Regulação de procedimentos na escola pública: entre o centralismo formal e a
apropriação informal
Introdução
A escola constitui uma organização complexa e dotada de especificidades, com
destaque para a autonomia dos docentes face aos mecanismos reguladores e
normativos formalmente estabelecidos e para a importância do enquadramento de
cada escola no contexto social mais amplo.
O presente artigo consolida uma reflexão sobre os mecanismos de coordenação do
trabalho nas organizações escolares, centrada na conceção e planeamento da ação
educativa, tal como são enunciados nos relatórios de avaliação externa e nos
discursos dos dirigentes das escolas.
A análise prossegue com a apresentação da questão central proposta para debate
e da metodologia aplicada. Segue-se o enquadramento teórico, em que se reflete
sobre os processos de regulação da vida escolar. A análise empírica é
apresentada na secção subsequente, focalizando-se nos resultados da pesquisa
realizada ao nível da conceção e planeamento da ação educativa. Na discussão
debate-se a importância da apropriação informal, dos processos de regulação
formais na gestão das escolas portuguesas, tanto ao nível da construção dos
instrumentos como da sua operacionalização. O artigo termina com uma secção
conclusiva que sistematiza os principais resultados da abordagem proposta.
A problemática em análise
Neste artigo a questão central é compreender de que forma os processos de
construção e operacionalização dos documentos que estruturam a vida escolar
refletem as orientações provenientes da administração central do ensino e,
simultaneamente, descrevem formas de coordenação e divisão de trabalho,
enquanto consolidam processos de automonitorização que assumem um teor
informal.
O debate integra-se numa reflexão em que se cruzam, de forma profícua,
abordagens oriundas da sociologia da educação e da sociologia das organizações,
contribuindo para a análise da escola como uma organização com as suas
especificidades associadas ao seu papel como instituição de aprendizagem por
excelência.
A relevância sociológica da problemática proposta prende-se com a sua
centralidade na compreensão das escolas como organizações, com pertinência
acrescida pela introdução no sistema de ensino português de todo um conjunto de
mudanças, entre 2005 e 2009, ao nível dos seus modelos de gestão. Não sendo
aqui o lugar para uma apresentação destas transformações de forma detalhada,
refira-se, em particular, a tendência para aumentar os mecanismos de controlo e
de regulação (formalizados) centrados no gestor de topo (diretor), associados
às modalidades de gestão estandardizadas ao todo nacional, pelo recurso aos
instrumentos estruturantes a que se associa a possibilidade de autonomia das
escolas (ao consubstanciar no cumprimento dos normativos legais o envolvimento
de todos os agentes educativos de base local-regional).
A análise integra-se numa investigação mais ampla, que reflete sobre a dimensão
organizacional da escola pública e a sua relação com o sucesso escolar. Incide
sobre a informação contemplada na totalidade dos relatórios da avaliação
externa das escolas/agrupamentos de escolas realizada pela Inspeção-Geral da
Educação (IGE) nos anos letivos de 2006/2007, 2007/2008 e 2008/2009, nas
regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.[1]
O atual modelo de avaliação externa existente em Portugal resultou de um
percurso prévio de experiências e de projetos, nacionais e internacionais, que
conduziram ao Programa de Avaliação Externa das Escolas, da responsabilidade da
Inspeção-Geral da Educação (IGE). Trata-se de uma iniciativa promovida pela
administração central, iniciada pela proposta do Grupo de Trabalho para a
Avaliação das Escolas (2006), de onde surgiu um quadro de referência, dirigido
a escolas públicas que oferecem a educação pré-escolar e os níveis de ensino
básico e secundário.O Programa de Avaliação Externa das Escolas foi
desenvolvido para contribuir para a melhoria das escolas através da promoção de
processos de autoavaliação e do reforço das suas capacidades para a autonomia,
ao mesmo tempo que procura contribuir para a regulação do sistema de ensino e
para o conhecimento das escolas por parte da comunidade (IGE, 2009).
Metodologia
A estratégia metodológica adotada na investigação foi constituída por um
conjunto diversificado de técnicas de análise e recolha de informação. Para a
análise apresentada neste texto, foram acionados, em particular, três
procedimentos técnico-metodológicos.
Em primeiro lugar, foi efetuada uma análise de conteúdo de cariz categorial da
informação identificada nos relatórios de avaliação externa relativa à
organização escolar. A abordagem permitiu um trabalho sobre os relatórios numa
lógica das categorias mais incidentes e respetivo modelo discursivo adotado,
procurando ultrapassar a categorização prévia que os relatórios contemplam. A
análise realizada subdividiu-se numa abordagem de cariz quantitativo, em que se
atendeu aos valores absolutos (N) e relativos (%) de relatórios que referem a
categoria, e numa análise categorial com uma ênfase qualitativa, em que são
apresentados excertos da informação contemplada nos relatórios de avaliação
externa (Neuendorf, 2002; Krippendorff, 2004; Shapiro e Markoff, 1997).
