grupos, uma vez que são independentes
do tamanho relativo desses mesmos grupos no mercado matrimonial.
Com quem casam os imigrantes?
A análise dos dados do INE sobre a evolução geral do nível de exogamia dos
quatro grupos de imigrantes ao longo da década em questão permite constatar
que, tal como Ramos e Ferreira (2012) anteriormente assinalaram, existe uma
tendência clara para o casamento fora do grupo.[8] Todavia, é também visível ao
longo da década o incremento do casamento entre indivíduos oriundos do mesmo
grupo, já que em 2001 os casamentos exogâmicos representavam 89,9% do total de
casamentos enquanto em 2011 este valor desceu para 83,1%.
Mas se esta é a tendência geral, torna-se igualmente importante perceber em que
medida ela se verifica nos vários grupos de imigrantes, bem como entre os
géneros. Isto é, na linha da teoria da assimilação segmentada (Portes, 1995;
Hwang, Saenz e Aguirre, 1997), serão os vários grupos diferentemente
exogâmicos? Será o nível de exogamia diferente ou idêntico entre homens e
mulheres imigrantes? Para responder a estas questões, apresentam-se os dados
dos quadros_1 e 2.
Os resultados demonstram que, tal como reportado anteriormente (Dribe e Lundh,
2008; Ferreira e Ramos, 2012; Ramos e Ferreira, 2012), os imigrantes, em
Portugal, quer masculinos quer femininos, casam maioritariamente com cidadãos
nascidos em Portugal. Tal como se pode constatar no quadro_1, em 2001, os
imigrantes masculinos, quando casaram fora do grupo, fizeram-no,
maioritariamente, com mulheres portuguesas. Estes valores são particularmente
expressivos não só no caso dos indivíduos pertencentes a fluxos de imigração
mais antigos em Portugal — UE-12 (81,9%) e PALOP (73,6%) —, como também no de
cidadãos originários de fluxos migratórios mais recentes — Brasil (66,6%) e
países de Leste (63,6%). Mas se todos os grupos de imigrantes tendem a
privilegiar parceiros portugueses, há que referir que, quando tal não acontece,
a situação mais frequente é a escolha de um parceiro dentro do mesmo grupo de
países (Ramos e Ferreira, 2012), sendo, nesse caso, os brasileiros e os
oriundos dos PALOP os mais endogâmicos, com valores respetivamente de 26,1% e
20,6%. Também os homens portugueses, quando casam com imigrantes escolhem,
sobretudo, cidadãs da UE-12 (46,8%) e dos PALOP (39,6%).
No caso dos cônjuges femininos estrangeiros, também os padrões de casamento
neste ano demonstram que estas se casaram maioritariamente com cidadãos
portugueses. Estes casamentos mistos registam um valor particularmente alto,
não só no caso das cidadãs da UE-12 (81,6%), mas também das estrangeiras de
origem brasileira (76,8%), do Leste europeu (77,8%) e dos PALOP (75,5%), sendo
em geral mais elevados do que os registados entre os seus congéneres do sexo
masculino. Tal como nos homens, quando o casamento não é com um português, a
tendência é para casar dentro do grupo, destacando-se neste caso as mulheres
naturais dos PALOP, já que cerca de 1/4 escolhem um parceiro dentro do mesmo
grupo de países, enquanto nos restantes grupos os valores se situam entre os
11% e os 14%. No caso das portuguesas que casam com cidadãos naturais de outros
países, os valores mais elevados de casamentos exogâmicos repartem-se, tal como
no caso dos seus congéneres portugueses, entre os nacionais da Europa dos 12
(45,3%) e os nacionais dos PALOP (48,5%).
