Representações das demências na imprensa (2001-2010)
Introdução
As representações coletivas ou sociais as ideias coletivas a respeito de
fenómenos concretos ou a respeito de outras ideias determinam comportamentos
coletivos e individuais, incluindo políticas públicas de saúde e formas de
tratamento de pessoas padecendo de doenças. A demência, pela sua especificidade
e pela sua entrada recente no discurso nacional e internacional, é um caso
concreto em que as representações sociais tiveram historicamente uma carga
negativa, com o inevitável agravamento da ação pública a respeito dos pacientes
(Carbonelle, Casini e Klein, 2009).[1]
Os media, pelo seu lugar da maior relevância na perpetuação ou reformulação de
representações sociais, tenderam, segundo alguns estudos, a reproduzir
estereótipos negativos a respeito da demência e seus portadores. Post (2000)
considera que estes são representados como pessoas privadas da sua humanidade
essencial, e Kirkman (2006) encontrou, num estudo sobre a presença de Alzheimer
na imprensa neo-zelandesa, os estereótipos do envelhecimento e da demência. A
mesma tendência foi encontrada por Ngatcha-Ribert (2004) na imprensa francesa.
Para Carbonelle, Casini e Klein (2009) a maioria das representações são
negativas, no sentido em que apresentam os pacientes como associados à morte
social, abandonados, perdidos ou maltratados e cuidados em instituições de
pessoal negligente, sendo as representações positivas as que resultariam da
informação a respeito de estudos científicos.
Estes trabalhos sobre as representações sociais da demência acentuam, portanto,
o caráter negativo dos estereótipos. Na verdade, o termo não é neles usado para
descrever retratos igualmente fixos e igualmente fantásticos, positivos
(Hartley, 2002). McKee (2001) vai mais longe, defendendo ser construtivo
compreender os estereótipos como refletindo um modo dominante de representação,
mais do que apreciando-os pelo seu rigor. Este ponto de vista permite
considerar os estereótipos menos como uma representação falhada da realidade
exterior do que como ferramentas textuais operando a favor da economia
narrativa.
O objetivo deste estudo foi o de traçar um retrato das representações das
demências na imprensa portuguesa num período recente. Importava, em primeiro
lugar, obter instantâneos concretos desse retrato de conjunto: quantas
notícias, a respeito de quê, ocorrendo onde, recorrendo a que fontes,
apresentando que protagonistas, tratando de que temas, correspondendo a que
agenda. Dada a dimensão do levantamento a que nos dedicámos, deixámos de lado
neste primeiro estudo a análise textual do discurso jornalístico. Todavia,
diversos elementos metajornalísticos eram importantes para garantir a
fidelidade dos instantâneos e do retrato de conjunto, como a dimensão e
localização das notícias nos jornais, bem como o género.
Pretendíamos ainda responder às seguintes questões de partida:
Existem diferenças no tratamento da informação sobre as demências entre os
diferentes tipos de jornalismo praticados por diferentes jornais diários? A
cobertura noticiosa sobre as demências sofreu variações no período analisado? O
jornalismo português manifesta os mesmos esterótipos negativos que são
referidos pelos autores citados?
Através da metodologia quantitativa, foi possível responder às questões
colocadas. Consideramos que o passo seguinte deverá ser o da análise textual do
discurso nas notícias analisadas, o que poderá ser obtido no material reunido,
quer através de uma investigação mais simples, a partir dos títulos das
notícias, quer a partir dos próprios textos.
Metodologia
Tratando-se de um primeiro estudo nesta área de informação bastante específica,
optámos por um levantamento extensivo das notícias a respeito das demências ou
referindo-se a elas, recorrendo à metodologia da análise de conteúdo
(Krippendorff, 1980). A análise realizada é essencialmente quantitativa, com um
tratamento estatístico simples, baseado em frequências e alguns cruzamentos de
variáveis, para obter as regularidades que permitam inferir explicações a
respeito do discurso jornalístico. Para permitir uma posterior análise textual,
fez-se o levantamento dos títulos das notícias e vocabulário relevante.
Fotografaram-se centenas das notícias para se poder, se necessário, aprofundar
a análise textual. Os dados foram trabalhados no software SPSS. Deste modo,
procurou-se a categorização sistemática do caráter simbólico dos textos
jornalísticos, os quais se constituem como meio privilegiado de análise de
fenómenos sociais pela sua proximidade aos referentes independentemente dos
filtros políticos, ideológicos e culturais, inevitáveis nos textos e também
porque o material empírico é à partida exterior a qualquer estratégia de
investigação (Vala, 1986).
A escolha da imprensa a analisar recaiu sobre três jornais diários, de forma a
dispor-se de unidades comparáveis. Escolhemos o Público, o Correio da Manhã(CM)
e o Jornal de Notícias(JN), o primeiro, identificado como jornal de elite, os
outros dois como jornais populares, um baseado em Lisboa, o outro no Porto. A
escolha de jornais de informação geral de grande tiragem, à escala portuguesa,
visa aproximar o estudo da circulação de ideias e informações na sociedade em
geral. Apesar de o objetivo principal não ter sido comparar os jornais entre si
no tratamento das demências, mas obter um quadro amplo da cobertura
jornalística do tema, o estudo permitiu ver como tipos diferentes de jornalismo
tratam o mesmo assunto.
Partiu-se do princípio de que se poderia comparar a agenda consensual de temas
cobertos e quais as tendências centrífugas a essa agenda em jornais
diversificados. Mais importante, pareceu-nos, porém, a verificação de
tendências históricas no período, numa análise de conteúdo quantitativa
longitudinal. Para obter uma série histórica, optou-se pelo levantamento de
quatro anos afastados por intervalos regulares: 2001, 2004, 2007 e 2010. Esta
opção permite uma visão sequencial do tratamento noticioso das demências
durante uma década. Em 2001 a Organização Mundial de Saúde (OMS) associa-se
pela primeira vez à celebração do Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro),
e o Relatório sobre Saúde no Mundo 2001, desta organização, centra-se nesse ano
precisamente no tema da doença mental.[2] Isso permitiu explorar a evolução da
cobertura jornalística das demências após a nova atenção e uma nova postura
político-cultural a esse respeito por uma instituição respeitada
internacionalmente.
Desde o início, planeámos um levantamento o mais alargado possível dos jornais.
Seguindo o exemplo de Kirkman (2006), optámos por considerar que as demências
são uma realidade que não se esgota na informação sobre saúde. Pensámos que
limitar o levantamento às notícias de saúde, ou de política relacionada com a
saúde, não permitiria uma visão completa, alargada, da presença das demências
nas notícias. Partimos desse pressuposto pelo facto de as demências serem tema
noutras áreas da vida e, portanto, do jornalismo, como crimes, desaparecimento
de pessoas, óbitos, etc. Por esse motivo, alargámos a busca a todas as páginas
de informação, incluindo política, obituários, desporto, economia, cultura,
magazines. Se algumas áreas se mostraram quase improdutivas, como a economia e
o desporto, outras compensaram, como a cultura, os magazines e os obituários.
