Os trabalhadores do conhecimento num setor tradicional: o caso dos designers do
vestuário
Se considera a formação cara, experimente a ignorância. (John James)
Introdução
A perceção cada vez mais clara de que as nossas sociedades são sociedades do
conhecimento leva a que seja necessário estudar este de uma forma mais
aprofundada: como é gerado, acumulado, gerido e partilhado o conhecimento entre
os trabalhadores que o utilizam mais intensamente. A reestruturação do trabalho
e da cadeia de valor, que se tem acentuado nas últimas décadas, vem colocando o
conhecimento no centro do seu desenvolvimento e dando aos trabalhadores mais
qualificados uma responsabilidade cada vez maior no bom desempenho das
organizações.
Este artigo desenvolve-se na sequência da participação portuguesa no projeto
europeu WORKS (Work Organisation and Reestructuring in the Knowledge Society),
financiado pela Comissão Europeia no âmbito do 6.º Programa Quadro.1 Com o
objetivo de estudar a reestruturação da cadeia de valor em diferentes áreas de
negócio foram selecionados vários setores e, dentro destes, vários grupos
profissionais, onde se realizaram os estudos de caso: setor do vestuário
(designers e trabalhadores de produção), alimentação (trabalhadores de
produção), tecnologias de informação (programadores e trabalhadores de
produção), setor público e serviços de interesse geral, distribuídos por
diversos países europeus.
O artigo irá centrar-se no setor do vestuário e no grupo profissional dos
designers em três países europeus, onde foram realizadas as entrevistas:
Alemanha, França e Portugal. O objetivo é aprofundar o conhecimento acerca de
um grupo profissional recente (designers), que tem evoluído nas últimas décadas
e que se insere num setor tradicional (vestuário), procurando perceber de que
forma a reestruturação do trabalho influencia as suas trajetórias e a sua
qualidade de vida e de trabalho. Sendo um grupo que, em geral, possui elevadas
qualificações e utiliza o conhecimento como instrumento de trabalho, desempenha
um papel cada vez mais importante, num setor caracterizado pelas baixas
qualificações e dificuldades de afirmação, num mercado global cada vez mais
competitivo.
Partimos da seguinte interrogação: qual o impacto da reestruturação do trabalho
na sociedade do conhecimento na profissão de designer do vestuário? Centramos
a nossa atenção no indivíduo, com o principal objetivo de perceber as
consequências individuais da reorganização do trabalho e da cadeia de valor,
observando as mudanças que têm ocorrido nos últimos anos ao nível da identidade
profissional e das trajetórias de carreira, nas qualificações e competências
exigidas, na qualidade de vida e condições de trabalho.
Metodologia de pesquisa
O principal objetivo do projeto WORKS era perceber as mudanças no trabalho na
sociedade do conhecimento e as causas dessas mudanças, observando as
implicações no uso do conhecimento, nas qualificações e qualidade de vida. Foi
feita uma análise documental inicial acerca do setor do vestuário na Europa,
dos designers da indústria e do contexto económico e social. Seguiu-se uma
análise estatística sobre a problemática, com o objetivo de contextualizar a
informação recolhida com os estudos de caso, providenciando um enquadramento
social e económico do setor e da profissão estudada. Foram também realizadas
entrevistas exploratórias a interlocutores-chave do setor e, finalmente,
entrevistas semidiretivas de dois tipos: organizacionais e profissionais. Foram
assim elaborados dois guiões de entrevista. O primeiro guião foi produzido para
os estudos de caso organizacionais, focando a reestruturação da cadeia de valor
e as mudanças na organização do trabalho. O segundo, para os estudos de caso
profissionais, dividiu-se em quatro partes, a saber: biografias profissionais,
mudanças nas identidades profissionais, qualidade do trabalho, e formação e
desenvolvimento de qualificações.
Os estudos de caso foram realizados na Alemanha, França e Portugal,
selecionando informantes-chave dentro da profissão e do setor escolhido. O
critério de seleção dos indivíduos teve como base a diversidade dos perfis
(qualificações, género, idade, origem étnica, estado civil, tipo de contrato de
trabalho e estatuto profissional) e dos contextos, procurando pessoas que
tenham passado recentemente por mudanças no seu trabalho, devido à
reestruturação das organizações em que trabalham.
Foram realizadas 29 entrevistas em três empresas diferentes, cujas designações
foram alteradas para preservar o anonimato:
a) Adele é uma empresa média familiar situada em França, fundada em 1972 e
cuja principal função é a produção de roupa de mulher de qualidade média a
elevada. Após a reestruturação em 2001 passou de empresa de produção de
vestuário para empresa de design e distribuição. Tem 400 empregados.2
b) Menswearco é uma pequena empresa familiar fundada em 1943 e que se situa
no sul da Alemanha. A sua principal função era a produção têxtil e de
vestuário, passando depois a produzir apenas fatos para homem. Nos últimos
quinze anos passou por uma reorganização e por uma verticalização parcial,
deslocando-se e externalizando a produção para países da Europa de Leste, e
concentrando-se apenas nas áreas de design e logística, tendo atualmente 144
empregados.3
c) Ww-Dk é uma empresa situada em Guimarães (Portugal), fundada em 1989 numa
parceria conjunta entre a empresa dinamarquesa Ww-Dk Textiles, ApS e a AA de
Portugal. Começou por ser uma empresa de fornecimento de produtos (vestuário),
especialmente para supermercados, mas durante os anos 90 sofreu uma
reestruturação e passou a ser fornecedora de serviços para a indústria do
vestuário. Tem atualmente 24 empregados e as suas principais atividades são o
design, a I&D, a realização de amostras e o controlo de qualidade.