As escolhas conjugais dos imigrantes apresentam, em 2011, algumas diferenças
que importa destacar. Tal como se pode observar no quadro_2, no caso dos
cônjuges masculinos estrangeiros, a predominância do casamento com portuguesas
perdeu importância.[9] Se em 2001, em todos os grupos a situação mais comum era
casar com uma portuguesa, em 2011 isso não é uma constante. Com efeito, no caso
dos homens brasileiros (53,1%) e dos países de Leste (76,6%), a maioria dos
homens casa dentro do mesmo grupo, com um valor particularmente expressivo no
caso dos últimos. Ou seja, e tal como reportado em estudos prévios (Ferreira e
Ramos, 2012; Ramos e Ferreira, 2012) estamos perante grupos em que a endogamia
se tornou predominante ao longo da década considerada, facto que pode legitimar
a teoria da estratificação social (Blau e Schwartz, 1984; van Tubergen e Maas,
2007), se considerarmos que a dimensão do contingente de brasileiros e de
europeus de Leste aumentou, expressivamente, no nosso país. No caso dos
imigrantes europeus e dos PALOP, apesar de continuar a prevalecer o casamento
fora do grupo, e em especial com portugueses, estes diminuíram apreciavelmente
(passando a representar, respetivamente, 72,2% e 63,3% do total), acentuando-se
de forma importante o peso do casamento dentro do grupo, no caso dos naturais
de países da UE-12 (passou de 13,0% para 20,9%). Quanto aos cônjuges masculinos
portugueses envolvidos em casamentos mistos, evidenciou-se a continuidade da
importância dos casamentos com cidadãs originárias da UE-12 (34,3%) e um
aumento bastante expressivo de uniões conjugais com brasileiras (48,9%).
Relativamente aos cônjuges femininos imigrantes, verificou-se que a tendência
observada em 2001 para o casamento predominantemente fora do grupo se mantém em
2011, se bem que com valores menos expressivos. Neste sentido, os casamentos
mistos que envolvem naturais de Portugal e cidadãs naturais da UE-12 e do
Brasil são particularmente elevados (77,5% e 71,8%, respetivamente), seguindo-
se os casamentos entre mulheres dos PALOP e portugueses (69,7%). No caso das
cidadãs procedentes do Leste europeu, o peso do casamento exogâmico e
endogâmico é sensivelmente semelhante (45,8% casam dentro do grupo), podendo
ser em parte explicado pelo facto de muitas destas imigrantes terem vindo para
Portugal ao abrigo de processos de reagrupamento familiar com cidadãos dos seus
países de origem. Uma conclusão importante é o facto de, comparando o
comportamento conjugal de homens e mulheres originários de cada um destes
grupos de países, ainda que a exogamia tenha vindo a diminuir, se deteta, com
exceção do grupo dos PALOP, uma tendência clara para níveis mais elevados de
casamentos fora do grupo de origem no caso das mulheres (especialmente no caso
das mulheres brasileiras).
No que diz respeito às mulheres portuguesas, verifica-se que, em 2011, continua
maioritária a tendência para casamentos com indivíduos da UE-12 (tendo
aumentado de 45,3% para 53,4%) e, com menor expressão, entre portuguesas e
imigrantes brasileiros (22,0%, o que representa um aumento muito importante já
que em 2001 era de 5,4%) ou africanos (22,4%, representando uma diminuição
acentuada, uma vez que em 2001 estes casamentos eram 48,5%).
Homogamia educacional e etária
O tema da homogamia social, isto é, a proximidade social na escolha do cônjuge
(a nível educativo, etário, religioso e geográfico) é um objeto de análise já
clássico no seio da sociologia da família, quer no âmbito de casamentos
endogâmicos (Bozon e Heran, 1989; Girard, 1964) quer exogâmicos (Kalmijn,
1998). No caso concreto da homogamia educacional, e em linha com estudos
anteriores (Kalmijn, 1998; Ramos e Ferreira, 2012), quando comparamos as
habilitações dos dois cônjuges por ciclo verifica-se que, em mais de metade dos
casos, estamos perante casamentos entre iguais, o que aliás se acentuou ao
longo da década (a homogamia educacional passou de 53,0% em 2001 para 56,2% em
2011). Estes dados são aliás convergentes com a tendência geral para a
homogamia educacional tanto em Portugal como noutros contextos nacionais.[10]
No âmbito deste artigo, coloca-se a questão de saber até que ponto este padrão
de comportamento é idêntico nos vários grupos em análise.