Não nos ativemos nos artigos com conteúdos informativos, mas alargámos a
investigação a todos os géneros jornalísticos, incluindo a opinião. Foi este
alargamento do campo de análise que permitiu uma visão ampla das representações
da demência na imprensa. Apesar de esta opção ter alargado muitíssimo o corpo
do material empírico, julgamos que foi compensador. Limitar a investigação a
certas secções jornalísticas poderia enviesar a análise. Em resumo, o corpus de
análise foi constituído pelo universo de artigos sobre a demência nos períodos
indicados em três jornais escolhidos e não por uma amostra.
Assim, definimos como notícias com representação das demências todas aquelas em
que surgem sintagmas associados às demências, quaisquer que sejam os restantes
temas e o seu motor narrativo ou temático.
Foram folheados 4380 jornais nas edições em papel. Esta opção teve
inconvenientes, que consideramos menores. Primeiro, dois dos jornais tiveram
edições diferentes relativas ao Porto e a Lisboa (Público e Jornal de
Notícias), tendo sido consultada apenas uma delas, consoante a disponível nos
arquivos utilizados (Hemeroteca de Lisboa, Biblioteca Pública e Municipal do
Porto e arquivo do Diário de Notícias em Lisboa).[3] Segundo, não foi possível
fazer o levantamento de revistas semanais que acompanham o Jornal de Notícias e
o Correio da Manhã, tendo sido feito apenas o levantamento sistemático da
revista Pública, do jornal Público. Optámos por incluir os itens encontrados
nessa revista no corpo dos dados, por não originar enviesamento do tratamento
estatístico.
O levantamento visou localizar o maior número possível de elementos de conteúdo
e de forma de apresentação jornalística através de indicadores de linguagem
verbal e visual envolvendo as demências, incluindo no contexto dos
desenvolvimentos científicos e políticos (células estaminais, por exemplo).
Todos os gráficos têm como fontes as 4380 edições dos três diários (Correio da
Manhã, Jornal de Notíciase Público) em 2001, 2004, 2007 e 2010.
Análise de conteúdo
Evolução
Asnotícias incluindo referências verbais a demências (a partir daqui indicadas
apenas como as notícias, exceto quando descrito) tiveram uma presença
bastante regular na imprensa entre 2001 e 2010. No total, localizámos 712
notícias, o que representa uma média de 59,3 notícias por jornal por ano, ou
uma de seis em seis dias. Apenas 2007 apresenta um número um pouco superior aos
outros anos estudados (quadro_1). O Jornal de Notícias é o único jornal que
apresenta uma evolução regular, de crescimento, ao longo dos anos; o mesmo
sucede nos três primeiros anos no Público e no Correio da Manhã, mas ambos
registam uma diminuição de ocorrências em 2010 (quadro_1).
Podemos adiantar três justificações para esta diminuição em 2010, sendo as duas
primeiras do domínio dos conteúdos jornalísticos: diminuição dos estudos
científicos disponíveis sobre demências e menor novidade no tema em geral; uma
inflação pontual de notícias em 2007, sem continuidade em 2010, que se
apresenta com um valor semelhante aos dos primeiros anos estudados. A terceira
justificação é do domínio metajornalístico: devido à crise da imprensa
(internet, menos publicidade ), os jornais diminuíram o número de páginas, o
que implica menos notícias; esta diminuição tanto pode resultar num
investimento em trabalhos de maiores dimensões, diferenciando o medium da
concorrência, com consequente diminuição de pequenas notícias, como, pelo
contrário, numa gestão do menor espaço no sentido de maximizar o número de
itens informativos.
No quadro_1 é igualmente notável a semelhança no número de notícias entre os
três jornais ao longo do período, cujo total se distribui em cerca de um terço
por cada um deles. Tal explicita um idêntico nível de interesse e de
acompanhamento da atualidade em jornais com características diferentes, que
adquire um caráter estrutural.
Apresentação jornalística
Do total das notícias, 54, ou 7,6% do total de 712, tiveram destaque na
primeira página dos jornais, ora como chamada (4,8%), ora como manchete (2,8%).
O Público (24) e o Jornal de Notícias (22) assemelham-se no total de
referências de primeira página, o primeiro com mais manchetes (14) e menos
chamadas (10), o segundo com menos manchetes (6) e mais chamadas (16), enquanto
o Correio da Manhã se destaca pela ausência de manchetes e um número menor de
chamadas de atenção (8). Os dois primeiros anos do estudo originaram mais
manchetes (7 em cada) do que os anos seguintes. O ano com mais notícias, 2007,
apenas motivou uma manchete, no Público.
Quanto à dimensão, verifica-se uma apreciável diversidade. As notícias ocuparam
pequena dimensão, ou locais, com um ou dois parágrafos (30,8%), mas também
páginas inteiras ou mais (22,9%). No conjunto, as notícias de pequena dimensão
(locais ou um oitavo de página) totalizaram metade (49,5%), enquanto as
notícias com meia página ou mais foram 37,8%. No meio ficam as notícias de meia
página (12,6%). Esta variável permite assinalar desde já uma variedade que
ficará patente ao longo do estudo, para a qual chamamos aqui a atenção, pois as
várias dimensões do texto inculcam uma sensação de constância do tema no espaço
jornalístico.
O Jornal de Notícias e o Público voltam a assemelhar-se quanto ao espaço dado
às notícias. Em ambos as que ocuparam uma página ou mais são as que ocorrem
mais vezes: 30,4% no Público e 27,9% no Jornal de Notícias. Pelo contrário, o
tipo de jornalismo praticado pelo Correio da Manhã, publicar mais notícias e
mais curtas, explica que quase metade das notícias (48,4%) sejam da mais
pequena dimensão e apenas 11,3% ocupassem uma página ou mais. Trata-se de um
fenómeno próprio do jornalismo popular (também chamado tabloide, embora nesta
qualificação marcado por um sensacionalismo não assinalado neste conjunto de
notícias no Correio da Manhã).
Ao longo dos anos, a principal variação a assinalar é a do crescimento
sistemático do número de notícias ocupando uma página ou mais, de 16,0% em 2001
até 31,5% em 2010, diminuindo as notícias de meia página na ordem inversa, de
32,7% em 2001 até 15,1% em 2010. À falta de uma explicação interna dos
conteúdos, sugerimos que tal se possa dever a uma evolução do jornalismo de
imprensa para textos mais aprofundados e diferenciados dos outros media, em
especial na internet. Esta tendência verificou-se nos três jornais. Quanto às
pequenas notícias, apenas o Correio da Manhã apresenta um aumento significativo
ao longo do período, confirmando o seu caráter de jornal popular.
Em termos de ilustrações, ocorrem em mais de metade das notícias (60,0%), por
vezes mais do que um tipo: a fotografia é a mais corrente (em 56,0% das
notícias). Muito longe vêm o desenho (3,8%), o gráfico (2,0%), ou outra
(caricatura, mapa, quadro: 0,6%). Considerámos a caixa de texto (24,4%) como um
elemento de diversidade gráfica. A presença de fotografias nas notícias é muito
próxima nos três jornais. No Público e Jornal de Notícias aumentou bastante o
recurso a fotografia ao longo dos anos, enquanto no Correio da Manhã diminuiu
moderadamente. Este jornal é dos três o que menos recorre à caixa de texto, em
15,3% das notícias, enquanto no Público tal ocorre em 28,1% e no Jornal de
Notícias em 30,4%. Nos três jornais, mas em especial no Correio da Manhã, há
casos de fotografias repetidas diversas vezes em notícias; as imagens servem em
grande medida para criar espaços sem texto verbal, para respiração visual.
