Convergência ideológica?: Uma análise comparada dos programas eleitorais do PS
e do PSD (1991-2009)
Em Portugal existem indicadores que revelam a existência de uma forte perceção
no senso comum de uma significativa semelhança entre os principais partidos de
governo. A uma amostra da população portuguesa foram apresentadas, em 1993,
algumas afirmações sobre política — o inquirido devia pronunciar-se como
estando mais ou menos de acordo. Uma dessas frases afirmava que “os partidos
políticos criticam-se uns aos outros mas na realidade são iguais”. Resultados:
mais de metade (58,3%) estavam total (38, 6%) ou pelo menos em parte (19,7%) de
acordo com a afirmação (Bacalhau, 1994: 123). Mais recentemente, o Inquérito
Pós-Eleitoral de 2002 revelava que mais de dois terços dos portugueses (71,2%)
concordavam com a frase que afirma que “os partidos criticam-se muito uns aos
outros, mas na realidade são todos iguais” (Freire e outros, 2003).
Será Portugal um caso de maior proximidade ideológica entre os dois maiores
partidos de governo e onde existe uma espécie de pro-wrestling politics,[1]em
que os partidos falam e agridem-se (verbalmente) de forma recorrente no “palco”
político, mas, depois, “atrás do pano”, concordam naquilo que é essencial? Ou
serão estas apenas interpretações simplificadoras do senso comum?
A análise que se segue tem como objetivo expor as principais diferenças
programáticas entre PS e PSD. Para isso vamos recorrer à análise dos seus
programas eleitorais de 1991 a 2009, através dos dados do Manifesto Research
Group/Comparative Manifestos Project (também conhecido por Manifesto Project,
MP), uma fonte secundária de dados com uma análise de conteúdo codificada e
quantificada das posições dos partidos políticos em centenas de eleições em
dezenas de países membros da OCDE durante mais de meio século, através da
consulta dos respetivos programas eleitorais. Em paralelo, completamos a
análise com uma técnica clássica de análise documental que procura uma
perspetiva mais qualitativa dos programas eleitorais e que pretende encontrar
algumas diferenças ou semelhanças doutrinárias nos princípios de atuação
enunciados pelos partidos.[2] Esta triangulação de dois métodos com
características muito diferentes (Almeida e Pinto, 1982) pretende colmatar as
limitações que ambos teriam se fossem usados isoladamente — nomeadamente a
maior subjetividade do método clássico e algumas realidades que poderiam
escapar a uma análise estritamente quantitativa.
Numa primeira fase o artigo revê o que tem dito a literatura sobre a alegada
proximidade ideológica dos dois maiores partidos portugueses, bem como de
algumas teorias que ajudam a compreender um fenómeno que não é um exclusivo
nacional. Depois, o artigo apresenta alguns resultados do MP sobre os programas
eleitorais de PS e PSD nas várias campanhas para as legislativas de 1991 a
2009, bem como algumas citações retiradas diretamente desses documentos.
Finalmente, a parte que se segue recorre apenas aos resultados do MP e faz uma
análise agregada de todos os programas eleitorais do PS e PSD de 1991 a 2009,
apresentando, nomeadamente, os temas que mais vezes surgem nos respetivos
programas eleitorais numa análise que repetimos para os maiores partidos de
esquerda e direita de um grupo de oito países europeus. O artigo termina com um
resumo das principais semelhanças e diferenças detetadas.
O nosso principal objetivo é perceber o que distingue programaticamente PS e
PSD ao nível das temáticas e propostas dos seus programas eleitorais e se essa
distinção (essa distância) é maior ou menor do que acontece entre os dois
maiores partidos de outros sistemas partidários europeus.
A singularidade do caso português?
Comecemos por referir como têm sido colocados os principais partidos de governo
(aqueles que nos interessam neste texto) na dicotomia esquerda-direita. Na
Europa Ocidental, a divisão essencial separa o campo socialista, colocado à
esquerda, dos não socialistas, situados num campo mais heterogéneo e
representado sobretudo pelas famílias conservadora, democrata-cristã e liberal
(Beyme, 1986: 28-29; Gallagher e outros, 2006: 222-223). Nesta divisão, o PS é
colocado na família partidária socialista, à esquerda. Com o PSD as
classificações internacionais tendem a colocá-lo na família liberal, apesar de
alguns autores verem este como um partido que dificilmente se pode colocar numa
ou noutra família partidária europeia — contudo, o seu posicionamento à direita
não suscita qualquer dúvida (ver as classificações de Hix e Lord, 1997; Lane e
Ersson, 1999; Ware, 1996).
A democracia tardia permitiu aos partidos políticos portugueses “saltarem
alguns estádios” do desenvolvimento característico em democracias mais
consolidadas, onde vários dos maiores partidos (nomeadamente os socialistas)
começaram por ser partidos de massas e só depois partidos catch-all. Apesar de
PS e PSD parecerem organizações altamente estruturadas, como se fossem partidos
de massas, é nas tipologias catch-all ou eleitoralista que a maioria dos
autores os enquadram desde o início da democracia (Stock, 1989; Morlino, 1995:
346; Gunther, 2004; Lopes, 2004; Jalali, 2007), com alguns desenvolvimentos que
apontam para uma possível evolução para partidos cartel (Jalali, 2001: 380;
Lopes, 2004; Guedes, 2006). Os partidos portugueses estiveram sempre mais
dependentes do Estado do que da sociedade (Bruneau, 1997: 15).
Alguns estudos confirmam a proximidade ideológica do PS e do PSD numa
perspetiva comparada com o que se passa com os partidos centristas de outros
países europeus, mesmo quando a comparação é feita com outras “jovens”
democracias da Europa do Sul, como Espanha (Freire, 2006; Jalali, 2007: 88).
