Class Inequality in Austerity Britain: Power, Difference and Suffering
RECENSÃO
Class Inequality in Austerity Britain. Power, Difference and Suffering [Will
Atkinson, Steven Roberts e Mike Savage (orgs.), 2012,Londres, Palgrave
Macmillan]
Tiago Carvalho*
* Doutorando no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge;
investigador do CIES-IUL, Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL),
Avenida das Forças Armadas, 1649-026, Lisboa. E-mail: tmlc@cam.ac.uk
O livro Class Inequality in Austerity Britain. Power, Difference and Suffering
organizado por Will Atkinson, Steven Roberts e Mike Savage surge na sequência
de um conjunto de outros trabalhos sobre classes sociais realizados desde há
uma década. No final da década de 1990 surgiu no Reino Unido um conjunto de
autores que, com base no quadro teórico desenvolvido por Pierre Bourdieu,
fizeram ressurgir as classes sociais enquanto objeto científico, após o seu
desvanecimento das correntes mainstream.[1]
Este livro tem o propósito de mostrar os efeitos das políticas implementadas
nas últimas décadas no Reino Unido e como estas vieram agravar as desigualdades
de classe, dando destaque à sociologia enquanto ferramenta que contribui para
tornar estes fenómenos visíveis. Incorpora, deste modo, uma componente crítica,
cujo intuito é o de contribuir para o debate público e político. Assim, o livro
é construído sobre a seguinte premissa: “sociology is thus a means of defence
against symbolic domination (which among other things, sustains material
domination) and the current tropes mobilised by the Conservative/Liberal
Democrat coalition government of ‘fairness’ and compulsory austerity, as
extensions of neoliberal orthodoxy, should be no exception” (p. 3).
Como é referido, o quadro teórico proposto por Bourdieu distingue-se do de Marx
e Weber. Para aquele, as classes sociais não assentam na relação com os meios
de produção ou no domínio de competências ou capacidades no mercado de
trabalho, mas antes na posse de vários tipos de capitais (económico, cultural e
social) que em conjunto moldam a experiência social dos indivíduos. Neste
sentido, no livro procura-se ir para além da dominação económica, abordando-se
na grande maioria dos capítulos a dominação cultural por via de violência
simbólica. Dá-se assim importância não só à luta pela distribuição como à luta
pelo reconhecimento.[2]
Na introdução deste livro Atkinson, Roberts e Savage apontam que, para além da
mudança da estrutura produtiva, existiu também todo um trabalho simbólico que
desacreditou as classes sociais e fez prevalecer uma visão neoliberal. Deste
modo, uma parte importante do primeiro capítulo, após uma breve apresentação do
quadro teórico e dos objetivos do livro, discorre sobre as alterações nos
discursos desde os anos 1970 e sobre como estes legitimaram um conjunto de
políticas no Reino Unido. Demonstram como promoveram o individualismo e o recuo
do estado e afastaram o discurso de classe, mas mais interessante ainda é a
sugestão de que os atuais atores políticos utilizam um suposto estado de
exceção (no sentido dado por Agamben) para legitimar a urgência das suas
políticas de austeridade, não deixando de ter como pano de fundo políticas que
são de classe.
Após o capítulo introdutório inicia-se um conjunto de textos que abordam o
impacto da crise a vários níveis. No capítulo 2 Will Atkinson analisa de que
forma a crise económica afeta o quotidiano das diferentes classes sociais. Do
capítulo 3 ao 6 (Reay; Brandley e Ingram; Robert e Evan; Gillies) o eixo
central da pesquisa é a educação. Nos capítulos 7 e 8 (Clement; MacKenzie)
lida-se com a estigmatização e marginalização, abordando-se também os motins de
2011. No capítulo 9 Mike Savage põe em causa a tese das brokencommunities, que
tem legitimado um conjunto de políticas que reforçam as desigualdades. Antes da
conclusão, Andrew Sayer aborda o que apelida “regresso dos ricos”. No capítulo
final os organizadores do livro refletem sobre os desafios à exportação do
conhecimento sociológico. É importante denotar a opção por metodologias
qualitativas, em que, para além das habituais entrevistas, se utiliza a
observação, a etnografia ou o registo das atividades diárias daqueles que estão
a ser estudados. Especifique-se um pouco mais algumas das análises realizadas.
No capítulo 2 — “Economic crisis and classed everyday life: hysteresis,
positional suffering and symbolic violence” — Atkinson, que tem vindo a renovar
a teoria de Bourdieu, recupera o conceito de hysteresis para mostrar o impacto
diferenciado da crise nos quotidianos das classes sociais. Demonstra a
transformação das condições de existência e como esta se traduziu nos consumos
realizados no quotidiano. Refere existirem três tipos de orientações perante a
crise: (1) a “paz com o nosso tempo”, por parte daqueles que possuem nível
elevado de capital cultural e económico; (2) a “arte da conservação e os seus
limites”, em que aqueles que estão num nível intermédio mobilizam um conjunto
de estratégias para conservar o seu capital económico; e por fim (3) a
“necessidade multiplicada”, que envolve aqueles com menor volume de capitais e
mais afetados pelo corte nos serviços do Estado. Como refere no fim, a
hysteresis não se distribui de forma uniforme pelo espaço social.