Quanto aos estudos de caso profissionais, foram realizadas 21 entrevistas a
designers do vestuário: sete designers em França, dos quais dois estão
empregados na Adele, três numa empresa subcontratada e de menor dimensão com
uma situação mais precária, e dois são freelancers; cinco designers na
Alemanha, dos quais dois são freelancers e três são empregados da Menswearco; e
nove em Portugal, dos quais três são designers do Citeve (Centro Tecnológico
das Indústrias Têxtil e do Vestuário) onde foram realizadas as entrevistas
exploratórias, dois trabalham na empresa estudada (Ww-Dk), três têm o seu
próprio ateliê e um é freelancer.
A maioria dos entrevistados é do sexo feminino (16 mulheres e cinco homens),
com idades compreendidas entre os 27 e os 49 anos, solteiros e sem filhos (14
solteiros e seis casados). Todos possuem uma especialização na área e a maioria
tem uma licenciatura ou um mestrado em design (15 licenciados e seis com
formação técnica).
A reestruturação do trabalho na sociedade do conhecimento na Europa
O termo sociedade do conhecimento levou vários autores a centrarem-se nas
mudanças significativas no trabalho, no conhecimento enquanto fator produtivo
e na análise de tendências de evolução do emprego (Stehr, 2001). A mudança para
uma sociedade pós-industrial ou para uma economia de serviços foi estudada
inicialmente por Fourastié, em 1949, e mais tarde por Bell, que procurou
sistematizar o conceito, evidenciando o que julgou ser uma tendência geral de
evolução dos países industrializados e destacando algumas das suas
características: o setor terciário enquanto setor dominante; uma estrutura
profissional composta especialmente por técnicos qualificados; a informação
enquanto tecnologia de base; e uma centralidade e codificação do saber teórico
(Freire, 2002).
A tecnologia invadiu todas as esferas da vida laboral, tornando o conhecimento
em conjunto com fatores tradicionais do capital e do trabalho um fator de
importância crescente na organização do trabalho. No entanto, vemos que o
desenvolvimento e a aplicação de conhecimento não são exclusivos da nossa
sociedade. Alguns autores (Bell, 1973; Giddens, 1994) argumentam que todas as
sociedades humanas foram, pelo menos parcialmente, baseadas no desenvolvimento
e acumulação de conhecimento. Então porque chamamos a nossa sociedade
sociedade do conhecimento?
A sociedade industrial procurava uma certa homogeneidade de desenvolvimento
(Trommel e Bannink, 2006), estendendo as formas de organização do trabalho e do
processo produtivo aos diferentes países ocidentais. A globalização, por um
lado, com a crescente mobilidade e internacionalização do capital e remoção das
barreiras através do uso de novas tecnologias de informação, e a
reflexivização, por outro, processo descrito por Giddens (1994) como a enorme
expansão do conhecimento, foram dois processos de diferenciação que marcaram a
passagem para um tipo diferente de sociedade.
Um dos autores que contribuiu de forma muito pertinente para a caracterização
desta nova sociedade que emerge em meados do século XX foi Manuel Castells.
Segundo este autor, esta nova sociedade não se opõe à anterior, segue a mesma
lógica económica da sociedade industrial, mas incorpora um aprofundamento
tecnológico e uma extensão do conhecimento a todos os domínios de produção
material. Neste contexto de crescente importância do conhecimento enquanto
fator de crescimento económico, enquanto indicador de desenvolvimento das
sociedades, enquanto caracterizador de um tipo diferente de sociedade, torna-se
imprescindível estudar as profissões que lidam com o conhecimento de uma forma
mais intensa, sendo por vários autores apelidadas profissões/profissionais/
trabalhadores do conhecimento.
O conceito de profissão do conhecimento
O que significa exatamente trabalho do conhecimento? Esta é uma questão
central que emerge quando falamos de uma sociedade que se baseia essencialmente
no conhecimento, enquanto fator central da sua caracterização. Mas, uma vez que
todo o trabalho envolve conhecimento, este conceito torna-se difícil de
caracterizar.
Enfrentamos o mesmo problema quando falamos de profissão do conhecimento.
Listas de profissionais do conhecimento incluem muitas vezes uma grande
variedade de profissões: músicos, banqueiros, advogados, engenheiros,
escritores são apenas alguns exemplos (Handy, 1995). Mas o que é que todas
estas profissões têm em comum? Para a clarificação do conceito iremos utilizar
a definição usada no projeto WORKS: um profissional do conhecimento é alguém
que é qualificado, aprendeu e tem acesso a um corpo de conhecimentos formal,
complexo ou abstrato, e manipula símbolos ou ideias. As profissões do
conhecimento incluem assim os peritos de setores mais tradicionais e os
profissionais dos serviços, indústrias criativas e técnicos (Warhurst e
Thompson, 1998). Assume-se então que um trabalhador do conhecimento consegue
facilmente aceder a conhecimentos complexos, está em constante aprendizagem e é
qualificado para usar informação formal abstrata ou codificada.
