“O público vai ao teatro”: uma etnografia dos públicos em ação
Considerações iniciais: génese e contextualização do projeto
“O Público vai ao Teatro” (PVT) nasce como resposta ao convite para a
participação da companhia Teatro Meia Volta e à Esquerda Quando Eu Disser
(TMV)num ciclo dedicado à criação vistae feitana cidade do Porto.
A proposta, com origem no Teatro Municipal São Luiz, consistia em “levar” à
capital companhias do Porto (independentes ou “emergentes”), desprovidas da
suposta centralidade inerente ao Teatro Nacional São João, num período que
decorreria entre fevereiro e março de 2011.
O Ciclo de Teatro do Porto começa a ser projetado em 2009, inicialmente com uma
amplitude territorial mais abrangente: Ciclo de Teatro do Norte. Mas, uma série
de tragédias impossíveis de prever marcam um novo rumo.[1] A ideia traçada
pelas mãos de Isabel Alves Costa, sob apelo de Jorge Salavisa, viria a ser
repensada por João Pedro Vaz, sendo geograficamente restringida à cidade do
Porto: “tão perto mas tão longe do público lisboeta” (Teatro São Luiz, 2010:
25). No desígnio do programa estaria a celebração desta arte: “Durante seis
semanas o São Luiz é, orgulhosamente, o anfitrião de dezasseis companhias de
teatro do Porto. A vontade é, reitera-se, que se descubra e se festeje o
Teatro, o que se faz a norte e o que se faz aqui” (Jorge Salavisa, em Teatro
São Luiz, 2011: 2).
Na planificação do evento é assumida a importância (quase centralidade) dos
projetos teatrais na cidade do Porto, e como tal é exortada a participação de
uma multiplicidade de propostas artísticas, espécie de “retrato de família”
(Martins, 2011).
Assim, para satisfazer a tal panorâmica geral do teatro feito no Porto, foram
convidadas dezasseis companhias,
[2]_entre_as_quais_o_TMV._No_dia_27_de_março,_Tarde_Mundial_do_Teatro_e_dia
dedicado_às_companhias_emergentes,_os_públicos_de_Lisboa_e_do_Porto_iriam
encontrar-se_no_Teatro_São_Luiz,_através_da_proposta_da_companhia_TMV._Num
misto_de_sarcasmo_e_algum_sentido_de_responsabilidade_no_papel_de_formação_de
públicos,_a_jovem_companhia_de_teatro_estabelece_que_seria_negligente_apartar_a
criação_dos_seus_públicos_e_propõe_que_a_sua_participação_seja_sob_a_forma_de
uma_performance_etnográficaem_que_o_próprio_“público_do_Porto”_iria_“mostrar-
se”_a_Lisboa.
Para atingir estes objetivos, o TMV recruta uma equipa multidisciplinar
composta por nove elementos (incluindo os criadores) distribuídos por áreas de
conhecimento tão multifacetadas como o teatro, a produção cultural, o vídeo, a
sociologia, o serviço social e a animação sociocultural.
Sendo um projeto coproduzido pelo São Luiz Teatro Municipal, o financiamento
foi assegurado por esta entidade. Igualmente importante foi o apoio informal
disponibilizado por entidades como o Teatro Nacional de São João (TNSJ), a
Junta de Freguesia da Sé (JFS) e a Associação de Solidariedade da Zona das
Fontainhas (ASZF).
As parcerias estabelecidas entre organismos como a ASZF e a JFS surgem com o
objetivo de criar plataformas privilegiadas de acesso aos grupos que pretendiam
integrar no projeto:
Esta relação privilegiada traduz-se não só num contacto quase diário com estas
pessoas, mas também num conhecimento profundo da sua realidade socioeconómica.
[Alfredo Martins, Fundador do TMV, 2011]
Do lado dos criadores: uma definição face ao centro
Assim, a génese do projeto assenta numa intencionalidade política que cruza,
com ironia, o questionamento de graus desiguais de poder simbólico associado a
posições territoriais (Lisboaversus Porto) e visões essencialistas ancoradas em
determinadas políticas culturais.
O poder simbólico permite, a quem o detém, operar ações de classificação e de
legitimação num dado espaço social, ao mesmo tempo que joga o seu
reconhecimento (Bourdieu, 1989). Neste caso, a proposta do Teatro Municipal São
Luís, de Lisboa (levar à capital a produção teatral que se faz no Porto), é
encarada como uma proposição formulada a partir de um lugar central. Daí a
resposta do TMV: trazer ao centro o que se faz no Porto. Mas fazê-lo a partir
de uma definição endógena, própria, autocentrada.
Como se pode ler no excerto seguinte, a companhia TMVé clara ao referir o seu
poder arbitrário de definição: “Definimos que ‘o nosso público do Porto’ será
constituído pela população que vive num raio de 1 km a partir do Teatro São
João” (Martins, 2011). Ou ainda:
A nossa proposta é, portanto, organizar uma excursão, em boa maneira
portuguesa. Dia 27 de março de 2011, chega às portas do Teatro São Luiz um
autocarro cheio de público do Porto para ver o que pelo Porto se faz e para que
o público de Lisboa veja quem pelo Porto vê. Mas será que vê? Quem vê teatro?
Se esta é uma das difíceis tarefas da Sociologia do Teatro, a de definir os
contornos desse grupo instável que é o público teatral, herdámo-la nós ao
tentarmos identificá-lo entre a população portuense. Perdidos em critérios
sociológicos, económicos e culturais, incapazes de analisar a expressão que
elites e massas têm na constituição de um público local de teatro (e talvez
aborrecidos com este exercício), elegemos um critério geográfico e prometemos
ser fiéis a ele. Sem dúvida que o Teatro Nacional de São João é uma espécie de
epicentro da atividade teatral no Porto, chamando a si companhias e público e
associando à sua programação aquilo que de mais significativo se vai produzindo
por cá. Fiéis, então, ao nosso critério geográfico e ao limite de um autocarro,
definimos que “o nosso público do Porto” será constituído pela população que
vive num raio de 1 km a partir do Teatro São João […] e “o nosso público do
Porto”? Será que a população que vive nas imediações da Praça da Batalha vai ao
teatro? Alguma vez entrou no seu vizinho teatro nacional? Será que alguma vez
viu algum espetáculo de teatro que se produziu no Porto? Se não viu, vai ver.