São várias as explicações avançadas para essa proximidade. Freire (2005)
sintetiza-as: a esquerdização inicial do regime; a exclusão do PCP das soluções
governativas, num facto que levou o PS para a direita não apenas nos parceiros
de coligação mas também nas políticas seguidas; a necessidade inicial de
reduzir a influência dos comunistas durante a transição; ou as estratégias
eleitorais de características catch-all seguidas pelos dois partidos a partir
de meio da década de 1980.
A literatura consultada que analisa a convergência ideológica do PS e do PSD
ignora quase por completo perspetivas mais abrangentes sobre a evolução das
sociedades modernas e democráticas. A semelhança entre os principais partidos
de governo não é um exclusivo português. Vários autores referem a existência, a
nível europeu, de uma “crise” ou “disfuncionalidades” da democracia (ver, por
exemplo, Viegas e outros, 2004). As razões são várias, mas comecemos pelas
referidas por Burns (2004: 133-139): serão resultado das “diversas
transformações fundamentais” que atravessam as sociedades modernas. Este autor
defende que assistimos a uma nova política ou nova forma de governança (mais
alargada), a que também chama democracia orgânica, resultado das profundas
mudanças nas sociedades modernas, que divide em três tipos: a emergência da
sociedade do conhecimento (com a consequente dependência dos técnicos); o
crescimento exponencial das organizações independentes do Estado que se
envolvem na política, influenciando-a; e a internacionalização e globalização.
As formas de governança serão hoje mais complexas e mais diversificadas do que
no passado, com o tradicional núcleo do Estado (parlamentos e governos) a ter
cada vez menos poder, apesar da “mitologia” política “estabelecida”, que
associa o poder ao legislativo e executivo.
Semelhante diagnóstico faz Giddens (1997b: 97). Este autor salienta que “muitas
das transformações mais importantes que afetam a vida dos indivíduos não têm
origem na esfera política formal e só em parte podem ser resolvidas por ela”.
Esquerda e direita continuam diferentes, mas os maiores partidos estão
associados a “interesses políticos de caráter geral” (Giddens, 1997a: 422), com
um declínio da fidelidade, em muitos países, e maior desencanto com o sistema
partidário. Tendências de desilusão que o autor associa a duas das mudanças
essenciais da vida moderna: globalização e crescente reflexividade social (com
maior importância de especialistas e técnicos) (Giddens, 1997b: 101).
Schweisguth (2004) acrescenta que existe uma clara ligação entre a crescente
convergência ideológica (ao centro) dos programas dos grandes partidos das
democracias europeias e o declínio do interesse pela política, que se reflete
na abstenção e menor identificação com os partidos políticos. Este autor
defende que os grandes sistemas ideológicos como interpretação global do mundo
“já não convencem”, devido essencialmente ao crescimento do nível de vida e
desenvolvimento cultural, naquilo que diz ser uma tendência de fundo para a
“homogeneização ideológica”, que leva o eleitor a saber que uma mudança de
partido à frente do governo apenas pode significar mudanças mínimas nas
políticas.
Na literatura sobre partidos, a tendência para uma cada vez maior semelhança
entre as forças políticas com mais responsabilidades executivas reflete-se,
também, em dois dos mais recentes modelos teóricos sobre tipologias partidárias
e que assinalam as novas fases da sua evolução histórica: partidos catch-alle
partidos cartel (Katz e Mair, 1995: 18). As diferenças cada vez menos
significativas entre partidos surgem, na Europa, sobretudo, a partir da década
de 1960, com o declínio do modelo de partido de massas (de base classista ou
confessional).
O modelo mais recente do partido cartel representa um reforço das tendências de
menor competição ideológica (Katz e Mair, 1995: 15-17). Blyth e Katz (2005)
aprofundaram a teoria, focando-se em causas multidimensionais (se quisermos,
mais sociológicas e menos politológicas) e, sobretudo, na progressiva
diminuição (acordada tacitamente entre os intervenientes) da possibilidade de
políticas alternativas entre os partidos depois de se ter chegado à conclusão
que era impossível continuar a trocar medidas populares por votos (como terá
acontecido na fase do partido catch-all). Diminuindo as expectativas dos
cidadãos e limitando o espaço para políticas realizáveis, os partidos tendem a
identificar a competição eleitoral não com questões ideológicas, mas,
sobretudo, com a competência na gestão do país.
O declínio dos partidos de massas surge em vasta literatura como uma mudança
lógica, tendo em conta a menor importância da divisão de classes e o
alargamento da classe média, com uma sociedade contemporânea que, segundo
Lipset, se revê cada vez mais na forma de um “diamante” — em vez de “pirâmide”.
Mesmo nos partidos social-democratas a sua principal função passou a ser gerir
a economia, numa moderação que se acentuou nos anos 90 com os limites à
intervenção do Estado e a integração europeia (Lipset, 2001: 54-61; Gallagher e
outros, 2006: 231-234).
Noutro tipo de argumentação (que tende a ver, se quisermos, o outro lado de uma
mesma realidade), vários autores têm salientado que, apesar da progressiva
aproximação ideológica dos principais partidos de governo, ainda faz sentido
diferenciar esquerda e direita (Lipset, 2001: 62-64; Freire, 2006) com
diferenças entre os dois lados do espectro que, pelo menos no passado, afetaram
as políticas desenvolvidas por cada partido — por exemplo, nas políticas de
intervenção do Estado (Keman, 2006: 162-163). Freire (2007: 37-42) acrescenta
que as teses sobre o fim da ideologia ou da divisão esquerda-direita
(particularmente as de Giddens) foram criticadas e acusadas de terem um caráter
ideológico e normativo, sendo sucedidas por uma crescente saliência das velhas
ideologias e pela manutenção de uma “enorme importância do posicionamento
esquerda-direita” na orientação política dos eleitores europeus. Com muita
adaptação eleitoral e aproximação das propostas dos principais partidos de
governo, a história e as ideologias dos partidos tendem a persistir, afetando,
de alguma forma, os programas adotados (Budge e Klingemann, 2001).