Em segundo lugar, realizou-se uma análise multivariada com base na informação
objectivável (quantificável) identificada nos relatórios, com o objetivo de
alcançar uma compreensão das categorias (convertidas em variáveis) que, ao
estruturarem a informação, diferenciam as organizações escolares em função da
análise de conteúdo.[2]
Em terceiro e último lugar, foi efetuada uma análise de conteúdo das
entrevistas semidiretivas, realizadas num conjunto de 20 escolas aos dois
principais dirigentes, isto é, o diretor da escola (ou do agrupamento de
escolas) e o presidente do Conselho Geral, como uma forma de alcançar um
conhecimento mais próximo da realidade das escolas.[3] Esta abordagem centrou-
se, não tanto numa identificação e construção de categorias, mas antes na
análise de enunciados dos entrevistados como manifestações que encerram juízos
de valor sobre a realidade em estudo.
Os três procedimentos referidos concretizam-se numa pesquisa que enfatiza os
enunciados presentes nos relatórios e nas entrevistas aos diretores das escolas
e potenciam uma abordagem quantitativa e qualitativa dos primeiros.
A organização escola
O trabalho realizado exige uma reflexão sobre as especificidades da organização
escolar e as relações entre os modelos organizacionais escolares e os processos
de regulação no espaço da escola.
Scott (2004), no âmbito da sua reflexão sobre meio século de sociologia
organizacional (organisationalsociology), apresenta as organizações como um dos
agentes sociais mais influentes do nosso tempo, estando presentes nos mais
variados aspetos da nossa vida. Se a abordagem das organizações se centra, na
sua génese, nas organizações industriais e nos organismos estatais, vai,
posteriormente, alargar-se a diferentes organizações, de entre as quais as
escolas.
A escola, analisada como uma organização, constitui uma entidade complexa,
moldada simultaneamente pelas forças materiais ou recursos que detém e pelos
sistemas sociais e culturais que produz e/ou em que se insere. Importa,
portanto, considerar, à semelhança de todas as organizações, as suas
especificidades.
A conceção dominante na bibliografia sobre gestão e administração escolar
assenta no argumento da particularidade da escola relativamente às demais
organizações. Esta radica no objeto de trabalho centrado em pessoas e não em
bens transacionáveis (ver, por exemplo, Lacerda, 1977; Nóvoa, 2002). Todavia, é
recorrente, entre muitos destes autores, o recurso às teorias da administração
científica do trabalho (pela referência à necessidade de planeamento), desde
Taylor (1911), com os princípios da divisão do trabalho, e Fayol (1918) e os
seus seguidores, aos teóricos das relações humanas (como Mayo ou McGregor), e à
abordagem sistémica com a noção de sistema e de contingência. É nesse
sentido que Sedano e Perez (1989) consideram a organização escolar como uma
problemática emergente, numa caminhada em aberto, que muito pode receber das
demais teorias da organização e da gestão. De facto, são inúmeras as
referências à organização/administração científica do trabalho que se encontram
nos teóricos da educação com vista à sua a aplicação às escolas (Dacal, 1985;
Benítez, 1986; Sedano e Perez, 1989; Hutmacher, 1992, entre outros). A análise
da escola com base na teoria das organizações é proposta, nomeadamente por
Hutmacher (1992), para quem as escolas possuem poucas estruturas de trabalho
que possibilitem a observação das atividades que desenvolvem, atribuindo este
défice ao facto de a organização propriamente dita se situar a um nível
institucional superior: o sistema de ensino.
No âmbito da sociologia das organizações, é incontornável a referência a
Mintzberg (1979), que problematiza o funcionamento da organização em termos da
composição complexa do sistema de fluxos de comunicação, de tomadas de decisão
e de trabalho operacional. No mesmo sentido vai o trabalho de Hutmacher (1992),
ainda que este autor se centre na noção de cultura organizacional,
tradicionalmente concebida pelas ligações hierárquicas de controlo e de
supervisão e que, no seu entender, permite compreender a escola como uma
unidade diferenciada e diferenciadora, nomeadamente ao nível dos recursos, do
clima social, da eficiência pedagógica e dos públicos. Proporcionando um
enfoque específico sobre as organizações escolares, este autor propõe um
enquadramento conceptual que atenta nos aspetos organizacionais do espaço
social da escola, aos seus papéis, à divisão do trabalho, às relações de
dependência e à gestão do tempo e do espaço.
O entendimento da escola como organização é crucial, pelo facto de, no seu
interior, haver um trabalho contínuo de gestão e de controlo de recursos
humanos e materiais orientados para finalidades concretas. Enquanto organização
especializada, a escola constitui uma construção humana histórica, política e
culturalmente marcada pelo predomínio temporal de um determinado modelo
escolar, que, no seu sistema de socialização, tende a esbater os traços de
construção organizacional e a destacar os contornos institucionais normativos
(Lima, 1998). Atendendo aos elementos característicos da escola por oposição a
outras organizações, Lima refere: a importância dos objetivos, quase sempre
considerados mais difíceis de definir, e em todo o caso menos consensuais, do
que os objetivos das organizações industriais; a existência de uma matéria-
prima humana que conferirá à escola um caráter especial; o facto de os gestores
escolares terem, em geral, a mesma bagagemprofissional e partilharem os mesmos
valores que os professores; a impossibilidade de avaliar e de medir os
resultados obtidos da mesma forma que se avaliam as organizações industriais e,
por isso também, a impossibilidade de submeter a escola a critérios de tipo
económico; o caráter compulsivo da escola para os alunos de certas idades e a
ambiguidade do seu estatuto (id., ibid.: 54). Num momento em que o debate das
políticas se centra em questões como a qualidade e a eficiência, equacionar a
escola como uma organização merece uma reflexão apurada, a ser introduzida de
forma sistemática nos estudos sobre as escolas. Tal organização, ainda que indo
ao encontro das diretrizes emanadas de um organismo centralizado (o Ministério
da Educação), não deixa, todavia, de se traduzir, empiricamente, em diferentes
configurações com intensidades distintas dos usos dos termos educação, formação
e instrução. Estes e as respetivas práticas encontram-se manifestamente
vinculados aos projetos educativos das escolas, nas suas variações espaciais e
temporais e, logo, espelham-se nos respetivos documentos estruturantes, objeto
de análise neste artigo.