Mantemos o critério e levamo-los em excursão à capital. Porque se o público de
Lisboa vai poder ver, o do Porto também tem esse direito e aproveita e come uns
pastéis. Recebê-los no átrio do São Luiz, com arraial, música popular, sardinha
e pimento assado. Pois se o ciclo é do Porto, tem de cheirar a São João. Quem
quiser, pode levar farnel. (Martins, 2011)
Em suma, existe aqui o exercício claro de uma contra-hegemonia, como que a
querer “descolonizar” o debate dos seus termos habituais. Um Teatro Municipal
de Lisboa, instituição consagrada e com poder de consagração, convida as
companhias do Porto para exibirem, na capital, o seu teatro. A companhia TMV
determina que não faz sentido dissociar a criação dos seus públicos e propõe
que a sua “exibição” seja uma performance antropológica em que é o próprio
público do Porto a ir mostrar-se a Lisboa.
Um jogo, pois, de quem vê o quê e de quem vê quem, na recusa de posições
congeladas de antemão: “Porque se o público de Lisboa vai poder ver, o do Porto
também tem esse direito e aproveita e come uns pastéis” (Martins, 2011).
Ironia, assim, como forma de reparo contundente a um dado estado de relações de
força no campo cultural. Assumpção plena de uma luta simbólica que passa antes
de mais pela linguagem e pelo poder das palavras. Paródia, na inversão da ordem
e do status quo teatral. Crítica radical, enfim, ao despir a solenidade das
instituições teatrais: “Recebê-los no átrio do São Luiz, com arraial, música
popular, sardinha e pimento assado” (Martins, 2011).
No entanto, os propósitos dos criadores vão mais longe, consubstanciando uma
alternativa. Para além da destruição de uma doxa, propõe-se a criação de uma
relação com os públicos, assente no que Teixeira Lopes apelidou políticas
culturais de terceira geração ou democracia cultural (Lopes, 2007). O que
acrescenta, a nosso ver, consequência propriamente política. Nas palavras de
Alfredo Martins (2011):
Na prática, este projeto acaba por funcionar como uma iniciativa de formação de
públicos, que qualquer teatro deveria promover.
Trata-se, pois, de formar públicos, isto é, de inculcar novas disposições para
a fruição teatral, sinalizando uma missão insuficientemente cumprida pelas
instituições responsáveis.
Aparentemente, a escolha dos potenciais públicos foi arbitrária. No entanto,
tal definição acarreta consequências, uma vez que abarca uma das freguesias
históricas do Porto — a Sé —, fortemente marcada por fenómenos cumulativos e
multidimensionais de exclusão social. Desta forma, os potenciais públicos
abrangidos manteriam, potencialmente, uma relação distante com a produção
teatral, nomeadamente com a criação contemporânea.
Não admira, por isso, que a preparação da performance tenha adquirido uma
configuração de um programa estruturado e sistemático de formação de públicos,
com objetivos estratégicos e operativos bem definidos, com uma rede de
parcerias (o Teatro Nacional São João, o Teatro Carlos Alberto, a Junta de
Freguesia da Sé, a Associação de Solidariedade da Zona das Fontainhas) e alguns
mediadores/avaliadores. É neste âmbito, aliás, que se enquadra o convite aos
sociólogos:
O convite ao Departamento de Sociologia da FLUP pretendia acrescentar ao
projeto um olhar mais teórico e articulado e que, porque desviado da intenção
artística, poderia trazer para a reflexão novas perspetivas. Esperávamos também
que a participação de sociólogos nos ajudasse a calibrar o discurso de
abordagem ao grupo de habitantes da Freguesia da Sé. (Martins, 2011)
A própria equipa de produção, com nove elementos, ganhou uma feição
multidisciplinar, de valências várias, como que a provar o cariz coletivo de um
Art World (Becker, 1982), mas também com o intuito de tornar de alguma forma
exemplar o atual projeto, capacitando-o para servir de base a transferências
futuras de experiências e conhecimento.
A complexidade do programa de formação de públicos encontra-se bem patente no
plano de trabalhos do projeto (ver quadro_1). Na sua ambição, o projeto não
deixa de levantar problemas e riscos.
Ao desessencializar o conceito de “teatro feito no Porto” e de “público do
Porto”, cria-se uma outra definição arbitrária que desoculta a incompetência
face à descodificação das linguagens teatrais contemporâneas, uma vez que esse
potencial público, vivendo 1 km em redor do Teatro Nacional São João, necessita
de ser formado. Ora, não se resvala, por aí, para uma atitude paternalista, que
choca frontalmente com os propósitos bottom-up da iniciativa assente no
empoderamento da população selecionada? Por outro lado, como compreender a
ironia e a paródia anti-institucional face ao Teatro Municipal São Luiz quando
se reconhece que, da banda do Porto, outra instituição, desta feita com a
categoria de “nacional” (Teatro Nacional São João), se apresenta como “o
epicentro da atividade teatral da região” (sic)? Quem garante, aliás, que os
grupos selecionados (um de jovens, outro de idosos) desejavam “ser formados”?
Do lado dos sociólogos: para uma etnografia dos públicos em ação
Não deixa de ser curioso, num domínio onde, tão frequentemente, se trabalha em
regime de silêncio e contrassilêncio, que um grupo de jovens dramaturgos,
atores e encenadores se tenha dirigido à Universidade para solicitar a
colaboração de académicos num projeto artístico de intervenção social. Na
verdade, depois de décadas de experimentação artística com vocação política;
depois de milhares de projetos, improvisações, intervenções, reinvenções,
performances e happenings, arte comunitária e instalações; depois de
ramificações e sub-ramificações de géneros artísticos contaminados pelo
questionamento do lugar do espetador e pela inversão de tudo o que a priori
estava definido como posição e disposição inexorável — eis que, contudo, nunca
permanecemos tão distanciados — arte e ciência; cultura e povo; produtores,
mediadores e espetadores. Mesmo quando os ditos académicos há muito escaparam
do jardim eterno e etéreo da controvérsia estéril (embora amiúde resvalem para
os movediços terrenos da investigação aplicada ultraespecializada, esquecendo a
necessidade de retroalimentar permanentemente o núcleo duro da teoria social —
teorias, conceitos, paradigmas), tal diálogo continua a suscitar novidade!
