Prevalência da violência contra as pessoas idosas: uma revisão crítica da
literatura
Introdução
A violência contra as pessoas idosas representa uma violação grave dos direitos
humanos (WHO, 2002a), e ocasiona custos elevados (WHO, 2004), sejam eles de
natureza social, individual ou económica, sejam os sujeitos vítimas de
violência ou meras testemunhas (Krug et al., 2002).
O aumento da violência nas suas diferentes formas tem vindo a ser reconhecido
por várias organizações internacionais como um dos mais graves problemas de
saúde pública no emergir do século XXI. A maioria destas organizações tem
vindo, assim, a dar prioridade ao fenómeno nas suas agendas políticas,
nomeadamente a Organização Mundial de Saúde (OMS/WHO), a Comissão Europeia (CE)
e a Organização das Nações Unidas (ONU/UN).
Em 1996 este reconhecimento é expresso nas intenções e recomendações produzidas
na sequência da 49.ª Assembleia Mundial de Saúde, sob a epígrafe Prevention of
violence: a public health priority (WHO, 1996). Em 2002, no relatório mundial
sobre a violência e a saúde, a OMS conclui: A violência constitui um dos
principais problemas de saúde pública no mundo e é importante fazer da
violência uma prioridade de investigação na saúde pública (WHO, 2002b: xv).
Deste modo, a OMS reconheceu a necessidade de desenhar uma estratégia global
para a prevenção dos maus-tratos às pessoas idosas, na qual foram definidas
três grandes áreas: negligência(isolamento, abandono e exclusão social),
violação de direitos (humanos, legais e médicos) e privação de direitos (tomada
de decisões, situação social, gestão económica e de respeito) (WHO, 2002b).
A problemática da violência contra as pessoas idosas ganha maior visibilidade
social também pelo envelhecimento demográfico que carateriza a sociedade atual.
O número de indivíduos com idade superior a 65 anos tem vindo a aumentar na
generalidade dos países e na Europa em particular. Em 2009, a mediana das
idades da população europeia era de 40,6 anos, mas as projeções apontam para
que se atinja os 47,9 anos em 2060, consequência também da redução das
categorias mais jovens (Eurostat, 2008; 2010). De acordo com a OMS (WHO, 2008),
entre 2006 e 2050 a população idosa corresponderá a cerca de 22% da população
mundial e cerca de 20% desta terá uma idade superior a 80 anos.
No caso de Portugal, a população com 65 ou mais anos residente estimada, em
2009, representava 17,9% da população portuguesa. Entre 2004 e 2009 a proporção
de jovens decresceu de 15,6% para 15,2% da população residente total,
constatando-se um aumento do peso das pessoas idosas de 17,0% para 17,9%
(Carrilho e Patrício, 2010). De acordo com as projeções demográficas do INE,
até 2060, a percentagem de jovens no total da população diminuirá para 11,9%,
aumentando para 32,3% a proporção de idosos.
Neste contexto é necessário que as sociedades se adequem a um perfil
demográfico diferente, com múltiplas necessidades, onde emerge a
vulnerabilidade associada ao envelhecimento e a necessidade de criar
dispositivos capazes de defender e proteger as populações mais velhas e mais
frágeis. A questão da maior fragilidade física e mental remete para o problema
da incapacidade funcional, que surge muitas vezes associada à idade, originada
por uma ou várias doenças crónicas, ou reflexo da perda das funções
fisiológicas, atribuível ao processo de senescência (Manton et al., 1997, cit.
por Marín e Casasnovas, 2001: 25). Além disso, a maior prevalência da
incapacidade severa ocorre em grupos etários com mais de 75 anos e atinge em
maior proporção o grupo das mulheres (Gil, 2010).
Em Portugal, o fator que pode contribuir para aumentar a vulnerabilidade da
população idosa face às situações de violência é o facto de este ser um dos
países da UE onde existe uma maior proporção de pessoas com 75 e mais anos (não
institucionalizadas) a coabitar com outros que não um cônjuge, nomeadamente
familiares diretos, por afinidade ou ainda pessoas sem laço familiar (e.g.,
cuidadores remunerados, hóspedes) (Gaymu et al., 2008). A coabitação,
provavelmente relacionada com o baixo nível das pensões de reforma, a
feminização do envelhecimento e o isolamento social concorrem enquanto fatores
de risco de violência. De acordo com Gaymu e colaboradores (2008), o modo como
se vive na velhice constitui um potencial determinante do bem-estar e
autonomia, e pode evitar ou potenciar a ocorrência de violência.
O presente artigo teve por principal objetivo a revisão dos estudos de
prevalência sobre a violência contra as pessoas idosas, desenvolvidos nas três
últimas décadas, tanto ao nível internacional como nacional, centrados no
contexto familiar. O conhecimento da dimensão do problema, a par do
conhecimento da sua dinâmica (condições, especificidades em que ocorre e razões
subjetivas associadas) passou a ser indispensável para um adequado planeamento
de ações que visem assegurar um envelhecimento mais saudável e seguro.
Âmbito do estudo e metodologia
Nesta revisão adotou-se uma perspetiva crítica maioritariamente centrada nos
conceitos operatórios, nos métodos utilizados e nos resultados. Pretendeu-se
conhecer não só a expressão quantitativa do fenómeno nos vários países onde
foram realizados inquéritos de base populacional, mas também as orientações
concetuais e metodológicas que fundamentaram tais estudos.
A identificação de estudos de interesse consistiu numa revisão sistemática da
literatura a partir de publicações nas três últimas décadas. O acesso a várias
bases de dados internacionais constituiu o principal meio de pesquisa, tendo
como recurso as seguintes palavras-chave da temática, em inglês e em português:
estudos de prevalência, pessoas idosasecontexto familiar.
Do total de estudos inventariados, excluíram-se os estudos meramente
descritivos, os estudos qualitativos e os quantitativos baseados em amostras de
conveniência, bem como os que não documentam os instrumentos de recolha de
dados e/ou a análise de dados efetuada. Também foram considerados fora do
âmbito do presente trabalho estudos que contemplaram pessoas idosas
institucionalizadas. Deste modo, os critérios adotados na seleção dos estudos
foram: a utilização de amostras representativas das populações visadas; a
documentação dos métodos e instrumentos de recolha de dados e a análise
estatística dos dados recolhidos. Os critérios referidos conduziram à seleção
de 17 estudos, sintetizados no quadro_1.
quadro_1
Prevalência da violência contra as pessoas idosas: o estado da arte
Concetualização dos tipos de violência
No quadro das ciências sociais e humanas, a década de 90 caraterizou-se por
diferentes etapas no estudo da violência contra as pessoas idosas. Na primeira
fase, os estudos desenvolvidos tiveram como principal preocupação a
concetualização da violência, pela dificuldade que revestia a medição do
fenómeno. A ausência de consenso marcou esta primeira fase e repercutiu-se no
próprio conhecimento que se poderia ter do problema.