Políticas de esquerda e políticas de direita
Antes de passar à análise dos dados, será útil definir que políticas têm sido
identificadas como de esquerda ou de direita numa divisão ou continuum
ideológico, que é o método mais usado para categorizar as ideias políticas
(Huber e Inglehart, 1995; Heywood, 2003).
Como dizem Benoit e Laver (2006: 11-32), a classificação ideológica é altamente
subjetiva e depende do ponto de vista de quem classifica. Além disso, como
acrescentam Huber e Inglehart (1995) e Laponce (1981), a divisão esquerda-
direita varia com o tempo: aquilo que hoje é de esquerda amanhã pode ser de
direita (ou vice-versa). No entanto, mesmo se tivermos em conta a ideia de que
as diferenças partidárias são, como defende Lipset (2001), cada vez menores ou
mais fluidas (nomeadamente na economia), ainda existem diferenças que levam a
que inúmeros autores tenham feito o exercício de identificar valores, ideias ou
políticas que se colocam tradicionalmente de um ou do outro lado do espectro
ideológico.
Laponce (1981: 138 e 146-174) sublinha uma divisão nos seguintes pontos: a
direita está ligada à noção de hierarquia (nomeadamente entre pessoas, mas
também em relação ao divino) e propriedade privada, enquanto a esquerda está
associada à defesa de maior igualdade, seja ela entre raças, nações, classes
sociais ou géneros, bem como a uma certa ideia de coletivismo e secularismo.
Outro estudo, mais recente (Fuchs e Klingemann, 1990: 222), na Holanda,
Alemanha e EUA, também atribui à esquerda (nos três países), entre outros
valores, as ideias de igualdade, solidariedade e a defesa das classes baixas,
enquanto a direita surge associada à defesa do individualismo, da ordem e das
classes altas. Não é aliás por acaso que um estudo mais recente de Freire
(2006: 112-121 e 163) sobre vários países europeus (incluindo Portugal) conclui
que, apesar das diferenças entre nações, tende a posicionar-se à esquerda quem
dá mais importância ao combate às desigualdades, à igualdade (económica ou
entre géneros), mas também a um papel mais relevante do Estado na sociedade e
na economia (vice-versa para quem se posiciona à direita). Idêntica tendência
ocorre entre quem atribui menor importância a Deus na sua vida, é a favor da
liberalização do aborto ou é mais tolerante para com os imigrantes.
Estratégia metodológica
Quase todas as pessoas pensam na política em termos de posição. Primeiro, veem
se os atores políticos são iguais ou diferentes. Depois, se são diferentes,
colocam-nos mais próximos ou mais distantes uns dos outros. Benoit e Laver
(2006: 11-32) acrescentam que todas estas localizações são, contudo, subjetivas
— dependem de quem classifica, dos seus valores e das próprias opiniões do
indivíduo sobre o ambiente social e político que o rodeia.
Como se mede, afinal, a ideologia de um partido político? A pergunta não tem
uma única resposta e optámos por centrar a análise na descrição dos temas ou
propostas mais presentes nos programas eleitorais.
O nosso principal objetivo é perceber o que distingue programaticamente PS e
PSD. Defendemos ainda que a única forma de perceber se estes são partidos
semelhantes passa por comparar o caso português com o que acontece noutros
países do seu espaço geocultural. Uma das estratégias mais comuns neste tipo de
análises passa por comparar Portugal com os outros 14 países que até 2004
compunham a União Europeia.
Sendo inúmeros os textos e declarações de um partido político, optámos por
olhar para os seus programas eleitorais, por serem aquilo que melhor exprime as
suas posições (Benoit e Laver, 2006: 64-65). Escrutinados pela oposição e pelos
média, são os compromissos dos partidos para o comportamento que terão após as
eleições, tendo, como salientam Budge e outros (2001: 8-9), um papel central na
democracia representativa e responsabilização política.
O MP conta as frases de cada manifesto e depois inclui cada uma numa
determinada categoria.[3] Os números apresentados correspondem à percentagem de
frases de um determinado programa eleitoral que lhe são dedicadas (Budge e
outros, 2001: 78-81). Esta base de dados tem a vantagem de permitir medir as
mudanças nas políticas apresentadas pelos partidos em dezenas de países durante
mais de meio século (Budge e Klingemann, 2001: 19).
A análise que vamos fazer vai de 1991 a 2009 e tem como objetivo expor,
sobretudo, aquilo que foram os assuntos mais presentes nos programas eleitorais
do PS e do PSD nas eleições legislativas.[4] Tendem os dois partidos a falar
dos mesmos temas?
Os temas mais salientes nos programas eleitorais do PS e do PSD de 1991 a 2009
Os números do MP começam por revelar que na eleição de 1991, que daria a
segunda maioria absoluta ao PSD, são idênticas as seis categorias mais
presentes nos programas dos dois partidos (apenas se altera a ordem).[5] Ambos
atribuem primordial relevância ao Estado social (sua expansão e justiça
social), bem como às tecnologias e infraestruturas. No PS as temáticas com mais
referências são as tecnologias e infraestruturas (10,8%), a expansão do Estado
social (7,6%) e a justiça social (6,8%). No PSD estão nessa posição a expansão
do Estado social (10,8%), tecnologias e infraestruturas (8,9%) e o ambiente
(7,9%).
Apesar destas semelhanças nos resultados do MP, encontram-se algumas diferenças
claras quando vamos além dos números e lemos os programas eleitorais dos
partidos. No PSD há marcas da doutrina liberal, nomeadamente através das ideias
de que o objetivo do partido é colocar “a sociedade civil a liderar o destino
de Portugal” dando “primazia à conceção personalista face ao coletivismo na
organização do Estado e sociedade” — o Estado deve ser “prestador de serviços
apenas naquilo que os cidadãos por si só não conseguem assegurar” (PSD, 1991:
Apresentação).