Nesse sentido são usadas imagens simbólicas ou indiciais, sem relação concreta
com os factos incluídos na notícia. Isto é, as imagens são usadas como um
passaporte, servindo, através do simbolismo sugerido, para ilustrar qualquer
notícia sobre demências. Todavia, as notícias em que se procurou imagens
diretamente relacionadas com elementos referenciais do texto verbal imagens
icónicas ultrapassam a metade (54,8%) das notícias que recorreram a imagem.
As restantes, ora apresentam uma distância ao referente, sendo a relação por
inferência ou contiguidade temática as imagens indiciais , o que acontece em
16,1% das notícias com imagem, ou são puramente simbólicas (22,7%), como seja
um idoso de costas para conotar Alzheimer. Estas últimas são imagens de arquivo
que quase sempre se utilizaram por mero intuito ilustrativo.
A secção em que as notícias relacionadas com demências se incluem é uma
variável que não tem grande valor de análise, dado que as evoluções do
jornalismo, como a fluidez de paginação, levam a que uma secção intitulada
Sociedade inclua noticiário de temáticas muito diversas e seja a parte do
jornal onde as notícias mais ocorrem. Não atribuímos valor estatístico a esta
variável, pelo que nos limitamos a assinalar a presença das notícias referindo
demências numa grande variedade de secções. Encontrámo-las nas seguintes
secções:
Sociedade Internacional Regional, Local Nacional Saúde Economia Desporto
Revista suplementos de publi-reportagem Cultura Opinião Religião última página
publicidade
Este vetor permite assinalar uma segunda vez a variedade de ocasiões que
proporcionaram referências a demências e justifica a opção pelo levantamento
exaustivo realizado.
Anote-se, à margem, que se localizaram inúmeros anúncios da Associação
Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer. Essa inserção foi
particularmente notada no Público e em 2004, com 42 inserções localizadas.
Estes anúncios contribuem para a visibilidade da ONG e do Alzheimer, não tendo
sido, porém, incluídos no estudo estatístico.
O género jornalístico encontrado permite assinalar, de novo, a variedade da
abordagem jornalística dos temas abarcando as demências nalguma ou nalgumas das
suas dimensões. A notícia jornalística propriamente dita tem uma presença
superior a quatro quintos do total (83,1%). Seguem-se, a grande distância, a
reportagem (8,1%), a opinião (4,8%), o fait-divers (3,4%), a entrevista (3,1%)
e o dossiê (2,9%), incluindo este, além de algum artigo noticioso de fundo,
elementos verbais ou ilustrativos com informação estatística, factos
históricos, etc.[4] Os outros géneros totalizam 3,6% (agenda, carta, editorial,
testemunho, magazine, conselhos, humor, correção de notícia, publi-reportagem,
etc.). A variedade jornalística leva à acumulação de géneros no mesmo item, o
que sucede em 9,3% das notícias, tendo nós associado num só registo as várias
partes do item jornalístico (por exemplo: texto principal, imagem quadro,
entrevista).
No quadro_2 pode verificar-se a presença das demências por géneros de notícias
nos três jornais. Nota-se a prevalência quase total da notícia propriamente
dita no Correio da Manhã, jornal que quase não recorre à reportagem incluindo
referências às demências. É neste jornal que se encontra mais presente o fait-
divers o que comprova a capacidade deste género para abordar qualquer
temática , e é também o que apresenta menos presença do artigo de opinião. Os
dois outros jornais apresentam resultados muito semelhantes, em géneros como a
notícia, a reportagem, o artigo de opinião e outros, notando-se uma diferença
na entrevista, mais presente no Público.
Análise do conteúdo informativo
A análise de conteúdo das notícias é o cerne deste trabalho. Pretendemos
extrair das notícias quais as suas fontes, protagonistas, sintagmas, temas,
locais, referências numéricas ou estatísticas, agendamento, sujeitos das
doenças referidos; pretendemos também avaliar o registo jornalístico quanto às
dicotomias inclusão/ exclusão e objetividade/subjetividade.
Em consequência do padrão do inquérito empírico que elegemos, a variedade do
jornalismo envolvendo demências também se encontra em diversos aspetos do
conteúdo das notícias; desde logo, nas fontes.
Ordenar as fontes permite-nos conhecer quem está na origem das notícias; quem
tem a capacidade de originar informação jornalística; quem tem a possibilidade
de orientar a informação, mesmo que sem o seu controlo final. Ao mesmo tempo, o
conhecimento das fontes dá-nos imediatos sinais do padrão de protagonistas e
até de temas, dado que as fontes coincidem inúmeras vezes com os protagonistas
e as suas ações.
A fonte, por definição, é o agente que o jornalista observa e entrevista, no
sentido de fornecimento de informação e sugestão noticiosa. Ela organiza-se
para publicitar interesses próprios, garantindo acesso a enquadramentos
específicos de um acontecimento e não apenas a sua simples menção ou cobertura.
Como o jornalista nem sempre está em posição de observar uma ocorrência
noticiável, precisa de alguém que lhe faça um relato o mais correto possível
a fonte (Santos, 2001). Podemos acrescentar que a proliferação de meios onde
encontrar matéria noticiável alarga a condição de fonte para além do agente com
o qual há uma interação, servindo materiais escritos, sonoros e visuais como
fontes secundárias, ou fáceis, cada vez mais divulgadas. Damos conta das
fontes das notícias no quadro_3, no qual hierarquizámos as que foi possível
identificar. Recorremos à categorização múltipla, tendo sido localizadas de uma
a seis fontes. Metade das notícias (50,6%) recorreram a uma fonte e 46,3%
recorreram a duas ou mais. O quadro não separa fontes nacionais e estrangeiras.
As universidades e centros de investigação, e cientistas e investigadores
constituem, de longe, o tipo de fonte mais presente nas notícias (35,5%). O
mundo da investigação foi o principal motor da informação sobre as demências ou
que a elas se referiu. A tendência do jornalismo para noticiar descobertas e
inovações científicas tem-se acentuado nas últimas décadas. Por um lado, pela
coincidência do discurso científico com o discurso jornalístico na
reivindicação da factualidade e da objetividade. Por outro lado, porque o
acesso constante à internet pelos jornalistas de ciência os concentra na
informação emanada pelos sites científicos. Esta dependência da internet, e de
comunicados de imprensa pronto-a-vestir' de publicações científicas, ameaça o
jornalismo de ciência, dado que os profissionais são controlados pelos mesmos
embargos [quanto à data de divulgação], usam as mesmas fontes e visitam os
mesmos sites, qualquer que seja o país em que trabalham (Granado, 2011). Esta
redução de fontes agrava-se se os jornalistas trabalharem apenas com base nos
relatos de outros media, incluindo agências noticiosas, o que estrangula a
variedade informativa. Ao mesmo tempo, e do ponto de vista dos interessados na
divulgação de informação, a crescente dependência dos jornalistas face à
internet e aos outros media abre uma janela de oportunidade para a divulgação
dos seus estudos ou de estudos capitalizando os seus interesses. Há também que
considerar a crescente tendência de investigadores para procurar a divulgação
dos seus trabalhos, não apenas no âmbito do seu meio científico, mas na opinião
pública / publicada, como forma de aumentar o valor do seu trabalho e obter uma
celebridade semelhante à de artistas e entertainers (Castelfranchi, 2012).
