Religião e Juventude: Os Novos Carismáticos
Religião e Juventude. Os Novos Carismáticos [Flávio Munhoz Sofiati, 2011, São
Paulo, Brasil, Editora Ideias & Letras / FAPESP]
José Pereira Coutinho*
* Investigador da Númena. Doutorado em sociologia (ISCTE-IUL). Taguspark
Núcleo central, 379, 2740-122, Porto Salvo. E-mail: jose.coutinho@numena.org.pt
Do cruzamento entre religião e juventude, surge a tese de doutoramento em
sociologia (Universidade de São Paulo), agora apresentada neste livro. O autor,
Flávio M. Sofiati, professor adjunto da Universidade Federal de Goiás, percorre
com segurança estes dois domínios sociológicos: a sua experiência e
conhecimento autorizam-no. A escolha da Renovação Carismática Católica (RCC)
brasileira como objeto de estudo, apostando, como campo de observação, numa
cidade de tamanho médio, parece adequada, pela falta de pesquisas respetivas.
Para o autor, o estudo justifica-se pelo aumento das correntes pentecostais nos
últimos vinte anos e pela sua influência crescente na sociedade brasileira. O
vazio deixado nos jovens brasileiros pela precariedade da educação, a
restrição do emprego e o esvaziamento ideológico da política valoriza esta
tese, por querer compreender como a Igreja Católica (IC), através da RCC, o
preenche. Suportando-se em Weber e Gramsci, Sofiati pode afirmar que a religião
serve como lenitivo ao sofrimento, principalmente nas classes desfavorecidas,
as maiores clientes da RCC. Depois de demonstrar que o povo brasileiro nunca
foi desencantado, mas tão-somente o foram as variadas esferas sociais, e de
defender que os carismáticos encantam o mundo pelos seus valores e pelas suas
práticas, o autor pretende estudá-los, querendo explicar a atração dos jovens
por este movimento.
Será que Sofiati alcançou o objetivo proposto? A resposta positiva baseia-se no
manancial de informação exposta e coligida de fontes diversas de forma coerente
e lógica. O perfil do jovem carismático torna-se claro, sintetizado no capítulo
final. A demanda por um projeto de vida, longe do risco, motiva os jovens na
procura da RCC. A vivência imbuída de Espírito Santo e dos seus carismas, a
obediência, a castidade, o afastamento do mundo, a busca da santidade, são
marcas da RCC. Conclui-se, todavia, que, pelo choque entre as esferas erótica e
religiosa, a permanência no movimento seja maioritariamente curta. Porque são
muitos os chamados mas poucos os escolhidos (Mt. 22, 14). Naturalmente que os
leigos, mais distantes do sagrado, não o compreendem tão bem, nem às suas
exigências, para lhe ficarem fiéis.
A leitura do livro impõe três tipos de observações: formais, teóricas e
metodológicas. Em termos formais, o livro apresenta um estilo bem conseguido,
embora atenuado por repetições ao longo do texto. Em termos teóricos,
evidencia-se a escolha ajustada dos autores. A discussão sobre a religião no
capítulo 2 foi acertada pela mestria de Weber e pelo acolhimento pertinente de
Gramsci, algo raro na sociologia da religião. O debate interessante e completo
no capítulo 3 sobre o encantamento e a secularização do cenário religioso
brasileiro clarifica-o. Ainda, a relevância dos estudos citados sobre o
pentecostalismo, tanto católico como evangélico, demonstra o domínio da área.
Em termos metodológicos, surgem alguns comentários. Primeiro, a escolha do
referente empírico afigura-se pertinente, por a juventude se encontrar com
graves carências educacionais, profissionais e afetivas e, por isso, mais
aberta às ofertas religiosas. Segundo, a escolha da Canção Nova (CN), composta
maioritariamente de jovens, do movimento juvenil Por Hoje Não vou mais Pecar
(PHN) e do grupo de oração Novo Pentecostes (NP) foram igualmente opções
acertadas, pela sua importância no seio da RCC. Terceiro, nas passagens sobre
os líderes carismáticos Dunga e Claudinei, o texto seria ainda mais rico e a
sua credibilidade maior se aparecessem comentários de pessoas exteriores ao
movimento, tanto os que já tinham pertencido, como elementos externos,
pertencentes ou não à IC. No fundo, dar voz tanto a insiders como a outsiders.
Percorrendo agora os capítulos, no primeiro, o autor justifica a preponderância
dos movimentos carismáticos junto da juventude brasileira católica atual.
