Mundos à parte?: Os sentidos da escola em meios sociais contrastantes
Notas introdutórias
Num momento em que praticamente todas as crianças entre os 6 e os 15 anos
estão, enfim, incorporadas no sistema educativo português e, portanto, sujeitas
a um conjunto comum de direitos, prescrições, programas, orientações e provas,
importa explorar quão homogéneos ou diversos são os sentidos que atribuem à
escola ou, invertendo a moeda, quão semelhantes (ou desiguais) são os sentidos
que a escola atribui à sua existência.
Desde alguns famosos estudos nos anos 1960 (Coleman, 1966; Bourdieu e Passeron,
1970), tornou-se comum a constatação de que a igualdade de oportunidades no
acesso tende a originar desigualdades no sucesso dos jovens dos diferentes
meios sociais, mas em geral essas diferenças têm sido situadas no plano
quantitativo dos resultados e explicadas pela relação desigual entre os
contextos de origem dos alunos e uma escola/saber uniforme e
descontextualizado.
Por seu lado, estudos ingleses e norte-americanos há muito que vêm assinalando
importantes consequências sociais das diferenças entre as escolas (ou circuitos
de escolarização) frequentadas por diferentes classes sociais (Bowles e Gintis,
1976; Willis, 1977; Reich, 1993; Gewirtz, Ball e Bowe, 1995). O próprio estudo
PISA (Programme for International Student Assessment) identifica diferenças
importantes nos resultados dos alunos entre escolas, de nenhuma forma
redutíveis ao binómio público-privado, mas em grande medida explicadas pelo
ambiente socioeconómico do estabelecimento de ensino (OCDE, 2009). Em Portugal,
este debate tem sido pouco aprofundado, devido ao suposto caráter centralizado
do sistema educativo. Porém, na confluência de dinâmicas educativas e
económicas em curso, há sinais de que a competição entre estabelecimento de
ensino se tem acentuado e de que a pressão pela busca de uma maior eficiência
tem conduzido a estratégias localizadas de adaptação aos diferentes públicos, o
que torna premente questionar a uniformidade dos regimes de socialização
providenciados em diferentes segmentos do sistema (Abrantes, 2008; Sebastião,
2009). Superando o problema (sempre atual) das desigualdades dos resultados,
colocam-se em causa as desigualdades de recursos, de objetivos, de estratégias,
de experiências, de sentidos coletivamente construídos.
De notar que a comparação entre configurações socioinstitucionais contrastantes
tem sido um valioso instrumento de análise sociológica ao longo dos tempos. Ao
exercitar este tipo de conhecimento, desocultam-se visões essencialistas e
cristalizadas, ao mesmo tempo que se ultrapassam criticamente ilusões de
homogeneidade. As enormes vantagens do pensamento comparativo e relacional
residem neste permanente convite a que evitemos isolar realidades sociais,
procurando continuamente a tradução, a contextualização e o transporte. A
superação de uma análise débil requer que se conheça o entre, num vaivém
constante que estabelece novos pontos de vista pontos de tensão.
No presente artigo pretendemos precisamente comparar resultados de duas
pesquisas baseadas em estudos de caso em organizações escolares, com
abundantes dimensões analíticas comuns (projetos de futuro almejados pelos
alunos, relação família-escola, efeito de escola, vivências escolares
discentes, [in]disciplina), ambas situadas na formação social portuguesa
contemporânea. Por um lado, as representações e vivências de alunos e pais
sobre o trabalho e a cultura escolar em escolas privadas frequentadas pelas
classes dominantes (uma laica e outra religiosa), por outro lado, um estudo
sobre impactos do programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária
(TEIP) em sete agrupamentos de escolas, situados em contextos sociais
marginalizados. Incidindo sobre duas realidades educativas contrastantes, a
reflexão aqui desenvolvida não tem por pretensão comparar o sistema de ensino
público com o privado até porque em ambos reencontramos uma forte
heterogeneidade interna , mas antes delinear as principais diferenças entre
dois segmentos do sistema educativo que acolhem públicos posicionados nas
extremidades da estrutura socioeconómica.
Partimos da hipótese de que a estruturação da relação entre os projetos
educativos, as famílias de origem e o efeito de escola requer um nível de
análise mesossociológico capaz de descobrir, a partir do modus operandi destes
estabelecimentos, as linhas de orientação que enquadram as práticas. Se as
diferenças encontradas podem, num primeiro plano, ser interpretadas como
adaptações legítimas e eficazes aos diferentes públicos, não será de
negligenciar as relações que estabelecem entre si enquanto componentes fulcrais
de sistemas de dominação cada vez mais escolarizados.
Considerações metodológicas
Os dados relativos ao ensino privado resultam de uma tese de doutoramento sobre
o sucesso educativo realizada em dois colégios da capital frequentados pelas
classes dominantes (Quaresma, 2012). Esta investigação teve como foco analítico
o sucesso educativo concebido numa aceção lata, isto é, enquanto conceito não
restrito à dimensão académica (sentido atribuído pelos jovens ao projeto
escolar, envolvimento e investimento na trajetória académica, adesão aos
valores escolares difundidos pelos colégios), mas que abarca dimensões como a
cultural (valorização da educação para as diferentes expressões da cultura e
envolvimento dos alunos nas atividades culturais massificadas ou elitizadas),
a social (redes de interação entre os agentes educativos, sentimento de
pertença a uma família escolar e participação discente nas atividades
extracurriculares e iniciativas colegiais) e a cívica (centralidade atribuída
aos valores de uma educação cidadã e envolvimento discente em práticas cívico-
associativas). Para este artigo, e com o intuito de maximizar as
potencialidades de um diálogo com a realidade educativa das escolas TEIP,
mobilizaremos apenas alguns dados sobre as dimensões académica e social,
recolhidos através do conjunto de métodos e técnicas de cariz extensivo e
intensivo acionados ao longo da investigação: inquérito por questionário
administrado nos dois colégios a uma amostra estratificada por género, ano
escolar e agrupamento científico, e que incluiu 475 dos 874 alunos entre o 9.º
e o 12.º ano; entrevistas individuais a representantes dos órgãos colegiais
(diretores, coordenadores de ano/ciclo, presidentes das associações de pais,
alunos e antigos alunos); grupos de discussão com alunos e com professores;
observações diretas nos espaços recreativos e nas cerimónias/eventos oficiais;
e análise de conteúdo de fontes secundárias.
