Os sítios na internet dos sindicatos portugueses: navegação à vista?
Introdução
A utilização e expansão do uso da internet têm sido monitorizadas em Portugal
por organismos como o OberCom / Observatório de Comunicação, composto por meios
de comunicação social, associações afins e inclusive pelo Gabinete para os
Meios de Comunicação Social, um serviço integrado na Presidência do Conselho de
Ministros. Pouca atenção parece, contudo, ser dada à relação da internet com
públicos específicos, como sucede com os trabalhadores por conta de outrem. Ao
mesmo tempo, no campo da sociologia do trabalho em geral e das relações
industriais em particular, os investigadores portugueses têm mostrado pouco
interesse pelas associações sindicais e patronais do ponto de vista
organizacional e, neste sentido, as suas estratégias comunicacionais têm sido
também desprezadas.
Este artigo resulta de uma investigação em curso, que pretende compreender como
as tecnologias de informação e comunicação (TIC), e muito em particular a
internet, contribuem para a ação e democratização do movimento sindical. Ao
utilizarmos uma abordagem empírica centrada no caso português, com este artigo
pretendemos também alimentar o conhecimento do movimento sindical português
relevando a análise organizacional. Trata-se de um estudo exploratório no qual
um dos objetivos específicos é analisar em que medida e para que fins os mais
de 300 sindicatos portugueses utilizam a internet.
A investigação da qual decorre este artigo visa recolher futuramente mais
dados, quer do ponto de vista dos sindicatos, quer dos utilizadores dos seus
sítios. Com efeito, só deste modo podemos compreender todo o processo de
comunicação.
O artigo começa por apresentar uma revisão breve da literatura sobre o
sindicalismo e as TIC, com um enfoque particular no caso português. Depois
expõe a metodologia usada na abordagem empírica, designadamente a tipologia
concebida para a análise documental dos sítios, e o setor de atividade
escolhido para a sua aplicação. Por fim, é feita a classificação dos sítios,
designadamente por filiação nacional, e é testada a associação entre as
categorias da tipologia e a filiação. Conclui-se com a discussão dos principais
resultados encontrados.
A comunicação sindical no estudo das relações industriaisem Portugal
Podemos dizer que as relações industriais em Portugal têm uma comunidade
relativamente pequena de investigadores, apesar de esta em 2012 ter promovido
um evento de importância europeia, a saber, a Conferência Europeia de Relações
Industriais (IREC), em conjunto com o encontro do grupo de relações industriais
da Associação Europeia de Sociologia (ESA).
[1] Os estudos portugueses em torno do movimento sindical, em particular, são
tematicamente dispersos. Com efeito, os enfoques são múltiplos: a evolução das
estruturas sindicais portuguesas e do número de sindicalizados (Cerdeira, 1997;
Stoleroff e Naumann, 1998), a desigualdade de género (Ferreira, 2002), casos
empíricos em contexto de trabalho (Rosa, 1988), questões jurídicas (Ferreira,
2012), a integração europeia (Costa, 2012), designadamente ao nível dos
conselhos de empresa (Costa e Araújo, 2009), mas também o impacto da
globalização (Estanque e outros, 2005; Silva, 2007; Costa, 2008), a negociação
coletiva e a concertação social (Neves, 2001; Lima, 2004), o sistema de
relações industriais português (Stoleroff e Naumann, 2000), entre outros. Isto
não considerando o trabalho de recolha sistemática de informação que é feito a
nível sectorial e nacional pelo centro nacional do Observatório Europeu das
Relações Industriais (EIRO).[2]
Recentemente, os debates nacionais têm também dado atenção à chamada crise do
sindicalismo (Estanque e outros, 2005; Estanque e Costa, 2011), envolvendo de
resto os próprios sindicalistas, incluindo alguns dirigentes que se têm
destacado pelo prosseguimento dos seus estudos a nível superior no domínio das
relações industriais, como é o caso do ex-coordenador e ex-secretário-geral da
maior confederação sindical portuguesa, a Confederação Geral dos Trabalhadores
Portugueses Intersindical Nacional (CGTP-IN) (Silva, 2007). Carvalho da Silva
assumiu responsabilidades na central ao longo de mais de 20 anos e,
presentemente, é coordenador do polo de Lisboa do Centro de Estudos Sociais
(sediado em Coimbra).