No caso concreto, os “artistas” desejavam uma tripla tarefa dos “sociólogos”:
um melhor conhecimento dos instáveis públicos do teatro; um acompanhamento em
termos de animação/mediação sociocultural do processo (levar — literal e
simbolicamente — os públicos do Porto ao Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa)
e uma avaliação ongoinge ex post do projeto.
Abordemos sem demoras a primeira demanda: todos os estudos de público baseados
em inquéritos por questionário mostram que a ida ao teatro é uma das mais
rarefeitas e socialmente selecionadas práticas culturais, altamente
condicionada pela posse de elevados volumes de capital escolar (Fortuna e
Silva, 2002; Gomes, 2000; Santos, 2001). Mas até que ponto tais estudos foram
capazes de resgatar os públicos em ação, essa é questão fundamental. Dito de
outra maneira, são raras as pesquisas sobre modos de receção teatral e as que
se vão fazendo trazem, à sua pequena escala, resultados algo surpreendentes,
uma vez que acrescentam variáveis de inteligibilidade que nos permitem falar
deformas plurais de relação com a arte, neste caso via teatro. Os géneros, os
textos, as encenações, os atores, os lugares são tudo menos variáveis
negligenciáveis (Borges, 2002), como de resto nos mostrou Catarina Alfaia
(2012) a respeito do espetáculo Vale, onde intérpretes amadores edificam uma
obra onde se mesclam o teatro, a música e a dança. Na verdade, os objetos do
nosso gosto não são inertes, como Antoine Hennion (2007) vem sublinhando a
propósito do ofício de amador, exímio na multiplicação de detalhes
significativos suscitados pelo “gostar” ou “não gostar”, acionando dimensões
pragmáticas e performativas, tantas vezes ignoradas pela tradição sociológica
radicalmente positivista. De igual modo, se na música, como Pedro Bóia (2010)
evidencia, tocar viola d’arco cria disposições assaz diferentes no virtuoso do
violino ou do violoncelo, então é caso para dizer que se impõe uma aproximação
compreensiva aos atos, ocasiões e rituais de (des)gosto. Hennion insiste: os
públicos são ativos produtores de sentidos, de dispositivos e métodos de
fruição. Se o gosto é uma atividade reflexiva (embora não necessariamente
calculada e instrumental), importa conhecer os meandros dessa fabricação/
experimentação. Diz o autor francês que, para esse fim, é incontornável
mergulhar na configuração da teia de relações entre práticas culturais e
praticantes, para além da enunciação das regularidades estatísticas. Com
Bernard Lahire (2002), avançaremos, ainda, no sentido de compreender como as
situações e os quadros de interação (institucionais e informais) contribuem
para alterar as disposições, estéticas e outras. E, por falar em disposições,
urge entender a génese e o funcionamento dos mecanismos de transferência e de
contaminação entre esferas de atividade social: de que forma alterações
(bruscas ou paulatinas) nos esquemas de perceção e de ação estéticos conduzem a
reorientações éticas mais gerais, com potenciais efeitos ressocializadores?
Por outras palavras, que laços se estendem do mundo das artes e das culturas
para outros universos de significado e comportamento (partindo da hipótese de
que não são estanques)? As gentes do teatro e os sociólogos deste projeto
coincidiram também neste ponto. Se os primeiros, por via da ironia,
questionaram estereótipos de um teatro municipal de Lisboa sobre o teatro que
se faz no Porto, então, de uma assentada, poderiam evidenciar-se critérios de
classificação/categorização em que mergulham essas fabulosas máquinas
taxonómicas que são as instituições das políticas públicas, maximequando existe
esse desfasamento/competição interterritorial (Lisboa versus Porto). Se os de
Lisboa queriam conhecer o teatro nativo do Porto, o que de melhor se lhes
poderia oferecer senão a festa carnal dos próprios nativos, transformados em
públicos e, mais ainda, do Porto, atores/espetadores do seu próprio show, em
peregrinação/excursão à capital?
Mas as gentes do teatro depressa perceberam que poderiam ir além da paródia
performativa (e muito se poderia dizer sobre o papel da performancena estética
contemporânea, nomeadamente enquanto celebração canibalesca da arte pela arte
na tentativa, nem sempre bem-sucedida, de fazer colapsar distâncias entre
criadores e espetadores) e formarpúblicos.
Ideia, perigosa, bem o sabemos, uma vez que assente, desde logo, na presunção
de desejabilidade — os públicos querem ser formados (Costa, 2004). E ser
formado significa tantas vezes, do lado de quem forma, um exercício de
violência simbólica, a imposição dissimulada de um arbitrário cultural que
reifica um ponto de vista soberano sobre a realidade (Bourdieu e Passeron,
1970). Como se tratasse, alegoricamente, de uma transubstanciação — antes da
formação não existiam como públicos, ou, se existiam, vegetavam nos seus
primórdios bárbaros. Após a formação, dotados de uma aura de consagração e de
sagrado, seriam legítimos praticantes culturais. Nas palavras de Jacques
Rancière (2008), a educação do espetador parte da presunção de um abismo
radical entre quem forma e quem é formado, ensinando a estes últimos (os
públicos) o lugar da sua própria incapacidade.