No quadro_3 podemos observar que, no caso dos casamentos endogâmicos, a
situação mais comum é o casamento em que os cônjuges são igualmente
habilitados, tendo-se registado uma evolução diferenciada entre 2001 e 2011 nos
vários grupos de países. Entre os originários da UE-12 e dos PALOP assistiu-se
a um reforço da homogamia educacional, que no caso dos primeiros se faz como
contrapartida da diminuição do peso dos casais em que a mulher era mais
habilitada, enquanto no caso dos segundos, se faz a expensas da perda de
importância das situações em que a mulher era menos habilitada. Já no que se
refere ao Brasil e aos países de Leste a tendência é em sentido contrário, com
uma diminuição do peso das situações de homogamia educacional e um aumento das
situações em que a mulher é o cônjuge mais habilitado do casal.
Tendo-se considerado que a homogamia etária existia quando a diferença de idade
entre os cônjuges não excedia os 5 anos, os dados indicam que a grande maioria
das uniões mistas ocorre entre indivíduos com idades idênticas (76,4% em 2001 e
61,8% em 2011). Quando isso não acontece, e tal como foi registado em estudos
anteriores (Kalmijn, 1998; Rosa, 2008), a tendência é para os homens serem mais
velhos do que as mulheres, tendo aumentado claramente o peso destes casamentos,
entre 2001 e 2011 (passaram de 19,2% para 30,5%).
Analisando as idades dos cônjuges em casamentos endogâmicos, por grupos de
países (quadro_3), em todos eles prevalece a homogamia etária, com valores
particularmente elevados no caso dos casais da UE-12 e dos países de Leste em
2001. Comum também a todos os grupos é a tendência para a diminuição do peso da
homogamia etária entre 2001 e 2011 (apesar de se manter como a situação mais
frequente) com o correspondente aumento das situações em que o homem é mais
velho do que a mulher (especialmente acentuado nos originários países de Leste
e dos PALOP).
No caso dos casamentos exogâmicos, a análise tem de ser feita em separado por
sexo do cônjuge. Assim, e no caso das uniões em que as mulheres são imigrantes
(quadro_4), verifica-se para 2001 que, no que se refere às habilitações, apesar
de também predominar a homogamia educacional no caso das cidadãs da UE-12, do
Brasil e dos PALOP, o peso destas situações é inferior ao registado entre os
casais endogâmicos, com uma diferença particularmente acentuada no caso das
mulheres brasileiras e de Leste. Neste último caso, e com importância igual à
dos casamentos entre parceiros igualmente habilitados, temos aqueles em que as
mulheres são mais habilitadas do que os homens (quadro_4).[11] Entre 2001 e
2011, a evolução é para uma igualitarização das qualificações, registando-se um
aumento das situações de homogamia educacional em todos os grupos considerados.
Ainda relativamente às idades das mulheres, em 2001 apesar de em todas elas
prevalecer a homogamia etária, no caso das originárias da UE-12, do Brasil e
dos países de Leste, entre os casais endogâmicos, a sua importância é menos
acentuada do que entre os casais exogâmicos, com uma diferença substancial no
caso dos naturais de países de Leste e do Brasil, onde a percentagem de maridos
mais velhos do que as mulheres é assinalável (45,2% e 32,7% respetivamente). No
caso dos provenientes dos PALOP a situação é a inversa: é maior o peso dos
casamentos entre iguais em termos de idade entre os casais exogâmicos (75,2%).
Tal como entre os casais endogâmicos, a evolução entre 2001 e 2011 foi também
de perda de importância das situações de homogamia etária, com um
correspondente aumento dos casamentos entre parceiros em que o homem é o mais
velho, sendo no caso das mulheres dos países de Leste e do Brasil que esta
situação assume valores importantes (59,8% e 41,6% respetivamente) (para
resultados convergentes, cf. Kalmijn, 1998; Ramos e Ferreira, 2012).