No entanto, raros são os estudos que analisam os sindicatos enquanto
organizações, sujeitas por exemplo à clássica lei de ferro da oligarquia
(Michaels, 1915), ou aos efeitos mais recentemente identificados da
profissionalização das organizações sem fins lucrativos (Rego, 2010). A relação
entre sindicatos e partidos políticos, por exemplo, que, diríamos, é
provavelmente responsável por representações sociais negativas sobre os
sindicatos, é um tema que ainda não mereceu nenhum estudo de fôlego, embora lhe
sejam feitas várias referências (Estanque e outros, 2005; Costa, 2008; Lança,
2010).
A comunicação, dimensão fundamental no seio de uma organização e na sua relação
com o exterior, quer no sentido de estabelecer alianças, quer na perspetiva da
intervenção pública, não parece ser tema fundamental nos estudos sobre os
sindicatos. Várias são as referências à importância do diálogo face a face, da
deslocação dos sindicalistas aos locais de trabalho, à necessidade de promover
ações solidárias, mas pouco se reflete, por exemplo, sobre o discurso. Ainda
assim algumas dissertações (Rosa, 2005; Alves, 1993; Barreto, 1992) focaram a
ação comunicacional dos sindicatos. Podemos em todo o caso dizer que só hoje é
notória uma consagração ao tema, e por via não das formas convencionais de
comunicação, mas estimulada pelas TIC, que surgem muitas vezes como
potenciadoras da ação de pequenos sindicatos e mesmo como sustentação de
sindicatos virtuais, como formas de recrutamento e mobilização, contribuindo
para o que se tem chamado revitalização do movimento sindical (Diamond e
Freeman, 2002).
Com efeito, para além do nosso estudo,[3] a realização do primeiro encontro
Vias para a Revitalização do Sindicalismo, dedicado ao tema A utilização das
TIC pelos sindicatos portugueses, que decorreu em 13 de dezembro de 2011 no
ISCTE-IUL, em Lisboa, ou a perspetiva da criação de um Observatório da
Comunicação Sindical, anunciada recentemente em livro (Rebelo e Brites, 2012),
são sinais claros disso.
Do mesmo modo, a comunicação de Correia e colegas (2012), onde os autores
apresentam dados de um inquérito aos sindicatos facultando em detalhe a
percentagem que possui computador, internet, telemóvel, etc. Mas também, com
base num estudo de caso, mostram que não existe uma estratégia comunicacional,
pois o digital divide começa em muitos casos nos próprios dirigentes sindicais.
O debate sobre a relação entre sindicatos e internet chega com algum atraso a
Portugal. A literatura anglo-saxónica desde os anos 90, ou seja, desde o início
da expansão da internet, tem-se debruçado sobre ela (Lee, 1997, 2000; Waterman,
2001; Greene e Kirton, 2003). A maioria dos autores adota uma postura otimista
perante as potencialidades que a internet pode ter na inversão do declínio da
densidade sindical (Visser, 2006). A revitalização sindical, de que tanto se
fala hoje a propósito do declínio da filiação em sindicatos, poderá beneficiar
do uso das TIC.
Por um lado, porque as TIC permitirão recrutar grupos distantes, como as
mulheres, que são geralmente sobrecarregadas com tarefas domésticas que lhes
deixam pouco tempo para se envolverem na esfera pública; os jovens, à partida
com menos experiência e possivelmente mais céticos em relação à necessidade dos
sindicatos; os trabalhadores dos setores das novas tecnologias, habituados à
individualização das relações de trabalho; os trabalhadores por turnos, que
sofrem de limitações de tempo; e ainda todos os trabalhadores que se sentem
constrangidos em participar numa situação face a face (Lee, 1997; Waterman,
2001; Greene e Kirton, 2003).
Por outro lado, as TIC podem proporcionar novas formas de tomada de decisão,
sobretudo mais céleres e abrangentes, ao viabilizarem a consulta dos
trabalhadores, aproximando deste modo os dirigentes das bases. Em suma, as TIC
podem contribuir para a democracia interna.