Ora, o TMV planeou uma formação multidimensional, com os ingredientes de quem
não pretendia fazer tábua rasa das experiências anteriores dos sujeitos, nem
impor um determinado bom gosto cultural. Partindo de uma inquietação simples
mas acutilante — será que as pessoas que vivem no bairro da Sé e que amiúde se
cruzam na Praça da Batalha partilham algum tipo de familiaridade com o teatro
português contemporâneo, mormente com o que se produz no Teatro Nacional São
João, situado emblematicamente nessa praça? De um modo mais geral, que papel
desempenham as memórias e práticas teatrais na vida dessas pessoas? Ao
decidirem colaborar com associações e autarquias locais deram o mote para um
processo que se pretendia bottom-up.
Uma abordagem metodológica “de terreno”
Excelente ocasião para os sociólogos, habituados a estudar práticas e políticas
culturais. Convite, enfim, para a aplicação de uma etnografia dos públicos em
ação, através de um trabalho de pesquisa de terreno alicerçada na cumplicidade
das metodologias participativas. Nós, sociólogos, seríamos mais um elemento da
equipa de formação que também tinha como incumbência produzir o evento/
performance. Atuaríamos, é certo, como avaliadores do desenrolar do processo e
dos seus impactos, mas seríamos, também, mediadores entre a equipa teatral e os
habitantes da Sé selecionados para o projeto. Por isso, a nossa intervenção
oscilou entre a pesquisa de terreno estruturada pela observação participante
enquanto método, o aconselhamento e, de alguma maneira, a execução do projeto.
As conversas informais entre os membros da companhia e de instituições
artísticas participantes (nomeadamente o Teatro Nacional São João), os
habitantes, a Junta de Freguesia da Sé (autarcas e técnicos) e dirigentes
associativos articularam-se com dispositivos mais sistemáticos de produção de
fichas de caracterização sociológica, inquéritos de satisfação, entrevistas
semidiretivas e métodos visuais (quer a observação direta, nas suas versões
deambulantes, quer a recolha de imagem, aqui não analisada, em articulação com
a equipa de cinema documental).
Nesta etnografia dos públicos em ação, tentámos ainda concretizar a articulação
entre fenómenos estruturais (pertenças de classe e de género, idade, etc.) e as
singularidades/subjetividades dos participantes, focando-nos nos quadros de
interação como unidade de análise facilitadora do contínuo vaivém macro-micro,
especialmente adequados à análise dos “modos de relação entre as pessoas e os
seus contextos de ação”, neste caso quer os modos de relação “com as artes e a
cultura enquanto esferas institucionais especializadas”, quer “os modos de
relação concretos, em situação, das pessoas singulares com os seus contextos
imediatos de ação, no domínio das práticas culturais” (Costa, 2004: 134-135).
Vários foram esses quadros de interação: o enquadramento da Junta de Freguesia
ou do Teatro Nacional São João ou Teatro Carlos Alberto, nas sessões de
conhecimento dos bastidores dos equipamentos ou durante o antes, o agora e o
depois dos espetáculos teatrais a que os participantes foram assistir; as
preparações da viagem em contexto associativo e, é claro, o apogeu da própria
deslocação a Lisboa.
Esta abordagem permitiu-nos, para além de uma grande acumulação de registos de
vária ordem, cruzar níveis de observação: das regularidades sociodemográficas,
através do pequeno inquérito distribuído e da análise secundária de dados
estatísticos, até à captação de sentidos atribuídos aos espetáculos teatrais,
recolhidos nas próprias sessões, por observação direta metódica e sistemática,
por conversas informais ou entrevistas, passando pelo uso do estatuto híbrido
de sociólogo/membro da equipa de produção, no resgate de uma intersubjetividade
situada nos quadros de interação da associação e da Junta de Freguesia em
demorados convívios.
Do lado dos públicos: breve caracterização
A mediação da seleção do “público” através de instituições determinaria as
características sociodemográficas dos participantes. Um “público”
predominantemente idoso e reformado (42%), com reduzidas habilitações
académicas — proveniente dos contactos com a JFS —, existindo igualmente um
segmento não negligenciável de jovens estudantes (29%) recrutado pela ASZF de
entre os seus frequentadores mais assíduos. No seu conjunto, com idades
variando entre os 10 e os 84 anos. Importa, todavia, analisar estes dados mais
atentamente, começando pelo grau de participação da amostra em estudo.
Ao longo do projeto participaram na sua totalidade 48 pessoas, e embora só se
tenham registado 21% de desistências (15% antes do último encontro),
observando-se alguma variabilidade na assiduidade dos participantes.
[3]
Não obstante, no âmago desta dispersão foi possível verificar uma certa
continuidade na comparência aos encontros numa amostra de 38 elementos
repartidos entre a JFS (53%) e ASZF (47%).
Como podemos apurar na figura_1, também entre os participantes mais assíduos é
possível descobrir uma certa variabilidade na sua participação. Apenas 39%
estiveram presente em todos os encontros e 21% em quatro das cinco sessões
organizadas. O primeiro e terceiro encontros foram os que contabilizaram
maiores ausências da totalidade do “público do Porto” (46%).
Mas quem é este “público do Porto”? Para responder a esta questão é preciso
reanalisar os dados referentes aos elementos com maior participação e cruzá-los
com a informação recolhida dos que efetivamente se envolveram na performance
final e foram inquiridos nesse último encontro.
[4]_De_forma_a_facilitar_a_exposição_iremos_aqui_decompor_a_mescla_de
características_contidas_nos_indivíduos_com_uma_maior_assiduidade_ao_longo_do
projeto.
Apesar da seleção arbitrária, notoriamente sem fiscalização no que concerne a
critérios de amostragem científicos,
[5]_os_participantes_escolhidos_para_fazer_parte_do_“público_do_Porto”
acabariam_por_refletir_algumas_das_singularidades_próprias_da_população
residente_na_Freguesia_da_Sé.
O género é um desses indicadores. Constatamos que 26% eram participantes
masculinos e 74% femininos, o que pode sugerir uma acentuada feminização da
disponibilidade para a participação associativa.