A forma como o trabalho é coordenado na organização escola constitui uma das
suas especificidades. A esse nível destacam-se os contributos de Weick que, em
1976, introduz a noção de loosely coupled organizations para descrever as
organizações escolares. Seguindo uma perspetiva construtivista, Weick descreve
as organizações escolares como organizações pouco congregadas (loosely coupled
organizations). Por força da grande autonomia dos seus agentes, uma decisão
tomada numa instância não se repercute, necessariamente, nas instâncias
hierarquicamente abaixo neste tipo de organizações (Orson e Weick, 1990; Weick,
1976; Czarniawska, 2005). Assim, coexiste uma coordenação formal e informal,
como se verá mais adiante neste artigo. Considerando a elevada complexidade do
trabalho dos professores e a dificuldade em definir critérios de eficiência, de
eficácia e de sucesso, a consequente autonomia destes profissionais e a
ausência de controlo autoritário na sala de aula tornam a organização escola
pouco agregadora.
A especificidade da organização escola tal como foi apresentada aproxima-se
particularmente de uma das cinco configurações organizacionais de Mintzberg
(1979). A escola, pela elevada complexidade dos serviços que presta,
caracteriza-se pelo nível considerável de autonomia dos docentes, sendo o
principal meio de coordenação a estandardização das qualificações, uma vez que
a estandardização dos processos e dos produtos é dificilmente
operacionalizável. É estruturada em torno do corpo docente (centro
operacional), tendo os dirigentes escolares mais uma função de coordenação do
pessoal de apoio e de gestão dos recursos financeiros e materiais do que de
coordenação do pessoal docente. Estas características definem uma burocracia
profissional (Mintzberg, 1979; 1983).
Gamoran, Secada e Marrett (2000) defendem uma perspetiva mais ampla para a
compreensão do contexto organizacional escolar, sublinhando a importância de
outros aspetos agregadores para além da socialização dos profissionais. Gamoran
e Dreebe (1986), por exemplo, demonstraram que o ensino da leitura é fortemente
influenciado pela alocação de recursos a cargo da administração escolar.
Fatores como a composição das turmas, a provisão de materiais curriculares e a
gestão do tempo escolar moldam e determinam a forma como os docentes ensinam a
leitura. Assumindo as evidências de que alguns elementos chave da autoridade
formal (como são o cumprimento de regras, obediência ou supervisão) são
altamente atenuados nas organizações escolares, os autores defendem que,
considerando o currículo e o ensino como componentes da tecnologia, esta pode
ser constrangida pela alocação de recursos. Assim, a coordenação do trabalho
nas organizações escolares pode também ser explicada, em parte, pela
tecnoestrutura, na medida em que a principal atividade de conceção das escolas
é precisamente o uso e adaptação dos materiais curriculares (Gamoran e Dreebe,
1986; Gamoran, Secada e Marreth, 2000).
A escola como organização deve, assim, ser analisada na sua complexidade,
atendendo a algumas das suas especificidades, com destaque para a autonomia dos
docentes, o papel de outros mecanismos reguladores e normativos, alguns dos
quais de cariz mais simbólico do que formal, e a importância do enquadramento
de cada escola no contexto social mais amplo. De entre estes selecionou-se,
para a análise, a dimensão relativa à conceção e planeamento da ação educativa.
Os processos de coordenação e controlo dos sistemas educativos por parte das
autoridades públicas que descrevem a regulação em Portugal são igualmente
fundamentais para a compreensão desta realidade (Barroso, 2005). A este nível,
destaca-se a existência de claros mecanismos de controlo inerentes a uma
regulação mais burocrática e centralizadora, ao mesmo tempo que se promove a
descentralização e a autonomia das unidades escolares, numa lógica mais próxima
da autorregulação pelo mercado. Tal lógica coexiste com as interações entre os
diferentes atores ao nível das unidades escolares (microrregulação), que se
fragmentam na pluralidade de perspetivas e interesses em jogo na gestão local
(Barroso, 2005).
A gestão centralizada nas escolas, reafirmada nas recentes inovações legais no
sistema de ensino português (Decreto-Lei n.º 75/2008), enquadra-se num processo
de modernização da administração pública. Tem como pressupostos a livre escolha
das escolas pelos pais, com a consequentemente criação de mercados educativos e
a criação de mecanismos de concorrência para a captação de alunos e recursos, e
exige uma análise mais centrada nas forças de regulação que agem ao nível da
escola enquanto unidade organizacional (Barroso, 2005), tal como a que se
propõe neste artigo.