Nesta postura favorável às TIC, a literatura tem, no entanto, desprezado a
importância do face a face, modalidade de comunicação não só importante para
uma comunicação mais profunda, como indispensável em alguns setores económicos,
ou seja, perante algumas populações. Com efeito, haverá que não perder de vista
que há duas condições necessárias para o sucesso da comunicação via internet:
uma estratégia de descentralização por parte dos dirigentes sindicais e uma
capacidade de apreensão por parte dos utilizadores (Diamond e Freeman, 2002;
Martínez Lucio, 2003). Isto quer dizer que, na chamada sociedade da
informação, ou na sociedade em rede em que vivemos (Castells e Cardoso,
2006), a par de um knowledgedivide existe também um digital divide. A
desigualdade de acesso à informação corresponde em parte também a uma
desigualdade do domínio das infraestruturas respetivas. A chamada iliteracia
digital é, por conseguinte, um fenómeno que deve ser considerado no momento de
conceção de uma estratégia comunicacional, sobretudo quando estamos perante
camadas de trabalhadores menos letrados (ainda que haja sempre exceções à
regra). Os dados estatísticos oficiais têm mostrado que são os homens, os mais
jovens e os mais escolarizados quem mais usa a internet (INE/UMIC, 2010). Uma
grande parte das camadas trabalhadoras fica, em suma, excluída.
Porventura, um atual menor interesse pela investigação académica no campo das
relações industriais, diríamos até uma menor centralidade, não do trabalho mas
do estudo do trabalho,[4] e alguma resistência existente dentro das próprias
estruturas sindicais poderão contribuir para explicar o ainda escasso
conhecimento que temos sobre o funcionamento destas organizações, assim como
das suas congéneres patronais. Neste sentido, o livro do sindicalista Florival
Lança (2010) chama-nos a atenção a título excecional para a influência de
fações não assumidas existentes no momento de tomada de decisão dentro das
organizações sindicais. O olhar sobre o interior destas organizações parece
mais comum noutros contextos nacionais, como nos relata Steve Early (2011) a
propósito das cisões e tensões no seio do movimento sindical norte-americano.
Metodologia
Estamos conscientes de que para compreender o uso da internet por parte dos
sindicatos portugueses deveríamos ter em conta os vários atores envolvidos,
isto é, por um lado, o ponto de vista dos responsáveis no sindicato pela
estratégia comunicacional e em particular pela internet, por outro lado, o dos
utilizadores, quer efetivos quer potenciais. Mas ao mesmo tempo sabemo-nos
limitados em recursos. A realização de uma investigação desta natureza sem
financiamento levou-nos, assim, a fasear a abordagem e a centrarmo-nos nos
próprios sítios da internet nesta primeira aproximação ao tema, cuja consulta
não comporta custos senão os do tempo consagrado pelo investigador à sua
análise.
O primeiro passo dado foi conhecer a taxa de penetração da internet no
movimento sindical português, sendo a existência de um sítio na internet o
indicador relevado. É, de qualquer modo, de admitir que haja também
organizações que tenham o serviço de internet, designadamente um endereço de
correio eletrónico, mas não uma página própria, como de resto indiciam Correia
e colegas (2012).
Assim, perante a inexistência de dados organizados e acessíveis, começámos por
recensear todos os sindicatos com sítio na Web. Esta tarefa afigurou-se algo
morosa, uma vez que a base de dados oficial dos sindicatos portugueses, que o
Ministério do Trabalho deveria fornecer, não está atualizada e muito menos
dispõe de semelhante indicador. Baseámo-nos, pois, na base de organizações
sindicais aturadamente criada por Alves (2009) e iniciámos deste modo a nossa
procura em motores de pesquisa na internet, como o Google.
Criada a base de organizações sindicais com sítios próprios, importava analisá-
los. Perante as escassas e limitadas propostas de tipologias reunidas (Ward e
Lusoli, 2002; Santos e outros, 2005), nas quais se detetaram várias limitações
(Rego, Naumann e Alves, 2010),[5] e após uma pesquisa aleatória de dezenas de
sítios de sindicatos, criámos uma tipologia própria. Retivemos de outras o que
nos parecera significativo, a saber o conteúdo e a interatividade, mas
adicionámos-lhe uma dimensão a nosso ver fundamental: a forma (id., ibid.).