Em relação à variável idade, averiguamos uma prevalência de jovens com menos de
15 anos (18%) e na a faixa etária dos 15 aos 24 anos (13%), situação
incentivada pela pertença associativa (ASZF). Entre os 18 e os 54 anos
deparamo-nos com redes de apoio, i.e., familiares relacionados com outros
elementos que cooperaram no projeto (13%) ou indivíduos que, mesmo mantendo
ligações profissionais com as instituições em causa, foram encarados como
agentes integrantes do “público do Porto” pelo caráter participativo
demonstrado (n = 5).
Encontramos, igualmente, um elevado peso de população idosa entre os 65 e os 75
anos (24%) e com idades superiores a 75 anos (21%), fenómeno explicado pelo
envolvimento com a JFS. Extrapolando os dados para a população do aglomerado da
Sé, é possível reparar que 26% dos residentes desta freguesia têm 65 anos ou
mais, 10% menos de 15 anos e 15% situam-se entre os 15 e os 24 anos (INE,
Censos 2011), valores próximos dos identificados no “público” recrutado.
Considerando a elevada representatividade de jovens e idosos neste projeto, não
é de admirar que, quando analisada a condição perante o trabalho, se testemunhe
uma elevada percentagem de indivíduos reformados e estudantes.
Entre as profissões desempenhadas pelos intervenientes reformados do “público
do Porto”, sobressai, no grupo feminino, o conjunto de funções na área dos
serviços, em particular o cargo de “empregada” (limpeza/restauração/lojista).
No meio masculino evidenciam-se os setores da construção civil e metalurgia.
Carreiras profissionais longas, difíceis, pouco remuneradas e que em alguns
casos se prolongam para além da idade desejável.
No que se refere aos níveis de escolaridade, cerca de 68% da nossa amostra
detinham nove anos de escolaridade ou menos (ver quadro_6). Se pensarmos na
história recente de Portugal encontramos inúmeras justificações para que se
registe uma percentagem de 42% de indivíduos que apenas detêm o primeiro ciclo.
Dados recentes do INE (Censos 2011) corroboram uma tendência de reduzidas
qualificações académicas da população residente nesta freguesia, onde 36% detêm
o 1.º ciclo, 14% o 2.º ciclo, um valor que cresce pouco em relação ao 3.º ciclo
(15%) e rapidamente decresce em termos de ensino secundário (10%) e ensino
superior (7,2%), aliás número muito abaixo da média do distrito do Porto (96%).
Em suma, como já foi mencionado, estamos na presença de jovens estudantes e
reformados pouco qualificados, englobáveis, em termos de pertença social, no
universo heterogéneo das classes populares urbanas.
Modos de relação com o teatro: algumas surpresas
Em seguida analisaremos a informação recolhida durante as sessões, sem
entrarmos (algo que deixaremos para futura publicação) na descrição densa da
performance final que, pela sua intensidade sociológica, requer outra minúcia.
Em primeiro lugar, surpreendeu-nos o elevado interesse de participação da
população. Tal disposição poderá ser explicada por uma forte exposição destes
grupos (idosos e jovens) à socialização de base associativa. Os elementos mais
jovens, com idades rondando em média os 12,7 anos, explicam que concordaram em
participar no projeto face ao convite exposto pela ASZF; os mais idosos (em
média com idades próximas dos 72 anos) indicam que a possibilidade de convívio
foi o motivo que mais pesou na decisão:
Porque gosto. Gosto de convívio, senão estou sozinha em casa a ver a novela.
[Nazaré, reformada]
Eu vim para distrair, não é? [Maria da Glória, empregada de limpeza]
A forte exposição destes grupos à socialização de base associativa abre as suas
disposições a um sentimento de boa vontade face a contextos potenciadores de
ocasiões de convívio. Na verdade, estão “habituados” a “iniciativas” e
“projetos”, bem como a uma certa proximidade face a instituições que colaboram
com as suas associações:
[Estes] convívios até são bons, passa-se um bom bocado. [Maria Laurinda,
reformada]
Inesperadamente, atendendo ao contexto em que se inserem, as práticas culturais
desta amostra são relativamente diversificadas. Entre os jovens encontramos o
futebol, os jogos de vídeo, a informática, a televisão, a música e até mesmo
experiências de teatro amador. Para combater a solidão imposta pela reforma e
em muitos casos a viuvez, os participantes seniores ocupam os seus tempos
livres em atividades dinamizadas pela Junta de Freguesia, nomeadamente a
“ginástica” e a hidroginástica. Simultaneamente, viagens, excursões e visitas
dinamizadas pela JFS são aproveitadas ao máximo pelos participantes idosos. O
visionamento de televisão e cinema compõe igualmente o rol de atividades
procuradas por este grupo, em especial no que se refere a telenovelas. A
audição de música e a frequência de concertos também os cativa. Entre as
estratégias de combate às parcas reformas e usufruto de tempos de lazer
destacam-se as peculiares viagens dos “papéis baratos”, panfletos informativos
que recebem via correio de eventos organizados por agências de viagem ou
empresas que pretendem reunir grupos para demonstrar os seus produtos.
Terceira novidade: apesar de pertencerem a classes sociais frequentemente
afastadas de práticas teatrais, várias foram as memórias partilhadas de
encontros e vivências com esta atividade. Alguns dos participantes idosos
recordam como iam enquanto crianças com os pais ao teatro, referindo que,
outrora, era uma das formas de recreação procurada, devido à ausência de meios
de comunicação, particularmente a televisão, e possibilitada pela inexistência
de idades mínimas estipuladas para a entrada de crianças. A experiência
teatral, por sua vez, estava longe de ser confinada aos géneros mais “nobres” e
distintivos:
[…] E quando era miúda… ia muitas vezes com a minha mãe ao teatro, ao Sá da
Bandeira. Muitas vezes. Porque nessa altura […] as crianças podiam ir. Vi A
Costureirinha da Sé, vi A Casa dos Gaiatos, vi muita coisa, muita coisa de
teatro. [Laurinda, reformada]
[…] Eu fui muitas vezes com a minha mãe ao Sá da Bandeira, era bem pequeneta!
