Políticas públicas de educação: equidade e sucesso escolar
Introdução
Desde o início da década de 1960 a equidade tem constituído uma questão que
permanece, sob formas diversas, na agenda das políticas públicas de educação
dos países desenvolvidos e, mais recentemente, da maioria dos países em todo o
mundo.
Em 2007 a OCDE publicou um relatório designado No More Failures. Ten Steps to
Equity in Education (Field, Kuczera e Pont, 2007), que resultou de um estudo
(Thematic Review of Equity in Education), realizado em dez países da
organização, sobre a equidade nos seus sistemas educativos.
[1] Tal estudo partiu das desigualdades reveladas pelos resultados do PISA 2003
(OECD, 2004), que mostraram que, em muitos países, um largo número de alunos
não dominava as competências escolares básicas. Todavia, observando os
resultados da Finlândia, verifica-se que, ao contrário da maioria dos países,
apenas 1,8% dos rapazes e 0,3% das raparigas não mostram competências básicas
de leitura, o que permite concluir que tais desigualdades, não são, afinal, tão
inevitáveis como pode aparentar a generalidade dos resultados. Mas o nível de
risco demonstrado pela associação entre os resultados escolares e a exclusão
social coloca novas questões acerca da equidade dos sistemas de educação dos
diversos países.
Sabe-se hoje que a educação tem um papel determinante no nível das remunerações
e nas oportunidades de emprego das pessoas (Woessmann, 2006), sendo os níveis
educativos fundamentais para a explicação da distribuição dos rendimentos e da
pobreza (Psacharopoulos, 2007). A equidade em educação é, portanto, um
instrumento fundamental da equidade social e a desigualdade de resultados
escolares tem custos sociais e económicos. O insucesso escolar e o abandono
aumentam os riscos de desemprego, de delinquência juvenil e de criminalidade,
com os impactos correspondentes para a sociedade (The Prince´s Trust, 2007).
Também a Comissão Europeia, em 2006, colocou a equidade na agenda das políticas
públicas, apresentando ao Conselho Europeu e ao Parlamento uma comunicação sob
o título “Efficiency and equity in European education and training systems”
(CEC, 2006). Esta comunicação considera a equidade[2] e a eficiência[3] dos
sistemas de educação e formação as duas condições centrais para assegurar as
finalidades essenciais da Estratégia de Lisboa — competitividade e coesão
social —, considerando também que as mesmas se relacionam entre si
influenciando-se mutuamente (Demeuse, Baye e Doherty, 2007).
Os documentos da OCDE e da União Europeia citados têm em comum, para além da
contemporaneidade, o facto de considerarem a equidade como uma questão central
das políticas de educação, olhando-a, não só como um objetivo, mas também como
um instrumento essencial das políticas públicas. Ambos consideram a equidade em
educação como um fim em si mesmo, porque o direito ao desenvolvimento das
capacidades de cada pessoa e à sua participação na sociedade faz parte dos
direitos inscritos na maioria das leis fundamentais dos diferentes países, e
ambos consideram também que a equidade em educação é uma condição indispensável
à consecução de outros fins, quer sociais quer económicos, e portanto à
formulação das políticas públicas.
No respeitante à equidade, podemos identificar historicamente três fases nas
políticas públicas de educação, começando com a igualdade de acesso, ou seja, o
direito de todos à frequência da escola independentemente da sua origem,
passando depois à igualdade de tratamento (ou de recursos), ou seja, a
prestação a todos de igual serviço educativo, e mais recentemente à igualdade
de resultados e competências (Demeuse e Baye, 2008).
Relativamente à primeira fase podemos referir, como exemplo central, as
políticas de estabelecimento e alargamento da escolaridade obrigatória, bem
como a transição para sistemas escolares mais unificados e, portanto, menos
segmentados e elitistas. No respeitante à igualdade de tratamento, as políticas
concebidas foram essencialmente assentes no reforço das condições escolares dos
grupos sociais ou dos indivíduos mais desfavorecidos (dar mais aos que têm
menos), ficando conhecidas como políticas de “educação compensatória” ou de
“educação prioritária”, sendo os exemplos mais conhecidos as “zonas de
intervenção prioritária” em França (ou em Portugal os TEIP — “territórios
educativos de intervenção prioritária”) (Rochex, 2011).
A questão da igualdade de resultados e competências veio introduzir maior
complexidade na definição das políticas de educação, porque implica
necessariamente a igualdade de oportunidades e de tratamento (ou de recursos),
mas vai para além delas. Enquanto estas podem ser olhadas como uma “condição”,
aquela é um “resultado” da interação de todas as variáveis sociais e escolares,
mas, ao mesmo tempo, também uma condicionante dessa mesma interação, daí
resultando o conceito de equidade, que assim engloba os resultados e as
condições de obtenção dos mesmos.
Devido a tal complexidade o próprio conceito não é inteiramente estável,
variando quer do ponto de vista político e social, quer em função de diferentes
sistemas escolares, ou mesmo entre os diferentes níveis dum mesmo sistema. Na
verdade, a igualdade de acesso, por exemplo, é fundamental como condição de
equidade no ensino básico, mas não o é da mesma forma no que respeita ao ensino
superior. Poderemos até dizer que o princípio da igualdade de acesso é hoje
predominante na educação pré-escolar, o da igualdade de resultados no ensino
básico e o da igualdade de oportunidades no ensino secundário e no ensino
superior (Herbaut, 2011). Por outro lado, as inúmeras variáveis dos sistemas
escolares que podem interagir no respeitante à equidade colocam também
problemas à estabilidade da definição, podendo referir-se o acesso a cada nível
do sistema escolar, a atribuição de recursos (professores, material pedagógico,
tempo de ensino, etc.), as condições de aprendizagem (níveis de inclusão ou
segregação, currículo, práticas de ensino, etc.) e os resultados, quer internos
(taxas de abandono, repetência, transição, competências adquiridas, etc.) quer
externos (efeitos económicos e sociais, como o rendimento privado e público).