Esta dimensão havia sido não só desprezada pelas tipologias reunidas, como nos
parece ser uma das duas que mais especificidade traz ao canal de comunicação
que é a internet. Com efeito, para além da interatividade, ou da possibilidade
de uma participação mais livre, num mundo onde a imagem tem tanto peso,
desprezar efeitos de som, imagem e mecanismos amigos do utilizador seria, a
nosso ver, uma lacuna importante. Estas são, em suma, as características que
efetivamente mais vantagens trazem à internet face a canais de comunicação como
os jornais ou mesmo o face a face dos plenários.
Deste modo a nossa tipologia apresenta a seguinte estrutura:
- dimensão conteúdo: aqui distinguimos essencialmente se as informações
disponíveis respeitam apenas àvida do sindicato, facultando por exemplo
contactos, serviços, instrumentos de regulamentação coletiva de trabalho, etc.,
ou se as informações vão para além da vida do sindicato e fornecem dados que
dizem respeito, por exemplo, à economia ou setor de atividade em que o
sindicato se insere, ou ainda informações mais triviais, como a previsão
meteorológica ou as principais notícias político-económicas do dia, mas que
constituem ainda assim uma fonte acrescida de atração do público alvo;
- dimensão interatividade: esta dimensão subdivide-se também em duas
categorias, isto é, o sítio pode permitir comunicação num só sentido,
unidirecional, ou bidirecional, o que será a interatividade efetiva; no
primeiro caso, incluem-se os sítios de sindicatos que apenas disponibilizam
informação, facultando por exemplo formulários que podem ser impressos,
preenchidos e enviados por correio postal; já no segundo caso, estamos perante
o processo comunicacional em sentido completo, pois o utilizador pode reagir
por vezes em direto, como sucede com os fóruns, blogues, etc.;
- dimensão forma: esta última dimensão também surge como dicotómica, podendo
corresponder a uma forma simples, sempre que estejamos perante uma imagem não
dinâmica, sem som, no fundo à semelhança da forma de um jornal, onde apenas se
faz uso da cor, do tamanho e estilo de letra; ou a uma forma complexa pois,
para além daquelas variáveis, o utilizador depara-se ainda com vídeos, som,
ligação às redes sociais, possibilidade de usar os RSS, ou permitir o acesso ao
sítio por invisuais, por exemplo.
A tipologia de análise dos sítios apresenta-se sinteticamente no quadro_1.
Num primeiro momento, a exploração dos sítios foi feita de forma transversal,
mas a limitação de recursos levou-nos a circunscrever a nossa classificação a
um setor de atividade. Pretende-se mais tarde alargar a tarefa a todos e
facultar deste modo indicadores que possam ser recolhidos ao longo do tempo,
assim como comparados com os de outros contextos.
Deste modo, selecionámos o setor público e em particular a administração direta
do estado para o exercício empírico. A delimitação deste setor inclui todas as
formas legais de relações de trabalho estabelecidas entre os cidadãos e o
estado em três níveis de administração: o central, o regional e o local. Ainda
que se trate apenas do primeiro setor onde se aplicou a tipologia, a escolha
evidencia a relevância do setor público a dois níveis essencialmente. Por um
lado, é um setor que aumentou de forma muito significativa sobretudo após o 25
de Abril de 1974, em resultado, entre outras razões, da vontade de criar um
estado de bem-estar. Os ministérios com maior relevância no emprego público
central foram os da Educação e da Saúde. Nestes dois ministérios concentra-se
mais de metade do emprego total da administração central (BOEP, 2008). Ao mesmo
tempo, é um setor que depois de 2005 começou a ver diminuir o volume de emprego
e, mais recentemente, a ser atingido pelas medidas decorrentes do acordo entre
o governo português e a troika (FMI, UE, BCE), designadamente ao implementarem
a contratação individual e promoverem um estado mínimo (Memo, 2012; Costa,
2012). Por outro lado, trata-se de um setor com uma forte sindicalização, com
uma mão de obra com um grau de escolaridade elevado e com estímulos públicos
para que os seus trabalhadores utilizem as TIC. Esta pareceu-nos portanto uma
escolha pertinente para começarmos a explorar a nossa tipologia.