Três quartos dessas notícias relacionadas com investigação científica referem-
se a países estrangeiros (74,3%) e/ou ao mundo em geral (2,0%); metade (49,4%)
refere-se a Portugal, sendo um quarto das referências a Portugal em geral
(24,9%), e/ou ao Porto (9,1%), e/ou Lisboa (5,1%), e/ou outro local português
(10,3%), como Coimbra e Aveiro. Este cruzamento revela uma nova visibilidade
das universidades portuguesas e um interesse do jornalismo pela investigação
realizada em Portugal ou por cientistas portugueses, pela opinião de
especialistas portugueses a respeito de investigações internacionais, bem como
uma diversidade que rejeita um centralismo lisboeta nas fontes de informação.
Na segunda categoria de fontes mais citadas reunimos a agência de notícias Lusa
e outros media. Muitas notícias de origem estrangeira não citam a fonte
intermediária, normalmente a agência de notícias. Podemos considerar que a
fonte de grande parte das notícias que agrupámos na categoria não indicadas,
nenhumas ou anónimas (20,4%) deverá ser a agência Lusa ou outra agência de
notícias. Este facto acentua o referido indicador de dependência dos jornais
portugueses face às agências no que ao noticiário do estrangeiro diz respeito.
No noticiário nacional, a agência serve muitas vezes como alavanca de
investigação própria, para permitir diferenciação na notícia publicada, o que
acontecia menos noutros tempos, mas continuamos, no caso de muitas notícias com
origem em agências noticiosas, a encontrar exatamente o mesmo texto em jornais
diferentes. O recurso às notícias oriundas das agências pela internet leva
mesmo à repetição, por diversas vezes, da mesma notícia com as mesmas palavras
no mesmo jornal, em dias próximos, mas também, num caso ou noutro, em páginas
diferentes no mesmo dia, isto é, paginada por diferentes setores das redações.
A categoria outros media inclui as revistas académicas citadas. É o que
ocorre em muitas notícias divulgando o resultado principal ou um resultado
interessante de um novo estudo científico. Como referimos, os centros,
universidades ou os próprios investigadores dão a conhecer, diretamente ou
através de empresas de marketing e comunicação, os seus estudos às agências ou
jornais, os quais citam depois as revistas científicas que os publicaram,
procurando por vezes complementar com declarações dos investigadores, para isso
contactados. Deste modo, algum noticiário científico chega aos leitores
portugueses no final de uma matrioska de citações: o leitor português lê uma
notícia num jornal português que cita um texto de uma agência nacional que cita
um jornal / agência internacional que cita uma revista científica.
O poder político e estatal (governos, parlamentos, instituições do estado) não
domina o fluxo informativo referindo demências. Tal resulta não só da variedade
temática das notícias, mas também de alguma inércia das autoridades no que diz
respeito a estas doenças. No período estudado, tiveram início diversas
políticas de saúde nesta matéria, mas não constituíram prioridade dos governos,
pelo que em diversas notícias as instâncias de poder têm, como fontes, uma
presença reativa e não pró-ativa. As instâncias de poder mais referidas são os
governos e os parlamentos, de Portugal e dos outros países. A União Europeia
esteve ausente como fonte de notícia neste período.
Os portadores de demências e os seus familiares têm em conjunto uma presença
importante como fontes do noticiário (11,2%). O facto de os doentes e
familiares procurarem ter voz e/ou de os media lha proporcionarem permite à
imprensa uma atitude de abertura, revelação e solidariedade silenciosa com as
vítimas das demências. Isto é, não só outros falam por eles, como os próprios
se exprimem no espaço público. Deste modo, notámos uma legitimação extensiva
dos doentes e familiares nas notícias a respeito de demências. Esta vocalização
pelos doentes e familiares surge diversas vezes associada à presença nas
notícias de associações não governamentais de doentes ou familiares. Se
considerarmos a voz dos médicos (13,9%) e das ONG (12,9%) como interventora
pelos doentes, e por políticas de saúde que lhes sejam favoráveis, como
acontece amiúde, conclui-se que as vozes alinhadas pelo doente, familiar e
políticas de saúde mais avançadas têm uma presença muito importante como fontes
das notícias. A voz dos doentes e familiares surge também em reportagens, um
género privilegiado para, no terreno, ouvir os protagonistas diretos, e ainda
nas notícias de desaparecimento de portadores de Alzheimer, por exemplo. Esta
presença forte de fontes alternativas às vozes oficiais contraria estudos de
imprensa recentes. No estudo de Silva (2009) sobre a saúde em termos globais na
imprensa, os utentes representam 4,9% das fontes; e, tal como esse
levantamento, um estudo sobre fontes nas notícias sobre saúde em três jornais
Público, Correio da Manhã e semanário Expresso encontrou, num período mais
próximo, uma grande prevalência das vozes oficiais (Lopes e outros, 2011a e
2011b, Ruão e outros, 2012).
Nota ainda para o facto de, do lado institucional, as empresas farmacêuticas e
outras (biotecnologia, genética, etc.) constituírem uma das fontes importantes
neste noticiário, dado o seu papel marcante em desenvolvimentos que as notícias
relacionam com as demências e seu eventual tratamento e prevenção.
As fontes podem não corresponder aos protagonistas das notícias (quadro_4).
Nestas, tanto prevalece a demência como tema central, como, em muitos dos itens
localizados, é secundária, sendo, por exemplo, apenas indicada como causa de
óbito de uma personalidade, etc. Os protagonistas tanto podem ser pessoas como
instituições e profissões. Acima de metade das notícias (54,5%) apresentaram
entre dois e seis protagonistas.
É significativo que os doentes com demências são os primeiros protagonistas das
notícias (38,8%). Somando a essa presença a dos familiares dos portadores de
demência (11,1%) constata-se que os protagonistas sem qualquer poder
institucional protagonizam metade das notícias. A estes poderíamos somar os
cidadãos comuns (3,6%). Em segundo lugar, estão os investigadores /
universidades / centros de investigação que anunciaram alguma descoberta nesta
área (37,3%). As ONG e as IPSS aparecem em terceiro lugar. Seguem-se as
instituições oficiais de saúde, coincidindo este período com um debate sobre a
questão do internamento prolongado de doentes com demências, com os
consequentes temas de ocupação de camas, etc. Só depois aparecem as
instituições diretamente representativas do poder político. Nota-se que as
empresas farmacêuticas, interessadas em, através do espaço público,
pressionarem a adoção de políticas públicas que lhes sejam favoráveis, surgem
como protagonistas das notícias com uma presença expressiva, duplicando a sua
presença em relação à sua ação como fontes, o que indicia a utilização de
canais alternativos para garantirem espaço na informação publicada.
O levantamento do vocabulário das notícias deu-nos indicações sobre a linguagem
utilizada para lidar com as demências, mas a proximidade da linguagem
jornalística aos referentes explica que o levantamento dos temas nas notícias
se aproxime muito do levantamento do vocabulário. Preferimos, por isso,
concentrarmo-nos nos temas. Deixamos aqui nota, apenas, da variedade vocabular
e temática, que ultrapassou largamente o que prevíramos antes do início do
estudo.