Daqui resulta, pois, uma maior complexidade para a definição e implementação de
políticas de educação que tenham em conta a ação conjugada de todas as
variáveis, quer respeitantes ao acesso, quer aos recursos e condições, mas
também aos resultados internos e externos e à sua retroação com as outras
variáveis.
Resultados escolares, equidade e políticas públicas
Estudos recentes têm procurado definir indicadores para a equidade (e também
para a eficiência) nos sistemas de educação. Meuret (2001) propõe um modelo que
articule o contexto, o processo, os resultados internos e os resultados
externos. Em 2005 o European Group of Research on Equity of Education Systems
(EGREES) definiu um conjunto de 29 indicadores com essa finalidade a partir dos
resultados do PISA (Baye e outros, 2006; EGREES, 2005). Em 2007, no seu estudo
sobre o insucesso e a equidade, a OCDE utilizou quatro grupos de variáveis para
o mesmo efeito: (1) variabilidade de resultados nas escolas e entre escolas,
(2) desistência ou abandono escolar precoce (antes do final do secundário), (3)
tipologia de percursos escolares e (4) integração de migrantes e minorias
(Field, Kuczera e Pont, 2007).
Na verdade, as caraterísticas dos sistemas escolares que se relacionam com a
sua equidade e a sua eficiência são diversas e numerosas (Demeuse e Baye, 2009;
Demeuse, Crahay e Monseur, 2001; Herbaut, 2011; Meuret, 2001) e poderemos
sistematizá-las em três áreas de organização:
as condições de acesso e participação em cada nível educativo e em cada via ou
percurso escolar; a atribuição e alocação de recursos, como a distribuição de
professores, do tempo de ensino ou do material pedagógico; as condições de
aprendizagem e o processo de ensino, incluindo os níveis de segregação ou
inclusão na organização do acesso a cada escola e na constituição das turmas, o
currículo e as práticas pedagógicas.
A análise, avaliação ou manipulação das variáveis referidas em razão da
equidade obriga necessariamente à consideração de indicadores relativos aos
resultados obtidos, que podemos categorizar em dois grupos:
resultados internos do sistema escolar, que se reportam ao percurso dos alunos
(níveis de frequência, abandono, transição, retenção, diplomação, bem como
competências adquiridas); resultados externos, que se reportam aos efeitos
sociais e económicos da educação, como o rendimento privado e público, o
emprego, os níveis salariais, mas também a participação social e a
criminalidade, entre outros fenómenos.
O estudo sobre os resultados externos, obrigando necessariamente a análises de
mais longo prazo, tem, no entanto, vindo a mostrar a sua grande importância,
não só para as políticas de educação, como para as políticas públicas em geral.
A relação entre os níveis escolares, o emprego e o rendimento tem sido das mais
estudadas. Em 2007 um grande estudo na Grâ-Bretanha (The Cost of Exclusion)
concluiu que existe uma elevada correlação entre insucesso escolar, desemprego
jovem e criminalidade. De acordo com o mesmo estudo, a perda de produtividade
da economia britânica devida ao desemprego jovem seria de 10 milhões de libras
por dia e as consequências no rendimento futuro de cada jovem desempregado, que
estivesse fora do sistema de formação, seria de 8% a 15%. O mesmo estudo
assinala que o custo da criminalidade jovem, associada ao desemprego e ao
insucesso escolar, era de mil milhões de libras em 2004, e ainda que o
benefício social, por cada ponto percentual na taxa de conclusão do ensino
secundário, seria de 2 a 4 mil milhões de libras (14% a 26% do retorno privado)
(The Prince´s Trust, 2007).
Também as relações entre o sucesso ou insucesso escolar e o desempenho no
mercado de trabalho estão amplamente estudadas em diversos países. “Existe
ampla evidência empírica que mostra que a quantidade e qualidade da
escolarização acarreta diferenças significativas na produtividade e nos
salários e rendimentos, quer do ponto de vista individual, quer social”
(Woessmann, 2006).
Com base nos dados do Eurostat, Psacharopoulos (2007) conclui que o diferencial
de rendimento entre os que possuem e os que não possuem o ensino secundário na
UE se situa entre 23,9% e 32,4%. Estudos anteriores realizados nos EUA e no
Canadá e citados pelo mesmo autor concluíram, também, que cada ano adicional de
ensino secundário aumenta o rendimento do indivíduo entre 9% a 11% ao longo da
sua vida. Os mesmos estudos mostram ainda que esse aumento de escolaridade
teria um impacto de redução de 29,9% nos custos da segurança social e de 38,6%
no número de indivíduos pobres nos EUA, e de 8,3% no Canadá.