Quanto à solidariedade, o PSD sublinha não apenas o papel do Estado, mas
atribui uma importância significativa “à família e outras formas naturais de
solidariedade como as instituições particulares de solidariedade social” (PSD,
1991: 5). A economia de mercado e “livre iniciativa” são apresentadas como
fundamentais, apesar de se sublinhar que o “mercado não dá por si só justiça
social” e “o Estado tem de ser regulador e redistribuídor de bens sobretudo
para os mais vulneráveis”. O programa explica que o PSD opta por uma “economia
de mercado com preocupações de justiça e solidariedade social”, mas “não quer
uma política social indiscriminada de repartição”: é preciso ser “seletivo”. A
justiça social do partido assenta, em primeiro lugar, na ideia de “igualdade de
oportunidades” (PSD, 1991: 5-6).
No PS o programa de 1991 fala numa “estratégia de desenvolvimento para a
modernização solidária” (PS, 1991: 57). Neste primeiro manifesto da década de
1990, o PS admite a “consagração” das instituições “de uma economia de
mercado”, mas contesta aquilo que diz ser a visão liberal-conservadora de
resignação aos efeitos “perversos” dessa liberalização. Com poderes mais
limitados, o Estado tem de ser “usado” em “nome dos deserdados do poder
económico, para garantir uma adequada regulação social”. O PS quer um “Estado-
catalisador, prestigiado e desburocratizado, que modere abusos, incentive a
criatividade e o risco, promova consensos, arbitre conflitos, articule com o
setor privado a definição de orientações estratégicas” (PS, 1991: 61-62). Ao
contrário do PSD, o objetivo do PS não é subordinar o Estado à sociedade.
Avançando quatro anos, na eleição de 1995, a modernização do país e a expansão
do Estado social voltam a estar entre as principais apostas dos dois partidos
nos programas eleitorais. Os manifestos do PS e do PSD distinguem-se pela
insistente referência socialista à regulação do mercado e, sobretudo, à ideia
de eficácia governativa e administrativa (recorde-se que o governo do PSD se
encontrava no final de um ciclo). O tema mais presente no programa socialista
passa, exatamente, segundo o MP, pela eficácia governativa (10,3%), seguido das
tecnologias e infraestruturas (8,9%) e expansão do Estado social (8,7%). No PSD
dominam as referências às tecnologias e infraestruturas (11,3%), expansão do
Estado social (9,5%) e objetivos económicos (6%).
Passando à análise direta do texto dos programas, no PSD encontramos propostas
que claramente não surgem no texto do PS e que reforçam a tendência liberal do
partido: por exemplo, a ideia de “menos Estado, mais sociedade”; ou o Estado
“só deve fazer o que a sociedade não pode fazer por si” (PSD, 1995: 13). Apesar
dos objetivos económicos, os social-democratas não esquecem as promessas de
“melhor bem-estar e qualidade de vida”, mais emprego e combate à exclusão
social (PSD, 1995: 10). O Estado deve ter um papel “enquadrador” na economia
(PSD, 1995: 55). Repete-se a ideia de ser necessário ligar essa mesma economia
à solução dos problemas sociais.
Em vez de menos Estado o PS promete a “reforma do Estado” através, por exemplo,
da modernização e desburocratização da administração pública. Propõe-se um
“Estado leve”, “capaz de elaborar estratégias de médio e longo prazo; regulador
quanto baste e incitador da atividade e criatividade das pessoas, das empresas,
das organizações sociais” (PS, 1995: 4-5 e 67). O PS apresenta cinco
prioridades: democracia com mais qualidade; igualdade de oportunidades; efetiva
solidariedade; educação e formação; e “um desenvolvimento económico ao serviço
das pessoas”, com emprego e melhores condições de vida. Uma significativa parte
do programa está reservada para políticas de solidariedade (PS, 1995: 2-3).
Ao contrário dos anteriores manifestos do PS, em 1995 o partido parece atribuir
aos mecanismos de mercado uma maior importância. Em paralelo, contudo, é também
referido que estes mecanismos, “quando entregues a si mesmos, não asseguram a
justiça” e “tendem a consolidar e aprofundar as desigualdades”. O Estado deve
por isso ter um papel regulador e de garantia dos serviços fundamentais, como a
educação, saúde e proteção social, protegendo-os dos “jogos de interesses
individualistas” que dominam o mercado (PS, 1995: II-14, II-15 e III-5).
Em 1999, novo ano de eleições legislativas, os dados do MP voltam a revelar
dois partidos com prioridades semelhantes: expansão do Estado social e
tecnologias e infraestruturas, por esta ordem, são as questões que estão no
topo das preocupações dos programas eleitorais. Estão ainda no topo das
referências do PS e do PSD a eficácia do governo e da administração, mas os
socialistas distinguem-se dos social-democratas em alguns temas tipicamente de
esquerda, como uma maior prioridade à necessidade de regular o mercado ou a
relevância atribuída à defesa de certos grupos demográficos.
A leitura direta dos programas permite contudo perceber que o PSD salienta
desde o início, de novo, algumas posições tipicamente liberais. Leia-se, por
exemplo, o prefácio que contesta a “multidão de pessoas permanentemente
assistidas ou dependentes do apoio do Estado” e que fala num “Estado que abusa
e atrapalha a sua vida”, controlando “excessivamente” a iniciativa. O PSD está
contra o clima de “assistência social” e dependência, mas, mais uma vez, ao
mesmo tempo, os social-democratas vincam a prioridade nas questões sociais
(saúde e solidariedade), dando ao Estado um papel “instrumental”.
Quanto ao PS, o programa de 1999 tem como prioridades a sociedade da informação
e do conhecimento, a saúde, a solidariedade e a igualdade de oportunidades
(nomeadamente entre homens e mulheres), com referências a uma nova geração de
políticas sociais, em que a economia é apresentada como um meio para promover o
bem-estar das pessoas e o emprego (PS, 1999: 10). Em detrimento da intervenção
direta, os socialistas atribuem ao Estado um papel “regulador” (garante, por
exemplo, da concorrência e direitos do consumidor) e capaz de garantir as
vantagens de deixar aos privados a oferta da maioria dos bens e serviços.