De notar que a elevada fragmentação sindical deste setor se traduz na
existência de uma estrutura dual: poucas organizações de grande dimensão
algumas entre as maiores em Portugal, quer em representatividade quer em
recursos e muitos pequenos sindicatos que representam certas profissões ou
serviços com poucos recursos. Com efeito, no setor público convivem sindicatos
com muitos milhares de membros com outros com poucas centenas (Lima, 2008). O
baixo nível de filiação em organizações de topo é outra característica
estrutural do sistema sindical no setor público. De qualquer modo, quisemos
averiguar se existe alguma associação entre a filiação confederal e a
tipologia, pelo que usámos o teste do qui-quadrado (sup>2
).
A ação coletiva das principais confederações sindicais portuguesas difere a
vários níveis, desde a sua participação na concertação social, onde a CGTP-IN
se recusa frequentemente a assinar os acordos, optando por uma ação mais de
mobilização de rua, ao contrário do que sucede com a União Geral de
Trabalhadores (UGT), que investe mais na mesa negocial, pelo que levantámos a
hipótese de que estas diferenças poderiam também ver-se refletidas no uso dado
aos sítios pelos seus sindicatos: mais informação sobre o sindicato ou também,
para além dele, dispositivos de participação à distância, formas atrativas de
captação de utilizadores.
No fundo, no caso português temos representado o dilema da ação sindical de que
Offe (1985) nos fala com clarividência, e que se cristaliza no que Boaventura
de Sousa Santos refere como um sindicalismo de contestação por parte da CGTP-
IN, derivado da infiltração do Partido Comunista no período da clandestinidade,
e um sindicalismo da participação por parte da UGT, que se pretende demarcar
da CGTP-IN desde o início. Isto sem que, para Santos, nem um nem outro pareçam
sustentáveis (Santos, em Estanque e outros, 2005).
O trabalho de campo, isto é, de pesquisa na internet e classificação, foi feito
em meados de 2010.
Resultados e discussão
Caracterização geral
Identificámos 182 sindicatos com o seu próprio sítio, excluindo-se deste número
aqueles cujos sítios não funcionavam no momento da pesquisa. Estas organizações
representam cerca de 57% do total de sindicatos portugueses.[6] Esta taxa de
penetração da internet é só ligeiramente superior à taxa de penetração nos
agregados familiares, que, em 2010, era de 50% (INE/UMIC, 2010). Os sindicatos
não parecem ser portanto mais vanguardistas do que o resto da sociedade, o que
de resto já se verificou com a questão da igualdade de género (Ferreira, 2002).
De notar também, numa primeira aproximação ao terreno, que alguns sindicatos
anunciam, com o respetivo logotipo, que beneficiaram de fundos públicos para
apoiar a criação ou melhoria dos seus sítios, o que parece ser um sinal claro
da existência de oportunidades para um investimento na comunicação. Este é o
caso de uma organização de trabalhadores dos portos, o Sindicato dos
Trabalhadores do Porto de Aveiro (STPA), que tem beneficiado do Programa
Operacional da Sociedade da Informação (POSI).
Relativamente aos blogues, uma solução alternativa ao sítio, à partida até mais
interativos, pois há geralmente a possibilidade de ser feito um comentário e
inserida uma informação, verificámos que um número muito restrito de sindicatos
tem um blogue em vez de um sítio. Há também os que apresentam no sítio a
ligação a um blogue. Este é o caso da Associação Sindical dos Funcionários da
Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASF-ASAE). Considerámos então
para a análise também os blogues, quando não existiam sítios.
Ainda que o nosso enfoque não fosse sobre as estruturas de cúpula mas sobre as
associações sindicais de base, aquelas à partida a que o trabalhador recorrerá
em primeira instância para obter informação, para conhecer quem o representa,
etc., não podíamos deixar de observar também os sítios das principais
organizações que agregam sindicatos. Deste modo, o quadro_2 dá conta do peso
destas estruturas sindicais com sítio, isto é, de federações e confederações.