Também no respeitante aos níveis de saúde e respetivos custos existe
investigação que mostra as relações com a educação. Assim, os efeitos da
educação podem equacionar-se em resultado de dois fatores: a influência sobre o
comportamento, tendo em conta um maior conhecimento e conscencialização do
risco e, por outro lado, um rendimento mais elevado, como atrás se referiu,
permitindo assim o incremento do acesso e do uso dos meios de prevenção e
tratamento. Os estudos nos EUA mostram efeitos significativos, o que seria de
esperar, tendo em conta a relação entre o rendimento e o acesso à saúde no
país. Assim, em 1999 a taxa de mortalidade dos indivíduos entre os 25 e os 64
anos, sem ensino secundário, era o dobro da dos indivíduos com curso superior
(Culter e Muney, 2006, cit. por Psacharopoulos, 2007). Mas também na Europa
existe evidência empírica sobre esta relação. A diferença da taxa de pessoas
sem ensino secundário com doenças de longa duração, relativamente aos
portadores dessa habilitação, é de 7,5% na Bélgica, 8,8% na Dinamarca, 12,4% na
Noruega e de 17,1% na Lituânia, de acordo com os dados do Eurostat
(Psacharopoulos, 2007).
A relação entre os resultados escolares, medidos em regra pelo sucesso escolar
e os resultados externos reportados aos efeitos sociais e económicos parece
pois, hoje, contar com diversas comprovações empíricas. Mas o efeito do sucesso
(ou do insucesso) escolar na aprendizagem e no desenvolvimento das competências
dos indivíduos ao longo da vida é igualmente importante na análise das questões
de equidade no âmbito das políticas públicas de educação.
Na última década as contribuições do prémio Nobel James Heckman e dos seus
seguidores têm grande significado e impacto para as já citadas políticas. Esta
abordagem assenta num modelo econométrico que permite avaliar os efeitos da
educação e formação no ciclo de vida de uma pessoa (Heckman, 2000; Cunha e
outros, 2005). Assim, a formação de competências é entendida como um processo
em vários estádios de educação e formação ao longo da vida (life cycle). A
aprendizagem feita num estádio é o input para o processo de aprendizagem no
estádio seguinte, o que os autores designam por produtividade recursiva. Por
outro lado, a produtividade com que o investimento feito num estádio de
educação / formação é transformado em competências válidas é positivamente
influenciada pelo nível de competências que a pessoa já desenvolveu no estádio
anterior, o que os autores designam por complementaridade. Explica-se assim a
sinergia dinâmica que caracteriza o processo educativo, no qual aprendizagens
anteriores geram novas aprendizagens.
Esta abordagem tem profundas consequências para as políticas públicas no âmbito
da equidade e da eficiência em educação. Da mesma resulta, como se verifica nas
análises feitas por aqueles autores (Cunha e Heckman, 2010), que o investimento
financeiro nos estádios educativos mais precoces é mais importante devido ao
seu efeito nas aprendizagens futuras, daí resultando, portanto, um retorno
muito mais elevado. Acresce o facto de que os mesmos estudos verificam que tal
efeito é ainda mais significativo nas crianças de meios mais desfavorecidos. O
retorno é assim maior nos primeiros estádios (educação pré-escolar e básica),
especialmente para os mais desfavorecidos, declinando progressivamente ao longo
do ciclo.
O sucesso escolar como indicador de equidade
Como já atrás se analisou, existem diversas variáveis e indicadores utilizados
no estudo da equidade e da eficiência da educação. Mas os resultados escolares
são, em tais estudos, uma variável central, quer seja usada como variável
dependente, quer como independente, e quer a relação procurada seja com
condições sociais ou organizacionais relativas a acesso, participação, recursos
ou processo de ensino, quer seja com efeitos sociais e económicos da educação.
Os indicadores para a operacionalização dos resultados escolares são em largo
número. Podemos considerar dois tipos essenciais: indicadores de participação e
indicadores de aproveitamento. No primeiro caso temos as taxas de acesso,
frequência e abandono / desistência. No segundo caso haverá que considerar as
taxas de aprovação / reprovação, transição / retenção e diplomação. Mas, nos
indicadores de aproveitamento, haverá que ter em conta ainda os respeitantes à
qualidade do aproveitamento, ou seja, às competências adquiridas e que podem
ter natureza interna ao sistema escolar (classificações periódicas e exames) ou
externa (provas internacionais).
É pois disto que falamos também quando falamos de sucesso ou insucesso escolar,
quer o consideremos do ponto de vista do aluno, da escola ou da sociedade. Será
pois consensual dizer que o nível de sucesso escolar (medido por quaisquer dos
indicadores referidos) tem uma clara e profunda relação com a equidade e com a
eficiência em educação.
Os primeiros estudos sobre o insucesso escolar em Portugal e a sua relação com
a política educativa, designadamente nas questões da igualdade e da equidade,
aparecem na segunda metade da década de 1970 e centram-se especialmente na
relação entre o insucesso ou o aproveitamento escolar e a origem social dos
alunos (cf. Sebastião e Correia, 2007). Mas a emergência do insucesso como
problema social tem lugar, na Europa, no final da década de 1950,
concomitantemente com o alargamento, a democratização do acesso e a
massificação do ensino secundário (Isambert-Jamati, 1985). Três razões
essenciais contribuíram para tal facto. A primeira é de caráter prático e
respeita a questões quantitativas: por um lado, o crescimento do número de
indivíduos envolvidos no fenómeno e a sua extensão a populações não só de
classes médias, começando a envolver também indivíduos das classes
desfavorecidas e, por outro lado, o crescimento dos custos decorrentes do
aumento do número de alunos nas escolas. A segunda razão releva da expansão e
aceitação das teorias do capital humano e do convencimento derivado de que o
sucesso escolar tem não só impacto individual, mas também um significativo
impacto social, designadamente no desenvolvimento económico das sociedades.