Quando os casamentos mistos são entre imigrantes oriundos destes grupos de
países e mulheres portuguesas, a tendência é a mesma: predomínio da homogamia
educacional (com valores superiores ao dos outros grupos) e etária, e evolução
ao longo da década em sentido contrário, isto é, aumento da homogamia
educacional (55,4% em 2001 e 63,2% em 2011) e decréscimo da homogamia etária
(77,6% em 2001 e 65,1% em 2011).
Passando agora à análise da situação relativa aos cônjuges masculinos (quadro
5), no que se refere às habilitações literárias, os padrões são idênticos aos
registados entre as mulheres: em 2001 prevalecem os casamentos entre iguais,
com exceção dos homens originários dos países de Leste que, na sua maioria,
tendem a casar com mulheres menos habilitadas do que eles (55,6%), o que poderá
indiciar, em linha com a teoria da estratificação social, a existência de
certas características sociodemográficas estruturais (isto é, níveis de
qualificações médios mais elevados) entre os cidadãos (homens e mulheres) deste
grupo nacional. Entre 2001 e 2011, reforça-se a tendência para a homogamia
educacional.
No que se refere às idades, em 2001, o padrão nos homens é semelhante ao
registado nas mulheres, com a maioria dos casamentos a ocorrer entre parceiros
em igual faixa etária, com valores particularmente expressivos entre os
oriundos da UE-12 (81,9%) e dos PALOP (74,8%). De 2001 para 2011 a tendência é
para uma perda de importância da homogamia etária (bastante acentuada no caso
dos PALOP), com exceção dos indivíduos originários dos países de Leste. Neste
caso, ao contrário dos restantes grupos, e também contrariamente ao que
acontece entre as mulheres, registou-se um acréscimo do peso dos casamentos em
que os parceiros têm idades semelhantes (61,2%).
Nos casos em que os casamentos mistos são entre homens portugueses e mulheres
imigrantes, regista-se igualmente um predomínio da homogamia educacional, mas
agora com valores inferiores ao dos outros grupos (49,4% em 2001 e 52,5% em
2011), contrariamente ao que acontecia quando eram mulheres portuguesas a casar
com imigrantes. Ou seja, é mais frequente os homens portugueses casarem com
mulheres imigrantes mais habilitadas,[12] do que mulheres portuguesas casarem
com imigrantes mais habilitados. Isto poderá indicar, para os primeiros, a
existência de certas lógicas na escolha do cônjuge legitimadoras da teoria da
troca nas quais diferentes tipos de recursos são trocados no casamento (Merton,
1941; Kalmijn, 1998). Em termos de homogamia etária a situação é idêntica à
registada nos outros grupos.
Em síntese, a situação mais frequente é para casamentos entre iguais em termos
educacionais ou etários, tanto nos casais endogâmicos como exogâmicos. Todavia,
em ambos, assiste-se a um decréscimo da homogamia (educacional e etária) entre
2001 e 2011, apesar de se detetar uma ligeira tendência, que se mantém ao longo
da década, para uma maior homogamia etária entre os casais endogâmicos.
Propensão para o casamento exogâmico
O quadro_6 mostra os resultados dos quatro modelos de regressão logística para
cada um dos sexos e por ano de análise. Os resultados do modelo relativo às
mulheres em 2001 permitem confirmar aquilo que os dados descritivos
anteriormente apresentados mostravam: comparativamente com as mulheres oriundas
dos PALOP, as originárias de outros grupos de imigrantes têm associada maior
probabilidade de realizar um casamento exogâmico (odds ratios superiores a 1 em
todos os casos), sendo particularmente elevadas as diferenças no caso das
mulheres dos países de Leste e das brasileiras, que registam uma propensão para
o casamento exogâmico, respetivamente 5,918 e 4,068 vezes mais elevada dos que
as que são naturais dos PALOP. As mulheres da UE-12 são as mais semelhantes às
dos PALOP. Todavia, ainda assim, apresentam quase duas vezes mais hipóteses de
casar fora do grupo de origem do que estas. Por outro lado, a nacionalidade
portuguesa aumenta a probabilidade de casar fora do grupo de origem. Com
efeito, as mulheres que não têm nacionalidade portuguesa, têm menos cerca de
60% de probabilidade de casar fora do grupo do que aquelas que têm
nacionalidade portuguesa (odds ratio = 0,307).