Neste âmbito veja-se a definição de violência formulada por três diferentes
organizações. A OMS define a violência contra as pessoas idosas como: um ato
único ou repetido, ou a falta de uma ação apropriada, que ocorre no âmbito de
qualquer relacionamento onde haja uma expetativa de confiança, que cause mal ou
aflição a uma pessoa mais velha (WHO, 2002c: 3). A ONU definiu, por sua vez, a
violência como todo o ato violento de natureza tal que acarrete, ou corra o
risco de acarretar, um prejuízo físico, sexual ou psicológico; pode tratar-se
de ameaças, negligência, exploração, constrangimento, privação arbitrária da
liberdade, tanto no âmbito vida pública como privada (ONU, 2002, cit. em
Sénat, 2003: 18). Já a definição avançada pela 2.ª Assembleia Mundial sobre
Envelhecimento, promovida pela ONU em 2002, assemelha-se à adotada pela OMS:
qualquer ato único ou repetido, ou falta de ação apropriada que ocorra em
qualquer relação, supostamente de confiança, que cause dano ou angústia, a uma
pessoa de idade (WHO, 2002c: 3). As três definições propostas assentam em
pressupostos comuns: um ato ou conduta, variável de acordo com a sua natureza e
tipo, uma relação interpessoal de confiança e uma consequência que provoca um
efeito, traduzido num dano físico e/ou mental.
A definição adotada pela OMS (WHO, 2002c) desenvolvida inicialmente pela
organização Action on Elder Abuse (AEA, 1995) parece ser uma das mais
reconhecidas na literatura especializada, bem como das mais adotadas pelos
movimentos políticos e organizações não governamentais (Biggs e Haapala, 2010).
Apesar de esta definição ter alcançado grande popularidade por englobar várias
dimensões do problema, alguns aspetos são alvo de crítica, nomeadamente a sua
difícil operacionalização, devido à inclusão de elementos subjetivos, como a
expetativa de confiança e mal ou aflição (id., ibid.).
A uma primeira fase de concetualização sucedeu uma segunda fase, em que se
tipificam diferentes formas de violência: financeira, física, psicológica,
sexual e a negligência (Podnieks, 1992, cit. por Gil, 2010). Baseando-se numa
revisão sobre a literatura, um documento da OMS sobre a medição do fenómeno
considera cinco principais formas de violência contra as pessoas idosas (Perel-
Levin, 2008: 6):
a violência física é definida como o conjunto de ações levadas a cabo com
intenção de causar dor física ou ferimentos ao idoso, da qual são exemplos,
entre outros, as punições físicas (bater, esbofetear), empurrar, atirar um
objeto e sub ou sobremedicar; a violência psicológica, emocional e/ou verbal
descreve todas as ações que infligem sofrimento, angústia ou aflição, através
de estratégias verbais ou não verbais, como são exemplo as ameaças, a
humilhação, a intimidação e a manipulação, entre outros; a violência sexual
refere-se ao envolvimento da pessoa idosa em atividades sexuais para as quais
não deu consentimento, que não quer e/ou cujo significado não compreende, tais
como a intimidade não consentida, o assédio sexual ou a violação, entre outros;
a violência económica ou financeirainclui o uso ilegal ou inapropriado, por
parte de cuidadores e/ou familiares, de bens, fundos ou propriedades da pessoa
idosa, de que são exemplo, entre outras atividades, o roubo, a venda de
propriedades ou a transferência de dinheiro sem o consentimento do
proprietário; a negligência constitui outra dimensão da violência, que
compreende a recusa, omissão ou ineficácia na prestação de cuidados, obrigações
ou deveres à pessoa idosa, e inclui, entre outros exemplos, a recusa/omissão de
alimentação, recusa/omissão de suporte material e emocional e a negligência a
nível dos cuidados de higiene e de saúde.
Considerando a intencionalidade das condutas, a negligência pode ainda ser
dividida em dois tipos: a ativa (através da negação ou fracasso intencional no
cumprimento das ações necessárias ao bem-estar da pessoa) e a passiva (que
difere da primeira pelo facto de não ser consciente ou intencional) (Wolf et
al., 1989, cit. por Dias, 2004).
Centrada na temática da saúdee dos cuidados de longa duração a Comissão
Europeia, com base no Eurobarometer (2007), promoveu um inquérito nos estados-
membros para analisar as perceções da população europeia relativamente aos
cuidados a prestar à população idosa a longo prazo. Um dos objetivos deste
inquérito foi o de identificar as formas de violência e abuso a que a população
idosa está sujeita em situação de maior vulnerabilidade.
Este inquérito revelou que perto de metade dos europeus considera os maus-
tratos, a negligência e a violência contra as pessoas idosas como um problema
comum nos seus países (47%) (CE, 2008: 5), embora ligeiramente menos
representativo em Portugal (43%). Esta percentagem aumenta quando as pessoas
idosas revelam limitações funcionais severas (56%), necessidade de cuidados de
longa duração (54%), ou quando os entrevistados passaram por experiências de
cuidados a familiares (54%) ou possuem familiares a residir em lares de idosos
(54%) (Eurobarometer, 2007: 108).
Mais de 65% dos europeus consideram que as pessoas idosas dependentes são
vítimas de negligência física, abuso dos seus bens, ou recebem cuidados
inadequados. A maioria dos europeus entende que este grupo corre risco de
violência psicológica ou física (64% e 52%, respetivamente) e um terço admite
que as pessoas idosas dependentes possam ser potenciais vítimas de agressão
sexual e de violação (id., ibid.: 109).
A imagem enegrecida desenhada pela opinião pública ao longo da Europa, a
crescente preocupação social que hoje as sociedades revelam no conhecimento do
número de pessoas idosas que são alvo de violência e as perceções públicas
sobre a sua natureza e extensão não vão ao encontro das estimativas reduzidas
obtidas através dos estudos de prevalência internacionais.