Alvesson (2004) dedicou-se a estudar os profissionais do conhecimento e as
empresas que utilizam o conhecimento de uma forma mais intensiva. Para este
autor, o trabalho baseado no conhecimento requer o uso de capacidades
intelectuais e analíticas, sendo visto enquanto requerendo uma educação teórica
formal e uma experiência empírica, para que possa ser realizado de forma
satisfatória. As tarefas são pouco rotineiras, exigindo alguma criatividade e
adaptação a certas circunstâncias.
Um outro contributo importante para a clarificação do conceito é-nos dado por
Reich (1996), que analisou a problemática da transformação da economia e da
sociedade na transição para o século XX. Diz-nos que a partir desta
transformação deixa de fazer sentido falar dos grupos profissionais em termos
das categorias tradicionais, nomeadamente através da sua posição no interior de
uma economia centrada na produção de bens em massa de forma estandardizada. O
efeito da globalização fez com que aquelas categorias deixassem de traduzir as
três novas categorias de trabalho: serviços de produção de rotina, serviços
impessoais e serviços simbólico-analíticos. É esta última categoria que importa
aqui salientar.
Ao contrário das duas primeiras categorias, os serviços simbólico-analíticos
incluem todas as atividades de identificação, resolução e intermediação de
problemas, através da manipulação de símbolos (dados, palavras e
representações). A sua principal função é simplificar a realidade, através de
manipulações, experimentações e abstrações.
Na velha economia da grande quantidade, um profissional era alguém que
dominava uma área particular de conhecimento. O conhecimento existia já pronto
a ser dominado [ ] mas na nova economia repleta de problemas
não identificados, de soluções desconhecidas e de modos não experimentados de
juntar uns e outras a mestria de velhos domínios de conhecimento fica muito
aquém de ser suficiente para garantir um bom rendimento [ ] muito
mais valiosa é a capacidade de utilizar eficaz e criativamente o conhecimento.
(Reich, 1996: 260)
Assim, e apesar dos vários termos que podem ser usados para definir esta
categoria de trabalhadores trabalhadores do conhecimento, trabalhadores
profissionais, trabalhadores simbólico-analíticos, ou colarinhos dourados
(Alvesson, 2004) trata-se dum conceito central na análise do trabalho e da
sua reestruturação numa sociedade onde:
o conhecimento é reconhecido como um motor de produtividade e de crescimento
económico, levando a uma atenção redobrada no papel da informação, tecnologia e
aprendizagem no contexto económico. O termo economia do conhecimento deriva
do reconhecimento da centralidade do conhecimento e da tecnologia nas economias
modernas. (OCDE, 1996: 3)
A estrutura das profissões do conhecimento na Europa
O termo sociedade do conhecimento foi usado pela primeira vez em 1969 por
Peter Drucker. Desde os anos 60 até hoje a sociedade da informação sofreu
várias mutações e evoluiu de forma diferente nos vários países. A criação de
riqueza é medida menos pelos resultados do trabalho quantificáveis e mais pelo
nível de desenvolvimento da ciência e do progresso tecnológico e, por isso,
certas atividades intangíveis, relacionadas com a investigação, educação e
serviços, tendem a assumir uma importância crescente na economia global.
Os profissionais do conhecimento são um grupo muito variado e diferenciado de
trabalhadores, cuja importância e número têm vindo a crescer nos diferentes
países. A figura_1 é ilustrativa disso mesmo, mostrando-nos uma estimativa do
crescimento do emprego por país e por profissão entre 2006 e 2015 na UE27, onde
é possível observar que se estima que a necessidade de qualificações em quase
todos os empregos irá aumentar de uma forma muito significativa. De acordo com
as estimativas, o crescimento do emprego na Europa entre 2006 e 2015 irá
englobar mais de 12,5 milhões de empregos adicionais para trabalhadores com as
mais elevadas qualificações e ligados ao uso intensivo do conhecimento, e 9,5
milhões para trabalhadores com qualificações intermédias. Em contraste, o
emprego para trabalhadores com baixas qualificações irá diminuir em 8,5
milhões. Segundo as projeções, em 2015 cerca de 30% dos trabalhos disponíveis
irão exigir elevadas qualificações, 50% qualificações médias e apenas 20%
qualificações baixas.
Após termos definido o conceito de profissão do conhecimento, iremos agora
observar de forma mais detalhada as consequências da reestruturação do trabalho
e a importância do conhecimento nessas mudanças, através da análise do setor do
vestuário e dos designers de moda enquanto trabalhadores do conhecimento.
O impacto da sociedade do conhecimento na indústria do vestuário e nas
profissões do conhecimento
O setor do vestuário detém uma importância considerável na estrutura industrial
portuguesa. No entanto, continua a ser visto, em muitos aspetos, como um setor
tradicional com características que se têm mantido ao longo do tempo: empresas
maioritariamente de pequena e média dimensão, baixo nível de qualificação dos
trabalhadores, baixos salários e fraca capacidade de investimento em inovação e
novas tecnologias.
O aumento dos custos de produção, devido especialmente ao aumento dos salários
e diminuição das horas de trabalho nos países mais industrializados, acentuou o
processo de deslocalização da produção e externalização de atividades, mantendo
apenas as unidades e departamentos que possam acrescentar algum valor à
produção (Agis, 2001). A conceção e o design de produtos, a produção industrial
de produtos de luxo, o uso de tecnologia de ponta e o controlo e distribuição
das vendas são atividades consideradas centrais e que devem ser mantidas na
empresa e em países mais desenvolvidos; as restantes atividades são
externalizadas ou deslocalizadas para economias emergentes.