Tinha 7/8 anos e ia muitas vezes com a minha mãe ao cinema, ao teatro! Ao Sá da
Bandeira, já se sabe que era o que havia! Veio esta coisa das leis, as leis por
causa das idades pronto, ficou tudo em casa! Os pais não iam por causa de não
deixar os filhos sozinhos em casa! Por isso… [Laurinda, reformada]
Indagados acerca do que anteriormente “chamava as pessoas ao teatro” respondem,
sem grande hesitação, que eram os “grandes nomes”, os atores de teatro
reconhecidos. Relembram saudosamente o papel da televisão na divulgação do
teatro e a existência de programas específicos destinados a esta arte, algo que
consideram perdido:
[…] hoje praticamente quem é que conhece […] quem está no teatro? Quais são os
atores de teatro? Eu não vejo por exemplo, não acompanho muito não é? Mas não
há aqueles atores famosos de teatro. Eles hoje fogem (sic) mais para a
televisão. Não é? Para as novelas, porque […] tão sempre em casa das pessoas,
do espetador na novela, enquanto que o teatro não. O teatro as pessoas têm de
se deslocar lá fora.[Joaquim, reformado]
Presentemente, as suas redes de pensamento misturam e agregam “estrelas” de
“antigamente” com intérpretes de agora, provavelmente conhecidos através de
“novelas” ou outros programas televisivos nacionais: Laura Alves, Eunice Muñoz,
Simone de Oliveira, Raul Solnado, Ruy de Carvalho, Ribeirinho, Cidália Moreira,
Artur Semedo, Vasco Santana, Vasco Melgado, Florbela Queirós, Mário Viegas,
António Feio, Fernando Mendes, Rita Guerra, José Raposo, Anabela, Óscar Branco,
Alexandra Lencastre, Virgílio Castelo, Pedro Cerdeira, Pedro Teixeira, FF…
Este tipo de memória, que apela a uma receção emocional (longe da estética pura
kantiana, baseada no ascetismo e distanciamento) — mas que é uma estética e não
um subproduto degenerado do entretenimento popular —, está ainda associada a
ciclos de vida em que ir ao teatro facilitava o namoro e o casamento:
Namorava eu com o meu marido […] já há quatro anos, e fomos lá ver um filme que
era… Cantara a Bilhetera (sic) … Já vai há muitos anos… parece que era a Carmen
Dolores… […] gostei muito! E… e quando era solteira ia várias vezes com ele ao
teatro. Depois de casada… é claro… como ele era do Circulo Católico, ele
entendia mais ir para o Circulo Católico que tinham os espetáculos deles lá!
[…] [Laurinda, reformada]
A vivência e o lado sensível da fruição suplantam claramente as categorias
analíticas (Lopes, 2004), próprias de uma receção em sentido estrito.
Confundem-se nomes e misturam-se referências:
[…] Lembro-me de ir ver A Menina do Mar e O Ulisses, acho que era O Ulisses ou
era O Hércules, agora não tenho a certeza. […] [Iris, colaboradora da ASZF]
Ainda me recordo da primeira peça que fui ver ao Teatro Experimental do Porto
que hoje já não existe, Um Pé de Laranja Lima da Sophia de Mello Breyner, ainda
me recordo. [José, presidente da ASZF/vigilante]
Atualmente, o desencontro do “público” com o teatro é acentuado. Mesmo
revelando uma inesperada familiaridade com teatro, patente, ainda, no
conhecimento das várias salas da cidade (Sá da Bandeira, Carlos Alberto,
Rivoli, Coliseu…), cedo os hábitos se vão perdendo num envelhecimento cultural,
configurando uma espécie de regressão disposicional por ausência de contextos
de ativação:
[…] Já fui ver lá há muitos anos a Helga. Atualmente não porque [pausa] não
puxa. [Glória, empregada limpeza]
Mas ia muitas vezes, eh, até à minha adolescência […] ao teatro. Depois perdi o
hábito por… sei lá! […]. [José, presidente da ASZF/vigilante]
O “hábito perde-se” por constrangimentos familiares, laborais e financeiros.
Porém, e ao contrário do que poderiam esperar, a frequência de ida ao teatro
não acresce com a libertação de constrangimentos laborais e a chegada da
reforma.
Confrontados com a atualidade do teatro portuense, dificilmente conseguem
identificar salas recentes em funcionamento, omitindo nomes como o Teatro do
Campo Alegre, Teatro Helena Sá e Costa, Teatro da Vilarinha ou Teatro de
Belomonte — Teatro de Marionetas do Porto. O próprio TNSJ, com o qual convivem
diariamente nas suas deambulações urbanas, suscita estranheza e até
desconfiança:
Acho que os espetáculos que têm lá, é mais pra “granfina” não é pra nossa
classe. Acho que é assim mais pra gente… pra meninos queques e assim senhores.
[…] Porque agora no São João só vai gente mais chique, vai gente mais moderna,
vai gente de, de rabona… […] e a gente não tem capacidade por isso não vai! […]
[Glória, empregada limpeza]
Mas, apesar desse afastamento, é possível perceber um enorme interesse por esta
arte e um desejo de ampliar a sua frequência:
Gostava imenso de ir ver um teatro! [Alice, reformada]
Adoro comédia! Adoro revista! Gosto muito! [Alice, reformada]
[…] Eu gostava até de ir, por exemplo, uma vez por semana, não me importava de
ir [risos] ao teatro! [Alice, reformada]
Eu gosto também muito de ir ao teatro, e acho que não há ninguém que não goste!
[Laurinda, reformada]
Até uma vez por mês já ficava toda contente. [Laurinda, reformada]
[…] Gostam, então não gostam? Eu acho que sim, eu gostei sempre de teatro!