Neste contexto Biggs e Haapala (2010) consideram que se, por um lado, a maior
visibilidade que o problema da violência tem adquirido nas sociedades
contemporâneas tem gerado expetativas públicas sobre o conhecimento do número
de pessoas idosas que são vítimas de violência, por outro lado, esta maior
visibilidade não é proporcional ao desenvolvimento concetual do fenómeno. A
ambiguidade entre as perceções sociais face ao problema por parte da população
em geral e os números reais obtidos através dos vários estudos europeus de
prevalência tem revelado algum desfasamento, que poderá ser explicado pelo
ceticismo face ao papel da família no apoio aos mais velhos. Esta contradição
entre o plano das representações sociais e os estudos efetuados poderá também
ser explicada pelas mutações que estão a ocorrer ao nível das estruturas
familiares nas sociedades contemporâneas (Walker, 1993), refletindo-se nas
práticas e nas dinâmicas familiares e sociais.
Enquadramento teórico-concetual nos estudos de prevalência
A maioria dos 17 estudos revistos apresentam alguma fragilidade teórico-
concetual inerente ao fenómeno para o qual se propõem estimar a prevalência,
tal com é demonstrado nos pontos seguintes (Chokkanathan e Lee, 2005; Garre-
Olmo et al., 2009; Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009; Marmolejo, 2008;
Naughton et al., 2010; Oh et al., 2006; Pillemer e Finkelhor, 1988; Soares et
al., 2010). Todavia e ainda que não avancem com um modelo explicativo
específico, a violência contra as pessoas idosas é, comummente, delimitada no
quadro da violência doméstica ou da violência interpessoal. Neste sentido, o
foco no contexto onde esta ocorre (doméstico ou familiar) e na existência de
um relacionamento (de confiança) interpessoal prévio entre vítima e agressor
reflete, do ponto de vista dos autores, uma dimensão específica da violência
doméstica (Garre-Olmo et al., 2009; Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009;
Marmolejo, 2008; Naughton et al., 2010; Podnieks, 1993).
Alguns autores optam por avançar apenas com uma definição geral do fenómeno e
desenvolver definições operacionais para os diferentes tipos de violência que
foram avaliados (Comijs et al., 1998; Ogg e Bennett, 1992; O'Keeffe et al.,
2007; Yan e Tang, 2004).
Os estudos de prevalência mais recentes utilizam a definição, suprarreferida,
da Organização Mundial de Saúde, que operacionalizam de forma diferente
(Chokkanathan e Lee, 2005; Naughton et al., 2010; O'Keeffe et al., 2007; Garre-
Olmo et al., 2009; Luoma et al., 2011; Soares et al., 2010).
Dos 17 estudos de prevalência incluídos nesta revisão apenas dois se posicionam
teoricamente (Laumann, Leitsch e Waite, 2008; Luomaet al., 2011). Laumann e
colaboradores (2008) utilizam a abordagem interpessoal para caraterizar a
problemática, que se centra mais na relação entre a vítima e o agressor e menos
nos aspetos sociais. A violência contra as pessoas idosas é percecionada na sua
etiologia como decorrendo da crescente incapacidade física ou mental da pessoa
idosa, da sua dependência face ao cuidador e do stresse inerente ao ato de
cuidar.
Luoma e colaboradores (2011) fazem, por sua vez, referência ao modelo
socioecológico. Este modelo agrega não só os aspetos individuais, mas também
sociossituacionais e sociais, sendo a violência um produto da interação entre
as determinantes individuais da vítima e do agressor, que por sua vez são
moldadas pelas condições sociais e pela estrutura social.
Em suma, na revisão dos estudos selecionados identificou-se uma fragilidade
teórico-concetual, transversal à maioria dos estudos de prevalência. Ainda que
os mesmos apresentem definições operacionais, estas não são enquadradas num
modelo de análise global que oriente as metodologias adotadas e os instrumentos
utilizados para medir a violência.
Neste âmbito e na nossa perspetiva, o modelo socioecológico possibilita uma
abordagem teórica multifatorial e compatível com a complexidade do problema em
análise. De acordo com este modelo a violência resulta da interação conjunta de
variáveis em três diferentes níveis: individual, social e estrutural (Sev'er,
2009). Os determinantes individuais da vítima e do agressor constituem fatores
de risco que são moldados, por sua vez, pelas condições sociais e pela
estrutura social. As caraterísticas pessoais associadas às condições
contextuais são suscetíveis de desencadear situações de violência ou de não
violência. No entanto, o modelo não é determinístico nem causal, pois, por um
lado, se as condições sociais podem acelerar/aumentar as probabilidades de
ocorrência da violência, por outro, as caraterísticas estruturais podem
fornecer uma arena onde a violência é mais ou menos provável (por exemplo, ao
nível das políticas de proteção à pessoa idosa), influenciando as condições
sociais de contexto. Assim, a violência é vista como um produto da interação
(em ambos os sentidos) destes três níveis, em conjunto.
Dada a premência que hoje existe de conhecer o problema da violência contra as
pessoas idosas, no quadro do envelhecimento demográfico, será importante que os
estudos de prevalência permitam estimar a dimensão do problema na população,
bem como desenvolver enquadramentos teórico-concetuais que sustentem os
desenhos e metodologias adotadas e possibilitem uma leitura interpretativa das
estimativas obtidas.
Desenhos de investigação
A revisão dos 17 estudos de prevalência selecionados revelou múltiplas
diferenças entre estes, que vão desde a concetualização do fenómeno até à sua
operacionalização. Estes vários aspetos que, desde logo, condicionam a
comparação das prevalências, referem-se ao âmbito geográfico, à população alvo,
às categorias de agressores, às definições operacionais, aos instrumentos de
recolha de dados e aos métodos de amostragem e de análise dos dados.