Os modos de regulação local das unidades escolares portuguesas são definidos
por Barroso (2003; 2005) em função do tipo de relação estabelecida entre o
Estado, os professores e os alunos e as suas famílias. Estes três grupos
polarizam forças com tendências distintas, nomeadamente a estatização, a
profissionalização e a privatização (Barroso, 2005: 73). Segundo este
autor, em grande parte do século XX nas escolas operava principalmente uma
regulação burocrática-profissional, resultante da aliança entre o Estado e os
professores, sendo diminutos os poderes dos alunos e das suas famílias. Na
última década, a participação dos alunos e das suas famílias tem vindo a ser
crescente, acompanhando as transformações na educação que temos vindo a
referir. Por fim, o autor ainda identifica de forma menos abrangente a atuação
de uma regulação comunitária que parece orientar as políticas educativas de
abertura à comunidade. A este nível, professores e alunos e suas famílias são
os agentes privilegiados que, segundo uma lógica mais comunitária, cooperam no
sentido de adaptar e contextualizar a escola e os seus programas educativos
(Barroso, 2005; 2003). De notar, ainda, que o aumento de poder de decisão dos
agentes locais das escolas é acompanhado pelo aumento de mecanismos de controlo
e de regulação do Estado, de entre os quais figuram os documentos estruturantes
aqui analisados. O enfoque colocado na participação é igualmente visível na
análise realizada. Os documentos estruturantes dão sentido e orientam as opções
na tomada de decisão, determinam as obrigações dos membros da escola atendendo
à definição de funções e funcionam como guia de procedimentos. Na sua maior ou
menor definição, orientam e imputam tarefas, especificam dependências e
estabelecem mecanismos formais de coordenação e controlo. Os objetivos,
diferentemente formalizados e variáveis nas suas apropriações, estabelecem
relações de cooperação dos elementos da organização, exigem a coordenação
formal de ações pela prossecução de metas e diferenciam funções numa estrutura
hierárquica, onde pesa a sociocultura da organização.
A análise empírica realizada perspetiva, precisamente, atender a esta
dualidade: tem como base os discursos sobre a ação educativa patentes nos
relatórios de avaliação externa face às orientações da administração central do
sistema de ensino e os enunciados dos dirigentes das escolas entrevistados.
O contributo desta análise para uma compreensão da escola como organização
centra-se na construção e operacionalização dos documentos que estruturam e
formalizam as atividades nas escolas, funcionando como mecanismos de
coordenação traduzidos em procedimentos de estandardização.
Análise empírica
Entre o centralismo formal e a apropriação informal: a coordenação do trabalho
nas organizações escolares portuguesas
A análise realizada perspetiva refletir sobre a regulação da organização
escolar, ao nível da conceção e planeamento da ação educativa, o que nos
permite analisar alguns dos mecanismos de funcionamento e de regulação da
organização.
Os tipos de organização escolar: o destaque da participação
A análise multivariada realizada permitiu concluir sobre a centralidade das
modalidades de participação dos atores na distinção das organizações escolares.
A partir da sistematização da informação objectivável presente nos relatórios
de avaliação externa reuniu-se um conjunto inicial de 74 variáveis. Desta
informação selecionou-se a pertinente para chegar a perfis organizacionais,
considerando 27 variáveis, indicadores de quatro dimensões de análise das
organizações escolares: a oferta escolar, a participação na gestão escolar, a
divisão e coordenação do trabalho e a qualidade das condições materiais e
humanas de suporte à atividade escolar. Estas variáveis foram objeto de uma
análise de correspondências múltiplas (ACM). Variáveis com elevadas taxas de
não resposta e com menor poder discriminante foram eliminadas. Assim, a solução
final da ACM contou com 19 variáveis ativas (quadro 1), através das quais foi
possível identificar três tipos de organização escolar.
Quadro 1 Variáveis ativas introduzidas na solução final da análise de
correspondências múltiplas
A análise prosseguiu com o estudo da relação entre os tipos identificados e um
conjunto de variáveis suplementares, que caracterizam as escolas ao nível do
tipo de escola, do seu contexto, do nível de instrução que oferecem, da sua
dimensão e antiguidade e da diversidade da população escolar.[4]
A descrição dos três tipos de organização escolar, apresentada de seguida, tem
como base todos os procedimentos descritos. Por motivos de síntese, serão
apenas referidos os aspetos que mais se destacaram na análise.[5] Os três tipos
de organização escolar são: (1) as organizações escolares inovadoras,
caracterizadas por uma oferta educativa ampla e uma maior articulação entre
professores (articulação curricular), a existência de práticas consolidadas de
reconhecimento do desempenho académico e cívico dos alunos (por exemplo: quadro
de honra), a promoção da dinamização e planeamento de atividades por parte dos
alunos, o envolvimento dos encarregados de educação e alunos na construção dos
documentos estruturantes e a intervenção da Assembleia de Escola na vida
escolar; (2) as organizações escolares tradicionais, em que a articulação
curricular tende a ser ausente ou pontual e que tendem a não desenvolver
atividades para o reconhecimento do mérito escolar e cívico dos alunos na
comunidade educativa, a não implicar os alunos no planeamento e dinamização de
atividades, a não promover a participação dos alunos e encarregados de educação
ao nível dos documentos estruturantes e a atribuir à Assembleia de Escola um
papel tendencialmente ausente ou formal; e (3) as organizações escolares
difusas, com múltiplas unidades escolares (são agrupamentos de escolas e não
maioritariamente escolas, como as organizações escolares inovadoras) com
práticas de reconhecimento do mérito na comunidade educativa, participação de
alunos e encarregados de educação na gestão escolar e de trabalho colaborativo
entre docentes. Estas organizações escolares detêm tendencialmente um corpo
docente mais instável e uma população discente com maiores carências
económicas.