O quadro_5 apresenta a frequência dos temas relativos às demências na imprensa.
Temas diferentes ocorrem na mesma notícia, pelo que o total de ocorrências é
superior ao número de notícias. As percentagens de cada tema são, entretanto,
apresentadas em relação à sua presença nas 712 notícias. Excluímos temas com
menos de 10 ocorrências.
Esta tipificação aponta, de novo, para uma grande variedade temática no
noticiário em torno das demências. A diversidade vale por si, justificando que
não agrupássemos temas nesta análise. As demências estão presentes, quer a
montante (na investigação, nas causas e riscos, na prevenção), quer a jusante
(no processo médico, nos cuidados, no internamento, na qualidade de vida);
estão presentes, quer na esfera institucional (instituições e políticas de
saúde), quer na esfera privada (consequências das demências na vida própria e
dos familiares). Sem tomarmos em conta a qualidade concreta das notícias
segundo critérios jornalísticos, que não está em estudo, podemos afirmar que o
conjunto do noticiário analisado apresenta a qualidade da diversidade temática
e uma ampla cobertura dos principais aspetos relacionados com as demências.
Das 712 notícias relacionadas com demências, mais de metade (52,2%) incluem
referência à doença de Alzheimer. Este indicador destaca-se claramente da
segunda referência mais presente, a doença de Parkinson (24,7%), que, aliás,
aparece quase sempre associada ao Alzheimer, sendo poucas as notícias com
referência ao Parkinson e sem referência ao Alzheimer.
Os temas e a presença vocabular na notícia têm história, evoluem ao longo do
tempo, consoante o interesse da sociedade e do jornalismo. O interesse pela
doença de Alzheimer aumentou significativamente no conjunto dos três jornais
analisados da primeira (16,3% no total das notícias) para a segunda metade do
período analisado (36,0%). Uma ligeira descida em 2010 ficou a dever-se ao
Público e ao Correio da Manhã, dado que no Jornal de Notícias o aumento de
referências apresentou uma subida constante. A descida explica-se pelo número
menor de notícias no último ano do estudo e também pelo menor débito de estudos
sobre a matéria pela comunidade científica, registando-se em 2010 uma descida
da presença das universidades e investigadores, quer enquanto fontes, quer
enquanto protagonistas das notícias, quer ainda, como veremos ainda, enquanto
motores do agenda-setting. Tal como o Alzheimer, também a doença de Parkinson
aumentou em referências de 2001 a 2007 e diminuiu em 2010, neste caso nos três
jornais.
Alguns temas das notícias correspondem a debates em determinado momento,
colocados na agenda mediática pelo poder político e pela comunidade científica
(temas geralmente qualificados pelo jornalismo como polémicos). A seguir ao
Alzheimer e ao Parkinson, o tema da manipulação genética (clonagem e células
estaminais, neste caso em diversas variações linguísticas até estabilização
nessa terminologia) surge em terceiro lugar nos temas mais correntes nas
notícias. As referências às células estaminais concentram-se em cerca de dois
terços no ano de 2004; e dois terços das referências à eutanásia ocorrem em
2001; mais de metade das referências ao estigma e à discriminação acontecem
também no ano de 2001; os lares de idosos têm metade das referências nesse ano
e vão desaparecendo até 2010; pelo contrário, o vocábulo demência aparece em
crescendo, tendo quase metade das suas referências em 2010. Podemos dizer que a
estabilidade terminológica corresponde à estabilização do tema na sociedade. Na
década 2001-2010, a demência, incluída na agenda pela Organização Mundial de
Saúde em 2001, tornou-se um tema do jornalismo, em especial através da sua face
mais concreta, o Alzheimer.
Uma análise aos textos das notícias permite verificar como a doença de
Alzheimer passou de novidade a sintagma vulgar na imprensa. No início do
período estudado, o Jornal de Notícias referia-se à doença por duas vezes como
o mal de Alzheimer e, logo em 5/1/2001, incluía esta descrição da doença: A
doença de Alzheimer frequente e deselegantemente designada como doença dos
mortos-vivos' . Nos outros dois jornais, em 2001 a nomenclatura desta
demência já estava estabilizada.
Avaliando o eventual interesse noticioso para o seu público-alvo, a imprensa
foca persistentemente as demências pelo lado da possibilidade de serem
diagnosticadas, prevenidas ou tratadas. O levantamento dos temas revela o
interesse da imprensa nos factos noticiáveis, referindo novos diagnósticos e
tratamentos para as demências (14,7%) e sua prevenção (7,6%) através de
exercícios físicos e mentais, da alimentação ou de certos alimentos e bebidas,
etc. Esta atenção da imprensa à prevenção alarga-se à informação sobre causas e
riscos (3,7%) e às hipóteses de cura das demências (2,2%), não faltando os
anúncios de curas por oração e milagre. No conjunto, os temas relacionados com
o diagnóstico, a prevenção, os tratamentos e alegadas curas somam 201
presenças, o que constitui 12,3% do total de referências.
O envelhecimento e a velhice têm presença menor como tema relacionado com as
demências e a sua expressão diminui significativamente ao longo do período. Ao
contrário, a perda de memória índice por excelência do Alzheimer mantém uma
presença estável ao longo do mesmo.
A especificidade do jornalismo, que aponta para o tratamento do concreto em
substituição do abstrato, poderá ajudar a explicar a presença mínima do tema
saúde mental (1,4%). Outra ausência de nota é a do financiamento do tratamento
e cuidados aos doentes com demência (1,4%). Contudo, acrescente-se que o tema
dos medicamentos (2,2%) surge em especial na sua relação com a comparticipação
do estado no seu pagamento. Quer dizer, de novo é no concreto que se aborda a
questão, mais abstrata, do financiamento dos serviços de saúde.
O interesse jornalístico pelos eventos disruptores evidencia-se na atenção a
crimes (3,8%) e julgamentos (3,8%) de acusados de crime sobre portadores de
demências. As questões de justiça obrigam a um debate público sobre casos
limite, o que proporciona um maior entendimento dos problemas da sociedade,
neste caso relativos à demência.
No quadro_5 podemos ainda verificar uma presença do marcador Dia Mundial de
Inclui referências ao Dia Mundial da Saúde Mental, Dia Mundial da Menopausa,
Dia Mundial do Café, mas principalmente ao Dia Mundial da Pessoa com Doença de
Alzheimer (21 de setembro). Esta presença confirma a capacidade destes eventos
para marcarem a agenda, servindo de alavanca a notícias sobre as próprias
comemorações, mas principalmente como porta de acesso a trabalhos jornalísticos
sobre o tema das demências. Aliás, podemos dizer que o arranque da década e
deste estudo se faz com o destaque dado pela Organização Mundial de Saúde ao
Dia Mundial da Saúde Mental de 2001, como notava o Jornal de Notícias em 7/1/
2001, o que, a nosso ver, condicionou positivamente a atenção da imprensa ao
tema. Podemos verificar o mesmo papel agenciador do Dia Mundial no que à doença
de Alzheimer se refere. Por causa da efeméride, a principal associação obteve
ampla visibilidade na imprensa, chamando a atenção, nos diversos anos, para
questões diferentes relacionadas com aquela e para práticas inclusoras dos
portadores de doenças, como atividades e passeios.