Enquanto o emprego total na União Europeia aumentou cerca de 10% entre 1996 e
2004, o emprego nos setores têxtil e do vestuário diminuiu cerca de um terço. O
setor continua a ter um peso muito significativo em Portugal e a manter uma
taxa elevada de emprego, tendo, no entanto, sofrido perdas contínuas nos
últimos anos. Em 2004, cerca de 5% da mão de obra portuguesa estava empregada
nesta indústria (254.000 trabalhadores)4 e desta 78% eram trabalhadores de
produção, um número muito elevado quando comparado com outros países europeus.
Para que possamos ter uma imagem mais clara do que tem ocorrido no setor nos
últimos anos, olhemos para a figura_2, onde podemos observar a evolução do
emprego na indústria do vestuário (NACE 14).5 Assistimos a uma redução
significativa do emprego no setor nos três países estudados. Entre 2008 e 2010,
Portugal perdeu cerca de 30.000 postos de trabalho nesta indústria, perda esta
tanto mais significativa, quando a importância do setor para o país continua a
ser bastante elevada.
As empresas encontram diferentes soluções para enfrentarem os novos desafios da
sociedade do conhecimento, de acordo com o seu tamanho, capital e posição no
mercado. As mudanças na organização do trabalho são frequentes, e a
reestruturação espacial e/ou contratual deste (reestruturação da cadeia de
valor) tem um papel determinante, atingindo a natureza e a qualidade do
trabalho. Salientam-se dois caminhos opostos:6 (a) externalização ou
deslocalização da produção, encerramento, despedimento de trabalhadores; (b)
investimento nas capacidades da empresa através de áreas consideradas
importantes como o design, a formação dos trabalhadores, a conceção e a
introdução de novos produtos. Um grande número de empresas opta pela primeira
opção e apenas uma minoria, no entanto bem-sucedida, opta pelo caminho da
inovação (Brödner e Latniak, 2002).
A sociedade do conhecimento tem também um forte impacto nos trabalhadores em
geral e nas profissões do conhecimento em particular. Trabalhar nesta
sociedade é diferente de trabalhar na sociedade industrial. As políticas
sociais e laborais, por um lado, e a procura de competitividade económica, por
outro, levam as empresas a tomar posições diversas para responder às pressões
impostas pela sociedade do conhecimento: pressões para alcançar a
flexibilidade laboral e pressões para intensificar o uso do conhecimento. Neste
sentido, as mudanças e tensões ocorridas no mercado laboral nas últimas décadas
transformaram também as identidades profissionais dos trabalhadores e as suas
formas de integração social. De uma forma geral, as carreiras tornam-se mais
desestruturadas e o ciclo de vida e de trabalho cada vez menos uniforme
(Valenduc e Vendramin, 2006).
Designers do vestuário: o trabalho do conhecimento e da criatividade num setor
tradicional
Estes profissionais ocupam um lugar cada vez mais proeminente num setor antigo
e com fortes raízes tradicionais. Hoje a cadeia de abastecimento não compreende
apenas funções de produção, transporte, armazenamento e venda; compreende
também funções de investigação e desenvolvimento, de design e marketing, de
informação e comunicação, de qualidade e logística.
A única alternativa válida para a Europa sobreviver e para se manter
competitiva nos mercados mundiais reside no desenvolvimento da qualidade e numa
forte capacidade de inovação. Isto só pode ser conseguido com uma força de
trabalho ampla e altamente especializada. É o paradigma da sociedade do
conhecimento a impor-se, com os seus três vértices bem nítidos: high-tech,
high-skills, high-wages. (Anivec, 2000: 8)
O uso do conhecimento num setor em mudança
O conhecimento tem vindo a tornar-se na principal fonte de riqueza das nações,
das organizações e das pessoas. Como refere Rodrigues (2002), o conhecimento
sempre fez parte das sociedades humanas, mas a novidade é a sua atual
capacidade de acumulação e difusão a uma velocidade nunca antes vista. As
empresas, por seu lado, procuram manter-se competitivas através da inovação e
do conhecimento especializado, focando a sua atenção nas funções e nos
profissionais que adicionam valor à produção e que proporcionam à empresa uma
imagem mais personalizada. Atualmente, com tendência a acentuar-se no futuro,
a capacidade individual e coletiva de criação, partilha e aplicação de novos
conhecimentos é crucial, e a OCDE estima que mais de 50% do PIB dos países mais
desenvolvidos é agora de atividades relacionadas com o conhecimento. O
conhecimento é assim a única fonte capaz de criar uma vantagem competitiva
contínua para a nação, uma vez que os recursos naturais por si só já não
garantem a competitividade (Drucker, 1993).
O conhecimento é um conceito lato e de difícil definição. É no entanto, e como
refere Alvesson (2004), um conceito com grande significado nas organizações
contemporâneas e na vida laboral. Neste contexto, os trabalhadores do
conhecimento, uma fração pequena da força de trabalho, aparecem no centro das
transformações, com um poder crescente e com a capacidade de implementar
inovações que determinam a posição competitiva da empresa.
Não obstante a importância do conhecimento na reestruturação do trabalho e na
competitividade económica e o seu papel central no novo paradigma social e
económico, não devemos esquecer, porém, que grande parte das empresas,
especialmente as mais tradicionais, como é o caso da maioria das empresas dos
setores têxtil e do vestuário, continuam a organizar-se em torno da
racionalização e dos custos de produção.
