O fio constitutivo da sociologia empírica de Bernard Lahire
Introdução: apontamento biográfico
Professor de sociologia numa grande école, Bernard Lahire é um caso de
“trânsfuga” de classe: um “bom aluno”, de origem popular e em meio pouco
escolarizado. Nascido em Lião em 1963, desde cedo sentiu a urgência e a
necessidade de compreender o mundo com espírito crítico. Formado numa tradição
sociológica próxima de Pierre Bourdieu, sem nunca ter sido seu aluno, foi sob a
orientação de doutoramento de Guy Vincent que, através deste, descobriu a obra
de Maurice Merleau-Ponty e começou a refletir sobre o trabalho de Bourdieu.[1]
Não normalien, não “agregado”,[2] e produto da universidade de massas, aos 31
anos, Lahire obtém o título de professor das universidades.[3] Título raramente
atribuído a um tão jovem investigador, mas coerente com uma carreira pródiga
com várias distinções científicas, iniciada anos antes como professor de
sociologia na Université Lumière Lyon 2 (1986-2000). Inscrito na tradição de
Bourdieu, as questões que o guiam muito devem a este: Como incorporamos o mundo
social? O que é um indivíduo socializado? De que forma o mais íntimo de cada um
de nós constitui, ainda, uma fabricação social?Procurando respostas a estas e
outras perguntas através da realização de inquéritos, manifesta desde cedo uma
atitude não dogmática. Foi aliás em condições muito improváveis, sem trabalhar
diretamente com Bourdieu e desenvolvendo o seu trabalho de modo totalmente
autónomo em relação a Paris (Amândio, 2012: 201) que pôde tornar-se num
investigador heterodoxo desta tradição científica (Lahire, 1999a).
Bernard Lahire trabalha nas áreas da sociologia da educação e da cultura, em
diálogo sistemático com o pensamento de Bourdieu. Os seus primeiros estudos
consagrados às desigualdades sociais perante a cultura escrita escolar,
realizados nos anos 80 e 90, estão na origem da sua teoria da ação apresentada
em L’Homme Pluriel (1998, 2010a). É com base na crítica ao conceito de habitus
que introduz, neste livro, a hoje designada “sociologia à escala individual”
(Lahire, 2005b), na qual os mesmos atores são acompanhados em diferentes
contextos de ação e são examinadas lógicas variáveis — ou mesmo contraditórias
— das suas práticas. Esta sociologia procura explicitar determinantes sociais,
mobilizando escalas de observação mais finas do que as privilegiadas por
Bourdieu. O estudo de casos singulares do social e a reconstituição de quadros
de ação sensíveis às desigualdades sociais permitem-nos distinguir
incontestavelmente o trabalho de Lahire das visões mais individualistas. O
autor forja as ferramentas para uma análise das singularidades da vida social e
da ação individual, rejeitando o subjetivismo desenfreado e a tendência para
ignorarmos desigualdades estruturais entre classes sociais ou relações de
dominação.
Obra programática, L’Homme Pluriel é considerado pelo seu autor como o ponto de
partida de um programa de investigação que foi operacionalizado e detalhado
desde então. Mais de uma década após a morte de Pierre Bourdieu, em 2002, a
marca do seu trabalho permanece na sociologia francesa. Bernard Lahireé o
sociólogo mais reconhecido em França a trabalhar de modo dinâmico e criativo na
tradição bourdieusiana, prolongando ao longo das duas últimas décadas a sua
análise conceptual e empírica. O seu trabalho sociológico contribui não apenas
para fazer viver o legado de Bourdieu, mas também, e sobretudo, para renová-lo.
Esta “cumulatividade crítica” por inquérito apoia-se também noutros autores das
ciências sociais (tais como Durkheim, Weber, Mauss, Panofsky, Wittgenstein,
Elias, Foucault, Bakhtine…), que o distanciam de uma “tendência para dar
primazia aos recém-chegados, com uma extraordinária faculdade de amnésia que
leva a julgar novos e originais, velhos refrões” (Lahire, 2012: 20).
O que o ator plural deve à sociologia da educação e da cultura
A tradição da sociologia da educação está ligada à constituição da própria
sociologia, representando “um verdadeiro motor teórico e metodológico para a
sociologia no seu conjunto” (Lahire, 1993a: 44). Desde os anos 60, questões
relativas às transformações ocorridas na escola, na cultura e na sociedade
tomaram conta da sua agenda. Temáticas como as funções da escola, as
experiências escolares dos estudantes, a formação de grandes desigualdades
escolares, ou ainda a persistência da desigualdade de oportunidades perante os
processos de “massificação escolar”, pautam, ainda hoje, a sociologia da
educação.
A preocupação mais constante dos estudos sobre educação reside, sem dúvida, na
constituição de desigualdades escolares. A teoria da reprodução de Pierre
Bourdieu e Jean-Claude Passeron (1964, 1970)[4] ocupa aqui um lugar decisivo,
ao mostrar que os desempenhos e os percursos escolares dos estudantes são
determinados pelo capital cultural detido pelas diferentes categorias sociais.