Pensamos que o jornalismo a respeito das demências, ou onde as demências são
referidas, beneficia de uma ampla variedade de abordagens, compensando este
pluralismo as limitações próprias de práticas jornalísticas repetitivas ou
pobres de conteúdo.
Como se manifesta o tema de inclusão / exclusão nas notícias? Esta avaliação
pelo estudioso, eminentemente subjetiva, serve mesmo assim para dar conta da
atitude nos eventos noticiados. Não se trata aqui do tom adotado pelo
jornalismo (a que nos referimos noutro local), mas do tema implícito na
realidade descrita quanto à inclusão ou exclusão. Dito de outra forma: os
acontecimentos que motivam as notícias são ou não são tendencialmente
inclusores dos portadores de demências e das políticas a estas associadas?
Descontada a subjetividade do estudioso, podemos afirmar que o noticiário sobre
demências se refere a atos e declarações claramente favoráveis à inclusão.
Comecemos, porém, pelas notícias com um tema neutro ou sem elementos de tom, as
quais constituem a maioria (53,2%). Recordando que muitas delas dizem respeito
à divulgação de estudos em si mesmos favoráveis à solução de problemas ,
podemos nesta categorizarão de neutralidade encontrar um ambiente inclusório,
dado que mais informação permite a compreensão do fenómeno, logo a sua
aceitação. O ambiente inclusório é, entretanto, explícito em 34,6% das
notícias, ou um terço, enquanto as referências a atos de exclusão, desde o
desleixo de políticas públicas até ao assassínio de portadores de demências,
ocorre em apenas 6,5% das notícias. Há ainda um número não negligenciável de
notícias que incluem as duas atitudes (5,7%), geralmente partindo de um ato de
exclusão para o seu contraditório pelo discurso ou ato de inclusão. Esta
verificação subjetiva da inclusão / exclusão como categoria de representação
de atores sociais (Ponte, 2004) necessitará de uma análise crítica do
discurso, que não esteve no âmbito deste estudo, mas ela é por agora confirmada
pela já referida verificação objetiva, quantitativa, da grande presença nas
notícias dos protagonistas das demências e seus familiares.
Uma variável importante na avaliação do tratamento jornalístico neste estudo é
a da geografiaa que a informação se refere. Encontrámos 859 informações sobre
local ou locais nas 712 notícias. Num estudo recente em que se fez o
levantamento da geografia das fontes em três jornais, verificou-se que as
fontes portuguesas atingiam cerca de 75% a 80% do total (Lopes e outros,
2011b). No nosso estudo, a geografia não das fontes mas dos locais
referenciados nas notícias, incluindo as fontes é um pouco mais variada.
Dois terços das notícias (66,4%) incluem localização portuguesa, seja quanto ao
país em geral (30,3%), seja indicando locais concretos. Lisboa surge com 7,0%,
mas deve tomar-se em conta que muitas das notícias registadas como falando do
país em geral têm origem em Lisboa. Todavia, a cidade não era referida, nem
como Lisboa nem como capital, pelo que não se anotou. Deve, em vez disso,
anotar-se a forte presença do resto do país. Encontram-se inúmeras notícias de
fora de Lisboa, relativas à divulgação de estudos realizados em universidades
no Porto, em Coimbra, em Aveiro, ou por investigadores desses centros. Há
também informações a respeito de hospitais, lares de idosos e iniciativas da
sociedade civil em inúmeras localidades. Uma das presenças do Alzheimer nas
notícias refere-se ao desaparecimento de pessoas de suas casas, de lares ou
instituições, situação ocorrendo em qualquer local do país, mas sendo mais
noticiada nas localidades pequenas. Há, ainda, um pequeno número de notícias
sobre a situação dos idosos, em relação com demências, nas aldeias e no
interior do país, onde as condições de tratamento, acompanhamento e qualidade
de vida são vistas como mais difíceis.
As localizações fora de Portugal encontram-se também em mais de metade das
notícias (54,2%). A sobreposição Portugal / fora de Portugal justifica-se
principalmente pela tentativa dos jornais de encontrarem ângulos nacionais para
informações oriundas do estrangeiro, originando a consulta de especialistas ou
responsáveis nacionais, ou ainda a referência a estatísticas nacionais de um
tema europeu ou mundial.
A quase totalidade de notícias com localizações estrangeiras diz respeito a
países, como as que se referem a estudos científicos acabados de divulgar num
certo país ou a casos concretos da política, da justiça, dos óbitos, etc. As
poucas referências ao mundo em geral (2,7%) surgem em relação com estudos
internacionais englobando estatísticas universais, como, por exemplo, a
incidência do Alzheimer ou das demências em geral. A irrelevância da presença
da União Europeia nos noticiários sobre as demências (1,7%) denota a ausência
de uma política comum visível, incluindo a nível da divulgação de estudos e
estatísticas, prática vulgar noutras áreas, como a economia e finanças,
cultura, etc.
Vale a pena atentar na evolução temporal das referências geográficas. Em
relação a Portugal há um crescimento constante ao longo da série temporal,
terminando em 2010 com um aumento de 50% sobre o número de notícias de 2001.
Esse crescimento de Portugal nas notícias a respeito das mudanças faz-se
principalmente pelo aumento das que referem outras localidades, embora o Porto
também cresça, enquanto as notícias de Lisboa não apresentam mudança
significativa no seu número.
Quanto à evolução das notícias com locais de fora de Portugal, nota-se uma
queda abrupta no crescimento no ano de 2010, chegando ao final da série com
menos um terço do que ocorreu em 2001. Deste modo, se em 2001 as notícias com
locais portugueses e com locais estrangeiros eram idênticas em número (95
cada), no final da série temporal, as notícias com locais portugueses (143) são
quase o dobro das referentes a locais estrangeiros (73).
Esta evolução permite contextualizar o decréscimo, já várias vezes aqui
referido, do número de notícias sobre demências no ano de 2010: verifica-se que
foram as notícias estrangeiras que diminuíram substancialmente.
Dada a importância da validação da informação jornalística com dados factuais,
procurámos a presença de referências quantitativas, em números absolutos ou
estatísticos. Nas 712 notícias, ocorrem dados factuais deste género em 45,5%,
nomeadamente nas que se referem a estudos científicos, à incidência das
doenças, a políticas de saúde, etc. O Público apresentou referências numéricas
em mais de metade das suas notícias (53,4%) e o Jornal de Notícias em quase
metade (47,4%), enquanto o Correio da Manhã apresentou dados numéricos em
apenas um pouco mais de um terço (36,7%), tendência que confirma o seu tipo de
jornalismo.
Quais os motivos para as notícias ou artigos? O que acontece no mundo exterior
que justifica o tratamento jornalístico? Procurámos alguns elementos do agenda-
building, a construção da informação que marcará a agenda informativa, mas nem
sempre é fácil encontrá-los a posteriori, com base nos próprios textos. Mesmo
assim, achamos que resulta um indicador valioso.