A estruturação das escolas nestes três tipos de organização constituiu o ponto
de partida para a estruturação da análise de conteúdo dos relatórios de
avaliação externa e das entrevistas, seguidamente explicitada.
Da construção ao uso: diferentes apropriações dos documentos estruturantes
As organizações escolares desenvolvem um conjunto de processos de conceção e
planeamento da ação educativa. No âmbito dos relatórios de avaliação externa
destacam-se as referências aos documentos estruturantes, a saber: Projeto
Educativo,[6] Projeto Curricular de Escola ou Agrupamento de escolas[7] e
Projeto Curricular de Turma.[8] Esta dimensão é considerada na avaliação
externa, no sentido de perceber se o planeamento das atividades se articula com
os objetivos dos projetos educativos e curriculares das escolas, se são
identificados os critérios e formas de planeamento do ano escolar e se são
qualificados os contributos de estruturas internas e externas na construção
desses documentos (IGE, 2009).
Para a presente análise destaca-se a informação relativa aos processos de
construção dos documentos estruturantes e aos diferentes mecanismos da sua
apropriação.
No que diz respeito à participação da comunidade educativa na construção dos
documentos estruturantes, há um ligeiro predomínio de escolas com mecanismos de
escuta da comunidade educativa mais alargada (Escuta da comunidade
educativa), isto é, junto de alunos, professores, funcionários, encarregados
de educação ou representantes da comunidade envolvente, quando comparado com a
centralização dessa tarefa nos professores ou em estruturas escolares diversas
(Exclusividade de agentes e estruturas escolares). Atendendo às diferentes
tipologias de organização escolar, os dados indicam que as organizações
escolares tradicionais são as mais expressivas em ambas as categorias em
estudo, destacando-se assim por revelarem predominância de escolas em que a
construção dos documentos estruturantes passa pela exclusividade de agentes e
estruturas escolares (quadro 2).
Quadro 2 Processos de participação da comunidade educativa na construção dos
documentos estruturantes, por tipo de organização escolar (N e %)
Considerando o conteúdo das categorias em análise, destaca-se a diversidade das
modalidades desses processos de participação, que vão desde a escuta
generalizada a todos os agentes diretos e indiretos da organização escola, à
escuta restrita aos representantes formais, como se pode ler no quadro 3.
Quadro 3 Processos de participação da comunidade educativa na construção dos
documentos estruturantes, por tipo de organização escolar (excertos)
Esta variedade entre as organizações escolares foi identificada igualmente na
análise das entrevistas realizadas. A forma como os responsáveis afirmam que
reúnem e organizam a informação para a construção dos documentos estruturantes
distingue as escolas analisadas. Alguns referem constituir um processo
participado por toda a comunidade educativa, em particular as organizações
escolares inovadoras, como no exemplo seguinte.
E a Direção levou a cabo inquéritos, questionários, perguntas mais ou menos
informais. Portanto, foi um trabalho de dois anos e meio, quase três anos em
que estava o outro em vigor, não é? Portanto, não tivemos um vazio, chamemos-
lhe assim. E depois foi a Direção que elaborou. Elaborou, sujeitou à Assembleia
de Escola, ao Conselho Pedagógico, aos professores, aos funcionários, reuniões
para aqui, para ali e para acolá. Pais, alunos. Quer dizer: fez-se toda essa
coisa que é obrigatória, ou melhor, que é desejável fazer. Daí obtiveram-se
contribuições. O nível da participação foi muito elevado, muito elevado. Mas
obtiveram-se contribuições e contribuições importantes. Portanto, melhorou-se o
documento. Chegou-se a uma versão final e foi aprovada. [Diretor da escola D,
organização escolar inovadora, região do Alentejo freguesia semiurbana]
Enquanto outros diretores referem a opção em manter esta tarefa restrita a
docentes e a estruturas internas da própria organização escolar, centralização
que caracteriza as organizações escolares inovadoras:
Uma comissão do Conselho Pedagógico e elementos da Direção que integraram esse
grupo de trabalho. Esse grupo de trabalho foi apresentando algumas propostas
que foram sendo aferidas por mim e pela subdiretora também que deu realmente um
grande contributo, e depois indo aperfeiçoando, interpondo o documento, o mais
de acordo com o projeto de intervenção, portanto e foi assim que se chegou à
proposta para depois ser aprovada no Conselho Geral. [Diretor da escola S,
organização escolar tradicional, região de Lisboa e Vale do Tejo freguesia
urbana]
As entrevistas permitem identificar ainda outras diferenças entre as
organizações escolares no que diz respeito à construção dos documentos
estruturantes. Uma questão que se destaca neste contexto diz respeito à
pluralidade de enunciados onde se encontram referências sobre os responsáveis
pela realização do Projeto Educativo e do Projeto Curricular de Escola/
Agrupamento de escolas. A este nível, identificam-se como denominadores comuns
a referência à responsabilidade da Direção da escola e do Conselho Pedagógico,
sendo que alguns entrevistados referem o papel de ambas as estruturas, e outros
referem a existência de grupos de trabalho de apenas uma. A par da Direção e do
Conselho Pedagógico os entrevistados referem, residualmente, o papel de outras
estruturas como os coordenadores de departamentos, os coordenadores de ciclo,
os coordenadores de ano e o Conselho Geral. A estrutura responsabilizada
mobiliza, então, os recursos necessários para a realização dos documentos. Para
este fim, refere-se que são nomeadas equipas de trabalho que reúnem a
informação, sendo esta nomeação mais um aspeto distintivo entre escolas.