Sofiati começa por percorrer resumidamente a história dos movimentos juvenis
brasileiros no século XX, afirmando o domínio dos movimentos religiosos na
socialização atual juvenil, principalmente nos de cariz pentecostal. Nestes, os
jovens podem, não só ter as suas experiências radicais de encontro com o
sobrenatural, mas também encontrar formas de superar as suas frustrações,
ligadas às questões da educação, do trabalho e da política. Por isso, os jovens
envolvidos são maioritariamente desfavorecidos, desempregados, de baixa
escolaridade e com fraca ou nenhuma participação política. A argumentação
desenvolve-se mostrando que as carências destes jovens na educação e no
trabalho condicionam o seu interesse pela política. Assim, as suas perspetivas
de futuro são menores, havendo duas alternativas: a perdição ou a salvação.
Esta passa pela descoberta de um projeto de vida no seio dos movimentos
pentecostais, nos quais os jovens encontram a sua identidade e a sua autonomia,
para além das suas experiências. Eventualmente a questão da salvação junto dos
movimentos pentecostais poderia ser mais apurada, pois parece que fora deles
ela não existe.
No capítulo 2, Sofiati apresenta os conceitos de juventude e de religião. A
discussão sobre o conceito de juventude poderia ser colocada no começo do
capítulo anterior, onde se trata exclusivamente do mesmo. Além disso, faltou
defini-la, como estádio de passagem à condição adulta sem as responsabilidades
inerentes a esta (trabalho, conjugalidade, casa e filhos). Ainda, o conceito de
juventude poderia ser mais explorado, nomeadamente no seu surgimento como
categoria própria das sociedades modernas. A abordagem teórica sobre a religião
parece acertada, embora o autor ao mostrar os contributos de Weber e de
Gramsci, de três formas diferentes, os repita parcialmente. Após desenvolver os
conceitos de forma isolada e de analisar os aspetos comuns, Sofiati discorre
sobre a sua aplicação no seu estudo. Assim, em Weber os conceitos de tipo ideal
de ação são essenciais: a ação dos jovens carismáticos modela-se pela
racionalidade de fins e de valores, embora sejam referidas razões afetivas ou
consuetudinárias na constituição das comunidades eclesiais. Os tipos ideais de
dominação (racional, tradicional e carismática) são também importantes para
analisar as lideranças, concluindo que a CN possui liderança carismática,
embora permeada de aspetos racionais e tradicionais. Por último, as definições
de vários conceitos relativos a elementos, práticas e atores são igualmente
relevantes. Nos atores, os leigos, pelas suas carências socioeconómicas buscam
não uma ética, mas a promessa de retribuição pelo seu sofrimento. A relação
entre os sacerdotes e os leigos também importa, enfatizando a forma como os
conteúdos religiosos condicionam a ação juvenil. Com Gramsci, o autor pretende
estudar a religião como ideologia, ou seja, a IC como aparelho ideológico e, a
partir desta perspetiva, analisar os intelectuais religiosos e as suas relações
com o estado.
No capítulo 3, o autor aborda o cenário religioso brasileiro. Começa por
discutir a relação entre racionalização, desencantamento e secularização,
baseando-se em Weber, Berger e Pierucci, e concluindo que a racionalização
conduziu ao desencantamento e este à secularização. Passando à discussão sobre
a dessecularização, por o panorama brasileiro a tal o obrigar, Berger vem em
seu auxílio, afirmando que aquela ocorre nas religiões que rejeitam o mundo
moderno, como o islamismo e o evangelismo. De seguida, coloca a questão de
saber como ocorreu o reencantamento no Brasil: o sociólogo Negrão defende que
no Brasil somente as diferentes esferas sociais foram racionalizadas e, por
isso, foram secularizadas, enquanto a mentalidade do povo se manteve encantada.
Assim se explica o sucesso dos movimentos pentecostais, plenos de emotividade e
encantamento. Olhando agora para o pluralismo religioso, o autor discute-o à
luz das teorias da secularização e da escolha racional, concluindo pela
insuficiência das duas, se não atenderem ao grau de regulação do mercado. Este
novo modelo permite explicar o caso brasileiro, no qual, apesar da diminuição
da regulação do mercado religioso, ainda existem custos sociais consideráveis
nas mudanças religiosas, pelo que o catolicismo mantém presença forte. Ao mesmo
tempo, observa-se a grande diversidade dentro da IC. Por último, Sofiati
classifica a RCC baseando-se em quatro autores. Segundo a classificação de
Lowy, a RCC é um movimento modernizador-conservador. Mas aqui o autor abrevia o
discurso. Primeiro, dos quatro cenários de Libanio e de Boff não se refere
quais se encontram na RCC. Segundo, não se explica como as três tendências de
Gramsci se encontram nas quatro tendências de Lowy. Terceiro, a descrição da
tendência modernizadora-conservadora poderia ser alongada.