Localizámos 95 notícias (13,3%) sem qualquer indicação sobre o seu agendamento,
muitas vezes porque são tornadas sucintas ao ponto de desaparecer o contexto da
informação incluída; também nos textos de opinião é frequente não se indicar
razões de agendamento; finalmente, um género como a reportagem resulta amiúde
da iniciativa da redação ou do repórter. Todas as restantes notícias (86,7%)
têm um evento na sua base, numa latitude que vai dos eventos programados (uma
visita governamental, comemoração de um Dia Mundial, divulgação de um estudo,
etc.) aos eventos imprevistos ou os previstos que dele decorrem (óbitos,
crimes, eutanásia, julgamento, etc.). Considerámos como evento qualquer
acontecimento ou ação que se transforma em ato noticiado.
Interessou-nos em especial verificar o peso da divulgação na imprensa de
estudos científicos, de universidades e centros de investigação, ou estudos
estatísticos, nomeadamente por organismos internacionais ou governos. O
resultado confirmou a expectativa: das 617 notícias com tema de agendamento,
40,1% resultaram da divulgação de descobertas científicas ou de estudos, em
geral pequenos apontamentos a respeito de estudos académicos ou outros.
Recordemos que este facto indica o interesse do mundo académico na divulgação
dos seus trabalhos, o seu fácil acesso à divulgação jornalística, bem como a
correspondente predisposição dos media para os divulgar. Pode ser interessante
anotar que a divulgação de estudos científicos sofreu um enorme aumento de 2001
e 2004 (43 e 47, respetivamente) para 2007, quando se publicaram 95 notícias.
Esta febre diminuiu em 2010, mas, com 66 notícias, ficou num patamar muito
superior ao início do período, o que faz coincidir a apetência do jornalismo
por textos pré-escritos pelo marketing da investigação científica com o
interesse desta em ver divulgados os seus trabalhos.
Quisemos tipificar o lugar na sociedade dos indivíduos com demências
referenciados nas notícias. Mais de dois terços delas (69,1%) referem-se às
doenças ou a doentes em geral, ou a conjuntos de indivíduos em testes
científicos ou médicos. Entretanto, mais de um quinto das notícias (22,5%) diz
respeito a cidadãos comuns ou seus familiares, todos nomeados e não anónimos, e
9,0% referem-se a pessoas conhecidas e celebridades ou seus familiares.
Isto é, quer os membros das diferentes elites da sociedade, quer o cidadão
comum são tema de notícia e potencial ângulo de abordagem das demências. Este
marcador permite também avaliar a aceitação das demências no espaço público,
dada a identificação dos seus portadores.
As notícias com conhecidos portadores de demências são mais frequentes nos
anos de 2001 e 2004, cumprindo a função de elite, pois a publicitação da doença
por políticos, artistas e escritores terá contribuído para uma maior aceitação
da condição de portador de demência e até para o reconhecimento da existência
enquanto categoria consensual e não associada a loucura ou vergonha. Por
outro lado, corresponde à passagem das celebridades de estrelas a pessoas
como nós, fenómeno há muito detetado (Morin, 1972) e que se acentuou nas
últimas décadas (Heinich, 2012). É paradigmático deste papel das celebridades
o reconhecimento pelo ator Rock Hudson de que padecia de sida (Bird, 2003). Na
imprensa portuguesa, as notícias com cidadãos comuns nas mesmas circunstâncias
dos conhecidos prolongam-se para 2007, ambas diminuindo em 2010, o que indica
que o lugar do cidadão comum coexiste ou poderá até ser anterior ao das elites
neste tipo de notícias.
A chegada da doença à luz do dia, que podemos associar ao período em estudo,
tem dois marcadores importantes nas notícias: o reconhecimento pelo ex-
presidente dos EUA, Ronald Reagan, de que padecia de Alzheimer, morrendo em
2004 (e originando grande fluxo noticioso com referências à doença); e, ao
nível dos cidadãos comuns, a associação do desaparecimento de idosos a
demências como o Alzheimer. Na verdade, nos dois primeiros anos do período
verificámos a existência de diversas notícias relatando desaparecimentos que
não tinham qualquer marcador de explicação, enquanto nos anos posteriores o
mesmo tipo de notícia indica o Alzheimer como a causa do desaparecimento. No
período em estudo em Portugal, a primeira personalidade cujo padecimento por
Alzheimer teve uma grande visibilidade foi o futebolista José Torres
[Público,4/9/2010: José Torres (1938-2010), o homem sem defeitos]. O
reconhecimento por algumas personalidades, como um político catalão (2007) ou
um escritor britânico (2010), de que sofriam de Alzheimer, ou do ator Michael
J. Fox de que sofria de Parkinson (atravessando todo o período em notícias
sobre políticas de saúde ou cultura), contribuiu para combater o estigma e o
silêncio a respeito destas doenças. Quer dizer, a visibilidade das demências e
do Alzheimer terá correspondido a uma atitude de compreensão e de inclusão por
parte da sociedade no seu todo, do topo à base, fenómeno social que este
levantamento regista para um período fulcral para a inclusão das demências na
agenda política, social e cultural.
Indicadores de avaliação do trabalho jornalístico
A terminar a análise empírica, damos conta de duas variáveis relativas ao
trabalho jornalístico: a verificação do tom inclusor / exclusor do texto e uma
avaliação da sua objetividade / subjetividade. De novo, trata-se aqui de
introduzir a subjetividade do estudo para obter elementos adicionais,
permitindo um conhecimento mais completo do material estudado. O tom inclusor /
exclusor foi verificado com base nas variáveis inclusor, exclusor e
neutro; a objetividade e subjetividade jornalísticas foram avaliadas segundo
as variáveis muito objetivo, objetivo, pouco objetivo e subjetivo.
Quanto ao caráter inclusor / exclusor do texto jornalístico, verificámos uma
esmagadora prevalência da neutralidade jornalística, em 79,1% das notícias. Nas
restantes, o tom exclusor limita-se a um número residual de notícias, apenas
quatro, ou 0,6%. O jornalista adota um tom tendencialmente inclusor em 19,1%
das notícias. Estes resultados contrastam com o tom exclusor encontrado por
Cristina Ponte (2004) a respeito da sida no Diário de Notícias e no Correio da
Manhã na primeira parte do período de 1982-2000.
A avaliação da objetividade e subjetividade aponta para uma grande maioria de
notícias muito objetivas (60,5%), seguidas das notícias objetivas (28,4%). O
caráter subjetivo (4,8%) respeita em especial aos artigos de opinião. As
notícias consideradas pouco objetivas constituem uma pequena minoria (5,1%),
resultando a classificação menos da avaliação do tom adotado pelo jornalista do
que da ausência de dados factuais, prejudicando a qualidade do texto.
Conclusões
A metodologia adotada, de levantamento completo do corpo noticioso da imprensa,
e não apenas das secções de saúde, revelou-se compensadora, e permite
questionar se uma análise restrita às páginas de saúde fornece um quadro
completo da atenção jornalística a temas, não só relativos às demências, mas a
qualquer realidade com impacto político e social. O noticiário catalogado como
de saúde tenderá a dar prioridade ou mesmo monopólio à informação oriunda dos
poderes institucionais, políticos ou não. O alargamento a todo o jornal
possibilitou-nos verificar uma diversidade temática, de fontes e de
protagonistas muito ampla, permitindo constatar como as demências se
repercutiram não só como uma realidade das políticas de saúde, mas da sociedade
em geral, refletindo-se na diversidade dos ângulos de abordagem pelo
jornalismo. Em consequência, pode dizer-se que se confirma o papel dinâmico dos
media na construção social da realidade (Berger e Luckmann, 2004), pela sua
dupla função de reflexo da realidade e de potência de criação de representações
sociais. Pode aplicar-se à demência o que António Fausto Neto concluía a
respeito da sida: ela se produz e reproduz pelo menos em três corpos: o corpo
das suas vítimas, o corpo social (enquanto corpo cultural e simbólico) e o
corpo dos media, por ela invadido' mediante uma disseminação' que, contudo,
recebe junto às leis mediáticas as possibilidades da sua própria
inteligibilidade (Comunicação e Mídia Impressa. Estudo sobre a AIDS,1999,
apud, Ponte, 2004).