Três anos depois, a eleição de 2002 volta a apresentar um cenário em que a
expansão do Estado social e referências tradicionalmente associadas à esquerda
voltam a estar mais presentes no programa socialista. No entanto, as duas
principais prioridades dos dois partidos são de novo idênticas: temas não
ideológicos, de desempenho, relacionados com a “eficácia governativa ou
administrativa” (12,8% no PS e 23,7% no PSD) e as “tecnologias e
infraestruturas” (12,4% no PS e 9,6% no PSD). Tal como com os socialistas no
fim do ciclo cavaquista em 1995, desta vez são os social-democratas que
reforçam as referências à eficácia do executivo. Contudo, pela primeira vez a
expansão do Estado social não surge no grupo de dez temas mais referidos pelo
PSD.
Indo mais longe do que nos programas eleitorais anteriores, o PSD defende mesmo
que fora das clássicas funções de soberania todos os serviços do Estado devem
ser “reponderados” à luz do interesse público, para não os extinguir ou
privatizar. Apenas a autoridade é apresentada como exemplo, sem margem para
dúvidas, de um domínio onde o Estado deve permanecer (PSD, 2002: 14). “Libertar
e mobilizar a sociedade” é um dos objetivos propostos: “Numa sociedade bem
organizada a pessoa humana está antes do Estado e o Estado deve estar ao
serviço da sociedade” (PSD, 2002: 5 e 13). O PSD reafirma ainda a necessidade
de criar riqueza e aumentar a produtividade: “Não se pode distribuir a riqueza
que não se cria” (PSD, 2002: 5). O programa eleitoral promete também baixar
impostos para trabalhadores e empresas. Nos costumes, a “família tradicional” é
apresentada como o “primeiro e mais marcante espaço de realização,
desenvolvimento e consolidação da personalidade humana” (PSD, 2002: 129).
Do outro lado, o programa do PS volta a apostar na conjugação de dois “pilares
fundamentais” do partido: a competitividade e a coesão nacional, com o objetivo
de convergir com o resto da União Europeia (PS, 2002: 3-4). A questão da
produtividade também está presente, mas enquadrada de uma forma diferente: os
social-democratas sublinham a necessidade da livre iniciativa privada; o PS
promete políticas ou planos ativos para criar empregos.
Limitados pelo Programa de Estabilidade e Crescimento, os socialistas admitem a
necessidade de reduzir a despesa global do Estado, mas querem aumentá-la
seletivamente nas áreas sociais e de segurança. Mais do que propor a redução do
Estado, o PS sublinha a necessidade de ter uma administração pública melhor
gerida. Na área dos costumes, enquanto o PSD salienta a importância da “família
tradicional”, o PS promete reforçar a igualdade de género e a consolidação da
vida familiar e profissional.
Em 2005, as eleições legislativas voltam a ter, segundo os dados do MP, a
categoria não ideológica da “eficácia governativa e administrativa” no topo das
propostas dos dois partidos (13,5% no PS e 18,1% no PSD). Os socialistas
destacam-se, contudo, por ocuparem mais espaço com temas relacionados com o
Estado social e a regulação do mercado. O PSD fala mais de produtividade e,
pela segunda eleição consecutiva, não tem nas dez categorias mais referidas a
“expansão do Estado social”. Olhando diretamente para o programa eleitoral, o
primeiro de dez compromissos assumidos pelos social-democratas promete
concentrar “esforços no aumento da produtividade”, “condição essencial de criar
e distribuir mais riqueza”. Não aumentar impostos, reduzir a despesa do Estado
e consolidar as contas públicas são os compromissos seguintes. Seguem-se
promessas na área social, mas também justiça, sustentabilidade da segurança
social, medidas de apoio à família, conservação do ambiente (PSD, 2005: 8-9).
Vários valores e princípios apresentados pelos social-democratas em 2005
repetem ideias liberais de outros anos: “responsabilização para garantir que o
trabalho árduo e o mérito serão premiados, diminuindo o fardo de quem se
esforça por ir mais longe”; “concorrência para estimular a eficiência, inovação
e criatividade, indispensáveis à criação de valor”; “solidariedade para
garantir a coesão e a integração de pessoas, comunidades e regiões” (PSD, 2005:
10).
O crescimento económico, grande prioridade apresentada pelo partido, não
esquece, no entanto, um crescimento sustentado “viabilizando a melhoria da
qualidade de vida de todos os portugueses”, evoluindo para um “Novo Estado
Social” ou um “Estado Garantia”, na medida em que a sua razão de ser é garantir
a liberdade de escolha e igualdade de oportunidades, devendo ser sobretudo
supletivo. Falando pouco na expansão do Estado social, o partido pensa mais na
sua eficiência (PSD, 2005: 13-16).
Também no PS é o tema da eficácia governativa e administrativa que mais espaço
ocupa em 2005 no programa eleitoral segundo os resultados do MP, mas é nas
referências ao Estado social que os socialistas se destacam. Lendo esse
programa, a primeira prioridade do PS passa por ter uma “estratégia de
desenvolvimento e modernização do país, de crescimento da economia, de regresso
da confiança e da esperança, com base numa aposta muito forte no conhecimento,
na tecnologia, na inovação e na qualificação dos portugueses” (PS, 2005: 9). O
partido sublinha, no entanto, que “as questões da macroeconomia não são tudo”,
sendo prioritárias igualmente as “desigualdades e a intensidade da pobreza”,
não esquecendo o desemprego e a qualificação, problemas “estruturais” que o
partido promete corrigir através de “um amplo conjunto de políticas sociais”
(PS, 2005: 10). Os socialistas repetem as preocupações social-democratas com a
“baixa” competitividade e a produtividade do país. O crescimento económico
seria conseguido através da recuperação da “confiança”, de um ambicioso Plano
Tecnológico, da promoção da eficiência do investimento e das empresas, da
consolidação das finanças públicas e da modernização da administração pública
(PS, 2005: 12). Ao mesmo tempo, o PS promete controlar o défice. O mercado não
é esquecido mas, para além das referências à necessidade de concorrência, o
programa apresenta mais referências à necessidade de regulação. Comparando com
o PSD, o programa do PS dá mais destaque às políticas sociais, falando menos de
temas como competitividade ou produtividade.