A competência do pessoal é, provavelmente, um dos mais importantes recursos de
competição, mas as empresas estão ocupadas na redução dessa fonte através da
racionalização, outsourcing e emprego temporário [ ] O
conhecimento e as competências são importantes, mas a racionalização e o
trabalho barato também são. (Alvesson, 2004: 8)
Mudanças nas condições de trabalho
A Cimeira Europeia de Estocolmo (março de 2001) sublinhou que o requisito
essencial para uma boa qualidade de vida é a qualidade do trabalho,
estabelecendo que a promoção desta significa: segurança do trabalho e da
carreira, promoção e supervisão da saúde e bem-estar dos trabalhadores,
desenvolvimento de qualificações e uma reconciliação entre o trabalho e a vida
privada. Na sociedade contemporânea, o uso de formas mais flexíveis de trabalho
leva à existência de uma vida laboral mais instável, com consequências a vários
níveis para os trabalhadores.
A nível geral, podemos concluir do estudo feito pela European Foundation sobre
as condições de trabalho na Europa (Parent-Thirion et al., 2005) que a imagem
geral era a de que, na perceção dos trabalhadores, a saúde, a segurança e o
bem-estar melhoraram nos últimos quinze anos. No entanto, esta melhoria
coexiste com a degradação de aspetos importantes, nomeadamente a intensificação
do trabalho, a prevalência de movimentos repetitivos e o trabalho a um ritmo
acelerado. Os problemas de saúde mais comuns são de ordem muscular. Novos
problemas de saúde substituem os antigos, especialmente problemas
psicossociais, como o stresse, os esgotamentos nervosos, o cansaço, a ansiedade
e a dificuldade de concentração.
No que diz respeito à indústria do vestuário, vemos que a automatização e
informatização da produção, que se desenvolveram de forma acentuada nas últimas
décadas, foram acompanhadas por uma fragmentação das tarefas, uma
especialização por função, uma atribuição individual de postos de trabalho, uma
organização do trabalho em cadeia, uma simplificação das tarefas e uma
reorganização do trabalho (Inofor, 2000).
Observando agora os trabalhadores do conhecimento, notamos que a
descontinuidade se tornou uma característica comum (Giddens, 1990). Mas se, por
um lado, o aumento da instabilidade e a mudança significam maior precariedade e
insegurança, por outro, podem também significar maior liberdade de escolha,
experiências mais diversificadas e maior autonomia, especialmente para estes
trabalhadores mais qualificados.
Neste contexto surge o conceito de carreira sem fronteiras7 ou nómada
(Arthur e Rousseau, 1996), que se caracteriza por uma fraca ligação com a
empresa e uma forte ênfase na autonomia e auto-organização. A identidade e
identificação são dirigidas para a profissão e tarefas e não para a empresa ou
organização, desenvolvendo-se normalmente em contextos diluídos, onde as
competências e a aprendizagem são vistas como centrais. Este tipo de carreira é
mais comum entre os trabalhadores do conhecimento, que tomam a iniciativa na
gestão da sua carreira, sendo esta definida por um conjunto de experiências,
transições e mudanças, onde o desenvolvimento pessoal e o sucesso profissional
têm como base a capacidade de uma aprendizagem contínua e onde o objetivo final
é a satisfação e o sucesso pessoal (Hall e Moss, 1998).
A carreira e a trajetória profissional estão intimamente ligadas a um outro
conceito, o de identidade profissional. Esta é construída por um conjunto de
trabalhadores tendo em conta as respostas dos outros e a interação no local de
trabalho (Abbott, 1988). A identidade é assim um processo relacional de
autoinvestimento inserido no sistema social e relacional mais vasto. A
flexibilidade, instabilidade e reorganização têm um impacto ambivalente nas
identidades profissionais. Os efeitos dependem da combinação de vários fatores:
socioeconómicos (por exemplo, o nível de qualificações), culturais (por
exemplo, a cultura da empresa: forte/fraca), e subjetivos (por exemplo,
atitudes para com o trabalho) (Huws, 2006).
De um modo geral, os trabalhadores que lidam com o conhecimento de uma forma
mais intensa investem mais no trabalho e identificam-se mais intensamente com a
sua profissão, estando por isso também mais vulneráveis a frustrações e
deceções quando os resultados não são os esperados (Alvesson, 2004).
Implicações para as qualificações
A transição para a sociedade do conhecimento levou a que os vários países se
confrontassem com a necessidade de elevar os seus níveis educacionais, para que
pudessem adaptar-se mais facilmente às novas exigências tecnológicas e à
competição global, baseada mais intensamente no uso do conhecimento. A
importância da educação, em conjunto com a formação e qualificação, estendeu-se
a todos os espaços sociais, passando a ser encarada como uma ferramenta
fundamental para a competitividade, quer a nível pessoal, quer a nível global.
No entanto, os diferentes países europeus, e dentro destes os diferentes
setores produtivos, lidam de forma diversa com estas novas exigências,
nomeadamente na área das qualificações. Braverman (1974) diz que se assiste a
uma desqualificação generalizada dos trabalhadores, com a introdução de
processos de automatização da produção, em que a maioria passa a exercer um
trabalho desqualificado e uma minoria de profissionais, com elevado nível de
qualificações, monopoliza os novos trabalhos relacionados com o funcionamento
geral do sistema. Castells (2001), por sua vez, fala de uma estrutura social
cada vez mais polarizada onde, por um lado, existe uma expansão das ocupações
baseadas na informação e no conhecimento e, por outro, o crescimento das
ocupações não qualificadas. Em contraste com esta posição, Kern e Schumann
(1984) acreditam estarmos perante uma reprofissionalização e uma tomada de
consciência crescente da importância do fator humano e das qualificações.