As classes mais favorecidas são, segundo os autores, detentoras de um conjunto
de recursos (língua, representações culturais, motivações) que, uma vez
herdados pelos seus filhos, determinam o seu sucesso escolar. Os descendentes
das classes populares, menos cultivados, teriam assim mais dificuldades
escolares. Bourdieu e Passeron afirmam mesmo que as desigualdades sociais na
escola persistem, não apenas porque os estudantes são socialmente desiguais à
partida, mas também porque a própria escola contribui para a reprodução de
desigualdades, ao valorizar os códigos culturais veiculados pela classe
dominante e exercer, por essa mesma via, uma certa “violência simbólica” sobre
os estudantes mais desfavorecidos.
Lahire regressou recentemente à sua crítica da metáfora do capital cultural (ou
escolar) proposta por Bourdieu e Passeron (1970), situando-a no momento
histórico do debate sociológico em que esta foi formulada. Importa neste
sentido perceber se Bourdieu e Passeron dão, de facto, resposta à questão
sociológica que levantam, e explicam a razão pela qual os estudantes de origem
social mais favorecida tendem a obter melhores resultados do que os estudantes
mais descapitalizados culturalmente. Para Lahire, eles estavam “demasiado
absorvidos pela sua própria luta científica” contra a “ideologia da educação
democrática”, da “meritocracia escolar”, e mesmo a “ideologia do dom”, para se
perguntarem o que faz do diploma um capital (Lahire, 2008b: 81). Determinados
em contrariar a ideia de que a educação é democrática, porque não trata todos
os estudantes da mesma forma; que o sucesso escolar depende do esforço e do
trabalho de cada aluno; ou ainda que os talentos de uma população são
distribuídos desigualmente de forma natural, Bourdieu e Passeron não se
questionaram no entanto sobre as “condições históricas que fizeram da escola
uma instituição passível de fornecer uma moeda particular: os títulos
escolares” (idem).[5] Deste modo, Lahire considera que os autores acabam por
universalizar um momento particular da história das sociedades ocidentais, em
que a educação passou a ocupar um lugar central na reprodução social (Lahire,
2012: 209-210).
Para além de lembrar os limites da transponibilidade histórica da noção de
capital cultural (propondo que a escola poderá não estar, quarenta anos depois,
no centro de todos os mecanismos de reprodução social), e de sublinhar o
caráter legitimista da abordagem bourdieusiana (associado a uma sociologia da
dominação), põe também em causa a forma mecânica como este capital será
transmitido intergeracionalmente, no contexto familiar: com base na metáfora do
capital cultural, podemos perguntar como este se transmite ou herda de geração
em geração, num contexto de inflação de diplomas; através de que processo este
é monopolizado por uma elite; assim como em que situações perde valor, é
reconvertido noutras formas de capital (e.g. económico), ou é transformado(e.g.
passando de uma forma literária a uma forma científica) (Lahire, 2008b: 81).
Sentindo que, após vários anos de investigação e debates fecundos, a sociologia
da educação caíra num impasse, encontrando-se num ponto difícil de renovação,
Lahire parte do reequacionamento de questões inicialmente lançadas por Bourdieu
e Passeron, e procura articular diferentes trabalhos e tradições científicas
que viviam até então totalmente separados. Os estudos de sociologia da educação
e de sociolinguística interessados nas práticas linguísticas em meio escolar,
representados por Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, Basil Bernstein,
William Labov, Aaron Cicourel e John Cook-Gumperz, os trabalhos de antropologia
e história da escrita trazidos por Jack Goody, Eric Havelock e Marcel Détienne,
ou ainda os contributos dos psicólogos da escrita Lev Vigotsky, Silvia Scribner
e Michael Cole surgiram assim configurados numa nova problemática (Lahire,
2008c).
A cronologia dos trabalhos de investigação de Lahire sobre a educação e a
cultura, que estão na base do seu primeiro livro teórico (L’Homme Pluriel,
1998), pode ser trilhada em quatro momentos: a produção do insucesso escolar na
escola primária, os modos populares de apropriação da escrita, os sucessos
escolares em meios populares e os diferentes modos de estudar no “espaço do
ensino superior”. Com base nestas temáticas pretende-se ilustrar uma abordagem
não legitimista da cultura, e sempre situada em coordenadas espácio-temporais.
Procura-se também, e sobretudo, dar visibilidade a realidades escondidas por
noções, categorias e variáveis firmadas na sociologia, refletindo-se sobre o
valor explicativo dos “capitais”/“recursos” face ao valor explicativo de uma
análise baseada na “transmissão de disposições”. Destaca-se deste modo o
potencial heurístico dos “casos estatísticos atípicos”, analisam-se as
“exceções escritas ao sentido prático”, ou ainda, destaca-se a variável “área
de estudo” no contexto do ensino superior.