Os dados relativos aos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária
(Abrantes, Mauritti e Roldão, 2011) foram recolhidos no decurso de estudos de
caso em sete agrupamentos de escolas abrangidos pelo programa, em diferentes
zonas do país: Grande Lisboa (três agrupamentos), Grande Porto, Minho, Algarve
e Beira Interior (um agrupamento por zona).[1] Em cada estudo de caso,
realizámos: observação direta, análise dos documentos reguladores das escolas,
um questionário aos docentes e outro aos encarregados de educação, entrevistas
aos órgãos de gestão, entidades parceiras e associação de pais, quatro focus
groups (coordenadores de departamento, diretores de turma, trabalhadores
sociais, delegados de turma), cinco assembleias de turma. Considerando o tema e
potenciando os dados comparáveis com o estudo apresentado anteriormente, neste
artigo discutimos, sobretudo, os dados recolhidos através da análise
documental, o inquérito aos encarregados de educação, os focusgroupscom os
delegados e as cinco assembleias de turma.
Desta forma, foi possível recolher e comparar um conjunto de dados, quer
quantitativos quer qualitativos, sobre as experiências e sentidos atribuídos à
escola, por parte dos estudantes e respetivas famílias, confrontando-os com os
projetos institucionais que se encontram documentados ou que foram transmitidos
em entrevistas com os dirigentes das organizações escolares.
Os herdeiros e os sentidos atribuídos à escola
Escola e projetos de futuro
O sentido ou a ausência de sentido da escola e das aprendizagens constitui
hoje um tema incontornável da sociologia da educação (Abrantes, 2003; Lopes,
1997).
Como vários estudos documentam, as diferentes disposições dos alunos face à
escola são, em grande medida, tributárias do seu contexto de socialização
familiar mas também, em grande parte, das suas vivências quotidianas no espaço
escolar. Daí que na reflexão em torno dos sentidos que os alunos atribuem à
escola e da importância que lhe conferem enquanto preparação para a sua vida
futura se cruzem, como vetores explicativos, valores e práticas familiares e
escolares.
Na verdade, se é grande a importância do efeito de família no desenvolvimento
de disposições mais ou menos favoráveis à adesão ao projeto escolar, não será
menos negligenciável a importância do efeito de escola: a família molda e
condiciona as disposições e os desempenhos escolares dos filhos através da
transmissão dos conhecimentos e dos saber-ser e saber-fazer requeridos e
valorizados pela escola, das fortes expetativas neles depositadas em termos de
trajetórias de sucesso, da adoção de práticas educativas escolarmente rentáveis
ou do acompanhamento da vida escolar; a escola, por sua vez, influi sobre o
sucesso escolar dos seus alunos através de fatores como a eficácia das práticas
pedagógicas dos seus docentes, a qualidade do ambiente de aprendizagem
(traduzida num espaço físico aprazível e numa relação de proximidade entre toda
a comunidade educativa) e a manutenção de um clima escolar ordeiro e seguro.
Quando as duas instâncias socializadoras partilham o ideal formativo e as
expetativas de sucesso, convergindo ao nível do discurso e da praxis educativa
em torno de um projeto escolar assente nos valores da exigência, do rigor e da
autodisciplina que conduzirão à excelência formativa cara às elites (Mension-
Rigau, 2007), estarão reunidas condições propícias para que os jovens atribuam
sentidos positivos à escola. Assim acontece nas escolas privadas em estudo,
cuja marca identitária assenta no projeto de formação integral dos alunos,
desenvolvido na vertente pessoal, social e religiosa, no colégio confessional,
e na dimensão humana, académica e cívica, no colégio laico. Estes colégios são
frequentados por alunos maioritariamente provenientes da burguesia dirigente
e profissional (31,9%) e empresarial e proprietária (20,8%) e da pequena
burguesia intelectual e científica (41,4%), com baixas taxas de repetência e
com trajetórias de fidelidade individual e familiar aos respetivos colégios,
visíveis no facto de quase 70% deles os frequentarem desde o infantário ou
desde o 1.º ciclo e de 85% terem irmãos no mesmo estabelecimento de ensino. Os
pais são, na sua quase totalidade, detentores de um diploma universitário 35%
têm uma licenciatura, 23% um mestrado, 15% um doutoramento e 11% um pós-
doutoramento e anteveem, como profecia que se cumprirá, percursos de idêntico
sucesso escolar para os filhos.
Na linha das conclusões de Van Zanten (2009), identificamos nos discursos dos
pais entrevistados orientações de pendor expressivo que coexistem com as de
pendor instrumental. Assim, os pais reconhecem aos filhos o direito a delinear
a sua trajetória de vida de acordo com a sua própria conceção de felicidade e
dizem-se prontos para acatar e respeitar as suas decisões. Desejam que os
filhos adquiram a capacidade de definir autonomamente metas (autorregulação)
e, ao mesmo tempo, querem que eles se tornem adultos implicados na vida social
(cooperação) dois traços que caracterizam, segundo Kellerhals e Montandon
(1991), o modelo educativo das famílias cultural e socialmente mais
capitalizadas, como é o caso destas. Como nos diz uma das mães de alunos do
colégio religioso,
eu queria que fossem pessoas felizes [ ] quando eu digo felizes, é se eles
forem como estão hoje, eu acho que eles se sentem capazes de que gostam de
ajudar os outros, sentem-se felizes quando o fazem, que são pessoas que se
metem numa data de atividades e que não se fecham em si próprios. [PBIC, 46
anos]
Os aspetos materiais e/ou simbólicos da futura profissão dos filhos também não
parecem integrar as preocupações parentais, a avaliar pela ausência de qualquer
referência discursiva a questões dessa natureza. Tudo o que os pais
entrevistados dizem desejar é que os filhos façam a opção vocacional que vá ao
encontro dos seus interesses e gostos pessoais e que lhes permita, portanto,
realizarem-se como indivíduos e como profissionais. O importante, nas palavras
de uma das mães, é eles escolherem uma profissão em que eles vão ser bons, de
que gostem e que a façam bem [colégio religioso, BEP, 42 anos]. A lógica
expressiva patente neste desapego discursivo pelas vantagens materiais e
simbólicas dos cursos escolhidos compreensível em famílias cuja posição
social e económica está suficientemente consolidada para que os filhos,
qualquer que seja a sua opção profissional, estejam salvaguardados dos
processos de mobilidade social descendente coexiste com a lógica instrumental
de um investimento numa educação de excelência tida como passaporte para os
mais prestigiados e bem remunerados destinos profissionais.