Relativamente a outras características individuais que podem igualmente ter um
papel importante na explicação dos níveis de exogamia, verifica-se que a idade
tem uma relação negativa e estatisticamente significativa com a propensão para
o casamento exogâmico: este diminui progressivamente à medida que a idade
aumenta (odds ratio = 0,986). No que se refere ao estado civil, detetou-se uma
diferença significativa entre as divorciadas e as solteiras, sendo as primeiras
mais propensas ao casamento fora do grupo de naturalidade (odds ratio = 1,808).
Finalmente, e na linha de resultados obtidos em outros estudos (Cortina Trilla,
Esteve e Domingo, 2008; Dribe e Lundh, 2008), verificou-se que, quanto mais
habilitada for a mulher, maior é a propensão para o casamento exogâmico, sendo
todavia apenas significativa a diferença entre as que têm habilitações de nível
superior e as que têm habilitações de nível mais baixo (odds ratio = 1,447).
No que diz respeito às características do casal que poderão potenciar o
casamento fora do grupo de origem, observámos que, indo ao encontro dos
resultados obtidos por Ramos e Ferreira (2012), a experiência de coabitação
anterior ao casamento é também um fator explicativo importante, sendo aqueles
que a vivenciaram os que têm menor probabilidade de vir a casar fora do grupo
(odds ratio = 0,674). Os resultados mostram ainda que a probabilidade de casar
fora do grupo de origem é maior quando as habilitações dos cônjuges são
distintas, sendo mais acentuada quando o homem tem um nível de habilitações
superior ao da mulher (1,657 vezes mais do que quando têm habilitações iguais).
Por fim, a homogamia etária não se revela importante enquanto fator explicativo
para a exogamia.
Já em 2011, e relativamente às características individuais que podem propiciar
um maior comportamento exogâmico, verifica-se que as divorciadas continuam a
ter uma propensão significativamente maior do que as solteiras para um
casamento exogâmico (1,376 vezes mais), se bem que tenha diminuído a diferença
entre elas. Em termos de habilitações, aquelas que têm o ensino secundário e
superior têm agora menor tendência para casar fora do grupo do que as que têm o
ensino básico (respetivamente menos 35,8% e 18,1%). No que se refere ao grupo
de origem, as diferenças residem agora no facto de as mulheres dos países de
Leste não se diferenciarem das que nasceram nos PALOP, e de as cidadãs naturais
da UE-12 e do Brasil terem mais tendência do que aquelas para a exogamia (2,12
e 2,739 vezes mais, respetivamente). A nacionalidade continua a ser um fator
explicativo importante, com as mulheres estrangeiras a terem menos 67% de
probabilidade de casamentos exogâmicos do que as portuguesas.
Se nos detivermos nas características do casal, verificamos que as mulheres que
viveram previamente em união de facto continuam a ter menos propensão para
casar fora do grupo de origem (odds ratio= 0,713). Tal como já ocorria em 2001,
a probabilidade de casar fora do grupo de origem é maior quando o homem é mais
(1,962 vezes mais) ou menos (1,259 vezes mais) habilitado do que a mulher. A
homogamia etária ganha alguma importância face ao que acontecia em 2001,
registando-se uma propensão significativamente maior para o casamento exogâmico
nos casais em que o homem é mais novo do que a mulher (odds ratio= 1,809),
comparativamente com os casais com idades semelhantes.