Ao consultarmos os sítios das principais confederações sindicais aliás as
únicas a usufruírem do estatuto de parceiro social, na medida em que estão
representadas na Comissão Permanente de Concertação Social do Conselho
Económico e Social Português, estrutura de diálogo social ao mais alto nível ,
verificámos que ambos possuem muita informação e suportes multimédia. As duas
confederações a que nos referimos são a CGTP-IN, a mais representativa, com
mais de metade do total de sindicalizados, e a UGT, que representa
aproximadamente um quarto dos sindicalizados, segundo várias fontes, entre elas
o Observatório Europeu de Relações Industriais (EIRO). De notar também que a
UGT assinala ter beneficiado de fundos europeus para renovar o seu sítio. A
terceira confederação considerada, a União dos Sindicatos Independentes (USI),
que representará apenas 11 sindicatos filiados conforme anuncia no seu sítio,
utiliza igualmente suportes multimédia e fornece várias informações sobre as
suas atividades. Finalmente, a quarta confederação que destacamos, a
Confederação Geral dos Sindicatos Independentes (CGSI), com escassos milhares
de membros, apresenta-nos um sítio que qualificamos como básico, pois contém
pouca informação e é desprovido de quaisquer soluções multimédia.
Considerando-se então a filiação formal dos sindicatos nestas confederações
nacionais, observámos diferenças que importa realçar. De facto, os dados
mostram que a grande maioria (70%) dos sindicatos filiados nas chamadas
confederações independentes, na CGSI e na USI, tem um sítio. Também o têm a
maioria (66%) dos sindicatos filiados na UGT. Pelo contrário, encontrámos a
taxa de sítios mais baixa entre os não filiados (54%) e entre os filiados na
CGTP-IN (53%).
A figura_1 representa estes resultados mostrando que, apesar de a proporção de
sítios (ou, se quisermos, de sindicatos) ser inferior, se considerarmos o
número de trabalhadores em questão, há mais filiados na CGTP-IN que têm
à partida acesso ao sítio do seu sindicato, do que trabalhadores de outras
confederações.
Ao centrarmos a nossa atenção sobre a administração pública, acabámos por
analisar 97 sítios sindicais. A grande maioria dos sindicatos é de âmbito
nacional (74%), seguindo-se os de âmbito regional (23%), e distribuindo-se os
restantes entre o local e o internacional. Podemos, pois, esperar encontrar
sítios com enfoques diversos.
Ainda relativamente aos sindicatos da nossa amostra, verificámos que 43% dos
sindicatos que possuem sítio não têm qualquer filiação, seguidos dos filiados
na CGTP-IN, com 30%, e da UGT, com 21%. Os sindicatos com filiação dita
independente, ou seja, filiados na CGSI ou na USI, representam portanto cerca
de 6% do número total de sindicatos considerados.
Indo ao encontro do peso efetivo em termos de emprego no estado, como referido
atrás, a educação e a saúde são as áreas com maior número de sindicatos na
amostra. Com efeito, cerca de 28% das organizações estão relacionadas com a
educação, seguindo-se os sindicatos da saúde, que recobrem 19% da amostra.
Podemos pois afirmar que quase metade (47%) dos sindicatos representam estas
atividades, hoje atingidas com a procura de redução da despesa pública, quer
por via de criação de parcerias público-privadas, quer pela via da criação dos
contratos individuais de trabalho, quer ainda pela delegação na administração
local da relação contratual.
Aplicação da tipologia
Após a análise descritiva da cobertura da internet, avaliada pela existência de
um sítio, e dada uma panorâmica sobre os sindicatos com sítio do setor público
de administração direta do estado, passamos agora à apresentação dos resultados
da aplicação da tipologia de análise de sítios, considerando os sindicatos por
filiação confederal.