Relativamente ao âmbito geográfico,identificaram-se três tipos de estudos: os
de âmbito nacional, regional e os estudos transnacionais. No primeiro tipo, as
estimativas de prevalência são representativas da população idosa de cada país
em estudo (Ogg e Bennett, 1992; Podnieks, 1993; Grandeet al., 1999; O'Keeffeet
al., 2007; Marmolejo, 2008; Laumann, Leitsch e Waite, 2008; Lowenstein,
Eisikovits e Winterstein, 2009; Naughtonet al., 2010; Aciernoet al., 2010). No
segundo tipo tais estimativas são representativas da população idosa de uma
área geográfica mais restrita; uma ou mais regiões/zonas de um país (Pillemere
Finkelhor, 1988; Comijset al., 1998; Yane Tang, 2004; Chokkanathane Lee, 2005;
Ohet al., 2006; Garre-Olmoet al., 2009). Os estudos transnacionais foram
desenvolvidos em vários países, sendo as estimativas representativas da
população idosa de uma cidade em cada um dos países (Soareset al., 2010) ou dos
vários países incluídos (Luomaet al., 2011).
A definição da população alvo, em termos de faixa etária, também não é
unânime. Os estudos de prevalência têm sido direcionados, na sua maioria, para
indivíduos com 60 ou mais anos de idade ou para indivíduos com 65 ou mais anos
(Podnieks, 1993; Pillemere Finkelhor, 1988; Grandeet al., 1999; Ohet al., 2006;
Chokkanathan e Lee, 2005; Marmolejo, 2008; Lowenstein, Eisikovits e
Winterstein, 2009; Naughtonet al., 2010), muito embora se tenha constatado a
existência de investigações dirigidas a grupos etários distintos,
designadamente 57 ou mais anos (Laumann, Leitsch e Waite, 2008), 69 ou mais
anos (Comijset al., 1998) e 75 ou mais anos (Garre-Olmoet al., 2009).
Os estudos consideram ainda diferentes categorias de agressores. Alguns dos
estudos revistos (Ogge Bennett, 1992; O'Keeffeet al., 2007; Naughtonet al.,
2010) só contemplam agressores conhecidos da vítima ou do seu círculo de
relações mais próximas (familiares, vizinhos, prestadores de cuidados, entre
outros). Outros procuraram identificar a violência cometida por qualquer tipo
de agressor (Pillemer e Finkelhor, 1988; Podnieks, 1993; Comijset al., 1998;
Chokkanathan e Lee, 2005; Soareset al., 2010).
São várias as definições operacionais de violência encontradas nos diversos
estudos, e nestes nem as definições concetuais são consensuais, nem as
dimensões e os tipos de violência são comuns. Das várias definições existentes,
uma das mais reconhecidas e adotada é a da OMS (cf. Concetualização dos tipos
de violência, supra). No entanto, a forma como tem sido operacionalizada não
tem sido uniforme entre os vários estudos.
Dos estudos revistos a maioria opta pela construção de questionários próprios
(Ogge Bennett, 1992; Grandeet al., 1999; Ohet al., 2006; O'Keeffeet al., 2007;
Marmolejo, 2008) ou pela adaptação de escalas já testadas e validadas por
terceiros, a par de questões originais (Pillemer e Finkelhor, 1988; Podnieks,
1993; Comijset al., 1998; Yan e Tang, 2004; Chokkanathan e Lee, 2005; Laumann,
Leitsch e Waite, 2008; Garre-Olmoet al., 2009; Lowenstein, Eisikovits e
Winterstein, 2009; Soareset al., 2010; Luomaet al., 2011).
O instrumento mais frequentemente utilizado na deteção de atos de violência
contra as pessoas idosas foram as Revised Conflict Tatic Scales, também
conhecidas como CTS2 (Strauset al., 1996).1 Inicialmente desenvolvido para
despistar violência conjugal, este instrumento foi posteriormente adaptado ao
contexto da violência contra as pessoas idosas. As CTS2 avaliam um total de 39
comportamentos, explicitados em itens individuais que englobam cinco
categorias: racionalização e negociação (6 itens), agressão psicológica (8
itens), agressão física (12 itens), coerção sexual (7 itens) e consequências/
ferimentos físicos (6 itens). Cada um dos comportamentos/itens é ainda
classificado de acordo com o seu grau de severidade. Cerca de metade dos
estudos revistos aplicaram questionários que incluíam itens das CTS2 ou
adaptações destes (Pillemere Finkelhor, 1988; Podnieks, 1993; Comijset al.,
1998; Yane Tang, 2004; Chokkanathane Lee, 2005; Lowenstein, Eisikovits e
Winterstein, 2009; Soareset al., 2010; Luomaet al., 2011).
Outros estudos desenvolvem os seus próprios questionários com o objetivo de
medir a ocorrência e a frequência de condutas de violência. Ou seja, as pessoas
são questionadas diretamente sobre o facto de terem ou não experienciado
determinados comportamentos ou ações por parte dos seus familiares, cuidadores
ou outras pessoas. Neste caso, uma resposta positiva a um item corresponde à
ocorrência de violência. Comparativamente aos estudos anteriormente citados, as
escalas são medidas mais conservadoras, visto que fornecem um índice geral
obtido a partir dos vários itens que as constituem que indica a ocorrência da
violência. Neste sentido, os questionários podem levar a uma
sobrerreferenciação do fenómeno, sobretudo no caso da violência psicológica ou
da negligência. Ainda que comportamentos como bater, morder ou roubar sejam
inequivocamente formas de violência, será mais difícil dizer o mesmo sobre o
ato de berrar (Fulmer etal., 2004). Por outro lado, as escalas são também
instrumentos que podem diminuir a sensibilidade a variações individuais nas
respostas (id., ibid.). Para além disso, quando utilizadas fora do contexto
onde foram desenvolvidas e avaliadas, devem ser utilizadas com alguma
precaução, sobretudo no caso da adaptação transcultural, o que nem sempre se
verifica nos estudos revistos.
De modo a superar o risco da sobrerreferenciação, Pillemer e Finkelhor (1988)
sugerem a adoção de critérios para a definição de caso. Estes autores não
utilizam uma escala para medir a violência, mas desenvolvem uma tipologia de
condutas a que correspondem diversos tipos de violência. Para isso estabelecem
critérios de modo a delimitar a possível sobrerreferenciação que o
questionamento das condutas específicas pode implicar. Assim, a ocorrência de
negligência e de violência psicológica, emocional e/ou verbal só é mensurável
se os atos correspondentes tiverem sido cometidos pelo menos dez vezes ao longo
de um ano. Ou seja, apenas se considera que um indivíduo é vítima de violência
psicológica se o ato ou atos respondidos positivamente tiverem ocorrido pelo
menos dez vezes nos últimos doze meses. Na avaliação da violência física,
financeira e sexual, o mesmo autor considera mesuráveis atos que tenham
ocorrido pelo menos uma vez ao longo de um ano.