A terceira razão surge associada à emergência de estudos sobre a relação entre
o insucesso escolar dos alunos e as suas origens sociais e culturais.
Até àquela altura o insucesso escolar era visto como uma questão psicológica
individual e não como uma questão social. A explicação mais aceite era a
“teoria dos dotes”, que estipulava que o sucesso ou insucesso dos alunos eram
explicados pelos seus dotes naturais, o que remetia a questão para a dimensão
individual, descontextualizando-a da dimensão social ou política (cf.
Benavente, 1990). Com o aparecimento dos estudos e das teorias sobre a
“reprodução social” (Bourdieu e Passeron, 1970) e sobre o “handicap
sociocultural” (Bernstein, 1975) há uma alteração significativa na abordagem
científica, que passa a estar centrada na questão social, o que, em conjunto
com a aceitação generalizada da teoria do capital humano e num contexto de
forte explosão da procura, conduz o problema para o cerne das políticas
públicas de educação. Mas alguma reação ao “fatalismo” daquelas teorias (“a
escola não faz diferença”) conduziu à investigação do efeito da própria escola
no insucesso / sucesso escolar e a novas evidências sobre o papel da escola e
da sua estrutura, organização e funcionamento na produção dos resultados
escolares (Good e Weinstein, 1992; Perrenoud, 1984, 2003; Pires, Fernandes e
Formosinho, 1991; Van Zanten, 1996).
Por outro lado, a medição e interpretação dos resultados escolares, incluindo
os conceitos de sucesso e insucesso, também sofreram evoluções ao longo do
tempo. Desde logo devemos ter em conta que as práticas pedagógicas e
organizacionais, no respeitante às questões do insucesso escolar, são
historicamente diferenciadas nos diversos países. Assim, enquanto em França,
Bélgica, Portugal e em regra nos países do sul da Europa se tem utilizado a
retenção e a repetência como instrumento pedagógico na organização dos
percursos escolares dos alunos, tal não é a situação habitual dos países do
norte da Europa, como a Inglaterra, a Dinamarca ou a Noruega, onde a prática
não existe ou é excecional ou residual. Assim, se o abandono ou saída precoce
são bons indicadores para o sucesso ou insucesso, já a retenção e a repetência
apenas constituem indicadores robustos no primeiro grupo de países.
As diferentes formas de medir os resultados escolares, resultantes da
diversidade dos sistemas de ensino, criaram dificuldades aos estudos
comparados, designadamente de organizações internacionais como a OCDE, no
âmbito da sua estratégia de coordenação e influência nas políticas públicas dos
países membros (Henry e outros, 2001).
Assim, a OCDE desenvolveu, no final dos anos 80 e início dos anos 90, um
projeto (INES — International Indicators of Education Systems) tendo em vista a
definição de indicadores que permitissem a comparação entre os diversos países,
os quais são regularmente publicados no relatório Education at a Glance. Desses
indicadores destacam-se, naturalmente, os respeitantes aos resultados dos
alunos. Para tal efeito a OCDE veio a desenvolver um programa de testagem aos
alunos dos diversos países, designado PISA (Programme for International Student
Assessment). Tal programa propôs-se testar competências dos alunos no âmbito
dos desafios da sociedade do conhecimento e tem abrangido, desde 2000, as áreas
de leitura, matemática e ciências, recolhendo também dados sobre as
características dos próprios alunos, as famílias e alguns fatores
institucionais. Os resultados do PISA vieram redimensionar a questão dos
indicadores dos resultados escolares, centrando-a na questão das competências
desenvolvidas, com consequências no próprio conceito de equidade, tendo cada
vez maior impacto na investigação e nas políticas públicas de educação dos
diversos países (Breakspear, 2012).
Da análise anterior podemos concluir:
a equidade tem constituído uma questão central nas políticas públicas de
educação das últimas décadas;o acesso à escola e o sucesso escolar são
importantes indicadores da equidade e da eficiência dos sistemas escolares.
A partir destas conclusões fazemos em seguida um estudo da evolução desses
indicadores em Portugal nos últimos 50 anos, no sentido de uma análise
preliminar da evolução das condições de equidade no sistema escolar português.
A situação portuguesa
O acesso à escola
Em Portugal o alargamento do acesso à escola e, concomitantemente, as questões
do sucesso escolar desenrolam-se um pouco mais tardiamente do que na maioria
dos países da Europa. Assim, nestes países a escolaridade obrigatória já
compreendia na década de 1950, em regra, um mínimo de seis anos, sendo nalguns
casos de oito ou nove anos. Esta situação remonta ao final do século XIX ou ao
início do século XX, ou ainda, em alguns casos, a políticas mais recentes
estabelecidas após o final da II Guerra Mundial, no âmbito de um amplo programa
de políticas públicas orientadas para a recuperação económica e para o
desenvolvimento social, enquadradas no conhecido Plano Marshall. Em Portugal,
no entanto, a escolaridade obrigatória era, à data, de três anos, situação
existente desde 1930, quando havia sido reduzida dos cinco anos fixados em
1919, para quatro anos em 1927, e para três anos a partir de 1930 (Carvalho,
2001 [1986]).