Nos últimos anos observamos que têm existido mudanças nas qualificações
exigidas. A exigência de competências no mercado de trabalho europeu parece,
atualmente, estar relacionada com as chamadas competências soft, como a
capacidade de comunicação, orientação para o cliente, autonomia, sentido de
responsabilidade, capacidade de resolução de problemas, aprendizagem,
capacidade para trabalhar em equipa (entre outras), mais do que apenas com as
qualificações académicas formais adquiridas no processo escolar.
As rápidas mudanças organizacionais que acompanham o desenvolvimento da
inovação tecnológica e do mercado levam a que as qualificações técnicas se
tornem mais facilmente obsoletas, acentuando a necessidade de uma aprendizagem
e atualização contínuas. No caso dos trabalhadores do conhecimento, esta
tendência é ainda mais significativa.
Análise de resultados
Iremos começar por falar dos estudos de caso organizacionais. Foram
entrevistadas oito pessoas no total: os três diretores-gerais das empresas
estudadas, dois diretores de produção e os três diretores do departamento de
design. Os dados recolhidos tinham como objetivo perceber a importância do
conhecimento e da formação para a organização onde os designers se inserem ou
com a qual têm uma relação profissional.
Nas três organizações estudadas existe a exigência de uma educação formal em
relação aos designers, uma vez que estes têm de possuir uma licenciatura na
área e/ou uma formação técnica específica, não existindo assim uma diferença
significativa nos três países. Para além da educação formal são exigidas também
outras competências individuais, nomeadamente: conhecimento de inglês, de
gestão, capacidade de resolução de problemas, espírito de equipa e iniciativa,
autonomia, facilidade de aprendizagem e capacidade criativa.
Quanto ao uso do conhecimento na execução das diferentes tarefas, os três
diretores salientam que o seu uso se tem intensificado nos últimos anos. A
explicação para este aumento, segundo os entrevistados, encontra-se na
introdução de equipamentos mais complexos baseados em tecnologias de informação
e comunicação, na maior orientação para o mercado e para o cliente e na
crescente complexidade do mercado internacional do vestuário. Também neste
aspeto não existe uma diferença evidente quando comparamos as empresas, uma vez
que todas elas referem que o uso do conhecimento e a atualização das
qualificações são fatores cada vez mais importantes para o setor e para os
designers. No entanto, apenas na empresa portuguesa encontrámos uma política
organizada de cursos de formação, nomeadamente de comunicação com o cliente,
gestão do tempo, resolução de problemas, cursos de inglês e cursos específicos
relacionados com a moda. Na empresa francesa não existe a prática de fornecer
cursos de formação, acreditando que o mais importante é a experiência e que se
aprende fazendo. A empresa alemã também não tem uma política de formação, mas
os trabalhadores procuram por conta própria, regularmente, cursos de formação e
especialização.
Finalmente, o último aspeto dos estudos de caso organizacionais centrou-se nas
mudanças sentidas nas qualificações e exigência de competências após a
reestruturação da organização. Nas três empresas vemos que, do ponto de vista
da organização, após estas mudanças são necessárias novas qualificações aliadas
às qualificações técnicas já anteriormente exigidas. As três empresas passaram
a investir mais nas áreas consideradas centrais para o seu negócio (como
design, I&D, marketing), pondo o conhecimento e as qualificações no centro
da sua gestão e organização.
Os estudos de caso profissionais, com 21 designers, tiveram como principal
objetivo perceber o impacto das mudanças do trabalho a nível individual dos
designersdo vestuário, enquanto trabalhadores do conhecimento na indústria. O
primeiro aspeto refere-se à biografia e percurso profissional, com o objetivo
de perceber a história pessoal e a influência da organização e do mercado de
trabalho nesse percurso, de que forma influenciam as escolhas individuais.
Vemos que os entrevistados representam um grupo heterogéneo em termos de
contextos, conteúdo de trabalho e trajetória de carreira. Observamos que as
habilitações escolares dos entrevistados são normalmente elevadas, incluindo
quase sempre uma licenciatura. Na amostra notamos que nos três países estudados
os designers possuem uma licenciatura em design, apenas no caso português
existem alguns designers que não possuem um curso superior de design mas antes
uma formação técnica. Em geral, após a obtenção do diploma segue-se um período
de formação prática numa empresa ou como assistente de algum designer
conhecido, característica típica da profissão e sem grande variância nos três
países.