Por último, no que se refere aos instrumentos de recolha de dados, é também de
notar que mesmo os períodos de referência (horizontes temporais) para a
ocorrência de violência são diferentes de estudo para estudo e, ainda que os
últimos 12 meses prevaleçam, podemos também encontrar outros períodos de
referência: últimos três meses, últimos quatro anos ou desde que o indivíduo
completou 60 ou 65 anos (cf. quadro_1).
Os estudos empregam ainda diferentes métodos de recolha de dados,
privilegiando a aplicação presencial (Ogge Bennett, 1992; Comijset al., 1998;
Ohet al., 2006; Yane Tang, 2004; Chokkanathane Lee, 2005; O'Keeffeet al., 2007;
Marmolejo, 2008; Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009; Garre-Olmoet al.,
2009; Soareset al., 2010), em detrimento da administração telefónica dos
instrumentos (Pillemer e Finkelhor, 1988; Podnieks, 1993; Grandeet al., 1999;
Aciernoet al., 2010; Naughtonet al., 2010). Alguns estudos subdividem os
questionários em duas partes uma destinada à administração presencial e outra
destinada à autoadministração e outros ainda optam pela combinação de vários
métodos de recolha de dados (Laumann, Leitsch e Waite, 2008).
Os diferentes métodos de recolha de dados apresentam vantagens e desvantagens,
que devem ser consideradas de acordo com os objetivos dos inquéritos de
prevalência. No caso de inquéritos à população em geral sobre temas sensíveis
(por exemplo, violência, crimes e consumo de estupefacientes), os inquéritos
por telefone têm vindo atualmente a ser cada vez mais utilizados em detrimento
dos métodos postal e presencial (McGee et al., 2002; UNODC, 2010).
No que se refere aos custos e recursos, o método postal é o menos dispendioso,
mas também aquele que maior número de não respostas parece gerar, a par dos
problemas com a representatividade da amostra (McGee et al., 2002; UNODC,
2010). Em contrapartida, as entrevistas por telefone implicam mais custos que o
método postal e menos custos que as entrevistas face a face (id., ibid.). A
segurança do entrevistador e a sua supervisão são também dois aspetos que
poderão aumentar a vantagem da utilização de inquéritos por telefone (id.,
ibid.). As entrevistas face a face apresentam vantagens em relação ao número e
à complexidade das questões, bem como ao tempo de condução das entrevistas,
aspetos que têm de ser mais cuidadosamente considerados nas entrevistas por
telefone para garantir a compreensão da pergunta e conter a fadiga tanto do
entrevistado como do entrevistador (id., ibid.). No entanto, nas entrevistas
face a face a relutância das pessoas em permitir que um estranho, mesmo com
credenciais, entre no seu domicílio (id., ibid.) é também considerada uma
desvantagem.
No que concerne à taxa de não resposta, nos 17 estudos revistos torna-se
difícil uma comparação exata, visto que quatro dos estudos não apresentaram
taxas de não respostas (Grande et al., 1999; Marmolejo, 2008; Podnieks, 1993;
Ogg e Bennett, 1992) enquanto os restantes utilizam outros indicadores. As
taxas de resposta mais elevadas surgem nos inquéritos por telefone
desenvolvidos na Irlanda (83%; Naughtonet al., 2010) e nos EUA (72%; Pillemer e
Finkelhor, 1988).2 As taxas mais baixas surgem nos estudos que utilizaram um
método de recolha de dados presencial desenvolvidos em Inglaterra (65%;
O'Keeffeet al., 2007) e na Coreia do Sul (53%; Ohet al., 2006). As taxas de
recusa foram apenas apresentadas nos estudos que administraram os seus
inquéritos presencialmente e variaram entre 3,6% no estudo regional
desenvolvido na Índia (Chokkanathane Lee, 2005) e 25% no estudo nacional
conduzido em Israel (Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009).3 As taxas de
participação são apresentadas somente por dois estudos.4 No questionário
aplicado telefonicamente nos EUA observou-se uma menor participação (69%;
Aciernoet al., 2010) que no questionário aplicado presencialmente numa região
em Espanha (82%; Garre-Olmoet al., 2009).
Face ao exposto torna-se difícil aferir qual dos métodos pode garantir uma
maior participação e um menor número de não respostas, ainda que os estudos que
aplicaram os inquéritos via telefone aparentem ser mais eficazes quando
comparados com os aplicados face a face. Para além do método utilizado, as
taxas de participação, de recusa ou de resposta dependem também das estratégias
adotadas para minimizar as não respostas e das diferenças culturais entre os
países. Veja-se, por exemplo, o estudo de âmbito transnacional Abuel (Soareset
al., 2010). Este projeto europeu desenvolvido em sete países apresentou uma
taxa de resposta variável entre 18,9% e 87,4%.
Nos 17 estudos observaram-se ainda diferenças no método de amostragem. Apesar
de todos os trabalhos revistos terem utilizado amostras aleatórias, nem todos
utilizaram o mesmo tipo de amostragem. A amostragem estratificada por sexo e
por idade foi a mais frequentemente citada pelos autores (O'Keeffeet al., 2007;
Marmolejo, 2008; Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009; Aciernoet al.,
2010).
No que concerne aos métodos de análise dos dados utilizados na estimativa da
prevalência da violência, também se notaram discordâncias entre estudos.
Alguns não disponibilizam intervalos de confiança para as prevalências
estimadas, ou não descrevem o nível de confiança adotado na sua estimação,
sendo por isso questionável se procedem na realidade à divulgação de
frequências baseadas em valores amostrais, ao invés de frequências ajustadas à
população alvo (prevalências propriamente ditas). Efetivamente são escassos os
estudos que documentaram os valores de prevalência obtidos com o detalhe
necessário à compreensão do seu modo de cálculo (Grandeet al., 1999; O'Keeffeet
al., 2007; Marmolejo, 2008; Laumann, Leitsch e Waite, 2008). O desconhecimento
da exatidão das estimativas apresentadas condiciona sobejamente as comparações
entre estudos.
Em síntese, são vários os aspetos a considerar na análise das estimativas de
prevalência. A revisão realizada aponta vários condicionamentos à comparação da
prevalência do fenómeno nos diferentes países.