Tomando como exemplo a construção do Projeto Educativo, é possível observar que
as equipas de trabalho são reunidas quer por autonomeação, quer pela nomeação
de profissionais por parte da Direção, com base em critérios tão diversos como
a disponibilidade temporal, a formação adequada, o perfil ou a experiência
anterior.
Importa sublinhar que, tal como na análise multivariada realizada para a
tipificação de escolas, também a análise de conteúdo realizada permitiu
observar que as escolas mostram alguma variedade na forma como integram a
comunidade educativa nos seus processos de tomada de decisão e nas suas
atividades.
O novo enquadramento legal que introduz alterações ao regime jurídico de
autonomia, administração e gestão escolar vem reafirmar os documentos
estruturantes como instrumentos de promoção da autonomia das escolas,
equacionando novas formas de participação da comunidade escolar (Decreto-Lei
n.º 75/2008). Todas as regras de funcionamento da escola, descritas nos
documentos estruturantes, são sujeitas à aprovação de um órgão colegial, o
Conselho Geral, onde estão representados pessoal docente e não docente, alunos,
encarregados de educação e representantes da comunidade. A participação dos
atores (individuais e coletivos, internos e externos à escola) consolida uma
proposta de mudança na organização escolar, na qual a construção do exercício
de autonomia da escola assenta no seu Projeto Educativo e nas práticas de novas
formas de gestão associadas à visão da organização em rede (em rutura com a
visão estruturalista e burocrática das organizações), conforme Barroso (2000:
173-175), que advoga a legitimação da ação coletiva. As redes em autonomia, com
interferência na forma de regulação das relações internas às escolas, carecem
de liderança, com a organização a assentar em redes colaborativas (lideranças
coletivas), deixando estas de estar afetas a cargos e passando a estar ligadas
a funções, segundo os diferentes intervenientes. A participação e a
liderança dos atores internos e externos (individuais e coletivos)
apresentam-se para este autor como elementos de expressão e regulação
necessários, porque envolvem na gestão todos os que aí trabalham, promovendo a
gestão participativa e formas de gestão representativa (id., ibid.).
A análise permite evidenciar que os processos de apropriação destes
instrumentos estão ainda em curso e a sua valorização varia de escola para
escola, tal como diferem as modalidades (dimensão e intensidade) de integração
da comunidade educativa nos processos de decisão.
Funções e fragilidades dos documentos estruturantes
A análise dos relatórios de avaliação permitiu a identificação das principais
funções e fragilidades dos documentos estruturantes. Em termos quantitativos
não se identificaram diferenças significativas entre regiões e tipos de escola.
Já ao nível dos documentos, é claro o destaque para as referências sobre o
Projeto Educativo relativamente aos restantes, ao longo dos relatórios das
diferentes regiões e organizações escolares. Contam-se 180 (61,4%) relatórios
de avaliação em que o Projeto Educativo é apresentado como o documento onde se
define a missão da escola consolidada nas áreas de intervenção prioritárias.
É descrito como um documento que explicita as linhas orientadoras das ações
educativas das unidades escolares, seguindo maior ou menor nível de clareza na
definição dos objetivos das escola, sendo esta indefinição uma das principais
fraquezas identificadas.
O Projeto Curricular, inexistente em algumas escolas, tem um conteúdo mais
variável interescolas. Tanto apresenta as orientações e objetivos para a ação
educativa, como os aspetos relativos à gestão curricular ou definições de
procedimentos organizacionais.
O Projeto Curricular de Turma é apresentado como um documento que formaliza a
adequação do Projeto Curricular ao nível das especificidades de cada turma.
Entre as fraquezas associadas a este documento sublinha-se a sua não utilização
efetiva e a ausência de um modelo comum para a sua conceção.
Veja-se, no quadro 4, uma síntese que resulta da análise de conteúdo realizada.