Assim, no final da década de 1950, quando os restantes países tinham já em
curso ou iniciavam o processo de alargamento ao ensino secundário, Portugal
alargava de três para quatro anos a escolaridade obrigatória.
Em 1964 é finalmente decretado o ensino obrigatório de seis anos para os alunos
que iniciaram a escolaridade nesse ano, significando que o mesmo passa a
efetivar-se, para a primeira coorte, a partir de 1968.
Podemos assim referenciar o início da democratização do acesso à escola, em
Portugal, na década de 1960, do ponto de vista da construção e formulação das
políticas públicas, e na década de 1970, do ponto de vista dos efeitos das
medidas de política estabelecidas, como se pode verificar pelos dados das
figuras 1 e 2.
A figura_1 mostra a evolução da população dos 0 aos 19 anos de idade no país e
a evolução do número de alunos no sistema escolar, por décadas, de 1960 a 2011.
A distância entre as duas linhas mostra bem que até aos anos 80/90 a situação
estava longe de configurar uma real democratização do acesso à escola, dado que
só uma parte da população jovem se encontrava efetivamente a frequentar a
escola. Em 1960 só um em cada três jovens em idade escolar se encontrava a
frequentar a escola e em 1981 essa proporção passa a ser de um para dois.
A análise do gráfico permite, pois, concluir pela existência de dois ciclos
neste processo. O primeiro que dura cerca de 20 anos (de 1960 a 1981) e que
mostra fortes taxas de crescimento da frequência escolar, e o segundo que dura
cerca de 30 anos (de 1981 a 2011) e mostra um crescimento mais moderado e até
um pouco irregular, dado que se verifica, após uma subida da década de 1980,
uma descida na década seguinte, a que se segue nova subida na primeira década
deste século. A estes dois ciclos correspondem também “dois momentos de efetiva
reforma da educação em Portugal: em 1970 com a reforma Veiga Simão e em 1986
com a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo” (Rodrigues, 2010).
As diferenças entre os dois ciclos podem ter várias explicações. A primeira
respeita à própria demografia — a população de crianças e jovens mantém-se
praticamente constante na década de 1960 e cresce na década de 1970, ao
contrário das décadas seguintes, em que mostra um forte declínio. Por outro
lado, a medida de alargamento da escolaridade obrigatória para seis anos tem
mais rápido impacto (atingiu a primeira coorte em cinco anos e o pleno em seis
anos) do que a medida de alargamento para nove anos (que só atingiu a primeira
coorte no final de sete anos e o pleno em nove). Em terceiro lugar, apesar de
não ser visível no gráfico, convém considerar as idades envolvidas. À medida
que vamos subindo na escala etária torna-se mais difícil garantir a
escolarização, porque a escola vai encontrando outros competidores na captação
dos jovens, designadamente o mercado de trabalho, pelo que a progressão nas
taxas de escolarização é mais rápida nas idades mais baixas e mais lenta nas
idades mais altas. Alguns autores (Grácio, 1981; Stoer, 1986) consideram,
ainda, que o início da democratização política e social do país, ocorrido na
década de 1970, teve impacto positivo na valorização da educação e na elevação
das expectativas das classes mais desfavorecidas, estimulando uma maior procura
da escola.
Da análise da figura_1 concluiremos, ainda, que é no final da primeira década
do século XXI (50 anos depois do Projeto Regional do Mediterrâneo e das medidas
de alargamento da escolaridade obrigatória) que, do ponto de vista
quantitativo, se completa em Portugal o processo de democratização do acesso à
escola, como mostra a proximidade das duas linhas, significando que se encontra
presentemente na escola a quase totalidade das crianças e jovens.
A figura_2 mostra a evolução do número de alunos nos diversos ciclos de
escolaridade, por décadas, de 1960 a 2010. A evolução do 2.º ciclo nas décadas
de 1960 e 1970, e do 3.º ciclo nas décadas de 1980 e 1990 revela bem o efeito
do alargamento da escolaridade obrigatória decretado em 1964 e que atinge a
primeira coorte em 1968, como já foi referido.
Em 1986 foi determinado novo alargamento da escolaridade obrigatória, para nove
anos, para os alunos que iniciaram a escola nesse ano. Assim, também neste
caso, a efetivação da lei, para a primeira coorte, só veio a ocorrer plenamente
em 1995. Na figura_2 não parece notar-se de forma tão clara o efeito deste
alargamento, mas tal deve-se à brutal quebra demográfica, bem visível na figura
1, e que se cifra em mais de 300 mil jovens até aos 19 anos, entre 1981 e 2011.
Verifica-se pois, na evolução do 3.º ciclo, que este apresenta uma descida nas
últimas duas décadas, mas esta é bem inferior à queda demográfica ocorrida nas
duas décadas anteriores, revelando o efeito do alargamento da escolaridade para
nove anos, ainda que de forma um pouco mais mitigada no tempo. Assim, a taxa de
escolarização real só atinge os 100% para os 12 anos de idade em 1989/90, para
os 13 anos em 1994/95, para os 14 anos em 1996/97, para os 15 anos em 2007/2008
e para os 16 anos em 2009/2010, sendo de 90,9% o valor para os 17 anos e de
49,4% para os 18 (Capucha, 2009; CNE, 2010, 2011). Por sua vez, a evolução da
frequência do ensino secundário mostra bem a projeção dos efeitos da sequência
dos prolongamentos da escolaridade obrigatória e da evolução da democratização
do acesso à escola desde a década de 1970 até hoje.