No que diz respeito às preferências vocacionais destes jovens, concluímos que
eles não integram no seu campo de possíveis cursos socialmente desprestigiantes
ou associados a um reduzido nível de compensação monetária, optando
maioritariamente por áreas de estudo consagradas no mercado das vocações
profissionais, onde se destacam as ciências económicas, que fazem parte dos
projetos de praticamente 30% dos inquiridos, seguidas pela engenharia (11,6%) e
pela medicina (11%). Não nos custa identificar nestas opções profissionais o
efeito da socialização familiar que diríamos funcionar por osmose, uma vez que
as profissões parentais dominantes se situam, precisamente, no mundo da
economia e dos negócios, das engenharias e da medicina, áreas profissionais
exercidas por quase metade dos pais e quase um terço das mães destes jovens.
Com altos níveis de instrução, estes pais estariam, afinal, em condições
privilegiadas para fornecer aos filhos [ ] uma melhor informação sobre os
bons negócios' em termos de orientação (Duru-Bellat e Van Zanten, 1999: 50).
As áreas de estudo de pendor mais expressivo e com menor acessibilidade direta
ao mercado de trabalho, como é o caso das artes, surgem como quarta opção na
lista das preferências discentes, atraindo 10,7% dos inquiridos. São os alunos
do colégio laico que mais optam por esta via de estudo, o que se prenderá quer
com a maior recetividade dos pais à vertente artístico-expressiva, quer com o
maior investimento deste colégio nesta dimensão formativa. Com efeito, enquanto
o colégio religioso, na perspetiva de pais e de alunos, põe a área de artes um
bocado de parte. Deixa que exista mas não investe [aluna, colégio religioso,
BEP, 17 anos], o colégio laico faz uma aposta forte na vertente cultural, numa
linha que pretende ser de continuidade com a sua matriz fundacional, como o
Projeto Educativo faz questão de mencionar e os depoimentos e as observações no
terreno documentam. Essa aposta é visível no apoio institucional aos grupos
artísticos de natureza musical, como é o caso da orquestra de câmara do colégio
presença indispensável nas cerimónias escolares, motivo de orgulho e objeto
de elogios e de estímulos reiterados em todos os discursos da diretora , na
disponibilização de aulas de música, de canto ou de dicção, ou ainda na
organização anual da Semana das Artes e da Literatura, que traz até junto dos
alunos do colégio as mais destacadas personalidades da vida cultural do país.
Os objetivos profissionais de longo alcance dos alunos destes colégios não são,
naturalmente, compagináveis com projetos outros que não os de sobre-
escolarização (Diogo, 1998), como as respostas ao inquérito confirmam. Na
verdade, os inquiridos projetam carreiras académicas longas: 34,1% gostariam de
se doutorar, 32,5% desejam pós-doutorar-se e 19,9% preveem completar o
mestrado. Tais metas que não deixarão de obedecer a uma estratégia de
distinção perante a (relativa) democratização do acesso à universidade são o
reflexo da confluência das culturas escolares e familiares em torno não apenas
das expetativas depositadas nestes jovens mas também dos valores do trabalho,
da exigência, do rigor e da permanente busca de autossuperação que lhes
permitirão concretizar as suas aspirações. Aliás, o colégio religioso tem como
lema institucional o magis, um vocábulo omnipresente nos diferentes documentos
colegiais e nos discursos quer informais quer oficiais, de que são exemplo os
proferidos nos eventos festivos e cerimónias comemorativas:
[ ] este magis quando já está bem, ou quando nós nos parece que já está bem
Não, agora mais! E agora mais! Para quê? Olha, porque só assim é que se
cresce. [Diretor do colégio religioso].