Estimativas de prevalência da violência
Na análise dos estudos de prevalência da violência contra a população idosa
apresentados no quadro_1 constata-se uma maior disponibilidade de estudos
desenvolvidos na América do Norte e em países europeus, com particular relevo
para o Reino Unido (UK), onde foram realizados dois estudos de prevalência em
1992 e 2007.
Estimativas de prevalência da violência total
Uma tendência observada foi que os inquéritos de âmbito nacional apontam para
uma prevalência da violência menos elevada do que os de âmbito regional ou
estudos transnacionais europeus.
Considerando apenas as taxas globais de prevalência da violência dos inquéritos
de base populacional nacional, as estimativas variaram entre 0,8% para pessoas
com 65 ou mais anos a residir em Espanha (Marmolejo, 2008) e 18,4% para o mesmo
grupo alvo a residir em Israel (Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009).5
Excetuando o caso de Israel, as estimativas identificadas foram relativamente
homogéneas entre os diferentes países.6 Em Portugal as estimativas obtidas pelo
projeto europeu AVOW (Luoma et al., 2011) são bastante mais elevadas. Este
projeto, que tem a particularidade de apenas estimar a prevalência de violência
contra pessoas idosas do género feminino em cinco países europeus, estimou que
39,4% (n = 649) das mulheres portuguesas com 60 ou mais anos reportaram terem
sido vítimas de algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Nos inquéritos de
base populacional regional as estimativas obtidas denotam maior variabilidade,
oscilando entre 3,2% para pessoas com 65 ou mais anos residentes em Boston, nos
EUA (Pillemere Finkelhor, 1988), e 29,3% para pessoas com 75 ou mais anos
residentes em Girona, em Espanha (Garre-Olmoet al., 2009).
Estimativas de prevalência dos diferentes tipos de violência
Tendo em conta a caraterização da violência nas suas várias dimensões,
observamos que a violência psicológica e/ou verbal é a forma mais relatada
pelas pessoas idosas. Em mais de 70% dos estudos que analisaram a violência,
este foi o tipo mais frequentemente reportado, designadamente pelas pessoas
idosas residentes na Austrália (2,0%; Grandeet al., 1999), na Irlanda (2,4%;
Naughtonet al., 2010) e nos EUA (13,5%; Aciernoet al., 2010), para um período
de referência desde os 60 ou desde os 65 anos.
As estimativas identificadas para a prevalência da violência psicológica e/ou
verbal evidenciaram grande amplitude: entre 0,3% de pessoas com 65 ou mais anos
residentes em Espanha (Marmolejo, 2008) e 26,8% de pessoas com 60 ou mais anos
residentes em Hong Kong (Yan e Tang, 2004). Atendendo apenas aos estudos, de
âmbito nacional, que analisaram a prevalência da violência psicológica e/ou
verbal, as estimativas (relativas a 12 meses) variaram entre 0,3% em Espanha
(Marmolejo, 2008) e 14,2% em Israel (Lowenstein, Eisikovits e Winterstein,
2009).
Também em Portugal esta forma de violência é a mais reportada pelos
participantes. No projeto europeu Abuel (Soareset al., 2010), que envolveu
municípios urbanos de sete países, 21,9% (n = 656) de pessoas idosas inquiridas
na cidade do Porto referiram serem vítimas de violência psicológica, enquanto a
nível nacional esta prevalência se eleva para 32,9% de mulheres portuguesas no
estudo europeu AVOW (Luoma et al., 2011).
A violência financeira surge usualmente como a segunda forma mais reportada,
tendo a sua prevalência variado entre 0,2% para pessoas com 65 ou mais anos
residentes em Espanha (Marmolejo, 2008) e 8,8% para mulheres com 60 ou mais
anos residentes em qualquer um dos seguintes países europeus: Áustria, Bélgica,
Finlândia, Lituânia, Portugal (Luomaet al., 2011). Considerando apenas os nove
inquéritos de âmbito nacional que estimaram a violência financeira, Espanha foi
o país que assinalou a menor prevalência (0,2% em 12 meses; Marmolejo, 2008),
enquanto a mais elevada foi registada por Israel (6,4% em 12 meses; Lowenstein,
Eisikovits e Winterstein, 2009). Na Irlanda (1,3%; Naughtonet al., 2010), no
Canadá (2,5%; Podnieks, 1993) e nos EUA (5,2%; Aciernoet al., 2010) esta foi a
dimensão de violência mais prevalente num período de um ano.
No nosso país os dados existentes acompanham estes resultados, indicando a
violência financeira como o segundo tipo mais prevalente: 7,8% de pessoas
idosas na cidade do Porto (Soareset al., 2010) e 16,5% das mulheres a nível
nacional (Luoma et al., 2011) reportaram terem sofrido alguma forma de
violência financeira durante o período de um ano.
A negligência, provavelmente também como resultado da dificuldade associada à
sua operacionalização, é uma das dimensões do fenómeno que apresenta maior
diversidade de frequências. As prevalências identificadas variaram entre 0,2%
na população com 69 a 89 anos residente em Amesterdão, na Holanda (Comijset
al., 1998), e 26% na população com 65 ou mais anos residente no Israel
(Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009). Nos países com inquéritos de
âmbito nacional as estimativas da negligência oscilaram entre 0,3% na Irlanda,
em Espanha e na Austrália (Naughtonet al., 2010; Marmolejo, 2008; Grandeet al.,
1999) e 26% em Israel (Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009). As
prevalências citadas foram contudo estimadas a partir de referências temporais
distintas: em Israel o período de referência adotado foi de três meses, na
Irlanda e em Espanha as estimativas reportam-se a 12 meses e na Austrália
referem-se ao período desde que o indivíduo completou 65 anos. A negligência
foi a dimensão da violência mais reportada em dois países: Espanha (0,3% em 12
meses; Marmolejo, 2008) e Reino Unido (1,1% em 12 meses; O'Keeffeet al., 2007).
Em Portugal, a nível nacional a negligência apenas foi avaliada pelo projeto
AVOW, que estimou esta como a quarta forma de violência mais reportada (9,9%)
pelas mulheres com 60 ou mais anos (Luoma et al., 2011).