Quadro 4Síntese das principais características dos documentos estruturantes em
destaque: Projeto Educativo (PE); Projeto Curricular de Escola/Agrupamento de
escolas (PCA/PCE); Projeto Curricular de Turma (PCT)
Está-se perante um leque amplo de documentos que poderão, potencialmente,
assumir uma importante função reguladora. Contudo, é de ter em linha de conta
que os relatórios de avaliação externa espelham a diversidade das
interpretações e incorporações destas diretrizes legais no âmbito da gestão
escolar. A título de exemplo, é possível corroborar essa pluralidade atendendo
também aos depoimentos recolhidos de diretores de escolas e de presidentes de
Conselho Geral. Persistem diferentes posturas face à valorização do Projeto
Curricular de Turma das escolas, tal como podemos concluir pela análise dos
seguintes excertos, que expressam pontos de vista opostos a este nível, em
organizações escolares difusas.
O Projeto Curricular de Turma é uma chachada [risos]. Aquilo não serve para
nada. Aquilo foi uma coisa que alguém inventou, deve ter saído de uma destas
correntes da pedagogia que nós não sabemos muito bem de onde é que vêm mas que
nascem no nosso país como cogumelos [ ]. O Projeto Curricular de Turma, no
fundo, o que é? É pôr no papel aquilo que o diretor de turma e os professores
quando chegam à turma veem que têm ali. No fundo, é uma descrição de que temos
estes alunos que têm estes problemas, mas estamos a detetar que eles têm estas
dificuldades e estas e estas na matéria. Ou seja: isto fazia-se tudo de uma
forma informal, num conselho de turma, sem que as pessoas estivessem a escrever
papéis. Mas como é importante fazer-se um papel, põe-se aquilo tudo no papel.
Utilidade prática, se quer que eu lhe diga, não tem nenhuma. Mas eu sou
obrigada a pedi-los e peço-os. [Diretor do agrupamento de escolas A,
organização escolar difusa, região de Lisboa e Vale do Tejo freguesia urbana]
E esse [Projeto Curricular de Turma] é o documento mais sentido, e que é mais
trabalhado por cada docente e que depende da sua realidade, da sua turma.
Portanto, é o documento que também pode ser mudado e reconstruído a qualquer
altura mediante o desenvolvimento do grupo e de cada um dos alunos.
É o documento para onde neste momento nós estamos mais a olhar. E que temos,
fazemos avaliações periódicas dele. Amanhã, por exemplo, amanhã dia 16 de
abril, último dia para entrega dos relatórios sobre avaliação de diversos
documentos relativos ao segundo período. Portanto, é a avaliação constante
daquilo que estamos a fazer para a sua monitorização e ajustamento. [Diretor do
agrupamento de escolas E, organização escolar difusa, região de Lisboa e Vale
do Tejo freguesia semiurbana]
Os excertos apresentados da entrevista realizada ao diretor da escola A
permitem evidenciar enunciados de desvalorização da utilidade desse documento
(O Projeto Curricular e Turma é uma chachada!). Já a diretora do agrupamento
de escolas E assume-o como o mais sentido e trabalhado por cada docente. Em
ambos os casos, na opção está o necessário ajustamento mútuo a particularismos
da situação específica de cada escola, onde pesa o modelo de liderança de maior
ou menor partilha do trabalho numa lógica de rede, características que pautam
as organizações escolares difusas.
Detetam-se igualmente diferentes formas de apropriação dos documentos na mesma
escola, como no agrupamento de escolas E, em que a diretora descreve uma
evolução diacrónica face a esses instrumentos, na medida em que a maior parte
dos documentos [ ] não eram sentidos como necessários. Os documentos eram
elaborados para aquilo que nós chamamos para inglês ver'.
Discussão dos resultados
No campo da coordenação do trabalho docente, o fluxo de trabalho operacional e
a organização do mesmo centram-se, nas organizações escolares, no corpo
docente, o qual assegura a formalização dos planos estratégicos formalizados
nos documentos estruturantes. Ao conselho executivo (atual diretoria Decreto-
Lei n.º 75/2008), também ele formado por docentes (mediante processo de
eleição), cabe ao presidente (diretor) diligenciar para a efetivação dos
respetivos instrumentos. As diferentes apropriações e valorizações dos
documentos, visíveis nos excertos das entrevistas, indiciam a existência de um
sistema de comunicação informal, que complementa ou contorna os canais
estabelecidos e possibilita que os processos de decisão ad hoc funcionem a par
do sistema regulado, com particular peso atribuído ao ajustamento mútuo como
mecanismo de coordenação (Mintsberg, 1979). O docente é também o gestor (na
turma com os alunos, por exemplo) e tem um papel de programador que pode
conduzir a que se contorne o sistema formal de informação para recolher
informações necessárias à execução do seu trabalho.
De acordo com Minztberg (ibid.), o favorecimento de determinados mecanismos de
coordenação (ajustamento mútuo, supervisão direta ou estandardização de
processos, resultados ou qualificações) e a forma de combinação dos mesmos
definem a configuração da organização mais pela burocracia mecanicista (em que
se destaca a autoridade da posição formal ocupada), ou pela burocracia
profissional (ganha relevo o poder da competência de natureza profissional). Os
documentos estruturantes podem ser analisados como formas de estandardização de
processos e, ao constituírem instrumentos de formalização, contribuem para a
centralização das relações na organização.