Também os pais dos alunos de ambos os colégios adotam em casa esta ética de
vida, transmitindo aos filhos os valores do mérito, do esforço e do trabalho e
sensibilizando-os para a importância de não se deixarem levar pela via do
facilitismo e do imediatismo, como dizem acontecer noutros contextos sociais
uma tentação com pesados custos em tempos de acesa competição pelas melhores
classificações escolares, garantes do acesso aos cursos de ensino superior mais
prestigiados. As notas são, efetivamente, um fator de stresse nas boas escolas,
sobretudo no ensino secundário. Stressam os alunos, na corrida por uma boa
classificação que lhes exige a colonização do presente pelo futuro do acesso à
universidade ou ao mercado do trabalho (Lopes, 2007: 57) porque, como nos
dizem pragmaticamente: São as notas que te vão dar acesso ao teu emprego, ao
teu curso. A tudo, na tua vida! [Colégio laico, PBIC, 17 anos]. Stressam
também os professores, que nas notas encontram uma fonte de mal-estar
equivalente ao da indisciplina nas más escolas (Barrère, 2002). À preocupação
com as classificações obtidas nos exames nacionais, de que depende a [ ]
imagem que é projetada sobre a sua instituição de ensino e, também, a sua
própria imagem enquanto docentes (Melo, 2007: 87), juntam-se as pressões
exercidas pelos alunos insatisfeitos com o seu rigor classificatório, como
alguns entrevistados admitiram. Mas, enquanto consumidores esclarecidos de
escola, os pais sabem que os professores modulam os seus objetivos em função
dos níveis dos alunos (Dubet e Duru-Bellat, 2000: 154) e que a sua contenção
avaliativa tende a refletir um maior grau de exigência e de expetativas. No
entanto, porque não ignoram o possível efeito de desmotivação de uma nota
considerada injusta, os pais procuram aplacar o sentimento de frustração dos
filhos face aos colegas de outras escolas com professores mais indulgentes,
fazendo-lhes compreender que mais importante do que uma alta classificação é
uma aprendizagem de alta qualidade:
Aquilo que nós, lá em casa, lhe tentamos incutir é que isso é uma grande
tentação da sociedade de hoje em dia e que a nossa sociedade também nos tenta
vender um bocadinho o facilitismo, não é?: as coisas fáceis, as coisas rápidas,
as coisas com sucesso que se alcança com um passo e que, no fundo, aquilo que
ele tem de pensar é que a vida é uma maratona e que aquilo que interessa é ele
adquirir uma série de conhecimentos embora possa ter piores notas mas que
sejam bem assimilados. [Mãe, colégio religioso, BEP, 42 anos]
Sacrificar o presente em nome do futuro
Se, nas ditas más escolas, a indisciplina é o fator principal de ruído na
relação pedagógica e humana (Barrère, 2002), nas ditas boas escolas ela não
constitui um problema digno de registo, como esta investigadora observa e o
nosso estudo permite concluir. Dando sinais de ter internalizado a importância
da obediência às regras, nomeadamente enquanto preparação para uma posterior
integração na vida social e profissional (Durkheim, 2001), os alunos destes
colégios pautam o seu comportamento pelo respeito e pela disciplina, a avaliar
pelos dados recolhidos. Mesmo quando não estão permanentemente sob o olhar
vigilante de um adulto, como acontece nos recreios, os jovens respeitam as
normas de civilidade, não tendo havido registo, durante as nossas observações
de terreno, de factos merecedores de relevo no que diz respeito a atos de
violência física ou verbal, de desrespeito a ordens de funcionários ou de
degradação do espaçoonde, aliás, nem sequer encontramos essa marca de presença
juvenil tao familiar na paisagem das escolas que é o graffiti. Uma ou outra
brincadeira menos apropriada, ocorrida no bar ou na cantina de que é exemplo
o arremesso a colegas de papéis e de embalagens de sumo vazias , mereceram
imediata chamada de atenção por parte dos funcionários ou dos docentes
presentes, tendo sido prontamente acatada.
Dentro da sala de aula, o clima será também ordeiro, como se depreende pelos
discursos de professores e alunos e pelas respostas destes últimos ao
inquérito. Com base num índice de indisciplina integrando práticas mais e menos
gravosas como responder indelicadamente aos professores ou conversar
clandestinamente nas aulas ,[2] concluímos, de facto, que nestes dois colégios
os comportamentos indisciplinados serão a exceção e não a regra. Com efeito, a
quase totalidade dos alunos (97%) diz-se nada ou pouco indisciplinado, numa
autorrepresentação que os depoimentos dos professores também confirmam. Como
nos dizem os docentes destes colégios, a indisciplina dos alunos resume-se,
grosso modo, a conversa, às vezes [professora, colégio laico, 52 anos] ou a
coisas normais [professora, colégio religioso, 40 anos], sendo consensual a
ideia de que a situação, em termos disciplinares, não é grave [professora,
colégio religioso, 65 anos].
Formas gravosas de indisciplina nomeadamente as que implicam obstrução, com
caráter reiterado, deliberado ou organizado, ao normal funcionamento da aula
(Estrela, 1986) não integrarão o quotidiano destes colégios, o que parece
consentâneo com o perfil escolar de alunos que, como estes, têm metas escolares
bem definidas e altas expetativas académicas e profissionais. Acresce que para
estes jovens herdeiros ser aluno e fazer a aprendizagem das normas escolares
não requer o difícil processo de reconfiguração de habitus exigido aos jovens
descapitalizados, o que contribuirá para atenuar a perceção de arbitrariedade
das imposições. Essa [ ] fraca necessidade de recontextualização e a quase
ausência de violência simbólica, dada a não descoincidência entre essa
aprendizagem e outros saberes do reportório individual (Macedo, 2009: 36),
confere à aquisição de hábitos de disciplina e de autocontrolo [ ] uma
legitimação naturalizadora (id., ibid.: 36) que ajudará a compreender o facto
de 97,4% dos inquiridos defenderem a ordem como um dos valores que deve ser
transmitido pela escola. Como os alunos nos dizem, a obediência e o respeito
deverão ser exercitados logo no espaço escolar, de modo a garantir a preparação
para um futuro em que, enquanto adultos, se confrontarão com situações em que
não queres estar, ou que não gostas das pessoas e tens de responder fininho [ ]
Há muita gente com quem eu falo e não eh pá, não tenho o mínimo interesse, mas
tenho que falar, porque são meus superiores. [Aluno, colégio laico, PBIC, 17
anos] Esquecendo que as escolas privadas e públicas não constituem um todo
homogéneo (Ballion, 1991; Estêvão, 1998) e reforçando o discurso alarmista