[Alberto, reformado]
Quarta surpresa: contrapondo às memórias atuantes dos idosos, os mais jovens
possuem poucas recordações das suas visitas a espetáculos de teatro, o que
talvez demonstre a franca concorrência de outras fontes de informação e oferta
lúdica. Os adolescentes afirmam terem ido diversas vezes ao teatro, mas sempre
através da escola, o que justifica que as crianças mais pequenas ainda não
tenham tido essa vivência. Poderá questionar-se a qualidade dessa experiência,
que os transforma em públicos cativos dos equipamentos culturais (Coulangeon,
2003), uma vez que a prática de ir ao teatro enquanto criança e através da
escola sem prévia preparação constitui um ato que dificilmente se recorda ou
cria mecanismos de perpetuação. Quando questionados sobre esta distância,
remetem-se a um silêncio envergonhado. Uma das participantes adultas intervém
na conversa e adianta algumas pistas interpretativas:
Não é uma questão de memória. É uma questão de obrigação! Porque eles na escola
são obrigados a ir ver a peça! Eles não vão porque gostam são obrigados a ir!
[Marlene, assistente técnica, Ministério da Saúde]
Se calhar se eles fossem ver uma coisa que dissessem assim: “Olhe eu vou porque
gosto!” Se calhar lembravam-se! [Marlene, assistente técnica, Ministério da
Saúde]
Em contrapartida, conquanto cientes de limitações na dinamização de parcerias e
iniciativas deste tipo, como menciona uma das professoras voluntárias no ATL,
seria porventura mais importante o teatro ir à escola e não o inverso:
É assim, eu penso que já é muito bom o facto de eles irem ao teatro pela
escola, já os sensibiliza para esse âmbito e acho que… poderá abrir-lhes um
bocadinho os olhos e […] sensibilizá-los para eles quererem continuar a ir ao
teatro, penso que sim mas… [Deolinda, professora]
Mas acho que ainda, ainda podia haver mais, uma maior sensibilização nessa,
nesse campo porque eles ainda não estão muito voltados para o teatro […] Acho
que o teatro devia ir à escola, é essa a minha ideia. […]. Eh, como vocês estão
aqui… [Deolinda, professora]
Podiam também fazer com as escolas. [Deolinda, professora]
Outro elemento importante para explicar a rarefação de saídas culturais neste
grupo terá sido o aparecimento da televisão, enquanto “entretenimento no
conforto do lar”, em especial para gerações mais envelhecidas. Cumulativamente,
são referidos como concorrentes diretos do teatro o cinema, o vídeo e o boom da
era digital e dos videojogos.
Os adultos da nossa amostra referem, por seu turno, que as obrigações
familiares e os encargos que acarretam determinam opções de consumo e
subalternizam a escolha do teatro como prática de lazer:
[…] E depois entretanto nasceram os filhos não é? E a gente fica mais um bocado
mais… Mais presos, já não pode… E também é um bocado puxado para, pra ir uma
família é um bocado puxado ir ao teatro. [Marlene, assistente técnica,
Ministério da Saúde]
Contrariando expetativas que pudessem acalentar de segurança financeira na
idade de reforma, os anos de sacrifício e trabalho árduo nas suas juventude e
vida adulta garantiram apenas baixos subsídios de subsistência (entre os 100 e
200 euros). Estas reduzidas pensões não permitem grande margem de manobra do
orçamento familiar e, mais uma vez, atividades extra são eliminadas da equação:
[…] vou poucas vezes ao teatro porque não tenho possibilidades. À uma, somos
reformados, não é com 180 euros que eu ganho […] que me posso esticar. Isto é,
é português é assim. [Maria Laurinda, reformada]
Quem quer ver o teatro vai ao teatro! Vai ao teatro. [Alberto, reformado]
Só que a finança é que é pouca. Agora… a massa é que é pouca! [Alberto,
reformado]
Porque não podem! Porque não podem! É uma miséria e cada vez é mais miséria que
eles tão a tirar tudo à gente! Como é que se há de ir ao teatro que a gente não
tem dinheiro para governar-se? [Alberto, reformado]
A solidão ou o desinteresse por parte do cônjuge por práticas exteriores de
lazer determinam igualmente uma menor frequência do teatro. A perda do cônjuge
desempenha um papel ambivalente, consoante o tipo de relação afetiva: tanto
pode levar à procura de saídas culturais no combate à exclusão social como,
contrariamente, encerrar mais os indivíduos nas suas habitações e na solidão:
Eu […] junto-me mais agora porque estou viúva, desde que o meu marido faleceu
[…]. O meu marido era uma pessoa, durante o dia trabalhava, chegava cansado de
andar agarrado à regueifa (sic) e depois chegava a casa depois de tomar um
banho queria comer e deitar-se na cama, pronto e ficar ali. [Laurinda,
reformada]
Agora estou, sou livre como os passarinhos vou pra todo o lado! [Laurinda,
reformada]
Não vou assim a estes convívios porque sou… tenho… marido, não é? [Maria da
Glória, empregada de limpeza]
O medo da cidade, associado a uma perceção subjetiva de insegurança, contribui
também para o retraimento na esfera privada:
Agora também não se pode andar na rua de noite. [Alice, reformada]
Ora bem, eu falo por mim. Quem tem maridos tudo bem vão como é com os maridos.
Agora nós que somos (a maior parte) que somos viúvas e moramos numa zona muito
degradada não podemos andar sozinhas por aí. Eu falo por mim. [Laurinda,
reformada]
Vou ver se vou ver este que é aqui perto de minha casa tá a compreender? Porque
senão de noite não andava na rua também, além de ir com o marido. Não andava na
rua que é perigoso. À noite, à noite chega-se às oito horas da noite, oito e
meia… [Maria Laurinda, reformada]
É, a cidade, a cidade do Porto está… é muito só. Não há nada! Começa a cidade a
ficar toda deserta! [Joaquim, reformado]
Surpreendentemente ou nem tanto, a divulgação da programação organizada pelos
espaços culturais da cidade é compreendida como uma enorme falha que distancia
o público do teatro:
[…] as pessoas não vão ao teatro não é por causa do dinheiro… absolutamente! Eu
penso que não se vai ao teatro hoje por causa da divulgação! […] Primeiro
porque não sabem! Se não vão ao teatro não sabem… [José, presidente da ASZF/
vigilante]
[…] arranjava-se sempre 5 euros para se ir ao teatro se nós gostássemos e se
fosse divulgado o que é que a companhia ou aquele grupo de teatro está a fazer
em determinado teatro […]. [José, presidente da ASZF/vigilante]
O marketing utilizado na divulgação dos espetáculos e a insuficiente informação
são persistentemente apontados como lacunas que, por vezes, os apartam da
receção cultural. Vários problemas vão sendo enumerados ao longo dos encontros,
como a incompreensão da mensagem dos cartazes, ou a excessiva utilização de
língua estrangeira. De forma a aproximar os equipamentos e propostas culturais
à realidade do “público do Porto” os participantes sugerem três abordagens
distintas de divulgação: cartazes publicitários distribuídos pela cidade;
recurso a anúncios televisivos e recuperação de uma prática antiga dinamizada
no átrio dos espaços de espetáculo, a exposição fotográfica.