Na eleição de 2009, e retomando os resultados do MP, os dois partidos
apresentam diferenças mais significativas. Por exemplo, nove das dez categorias
mais presentes são iguais nos dois programas, mas, entre estas, os partidos
divergem mais claramente naquelas a que atribuem mais ou menos relevância. Os
socialistas voltam a dar mais destaque ao Estado social (11,1% de referências),
apesar de terem no topo das suas prioridades as tecnologias e infraestruturas
do país (14,5%); no PSD a aposta foi para a eficácia governativa e
administrativa (10,8%), a par da lei e da ordem (10,3%). A expansão do Estado
social volta a não estar no topo das prioridades do PSD que, pela primeira vez
desde 1991, não apresenta nos três temas mais salientes as “tecnologias e
infraestruturas”.
Passando à leitura direta dos programas, o texto dos social-democratas volta a
apresentar como “objetivos centrais” “criar condições” para “aumentar o
emprego” e “retomar o crescimento e a convergência com a UE”, sem esquecer a
necessidade de justiça social (PSD, 2009: 5-6). O PSD manifesta-se contra a
“excessiva regulamentação de mercado e de produtos” (PSD, 2009: 8). Mais do que
impulsionar a competitividade das empresas e o empreendedorismo, o partido quer
“criar condições” para que isso aconteça limitando, por exemplo, o peso do
Estado, reduzindo a despesa pública e selecionando rigorosamente os
investimentos públicos (PSD, 2009: 5-10). O défice das contas públicas e o
endividamento externo são várias vezes sublinhados. É ainda referido o “papel
central” das questões de solidariedade, “não apenas através do Estado, mas
aproveitando as solidariedades primárias, das redes sociais e das instituições
intermédias”, numa política social que valoriza “a família como célula básica
da nossa estrutura social” e que quer atribuir ao Estado um papel
“subsidiário”, mais focado nas “funções de regulação, financiamento e
fiscalização de políticas públicas que deveriam ser descentralizadas para
potenciar a intervenção dos agentes locais como autarquias e IPSS” (PSD, 2009:
14).
Várias das prioridades reveladas no programa eleitoral do PS são semelhantes às
detetadas no PSD. No entanto, os socialistas voltam a dar um papel mais
importante ao Estado, que face às exigências da situação económica e aos
“desafios de modernização” tem de dar “o seu contributo”, nomeadamente “através
do investimento público”, que tem de ser “modernizador” para as empresas, no
emprego e “em projetos estruturantes” como inúmeras obras públicas (PS, 2009:
13). O manifesto enumera uma vasta lista de fundos e linhas de apoio às
empresas (sobretudo pequenas e médias) e setor social.
O mercado, para o PS, funciona melhor através da defesa da concorrência, da
regulação e da promoção da defesa dos consumidores. O partido não esquece a
necessidade de consolidar as finanças públicas, mas logo a seguir sublinha que
a conjuntura exige “uma intervenção forte e decidida do Estado que assegure a
estabilidade do sistema financeiro e o financiamento da economia, estimule a
atividade económica, proteja o emprego e apoie aqueles que são mais afetados
pela crise” (PS, 2009: 41).
Análise agregada em perspetiva comparada: Portugal e alguns países europeus
As figuras seguintes fazem uma análise diferente da anterior: reúnem de forma
agregada os programas eleitorais do PS e do PSD nos últimos 20 anos (seis
eleições). Apesar das semelhanças nas prioridades que apresentam para o país,
sai reforçada a hipótese de que PS e PSD dão mais ou menos saliência a temas
diferentes seguindo a tendência do lado ideológico onde se inserem.
Figura 1 Temas de esquerda: relevância nos programas do PS e do PSD, média de
referências entre 1991 e 2009
Figura 2 Temas de direita: relevância nos programas do PS e do PSD, média de
referências entre 1991 e 2009
Figura 3 Temas mais salientes nos programas eleitorais do PS de 1991 a 2009,
média de referências (%)
Figura 4 Temas mais salientes nos programas eleitorais do PSD de 1991 a 2009,
média de referências (%)
Figura 5 Temas mais salientes nos programas eleitorais do maior partido de
esquerda em oito paÃses europeus, média das referências entre 1990 e 2010 (%)
Figura 6 Temas mais salientes nos programas eleitorais do maior partido de
direita em oito paÃses europeus, média das referências entre 1990 e 2010 (%)
Com base em investigação prévia e teoria sobre os temas mais vincados nas
propostas políticas dos diferentes lados ideológicos, os autores do MP
classificaram alguns temas como tradicionalmente de esquerda ou de direita
(Budge e Klingemann, 2001). O que fizemos nas figuras seguintes foi selecionar
a maioria desses temas[6]e alguns outros[7] que se podem enquadrar na mesma
lógica. Depois, contabilizámos os resultados agregados médios dos programas
eleitorais do PS e PSD de 1991 a 2009.
Na maioria das áreas e, sobretudo, naquelas que têm mais referências, a teoria
confirma-se. O PS refere mais vezes temas relacionados com a justiça social,
certos grupos demográficos, a democracia, os trabalhadores e os sindicatos, a
expansão da educação, a expansão do Estado social ou a regulação do mercado.
O PSD também dá grande destaque a questões relacionadas com o Estado social,
mas distingue-se por atribuir mais importância do que o PS a temas como a
produtividade, a autoridade política, a moralidade tradicional, o estilo de
vida nacional, a ortodoxia económica[8] e a livre empresa. É interessante
sublinhar, no entanto, que, apesar da maior relevância nos programas do PSD
daquilo a que podemos chamar temas de direita, há pelo menos três categorias
aqui consideradas de esquerda (expansão do Estado social, expansão da educação
e justiça social) que ocupam mais espaço do que qualquer um dos anteriores nos
manifestos do partido.