A tese de doutoramento de Lahire (1990) — marcada pela visão não universalista
da escola proposta por Guy Vincent (1996)[6] — deu origem ao seu primeiro
livro, Culture Ecrite et Inégalités Scolaires (1993a), sobre as socializações
escolares na escola primária e a “forma escritural-escolar”.[7] As observações
feitas em salas de aula, focadas nos exercícios feitos pelos estudantes,
permitiram-lhe estudar as relações que crianças de meios populares estabelecem
com o saber escolar, a linguagem e a cultura escrita, analisando novas lógicas
relativas à produção de desigualdades sociais no quotidiano. O insucesso
escolar e, de modo mais geral, as dificuldades escolares de crianças de
famílias com baixo estatuto socioeconómico são examinadas, aqui, “com base nas
características dos saberes escolares”, bem como nas “disposições
socioculturais necessárias à apropriação sistemática desses mesmos saberes”. Os
princípios das práticas escolares são, deste modo, relacionados com os
princípios das resistências que os estudantes oferecem às lógicas escolares.
Lahire reconstrói, assim, uma “situação social complexa e contraditória”,
apreendendo a perspetiva dos que sofrem o insucesso escolar (Lahire, 1993a:
76).
O “insucesso” e o “sucesso” escolar são, pois, entendidos no âmbito da oposição
conceptual entre dois códigos linguísticos (restrito e elaborado),[8] dois
arbitrários culturais (cultural dominante e cultural dominado),[9] e dois tipos
de relações com a linguagem (escriptural-escolar e oral-prática) (Lahire,
1999b: 51). Estes três binómios conceptuais não descuram, no entanto, situações
mistas e ambivalentes relativas a estudantes “médios”, portadores de
disposições escolares que não são suficientemente fortes para se imporem de
forma sistemática perante as disposições não escolares. Mesmo no caso de
crianças com dificuldades escolares, aliás, estas não saem inalteradas da
escola e podem desenvolver comportamentos escolares ambivalentes. As relações
com a linguagem constituídas nos termos da cultura escrita são, deste modo,
alocadas “no princípio do sucesso — ou do insucesso — escolar” (Lahire, 1993a:
41).
No seguimento desta linha de investigação, o livro La Raison des Plus Faibles
(Lahire, 1993b) aborda os modos profissionais e extraprofissionais de
apropriação da escrita nos meios populares. O estudo da escrita — produzida e
lida — na esfera do trabalho e na esfera doméstica prendia-se, por um lado, com
a história familiar e a trajetória pessoal de cada indivíduo; e, por outro, com
as exigências com que os indivíduos se deparam no trabalho, em matéria de
práticas de escrita e de leitura. Compreender as práticas de escrita de adultos
considerados “não qualificados”, ou mesmo “iletrados”,[10] representava uma
viragem de perspetiva que deixava de lado as “práticas da escrita públicas e
oficiais”, para descrever as “práticas de escrita familiares, privadas e
oficiosas, que tecem a vida quotidiana das famílias populares” (Lahire, 2008c:
153).
Com o objetivo de explorar o modo como o discurso dos especialistas tende a
homogeneizar aquilo que é, na realidade, disperso socialmente, esta
investigação foca dois casos muito diferentes entre si, que têm em comum o
facto de corresponderem a trabalhadores “não qualificados”, que auferem o
equivalente ao limiar inferior da tabela salarial. Na esfera doméstica, são
identificados não apenas operários e pessoal auxiliar que “escrevem e leem o
menos possível, e para quem a escrita é sinal de aborrecimento, de
‘papeladasadministrativas’, ou de tempo perdido” (Lahire, 2008c: 154); mas
também, “operários e pessoal auxiliar que leem mais de vinte cinco livros por
ano, guardam dossiês de contabilidade em casa, registam as despesas de saúde ou
as situações de crédito, fazem listas, usam calendários ou agendas para
planificar as suas atividades, tomam notas durante as chamadas telefónicas,
deixam recados aos cônjuges ou filhos, trocam correspondência com familiares e
amigos, ou têm álbuns de fotografia onde acrescentam comentários” (id., ibid.).
A presença da escrita é, não obstante, menos predominante na esfera do
trabalho. A incorporação das lógicas profissionais faz-se “de modo mimético, na
relação com as máquinas e com os colegas de trabalho, sendo raras as ocasiões
em que o operário é encorajado a ler ou escrever” (Lahire, 1993b: 117). O uso
de um plano de montagem ou de uma guia de serviço não é, aliás, aos olhos dos
operários, símbolo de elevada qualificação ou competência, mas antes uma
prática de aprendiz, pelo que o operário mais competente tenderá a não se
socorrer desses documentos.