Como enunciado, quisemos saber se a filiação confederal está de algum modo
relacionada com a nossa proposta de tipologia; isto é, se as dimensões
conteúdo, interatividade e forma, variam em função da filiação do sindicato ser
na CGTP-IN, na UGT ou nas chamadas confederações independentes. Para tal
utilizámos o teste de qui-quadrado, uma vez que as variáveis em causa são
dicotómicas, permitindo-nos deste modo perceber se existe uma associação entre
a filiação confederal e as dimensões da nossa tipologia.
Os resultados encontrados indicam a existência de uma associação entre o
conteúdo e a filiação confederal, sendo este resultado estatisticamente
significativo.[7] Isto é, verifica-se que, por um lado, os sindicatos filiados
na UGT, sem filiação e com outras filiações associam o conteúdo dos seus sítios
essencialmente à vida do sindicato, ao passo que os sindicatos filiados na
CGTP-IN têm informação nos seus sítios relacionada com matérias que vão para
além da vida do sindicato. Isto quer dizer que os sindicatos da CGTP-IN parecem
mais interessados em tornar o sítio uma fonte de informação geral, o que
potencia a maior frequência da consulta e consequentemente também uma maior
exposição aos conteúdos estritamente sindicais. Este é o caso, por exemplo, do
Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, que no seu sítio apresenta uma revista
de imprensa com recortes relacionados com a área da saúde em sentido amplo.
Já no que se refere à interatividade e à forma, os resultados encontrados
indicaram não existir nenhuma associação estatisticamente significativa entre
estas dimensões da tipologia e a filiação confederal.[8]
Conforme revela a figura_3, a maior parte dos sítios dos sindicatos analisados,
independentemente da sua filiação nacional, apresenta um predomínio da
comunicação unidirecional.
A figura_4 mostra-nos também que, de um modo geral, a maior parte dos sítios
dos sindicatos apresenta já soluções multimédia ou amigas do utilizador,
muito especialmente no caso dos sítios dos sindicatos filiados na CGSI ou na
USI. De notar, de qualquer modo, que as percentagens aqui nos servem para
facilitar a comparação, não sendo estatisticamente adequado usá-las, pois as
bases em causa são extremamente baixas. Com efeito, quando assinalamos que 83%
dos sindicatos ditos independentes têm sítios com forma complexa, este valor
corresponde a cinco casos num total de seis.
Notas conclusivas
Numa altura em que, por um lado, novos movimentos sociais (de precários,
desempregados, etc.) se têm mobilizado de forma inovadora com a importante
ajuda das TIC e, por outro lado, Portugal está possivelmente perante o desafio
de uma mudança de padrão de relações industriais, importa a nosso ver colocar a
análise organizacional na agenda dos estudos das relações industriais. Como
diziam Crozier e Friedberg (1977: 21): Interrogar-se sobre a organização como
problema é, portanto, conceber um raciocínio que permita analisar e compreender
a natureza' e as dificuldades da ação coletiva.
Na sequência das determinações do acordo celebrado entre o governo português e
a troika, a austeridade está também a ter implicações importantes nas relações
industriais. A questão da representatividade foi colocada em cima da mesa mas
só para o lado patronal, parecendo perder-se assim uma oportunidade para os
sindicatos serem mais transparentes e recuperarem alguma confiança.
Costa (2012), num artigo recente, dá conta justamente de como a Agenda 2020
introduz medidas regressivas no modelo social europeu, entre elas a
liberalização do setor público, e como Portugal passou da integração num modelo
social europeu à subjugação a um modelo europeu de austeridade. Uma dessas
medidas é o ataque à negociação coletiva, designadamente ao permitir-se a
criação de portarias de extensão (PE) apenas para contratos coletivos de
trabalho celebrados por associações patronais que representem pelo menos 50%
dos trabalhadores das empresas do setor (Memo, 2012). Isto significa que
provavelmente o número de PE cairá de forma significativa, por a sua
representatividade ser expectavelmente baixa e as empresas não quererem
comprometer-se com parâmetros que as concorrentes não vão cumprir.
Portugal insere-se num padrão de relações industriais da Europa do Sul,
pontuado por uma grande fragmentação organizacional e uma relativa baixa
densidade sindical e patronal. A comunicação sindical surge como uma variável
importante, sobretudo se pensarmos na disputa de determinadas camadas da
população, como jovens ou trabalhadores do setor das TIC, ou de um modo geral
no apelo do universo imagético da sociedade de consumo.