As figuras fazem de novo uma análise dos últimos 20 anos e reúnem os 20 temas
mais presentes, em média, nos programas eleitorais do PS e do PSD. Os
resultados revelam que as prioridades são semelhantes: apesar da relevância
maior ou menor, 18 das categorias estão presentes nas duas figuras. Igualmente
interessante é o facto de as três áreas mais abordadas serem idênticas no PS e
no PSD: tecnologias e infraestruturas, expansão do Estado social, eficácia
governativa e administrativa.
Apesar das semelhanças anteriores nos programas eleitorais do PS e do PSD,
também existem diferenças. Ambos colocam no topo das preocupações o Estado
social, mas é entre os socialistas que este é mais relevante: as três
categorias relacionadas com o tema (expansão do Estado social, expansão da
educação e justiça social) reuniram, em conjunto, 21% do espaço nos manifestos
do PS — no PSD essa percentagem fica pelos 16,1%. A posição à esquerda do PS
também se vê na maior relevância atribuída à regulação do mercado e a medidas
favoráveis a certos grupos demográficos desfavorecidos. Entre os social-
democratas estes temas aparecem menos vezes e ocupam menos espaço nos
manifestos, surgindo mais acima outros temas tipicamente de direita: lei e
ordem, produtividade, ortodoxia económica e livre empresa. O PSD também dá mais
espaço à eficácia governativa e administrativa.
Os dados que se seguem tentam fazer um retrato semelhante ao anterior mas para
um conjunto de democracias europeias que, apesar das inúmeras diferenças
(antiguidade da democracia, sistema partidário, sistema de governo, etc.), têm
um ponto em comum com Portugal: dois partidos, um à esquerda e outro à direita,
que foram consistentemente, nos últimos 20 anos, os partidos mais votados e que
dominam a formação de governos e nomeação de primeiros-ministros nos seus
países.
Os países em causa nestas figuras são: Áustria, França, Alemanha, Reino Unido,
Grécia, Holanda, Espanha e Suécia. Em quase todos, tal como em Portugal,
existem dois partidos que foram, alternadamente, com raras exceções, os dois
mais votados.[9]
Os resultados revelam os temas que surgem mais vezes nos dois grupos de maiores
partidos à esquerda e direita nestes oito países europeus que queremos comparar
com Portugal. Também aqui há temas que à partida parecem pouco ideológicos,
como “tecnologias e infraestruturas” ou “eficácia governativa e
administrativa”, que estão no topo das preocupações dos principais partidos de
governo. No entanto, comparando com Portugal, estes apresentam valores
nitidamente mais baixos e surgem mais temas com maior conotação ideológica a
distinguir os dois grupos. No topo das preocupações dos oito partidos
socialistas europeus estão dois temas tipicamente de esquerda: expansão do
Estado social e justiça social. Logo abaixo, outros temas que na classificação
do MP também se situam neste lado ideológico: expansão da educação, grupos
demográficos, internacionalismo, posições positivas em relação a grupos de
trabalhadores e sindicatos, ou regulação do mercado.
À direita, a expansão do Estado social também está perto do topo das
prioridades (quarto lugar, com 5,4% de referências), contudo, ao contrário de
Portugal, há inúmeros temas tipicamente associados a este lado ideológico que
surgem com muito mais referências do que entre os socialistas: lei e ordem
(segundo tema mais referido), livre empresa, ortodoxia económica, moralidade
tradicional.
Finalmente, a figura 7 apresenta uma análise diferente das anteriores. O MP
conjugou alguns temas em áreas ou conjuntos de políticas específicas:[10]
aquelas que surgem no quadro estão relacionadas com as propostas relacionadas
com o Estado social, o planeamento da economia ou a economia de mercado. Ao
contrário das análises anteriores, aqui alargamos a análise a 13 países da UE e
olhamos para aqueles que foram em cada eleição os dois partidos mais votados.
Figura 7 Temas no programas eleitorais relacionados com o Estado social,
planeamento da economia e economia de mercado: diferença entre os dois partidos
mais votados, 1990-2010 (Portugal e UE)
Como seria de esperar, os dados de 1990 a 2010 revelam que o PS apresenta mais
referências favoráveis a temas relacionados com o planeamento da economia e
Estado social, enquanto o PSD dá mais prioridade à economia de mercado (valores
que não surgem na figura). A figura revela, no entanto, que em duas categorias
as diferenças entre os dois partidos mais votados foram claramente menos
vincadas no caso português.
PS e PSD: caminhos diferentes para um objetivo comum
O nosso projeto é eminentemente nacional e não respeita raciocínios políticos e
barreiras ideológicas nacionais. […] Direita-esquerda são palavras para
políticos velhos. [Cavaco Silva, 1987][11]
A verdade é que o impacto da crise será atenuado pela ação e não o contrário.
Primeiro ponto é portanto essa ideia de ação, mas uma ação com espírito aberto,
não uma ação orientada para a aplicação de cartilhas ideológicas. O que nós
precisamos é de soluções com resultados. Pragmatismo, portanto. [José Sócrates,
2009][12]
As citações anteriores de dois antigos primeiros-ministros revelam como são os
próprios atores políticos a reclamar para si, por vezes, as virtudes da
neutralidade ideológica. Declarações que desligadas de um contexto ajudariam a
confirmar a alegada falta de ideologia dos dois maiores partidos portugueses.
Contudo, os dados recolhidos até aqui não confirmam a ideia de igualdade ou
neutralidade ideológica.
Esquecendo a evolução dos dois partidos ou as influências conjunturais desta ou
daquela eleição, tentando fazer um retrato global, doutrinário, dos princípios
de ação enunciados a partir de 1991, podemos dizer que PS e PSD apresentam os
mesmos objetivos para Portugal: modernizar o país, fazer crescer a economia,
melhorar as condições de vida e aproximar Portugal da média da União Europeia.