No caso dos homens, as tendências para o casamento exogâmico observadas em
2001, revelam que, no que se refere às características individuais, o único
grupo que tem significativamente maior propensão para a exogamia por referência
aos indivíduos dos PALOP são os naturais da UE-12 (odds ratio =1,505), enquanto
que os brasileiros não se distinguem dos africanos, e os de Leste têm quase
duas vezes mais tendência para casar fora do grupo, embora esta tendência não
seja estatisticamente significativa. Por outro lado, os homens que detêm a
nacionalidade portuguesa têm uma maior probabilidade de se casar fora do grupo
de origem relativamente aos homens que não a possuem (que têm cerca de menos
55% de propensão para casar fora do grupo).
Relativamente a outras variáveis explicativas individuais, observa-se que a
idade, tal como ocorre no caso das mulheres, tem uma relação negativa e
estatisticamente significativa com o grau de exogamia dos homens, na medida em
que quanto mais velho for, menor será a propensão para um casamento exogâmico
(odds ratio =0,951). Relativamente ao estado civil, verifica-se que, tal como
foi registado para as mulheres, os divorciados têm uma propensão cerca de duas
vezes superior para casar fora do grupo comparativamente com os solteiros (odds
ratio =2,107). Por fim, também se observa entre os homens com um nível de
habilitações superior, uma maior tendência para a exogamia, sendo esta
diferença estatisticamente significativa relativamente àqueles que possuem um
nível de instrução básico (odds ratio= 1,598) (para uma leitura convergente,
vd. Cortina Trilla, Esteve e Domingo, 2008; Dribe e Lundh, 2008).
Se nos detivermos agora nas características do casal, observamos que a
coabitação prévia ao casamento diminui a propensão para a exogamia; assim, os
indivíduos com maior tendência para a exogamia são aqueles que, tal como se
verificou no caso das mulheres, não viveram previamente em união de facto (odds
ratio= 0,542). Por fim, o modelo revela ainda que a tendência para casar fora
do grupo é mais elevada quando os homens apresentam um nível de instrução mais
alto do que as mulheres (1,235 vezes mais), e quando aqueles são mais novos do
que estas (odds ratio= 1,453).
Em 2011, estas tendências registam algumas mudanças. Quanto aos grupos de
origem, e tal como os dados descritivos já indicavam, os naturais da UE-12 não
se distinguem dos cidadãos dos PALOP, e os nacionais das vagas de imigração
mais recentes — Brasil (odds ratio= 0,382) e países de Leste (odds ratio=
0,109) — apresentam menos comportamentos exogâmicos do que os primeiros. Quanto
ao estado civil, verifica-se que os indivíduos divorciados (tal como já sucedia
com as mulheres) apresentam uma tendência maior para casar fora do grupo do que
os homens solteiros (odds ratio= 1,598). Relativamente à nacionalidade, mantém-
se a tendência de serem os indivíduos com nacionalidade estrangeira aqueles que
têm menor propensão para a exogamia (64% menos). Quanto às habilitações, e
contrariamente a 2001, estas deixam de ser um fator importante na explicação da
exogamia.
Centrando-nos agora nas características do casal, em 2011 continua a observar-
se a tendência para serem os indivíduos que não viveram previamente em união de
facto os que têm mais probabilidade de fazer um casamento exogâmico (mais 18%).
Por outro lado, relativamente à homogamia educacional, verifica-se que, tal
como os resultados descritivos apontavam, quando é o homem o elemento menos
habilitado do casal, é maior a propensão para comportamentos exogâmicos do que
quando os cônjuges têm habilitações idênticas (1,619 vezes mais). Por fim, a
análise da homogamia etária indica que existe uma maior tendência para a
exogamia sempre que as idades do homem e da mulher não forem iguais (mais 2,533
vezes se o homem for mais velho que a mulher, e 1,467 sempre que este for mais
novo).