Mas, apesar de os dados das taxas reais de escolarização por idade nos
mostrarem uma certa lentidão na sua evolução, uma leitura simples das taxas
brutas de escolarização parece mostrar uma realidade diferente.
Assim, de acordo com os dados disponíveis na Pordata, em 1961, as taxas de
escolarização brutas dos ciclos correspondentes aos atuais 2.º e 3.º ciclos do
ensino básico apresentavam valores pouco superiores a 20% (23,1% e 20,2%
respetivamente). Mas verificamos que a taxa do 1.º ciclo (ensino primário) era
já de 130,7%! Por sua vez, a taxa do 2.º ciclo viria a atingir os 122% em 1990
e a do 3.º ciclo os 119,6% em 2000. Daqui se infere naturalmente que tais
níveis de escolaridade eram, nessas datas, frequentados por um significativo
número de alunos com idades superiores às correspondentes a esses níveis,
mostrando um desvio etário da ordem dos 20% a 30%.
Ora o desvio etário é provocado pela retenção / repetência dos alunos, fazendo
perceber os elevados níveis de insucesso que o sistema escolar português foi
produzindo ao longo dos últimos 50 anos, em que teve lugar a democratização do
acesso.
O sucesso escolar
O insucesso escolar é um forte indicador da desigualdade e da iniquidade, bem
como da ineficiência dos sistemas escolares, e as taxas de retenção e
desistência são, por sua vez, indicadores robustos do insucesso em alguns
países, como já referimos. Assim, a análise da sua evolução é de grande
importância para a compreensão das políticas públicas de educação das últimas
décadas, dos sistemas escolares dos países que, como Portugal, usam a retenção
/ repetência na estruturação dos percursos escolares dos alunos.
Em Portugal o estudo de tais indicadores debate-se com uma limitação
importante: a ausência de registos estatísticos sistemáticos dos mesmos, ou
semelhantes, até 1995. Antes desta data, os registos são dispersos ou
correspondem a estimativas a partir dos dados relativos a inscrições,
frequência e conclusões. Assim, a evolução anual de 1996/97 a 2009/2010 dos
valores das taxas de retenção e desistência por ciclo de escolaridade consta da
figura_3 e a estimativa da evolução geral a partir de 1960 consta da figura_4.
A análise da figura_3 permite explicar uma descida significativa do insucesso
em todos os ciclos de ensino, ainda que de modo não constante nem uniforme.
A queda das taxas oscila entre o mínimo de 1/3 do respetivo valor, para o caso
do 3.º ciclo (de 20,4% para 13,5%), e o máximo de 2/3, para o caso do 1.º ciclo
(de 10,8% para 3,5%), atingindo cerca de metade para os casos do 2.º ciclo (de
14,8% para 7,5%) e do ensino secundário (de 35,9% para 18,9%).
Mas também, ao longo dos 15 anos em apreço, o padrão de comportamento não é o
mesmo. Verifica-se que, nos casos do 1.º e do 2.º ciclos, existe uma
continuidade na descida, com ligeiras oscilações, enquanto o 3.º ciclo
apresenta um comportamento mais irregular, com duas oscilações de subida entre
2000/2002 e 2005/2006, em que os valores iniciais e finais são muito próximos.
Por sua vez, o ensino secundário apresenta um padrão de comportamento
constituído por duas fases bem distintas. A primeira de 1996/97 a 2003/2004,
que se inicia com uma subida das taxas de retenção e desistência para cerca de
40%, e a segunda fase de 2004/2005 até 2010, com uma descida constante e
acentuada daquelas taxas. Tal evolução relaciona-se com a reintrodução de
exames finais do ensino secundário, a meio da década de 1990, o que provocou um
efeito de subida das taxas de insucesso. A meio da década seguinte, com a
introdução e alargamento de novas vias de ensino, como os cursos profissionais
nas escolas públicas, a situação inverte-se para um perfil de queda acentuada.
Podemos pois concluir que o insucesso escolar, medido por estas taxas, teve uma
redução média próxima de 50% nestes últimos 15 anos de registos sistemáticos
(no caso do secundário a redução só tem lugar na segunda metade desse período).
Tal facto tem, naturalmente, um significativo impacto na equidade e na
eficiência da escola portuguesa, mas o resultado atingido, se impressiona pela
dimensão da progressão, não o faz tanto quando se olham os valores absolutos
atingidos, como faz notar a OCDE: “De acordo com os dados do PISA 2009, a
repetência em Portugal está entre as mais altas dos países da OCDE” (4.º lugar
entre 34 países) e assim “uma prioridade particularmente importante para
assegurar que a avaliação se foque nas aprendizagens dos alunos é a redução das
altas taxas de repetência” (Santiago e outros, 2012).
A figura_4 mostra a evolução das taxas de retenção e desistência nos vários
ciclos de ensino, por décadas, de 1960/61 a 2009/2010, e permite-nos uma visão
de longo prazo, mostrando-nos que a evolução estimada do insucesso nos últimos
50 anos na escola portuguesa é de queda significativa em todos os ciclos de
ensino. A descida menos acentuada é a do 2.º ciclo, cerca de 18 pontos
percentuais (pp) (de 25,6% para 7,5%). No 1.º ciclo a descida é de cerca de
24pp (de 27,8% para 3,5%), no 3.º ciclo de cerca de 28pp (de 42% para 13,5%) e
no secundário atinge cerca de 33pp (de 52,1% para 18,9%).