No entanto, como salientam Newton e van Deth (2005: 242-243), a igualdade de
“objetivos políticos” political goals)não significa igualdade ideológica — as
ideologias distinguem-se, frequentemente, pelos meios políticos utilizados
(political means), ou seja, pelas fórmulas propostas para alcançar certos
resultados.
A análise feita dos programas eleitorais revela que PS e PSD divergem em muitas
das soluções para alcançar esses objetivos, indo ao encontro daquilo que se
podia esperar tendo em conta a sua família ideológica. É verdade que, como
salienta Freire (2004), os manifestos dos dois partidos tendem a ser vagos nas
medidas concretas para alcançar os objetivos que se propõem. Contudo, esse
facto não impede que os princípios gerais sejam diferentes numa ideia que
tentamos representar de forma simplificada na figura 8.
Figura 8 Principais objetivos do PS e do PSD e meios preferenciais propostos
para os alcançar
Para chegar aos objetivos propostos, a integração europeia é um dos meios
prioritários apresentados por ambos os partidos, numa fórmula preferencial
comum que motivou mesmo a sua aproximação e colaboração — sobretudo nas décadas
de 1980 e 1990.
O desacordo começa quando olhamos para o papel do Estado. Depois dos primeiros
anos de alguma indefinição, os socialistas apostam desde meio da década de 1980
numa economia de mercado, mas também num Estado regulador (não mínimo) e “capaz
de elaborar estratégias de médio e longo prazo” (PS, 1995: 4-5). O PSD revela a
sua posição liberal ao vincar a necessidade de reduzir o Estado. Os social-
democratas querem, declaradamente, colocar ou deixar espaço à sociedade civil
para “liderar o destino de Portugal” (PSD, 1991: Apresentação). Em contraponto
às declarações do PSD de “menos Estado, mais sociedade” (PSD, 1995: 13) ou de
que não é este que deve “dirigir a sociedade” (PSD, 1999: 5), o PS salienta a
proposta de criar um “Estado catalisador” (PS, 1991: 61-62) através, por
exemplo, de “investimento público” e “projetos estruturantes” (PS, 2009: 13).
PS e PSD defendem uma economia de mercado para atingir os objetivos que têm
para Portugal, mas também a esse nível há diferenças no percurso proposto. Os
socialistas referem várias vezes medidas de planeamento da economia, como
“políticas e planos ativos” para criar empregos (PS, 2002: 148). Os social-
democratas sublinham a necessidade de livre empresa, funcionamento livre do
mercado, “contra a gestão política da economia” (PSD, 1999: 13). No PSD o
“motor” proposto para conseguir as mudanças pretendidas aponta essencialmente
para o papel da sociedade; no PS essa tarefa é repartida com o Estado.
As diferenças entre os dois partidos sentem-se de novo no tipo de Estado social
pretendido. O PS propõe com insistência a ação direta do Estado no combate às
desigualdades. O PSD também dá grande destaque à expansão do Estado social nos
programas eleitorais até ao final da década de 1990. Contudo, essa proposta
social-democrata tem características diferentes das intenções do PS, sendo
repetidas as insistências na necessidade de ligar a solidariedade ao
crescimento da economia e que para responder às preocupações sociais tem de
existir riqueza para distribuir (PSD, 2002: 5; 2005: 8-9). A igualdade proposta
pelo PSD assenta sobretudo na ideia de “igualdade de oportunidades”. Para além
do Estado, o partido salienta, nesta tarefa, em vários momentos, o papel das
IPSS e da família. O PSD afirma-se contra o clima de “assistência social” ou
dependência (PSD, 1999: Prefácio) e propõe um sistema essencialmente supletivo
(PSD, 2005: 13-16).
Se olharmos para os números do Manifesto Project, depois de um longo período em
que os dois partidos quase se igualaram nas referências à expansão do Estado
social, a partir de 2002 essas propostas diminuem de forma significativa no
PSD. No PS, pelo contrário, o tema contínua no topo das prioridades, facto que
indicia, pelo menos a este nível (fundamental na divisão esquerda-direita), uma
maior divergência entre os dois partidos.
Nos costumes, os social-democratas também se diferenciam pelas referências à
importância da família tradicional. Os socialistas, por sua vez, falam mais nos
direitos de certos grupos demográficos menos privilegiados.
A ortodoxia económica, nomeadamente o combate ao défice público, bem como a
necessidade de aumentar a produtividade, assumem cada vez mais saliência nos
dois partidos, mas, como seria de esperar, é no PSD que surgem mais referências
a estas necessidades.
Conclusão
Qualquer ideologia é um conjunto de ideias abstratas. Naturalmente, definir a
posição ideológica de um partido, tal como de uma pessoa, pode ser um exercício
altamente subjetivo, dependente do posicionamento do classificador. Foi essa
subjetividade que tentámos evitar comparando medidas de ação política previstas
nos programas eleitorais.
Os dados não confirmam a ideia de igualdade ou neutralidade ideológica: PS e
PSD são partidos doutrinariamente diferentes que, de forma mais ou menos clara,
se inserem no seu tradicional espaço ideológico. No entanto, a análise dos
temas mais salientes nos programas eleitorais confirma que estes estão mais
próximos do que acontece com os principais partidos de governo noutros países
europeus e baseiam com mais frequência as suas propostas políticas em temas com
menos conotação ideológica. Não se confirma, contudo, a alegada aproximação dos
dois partidos e, por exemplo, ao nível do Estado social, a divergência é cada
vez mais nítida.
Falta-nos espaço para desenvolver outros caminhos de investigação como as
diferenças entre PS e PSD na escala esquerda-direita ou nas políticas públicas
desenvolvidas efetivamente quando no governo. Essas são perspetivas de
investigação que pretendemos desenvolver no futuro.