No capítulo 4, o autor avança com a história do pentecostalismo católico. Aqui,
partindo do contexto mundial, passa para o cenário brasileiro, onde, em algumas
páginas, descreve a evolução da RCC brasileira e os elementos característicos
de cada fase. Qualifica depois a teologia carismática, assente em dois pontos
essenciais: a vida nova fruto da conversão e da receção do batismo no Espírito
Santo, e os carismas ou dons. Passa então a debater a relação da RCC com a IC
brasileira. Embora seja reconhecida a importância da RCC no rejuvenescimento
católico, a hierarquia aponta algumas preocupações, relacionadas com o
exacerbamento da emoção, a manipulação dos dons, a leitura livre da Bíblia, a
transformação das missas em grupos de oração, o desligamento paroquial. Sofiati
descreve depois a relação da RCC com a política, mostrando que este movimento
tenta criar lideranças políticas carismáticas, as quais têm defendido as
posições da IC, principalmente nas questões da vida e da sexualidade,
demarcando-se como conservador. O autor termina afirmando que a RCC tem um
papel essencial no catolicismo brasileiro, ao contrário de movimentos de cariz
radical como a Teologia da Libertação. Como defende Sofiati, a PHN vai ao
encontro das necessidades dos jovens atuais: sentido, profissional, financeira,
afetiva, familiar e identitária.
No capítulo 5, Sofiati passa então para o terreno. Caracteriza o movimento PHN,
pertencente à CN. Primeiro, começa por analisar a organização da juventude
carismática, a qual se divide em estruturas responsáveis pela oração jovem,
pela oração universitária (ou dos recentemente diplomados) e pela música.
Segundo, versa as comunidades carismáticas da RCC existentes no Brasil,
terminando pela descrição da CN. Esta é a comunidade pioneira da RCC, composta
maioritariamente por jovens, na qual se pretende viver o ideal da Igreja
primitiva, apostando no sentido comunitário e na missão através da comunicação
social e da organização de eventos. Finalmente Sofiati apresenta o setor
juvenil da CN, o PHN. Este grupo fundamenta-se no conhecimento de Jesus Cristo
para a libertação do pecado, o qual radica principalmente na sexualidade
afastada das normas católicas. Depois dá-se a palavra ou discorre-se sobre o
fundador do PHN, Dunga, cuja conversão e empenho assiste de exemplo aos jovens.
Sofiati prossegue mencionando os exemplos bíblicos de conversão e de seguimento
fiel da doutrina sexual e a importância dada pela PHN à castidade, a qual serve
para demonstrar a centralidade da submissão dos jovens aos líderes e a presença
dominante da liderança carismática no PHN. Passa depois a descrever os
instrumentos para libertação do pecado: oração do Rosário, comunhão diária,
leitura da Bíblia, jejum e confissão. O autor socorre-se de Weber para explicar
a razão do diferendo entre religião e sexualidade: basicamente as duas esferas
chocam por serem autónomas e por a sexualidade ser mais atrativa principalmente
nos jovens. Por último, Sofiati refere que o PHN é bandeira da RCC, na qual
existe um tipo ideal de jovem, aquele que diariamente diz não ao pecado. Depois
de referir a importância da pertença às comunidades, do exemplo, da emoção, da
heroicidade e da disciplina, o autor acaba afirmando que a vivência
comunitária, pautada pela emoção, oferece ao jovem sem perspetivas de futuro
uma vida livre de pecado, embora isolada do mundo.
O capítulo 6 abre com a descrição dos jovens do município de Araraquara, antes
de se começar a analisar o NP, referindo-se variáveis úteis para este estudo. A
escolha do NP deve-se ao facto de ser o mais identificado com o PHN, onde se
discute a sexualidade, onde a música é essencial e onde ocorreram disputas com
outros setores católicos, permitindo examiná-las. Existem quatro momentos do
grupo à volta da oração: para as lideranças, para os membros, para o público em
geral e pela rádio. Sofiati descreve como decorrem as reuniões semanais para o
público em geral, caracterizadas pela devoção a Maria, louvores e testemunhos
de curas e orações coletivas em línguas, num ambiente emotivo. De seguida,
analisa-se o líder do NP, Claudinei. Sofiati discorre depois sobre a
centralidade da música no PHN, abordando principalmente a música Restauração,
instrumento de conversão: o paralelismo entre a dor de Dunga ao escrever a
música e a dos que se convertem é referido. Passa depois para uma comparação do
NP com o grupo de oração carismático Plenitude de Paris, focando-se na questão
do transe corporal, algo polémico no NP. A questão da permanência no NP é tão
significativa que Sofiati disserta repetidamente (três vezes) sobre a mesma em
pontos diferentes deste capítulo, concluindo pela rotatividade grande, devido a
questões de afetividade e de sexualidade. E termina-se esta recensão com a
questão erótica, pois, da leitura deste livro, a conclusão mais clara é a
seguinte: pela tomada exigente das posições católicas sobre a sexualidade, os
leigos não aguentam o fardo dos eleitos (sacerdotes, profetas ou magos), sendo
a sua permanência curta.