As trajetórias de carreira dos designers entrevistados são bastante
diversificadas, caracterizando-se por períodos frequentes de mudança entre
empregos e formas contratuais, especialmente no começo da carreira. Alguns
entrevistados começaram como freelancers e mais tarde têm um emprego por conta
de outrem. Outros fazem o caminho inverso, começam por trabalhar numa empresa e
mais tarde tornam-se freelancers ou abrem o seu próprio ateliê e criam uma
marca própria, ou ainda outros trabalharam sempre em empresas ou sempre como
freelancers. A mobilidade no mercado de trabalho é importante, uma vez que
quase metade da amostra teve mais de duas mudanças de emprego sucessivas antes
do emprego atual. Vários entrevistados dizem que a regra é não trabalhar mais
do que três ou quatro anos na mesma empresa, para que possam evoluir e ter
novas experiências. Estas mudanças, no entanto, são mais frequentes no início
da carreira, uma vez que vários dos entrevistados estão na mesma empresa há
vários anos. Esta longa duração dos contratos e de relação com uma empresa
mostram que, por um lado, a existência de condições de trabalho estáveis é
importante nas decisões da escolha. Por outro lado, as mudanças de empresa, de
estatuto contratual e de posição são consideradas normais, podendo ser
explicadas por três razões principais: (a) necessidade de criatividade pessoal,
(b) progressão na carreira, (c) consequência da reestruturação do trabalho.
O futuro é visto de forma diferente pelos diferentes entrevistados, existindo,
no entanto, algumas características comuns que se relacionam com as suas
motivações e os seus perfis profissionais. Encontramos designers que são
freelancers e pretendem continuar a ser porque gostam de ter mais autonomia na
gestão do seu tempo. Neste caso podemos desenhar um perfil de carreira
denominado artístico, em que o designer procura acima de tudo trabalhar com
pessoas interessantes e sentir que consegue exercer a sua criatividade sem a
pressão constante da organização. Encontramos também um outro tipo de perfil
que podemos chamar progressivo, em que o designer dá prioridade a condições
de trabalho mais estáveis. Exemplos deste tipo de perfil são encontrados
principalmente no caso alemão, em que um dos designers diz mesmo que antes do
trabalho atual trabalhei em quatro empresas diferentes. Foi um período muito
cansativo e em que não consegui encontrar a estabilidade e serenidade
necessária para criar. Existem ainda os designers que criam o seu próprio
ateliê, tendo um perfil empreendedor, caracterizado por uma vasta experiência
no setor e na profissão e um desejo de desenvolver algo seu, com total
autonomia e liberdade. Encontramos os diferentes perfis profissionais referidos
nos três países estudados, não podendo por isso relacionar-se um tipo de perfil
específico com um determinado país ou organização. No entanto, vemos que o
perfil artístico é mais comum entre os designers franceses, o perfil
progressivo se encontra em maior número entre os designers alemães e o perfil
empreendedor entre os designers portugueses.
O segundo aspeto refere-se à identidade profissional, procurando perceber as
características do grupo profissional e o papel da organização na construção
desta identidade. Ao analisarmos a construção da identidade profissional
concluímos que o trabalho possui um significado individual muito significativo
para os designers dos três países e que eles se identificam fortemente com o
trabalho criativo que desenvolvem. O trabalho é uma parte essencial do conceito
individual de vida, como podemos ver em algumas expressões usadas pelos
entrevistados: Para mim a moda e o design são uma continuação de mim mesmo;
É a profissão dos meus sonhos; Sou mesmo apaixonado pelo meu trabalho.
Existe uma forte identificação pessoal com o trabalho desenvolvido, sendo
muitas vezes o produto do seu trabalho, as peças criadas, vistas como uma
expressão de si mesmo e da sua criatividade.
As principais mudanças ocorridas na identidade profissional do grupo,
relacionando-se com a reestruturação do trabalho, podem ser sumarizadas nos
seguintes pontos:
a) maior orientação do trabalho para o custo dos produtos e uma maior
interação com o mercado;
b) maior diversificação de tarefas, devido à necessidade de coordenação do
trabalho com outras funções ao longo da cadeia de valor;
c) aumento do uso das tecnologias de informação e comunicação, modificando a
rotina diária significativamente, permitindo um aumento da produção, mas também
uma maior estandardização dos modelos produzidos;
d) aumento do ritmo de trabalho a mudança de duas coleções por ano para
uma permanente atualização quase todos os meses levou a uma aceleração do ritmo
de trabalho;
e) mudança na imagem do design e do designer a evolução do setor do
vestuário na Europa, embora tenha tido um impacto negativo na produção e no
emprego, foi benéfica para os designers, que viram o seu trabalho mais
valorizado.
O terceiro aspeto de análise relaciona-se com a qualidade do trabalho. Os
resultados dos estudos de caso demonstram a existência de uma elevada
satisfação dos designers com o seu trabalho. As condições de trabalho são
descritas como bastante boas, tendo, no entanto, sofrido modificações nas
últimas décadas devido à reestruturação do setor.
As duas maiores reestruturações do setor têxtil e do vestuário dizem respeito,
por um lado, à deslocalização do processo produtivo para a Ásia e Europa de
Leste e, por outro, ao processo de distribuição. A deslocalização fez com que
os designers ficassem com menos tempo para executarem o seu trabalho, uma vez
que têm de ter em conta agora o tempo de viagem das peças entre as unidades. O
processo de distribuição, por seu lado, é também mais acelerado, uma vez que
existe uma substituição quase constante dos produtos nas lojas.
Todos os entrevistados referem que tem existido nos últimos anos um aumento do
volume de trabalho e uma diminuição do tempo de execução das tarefas, sendo a
gestão do tempo a principal dificuldade apontada pelos designersnos três
países. Tradicionalmente o setor sempre se caracterizou por prazos apertados e
elevada tensão no trabalho, mas esta tendência tem vindo a acentuar-se
fortemente nos últimos anos, devido especialmente à influência direta dos
mercados. Muitas vezes a pressão e a redução do tempo das tarefas levam a um
empobrecimento da criatividade e do trabalho dos designers, uma vez que o tempo
que têm para rever ou melhorar o produto final é cada vez mais curto, ou mesmo
inexistente. Esta tendência é encontrada em todos os 21 estudos de caso e
referida como um aspeto muito importante na evolução da profissão e do setor.