A análise sobre as práticas de escrita nos meios populares está relacionada com
a questão da “reflexividade da ação”,[11] e remete-nos para a noção de “sentido
prático” (Lahire, 1993c), cara a Pierre Bourdieu (1980). Definido como um
esquema de ação incorporado, o sentido prático é produto de um percurso de
aprendizagem que torna a ação — tão comum como o olhar vigilante do auxiliar de
educação no recreio — espontânea e “natural” na vida social. Perspetivar a ação
em termos de sentido prático supõe que os indivíduos agem de modo inconsciente,
“quase automático”, não se encontrando nunca em condições de pensar, controlar
ou planificar as suas condutas, escapando dificilmente aos hábitos adquiridos.
Não defendendo o “ajustamento pré-reflexivo das disposições incorporadas às
situações práticas” (Bourdieu, 1980), Lahire identifica funções — mnemónicas,
organizadoras, planificadoras, reflexivas — de diferentes tipos de escrita
doméstica que rompem com o sentido prático, e sugere que existe uma série de
ações pensadas, controladas e planificadas que escapam à ação programada. O
enfoque nas práticas de escrita doméstica ilustra, neste sentido, que os
indivíduos fazem uso da escrita para formalizarem os seus projetos, fugindo do
mesmo gesto aos hábitos e automatismos sociais. A leitura, ou a escrita, são,
assim, vistos como instrumentos que permitem explorar mentalmente reações
possíveis a situações novas, precisamente quando o indivíduo não pode recorrer
de modo automático a um habitus, ou a um reportório de ação “finalizado” e
“pronto a utilizar”. Ilustra-se, em particular, “o modo como as práticas de
escrita mais comuns constituem verdadeiros atos de rutura com o sentido
prático; como elas mantêm uma relação negativa com a memória prática do
habitus; e como, enfim, essas práticas de escrita tornam possível o domínio de
certas atividades, assim como a sua racionalização” (Lahire, 1993b: 116),
abrindo uma “fenda na unidade da teoria da prática e do sentido prático”
(Lahire, 1998: 127), ao questionar “quais são as condições sociais em que o
habitus (o sentido prático, o domínio da prática) é o princípio gerador de
práticas” (Lahire, 1998: 128).[12] Estes diferentes estudos sobre a escrita
“fora da escola” são explorados em diálogo constante com a antropologia das
escritas vulgares[13] e da história da escrita.[14]
De regresso à questão das dificuldades escolares de estudantes de origem
popular, Bernard Lahire estudou, em Tableaux de Familles (1995), as razões que
levam, em condições familiares semelhantes — de baixo rendimento e de baixo
capital escolar —, as crianças a conhecerem quer o “sucesso”, quer o
“insucesso” escolar.[15] Ao contrário do que a macrossociologia indica, as
crianças de meios socioculturais desfavorecidos não estão mais expostas ao
insucesso escolar, tendo por vezes melhores classificações. Os casos
estatísticos improváveis dão-nos a conhecer, de perto, fenómenos de “herança”
ou “transmissão” cultural, e a aceitar o “desafio sociológico que consiste em
dar conta de situações atípicas” (Lahire, 1995: 12).
Aquilo que parece ser estatisticamente irrelevante revela-se significativo em
sociologia. A propósito do volume de capitais escolares parentais, Bourdieu
refere-se à “lei social […] que permite analisar a eliminação escolar das
crianças mais desprovidas de capital cultural” (1982: 20). Esta tendência
estatística global, traduzida sociologicamente significa que, quanto maior for
a escolaridade dos pais, mais estes estarão em condições de orientar os seus
comportamentos perante os filhos em conformidade com as exigências do universo
escolar: “Tendo sido socializados escolarmente, quer dizer, tendo interiorizado
saberes, hábitos, métodos de trabalho, disciplinas comportamentais, regras de
vida, escolares, etc., têm todas as hipóteses de compatibilizarem com as
lógicas escolares, e orientarem espontaneamente as suas ações socializadoras de
modo escolarmente rentável” (Lahire, 2008c: 136-137). O autor recorda, contudo,
que a “relação estabelecida entre o capital escolar dos pais e o nível de
performance escolar da criança permanece, tipicamente, no registo do pensamento
estatístico, pois isola duas características de universos sociais nos quais
eles existem (o capital escolar / universo familiar, e a classificação de
avaliação nacional / universo escolar)” (Lahire, 2008c: 137). Não tendo por
objetivo repetir e reificar conceitos, somos levados a reconhecer que os
capitais escolares não existem de forma concreta, existindo antes indivíduos
titulares de diplomas e de disposições escolares em situações sociais
determinadas. É neste sentido que afirma ser imprudente falar de “lei social”
para se referir a uma relação estatística que não proíbe exceções, suscetível
de variações históricas (ibid.).