Os capítulos referentes à educação abordam, na senda de Bourdieu, a escola
enquanto elemento fundamental de violência simbólica. Referem de que forma as
desvantagens de partida das classes dominadas acabam por se reproduzir através
da internalização das classificações dominantes. Em causa está um discurso
individualista que culpa os indivíduos pela sua situação e que se espelha num
conjunto de políticas: “At the core of the Big Society pledge to repair and
responsabilise families and communities is an enduring narrative which seeks to
portray the poor as authors of their own misfortunes” (p. 93). O sétimo e
oitavo capítulos lidam com a marginalização e a estigmatização. Em parte estes
capítulos procuram também mostrar as condições sociais que estiveram por trás
dos motins de 2011 em Inglaterra, entre as quais o desemprego dos jovens que
vivem em espaços desqualificados.
Mike Savage, no capítulo 9 — “Broken communities?” — vem questionar os termos
em que se pretende construir a Big Society e a sua iniciativa moralizadora
sobre as classes dominadas. Depois de uma análise cuidada, conclui que não há
um sinal óbvio de quebra moral (moral breakdown), que não se trata contudo de
negar a existência de pobreza e privação, mas antes de argumentar que devemos
ser cuidadosos com os discursos moralizadores ligados a estes problemas. O que
parece antes acontecer é um afastamento dos cidadãos ante as instituições
formais devido ao seu recuo, o que leva à retirada do interesse pela atividade
cívica. Termina dizendo que esta política é hipócrita: “[…] it fails to
recognise that the ethics of belonging and attachment of the affluent middle
classes are very different from those seen as desirable in policy circles. […]
the affluent middle classes increasingly seek to live in environments with
relatively restricted social networks […] and make sure they live with ‘people
like themselves’ […] [which generates] forms of social segregation and
inequality” (p. 159).
Há também um capítulo dedicado aos “ricos” por parte de Andrew Sayer — “Facing
the challenge of the return of the rich” — que mostra como a concentração da
riqueza aumentou das últimas décadas, denunciando a negligência dada às classes
dominantes pela sociologia. O ponto mais interessante e original do capítulo é
a sua combinação da teoria de Bourdieu com uma abordagem moral (moral economy
of class) que permite analisar as categorias morais envolvidas na legitimação
do “regresso dos ricos” nos discursos populares e académicos. Como diz, a
mudança existente não é apenas quantitativa (concentração da riqueza), mas
qualitativa, já que na base deste aumento está uma mudança dos tipos de
relações sociais em que ressurge o rentista.
No último capítulo do livro os organizadores enunciam as principais
dificuldades com que se digladiam os sociólogos na exportação do seu
conhecimento para o domínio público: (1) o aumento da competição na produção de
conhecimento politicamente útil, com o surgimento de think-tanks que procuram
justificar as opções governamentais tomadas; (2) o aumento da dependência face
ao campo jornalístico, com uma maior exposição mediática que é contraditória
com a análise científica; e por fim, (3) o aumento dos ataques à autonomia
relativa do campo das ciências sociais por parte do estado, que vai cortando
sucessivamente os financiamentos. Perante este cenário há que repensar a
posição dos cientistas sociais, qual o seu potencial contributo e as eventuais
estratégias para fazer vingar o seu trabalho perante dificuldades e competição
acrescida.
Este livro traz, sem dúvida, um contributo importante para a reestruturação e
renovação da análise de classes, ao utilizar não só um quadro teórico sensível
ao impacto das desigualdades nos quotidianos pessoais, mas também ao servir-se
de metodologias qualitativas. Vem dar continuidade ao trabalho previamente
desenvolvido, bem como estimular o debate sobre as consequências da
austeridade. Há, na verdade, uma vertente política e crítica que acompanha todo
o livro, por duas vias: (1) através da crítica às políticas seguidas e da
análise das suas consequências no quotidiano pessoal; (2) através do conceito
de violência simbólica, que mostra como os discursos legitimam as políticas
vigentes e as tornam aceitáveis no dia a dia.
Contudo, por vezes o livro parece fechar-se em demasia sobre condições de
exclusão e marginalidade, sem nada dizer sobre a chamada “classe média” e a sua
reconfiguração. Refiro aqui aqueles que detêm capital cultural ou, para
utilizar a expressão de Bourdieu, os dominados dentro dos dominantes. Assim,
qual foi o principal impacto sobre aqueles cujo atributo fundamental é a posse
de capital cultural? Qual o seu papel na legitimação e suporte das medidas
vigentes? Para além do capítulo escrito por Atkinson, não se encontram mais do
que pequenos apontamentos que os referem. É também neste sentido que falta um
estudo sobre mobilidade social e as mudanças na estrutura de classes nas
décadas em foco para complementar a análise das alterações existentes ao nível
simbólico.
Termino este texto com uma sugestão. Parece haver homologias interessantes
entre os processos e dinâmicas no Reino Unido e em Portugal num cenário de
crise e austeridade. Seria, por isso, importante estabelecer um programa de
trabalho que, tendo em conta as últimas décadas, estudasse as alterações ao
nível dos discursos, para além das modificações na estrutura de classes. Falta
estudar em Portugal, de forma aprofundada, o quotidiano das diferentes classes
sociais, o impacto da crise económica e das medidas de austeridade, bem como
entender as formas de violência simbólica existentes.
Notas
[1] Para um esclarecimento desta discussão ver: Will Atkinson, “Introduction:
from affluence to reflexivity”, em Class, Individualization and Late Modernity.
In Search of the Reflexive Worker, 2010, Hampshire, Palgrave Macmillan, pp. 1-
14.
[2] Os autores não ficam presos ao quadro teórico em questão e inserem ao longo
do livro conceitos previamente formulados, tais como habitus enquanto mundo da
vida ou campo subjetivo de possibilidades. Para uma melhor compreensão destes
conceitos ver: Will Atkinson, “Phenomenological additions to the bourdieusian
toolbox: two problems for Bourdieu, two solutions from Schutz”, Sociological
Theory, 28, 2010, pp. 1-19.