Notas conclusivas
Pretendeu-se neste artigo analisar a evolução e os níveis de exogamia em
imigrantes originários de quatro grupos diferentes a residir em Portugal, em
dois momentos distintos: 2001 e 2011. Começámos por enquadrar teoricamente esta
temática de modo a avaliar quais as potencialidades e limitações explicativas
das várias perspetivas para o contexto português. Os resultados obtidos
permitiram identificar algumas mudanças nos comportamentos matrimoniais dos
imigrantes tanto de vagas imigratórias mais antigas (PALOP e UE-12) como mais
recentes (Brasil, Europa de Leste). Neste ponto apresentar-se-ão algumas
conclusões orientadas pelas questões de investigação inicialmente definidas.
Em primeiro lugar, a tendência conjugal, verificada em qualquer dos anos, é a
do casamento fora do grupo de origem e maioritariamente com parceiros
portugueses. Esta orientação matrimonial coincide com tendências registadas
anteriormente (Dribe e Lundh, 2008; Ferreira e Ramos, 2012; Ramos e Ferreira,
2012), que reportaram níveis de exogamia mais elevados entre imigrantes e
nativos. De facto, à luz da teoria da assimilação (Alba e Golden, 1986; Dribe e
Lundh, 2008; Paginini e Morgan, 1990), podemos considerar este tipo de uniões
como um indicador do grau de abertura a diferentes grupos sociais por parte das
sociedades de acolhimento, de que Portugal é um exemplo porque se enquadra
indubitavelmente naqueles países abertos às interações sociais e afetivas com
cidadãos estrangeiros.
Em segundo lugar, os níveis de exogamia observados ao longo da década revestem-
se de alguma complexidade interpretativa, dado que variam segundo o grupo de
pertença, legitimando parcialmente, tanto a teoria de assimilação (Alba e
Golden, 1986; Dribe e Lundh, 2008; Pagnini e Morgan, 1990) como a teoria da
estratificação social (Blau e Schwartz, 1984; van Tubergen e Maas, 2007). Com
efeito, e no âmbito da teoria da assimilação, se em 2001 os imigrantes
masculinos com uma permanência mais longa no país (UE-12 e PALOP) e, como tal,
com um grau de integração social e de aculturação maiores, registam valores
mais elevados de casamentos fora do grupo do que imigrantes pertencentes a
vagas de imigração mais recentes (Brasil e Europa de Leste), tal já não ocorre
no caso das mulheres imigrantes. Neste caso, todos os grupos de origem têm,
sensivelmente, níveis de exogamia semelhantes, o que poderá indicar lógicas na
escolha do cônjuge distintas daquelas verificadas nos imigrantes masculinos.
Em 2011, os dados ainda se revelam mais complexos, na medida em que os
imigrantes masculinos da UE-12 e dos PALOP casavam mais com portuguesas
(reforçando a teoria da assimilação), enquanto os brasileiros e os indivíduos
de Leste apresentam uma tendência clara para a endogamia. Estes últimos dados
podem, em parte, ser justificados no âmbito da teoria da estratificação social,
pelo aumento da dimensão do grupo de imigrantes brasileiros e de Leste em
Portugal ao longo da década, e pelo consequente equilíbrio na relação homem/
mulher dentro destes grupos. No entanto, e no caso das mulheres imigrantes,
esta explicação só é legítima para as dos países de Leste (com níveis de
endogamia e de exogamia semelhantes), e não para as brasileiras, cujos níveis
de exogamia com homens portugueses são, a par das mulheres da UE-12 e dos
PALOP, elevados.