Lahire foca o estudo de “casos singulares” relativos a “configurações
familiares” que revelam o sucesso escolar em meios populares e explora os
fenómenos da transmissão e da herança que, não assentando em lógicas mecânicas,
são dados a conhecer enquanto “construção-apropriação”. O “capital cultural”
existe apenas no estado incorporado, pelo que a sua “transmissão” ou “herança”
dependem diretamente dos seus “portadores”: da sua relação com a criança, da
sua capacidade em encarregar-se da sua educação, da sua presença ou, ainda, da
sua disponibilidade para transmitir à criança certas disposições culturais ou
para acompanhá-la na constituição das suas disposições (Lahire, 1995: 89). O
exame de diferentes modalidades de socialização familiar permite indicar
múltiplas situações relativas à transmissão: o modo como o capital cultural
parental ou familiar é transmitido; situações em que o capital cultural
parental ou familiar não encontra necessariamente condições para a sua
transmissão; casos em que, na ausência de capital cultural e perante a
inexistência de uma ação expressa de transmissão de capital cultural, os
saberes escolares são, ainda assim, apreendidos pelas crianças. A observação de
diferentes socializações internas aos meios populares, ou das relações de
consonância e de dissonância de “regimes disciplinares familiares e escolares,
diferentes ou opostos” (Lahire, 1995: 26), ilustra que o sucesso escolar de
algumas crianças está relacionado com aspetos contraditórios. A distância entre
os capitais detidos pelos pais pode manifestar-se em “tipos de orientação muito
diferentes, ou mesmo opostos face à escola” (Lahire, 1995: 181). Os contextos
familiares apontam para vários casos em que as crianças se encontram rodeadas
de pessoas que representam diferentes tipos de orientação face à escola, o que
permite aos estudantes ter pelo menos um membro da família em que se podem
apoiar ao nível das suas experiências escolares.[16]
Esta perspetiva não pretende escapar ao potencial explicativo do meio de
origem, mas ilustrar que o indivíduo incorpora experiências socializadoras
heterogéneas no seio da família, que não são isoladas e não são sempre
transferíveis para outras situações.Ao contrário do determinismo sociológico
que se reduz aos efeitos da classe social de origem, a descrição das
interdependências familiares no quadro escolar leva Lahire a propor o modelo da
“necessidade feita virtude”: o constrangimento exterior transformado em motor
interior, gosto, paixão pessoal, ou em necessidade vital. O facto de algumas
crianças de meios populares interiorizarem precocemente o sucesso escolar como
uma necessidade interna e pessoal é disto uma ilustração (Lahire, 1999b: 39).
Nos anos 90 a sociologia da educação e da cultura francesa foi ainda marcada
pela obra Les Manières d’Etudier (1997).[17] No quadro do conselho científico
do Observatoire de la Vie Etudiante francês, Lahire trabalhou a relação dos
estudantes com o saber e com a cultura, em função do tipo de curso[18] pelo
qual estes enveredam no ensino superior, desde as formações técnicas mais
curtas,[19] até às classes preparatórias de acesso às grandes écoles, passando
pelas restantes formas de estudos universitários. Os resultados dos dois
primeiros extensos inquéritos franceses sobre as condições de vida dos
estudantes[20] são analisados com base no contraste das variáveis “tipos de
estudo” e “tipos de socialização escolar”, bem como no confronto de polos
opostos de atitudes e comportamentos. Estes dados deram origem a uma discussão
sobre o tipo de prova utilizada nos estudos de caso, por oposição ao tipo de
prova utilizada nos estudos estatísticos, ilustrativos de tipos ideais baseados
em propriedades genéricas e de tendências associadas a grupos ou categorias.
Importava conhecer o potencial heurístico da variável “tipo de estudo”.[21]
Foram, deste modo, trazidos para análise diferentes tipos de estudo associados
a diferentes tipos de estabelecimento e campos de saber, para além do sexo, da
origem ou da categoria social. Em escrutínio estavam várias tradições
pedagógicas e disciplinares, de caráter científico e literário, que exigem
diferentes graus de ascetismo escolar e que estão associadas a diferentes
trajetórias universitárias, e despoletam relações muito específicas relativas
ao futuro profissional e ao mundo social: “Poderíamos dizer que o tipo de
estudos […] está para o espaço do ensino superior, como a categoria
socioprofissional está para o espaço social global, no sentido em que a divisão
do trabalho escolar prefigura na divisão do trabalho social. […] Tudo isto faz
da variável ‘tipo de estudo’ uma variável sintética […], que subsume um grande
número de propriedades ou de traços distintivos” (Lahire, 2002b: 89-90).