Ora, várias das instituições mencionadas (TNSJ, Teatro Municipal Rivoli, etc.)
têm ao seu dispor meios de difusão sofisticados e diversificados. No entanto,
mesmo concedendo que esta referência pode surgir, nas atitudes dos
entrevistados, como transferência de uma “responsabilidade” a outrem (até
porque têm consciência aguda de que é socialmente “desejável” frequentarem tais
instituições…), não é menos verdadeiro que diversos estudos (por exemplo,
Lopes, 2011) têm recorrentemente demonstrado que os dispositivos de divulgação
falham amiúde na sua eficácia, tanto porque os destinatários mais retraídos não
estão familiarizados com as linguagens utilizadas, como pelo facto de as
cadeias de transmissão da informação passarem, antes de mais, pelas redes de
sociabilidade e não pelos suportes institucionais.
Que a gente lê os cartazes, aquilo às vezes não nos diz nada! O que é que
aquilo nos diz? Ainda agora está lá um… só vê um homem, e umas letras assim e
não sei quê. Aquilo não diz nada à gente! Não me diz nada não vou! [Gracinda,
empregada de limpeza]
E como reagiu o “público do Porto” aos encontros dinamizados? O inquérito de
satisfação — alusivo às sessões e aos espetáculos a que haviam assistido no
Teatro São Luiz —, aplicado no último encontro a uma amostra da população (n =
32) faculta algumas informações nesse âmbito. Como é visível na figura_2,
presenciamos uma reação positiva referente aos diversos encontros,
principalmente em relação à viagem a Lisboa (100%), ao visionamento da peça de
teatro Bela Adormecida (81%) e à visita ao TNSJ (78%), superando na maioria dos
casos as expetativas que tinham sobre os encontros, em especial o momento da
viagem final (78%).
Destes dados conseguimos concluir que a fruição das peças propriamente dita é o
que mais mobiliza este conjunto de pessoas, o que indicia uma franca abertura
para um trabalho de formação de públicos. Mas um olhar mais profundo dar-nos-á
novas pistas.
Apesar do registo de valores sempre acima dos 70%, nos indivíduos com ligações
à JFS é verificável a preferência pelos últimos dois encontros (87% pela sessão
4 e 100% pela sessão 5). Estes números poderão indicar uma maior fidelização ao
projeto com o avançar do mesmo. De certa forma, podemos considerar que não só o
visionamento de teatro cativa este grupo, mas também a própria experiência, a
troca intergeracional e o convívio proporcionado nestas ocasiões:
[…] Eu gostei imenso. Eu gostei muito. Gostei, eu gostei de tudo… gostei sim
senhora. E assim como gosto destas reuniões que a gente tem tido. Em tudo por
tudo. Fazemos convívio uns com os outros. Fazemos convívio com os jovens,
saímos de casa, e puxa-se uns aos outros! “Vamos embora, vamos embora!” “Ah
hoje não vou!” “Vamos sim senhora, vamos embora!” É muito bom. [Laurinda,
reformada]
Notas finais
Não sendo ainda esta a altura para fazer a avaliação de impacto do programa
(nomeadamente no seu eventual sucesso de criação de apetências e/ou disposições
culturais favoráveis à fruição teatral, o que exige continuidade quer no
projeto, quer na sua monitorização sociológica, ambos já assegurados),
[6]_importa_contudo_registar_algumas_(relativas)_surpresas_no_diagnóstico_dos
modos_de_relação_destes_públicos_com_a_cultura:_não_só_apresentam,_dentro_de_um
quadro_de_privação_relativa,_atividades_culturais_e_de_lazer_relativamente
diversificadas_(fruto,_em_parte,_de_uma_forte_exposição_aos_dispositivos_e
ofertas_associativos),_como_revelam_uma_atitude_favorável_à_novidade_e_à
reativação/incorporação_de_apetências_teatrais.
No caso dos adultos e dos participantes mais velhos, as memórias do teatro e
das salas de espetáculo da cidade continuam ativas, embora fortemente
relacionadas com fases de vida específicas. Todavia, constrangimentos
financeiros, obrigações familiares, sentimento de insegurança e défice de
capital social podem contribuir para uma certa anomia doméstica. Os mais
jovens, por outro lado, apesar do contacto escolar esporádico com esta forma
artística, não lograram ainda constituir um património afetivo. Entre as
diversas gerações, sobressai também a densa concorrência de outras práticas
culturais. Mas que não destruíram, em qualquer dos casos, uma intensa
curiosidade e uma expetativa positiva face à possibilidade de uma renovada
fruição teatral aberta por este projeto.
Os participantes eram, já o dissemos, espetadores e atores. Ora, o ator mantém
a carga do original termo grego: hypokrites, aquele que interpreta. Interpretar
significa, em parte, (re)criar; (re)inventar, ao invés da marioneta dependente
de um demiurgo oculto — o ofício, precisamente, do recetor cultural que
participa na própria expressão e criação artísticas.
Em suma, a etnografia dos públicos em ação mobilizada neste estudo pretendeu
resgatar as possibilidades de criação de disposições ou de ativação de
disposições adormecidas e/ou enfraquecidas mediante um programa aparentemente
inovador de formação de públicos através da sua dignificação enquanto agentes
que “observam, selecionam, comparam, interpretam” (Rancière, 2008: 19) em
quadros de interação delimitados e territorialmente contextualizados.