A proposta de estandardização é assegurada em conformidade com as propostas da
tutela e materializa-se no cumprimento da missão formalmente definida, o que
remete para a organização como sistema de fluxos regulados que os instrumentos
consubstanciam. Contudo, o modo de estandardização dos processos de trabalho na
escola, a partir dos conteúdos e da programação que os documentos estruturantes
possibilitam, é interpretado de forma distinta, correspondendo assim a
heterogéneas perceções organizacionais: o cumprimento por obrigação
administrativa/processual, nas organizações escolares tradicionais, ou o
cumprimento numa perspetiva coletivamente assumida com participação de todos os
atores, nas organizações escolares inovadoras.
Equaciona-se, assim, uma reflexão sobre os mecanismos de regulação nas escolas
com base nos resultados da avaliação externa e das entrevistas, que, ao
refletir sobre as escolas no seu todo e não, isoladamente, sobre os alunos ou
os professores, potencia uma análise das escolas como organizações.
A opção por centrar a análise nos relatórios de avaliação externa constituiu
uma via desafiante para a investigação, na medida em que parte de um registo
realizado pela equipa de avaliação a partir da informação disponibilizada pelas
escolas. A análise de fontes secundárias faculta o acesso à informação a partir
da interpretação que outros agentes a equipa de avaliação, neste caso fazem
dela. Se, por um lado, esta pode ser encarada como uma limitação, na medida em
que é uma informação mediada pelas representações dos agentes que avaliam, por
outro, estas tornam-se, em si, objeto de análise, enquanto modelo standard
formal da avaliação das escolas, proveniente da administração central do
ensino. Trata-se, assim, de ter presente que estamos perante uma construção
social. De facto, a grande diversidade da informação disponibilizada nestes
documentos consistiu num importante desafio à análise, permitindo comprovar a
heuristicidade contida numa análise de dados secundários.
Conclusão
A abordagem metodológica baseada no cruzamento entre dados quantitativos e
qualitativos, e entre duas fontes de informação distintas permitiu confrontar
os sentidos plurais de algumas das categorias identificadas pela análise de
conteúdo com os discursos dos dirigentes e, por esta via, contrastar a
informação de cariz formal com as perceções dos responsáveis pela gestão das
escolas.
A análise permitiu identificar linhas orientadoras de alguns dos principais
processos de coordenação do trabalho ao nível da conceção e planeamento da ação
educativa e asseverar a sua distinção em função do tipo de organização escolar.
Em processos mais ou menos participados, destaca-se, por um lado, a importância
da estandardização, que se concretiza na definição dos documentos e critérios
estruturantes, e, por outro, o ajustamento mútuo, inerente à apropriação
informal pelas escolas das diretrizes emanadas pelo ministério.
Prevalece a importância dos mecanismos informais na apropriação das diretivas
por parte dos professores, associados ao grau de autonomia no desempenho das
suas funções. Mintzberg (1979) chama a atenção para o que denomina respostas
disfuncionais, que dizem respeito, nas burocracias profissionais, à tentativa
de controlar o trabalho profissional através da supervisão direta, da
estandardização dos processos de trabalho ou da estandardização de produtos.
Defende que um controlo externo excessivo conduz à centralização e à
burocratização da estrutura, aproximando-a de uma outra configuração a
burocracia mecanicista, na qual a tecnoestrutura ganha destaque bem como à
formalização dos procedimentos e à hierarquização das relações (Mintzberg,
1979; 1983). Esta tendência é evidenciada pela introdução do referido conjunto
de medidas emanadas do Ministério da Educação para todas as escolas,
nomeadamente em relação aos documentos estruturantes. Procurar um modelo
estrutural comum à organização escola a nível nacional tem subjacente uma
eficiência dos recursos. Tal estandardização poderá ter os seus efeitos
positivos, ao permitir reduzir a supervisão direta e, atendendo à complexidade
da função docente, ao adotar o ajustamento mútuo nas atividades de cariz mais
pedagógico com os alunos, bem como na relação com os encarregados de educação
e/ou a comunidade mais ampla.
A análise permite destacar, assim, que um cruzamento aparentemente
contraditório entre uma gestão mais autónoma das escolas e uma orientação das
atividades por diretrizes emanadas do poder central parece estar a concretizar-
se.
As escolas e aos agrupamentos de escolas avaliadas, por força dos mecanismos
informais de apropriação das regras formais, distinguem-se no que diz respeito
à forma como utilizam os documentos estruturantes, as modalidades de interação
com a comunidade local e o nível de integração dos atores na planificação e
atividades escolares: mais inovadoras, mais difusas ou mais tradicionais. A
distância entre as orientações descritas e a construção das regras na escola, a
par da gestão da participação da comunidade educativa na gestão das escolas,
constituem dois eixos analíticos fundamentais para compreender as dinâmicas
organizacionais das escolas portuguesas.
A prossecução estimulante desta análise será, certamente, a realização de
estudos de caso que permita evidenciar os processos efetivos de construção e
apropriação dos documentos estruturantes e o respetivo confronto com os
enunciados identificados nos relatórios de avaliação externa e os discursos dos
dirigentes das escolas, em particular, e da comunidade educativa, de forma mais
ampla.