(Barroso, 2003) sobre a desordem do ensino público, os alunos dizem-nos ser no
ambiente disciplinado que reside a grande diferença entre os dois sistemas de
ensino: A disciplina, acho que é o mais importante, é a disciplina. [Aluna,
colégio religioso, BEP, 17 anos]
Um dos fatores propícios ao clima de indisciplina e de insucesso escolar é a
presença na sala de aula de alunos que, por não encontrarem sentido no trabalho
escolar e nas tarefas propostas pelo professor, constroem a sua dignidade na
oposição à normatividade (Dubet, 2005). Deste ponto de vista e a crer nas
respostas ao inquérito , estes colégios também não enfrentarão grandes
dificuldades para manter um clima disciplinado, uma vez que é residual a
percentagem dos alunos quenunca gostam das aulas e das matérias escolares
(1,7%), nunca são assíduos, pontuais e cumpridores das obrigações escolares
(2,1%), nunca dão o seu melhor na escola (3%) e nunca participam na aula
(5,3%). Mesmo que sejam poucos a retirar prazer das aulas só 8% dos alunos
gostam sempre delas e das matérias , são muitos (57,7%) os que cumprem
cabalmente o seu ofício de aluno (Perrenoud, 1995), cumprindo sempre as suas
obrigações escolares e sendo sempre assíduos e pontuais, numa lógica de
instrumentalidade que não deixará de ser expressão da forte orientação para o
futuro destes jovens. Afinal, como nos diz um deles: Nós estamos precisamente
aqui para poder investir a longo prazo. [Aluna, colégio religioso, BDP, 15
anos] Gostar ou não gostar das atividades letivas dir-se-ia de somenos
importância face ao que está em jogo, como parece dizer-nos um outro aluno:
Gostar das aulas? Eu não diria que gosto das aulas. Eu vejo as aulas pronto,
tirando, se calhar, uma aula ou outra que não estão relacionadas com a matéria
e em que os professores abrem espaço para uma atividade diferente que, se
calhar, é engraçada agora as aulas em si ou seja, é o caminho para a
faculdade, para uma profissão [ ]. [Aluno, colégio religioso, BDP, 17 anos]
Beba-se, pois, o cálice da amargura (Perrenoud, 1995: 125) na certeza de que,
no amanhã, se saboreará o doce e prometido mel
Sentidos da escola em territórios marginalizados
Escolas, famílias e jovens
Os documentos oficiais das escolas abrangidas pelo programa TEIP, bem como as
entrevistas aos diretores, coordenadores e professores, revelaram uma
representação dominante das famílias: carência de recursos básicos, quotidianos
desestruturados, fraco domínio da língua portuguesa, pouco acompanhamento dos
filhos, baixas expetativas escolares. Estes traços que poderíamos designar
fatalismo sociológico, no sentido de uma interpretação simplista de teorias
clássicas deste campo (Coleman, 1966; Bourdieu e Passeron, 1970; etc.) são
apresentados como principal justificação para os altos níveis de indisciplina e
insucesso escolar, acima das características dos próprios jovens ou das
organizações escolares.
A este propósito, o questionário às famílias revelou uma heterogeneidade de
condições sociais, bem como de estratégias parentais. Assim, a maioria dos
alunos vive com a sua família nuclear, e ambos os pais trabalham e os irmãos
também estudam. É verdade que a maioria dos agregados domésticos vive com menos
de 712 euros por mês, sendo abrangido pelo apoio social escolar, e que os seus
elementos adultos apenas frequentaram o ensino básico (até ao 9.º ano),
desempenhando funções de assalariados desqualificados. Mas a maioria afirma
preocupar-se com os desempenhos escolares dos seus filhos, conversando com eles
e/ou castigando-os quando as notícias da escola são negativas. Em geral,
demonstram uma boa opinião da direção e dos professores, procuram acompanhar
tanto quanto podem o trabalho escolar dos seus filhos e atribuem as suas
dificuldades de aprendizagem à falta de estudo (ou a não saberem estudar).
O estudo permitiu encontrar alguns segmentos da população local com os traços
descritos pelos responsáveis e docentes, mas o quadro social parece muito mais
complexo e heterogéneo, sobretudo ao nível das disposições, do que fariam
prever tais discursos.[3] Além disso, embora abrangidos pelo mesmo programa, as
diferenças entre as populações dos sete territórios em estudo são também
significativas, o que é evidente no facto de, num dos agrupamentos, 72% das
famílias terem apoio social escolar, devido aos seus baixos rendimentos,
enquanto, em outro agrupamento, esse valor é de apenas 37%.
As perceções negativas dos docentes e as dificuldades organizacionais na
relação com a comunidade local, em contextos socialmente desfavorecidos, são
fatores intimamente interligados e que dificilmente surpreendem o sociólogo da
educação, sobretudo se este trabalha em sistemas educativos altamente
centralizados (Dubet e Martuccelli, 1994; Feito Alonso, 2003; Sebastião, 2009).
O interessante é constatar, apesar de tudo, as disposições favoráveis das
famílias, que é possível interpretar a partir de uma inferioridade estrutural
face aos profissionais licenciados e ao seu saber erudito, provavelmente
acentuada nos tempos mais recentes, devido à crise das vias (operárias e
informais) de mobilidade social que prescindiam das qualificações escolares. De
notar que esta adesão discursiva das famílias aos valores da escola pode não
coincidir totalmente com as práticas quotidianas, revelando, sobretudo, a falta
de um projeto alternativo de integração social.
Quanto a expetativas de futuro, muitos dos alunos gostariam também de
prosseguir os estudos até ao ensino superior (um valor residual refere mestrado
ou doutoramento), embora este valor se torne minoritário entre os (muitos)
estudantes que já reprovaram algum ano de escolaridade. Em todo o caso, o traço
que parece generalizado é a dificuldade destes atores em compreender o próprio
sistema de ensino secundário e superior, bem como a sua relação com o mercado
de trabalho. Assim, tanto há alunos que apontam como horizonte desejado de
estudos a licenciatura para depois indicar a vontade de desempenhar funções
como cozinheiro, bombeiro, cabeleireiro, jogador de futebol, como há outros que
pretendem exercer profissões de médico, advogado ou professor, apenas com um
diploma de ensino secundário. Assim, estes desejos situam-se mais no plano
onírico, do que no plano de objetivos a longo prazo, mobilizadores da ação.
Entre os pais, é muito comum o desejo de que os filhos estudem até onde
puderem, deixando essa possibilidade nas mãos do destino (ou dos próprios
jovens, funcionando a reprovação para estes como principal dissuasor de
percursos académicos mais ambiciosos).