O quarto e último aspeto analisado diz respeito à formação e ao desenvolvimento
das qualificações dos designers. Como já foi referido anteriormente, em geral
os designers do vestuário possuem elevadas qualificações (grau académico
universitário) e uma experiência de trabalho diversificada. A reestruturação e
desenvolvimento do setor trouxeram algumas mudanças nas qualificações do grupo
profissional que já foram sendo referidas e que sintetizamos:
f) maior necessidade de coordenação e comunicação, devido à existência de
uma relação mais próxima com o mercado e com os outros departamentos
(marketing, produção, comercial, técnico);
g) maior exigência de conhecimento, nomeadamente de novos materiais que
possam ser usados, novos métodos produtivos, novas exigências do setor
(regulação ambiental, proteção do consumidor, etc.);
h) aumento do uso das TIC, tanto a nível genérico para a gestão do fluxo de
trabalho, acesso à informação e comunicação com os clientes, como no seu uso
específico com programas de design;
i) maior necessidade de competências linguísticas, devido ao aumento dos
contactos e dos clientes internacionais e das deslocações ao estrangeiro.
Finalmente, olhando para o papel do conhecimento, podemos observar que os
vários designers entrevistados salientam a dimensão artística da profissão,
dizendo que a competência básica do designer não se adquire através da
formação, mas é inata o talento. Apesar disso, existe um consenso quanto ao
aumento da importância do conhecimento para o desempenho da profissão de
designer nos nossos dias. As exigências são maiores e o tempo de execução mais
reduzido, levando a que as competências dos designers sofram uma transformação,
pondo o conhecimento de tendências, de materiais, de mercado, de clientes, do
setor e da sociedade no centro do seu trabalho. Nos três países estudados
existe uma unanimidade entre os designers de que o conhecimento é cada vez mais
valorizado na sua profissão e por isso é considerado um fator determinante para
a competitividade e sucesso individual e organizacional.
Considerações finais
O desenvolvimento de uma sociedade que se baseia no uso do conhecimento e nas
novas tecnologias de informação e comunicação trouxe inúmeras mudanças e
reestruturações ao mercado laboral, que devem ser estudadas de uma forma
profunda. Este artigo procurou conjugar dois aspetos que considerámos
interessantes: estudar um grupo profissional relativamente recente e que
utiliza o conhecimento e as novas tecnologias frequentemente no desempenho
diário das suas tarefas, dentro de um setor que se caracteriza muitas vezes
como tradicional, com um elevado número de mão de obra pouco qualificada e
pouco investimento em novas tecnologias.
Do ponto de vista organizacional vemos que não existe uma diferença
significativa entre as três empresas estudadas, uma vez que encontramos a mesma
importância dada ao conhecimento e à atualização de competências, aliadas a uma
educação formal e novas qualificações relacionadas com a globalização do
mercado e com a necessidade de coordenação entre os diferentes setores da
empresa. No entanto, apenas a empresa portuguesa organiza de forma continuada a
formação dos seus funcionários, enquanto nas empresas francesa e alemã essa
formação existe muitas vezes apenas por iniciativa própria.
Do ponto de vista individual, a construção de uma identidade profissional é
influenciada pelo contexto organizacional e institucional e pode ser observada
através da análise da trajetória do grupo profissional e da importância do
trabalho para os designers. Comparando os três países, vemos que as suas
trajetórias são bastante diversificadas e que a mobilidade é importante,
especialmente no começo da carreira. Existe um sentimento comum de
identificação com a profissão e com o produto criado. O conhecimento é um fator
determinante para os designers do vestuário nos três países estudados, sendo um
grupo que possui elevadas habilitações escolares, bem como uma vasta e variada
experiência de trabalho. As exigências crescentes do setor e da sociedade fazem
com que a criatividade e o talento tenham de ser aliados ao conhecimento e à
investigação. A reestruturação do trabalho provocou mudanças significativas na
profissão e nos três países estudados vemos que o percurso dos designers é
influenciado por estas mudanças. Existe uma maior pressão do mercado e uma
maior necessidade de interação com o cliente e com outros departamentos, existe
uma maior diversificação de tarefas e um aumento do ritmo de trabalho, aliados
à diminuição do tempo de execução e ao aumento do número de peças a produzir.
A maior abertura do mercado e a valorização crescente do conhecimento e das
funções que acrescentam valor ao produto e diferenciam a empresa e a sua marca
proporcionaram aos designers maiores oportunidades de carreira e uma maior
visibilidade e valorização do seu trabalho. No entanto, trouxeram também uma
maior pressão e uma redução do tempo de planeamento e execução das peças. Hoje
em dia, para além do curso de design, da criatividade e talento, estes
profissionais têm também de ter conhecimentos alargados do mercado, das várias
áreas de negócio da empresa, das TIC, de gestão, de relacionamento com o
cliente. Esta tendência não se aplica apenas aos designersde modamas a um
elevado número de profissionais, que deixaram de estar apenas concentrados na
sua criação e passaram a estar integrados numa rede muito maior, onde a atenção
para com o cliente e o mercado e a atualização constante de conhecimentos e
competências são cada vez mais relevantes.