À semelhança da evolução da demografia escolar, interessará analisar a evolução
de cada ciclo, tendo em conta as políticas de educação. Durante a década de
1960 os valores do 1.º ciclo mantêm-se estáveis, entrando em descida acentuada
no início dos anos 70, após a entrada na fase de concretização do alargamento
da escolaridade obrigatória. Importará aqui referir que após 1974 é introduzido
o regime de fases, substituindo o regime de classes (Despacho Ministerial n.º
24/A/74, de 2 de setembro), o que afasta as retenções no 1.º e 3.º anos de
escolaridade, que são reintroduzidas no início dos anos 80, verificando-se que
a queda se suaviza nesse período, voltando a acentuar-se a partir do final dos
anos 80 e até meados da década de 1990. Neste período de início de
implementação da Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986, encontramos duas
medidas com significado e impacto nas taxas de retenção e desistência. A
primeira consiste no lançamento do PIPSE (Programa Interministerial de Promoção
do Sucesso Educativo), provavelmente o primeiro grande programa de política
pública expressamente dirigido ao combate ao insucesso escolar, que organiza a
maioria das suas medidas de ação para o 1.º ciclo do ensino básico (Resolução
do Conselho de Ministros publicada no Diário da República, II série, de 21/1/
1988). A segunda respeita ao Despacho n.º 162/ME/91, substituído pelo Despacho
Normativo n.º 98/92, que institui a excecionalidade da retenção nos anos
intermédios dos ciclos de escolaridade do ensino básico e a obrigatoriedade de
planos de recuperação e acompanhamento para os alunos retidos e em risco de
retenção, reinstituindo também a proibição de retenção no 1.º ano de
escolaridade. Estas medidas são alteradas durante a década de 1990, voltando a
ser recuperadas em 2005. Tais oscilações revelam naturalmente diferentes visões
da missão da escola.
A evolução do insucesso no 2.º ciclo mostra uma ligeira descida na década de
1960, a que se segue uma significativa subida na década seguinte. Em primeiro
lugar haverá que notar que nos anos 60 as taxas de insucesso do 2.º ciclo eram
inferiores às do 1.º ciclo, situação que não voltou a repetir-se e que nunca
aconteceu em quaisquer outros dois ciclos sucessivos. Interessará pois discutir
a razão de tal exceção.
Como se vê no gráfico da figura_4, as taxas de retenção no 1.º ciclo eram, nos
anos 60, próximas dos 30%, ou seja, praticamente um em cada três alunos ficava
retido, mostrando assim o sistema uma fortíssima seletividade. Este facto
acrescia às deficientes condições económicas e sociais de grande número de
famílias. Assim, o acesso ao 2.º ciclo só tinha lugar para um reduzido número
de alunos. Tal é bem visível no gráfico da figura_2 respeitante à frequência
por ciclos. Em 1960/61, o 1.º ciclo (ensino primário) totalizava 887. 235
alunos e o 2.º ciclo apenas 78.074, ou seja, no 1.º ciclo contam-se cerca de
220 mil alunos por ano de escolaridade, enquanto no 2.º ciclo esse número é de
somente 39 mil (praticamente 1/6). Tal situação sofre alguma modificação
durante a década, dado que se procede à extensão da escolaridade obrigatória, e
assim o número de alunos no 2.º ciclo mais do que duplica, mas os diferenciais
de frequência mantêm-se, ainda assim, em valores muito elevados. De facto, em
1970/71 passamos a ter 935.453 alunos no 1.º ciclo e 193.912 no 2.º ciclo, ou
seja 235 mil e 97 mil por ano, respetivamente. É esta fortíssima seletividade
do ensino primário que poderá explicar as taxas de repetência mais baixas no
2.º ciclo nos anos 60, pois conduzia à situação de já só acederem à frequência
do 2.º ciclo os melhor preparados (quer do ponto de vista sociocultural, quer
do ponto de vista escolar), o que provocaria algum esbatimento dos níveis de
seleção durante esse ciclo. Mas valerá a pena notar que, mesmo assim, as taxas
de retenção no 2.º ciclo atingiam valores acima de 25%, ou seja, no início da
década de 1960 somente um em cada seis alunos acedia ao 2.º ciclo de
escolaridade e neste reprovava um em cada quatro alunos.
É esta relação entre o 1.º e 2.º ciclos que explica que a frequência do 3.º
ciclo no início dos anos 60 mostre valores próximos dos do 2.º ciclo (34 mil
alunos/ano de escolaridade). É óbvio que a transição do 1.º para o 2.º ciclo
apresenta níveis de seletividade enormíssimos (cerca de 83%), o que já não
acontece do 2.º para o 3.º ciclo, onde as perdas são somente de cerca de 11%.
Olhando para a organização do sistema escolar verificamos que, à época, o 2.º
ciclo integrava já a fileira do então ensino secundário (liceal ou técnico),
constituindo o primeiro ciclo deste, e formando com o 3.º ciclo (então 2.º
ciclo do ensino secundário) o designado ensino secundário geral. A seleção dos
alunos era, pois, feita de forma muito intensa, na transição do 1.º ciclo
(ensino primário) para o 2.º ciclo, que era o início do ensino secundário.
Assim parte significativa dos alunos que conseguiam entrar no ensino secundário
geral conseguia prosseguir até ao final, mesmo com alguma acumulação de
retenções no percurso.