Uma análise das estratégias desenvolvidas pelas escolas (reforçadas com
recursos do programa TEIP) confirma que o enfoque na inclusão das crianças e
jovens operacionalizada no combate ao abandono, insucesso e indisciplina
raramente é entendido a longo prazo, ou seja, gerador de uma preparação e
orientação dos alunos para percursos académicos e/ou profissionais. Neste
sentido, os diretores de turma, os técnicos de ação social contratados e os
espaços de formação cívica são, em muitos casos, absorvidos pela gestão do
quotidiano, em particular, por um trabalho de pacificação e regulação dos
comportamentos discentes. É verdade que uma parte destes atores, ao ter uma
ação mais próxima dos alunos e das suas famílias, acaba por influenciar de
forma decisiva alguns percursos de vida, mas as urgências do quotidiano fazem
com que esta raramente seja a intervenção prioritária. Como corolário, estas
escolas exibem orgulhosamente dados sobre a diminuição do abandono escolar e da
indisciplina, mas não têm qualquer informação sobre os percursos posteriores
dos alunos que terminaram o ensino básico no agrupamento.
Uma política nacional que transformou, de forma significativa, estes contextos
socioeducativos foi a criação de ofertas curriculares alternativas, para alunos
em situação de insucesso repetido e risco de abandono, que, no 3.º ciclo de
ensino (7.º ao 9.º ano), têm um cariz vocacional, culminando geralmente com um
estágio numa empresa da zona. O estudo mostrou que, entre os alunos em situação
de insucesso, estas soluções são altamente valorizadas, não apenas por
privilegiarem métodos pedagógicos mais inovadores e práticos (projetos,
trabalho com computador, avaliação por portfólio, etc.), mas também pela
promessa de conduzirem a um oficio. Nas palavras de um aluno repetente do 7.º
ano: Gostava de ir para um curso vocacional porque eu quero ter um futuro [ ]
São cursos para aqueles alunos mais velhos que é para poderem ter trabalho. A
falta de sentido do trabalho escolar tende, pois, a ser substituída por uma
socialização antecipatória para o desempenho de uma função remunerada. Muitos
alunos e docentes documentam orgulhosos a mudança de motivações e
comportamentos quando os alunos realizam estágios.
Esta estratégia revela, contudo, várias fragilidades: (a) as áreas vocacionais
raramente são escolhidas pelos jovens ou pelas suas famílias; (b) as parcerias
com as empresas são frágeis, limitando-se a garantir os estágios; (c) não se
sabe quantos dos jovens envolvidos conseguem efetivamente integrar-se no
mercado de trabalho, numa condição digna e formal; (d) alguns dos alunos com
sucesso nestes cursos querem prosseguir os seus estudos, mas as escolas não
promovem a continuidade a nível curricular, pelo que muitos não se adaptam às
vias gerais do ensino secundário, acabando por inscrever-se em cursos
profissionais. Acresce que, situando-se as escolas em zonas de exclusão social,
o tecido empresarial local é também bastante débil, não propiciando percursos
profissionais estáveis e valorizados, e sendo a parceria com empresas
localizadas em territórios mais distantes geradora de muitas incertezas quanto
à possibilidade de os jovens participarem numa base diária.
Já entre os alunos com sucesso escolar, este tipo de opções é encarado com
algum ceticismo, como vias de segunda oportunidade que os afastam do percurso
escolar normal, notando-se da parte de alguns alunos o desenvolvimento de
estratégias locais de distinção e de estigmatização.
Um futuro engolido pelo presente
Se, nos colégios privados de elite, existe um enfoque dos diversos atores no
futuro dos jovens, a ponto de colonizar as suas experiências presentes, nas
escolas abrangidas pelo programa TEIP, o risco é o inverso: os sonhos de futuro
são engolidos pelas urgências presentes. Não é que encontremos propriamente uma
contracultura operária, de inversão simbólica das hierarquias escolares de
classe média, como sugeriam as teorias da resistência (Willis, 1977; Apple,
1989), mas uma cultura imediatista e convivial que dá sentido à vivência da
escola (Lopes, 1997; Abrantes, 2003), como espaço de diversão com amigos e fuga
a quotidianos difíceis, desprezando o seu papel na formação pessoal e
profissional.
Um aspeto marcante das representações destes jovens (e, em parte, também das
famílias) é a crítica omnipresente às infraestruturas das escolas, com
particular enfoque nas instalações, segurança, espaços de recreio e convívio,
cantinas e bares. Com pequenas variações, reclamações como a seguinte foram
comuns nos discursos dos estudantes nos sete estudos de caso: deveriam
melhorar na higiene das casas de banho, no aquecimento, na disponibilidade da
Internet, sistema de cartão entrada/saída, novas portas de entrada, janelas e
estores, uma sala com mais atividades para os tempos livres [aluna do 9.º
ano]. Não foi tão frequente, mas em alguns casos esta crítica alargou-se também
a salas de aula e bibliotecas. A observação direta permitiu identificar
problemas de instalações e falta de funcionários em algumas escolas afetando,
sobretudo, os espaços de recreio mas nem todas, existindo também escolas
modernas, seguras e bem equipadas. Além disso, as condições em que vivem estes
jovens são bastante mais duras, sendo que os colégios privados não deixam de
apresentar problemas nas instalações.
A centralidade dos espaços de sociabilidade, pensados geralmente nas escolas
como complementares (de facto, em muitas escolas, degradados, pouco apelativos
ou inadequados), reflete bem o modo específico como vivem a escola muitos
destes jovens: as aulas tornam-se secundárias e a verdadeira vida ocorre nos
intervalos e recreios.Outro aspeto sociologicamente revelador é a adesão
sistemática a uma certa cultura da vitimização que domina o contacto destes
adolescentes com os investigadores, na qual encontramos paralelismo com a
indignação dos moradores de bairros sociais ou de utentes dos serviços
públicos, visíveis amiúde em reportagens dos noticiários televisivos. Por um
lado, será consequência de uma ausência de estruturas de participação dos
alunos. Recorremos à direção, aos professores, aos auxiliares, mas mesmo
assim, por mais críticas feitas, não é nada resolvido; mais vale ficarmos
calados, desabafou um aluno do 5.º ano de um agrupamento TEIP em Lisboa. Por
outro lado, será um efeito de ressentimento sócio-histórico: na incapacidade de
deslindar os principais mecanismos estruturais (quantas vezes, simbólicos) que
ditam a sua exploração e exclusão, estas populações parecem irromper numa
reivindicação constante contra aspetos materiais das instituições públicas. É
verdade que o excesso e a materialidade são elementos reconhecidos das culturas
populares, mas a estes parecem somar-se a incorporação de um papel de
beneficiário do Estado (Paugam, 2003), enquadrada na tal cultura do presente,
que marginaliza o passado e o futuro.