A violência física e a violência sexual são os tipos de violência menos
frequentemente observados nos estudos da prevalência. As estimativas da
violência física oscilaram entre 0,2% para pessoas idosas residentes em
Espanha e nos EUA (Marmolejo, 2008; Laumann, Leitsch e Waite, 2008) e 4,3% para
a população idosa de Chennai, na Índia (Chokkanathan e Lee, 2005). Nos nove
estudos onde esta dimensão foi avaliada através de inquéritos de âmbito
nacional, as estimativas (relativas a 12 meses) situaram-se entre 0,2% em
Espanha e nos EUA (Marmolejo, 2008; Laumann, Leitsch e Waite, 2008), e 1,6%
também nos EUA (Aciernoet al., 2010). As estimativas obtidas em Portugal
através dos dois projetos europeus são similares, tendo a violência física
surgido como o penúltimo (2,1% de pessoas idosas na cidade do Porto; Soareset
al., 2010) e último tipo de violência mais reportado (2,8% das mulheres idosas
a nível nacional; Luoma et al., 2011) pela população idosa alvo dos estudos em
Portugal.
A violência sexual constitui uma das dimensões do problema menos avaliada.
Foi estudada em apenas nove dos dezassete estudos revistos. A sua prevalência
variou entre 0,05% para pessoas com 65 ou mais anos residentes na Irlanda
(Naughtonet al., 2010) e 3,1% para mulheres de 60 ou mais anos residentes em
cinco países europeus: Áustria, Bélgica, Finlândia, Lituânia e Portugal
(Luomaet al., 2011). Nos cinco estudos de âmbito nacional que analisaram a
prevalência da violência sexual, as estimativas correspondentes foram menos
elevadas quando comparadas com outros tipos de violência, tendo variado, num
período de referência de 12 meses, entre 0,05% na Irlanda (Naughtonet al.,
2010) e 0,6% nos EUA (Aciernoet al., 2010). Em Israel a estimativa da
prevalência conjunta de violência física e sexual, foi de 2% em 12 meses
(Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009).
Em Portugal a prevalência da violência sexual foi mais elevada para as mulheres
com 60 ou mais anos (3,6%; Luoma et al., 2011) que para as pessoas idosas com
60 e mais anos da cidade do Porto (1,3%; Soareset al., 2010). De notar ainda
que a cidade do Porto, a seguir a Atenas, foi o município (entre sete países
europeus) onde a violência sexual ocorreu com maior frequência, enquanto
Portugal, a seguir à Finlândia, foi o país (entre cinco países europeus) em que
mais mulheres reportaram terem sido vítimas desta forma de violência.
Outros tipos de violência, que não os consagrados na tipologia mais clássica,
foram ainda abordados por alguns dos inquéritos de prevalência (Grandeet al.,
1999; Yane Tang, 2004; Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009; Luomaet al.,
2011). Os estudos citados consideraram novas dimensões e desenvolveram
instrumentos que permitiram avaliá-las: a violação de direitos, a restrição de
liberdade ou restrição social, e a violência social. As novas dimensões
raramente são utilizadas nos estudos de prevalência de âmbito internacional e
necessitam, ainda, de clarificação concetual. A inclusão destas dimensões pode
também estar relacionada com especificidades culturais e/ou com enquadramentos
jurídico-legais próprios de alguns países.
Nas cinco dimensões de violência atrás referidas, observou-se não só uma grande
variabilidade das estimativas de prevalência de cada dimensão entre os vários
estudos, mas também uma diversidade nos tipos de violência avaliados. Se, por
um lado, as diferentes metodologias e concetualizações do fenómeno podem ser
fatores explicativos da disparidade de resultados identificados, por outro
lado, as especificidades sociais e culturais dos países parecem ser igualmente
relevantes. Ainda assim, foi observada uma certa consistência entre resultados:
A violência psicológica/verbale anegligênciasão asduas dimensões mais
prevalentes, embora as suas estimativas apresentem uma maior oscilação entre os
estudos. Tal poderá resultar de diferentes definições e, consequentemente, das
diferentes condutas/ações consideradas. A violência financeira é também
frequentemente reportada. As estimativas da prevalência do fenómeno são
usualmente mais reduzidas em estudos que apenas contemplam agressores que
integram o círculo de relações mais próximas da pessoa idosa (familiares,
vizinhos, prestadores de cuidados, entre outros) e maiores quando incluem
indivíduos desconhecidos das vítimas. A violência físicae aviolência sexual
constituem as dimensões do fenómeno menos reportadas.
Caraterização do agressor e da vítima
Considerando os estudos de prevalência de base populacional pode-se elaborar
uma aproximação a um perfil de vítimas e agressores. Contudo e tal como se
verifica nos valores de prevalência, muitas vezes os resultados obtidos são
inconsistentes entre os diferentes estudos, requerendo alguma cautela na sua
análise. As pessoas idosas do género feminino estão potencialmente em maior
risco de serem vítimas de violência global (Marmolejo, 2008) ou de determinados
tipos de violência (Laumann, Leitsch e Waite, 2008; O'Keeffe et al., 2007;
Podnieks, 1993).
Ainda que a vítima-tipo tenha vindo a ser descrita na literatura como uma
pessoa idosa do género feminino, estes resultados podem implicar uma
sobrerrepresentação da violência conjugal neste grupo etário. Em Espanha, no
Canadá e na Austrália, países onde se observou uma maior prevalência de todos
os tipos de violência contra as mulheres, as pessoas idosas identificaram os
parceiros (cônjuges/companheiros) como os principais responsáveis pelas
condutas de violência (Marmolejo, 2008; Podnieks, 1993; O'Keeffe et al., 2007).
Nos estudos revistos identificam-se também diferenças na vulnerabilidade a
diferentes tipos de violência, das mulheres em comparação com os homens: os
parceiros surgem mais frequentemente como agressores da violência física e
sexual (Lowenstein, Eisikovits e Winterstein, 2009; O'Keeffe et al., 2007),
enquanto a violência financeira parece ser sobretudo exercida pelos filhos e
outros familiares (Laumann, Leitsch e Waite, 2008; Lowenstein, Eisikovits e
Winterstein, 2009; Naughton et al., 2010).
Embora a coabitação, seja um dos fatores de risco mais referidos na literatura
(Lachs e Pillemer, 2004), dos estudos revistos apenas três mostraram ser esta
uma variável que aumentava a vulnerabilidade face à violência. Na Irlanda
coabitar com descendentes revelou ser um fator de risco para a violência em
geral (Naughton etal., 2010), enquanto em Inglaterra as pessoas idosas que
viviam sozinhas estavam mais vulneráveis à violência financeira (O'Keeffe et
al., 2007). Em Israel, quando existia coabitação entre os filhos agressores e a
pessoa idosa, a violência física ocorria mais significativamente (Lowenstein,
Eisikovits e Winterstein, 2009).