No início dos anos 70, com a implementação da obrigatoriedade dos seis anos,
cresce rapidamente a frequência do 2.º ciclo (e também do 3.º). Mas tal facto
parece ter provocado também uma subida nas taxas de retenção, como se pode ver
no gráfico da figura_4. Tendo sido aliviado o efeito seletivo no acesso ao 2.º
ciclo, acentuou-se no decurso do mesmo. Tal efeito vai desaparecer
progressivamente durante a década seguinte, tomando o insucesso um perfil de
descida progressiva, como nos 1.º e 3.º ciclos.
O 3.º ciclo, por sua vez, mostra um perfil constante de descida das taxas de
insucesso nas décadas de 1960, 1970 e 1980, após o que inflete para um patamar
constante (até com ligeira subida) a partir de meados da década de 1990,
voltando à descida nos anos mais recentes. Também aqui parece notar-se o efeito
do alargamento, para nove anos, da escolaridade obrigatória, determinado em
1986.
Verificamos, pois, que aos períodos de implementação dos alargamentos da
escolaridade obrigatória (seis anos para a primeira coorte em 1968 e nove anos
para a primeira coorte em 1995) correspondeu uma alteração significativa do
perfil das taxas de insucesso, que infletiram para valores mais elevados
relativamente aos trajetos anteriores. Tal efeito vai desaparecendo ao longo da
década seguinte e a evolução retoma a tendência de descida. A explicação para a
alteração do perfil encontra-se, como atrás referimos, na deslocação do efeito
de seleção, que passa a ter lugar durante a frequência do novo ciclo de
escolaridade, agora obrigatório, em vez de ter lugar no acesso ao mesmo.
O ensino secundário, ainda que ao longo dos 50 anos em análise mostre a maior
descida (33 pontos percentuais), mostra igualmente alguma irregularidade nesse
trajeto. Desde logo, verifica-se que o ponto de partida das taxas de insucesso,
nas décadas de 1960 e 1970, atinge valores altíssimos. Mais de metade dos
alunos que frequentavam este ciclo de escolaridade reprovavam ou desistiam! Mas
tal facto assume contornos ainda mais extraordinários quando verificamos
(figura_2) que tal ciclo era frequentado, em 1960, somente por cerca de 13 mil
alunos (1,2% do total), que sobem para 27 mil em 1970 (1,9% do total)! Estes
dados expressam de forma clara que o ensino secundário (à época o ciclo
complementar) era manifestamente um fortíssimo instrumento de seleção social,
usado pelo poder político para a formação de elites muito restritas para
alimentar a direção intermédia da função pública e das empresas (Grácio, 1986).
Partindo de valores de frequência tão baixos, o ensino secundário começa a
crescer exponencialmente após o 25 de Abril de 1974 (passa de 27 mil alunos em
1970 para 170 mil em 1980). Curiosamente, a essa expansão não corresponde uma
subida nas taxas de insucesso, como se verificou no 2.º e no 3.º ciclos nos
casos correspondentes ao alargamento da escolaridade obrigatória, mas a uma
descida acentuada, caindo de valores superiores a 50% no início da década de
1970, para perto de 30% no início dos anos 90 (figura_4). A explicação para tal
facto poderá encontrar-se na abolição dos exames terminais do ensino
secundário, cuja seletividade era elevadíssima para garantir o efeito já
referido de preparação de quadros intermédios, papel que lhe era atribuído
pelas políticas públicas da época.
Como já referimos, a reintrodução de exames finais no ensino secundário a meio
da década de 1990 veio provocar novamente um efeito de subida das taxas de
insucesso, que só volta a inverter-se no início da década seguinte e retoma um
perfil de queda acentuada com a introdução e alargamento de novas vias de
ensino, como os cursos profissionais nas escolas públicas, já nos anos mais
recentes da segunda metade da década.
Conclusões
Da análise da evolução do acesso e do sucesso no sistema escolar português nos
últimos 50 anos podemos concluir que houve uma significativa progressão das
condições de equidade. No respeitante ao acesso, essa progressão deu-se de
forma continuada (ainda que em dois períodos um pouco distintos), encontrando-
se na evolução demográfica e nos alargamentos da escolaridade obrigatória
importantes elementos explicativos. Podemos, aliás, concluir que, face aos
dados das taxas de escolarização por idade, o último alargamento da
escolaridade obrigatória para 12 anos, estabelecido em 2009, constitui a última
medida de política do ciclo de 50 anos de democratização do acesso à educação
em Portugal, iniciado em 1960.
No respeitante à equidade explicada pelos resultados escolares medidos pelos
níveis de sucesso, é forçoso concluir também por uma significativa progressão,
ainda que de uma forma menos regular e uniforme do que no caso do acesso. A
análise dos dados parece mostrar uma maior oscilação em vários períodos
(designadamente no ensino secundário), ainda que a tendência geral seja a de
uma queda significativa do insucesso ao longo dos 50 anos referidos.
Na verdade, se compararmos os níveis atingidos, verificamos que, no respeitante
ao acesso, a progressão conduziu-nos a níveis atualmente semelhantes aos dos
restantes países da OCDE, mas no respeitante ao sucesso tal não acontece,
mantendo-se Portugal, entre esses países, com o 4.º nível mais elevado de
repetência (Santiago e outros, 2012).
Assim, no respeitante à equidade, parece possível concluir que existe uma
significativa continuidade das políticas públicas de educação, neste período,
ainda que a mesma seja mais expressiva na dimensão do acesso e menos na
dimensão do sucesso.