A análise aqui realizada permitiu concluir que o noticiário referindo as
demências tem uma presença regular, constante e variada na imprensa portuguesa.
Os três jornais Correio da Manhã, Jornal de Notícias e Público acompanharam
com regularidade o tema no período estudado (2001-2010). A diferença de modelos
de jornalismo entre os três diários não se manifesta nem no número de notícias
sobre as demências nem nas mais importantes variáveis de análise, mas apenas em
características da notícia, como a dimensão e a chamada de primeira página. No
conjunto, a imprensa portuguesa deu uma atenção diversificada às demências, em
especial ao Alzheimer, quanto a fontes, temas, protagonistas, nos mais variados
géneros jornalísticos e nas mais variadas secções noticiosas dos jornais.
O tratamento foi equilibrado quanto ao tom inclusor / exclusor e à objetividade
jornalística.
O leitor encontra as demências em páginas da política, da saúde, da
sociedade, da criminalidade, nos obituários, etc. O noticiário sobre as
demências ocorre na variedade de géneros jornalísticos, de fontes,
protagonistas, temas, geografia e motores de agendamento. Verifica-se uma
variedade de temas, de abordagens e de vozes. Os portadores de demência, seus
familiares e outros porta-vozes, formais ou informais, têm uma forte presença,
que equilibra vozes mais institucionais ou das instâncias de poder. Uma das
constatações mais significativa da análise refere-se precisamente à abordagem
das demências por ângulos não estatais e não governamentais, numa proximidade
com doentes, familiares, ONG e IPSS.
O interesse ou a facilitação na divulgação de estudos científicos é igualmente
favorável a uma visibilidade positiva das demências, dado que os estudos são
divulgados numa perspetiva de diagnóstico, prevenção, tratamento e eventual
cura das doenças. O noticiário sobre celebridades afetadas por Alzheimer ou
Parkinson tende a naturalizar estas doenças, abrindo o caminho a uma maior
atenção e abertura ao universo dos doentes, tratamento e acompanhamento.
Mais do que o conflito como motor da informação sobre as demências, a
construção da agenda pelos diversos agentes envolvidos, como os centros de
investigação, as instituições públicas, as ONG e IPSS, mas também as empresas
farmacêuticas, revelou-se um fator significativo da produção noticiosa, através
da criação de eventos motivadores da atenção jornalística. A confluência do
negócio das farmacêuticas com o interesse do avanço do tratamento das demências
mitigou eventuais notícias a partir de conflitos: estes encontram-se em
especial, mas sem contundência, no noticiário que dá conta do atraso do
aparelho de estado em responder às demências como uma realidade social, efetiva
e/ou construída pela sua crescente visibilidade pública e mediática. A
principal fragilidade do noticiário analisado é a falta de autonomia em relação
às fontes fáceis, muito embora se note um esforço pelo recurso em simultâneo
a fontes nacionais ou independentes das fontes originais no sentido de alargar
os pontos de vista. Os eventos com origem nas fontes fáceis revelam-se não
só como a matéria-prima do jornalismo, mas também como um constrangimento, ao
originarem uma hierarquização sugerida exteriormente. Todavia, essa força
exterior resulta da dinâmica dos atores político-sociais criadora de um ar do
tempo inescapável. Deste modo, a cobertura das demências neste período
repercute a sua imposição pela agenda, mas também um interesse independente
pelo campo jornalístico. Por exemplo, a reportagem apresentou-se como um género
em que a autonomia do jornalista se pode manifestar, por não depender dos
constrangimentos da agenda e permitir a liberdade de escolha do ângulo de
abordagem, dos temas concretos, de protagonistas e fontes.
O seguimento pela imprensa da agenda institucional e das fontes fáceis, como
as agências noticiosas e as empresas de comunicação podendo verificar-se no
período estudado um interesse das empresas farmacêuticas e outras relacionadas
com a saúde no aumento da visibilidade das demências , não apagou a presença
de vozes alternativas, podendo até ter servido para a potenciar. Pode dizer-se
que a cobertura das demências pela imprensa mostra dois movimentos
concomitantes e em interação, numa ação de conjunto própria do jornalismo em
democracia: de cima para baixo, das instituições de poder e empresas para a
população, e de baixo para cima, a partir dos doentes, familiares e das
instituições que lhes estão mais próximas, como as ONG e as IPSS, para as
instâncias de poder.
No conjunto, resulta um acervo de conteúdos globalmente positivos para a
perceção pública das demências, em todas as suas envolventes, sendo de destacar
a consciencialização de que elas crescerão inevitavelmente com o envelhecimento
da população e que têm uma implicação diferente de outras doenças relativamente
às famílias e outros cuidadores. O discurso inclusor deverá assim contribuir
para a diminuição e apagamento da imagem negativa da demência na sociedade,
contribuindo, como está comprovado, para contrariar reações negativas das
pessoas comuns a respeito da doença e dos pacientes (Aelvoet, 2009).
Como entender a imagem positiva das demências na imprensa? Os temas da saúde
são em geral tratados de forma inclusora pelos media, excetuando-se, quando do
seu aparecimento, a sida, como vimos, doença que por algumas das suas
características, como a transmissão por via sexual, originou um discurso moral
específico (Ponte, 2004) que não encontrámos quanto às demências. No caso
destas, verificámos que, apesar de o tema ainda constituir novidade no início
do período estudado, não motivou uma moralização negativa e desde logo se foi
transformando em conhecimento pela abordagem e divulgação resultante do
discurso científico e político, e pela repetição do tema, através do saber
objetivado repousando sobre factos verificáveis (Park, 2008).
A análise de conteúdo convida a que esta investigação se prolongue para a
análise textual das notícias referenciadas, pois aponta para que o noticiário
referindo as demências não corrobore os trabalhos que sublinham o lado negativo
dos estereótipos a seu respeito. Pelo contrário, os estereótipos pretendem
quase sempre resultar numa visão positiva do leitor a respeito dos portadores
de demência, seus cuidadores e políticas de saúde favoráveis. A afirmação da
demência como uma condição de diferença a necessitar de atenção e respeito é um
trabalho a que a imprensa se entregou desde o início do período em estudo.
Encontramos ainda diversos trabalhos jornalísticos que pretendem reverter
situações estereotipadas anteriores, como a denúncia de conceções erradas sobre
as demências em instituições consideradas envelhecidas. Pode mesmo dizer-se que
a imprensa portuguesa contribuiu neste período para a formação de novos
estereótipos sobre as demências, estereótipos positivos que as retiraram do
âmbito dos estereótipos habituais da loucura e favoreceram a integração dos
doentes, o diagnóstico e o tratamento humanizado.