Os resultados do estudo sobre as condições da vida estudantil, analisados na
perspetiva da sociologia da leitura, do consumo e da legitimidade cultural,
conduzem Lahire ao que designa “monstros de duas cabeças”. Aceitar que a
cultura literária e artística participa — através de categorias culturais — da
dominação simbólica não é necessariamente aceitar que esta é generalizável no
espaço social. Estudantes de ciências que são “brilhantes” num microuniverso
escolar podem aproximar-se, ao mesmo tempo, dos “ignorantes” num espaço
cultural global. Não existe pois um sentido geral de legitimidade cultural que
seja independente dos domínios de estudo escolares. Os estudantes de ciências
figuram com dois perfis, um mais erudito, outro mais popular.[22] “A premissa
confirma-se facilmente quando consideramos algumas das práticas culturais
extraescolares” (Lahire, 2002b: 97). Ora, os diplomados do ensino superior do
ramo científico têm geralmente práticas culturais menos legítimas do que os
diplomados em literatura ou ciências humanas (Lahire, 2004a: 564-568). O estudo
das “socializações múltiplas” no contexto de diferentes tradições pedagógicas e
disciplinares-científicas, com ritmos de trabalho universitários e organização
dos horários específicos no espaço social do ensino superior (1997: 63) dá
visibilidade a realidades sociais que, ancoradas numa explicação legitimista
das classes dominantes no espaço social, permaneceriam opacas para o sociólogo.
As dimensões da pluralidade e a sistematização de uma sociologia à escala
individual
A primeira série de estudos sobre a escola e a escrita conduziram Lahire a
criticar de modo sistemático os conceitos de habitus, de transferibilidade de
esquemas de disposições e de transmissão cultural intergeracional (1998). Foi,
sem dúvida, a constatação de uma difícil transferibilidade das competências de
leitura ou de escrita de um género de escrita para outro, de uma situação de
escrita ou de leitura para outra que permitiu pensar a existência de uma
pluralidade de competências ou de disposições veiculadas por cada ator, que
escapam ao sentido prático, e que se estendem — ou não — segundo o contexto de
ação. Foi, no entanto, o estudo dos universos familiares populares que mostrou
a heterogeneidade dos princípios de socialização no seio da família e da
escola.
Para além disto, se juntarmos a categorias de análise tão inquestionáveis —
como “origem social”, “posição social”, “capitais ou recursos” — a categoria
“transmissão disposicional ou cultural” e, no contexto preciso do ensino
superior, a variável “tipo de estudo”, estamos em condições de reavaliar
relações explicativas clássicas em sociologia, que estão patentes na reflexão
teórica do ator plural.[23]
Na obra basilar L’Homme Pluriel (1998), traduzida para inglês como The Plural
Actor (2010a), é sistematizada a sua sociologia à escala individual, ou o
também designado “programa disposicionalista e contextualista”. A postura
epistemológica, neste livro, reside em colocar a questão da socialização como
uma questão empírica assente em inquéritos por questionário, sempre situada ao
nível do “microscópio sociológico” (Darmon, 2006), para aí serem identificados
os efeitos das estruturas sociais. Tratava-se, aqui, de reunir os meios
teóricos e metodológicos necessários para pensar o social no estado incorporado
— “plissado” ou “vincado” — e complexificar a análise da socialização
infraindividual de disposições específicas.
A resposta à questão, cara à teoria social, de articulação entre agência e
estrutura é fornecida por Lahire nos termos da luta contra o dogmatismo
teórico, uma questão moral, ou política e científica, premente na agenda da
sociologia francesa do final dos anos 90 (Lahire, 1999a). Para realizar este
projeto, Lahire mobiliza vários autores, no âmbito da longa tradição que
pretende ligar a mais fina economia mental dos indivíduos aos quadros da vida
social — que vai de Emile Durkheimvia Marcel Mauss, até Norbert Elias —, e
discute os problemas teóricos formulados e reformulados por Bourdieu, quatro
anos antes do seu desaparecimento (cf. Lahire, 2010a: viii).
A crítica à teoria do habitus (1995)[24] parte da constatação de uma clara
fragilidade do conceito. Bourdieu afirma que as práticas permitem classificar
os indivíduos nos espaços sociais (1979: 17, 19), mas não diz quais são as
disposições necessárias à realização de tais práticas, nem como as reconstruir
(Lahire, 1999b: 35). O fraco confronto do conceito com a realidade histórica e
empírica das nossas sociedades torna-se assim fatal à sua blindagem, já que,et
pour cause, “não dispomos de nenhum exemplo de construção social, de
inculcação, de incorporação ou de transmissão destas disposições. Não temos
nenhuma indicação sobre o modo como podemos reconstruí-las nem da forma como
elas agem (ou seja, de como são ativadas ou inibidas segundo os domínios de
práticas ou os contextos mais restritos da vida social). Elas são simplesmente
deduzidas das práticas sociais (alimentares, desportivas, culturais…) mais
frequentemente observadas — estatisticamente — nos inquiridos” (Lahire, 1999a:
128). É assim necessário “colocar à prova de investigações empíricas um tal
conceito retórico para o fazer passar ao estatuto de conceito científico útil”
(Lahire, 1999b: 36). Respondendo a estas e outras questões que virão a
propósito mais à frente, inaugura-se o campo de uma sociologia à escala
individual, trabalhando-se empiricamente o conceito de habitus (Lahire, 2002c;
2004a). O autor define deste modo o seu programa de investigação para os anos
seguintes.