Em suma, em cerca de metade dos estudos revistos as mulheres surgem
consistentemente como sendo mais vulneráveis às várias formas de violência
familiar, ocorrendo esta, maioritariamente, no seio da família, e sendo os
agressores sobretudo os familiares: parceiros(as) /conjugues/ companheiros e
filhos.
Discussão
Os resultados da revisão sistemática dos estudos de prevalência desenvolvidos,
ao longo das últimas décadas, levam-nos a concluir sobre a complexidade
explicativa do problema traduzido na concetualização e operacionalização,
constituindo, por isso, um problema multifatorial, onde intervêm vários fatores
de risco que condicionam as relações interpessoais dos indivíduos, expondo-os a
atos de violência.
Da análise das estimativas de prevalência da violência sobre as pessoas idosas,
publicadas pelos estudos revistos, destacam-se algumas tendências que importa
explicitar e problematizar. Primeiro, os valores de prevalências de violência
estimados por estudos de âmbito nacional foram usualmente mais reduzidos do que
os obtidos por estudos de âmbito regional. Nos estudos que utilizaram mais do
que um horizonte temporal para questionar as pessoas idosas sobre a ocorrência
de atos violentos, a prevalência global do fenómeno e de algumas das suas
dimensões aumentou com a ampliação do período de referência (mais de 12 meses).
Segundo, a violência psicológica e/ou verbal evidenciou ser o tipo mais
prevalente, embora as estimativas correspondentes tenham denotado uma maior
variação entre os estudos, facto que possivelmente é explicado pelos
indicadores utilizados. A utilização do critério de Pillemer (2004, cit. por
O´Keefe et al., 2007), replicado no estudo de prevalência inglês, parece-nos um
critério sólido, dado que só considera a existência de negligência e de
violência psicológica, emocional e/ou verbal se os atos correspondentes tiverem
sido cometidos pelo menos dez vezes ao longo aos últimos doze meses. Isto
remete, inevitavelmente, para os indicadores utilizados para medir violência
psicológica, tais como o gritar, o ofender, o insultar, e no caso da
negligência, para as atividades da vida diária, em termos de grau de
incapacidade funcional, necessidades de apoio e ausência ou recusa intencional
de uma rede familiar de suporte para prestar apoio.
Outro aspeto que não é consensual entre os vários estudos é a adoção do
critério demográfico 65 ou mais anos de idade como categoria
institucionalmente legitimada para designar pessoa idosa. Como se conclui,
muitos dos estudos de prevalência utilizam como critério os 60 e mais anos,
tendo como argumento central o facto de a passagem à reforma, incluindo pré-
reformas, implicar uma fase de transição e reformulação identitária nas
relações sociais, que originam a assunção de novos papéis familiares que podem
ser geradores de situações de conflito e de violência na esfera familiar.
A presente revisão revelou ainda uma diversidade de desenhos de investigação,
metodologias, definições operacionais e populações-alvo consideradas, o que
dificulta a comparação das prevalências de diferentes estudos, com impacto nas
variações observadas das estimativas, bem como um modelo teórico-concetual que
permita interpretar explicativamente esses mesmos valores. De facto, é
desejável que o desenvolvimento concetual sobre o fenómeno permita que futuros
estudos adotem definições consensuais, empreguem metodologias padronizadas e
analisem as propriedades psicométricas dos instrumentos utilizados.
A diversidade metodológica e concetual observada entre os vários estudos pode
advir da sua juventude científica, sendo a violência contra idosos só
recentemente reconhecida como objeto sociológico. Embora se tenham identificado
alguns inquéritos publicados no final da década de 80 e início da década de 90,
foi na última década que se desenvolveram a grande maioria dos inquéritos
internacionais sobre violência. A relativa novidade do fenómeno ou o
reconhecimento tardio da sua relevância e as expetativas geradas na opinião
pública ligadas ao crescimento do debate público em torno das consequências do
envelhecimento demográfico, do papel da família e da qualidade dos serviços de
apoio à velhice podem também ter contribuído para um excessivo empolamento do
problema. No entanto, o empolamento problemático junto da opinião pública pode
incorrer em novos riscos. Se, por um lado, as campanhas de sensibilização sobre
o problema, através dos meios de comunicação social, representam formas que
cooperam para uma maior visibilidade social e sensibilização para a denúncia,
esta maior visibilidade social pode gerar também um efeito perverso, que é a
lógica da representação social, da etiquetagem e da estigmatização, que é
associar sistematicamente a velhice dependente a maus-tratos e, por isso, a um
problema social generalizado, que necessita de uma lógica da assistência e de
risco social.
Por último, a sobrevalorização do problema junto da opinião pública pode gerar
uma visão simplificada e reduzida, a campos opostos como, por exemplo, vítima e
agressor ou amor e ódio (Biggs e Haapala, 2010). A complexidade das relações
interpessoais, inclusive as intergeracionais, obriga ao reconhecimento do
conflito e da ambivalência como parte integrante daquelas e à diferenciação
entre tensão, conflito e violênciana esfera familiar.7
Biggs e Haapala (2010), ainda que valorizem o reconhecimento que o problema tem
tido ao nível da opinião pública, alertam para a necessidade de o redefinir e
enquadrar teórica e concetualmente. De facto, uma das críticas que poderemos
apontar nos estudos de prevalência revistos é para a ausência de uma matriz
teórica que possa interpretar sociologicamente os valores estimados e os
fatores de risco associados.
Pensamos, assim, que o modelo socioecológico constituirá uma matriz teórica que
possibilitará caraterizar e interpretar a dinâmica e a complexidade que subjaz
ao problema da violência contra os mais velhos. Na sua sequência, justifica-se
a realização do primeiro estudo nacional, de base populacional, de prevalência
sobre a violência contra as pessoas idosas. Este constitui um dos desafios do
projeto Envelhecimento e Violência.8 A informação recolhida através de tal
estudo possibilitará uma cabal avaliação do fenómeno, que é imprescindível para
fundamentar recomendações e decisões públicas neste âmbito. Atendendo ao ritmo
de envelhecimento da população portuguesa, torna-se crucial o planeamento
atempado de ações e a criação de instrumentos legais que promovam as condições
para um envelhecimento mais saudável e seguro.