Não se pode, contudo, desligar esta posição expressa pelos jovens do contexto
discursivo dos adultos que os envolvem. Embora, perante os investigadores, os
docentes atribuam maioritariamente o insucesso escolar às famílias e estas à
falta de estudo dos alunos, na presença das crianças e jovens é muito frequente
uns e outros culparem o Ministério da Educação, em particular, pelas lacuna nas
instalações e nos serviços, buscando assim um ónus externo que, de alguma
forma, introduza alguma coesão em tecidos sociais locais extremamente
fragilizados e tensos. É verdade que nem sempre as infraestruturas destas
escolas propiciam condições dignas, sendo os espaços de convívio pouco
valorizados pela tutela quando se sabe que constituem elementos fundamentais
para o bem-estar e a prevenção de conflitos. Mas é pouco frequente que os
próprios atores locais assumam a responsabilidade pela melhoria dos espaços
escolares e ainda mais raro que coloquem em causa a vertente propriamente
curricular e organizacional do sistema educativo, profundamente naturalizada
nas comunidades educativas, apesar de ser apresentada pelos investigadores como
uma causa estrutural do insucesso e da violência escolares em meios
desfavorecidos.
Um fenómeno interessante é que esta indignação dos alunos apenas se aplica a
alguns professores e funcionários, seja pela sua intolerância ou permissividade
excessiva, considerados incapazes de acompanhar e motivar os alunos. Pelo
contrário, existe um forte vínculo relacional a outros atores educativos,
destacando-se neste caso os diretores de turma e os trabalhadores sociais, que
os alunos consideram muito importantes, inclusive quando têm problemas
pessoais. Esta diversidade de laços complexifica também a divisão dos jovens de
meios populares em conformistas e resistentes, muitos deles parecendo
oscilar entre ambas as posições, consoante as relações que estabelecem com os
diferentes atores escolares e as próprias vicissitudes do quotidiano.
Esta noção é importante também para compreender a indisciplina, cujos níveis
elevados foram confirmados, quer pelos dados oficiais quer pelos questionários
e entrevistas. Os alunos tendem a explicar este fenómeno pelo caráter demasiado
conflituoso (ou passivo) de alguns colegas, professores ou diretores. Um aluno
do 7.º ano de um agrupamento dos arredores do Porto descreve assim o ambiente
na sala de aula: andam todos a falar, às vezes metem-se à porrada no meio da
aula, com a professora ali também depende da professora. Apesar do valor
retórico e legitimador dos discursos, importa notar que a violência na maioria
destas escolas diminuiu realmente nos últimos anos, o que é atribuído por
alunos e professores a uma intervenção organizacional mais estruturada e
sistemática, envolvendo sobretudo a direção da escola, os diretores de turma e
os recém-criados gabinetes de acompanhamento ao aluno e/ou de mediação de
conflitos. O desafio é que a regulação dos comportamentos seja acompanhada de
um efetivo incremento do trabalho e das aprendizagens escolares. Nas palavras
de uma aluna do 7.º ano de um TEIP, na margem Sul de Lisboa: Antigamente,
andavam mais à porrada do que hoje em dia [ ] Em termos tipo de porrada
melhorou, agressões, bullying tá melhor, agora [ ] em termos de atividades não
se faz nada aqui.
Apesar da sua relativa invisibilidade nos discursos dos atores locais, importa
lembrar que, nestes contextos, existe também um segmento de alunos aplicados e
disciplinados, geralmente formados numa ética do trabalho por famílias humildes
e trabalhadoras, e apoiados por professores dedicados e diligentes. Em alguns
casos, estes jovens desenvolvem percursos académicos longos e conseguem superar
o ciclo de privações da sua comunidade. Mas, além das faculdades cognitivas,
estas trajetórias implicam uma relação quotidiana de distinção com grupos de
pares e forte vinculação a alguns atores educativos, particularmente
problemática em momentos de mudança de escola e de ciclo de ensino.
Em suma, enquanto nos colégios privados vinga uma aceitação acrítica das regras
abstratas da instituição como preparação para uma vida futura (curiosamente,
pensada para ocupar lugares de topo nas hierarquias sociais e organizacionais),
nas escolas públicas em territórios marginalizados tende a prevalecer uma
crítica sistemática às instalações e serviços, quiçá reflexo de uma
insatisfação estrutural com a própria instituição (e condição social), mas que
coexiste com posições muito diversas face ao trabalho escolar e, em particular,
relativamente a colegas, professores e trabalhadores sociais: com alguns
estabelecem-se vínculos afetivos extremamente fortes, com outros tensões
alimentadas por uma enorme carga emocional.
Sendo a inserção laboral precoce cada vez mais reduzida (apenas adquirindo
alguma expressão em contextos locais de trabalho sazonal e informal, como a
agricultura ou o turismo) e a socialização adolescente de rua associada a
perigos e marginalidades, a escola pública constitui, para os jovens em
contextos desfavorecidos, um espaço central de socialização e de construção da
identidade, ao invés do que aconteceu com as gerações anteriores. Este aspeto
tende a ser reforçado, inclusive, pela oferta de atividades de enriquecimento
curricular que prolongam o tempo e a experiência dos jovens na instituição
escolar. No entanto, esta afirmação identitária ora resulta da identificação
com certos atores e atividades escolares, ora se desenrola através de conflitos
entre (grupos de) alunos, transgressão de regras escolares e desafio a algumas
figuras (e símbolos) de autoridade. Em qualquer dos casos, é um sentido
imediatista e relacional que é aqui privilegiado sobre qualquer outra função da
escola, o que apenas é parcialmente transformado no caso dos cursos vocacionais
(ver acima).