Neste sentido, e tal como Ferreira e Ramos (2012) sugerem, em consonância com a
teoria da troca, no caso das imigrantes brasileiras poderão existir outros
fatores implícitos em certos casamentos, nomeadamente, o intercâmbio do seu
exotismo pelo estatuto socioeconómico ou a nacionalidade dos homens
portugueses. Esta última ideia é reforçada com os resultados obtidos para a
homogamia educacional. De facto, embora os níveis de qualificações iguais entre
os cônjuges predominem tanto nos casais endogâmicos como exogâmicos ao longo da
década considerada, no caso dos casamentos exogâmicos envolvendo mulheres
brasileiras ou de Leste, existe um número expressivo de uniões em que a mulher
é mais habilitada que o marido (para resultados convergentes vd. Ramos e
Ferreira, 2012). Na perspetiva da teoria da troca estar-se-ia a assistir ao uso
das qualificações (no caso destas cidadãs de vagas de imigração mais recentes)
como elemento de troca para obtenção de outros benefícios. No entanto, outra
leitura igualmente possível é esta situação dever-se ao facto de estes serem
grupos com habilitações tendencialmente mais elevadas do que os outros,
nomeadamente os portugueses (Marques e Góis, 2008 ,2010). Assim, a tendência
geral é mais no sentido de as mulheres imigrantes casarem mais com homens menos
habilitados do que elas, do que de mulheres portuguesas casarem com cônjuges
estrangeiros menos habilitados.
Relativamente à homogamia etária também aqui os resultados apresentam algumas
especificidades. Apesar de, tanto nos casais endogâmicos como exogâmicos, as
idades dos cônjuges serem tendencialmente semelhantes nos anos em análise,
registou-se um aumento de uniões envolvendo homens portugueses mais velhos com
mulheres brasileiras ou de Leste mais novas. Estes dados podem igualmente
indicar tipos de lógicas distintas na escolha do cônjuge feminino estrangeiro,
reveladoras de trocas de recursos económicos e sociais (para resultados
convergentes, vd.Ramos e Ferreira, 2012).
Por fim, os fatores explicativos da propensão para a exogamia, tal como
sugerido anteriormente, vêm reforçar os resultados descritivos obtidos. Estes
fatores explicativos revelam, contudo, ser distintos em 2001 e em 2011, tanto
para os homens como para as mulheres: em 2001, e com relação às cidadãs dos
PALOP, todos os outros grupos de mulheres eram mais exogâmicos do que estas. No
caso dos homens imigrantes, apenas os cidadãos da UE-12 eram mais exogâmicos
que os dos PALOP. Ter nacionalidade portuguesa, casar-se jovem, ser divorciado/
a, ter um nível de educação superior (vd.Kalmijn, 1998; Cortina Trilla, Esteve
e Domingo, 2008), não ter vivido em coabitação, e o homem ter mais habilitações
que a mulher são fatores que contribuem para aumentar o nível de exogamia.
Contudo, em 2011, estes fatores são algo distintos para ambos os sexos dado que
são os homens brasileiros e de Leste os que revelam uma menor tendência para a
exogamia (com referência aos dos PALOP), sendo as mulheres brasileiras e da UE-
12 as que mostram uma maior tendência para os casamentos fora do grupo de
origem. Por outro lado, fatores como ter nacionalidade portuguesa, ser
divorciado/a, não ter vivido em união de facto antes do casamento, o homem ser
mais velho ou mais novo do que a mulher e menos habilitado aumentam a propensão
para o casamento fora do grupo de origem.
Em suma, os resultados obtidos sobre a evolução dos padrões de exogamia nestes
quatro grupos sugerem a existência de diferenças entre as vagas de imigração
mais antigas (UE-12 e PALOP) e mais recentes (Brasil e Europa de Leste),
sobretudo no que respeita às diferenças de género. Será, pois, fundamental,
realizar futuramente mais investigações sobre este tipo de uniões, de forma a
perceber, especificamente para cada grupo, eventuais diferenças nas lógicas e
motivações implícitas para o casamento exogâmico. A própria fonte utilizada,
neste caso os microdados dos casamentos, constitui em si mesma uma limitação,
já que apenas possibilita uma análise extensiva dos indicadores coletados nos
registos de casamento e disponibilizados pelo INE, claramente insuficientes
para apurar as motivações individuais e sociais em que se ancoram os casamentos
exogâmicos.