A sociologia disposicionalista de Bourdieu (1997: 65) pensava indivíduos
homogéneos num mundo heterogéneo. Em vez de dar conta dos efeitos
socializadores da pluralidade dos quadros sociais, ele pensava, muitas vezes,
como se um ator já constituído socialmente (implicitamente na sua família de
origem) afrontasse situações heterogéneas (Lahire, 2012: 140). E, neste
sentido, por um princípio de conservação, ele resiste, entra em crise, ou é
derrotado, mas não se transforma. O que é pressuposto (Bourdieu, 1991)[25] é a
existência de um habitus que é um — sistemático, homogéneo —, umafórmula
geradora de práticas, que se traduzirá em campos com propriedades e
possibilidades diferentes. Os indivíduos vivem em sociedades diferenciadas, mas
os seus habitus, estranhamente, não são afetados (Lahire, 2012: 141). É a
heterogeneidade do processo e dos produtos de socialização que constitui a
norma, e a unicidade constitui a exceção (Darmon, 2006: 49). Lahire pensa assim
o ator plural nos termos das condições sócio-históricas que tornam possível um
ator plural ou um ator caracterizado por uma profunda unicidade (Lahire, 1998:
27): “Quais são as condições sociais e históricas de produção de um ator
individual que é disposicionalmente plural?” (Lahire, 2010a: xi-xii).
O ator plural é o individuo cujo conjunto de práticas é irredutível a uma
“formula geradora” ou a um “princípio gerador”. Os termos da definição de
“pequenas máquinas produtoras” de práticas, ou “matrizes” vieram preencher o
vazio existente entre, por um lado, as estruturas objetivas do mundo social, e,
por outro, as práticas dos indivíduos. Falava-se então de habitus de grupo ou
habitus individuais (Lahire, 1999a: 123-124). Mais do que pressupor a
existência de um processo sociocognitivo tal como o de “transferibilidade” (ou
“transponibilidade”) das disposições, é identificada a necessidade de trabalhar
estas questões em investigações empíricas. Surge assim a necessidade de
comparar sistematicamente as disposições sociais — em que o “hábito” ou a
“rotina” não se opõem à “reflexividade” ou à “consciência” (Lahire, 1998: 88-
91, 169-173) — em função do contexto de ação considerado. O que está em causa
não é a sociogénese do habitus, mas antes a génese das disposições.
Por outro lado, a elaboração — progressiva — deste modelo teórico permite
pensar a ação e o ator com base em disposições e em contextos. Trata-se de
estudar as variações intraindividuais dos comportamentos, no quadro de uma
sociologia da pluralidade disposicional e contextual, segundo a qual a
socialização passada é mais (ou menos) heterogénea e dá lugar a disposições
heterogéneas (ou mesmo contraditórias), em que os contextos de atualização ou
de expressão das disposições são variáveis. Um tal modelo teórico não
pressupõe, antes do exame empírico, que o ator individual coloca em prática —
invariavelmente e transcontextualmente — o mesmo sistema de disposições; mas
desperta antes para os mecanismos sociais mais subtis, de suspensão/ação ou de
inibição/ativação de disposições mentais e comportamentais. O que determina a
ativação de determinada disposição num dado contexto pode pois ser pensado como
o produto da interação entre relações de força internas e externas: relações de
força entre disposições mais (ou menos) cristalizadas ao longo da socialização
passada; e relações de força entre características objetivas do contexto que
“pesam” mais (ou menos) sobre o ator.
Nesta versão “plissada” da realidade, os “vincos” mais singulares de cada
indivíduo não são redutíveis à sua origem e posição social. Ele define-se pelo
conjunto das suas experiências socializadoras e com base nas suas pertenças,
passadas e presentes. Contra as teorias dos indivíduos sem passado,[26] o ator
plural define-se pelo passado incorporado na ação. Este passado, determinado
não só por variações intraindividuais diacrónicas mas também por variações
intergeracionais caracterizadas pela reprodução / mobilidade social, leva
Lahire à ideia de conflitos de classe, à escala individual. Os casos de
“desclassificação” ou de “trânsfugas”[27] não são, como tenderemos a pensar,
casos excecionais ou marginais, mas antes patrimónios heterogéneos de
disposições individuais (Lahire, 2012: 140-141), em que os indivíduos são
passíveis de “detestar a parte popular de si” (Lahire, 2005c).