Considerações finais
Em ambos os contextos estudados a socialização escolar ocupa um lugar central.
Apesar da influência que exerce sobre os profissionais da educação, a ideia
pós-moderna de que a escolaridade teria perdido peso nas estratégias das
famílias ou nas experiências juvenis, seja nas classes dominantes, seja nas
classes populares, em favor de ambientes mais informais, individualizados e/ou
mediatizados, é muito questionável, à luz de uma análise sociológica dos dados
recolhidos em ambos os contextos. Esta centralidade partilhada da instituição
escolar não implica, contudo, a inscrição dos jovens em regimes de socialização
comuns, mesmo quando os estabelecimentos de ensino são regulados por pautas
uniformes, a nível nacional. Pelo contrário, a construção coletiva (e, em
parte, institucionalizada) de distintos sentidos para a escola, em contextos
socialmente contrastantes, tende a cristalizar fronteiras sociais já
existentes.
No caso dos colégios das classes dominantes, incorpora-se com alta intensidade
uma identidade decalcada da nobre missão escolar, traduzindo o ethos
organizacional em posturas individuais de sobrevalorização da instituição uma
espécie de conformismo assente numa profunda segurança quanto à sua posição
social, duplamente alicerçada: por um lado, na solidez de classe de origem, por
outro lado, na crença fortemente arreigada sobre a qualidade da escola. Esta
segurança permite o privilégio dos usos expressivos e intrínsecos da
aprendizagem, sobrevalorizados face à instrumentalidade associada à reprodução
dos destinos de classe. Multiplicam-se, pois, cerimónias e rituais que colocam
o mito em ação, para utilizarmos a velha expressão de G. Gusdorf: a
atualização do quadro normativo e valorativo submete-se sempre à verdade
original, assente no cruzamento e duplo reforço da qualidade social do
estabelecimento de ensino e dos seus frequentadores. A excelência das escolas
duplica e reflete o mérito dos alunos. Nos territórios educativos de
intervenção prioritária, por seu turno, a socialização escolar preenche uma
terra de ninguém desocupada pela compressão e desqualificação do mercado de
trabalho e pela correlata desadequação entre a oferta escolar e a inserção
profissional, a par do desinvestimento na cultura de rua e de espaço público
outrora associados a modelos de resistência das classes laboriosas. A escola
tem, por isso, de domesticar e pacificar, investindo não no cerimonial de
autoconsagração, mas antes na prevenção e na mediação, enfatizando a
profissionalidade dos trabalhadores sociais.
No entanto, por detrás deste primeiro retrato, surge agora com maior clareza a
necessidade de superarmos certas ilusões de homogeneidade. Se, nas escolas de
elite, tentarmos pensar para além da mancha de óleo, encontramos distintos
modos de relação com a escola: no colégio religioso, o mundo dos negócios e dos
saberes sérios ocupa um quase-monopólio nos projetos de futuro; no colégio
laico, a expressão artística alcança um lugar legitimado entre o mundo dos
possíveis. Abre-se, pois, uma fenda que nos permite pensar que a diversidade
interna das classes dominantes permite uma vez mais dominar ambos os universos
(o sério e o estético), numa conquista do melhor dos mundos possíveis. A
abertura disposicional das classes dominantes é uma condição sine qua non do
fechamento social destas esferas.
Nos territórios educativos de intervenção prioritária explode com nitidez a
desagregação de uma mirífica classe popular uniforme. Na verdade, os efeitos
estruturais de fragmentação dos meios sociais desfavorecidos encontram tradução
na polarização entre frações que valorizam a escola como instrumento de
mobilidade social (o que tem efeitos nos modos de estudar, na relação
pedagógica, na ausência de manifestações de indisciplina, etc.) e outras que
estacionam temporariamente na escola por ausência de alternativa, potenciando
percursos marcados pelas reprovações. No primeiro caso, ao invés do estereótipo
negativo, predomina uma boa imagem da escola e dos professores, verificando-se,
por parte das famílias, um sistemático acompanhamento do percurso escolar dos
filhos.
Não deixa de ser curioso que, no caso dos colégios de elite, os quotidianos
estudantis vejam a sua componente hedonista ser sacrificada pela interiorização
do projeto socializador total das instituições escolares, o que exige uma
performance altamente monitorizada. O futuro coloniza o presente porque o
futuro promete. Nos TEIP, predomina, pelo contrário, um projeto socializador
parcial, fruto de uma adesão distanciada aos valores escolares, assente numa
relativa descrença, alimentada pelo desconhecimento das fileiras escolares, das
opções vocacionais e dos trilhos de ingresso no mercado de trabalho. Neste
caso, as componentes conviviais e lúdicas refletem, a seu modo, um eterno
presente em que não se espera muito do futuro.
Em ambos os casos percebe-se claramente que o projeto da modernidade alicerçado
no mito da autonomia individual e da apropriação reflexiva do quotidiano não
resiste a um conhecimento propriamente sociológico dos desiguais recursos que
estão na origem do processo de construção de projetos educativos. É certo que a
educação escolar confere instrumentos de ampliação dos campos de possibilidades
dos indivíduos e que o seu alargamento às diferentes classes sociais tem
aproximado os seus regimes de socialização e de interação. Mas,
simultaneamente, o que mostram estudos como o presente é que os conceitos de
educação e de escolaridade no singular escondem grandes diferenças e
desigualdades socioinstitucionais. E se o caminho que se tem seguido na
escolarização das elites e das populações marginalizadas parece ser o do
ajustamento, pensando em cada um dos grupos isoladamente, um olhar
comparativo não pode deixar de recear a preservação (e institucionalização) de
velhas fronteiras sociais.