A fragmentação sindical de que falamos corresponde a modelos de sindicalismo
distintos: oscilando entre a mobilização e a negociação (Offe, 1985). A este
dualismo, traduzido nas duas principais confederações sindicais, CGTP-IN e UGT,
é de esperar que corresponda uma distinção ao nível comunicacional. Foi a
partir desse pressuposto que iniciámos o estudo empírico de que damos conta
neste artigo.
Numa caracterização geral dos sítios na internet, observámos que mais de metade
dos sindicatos portugueses têm um sítio e que no setor dos serviços, como
esperado, são mais os que têm do que aqueles que não têm.
Outro resultado encontrado numa primeira aproximação ao terreno, e perante o
qual não podemos deixar de acrescentar elementos qualitativos complementares
para explicar a evidência quantitativa, é que a percentagem de sindicatos com
sítio é maior no caso dos ditos independentes e dos filiados na UGT do que
entre os sindicatos da mais representativa confederação portuguesa, a CGTP-IN.
Com efeito, para a compreensão destes resultados importará considerar, por
exemplo, que a CGTP-IN tem uma forte implantação em ramos de atividade
económica cuja composição social revela uma menor afinidade com a internet, ou
seja, os dos setores primário e secundário, enquanto a UGT evidencia um maior
peso de sindicatos do setor terciário. Mas também que as estratégias de ação
coletiva de ambas as confederações são distintas, as da CGTP-IN mais
mobilizadoras, as da UGT mais institucionais.
Para isolar essas possíveis variações, analisámos em particular os sindicatos
de base do setor público de administração direta do estado. A nossa tipologia
evidenciou uma relação estatística significativa entre o conteúdo dos sítios e
a filiação confederal dos sindicatos. Deste modo, os sindicatos da CGTP-IN
apresentam sítios com conteúdos que não se restringem aos serviços, contactos,
atividade negocial, etc., da própria organização. Em vez de adotarem uma
utilização circunscrita à vida sindical, estes sindicatos parecem pretender
criar nos seus sítios fontes de informação alternativa e complementar, espaços
de sociabilidade, etc. Mas para testar esta interpretação sobre o conteúdo dos
sítios, seria necessário prosseguir com a análise empírica e ouvir os
responsáveis pelos próprios sítios, assim como os seus utilizadores. De resto,
de acordo com Costa (2008), no que diz respeito às relações transnacionais por
exemplo, há um desfasamento claro entre o discurso e a prática.
Uma outra conclusão importante decorrente da aplicação da nossa tipologia
remete para o facto de os sindicatos, de um modo geral, não parecerem estar a
tirar proveito máximo das potencialidades da internet, na medida em que a
maioria das organizações do setor analisado, e independentemente da sua
filiação, adota sobretudo uma comunicação unidirecional. A tarefa de conhecer o
impacto do uso dos sítios fica seguramente mais dificultada, pois não existem
online muitos mecanismos que proporcionem uma participação efetiva dos
utilizadores. Trata-se, em suma, de uma navegação à vista, para usarmos uma
metáfora marinha que se cruza com o vocabulário próprio da internet.
Tal como a interatividade, a forma não apresenta resultados estatisticamente
significativos na sua associação à filiação confederal. No entanto, os sítios
analisados dão conta do predomínio do recurso à forma complexa, designadamente
a vídeos e som, de resto cada vez mais fáceis de manipular pelo utilizador
comum da internet.
Mas esta aplicação circunscreveu-se a um setor apenas e a nossa intenção é
ampliar o seu uso para percebermos, por exemplo, se em setores mais ou menos
predispostos à adoção de novas tecnologias, estas atraem mais os potenciais
utilizadores, ou se até nesses casos há limitações por parte das empresas ao
seu uso livre.
Por fim, não podemos deixar de recordar que se trata de um estudo que deverá
prosseguir, considerando inclusivamente os sindicatos que não dispõem ainda de
sítio, ou seja, cerca de 1/4 do nosso universo, procurando compreender quem e
porquê está a ficar para trás na sociedade da informação.