Metodologicamente, esta abordagem teórica conduziu à reavaliação da análise dos
grupos e dos domínios de práticas. Se, por questões analíticas, estes são
habitualmente separados e autonomizados — e.g. relação de diferentes grupos
sociais com a leitura, com a arte, ou com a escola — Lahire propõe que os
mesmos atores sejam acompanhados em diferentes situações da vida social. A
teoria da transferibilidade das disposições, inicialmente formulada por
Bourdieu nos anos 1960, dificilmente incitaria ao estudo de grupos de atores
acompanhados em diferentes contextos, ou ao estudo de dimensões particulares
das práticas, já que isso obrigaria à dedução apressada de modelos de
comportamento ou de relação com o mundo (assentes em comportamentos observados
em cena, disposições, hábitos) demasiado gerais.
A sociologia à escala individual assenta, pois, num conceito histórico-
empírico, cujas dimensões — não legitimistas — da pluralidade individual
procura conhecer, ao nível intraindividual, atores com um passado socializado.
Uma sociogénese das disposições é feita ao nível dos mecanismos não automáticos
de transmissão e de transferência de disposições. A pluralidade das disposições
de que os atores individuais são portadores é determinada na multiplicidade dos
contextos de ação e de socialização diferenciada de classe.
Conclusão: abertura sobre os mais recentes observatórios empíricos
Não sendo este o lugar de uma apresentação exaustiva da “biblioteca interior”
(2005a) de Bernard Lahire, ou do seu programa de investigação, este artigo
pretendeu focar alguns dos aspetos incontornáveis da sua vastíssima obra.
A obra de Lahire completa agora 19 livros, nos quais dialoga com inúmeros
especialistas em disciplinas como a psicologia, a antropologia, a história ou a
filosofia, sem se circunscrever ao legado de Bourdieu. Após a publicação do seu
livro programático, encontramos em Retratos Sociológicos (2002c) uma proposta
metodólogica do estudo das “condições sociais, históricas de produção de um
ator individual disposicionalmente plural”. Continuando a trabalhar sobre os
conceitos de habitus e de campo com base em vários objetos empíricos, para além
das temáticas escolares, tomou como laboratórios empíricos as práticas
culturais — A Cultura dos Indivíduos (2004a) — e, mais tarde, a criação
literária — La Condition Littéraire (2006); bem como uma análise da sociogénese
de um caso de estrutura psíquica clivada, em Franz Kafka (2010b), ilustrando o
caráter profundamente social dos conflitos qualificados como “psíquicos”, na
medida em que eles são vividos por um mesmo indivíduo. O estudo da “variação
intraindividual” das práticas e das preferências culturais dos franceses, assim
como a análise das propriedades das obras literárias ligada aos quadros de
socialização dos escritores, constituem câmaras que contribuem para a renovação
desta tradição.
Se em L’Homme Pluriel (1998) o autor sistematizava a sua crítica empírica ao
conceito de habitus, em Monde Pluriel (2012), aprofunda a sua crítica à teoria
dos campos de Bourdieu, estendendo a análise feita a partir do conceito de
“jogo” a propósito da sua sociologia das vidas de escritores e da literatura.
Tenta deste modo encontrar “o ponto de equilíbrio explicativoentre, por um
lado, o estudo das propriedades sociais incorporadas dos atores, e, por outro
lado, as propriedades sociais objetivas dos contextos, combinando
inevitavelmente disposicionalismoe contextualismo” (2012: 21-22). É também
neste “livro corolário”que desenvolve uma reflexão epistemológica sobre as
ciências sociais e as suas funções sociais — iniciada em A Quoi Sert la
Sociologie?(2002a) e em L’Esprit Sociologique (2005a) — contra uma
hiperespecialização das disciplinas.
Dedicamos a última nota sobre a sociologia de Bernard Lahire ao seu mais
recente livro, intitulado Les Plis Singuliers du Social (2013), em que
apresenta a sua obra como uma resposta ajustada à era do indivíduo.
Aprofundando a sua luta contra o mito contemporâneo da ascensão do
individualismo (2008a), lembra que estudar o indivíduo não significa
necessariamente reproduzir as conceções individualistas da sociedade que
concebem o indivíduo moderno como um indivíduo autónomo, por efeito de uma
definição apriorista. A noção de ator plural distingue-se deste modo das noções
des-historicizantes e dessocializantes de indivíduo, assimiladas às sociologias
que dão conta da “ascensão do individualismo” representadas por François Dubet,
François de Singly, Gilles Lipovetsky ou Olivier Galland. Demarcando-se das
teses, menos fundadas empiricamente, sobre a fragmentação ad aeternum, ou sobre
a construção do eu em detrimento do espaço social, opta, não por uma sociologia
das representações, dos valores ou da identidade, mas por uma sociologia das
disposições constituídas sob condições, e em contexto, ao longo da trajetória
do ator social, e tomando por objeto as condições sociais de produção de uma
individualização. Propõe assim a substituição de um entendimento de atores
considerados como mais “conscientes” — em que o foro íntimo ou a subjetividade
são tidos como lugar último de liberdade — pela existência de atores
multissocializados e multideterminados.